O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 20 de 30

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O Homem Invisível

Capítulo XIX

 

Alguns princípios básicos

 

— O que está havendo? — perguntou Kemp, ao entrar no quarto.

— Nada — foi a resposta.

— Ora, o que é isso?! E esse barulho?

— Tive um acesso de raiva — disse o Homem Invisível. — Esqueci que estava ferido, e o pulso me

incomodou.

— Você parece muito sujeito a esse tipo de coisa.

— Sou mesmo.

Kemp cruzou o quarto e recolheu os pedaços da bacia de vidro.

— Os fatos a seu respeito estão em todos os jornais — disse ele, erguendo-se com os cacos de vidro

nas mãos. — Tudo que aconteceu em Iping, e também aqui, lá embaixo da colina. O mundo já tomou

conhecimento de que há um cidadão invisível. Mas ninguém sabe que você está aqui.

O Homem Invisível soltou uma praga.

— Seu segredo vazou — continuou Kemp. — Imagino que se tratava de um segredo. Não sei quais

são os seus planos, mas é claro que estou disposto a ajudá-lo.

O Homem Invisível sentou-se na cama. Kemp prosseguiu:

— Mandei servir um café da manhã no andar de cima.

Viu com satisfação que seu estranho convidado levantou-se cheio de disposição e conduziu-o para a

escada estreita que dava acesso ao belvedere.

— Antes de mais nada — disse o doutor —, preciso entender melhor essa questão da sua

invisibilidade.

Ele tinha se sentado, depois de lançar um olhar inquieto para fora da janela, com a atitude de um

homem que se prepara para uma longa conversa. Suas dúvidas sobre a própria sanidade mental sumiam e

voltavam alternadamente, enquanto ele observava Griffin do outro lado da mesa — um roupão sem cabeça

e sem mãos, limpando lábios invisíveis com um guardanapo solto no ar.

— É algo muito simples e nem um pouco incrível — disse Griffin, pousando o guardanapo e

apoiando a cabeça invisível na mão invisível.

— Para você é claro que sim, mas... — e Kemp soltou uma risada.

— Ah, é claro. Para mim foi de início algo maravilhoso, sem dúvida. Mas agora... meu Deus! Mas

há grandes coisas que iremos realizar juntos. Tudo começou em Chesilstowe.

— Chesilstowe?

— Fui para lá depois que saí de Londres. Você chegou a saber que eu troquei a Medicina pela Física?

Não? Bem, foi o que fiz. A luz era o que me fascinava.

— Ah...

— A densidade ótica! Todo este assunto é uma rede de enigmas, mas através dos interstícios as

soluções brilham, ainda que de modo fugidio. Eu tinha vinte e dois anos e estava cheio de entusiasmo, de modo que disse para mim mesmo: “Vou dedicar minha vida a este estudo, porque vale a pena.” Sabe como

somos bobos aos vinte e dois anos, não sabe?

— Tanto nessa idade quanto agora — disse Kemp.

— Como se saber mais trouxesse algum tipo de satisfação a um homem! — exclamou Griffin. —

Em todo caso, pus-me a trabalhar como um escravo. E não fazia seis meses que me dedicava àquilo quando

a luz brilhou por entre os fios cerrados daquela rede, e brilhou de maneira cegante. Descobri um princípio

geral relacionando pigmentos e refração, uma fórmula, uma expressão geométrica envolvendo quatro

dimensões. Os ignorantes, as pessoas comuns, e mesmo alguns matemáticos de pouca estatura não

imaginam o quanto uma expressão geral pode significar para quem estuda a física molecular. Nos meus

livros de notas, esses livros que o vagabundo escondeu, existem maravilhas, milagres! Mas não se trata de um

método, e sim de uma ideia, que poderia resultar num método pelo qual seria possível, sem alteração em

qualquer outra propriedade da matéria, exceto as cores, em alguns casos, seria possível reduzir o grau de

refração de uma substância sólida ou líquida até deixá-lo igual ao do ar, no que diz respeito a qualquer

aspecto prático.

— Puxa! — exclamou Kemp. — É fantástico! Mas ainda não percebo como... Entendo que desse

modo seja possível tornar transparente uma pedra preciosa, mas daí a tornar invisível uma pessoa viva vai

uma grande distância.

— Justamente — disse Griffin. — Mas considere que a visibilidade de um corpo depende de sua

ação em relação à luz. Um corpo pode absorver a luz, pode refleti-la, pode refratá-la, ou pode fazer uma

combinação dessas três coisas. Se não faz nenhuma das três, ele não é visível. Você enxerga uma caixa

vermelha e opaca, por exemplo, porque a cor absorve uma parte da luz e reflete o resto, toda a frequência

vermelha da luz, na sua direção. Se ela não absorvesse nenhuma parte da luz, mas refletisse a luz inteira, ela

seria vista como uma caixa de um branco brilhante. Prateada! Uma caixa feita de diamante nem absorveria

muita luz nem a refletiria muito com sua superfície externa, mas, aqui e ali, onde as superfícies fossem

favoráveis, a luz seria refletida e refratada, e você teria a impressão visual de uma série de brilhos, reflexos e

translucências, algo como um esqueleto feito de luz. Já uma caixa feita de vidro não seria tão brilhante e não

seria tão claramente visível quanto uma caixa de diamante, porque haveria menos refração e menos reflexão.

“Percebe, Kemp? De alguns ângulos você seria capaz de enxergar perfeitamente através dela. Alguns

tipos de vidro poderiam ser vistos com mais clareza do que outros; uma caixa de cristal seria mais brilhante

do que uma caixa feita do vidro comum das vidraças. Uma caixa de vidro comum mas muito fino seria

difícil de ver com pouca luz, porque ele mal absorveria uma parte dela e iria refletir e refratar muito pouco.

E se você mergulhar uma lâmina de vidro comum dentro d’água, e ainda mais se o fizer num líquido mais

denso do que a água, ele irá sumir quase completamente, porque a luz que passa da água para o vidro será

refletida ou refratada muito pouco, se é que será afetada de alguma forma. Ficaria tão invisível quanto um

jato de gás ou de hidrogênio o é em pleno ar. E precisamente pelos mesmos motivos.”

— Concordo — disse Kemp. — Até aqui navegamos em águas tranquilas.

— E há outro fato que você sabe que é verdade. Se uma lâmina de vidro for quebrada e pulverizada,

Kemp, ela se torna muito mais visível enquanto estiver no ar; torna-se uma espécie de pó branco e opaco.

Isso porque essa pulverização multiplica as superfícies do vidro onde ocorrem tanto a reflexão quanto a

refração. Na lâmina de vidro há apenas duas superfícies; no pó, a luz é refletida ou refratada por cada um

dos grãos que atravessa, e muito pouco dela passa diretamente através do pó. Mas se esse pó de vidro,

esbranquiçado, for despejado na água, ele desaparece imediatamente. O vidro em pó e a água têm índices de

refração quase idênticos, ou seja, a luz se refrata ou se reflete muito pouco quando passa de um para o outro.

“Tornamos o vidro invisível colocando-o num líquido com o mesmo índice de refração; qualquer

coisa transparente torna-se invisível se for colocada num meio que tenha aproximadamente o mesmo índice de refração. E se você pensar nisso por um segundo verá também que o próprio vidro em pó poderia

desaparecer no ar se o seu índice de refração pudesse se tornar o mesmo do ar, porque nesse caso não haveria

refração ou reflexão quando a luz passasse do vidro para o ar.”

— Sim, sim — disse Kemp. — Mas um homem não é feito de vidro em pó.

— Não — disse Griffin. — É mais transparente do que isso.

— Absurdo.

— E é um médico que está dizendo isso! Como pode ter esquecido? Esqueceu nestes dez anos toda a

física que estudou? Pense em todas as coisas que são transparentes mas não parecem sê-lo. O papel, por

exemplo, é feito de fibras transparentes, e é branco e opaco pela mesma razão que torna o vidro em pó

branco e opaco. Uma folha de papel embebida em óleo tem os interstícios entre as partículas embebidas de

líquido, de tal modo que não existe reflexão ou refração senão nas superfícies, e assim se torna transparente

como um vidro. E não somente o papel, mas o algodão, o linho, a lã, as fibras de madeira, e os ossos, Kemp,

e a carne, Kemp, e o cabelo, Kemp, e as unhas e os nervos, Kemp, na verdade todos os tecidos que

constituem um ser humano. Com exceção do pigmento vermelho de seu sangue e o pigmento escuro de

seus cabelos, tudo o mais é feito de tecidos transparentes e incolores. É o quanto basta para nos tornar

visíveis uns aos outros. Em sua maior parte, as fibras de uma criatura viva não são mais opacas do que a

água.

— Céus! — exclamou Kemp. — É claro, é claro! Eu estava ontem à noite me lembrando das larvas

aquáticas e das águas-vivas.

— Agora sim, você me entendeu! Todas essas coisas se agitavam na minha mente quando saí de

Londres há seis anos. Mas guardei tudo para mim mesmo. Tive de realizar meu trabalho nas condições mais

desvantajosas. Oliver, meu professor, era um oportunista científico, tinha instinto de jornalista, não de

homem de ciências. Um gatuno das ideias alheias, sempre a me espionar. E você sabe como é o injusto

sistema de créditos que vigora no mundo científico... Eu não iria publicar um trabalho em parceria e deixar

que ele recebesse todo o crédito. Continuei a trabalhar e fui chegando cada vez mais próximo do momento

de transformar minha fórmula numa experiência, numa realidade. Não contei nada a ninguém, porque

queria revelar minha obra ao mundo com um impacto esmagador, ficar famoso da noite para o dia.

Dediquei-me à questão dos pigmentos para poder preencher as lacunas que persistiam. E de repente, não

por método mas por acidente, fiz uma descoberta fisiológica.

— Foi mesmo?

— Sobre os pigmentos vermelhos do nosso sangue. É possível torná-los brancos, ou melhor,

incolores, sem que percam nenhuma das suas funções.

Kemp soltou uma exclamação de espanto. O Homem Invisível levantou-se e começou a andar no

pequeno escritório.

— Entendo que fique surpreso. Lembro-me muito bem daquela noite... Já era madrugada; durante

o dia eu era atrapalhado pelos meus estúpidos alunos. Eu costumava trabalhar até o amanhecer. A solução

brotou de súbito, esplêndida e completa, na minha mente. Eu estava sozinho; o laboratório estava deserto,

com os lampiões altos ardendo com um brilho intenso e silencioso. Em todos os meus grandes momentos

eu me encontrava a sós. “É possível tornar o tecido animal transparente! É possível torná-lo invisível! Tudo

exceto os pigmentos! Eu posso ser invisível!”, exclamei, percebendo de súbito o que significava esse

conhecimento para um albino como eu. Foi algo arrebatador. Larguei a experiência que estava fazendo, saí

da sala, fui até a janela e contemplei as estrelas. “Posso ser invisível!”, repeti.

“Realizar algo assim era transcender a própria magia. E eu tive ali a visão, sem a menor sombra de

dúvida, a visão magnífica do que a invisibilidade poderia significar para um homem: o mistério, o poder, a

liberdade. Desvantagens? Não vi nenhuma. Procure imaginar! Eu, um professorzinho limitado, pobre, dando aulas idiotas num colegiozinho de província, poderia de repente me tornar... isto. Responda-me,

Kemp, o que você, o que qualquer um faria no meu lugar. Teria mergulhado a fundo nessa pesquisa. E eu

trabalhei por mais três anos, e cada montanha de dificuldades que eu conseguia escalar me mostrava adiante

uma outra ainda maior. Que infinidade de detalhes! E a impaciência! E meu próprio professor, um

doutorzinho de província, sempre me espreitando. ‘Quando vai publicar essa sua pesquisa?’, perguntava ele

o tempo todo. E os estudantes! E a falta de recursos! Passei três anos nessa condição...

“E depois de três anos de segredo e de exasperação, constatei que me seria impossível completar o

meu trabalho, sim, impossível.”

— Por quê? — perguntou Kemp.

— Dinheiro — disse o Homem Invisível, e postou-se junto à janela, olhando para fora. Então

virou-se abruptamente. — Tive que roubar esse dinheiro do velho. Sim, roubei meu pai. O dinheiro não

lhe pertencia. Meu pai suicidou-se.