O Homem Invisível

H. G. Wells · Capítulo 11 de 30

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O Homem Invisível

Capítulo X

 

A visita do sr. Marvel a Iping

 

Depois que o pânico inicial se dissipou, Iping entrou numa fase de ferozes discussões. O ceticismo ergueu

sua cabeça ameaçadora — um ceticismo um tanto nervoso e não muito seguro quanto à própria retaguarda,

mas ceticismo da mesma forma. É muito fácil não acreditar num homem invisível, e aqueles que o tinham

visto desaparecer em pleno ar, ou que tinham sentido o peso do seu braço, podiam ser contados nos dedos

das duas mãos. E entre essas testemunhas, o sr. Wadgers tinha batido em retirada para se refugiar por trás das

grades e dos ferrolhos de sua casa, e Jaffers repousava deitado e tonto na sala do Coach and Horses. Ora —

acontece muitas vezes que as ideias grandiosas e extraordinárias, cujo alcance vai muito além da nossa

experiência, acabam por ter menos efeito sobre homens e mulheres do que considerações menores porém

mais tangíveis. Iping estava toda embandeirada, a população envergando seus melhores trajes. A segunda-

feira de Pentecostes tinha sido esperada ansiosamente por um mês ou mais. Quando entardeceu, mesmo

aqueles que acreditavam no Oculto já se entregavam ao divertimento, ainda que de modo hesitante,

imaginando que àquela altura ele já teria ido embora; quanto aos céticos, tudo não tinha passado de uma

grande brincadeira. E todos, tantos os céticos como os crentes, estiveram mais expansivos do que nunca

durante aquele dia.

No relvado de Haysman erguia-se uma barraca em cores alegres, na qual a sra. Bunting e outras

damas preparavam e serviam chá, enquanto lá fora as crianças da escola dominical apostavam corrida e

disputavam jogos sob a ruidosa supervisão das senhoritas Cuss e Sackbut. Sem dúvida ainda pairava uma

certa inquietação no ar, mas a maioria das pessoas tinha o bom-senso de ocultar suas apreensões. O

brinquedo mais procurado pelos jovens era um cabo metálico inclinado, ao longo do qual corria uma

carretilha onde os rapazes se penduravam, deslizando com velocidade para a parte inferior até chocar-se com

um saco que amortecia o impacto; este, os balanços e o jogo de acertar os cocos eram os que atraíam mais as

atenções. Por toda parte havia gente passeando, e o realejo do pequeno carrossel enchia o ar com um cheiro

pungente de óleo e com uma melodia ainda mais pungente. Os sócios do clube local, que tinham

comparecido à missa pela manhã, ainda ostentavam seus crachás em verde e rosa, e alguns mais festivos

tinham enfeitado seus chapéus-coco com fitas coloridas. O Velho Fletcher, cuja noção a respeito de feriados

era das mais severas, podia ser visto através de sua janela adornada de jasmins, ou mesmo da porta, de pé em

cima de uma tábua apoiada em duas cadeiras, pintando o teto da sala.

Por volta das quatro da tarde um estranho entrou no vilarejo, vindo da direção do descampado. Era

um homem baixinho e roliço, usando uma cartola extraordinariamente gasta, e com a respiração arquejante.

Suas bochechas ora se mostravam flácidas, ora enfunadas pelo seu ofegar. Seu rosto sujo denotava apreensão,

e ele se movia com uma espécie de alacridade reprimida. Virou a esquina da igreja e foi direto para o Coach

and Horses. O velho Fletcher, entre outros, lembrou-se de tê-lo visto chegar; na verdade esse cavalheiro

ficou tão inquieto com a peculiar agitação do recém-chegado que deixou um pouco de tinta, por distração,

escorrer do pincel para dentro da manga do seu casaco.

Aos olhos do dono da barraca dos cocos, o forasteiro parecia estar falando sozinho, e o sr. Huxter foi da mesma opinião. O homem parou aos pés dos degraus do Coach and Horses e, de acordo com o sr.

Huxter, pareceu dividido por prolongadas dúvidas até que se decidiu a entrar no estabelecimento. Subiu os

degraus, e o sr. Huxter o viu virar à esquerda e abrir a porta da sala. Vozes soaram do interior do aposento e

do bar, advertindo o visitante sobre o seu erro. “Essa sala é particular!”, disse Hall, ao que o estranho voltou

a fechar a porta e encaminhou-se desajeitadamente para o bar.

Poucos minutos depois reapareceu à porta da rua, limpando os lábios com as costas da mão, com

um ar de tranquila satisfação que aos olhos do sr. Huxter pareceu fingida. Ficou ali de pé por alguns

momentos, olhando em torno, e então o sr. Huxter o viu caminhar de modo furtivo até o portão que dava

para a parte traseira da casa, e para onde se abria a janela da sala. Depois de alguma hesitação, o forasteiro se

encostou ao portão, tirou do bolso um cachimbo e começou a enchê-lo, com dedos trêmulos. Acendeu-o

com gestos desajeitados e, cruzando os braços, começou a fumar numa atitude que tentava parecer relaxada,

mas que era desmentida pelos seus olhares ocasionais na direção dos fundos da casa.

Tudo isso foi avistado pelo sr. Huxter por entre as latas enfileiradas na vitrine de sua tabacaria, e os

modos singulares do homem o convenceram a ficar de olho.

Por fim, o forasteiro empertigou-se de súbito, guardou o cachimbo e desapareceu nos fundos da

casa. Sem demora, o sr. Huxter, convicto de que estava presenciando um furto, rodeou o balcão da

tabacaria e atravessou a rua, para surpreender o ladrão. Assim que o fez, viu o sr. Marvel reaparecer, com o

chapéu desalinhado, carregando numa mão um volume formado por uma toalha de mesa amarrada em

torno de alguns objetos, e na outra, três livros amarrados (com os cadarços do vigário, comprovou-se

depois). Ao avistar Huxter, ele soltou uma exclamação de surpresa e, derivando para a esquerda, desatou a

correr. “Pare, ladrão!”, gritou Huxter, e partiu no seu encalço. As impressões seguintes do sr. Huxter foram

vívidas, mas fugazes. Ele viu o homem à sua frente correndo em disparada rumo à esquina da igreja e à

estrada mais adiante. Viu as bandeirolas que enfeitavam a rua e a agitação da festa, e um ou outro rosto que

se virava na sua direção. Voltou a gritar: “Pare!”, mas mal tinha percorrido dez passos quando foi atingido

na canela por um obstáculo misterioso e de repente não estava mais correndo, e sim voando com incrível

rapidez em pleno ar; viu o chão aproximando-se do seu rosto; o mundo pareceu se estilhaçar em um milhão

de fagulhas luminosas, “e os fatos subsequentes deixaram de lhe interessar”.