O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 14 de 30

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O Homem Invisível

Capítulo XIII

 

O sr. Marvel pede demissão

 

Quando escurecia e Iping começava timidamente a fazer um balanço dos estragos produzidos em sua festa,

um homem baixinho, corpulento, com chapéu de seda, marchava a passos fatigados, à luz do crepúsculo, ao

longo das tílias que flanqueavam a estrada para Bramblehurst. Levava em baixo do braço três livros atados

entre si por uma dessas ligas elásticas usadas pelos clérigos para prender as meias, e uma trouxa de objetos

amarrada com um vigoroso nó em uma toalha de mesa azul. Seu rosto rubicundo era a própria imagem da

consternação e do cansaço, e ele parecia acometido por surtos espasmódicos de pressa. Sua única companhia

era uma voz, que não era a sua, e de vez em quando ele parecia encolher-se sob o toque de mãos invisíveis.

— Se fugir de novo — disse a Voz —, se pelo menos tentar fugir...

— Ai! — exclamou o sr. Marvel. — Meu ombro já está muito machucado.

— ...dou-lhe a minha palavra que o mato — concluiu a Voz.

— Eu não tentei fugir — choramingou o sr. Marvel, à beira das lágrimas. — Juro que não. Eu não

sabia que era para virar ali! Como diabo eu podia adivinhar? Não precisava me bater daquele jeito.

— Vai apanhar muito mais se não me der ouvidos — disse a Voz, e o sr. Marvel calou-se.

Continuou bufando enquanto caminhava, e seus olhos eram puro desespero.

— Já me basta ver aqueles imbecis descobrindo meu segredo, não preciso ainda por cima ver você

tentando fugir com os meus livros. Eles têm muita sorte de terem podido fugir. Agora estou aqui...

Ninguém sabia que eu era invisível! O que vou fazer agora?

— O que eu vou fazer? — perguntou-se o sr. Marvel em voz baixa.

— Todo mundo já sabe! Vai aparecer nos jornais! Vão sair todos à minha procura, vão ficar todos

em guarda... — A Voz proferiu mais algumas imprecações e depois calou-se.

O desespero no rosto do sr. Marvel pareceu aumentar, e ele diminuiu o passo.

— Continue! — ordenou a Voz.

O rosto do sr. Marvel assumiu um tom acinzentado nos trechos em que a pele estava limpa.

— Não largue os livros, estúpido! — disse a Voz com irritação, assustando-o. E prosseguiu: — A

verdade é que vou ter de usá-lo. Preciso de um instrumento, mesmo um instrumento limitado como você.

— Um instrumento miserável — lamentou-se Marvel.

— É mesmo — disse a Voz.

— O pior instrumento que poderia lhe aparecer — continuou ele. Seguiu-se um silêncio pouco

encorajador, mas ele insistiu: — Não sou um homem forte. — E repetiu: — Não sou forte e sofro do

coração. Aquela confusão toda, embora eu tenha conseguido me safar... mas eu poderia cair morto ali

mesmo.

— E daí?

— Eu não tenho nem coragem nem resistência para fazer as coisas que você quer que eu faça.

— Eu lhe darei algum estímulo.

— Preferia que não! Não quero atrapalhar sua vida, já lhe disse. Mas posso acabar atrapalhando, só pela minha fraqueza e incompetência.

— É melhor que não o faça — disse a Voz, com uma ênfase bastante clara.

— Preferiria estar morto — disse o sr. Marvel. — Não é justo, sabe? Tem que admitir... Eu tenho

todo o direito de..

— Caminhe! — disse a Voz.

O sr. Marvel acelerou o passo, e durante algum tempo os dois caminharam em silêncio.

— É duro como o diabo — recomeçou ele. Como não obteve resposta, tentou por outro ângulo.

— O que vou ganhar com isso? — perguntou, com voz sofrida.

— Ora, cale a boca — disse a Voz, com violência súbita. — Eu cuido de você. Faça o que eu lhe

digo, apenas isso. Faça tudo direito. Você pode ser um idiota, mas mesmo assim...

— Mas, senhor, eu não sou homem para isso. Com todo o respeito, mas é assim...

— Se não se calar torço seu pulso outra vez — disse o Homem Invisível. — Cale-se! Preciso pensar.

Dentro de mais algum tempo, manchas de luz amarela surgiram por entre o arvoredo, e em seguida

avistou-se a torre quadrada de um campanário.

— Vou ficar com a mão no seu ombro — avisou a Voz — enquanto atravessarmos essa vila. Siga

sempre em frente e não tente nenhum truque. Vai ser pior, se fizer bobagem.

— Sei disso — suspirou o sr. Marvel. — Sei muito bem.

E uma figura de aparência infeliz, usando um obsoleto chapéu de seda, cruzou a rua principal da

vila carregando sua trouxa de roupas, e desapareceu por entre a escuridão crescente, depois das luzes das

derradeiras janelas.