O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 30 de 30

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O Homem Invisível

O Epílogo

 

E assim termina a história das façanhas extraordinárias e cruéis do Homem Invisível. Se algum de vocês

quiser saber mais a seu respeito, deve dirigir-se a uma pequena taverna perto de Port Stowe e falar com o

proprietário. A placa por sobre a porta dessa taverna tem a imagem de um chapéu sobre um par de botas, e

o nome dela é o título desta história. O proprietário é um homem pequeno, corpulento, com um nariz de

proporções cilíndricas, cabelos eriçados e um rosto que volta e meia se avermelha como púrpura. Bebe com

generosidade, e com a mesma generosidade poderá contar-lhe tudo que lhe aconteceu depois daquela época,

e de como os advogados tentaram arrancar das suas mãos a fortuna que encontraram em seu poder.

— Quando eles descobriram que não podiam dizer quem eram os donos daquele dinheiro, e

quanto era de cada um, foi minha sorte — vive ele a repetir. — Sabe o que fizeram? Disseram que eu tinha

encontrado um tesouro! Eu tenho cara de quem encontra tesouros?! E depois veio um cavalheiro que me

contratou a um guinéu por noite para contar minha história no Empire Music Hall, contar tudo, tintim

por tintim.

E se o ouvinte entediado quiser cortar de uma só vez o fluxo de suas reminiscências, basta

perguntar-lhe o que aconteceu com os três livros de notas tantas vezes mencionados nesta história. Ele

admite a existência de tais livros e o fato de que todos pensam que os livros ficaram em seu poder. Mas não

foi assim!

— O Homem Invisível os tomou de mim para escondê-los, quando fugi dele na direção de Port

Stowe. Foi o sr. Kemp que botou na cabeça das pessoas a ideia de que os livros ficaram comigo.

E então ele mergulha num estado pensativo, seu olhar se torna furtivo, ele mexe nervosamente nos

copos e acaba pedindo licença para se retirar.

É um homem solteiro; sempre teve hábitos de solteiro, e não há uma mulher na sua casa. Quando

sai de casa, suas roupas têm botões, pois é o que se espera de um cidadão como ele; mas na sua privacidade

dá preferência a suspensórios feitos de barbante. Toca seu negócio sem muita ousadia, mas com sobriedade.

Seus movimentos são vagarosos, e ele é um grande pensador. Tem reputação de sabedoria, de extraordinária

parcimônia nos gastos; e seu conhecimento das estradas do sul da Inglaterra supera o de viajantes como

Cobbett.

E nas manhãs de domingo, todas as manhãs de domingo do ano, quando seu estabelecimento fecha

para fregueses, ou então depois da dez da noite, ele se instala em sua sala de visitas com uma dose de gim

com água, coloca-a sobre uma mesa e passa a certificar-se de que as portas estão trancadas por dentro e todas

as persianas descidas; chega mesmo a espiar embaixo da mesa. Após constatar que está sozinho ele destranca

o armário, depois uma divisória interna, e abre uma gaveta no interior dessa divisória. Retira dali três

volumes encadernados em couro marrom, colocando-os solenemente sobre a mesa. As encadernações estão

manchadas com o verde das algas, porque houve um tempo em que esses volumes ficaram enterrados numa

vala, e a tinta de algumas das páginas chegou a ser apagada pela umidade. O taverneiro senta numa

poltrona, enche devagar um longo cachimbo sem tirar os olhos dos livros. Depois pega qualquer um deles,

abre-o e começa a examiná-lo, virando as páginas para diante e para trás. Suas sobrancelhas estão contraídas

e seu lábios movem-se com dificuldade.

— Xis... Um doizinho em cima... Uma cruz... Um desenhozinho... Meu Deus! Que sujeito

intelectual!

Depois de algum tempo ele relaxa, recosta-se na poltrona e fica contemplando a fumaça que sobe

para o teto, como se contemplasse coisas invisíveis a outros olhos.

— Cheio de segredos — murmura ele. — Segredos maravilhosos. No dia em que eu souber o que

tem aí dentro... Ah, não vou fazer o que ele fez! O que vou fazer é...

Ele puxa baforadas profundas do cachimbo e mergulha num devaneio, o maravilhoso e

interminável devaneio em que se tornou sua vida. E embora o dr. Kemp continue procurando sem cessar

aqueles livros, e Adye tenha interrogado com afinco todos os envolvidos no caso,14 nenhum ser humano,

salvo o taverneiro, sabe o que foi feito deles, e do intrincado segredo da invisibilidade, e mais uma dúzia de

outros segredos ali guardados. E ninguém o saberá enquanto ele for vivo.

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