O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 21 de 30

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O Homem Invisível

Capítulo XX

 

Na casa de Great Portland Street

 

Por um instante Kemp ficou sentado em silêncio, olhando para o vulto à janela, que novamente lhe dera as

costas. Então, com um sobressalto, ergueu-se, pegou no braço do Homem Invisível e o afastou da janela.

— Você está cansado — disse —, e eu fico sentado enquanto você fica de pé! Sente-se aqui, vamos.

E colocou-se entre Griffin e a janela.

Durante algum tempo Griffin manteve-se em silêncio, mas logo retomou sua narrativa.

— Eu já não estudava mais em Chesilstowe quando aconteceu — disse ele. — Foi no mês de

dezembro passado. Eu tinha alugado um quarto em Londres, um quarto enorme, sem mobília, numa

miserável casa de cômodos perto de Great Portland Street. Logo enchi esse quarto com os equipamentos

comprados com esse dinheiro. Meu trabalho progrediu de maneira constante, promissora, encaminhando-se

para sua conclusão. Eu me sentia como um homem que emerge de um arvoredo espesso e se depara com

uma tragédia sem sentido. De repente, tive que voltar lá, a fim de sepultar meu pai. Minha mente estava

totalmente concentrada em minhas pesquisas, e não ergui um dedo para defender sua reputação. Lembro-

me do funeral, do caixão barato, da cerimônia feita às pressas, a colina açoitada pelo vento gélido, e o velho

amigo de meu pai que presidiu ao serviço fúnebre — um homenzinho curvado, malvestido, e com um

resfriado, assoando-se de modo lamuriento.

“Lembro-me de ter voltado a pé para a casa agora vazia, através do que fora um dia um vilarejo e

agora estava sendo botado abaixo para dar lugar a uma cidade horrenda, construída às pressas. As estradas

que se estendiam em todas as direções iam dar em campos arruinados, cheios de montes de entulho e de

arbustos apodrecidos. Lembro-me de ter visto a mim mesmo como uma silhueta escura e esquálida,

caminhando sobre o pavimento úmido, escorregadio, e da estranha sensação de distanciamento que sentia

em relação ao sórdido comercialismo e respeitabilidade daquele lugar.

“Não estava nem um pouco triste com o que acontecera a meu pai. Ele me parecia apenas a vítima

do seu próprio sentimentalismo. As formalidades exigiam minha presença no funeral, mas aquilo não tinha

nada a ver comigo.

“Caminhando por High Street, no entanto, minha vida de antigamente me veio à memória por

alguns instantes, porque encontrei uma garota que eu conhecia havia dez anos, e nossos olhares se cruzaram.

Algo me fez dar meia-volta e dirigir-lhe a palavra. Ela era uma pessoa comum, ordinária.

“Tudo parecia um sonho, aquela visita aos velhos lugares da minha infância. Eu não me sentia

sozinho, não tinha a impressão de que viera do mundo para visitar um lugar desolado. Percebi minha falta

de identificação com aquilo, mas a atribuí à futilidade generalizada do que existia ali. Quando retornei ao

meu quarto-laboratório, foi como se tivesse voltado à vida real. Ali, sim, estavam as coisas que eu conhecia e

amava. Ali estavam os meus aparelhos, minhas experiências já encaminhadas e à minha espera. E agora a

única dificuldade que eu tinha pela frente era planejar de forma adequada meus próximos passos.

“Mais cedo ou mais tarde eu lhe descreverei, Kemp, todas as etapas que tive de cumprir. Não

precisamos entrar nesses detalhes agora. A maior parte dessas informações, com exceção de algumas que confiei à memória, está escrita em código nos três livros de notas que aquele vagabundo escondeu. Temos

de achar esse sujeito e precisamos pôr as mãos nesses livros, de qualquer maneira. Mas a fase mais importante

consistiu em colocar o objeto transparente, cujo índice de refração deveria ser reduzido, entre dois centros

irradiadores de uma espécie de vibração etérea, a respeito da qual eu lhe darei mais dados depois. Não, não

se trata de raios Roentgen9 — não creio que os que utilizei já tenham sido descritos. E no entanto são

bastante óbvios. Eu precisava de dois pequenos dínamos, que pus para funcionar através de um motor a gás

barato. Minha primeira experiência foi com um pedaço de tecido branco, de algodão. Foi a coisa mais

estranha do mundo, vê-lo iluminado pelas luzes brancas que piscavam, e aos poucos se desvanecendo como

fumaça, até desaparecer por completo.

“Eu mal podia acreditar que conseguira. Tateei com a mão aquele espaço vazio, e a coisa estava ali,

sólida como sempre. Segurei-o entre os dedos, meio sem jeito, e depois atirei-o de volta ao chão. Depois,

tive alguma dificuldade para encontrá-lo.

“E então ocorreu uma experiência curiosa. Ouvi um miado às minhas costas e, virando-me, avistei

um gato magro e branco, bastante sujo, em cima da tampa da cisterna próxima à minha janela. Uma ideia

me ocorreu. ‘Está tudo esperando somente por você’, falei, indo até a janela, abrindo-a e atraindo o gato

para dentro. Ele entrou, ronronando... O pobre bicho estava faminto. Dei-lhe um pouco de leite. Toda a

comida que eu tinha estava num armário no canto do quarto. Depois disso, ele andou pelo aposento,

farejando, com a clara intenção de se abancar por lá. O pano invisível o inquietou um pouco; devia ver

como ele se assustou e bufou ao dar com aquilo! Mas eu consegui acomodá-lo no travesseiro de minha cama

sobre rodinhas e dei-lhe um pouco de manteiga para que lambesse as patas e se sentisse em casa.

— E depois o submeteu ao processo?

— Sim, foi o que fiz. Mas não é fácil obrigar um gato a ingerir um preparado, Kemp. E o processo

acabou fracassando.

— Fracassou?!

— Em dois aspectos. As garras e aquela camada pigmentada, como se chama mesmo? No fundo dos

olhos dos gatos. Sabe do que falo?

— Tapetum.

— Isso, o tapetum. Não desapareceu. Depois que o fiz beber a droga que descolore o sangue e tomei

outras providências, dei-lhe um pouco de ópio e o pus para dormir no travesseiro a que já tinha se

acostumado, e o coloquei no aparelho. Quando todo o resto tornou-se indistinto e por fim desapareceu,

aquelas duas manchas fantasmagóricas dos seus olhos continuaram ali.

— Estranho.

— Não sei como explicar. O gato estava enfaixado e amarrado, é claro, para sua própria segurança;

mas acordou quando estava ainda semivisível, e miou de maneira tão lamentosa que alguém veio bater à

minha porta. Era uma velha que morava no andar de baixo e que desconfiou que eu estivesse dissecando

vivo algum animal. Uma velha beberrona, cuja única companhia na vida era aquele gato branco. Apliquei

um pouco de clorofórmio ao bicho e fui atender à porta. “Não havia aqui um gato miando?”, disse ela, “o

meu gato?”. Respondi educadamente que não. Ela continuou em dúvida e o tempo todo espiava para

dentro do meu quarto, que aos seus olhos devia ser um ambiente mais do que estranho, com paredes nuas,

janelas sem cortinas, cama sobre rodinhas, o motor a gás trabalhando, além daquela rede de pontos

brilhantes e o vago cheiro de clorofórmio no ar. Por fim ela pareceu satisfeita e retirou-se.

— Quanto tempo demorou para que ele se tornasse invisível?

— Três ou quatro horas para o gato inteiro. Ossos, tendões e os tecidos gordurosos foram as últimas

coisas a desaparecer, juntamente com as extremidades dos pelos coloridos. E, como já falei, aquela parte de

trás dos olhos, um tecido espesso, iridescente, não sumiu de jeito nenhum.

“Já era noite lá fora quando tudo acabou, e do animal não se avistava nada mais senão o fundo dos

olhos e as garras. Desliguei o motor e acariciei o bicho, ainda desacordado. Depois, como me sentia exausto,

deixei-o dormindo sobre o travesseiro invisível e me deitei na cama. Tive dificuldade para adormecer. Fiquei

acordado por longo tempo, pensando em coisas desconexas, repassando mentalmente a experiência vezes

sem conta, ou tendo breves sonhos em que as coisas se tornavam transparentes e desapareciam à minha

volta, até que tudo, inclusive o chão sob os meus pés, também desaparecia, e eu sentia aquela sensação de

estar caindo, tão comum nos pesadelos. Por volta das duas da madrugada o gato recomeçou a miar. Tentei

falar com ele, acalmá-lo, depois decidi fazer com que fosse embora. Lembro-me do choque que

experimentei quando acendi a luz e vi diante de mim aqueles dois círculos verdes e brilhantes, sem nada à

sua volta. Eu teria lhe dado algo para beber, mas o leite havia acabado. O gato não sossegava, ficava parado

junto da porta miando sem parar. Tentei agarrá-lo, pensando em fazer com que saísse pela janela, mas ele

me escapulia por entre as mãos e logo estava miando em outro ponto do quarto. Por fim, abri a janela e fiz

barulho para espantá-lo. Acho que acabou saindo. Nunca mais o vi.

“Nesse momento, sabe Deus por que motivo, pus-me a pensar no funeral do meu pai, e naquela

colina varrida por ventos frios, até o dia amanhecer. Percebi que não adiantava tentar dormir e, trancando a

porta, fui andar pelas ruas.”

— Quer dizer que existe por aí um gato invisível à solta? — perguntou Kemp.

— Se não foi morto, sim. Por que não?

— Por que não? — repetiu Kemp. — Continue, não quis interrompê-lo.

— Provavelmente já está morto — disse o Homem Invisível. — Tudo que sei é que quatro dias

depois estava vivo, disso tenho certeza, porque ao passar por um gradil em Titchfield Street, vi um grupo de

pessoas ali paradas, ouvindo um miado e sem saber de onde vinha.

Ele ficou pensativo durante cerca de um minuto e depois retomou sua narrativa.

— Recordo de maneira muito vívida aquela manhã antes da minha transformação. Creio que

caminhei ao longo de Portland Street. Lembro-me das barracas em Albany Street, e da passagem de

soldados da cavalaria; por fim, subi até o alto de Primrose Hill. Era um dia de sol de janeiro, um daqueles

dias que tivemos este ano em que sol e geada se misturavam antes de começar a nevar. Minha mente cansada

tentava definir uma posição e traçar um plano de ação.

“Fiquei surpreso ao constatar, agora que o triunfo estava ao meu alcance, o quanto tudo aquilo me

era insatisfatório. A verdade é que eu estava exausto. O estresse de quase quatro anos de trabalho

ininterrupto me deixara meio que insensível. Eu me sentia apático, e tentava em vão recobrar o entusiasmo

de minhas primeiras investigações e a paixão da descoberta, que me tinham permitido minimizar até mesmo

a vergonha que se abatera sobre os cabelos brancos do meu pai. Nada parecia ter importância. Eu sabia que

aquilo era uma fase passageira, resultado do excesso de trabalho e falta de sono, e que fosse através do

repouso, fosse através de drogas, eu seria capaz de recuperar as minhas energias.

“A única coisa clara em minha mente era que aquilo tinha de ser executado até o fim; esta ideia fixa

me dominava. E quanto mais cedo melhor, porque o meu dinheiro estava a ponto de acabar. Sentado na

encosta da colina, olhei as crianças que brincavam, as moças que cuidavam delas, e pensei nas incríveis

vantagens que um homem invisível poderia ter em nosso mundo. Depois de algum tempo arrastei-me de

volta para casa, fiz uma refeição rápida e tomei uma dose de estricnina como estimulante,10 e me deitei para

dormir na cama ainda desarrumada. A estricnina é um grande tônico, Kemp, para nos encher de energia.”

— É o demônio — disse Kemp. — É a Era Paleolítica engarrafada.

— Acordei cheio de vigor e um tanto irritadiço. Entende o que digo?

— Sei como isso funciona.

— Alguém estava batendo à minha porta: era o senhorio, com ameaças e interrogatórios. Um velho judeu polonês enfiado num longo casaco cinza e chinelas ensebadas. Dizia ter certeza de que eu passara a

noite torturando um gato. É claro que a língua daquela velha tinha trabalhado com eficiência. Ele queria a

todo custo esclarecer o assunto. Falava que as leis deste país sobre a vivissecção de animais são muito severas,

e que ele poderia ser acusado de cumplicidade. Neguei tudo a respeito do gato. Ele se queixou então de que

a vibração do meu pequeno motor a gás podia ser sentida na casa inteira. O que era verdade. Ele se

esgueirou para dentro do meu quarto, examinando tudo por cima dos seus óculos de prata alemã, e tive o

receio súbito de que ele fosse capaz de perceber algo do meu segredo. Tentei manter-me o tempo todo entre

ele e o meu aparelho, o que serviu apenas para deixá-lo mais curioso. O que eu estava fazendo ali? Por que

estava sempre sozinho e cheio de segredos? Aquilo era legal? Era perigoso? Eu pagava apenas o aluguel

básico. A casa dele sempre fora uma casa respeitável, num quarteirão de má fama. E então meu

temperamento agressivo explodiu. Mandei que saísse dali imediatamente. Ele esboçou um protesto, falando

que tinha o direito de examinar os quartos, mas num instante eu o agarrei pelo colarinho, que se rasgou, e o

joguei pela porta afora, fazendo-o cair no corredor. Bati a porta, tranquei-a por dentro e me sentei,

tremendo dos pés à cabeça.

“Ele fez um alarido tremendo do lado de fora, mas não tomei conhecimento, e depois de algum

tempo ele se foi.

“Isso, no entanto, conduziu a minha situação a um ponto crítico. Eu não sabia o que ele era capaz

de fazer, ou o que tinha autoridade para fazer. Mudar-me para outro apartamento implicaria um atraso em

meu trabalho; além do mais, do meu dinheiro restavam apenas cerca de vinte libras, a maior parte delas no

banco, e eu não podia me dar ao luxo dessa despesa extra. Fugir dali era uma ideia tentadora, mas eu sabia

que haveria um inquérito, talvez um saque aos meus pertences.

“Só em pensar que meu trabalho poderia ser publicamente exposto ou interrompido logo agora,

quando me aproximava do seu ponto culminante, fiquei furioso e entrei em ação. Saí com meus três livros

de anotações e meu talão de cheques (os quais estão agora nas mãos do vagabundo) e os remeti pelo correio

para uma posta-restante em Great Portland Street. Ao sair, procurei passar despercebido. Quando voltei, dei

com meu senhorio subindo as escadas rumo ao meu quarto; talvez tivesse me ouvido fechar a porta. Você

riria se visse o pulo assustado que ele deu quando me viu surgir às suas costas. Encarou-me agressivamente

quando passei por ele, mas não lhe dei atenção e ao entrar bati a porta com força bastante para fazer

estremecer a casa. Ouvi seus passos que vinham até a minha porta, hesitavam, e depois iam embora.

Comecei logo meus preparativos.

“Naquela noite, tudo se resolveu. Houve um momento em que eu estava sentado, ainda sob o efeito

nauseante e meio narcótico da droga que descoloria o sangue, e escutei batidas à minha porta. As batidas

cessaram, os passos se afastaram, voltaram depois, houve novas batidas. Houve uma tentativa para empurrar

algo por baixo da porta, um papel azul. Num acesso de irritação, eu me levantei e escancarei a porta,

exclamando: ‘O que diabos querem agora?’

“Era o senhorio, trazendo um aviso de despejo ou algo assim. Ele me estendeu o papel, mas pareceu

notar algo estranho nas minhas mãos, e ergueu os olhos para o meu rosto.

“Por um momento ficou boquiaberto. Então soltou um grito inarticulado, soltou o papel e a vela

que conduzia, e saiu aos trambolhões escada abaixo. Fechei a porta, tranquei-a por dentro e fui ao espelho.

Então entendi seu terror. Meu rosto estava branco como o mármore.

“Foi terrível. Não tinha esperado tanto sofrimento. Uma noite de angústia dilacerante, de náuseas e

desmaios. Eu cerrava os dentes, sentindo minha pele em fogo, meu corpo inteiro em fogo; mas fiquei

deitado como um morto. Agora eu entendia por que o gato miara tanto antes que eu lhe desse o

clorofórmio. Eu tive sorte de morar sozinho, sem nenhuma companhia. Houve momentos em que tudo

que pude fazer foi soluçar, e gemer, e falar em voz baixa... Mas me mantive firme, até que fui tomado pela insensibilidade e quando acordei estava na escuridão.

“A dor tinha passado. Achei que ia morrer e não liguei para nada. Nunca esquecerei aquele

amanhecer, e o horror de ver que minhas mãos pareciam feitas de um gás nebuloso, e de ver que iam se

tornando mais claras e mais translúcidas com o passar das horas, até que fui capaz de enxergar através delas o

meu quarto em desordem, mesmo fechando minhas pálpebras. Meus membros se tornaram vítreos, os ossos

e as artérias se tornaram indistintos e desapareceram, e a última coisa a sumir foram os nervos

esbranquiçados. Rangi os dentes e suportei aquilo até o fim, até que a única coisa visível em meu corpo

fossem as pontas das unhas, pálidas e brancas, e a mancha marrom que um ácido deixara em meus dedos.

“Pus-me de pé. A princípio, estava tão incapaz de andar quanto um recém-nascido, tendo de me

apoiar em membros que não enxergava. Fui até o espelho em que me barbeava e encarei ali o nada; nada, a

não ser por uma tênue pigmentação que ainda restava por trás das minhas retinas,11 algo mais rarefeito do

que uma neblina. Tive de me apoiar na mesa e pressionar minha testa contra o vidro, para me convencer.

Foi só com muito esforço que me dirigi até o aparelho para completar o processo.

“Dormi a manhã inteira, puxando o lençol sobre meus olhos para tapar a luz, e ao meio-dia fui

novamente despertado por batidas na porta. A essa altura eu já tinha recobrado as forças. Sentei-me e fiquei

à escuta; ouvi alguém cochichando do lado de fora. Levantei-me, o mais silenciosamente que pude, e

comecei a desconectar meu aparelho, soltando as peças e espalhando-as pelo quarto, para não dar pistas

sobre sua função. Mais tarde as pancadas à porta recomeçaram, junto com vozes que chamavam, primeiro a

do senhorio, e depois outras duas. Para ganhar tempo, respondi. Enquanto isso, consegui localizar o pedaço

de pano e o travesseiro invisíveis, e os joguei pela janela, em cima da cisterna. No momento em que abria a

janela, ouvi o estrondo de pessoas jogando-se de encontro à porta para arrombá-la, mas os fortes parafusos

que eu tinha colocado dias antes a mantiveram no lugar. Aquela violência me irritou, e eu comecei a tremer

e a fazer tudo às pressas.

“Amontoei no meio do quarto uma porção de folhas de papel, palha, papel de embrulho; e liguei o

gás. Os murros na porta eram cada vez mais fortes, e eu não conseguia encontrar os fósforos. Dei socos na

parede de tanta raiva. Voltei a fechar a torneira do gás, saí pela janela para cima da tampa da cisterna e

encostei a janela com cuidado. Fiquei ali, invisível e em segurança, mas trêmulo de raiva, para ver o que

acontecia. Eles acabaram arrebentando um painel da porta, e logo em seguida abriram os ferrolhos e

entraram. Era o senhorio acompanhado de seus dois enteados, dois rapazes robustos de vinte e poucos anos.

Por trás deles, avistei a velha bruxa do andar de baixo.

“Pode imaginar o espanto deles ao verem o quarto vazio. Um dos rapazes correu imediatamente

para a janela, abriu-a e olhou para fora. Seu rosto barbudo, de olhos arregalados e lábios grossos, ficou a

poucos centímetros do meu. Tive um impulso de dar uma bofetada naquela cara de imbecil, mas me

contive. Ele olhou bem através de mim, e os outros fizeram o mesmo quando vieram à janela. O velho

olhou embaixo da cama, e depois todos foram na direção do armário. Discutiam o tempo inteiro em iídiche

e em inglês cockney. Acabaram concluindo que eu não lhes respondera, tinha sido um engano. Um

sentimento próximo da euforia tomou conta de mim, dissipando minha fúria, enquanto eu fiquei do lado

de fora da janela observando aquelas quatro pessoas, porque a velha bruxa se juntou a eles, espiando em

todos os recantos, como um gato, tentando entender meu comportamento estranho.

“O velho, na medida em que eu conseguia entender algo de sua algaravia, concordava com a velha

— eu devia ser um vivisseccionista. Os filhos, no seu inglês estropiado, discordavam, achando que eu seria

uma espécie de eletricista, e mostravam como provas os dínamos e radiadores. Todos estavam nervosos

imaginando que eu chegaria a qualquer momento, embora depois eu viesse a descobrir que tinham trancado

a porta da frente da casa. A velha espiou no armário, espiou embaixo da cama, e um dos rapazes chegou a

afastar a grade e olhar para dentro da chaminé. Outro inquilino, um vendedor de maçãs que dividia com um açougueiro o quarto em frente ao meu, apareceu no umbral, foi chamado a entrar e começou a dizer

coisas incoerentes.

“Ocorreu-me que aqueles radiadores, se caíssem nas mãos de um indivíduo educado e arguto,

poderiam dar pistas sobre a minha atividade. Quando a chance se apresentou, pulei para dentro do quarto,

derrubei um dos pequenos dínamos, que estava pousado sobre o outro, e comecei a espatifar ambos.

Enquanto eles, perplexos, tentavam entender o que tinha acontecido, esquivei-me deles, saí do quarto e

desci para o andar térreo.

“Fui para uma sala no andar de baixo e esperei até que eles descessem, ainda discutindo e tecendo

especulações, todos um tanto desapontados por não terem encontrado nenhuma cena de horror, e também

um tanto indecisos sobre a legalidade do que tinham acabado de fazer. Então escapei de novo, dessa vez

conduzindo uma caixa de fósforos, subi, ateei fogo ao monte de lixo que tinha preparado, coloquei o

colchão e as cadeiras em cima das chamas, liguei a torneira do gás e apliquei a ela um tubo de borracha, cuja

ponta aproximei do fogo. Despedindo-me daquele quarto, saí dali pela última vez.”

— Você incendiou a casa! — exclamou Kemp.

— Incendiei. Era a única maneira de destruir as pistas, e além do mais não duvido que estivesse no

seguro. Abri os ferrolhos da porta da frente e saí para a rua. Eu era invisível e estava apenas começando a

perceber a extraordinária vantagem da minha condição. Minha cabeça fervilhava de planos sobre as coisas

mais ousadas e excitantes que eu agora poderia fazer impunemente.