O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 3 de 30

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O Homem Invisível

Capítulo II

 

As primeiras impressões do sr. Teddy Henfrey

 

Por volta das quatro da tarde, quando já começava a escurecer e a sra. Hall criava coragem para ir perguntar

ao hóspede se ele queria um pouco de chá, entrou na hospedaria o sr. Teddy Henfrey, o relojoeiro local.

— Deus do céu, sra. Hall! — exclamou. — Que tempo terrível para quem calça botas leves! — Lá

fora a neve caía ainda mais forte.

A sra. Hall concordou e viu então que ele trazia consigo sua maleta.

— Já que está aqui, sr. Teddy — disse ela —, será que poderia dar uma olhada no relógio grande da

sala?... Ele trabalha bem e bate as horas sem erro, mas o ponteiro pequeno está parado no seis.

Ela o conduziu até a sala, bateu à porta e os dois entraram.

O novo hóspede (ela o viu assim que olhou para dentro) estava sentado na poltrona diante da

lareira, aparentemente cochilando, com a cabeça cheia de curativos inclinada para um lado. A única luz no

aposento era o brilho vermelho do fogo — que parecia transformar seus óculos em dois sinais de perigo

numa ferrovia, mas não chegava a iluminar o restante do rosto —, além dos últimos vestígios da luz do dia,

que entravam pela porta recém-aberta. Tudo era sombrio e indistinto, ainda mais aos olhos dela, que tinha

acabado de acender o lampião no bar; mas por um segundo pareceu-lhe que o homem para quem olhava

tinha uma enorme boca escura escancarada, uma bocarra negra que ocupava toda a metade inferior do seu

rosto. Foi apenas uma impressão momentânea: a cabeça toda enfaixada de branco, os óculos imensos, e

aquele abismo escancarado por baixo deles. Mas nesse instante o homem sobressaltou-se, sentou-se

empertigado na poltrona e levou a mão ao rosto. Ela abriu a porta por inteiro, para clarear melhor a sala, e

então pôde avistá-lo melhor, segurando o cachecol de encontro ao rosto, tal como fizera antes com o lenço.

Ora, pensou ela, foi apenas um efeito das sombras.

— Importa-se, senhor, se um cavalheiro entrar para dar uma olhada no relógio?... — perguntou ela,

já refeita daquele susto momentâneo.

— O relógio?... — disse ele, olhando em torno de si com ar sonolento, falando através da mão

erguida. E em seguida, já mais desperto: — Oh, certamente.

A sra. Hall saiu para buscar uma lâmpada enquanto o hóspede se erguia, espreguiçando-se todo. Por

fim chegou a luz; o sr. Teddy Henfrey, ao entrar na sala, deparou-se com aquela figura coberta de curativos,

e sua reação, como afirmou depois, foi de incredulidade.

— Boa tarde — disse o estranho, fitando-o (como disse o sr. Henfrey depois, referindo-se aos

óculos: “Como uma lagosta.”).

— Espero não estar incomodando — disse o sr. Henfrey.

— De modo algum — disse o estranho. — Embora eu ache que este aposento é para meu uso

pessoal.

— Eu pensei, senhor — disse ela —, que o senhor iria preferir que o relógio...

— Sim, sim — disse ele — mas de um modo geral, prefiro ficar sozinho, sem ser perturbado. —

Percebendo um certo retraimento na atitude do relojoeiro, completou: — Agradeço por providenciar o conserto do relógio, agradeço bastante.

O sr. Henfrey tinha pensado em pedir desculpas e retirar-se, mas ao ouvi-lo mudou de ideia. O

estranho postou-se então de costas para o fogo, as mãos às costas, e continuou:

— Quando o conserto do relógio estiver acabado, gostaria de um pouco de chá. Mas não antes

disso.

A sra. Hall estava para deixar o aposento — desta vez não fez qualquer tentativa de puxar conversa,

pois não queria ser esnobada diante do sr. Henfrey — quando o hóspede lhe perguntou se já tinha tomado

alguma providência para mandar buscar suas coisas em Bramblehurst. Ela respondeu que tinha conversado a

respeito disso com o carteiro, e que um portador se encarregaria de trazer a bagagem na manhã seguinte.

— Tem certeza de que não pode ser antes? — perguntou ele.

Sim, ela estava certa disso e o afirmou com certa frieza.

— Preciso explicar-lhe algo. Não o fiz antes por estar muito cansado e com frio quando cheguei. Eu

pratico investigações experimentais.

— É mesmo, senhor? — disse ela, bem impressionada.

— E minha bagagem contém uma porção de aparelhos e instrumentos.

— Devem ser coisas muito necessárias, senhor.

— E é claro que preciso retomar o meu trabalho tão cedo quanto possa.

— Claro, senhor.

— Minha razão para vir a Iping — continuou ele, acentuando bem as palavras — foi acima de tudo

um desejo de... solidão. Não quero ser perturbado durante meu trabalho. Além das minhas obrigações, tive

um acidente...

“Foi o que pensei”, disse ela consigo.

— E em vista disso preciso de certo recolhimento. Meus olhos, às vezes, ficam muito sensíveis, e

preciso ficar num aposento escuro por algumas horas. Trancado. É só de vez em quando... agora, por

exemplo, não é o caso. E nessas horas a menor perturbação, como por exemplo a entrada de uma pessoa

estranha no meu quarto, me incomoda dolorosamente. Gostaria que isso ficasse bem entendido.

— Sem dúvida, senhor — disse a sra. Hall. — E, se me permite dizer...

— Isso é tudo, creio — disse o estranho, com aquele seu tom capaz de encerrar qualquer discussão

quando lhe convinha. A sra. Hall teve que guardar suas simpatias e seus comentários para outra ocasião.

Depois que a sra. Hall deixou a sala, ele continuou em frente ao fogo, bem atento, conforme

relatou o sr. Henfrey, ao conserto do relógio. O relojoeiro retirou não apenas os ponteiros, mas o próprio

mostrador, e os mecanismos internos; e tentou proceder da maneira mais lenta e discreta possível.

Trabalhava com a lâmpada posta ao lado, e o anteparo verde projetava um círculo de luz sobre suas mãos e

as peças do relógio, deixando o resto da sala na penumbra. Quando ele erguia a vista, manchas esverdeadas

pareciam dançar diante dos seus olhos. Sendo por natureza um indivíduo curioso, tinha removido as

engrenagens do relógio — uma medida totalmente desnecessária — com o propósito de demorar-se ali um

pouco mais e talvez encetar uma conversa com o estranho. Mas o homem permanecia ali postado, imóvel e

sem produzir um som. Tão imóvel que aquilo começou a dar nos nervos do sr. Henfrey. Teve a impressão

de estar sozinho no aposento; mas quando ergueu a vista ali estava o vulto difuso com a cabeça enfaixada e

as grandes lentes coloridas fitando-o sem cessar, por entre uma miríade de reflexos verdes que flutuavam no

ar. Era uma visão tão estranha aos olhos de Henfrey que durante cerca de um minuto os dois se encararam

sem dizer palavra. Então o relojoeiro abaixou a vista. Que situação incômoda! Era melhor dizer alguma

coisa. Talvez comentar que o tempo estava frio demais para aquela época do ano?

Ergueu os olhos a fim de preparar sua primeira investida.

— Veja só, este tempo... — começou.

— Por que não termina logo e vai embora? — disse o homem, cuja postura rígida denunciava agora

sua condição da raiva reprimida. — Tudo que precisa fazer é fixar o ponteiro na haste. Está apenas

fingindo.

— Oh, claro, senhor, só mais um minuto. Não percebi...

O sr. Henfrey encerrou seu trabalho mais que depressa e sumiu dali. Mas não sem se sentir irritado.

— Dane-se! — murmurou consigo mesmo, enquanto descia pelo vilarejo por entre as rajadas de

neve. — Um relógio precisa de uma revisão de vez em quando! — E depois: — Qual o problema de se

olhar para alguém? Será feio por acaso? — E mais adiante: — Se fosse procurado pela polícia não estaria tão

bem disfarçado!

Na esquina da rua Gleeson ele avistou Hall, que casara havia pouco tempo com a proprietária do

Coach and Horses, e que agora conduzia o único coche de Iping, quando necessário, até Sidderbridge

Junction. Era justamente dessa direção que ele se aproximava agora, e, a julgar pelo modo errático de

dirigir, tinha feito algumas paradas ao longo do trajeto.

— Olá, Teddy! — disse ele de passagem.

— Você devia ir direto para casa! — gritou Teddy.

Hall puxou as rédeas sem se fazer de rogado.

— O que disse?

— Um freguês muito estranho acabou de se hospedar no Coach and Horses.

E passou a fazer para Hall uma vívida descrição do estranho hóspede.

— Dá para se pensar que é um disfarce, não é mesmo? Se um sujeito se hospedasse na minha casa,

eu iria querer olhar para a cara dele. Mas as mulheres, ah, as mulheres confiam em qualquer estranho. Ele

está instalado na sua casa e nem sequer disse como se chama, Hall.

— Não diga! — exclamou Hall, que era um indivíduo de compreensão um pouco lenta.

— Claro! Por uma semana. Seja ele quem for, você não vai se ver livre dele antes de uma semana. E

ele tem uma porção de bagagens para chegar amanhã, pelo que disse. Vamos torcer para que não sejam

malas cheias de pedras.

Passou a contar a Hall como sua tia em Hastings tinha sido enganada por um hóspede que chegou

com malas vazias, e acabou plantando a suspeita na mente do outro.

— Vamos, vamos! — gritou Hall, estalando as rédeas. — Preciso saber o que está se passando.

Teddy seguiu seu caminho, agora com a consciência razoavelmente tranquila.

Em vez de “saber o que estava se passando”, no entanto, Hall, logo ao entrar em casa, acabou

recebendo uma descompostura da esposa pelo tempo que tinha passado em Sidderbridge; suas tímidas

perguntas foram respondidas de maneira brusca e pouco elucidativa. Mas as suspeitas despertadas por Teddy

continuaram a prosperar na mente do sr. Hall. “Vocês, mulheres, pensam que sabem tudo”, murmurou ele,

decidido a descobrir o quanto pudesse a respeito do hóspede assim que se apresentasse uma oportunidade. E

depois que o estranho se deitou para dormir, por volta das nove e meia, o sr. Hall encaminhou-se com ar

decidido para a sala e examinou com rigor a mobília de sua esposa, só para mostrar quem mandava ali; por

fim apanhou e estudou com cuidado uma folha de cálculos matemáticos que o estranho tinha deixado à toa.

Quando foi se deitar, deu instruções à sra. Hall para que examinasse com o máximo cuidado a bagagem do

forasteiro, quando esta fosse entregue no dia seguinte.

— Cuide dos seus negócios, Hall — retrucou a esposa —, e eu cuido dos meus.

Estava ainda mais inclinada a tratar o marido com rispidez porque o estranho tinha um modo bem

peculiar de ser estranho, e ela ainda não tinha conseguido formar uma opinião muito clara a seu respeito.

No meio da noite, acordou assaltada por um pesadelo em que apareciam cabeças brancas como gigantescos

nabos, perseguindo-a, oscilando na extremidade de pescoços longuíssimos, e com grandes olhos negros. Mas ela era uma mulher sensata; deixou que o medo se dissipasse, virou-se para o outro lado e tornou a

adormecer.