O Iluminado
Primeira parte: Introdução
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
— Não existe desativação automática?
— Não, não tem. Ela foi construída antes de essas coisas serem exigidas. O
governo federal está se metendo em tudo nos últimos tempos, né não? O FBI abrindo correspondência dos outros, a CIA botando grampo nos telefones… e olha o que aconteceu com o tal do Nixon. Não foi uma desgraça?
“Mas, se você vier aqui todo dia e verificar a pressão, vai ficar tudo bem. E
não se esqueça de ligar os dutos como ele quer. Nenhum dos apartamentos ficará com mais de sete graus, a não ser que tenhamos um inverno inesperado mais quente que o normal. E seu apartamento também estará quentinho como você gosta.”
— E o encanamento?
— Certo, eu já ia falar disso. Por aqui, por este arco.
Os dois caminharam por uma sala retangular comprida que parecia se estender por quilômetros. Watson puxou um cordão, e uma lâmpada solitária de 75 watts lançou um brilho fraco e oscilante sobre a área que eles ocupavam. Direto, em frente, ficava o fundo do poço do elevador; pesados cabos engraxados desciam até roldanas de seis metros de diâmetro e um imenso motor entupido de graxa. Havia jornais por toda parte: empacotados, amarrados e encaixotados. Outras caixas de papelão estavam marcadas com as palavras Registros ou Faturas ou Recibos — GUARDAR! Tudo amarelado e mofado. Algumas das caixas estavam se desfazendo, espalhando pelo chão folhas de papel frágeis e amareladas que poderiam ter vinte anos. Jack olhou ao redor, fascinado. A história inteira do Overlook poderia estar ali, enterrada naquelas caixas apodrecidas.
— Aquele elevador é uma merda para manter em funcionamento —
afirmou Watson, apontando com o polegar. — Eu sei que Ullman anda pagando jantares luxuosos ao inspetor estadual responsável pela fiscalização dos elevadores, para deixar o técnico longe dessa porra.
“Agora, aqui fica o núcleo central do encanamento.”
Diante deles, cinco grandes tubos, cada um envolto em isolamento e atado com faixas de aço, erguiam-se até as sombras, sumindo de vista.
Watson apontou para uma prateleira cheia de teias de aranha ao lado do poço de encanamento. Havia ali alguns trapos sujos de graxa e um fichário.
— Aquilo ali são as plantas do encanamento. Não acho que você vai ter problemas com vazamentos… nunca aconteceu… mas, às vezes, os canos congelam. O único jeito de parar com isso é abrir um pouco as torneiras durante a noite, mas esta merda de palácio tem mais de quatrocentas pias.
Aquele gordo fresco lá em cima berraria em todo o caminho para Denver quando visse a conta de água. Não é verdade?
— Diria que é uma análise extraordinariamente astuta.
Watson o olhou com admiração.
— É… você é mesmo um cara estudado, né não? Fala que nem um livro.
Eu admiro isso, desde que o sujeito não seja uma daquelas bichas. E um monte deles é. Sabe quem provocou os tumultos estudantis alguns anos atrás?
Os homassexuaus, é isso. Eles ficam frustrados e precisam se libertar. Sair do armário, eles dizem. Puta merda, nem sei o que o mundo está virando.
“Agora, se congelar, provavelmente vai gelar bem aqui neste poço. Não tem aquecimento, sabe? Se acontecer, use isto.” — Meteu a mão em um caixote de laranjas e tirou um pequeno maçarico a gás.
— É só tirar o isolamento no ponto onde você encontrar o bloco de gelo e colocar o calor direto em cima. Entendeu?”
— O.k. Mas e se o cano congelar fora do núcleo do encanamento?
— Isso não vai acontecer se você fizer seu trabalho e mantiver o lugar aquecido. Você não pode alcançar os outros canos mesmo. Não se preocupe com isso. Você não terá problema. Lugarzinho horrível aqui embaixo. Cheio de teias de aranha. Me deixa horrorizado, é sim.
— Ullman me contou que o primeiro zelador de inverno matou a família e se suicidou.
— Sim, aquele tal de Grady era um péssimo ator. Percebi no minuto em que conheci ele. Sempre com um sorriso forçado, como um cínico. Isso foi quando eles estavam começando aqui e aquela porra gorda do Ullman contrataria até o Estrangulador de Boston se ele aceitasse o salário mínimo.
Foi um guarda-florestal do Parque Nacional que encontrou eles; o telefone tinha pifado. Todos eles no terceiro andar da ala oeste, congelados. Tadinhas das meninas. Tinham oito e seis anos. Lindas como flores. Ah, a bagunça foi um inferno. Aquele Ullman, fora da temporada, é também gerente de uma dessas espeluncas de hotéis de praia lá na Flórida. Aí ele pegou um avião até Denver, alugou um trenó para vir de Sidewinder, porque as estradas estavam bloqueadas… um trenó, dá pra acreditar? Fez das tripas coração pra manter a notícia fora dos jornais. Confesso que ele fez um bom trabalho. Saiu uma nota no Post, de Denver, e, é claro, no obituário daquele jornaleco de merda que eles têm lá em Estes Park, mas foi só isso . Muito bom, considerando a reputação deste lugar. Achei que algum repórter fosse cavar tudo de novo e usar Grady como pretexto para faturar com os escândalos.
— Que escândalos?
Watson deu de ombros.
— Todo grande hotel tem seus escândalos. Assim como todo grande hotel tem um fantasma. Por quê? Diabos, as pessoas vêm e vão. Às vezes alguém cai duro no quarto, ataque do coração, derrame, algo do tipo. Hotéis são
lugares supersticiosos. Nada de décimo terceiro andar ou apartamentos número 13, espelhos atrás da porta de entrada e coisas assim. Pois é, perdemos uma senhora em julho agora. Ullman teve que tomar conta disso, e pode apostar seu traseiro que ele tomou. É por isso que pagam vinte e dois mil dólares por temporada pra ele e, por mais que eu odeie aquele babaca, ele merece a grana. É como se as pessoas viessem aqui só pra vomitar e contratam um cara como Ullman para limpar a sujeira. Tipo essa mulher, devia ter uns sessenta anos (minha idade!), a porra do cabelo mais tingido de vermelho do que luz de puteiro, os peitos caídos até o umbigo porque ela não tava usando nenhum sutiã, as pernas tão cheias de varizes inchadas que mais pareciam um mapa rodoviário, joias despencando pelo pescoço, braços e orelhas. E ela tava com esse garoto, que não devia ter mais de dezessete anos, o cabelo comprido até o rabo e a virilha inchada como se tivesse estufado com jornal. Eles ficaram uma semana, dez dias talvez, e toda noite era a mesma cena. Ficavam no Salão Colorado das cinco às sete, ela entornando drinques goela abaixo como se fossem acabar no dia seguinte, e ele bebendo uma única garrafa de cerveja em goles pequenos para durar mais. Ela contava piadas e dizia coisas espirituosas, e toda vez que ela fazia isso ele sorria como uma porra de macaco, como se tivesse barbantes amarrados nos cantos da boca. Deus sabe no que ele tinha que pensar pra ficar com o bilau pronto na hora de ir pra cama com ela. Eles iam jantar, ele andando, ela cambaleando, bêbada como um gambá. Ele beliscava as garçonetes e sorria quando a velha não estava olhando. Diabos, a gente tinha até apostado quanto tempo ele ia durar.
Watson encolheu os ombros e continuou.
— Aí uma noite ele desceu mais ou menos umas dez horas, dizendo que a
“esposa” estava “indisposta”… o que significava que ela estava apagada, como todas as outras noites em que ficaram aqui… e que ele ia comprar um remédio para o estômago. E lá foi ele, no Porschinho em que chegaram, e foi a última vez que a gente viu ele. Na manhã seguinte ela desceu, fingindo que não estava dando importância ao caso, mas foi ficando cada vez mais pálida, e Ullman perguntou, tipo diplomaticamente, se ela queria que a polícia fosse avisada, no caso de ele ter sofrido algum acidente ou coisa assim. A mulher se arrepiou como um gato. “Não, não, não, ele é um bom motorista”, e que ela não estava preocupada, que estava tudo sob controle, “ele estará de volta para o jantar.” Naquela tarde ela entrou no Salão Colorado por volta das três e não teve nenhum jantar. Voltou pro quarto por volta das dez e meia e foi a
última vez que alguém viu ela viva.
— O que aconteceu?
— O médico-legista disse que ela tomou uns trinta comprimidos pra dormir depois de toda aquela bebida. O marido dela apareceu no dia seguinte com um advogado, um figurão de Nova York. O cara ameaçou Ullman de tudo no mundo. Vou processar isso e aquilo, e, quando eu terminar, você não vai ter nem suas cuecas, esse tipo de coisa. Mas Ullman é bom, o safado. Fez o cara ficar quietinho. Deve ter perguntado pro cara se ele queria ver a foto da mulher estampada em todos os jornais de Nova York: MULHER DE HOMEM IMPORTANTE… blá-blá-blá… ENCONTRADA MORTA COM A BARRIGA CHEIA DE COMPRIMIDOS PRA DORMIR DEPOIS DE BRINCAR DE PEGA-PEGA COM UM RAPAZ QUE
PODERIA SER SEU NETO.
“Os policiais encontraram o Porsche em uma lanchonete 24 horas em Lyons, e Ullman mexeu uns pauzinhos para liberar o bicho pro advogado.
Depois, os dois foram pra cima do velho Archer Houghton, que é o médico-legista do condado, e fizeram ele mudar o laudo da perícia pra morte acidental. Ataque cardíaco. Agora Archer está por aí dirigindo um Chrysler.
Não culpo ele. Um homem tem que aproveitar o que aparecer, especialmente quando já está ficando velho.”
O lenço reapareceu. Uma assoada ruidosa. Uma espiada. De volta ao bolso.
— E então o que aconteceu? Uma semana depois, a porra da imbecil da camareira, que atende pelo nome de Delores Vickery, deu um berro dos diabos enquanto arrumava o quarto onde aqueles dois ficaram e desmaiou.
Quando acordou, contou que viu a velha morta no banheiro, deitada nua na banheira. “A cara dela tava toda roxa e inchada, e ela tava sorrindo pra mim”, foi o que a camareira falou. Ullman pagou duas semanas de aviso prévio pra ela e mandou ela sumir daqui. Pelas minhas contas, mais ou menos umas quarenta e cinco pessoas morreram neste hotel desde que foi inaugurado pelo meu avô em 1910.
Olhou para Jack com perspicácia.
— Sabe como é que a maioria deles morre? Ataque cardíaco ou derrame enquanto estão dando umazinha. Os resorts têm muito disso, gente velha que quer ter um último caso amoroso. Eles sobem as montanhas pra fingir que têm vinte anos de novo. Às vezes acontece alguma coisa, e nem todos os gerentes daqui foram tão bons quanto Ullman em manter os jornais longe.
Então o Overlook tem uma má reputação, é sim. Aposto como a merda do Biltmore, em Nova York, também tem lá sua reputação se você perguntar às pessoas certas.
— Mas nenhum fantasma?
— Sr. Torrance, trabalho aqui desde que me entendo por gente. Eu brincava aqui quando não era muito mais velho que seu filho na foto na carteira que você me mostrou. Ainda não vi nenhum fantasma. Venha comigo, vou lhe mostrar o galpão de ferramentas.
— O.k.
Enquanto Watson apagava a luz, Jack disse:
— Realmente há muito papel por aqui.
— Nem brinca. Parece que tem coisa aqui de mil anos atrás. Jornais, faturas e notas fiscais velhas, recibos de entrega e sabe Deus mais o quê. Meu pai dava conta deles muito bem quando a gente ainda tinha a velha fornalha à lenha, mas agora essa velharia saiu de controle. Um ano desses, vou arranjar um menino para arrastar a papelada até Sidewinder e queimar tudo. Mas só se Ullman cobrir a despesa. Acho que ele banca se eu gritar “rato” alto o bastante.
— Então há ratos aqui?
— Sim, acho que tem alguns. Comprei as ratoeiras e o veneno que o sr.
Ullman quer que você use no sótão e aqui embaixo. Fique de olho em seu filho, sr. Torrance. Você não gostaria que nada acontecesse a ele, gostaria?
— Não, claro que não. — Vindo de Watson, o conselho não incomodava.
Seguiram até a escada e pararam por um momento enquanto Watson assoava o nariz.
— Cê vai encontrar todas as ferramentas que precisar lá fora, e algumas que não vai precisar também, eu acho. E tem as telhas. Ullman falou sobre isso contigo?
— Sim. Ele quer que parte do telhado da ala oeste seja trocada.
— Aquele babaquinha gordo vai usar e abusar de você e, quando chegar a primavera, vai reclamar que você não fez nada direito. Uma vez falei na cara dele…
A voz de Watson se transformou em um blá-blá-blá indistinto enquanto os dois subiam a escada. Jack Torrance olhou por cima dos ombros aquela escuridão impenetrável e com cheiro de mofo, e imaginou que aquele seria o lugar ideal para fantasmas. Pensou em Grady, isolado na neve macia e implacável, enlouquecendo pouco a pouco e cometendo a atrocidade. Teriam gritado? Pobre Grady, cada dia mais sufocado e consciente de que a primavera nunca chegaria para ele. Ele não deveria estar ali. E não deveria ter perdido o controle.
Enquanto passava pela porta, acompanhando Watson, as palavras ecoaram como um dobrar de sinos afinados, seguidos de um estalido agudo… como um lápis se partindo. Santo Deus, uma bebida cairia bem. Ou milhares delas.
4
A TERRA DAS SOMBRAS
Danny desistiu e subiu às 16h15 para tomar leite e comer biscoitos.
Devorava-os enquanto olhava pela janela; em seguida, foi dar um beijo na mãe, que estava deitada. Ela sugeriu que ele ficasse e assistisse a Vila Sésamo, assim o tempo passaria mais rápido, mas Danny negou com a cabeça e voltou decidido para a calçada.
Já eram cinco da tarde e, apesar de não ter um relógio e não saber ver as horas muito bem, ele estava consciente do passar do tempo pelo crescer das sombras e pelo dourado matiz do crepúsculo.
Girando o aviãozinho com os dedos, cantarolava uma música infantil.
Os meninos a cantavam na escolinha em Stovington. Ele não estava mais frequentando a escolinha, pois o pai não tinha condições. Sabia que a mãe e o pai se preocupavam e achavam que isso pudesse aumentar sua solidão (e havia o medo ainda mais profundo e não mencionado entre eles de que Danny os culpasse), mas, de qualquer forma, ele não queria mesmo voltar para lá. Era para bebês. Ele ainda não estava muito crescido, mas também não era mais um bebê. Os meninos maiores iam para a escola grande e almoçavam comida quente. A primeira série. No próximo ano. O ano atual era algum lugar entre ser um bebê e um menino crescido. Estava tudo bem.
Ele realmente sentia falta de Scott e de Andy (em especial de Scott), mas ainda estava tudo bem. Parecia melhor esperar sozinho por qualquer coisa que pudesse acontecer.
Entendia uma porção de coisas sobre seus pais e sabia que muitas vezes eles não gostavam que ele compreendesse ou se recusavam a acreditar nisso.
Mas algum dia teriam que acreditar. Danny se contentava em esperar.
Era uma pena que, especialmente em horas como aquela, não acreditassem nele. Mamãe estava deitada, quase chorando de preocupação por papai.
Algumas das preocupações deles eram de gente grande, e Danny não conseguia entender (coisas vagas que estavam relacionadas à segurança, à imagem pessoal de papai, a sentimentos de culpa e raiva e ao medo do desconhecido). Mas as duas coisas mais importantes que ocupavam a mente da mamãe naquele momento eram que o carro do papai pudesse estar enguiçado nas montanhas ( então por que não telefona? ) ou que papai
estivesse fazendo a Coisa Feia. Danny sabia muito bem o que era a Coisa Feia, desde que Scotty Aaronson, seis meses mais velho do que ele, havia lhe explicado. Scotty já sabia, pois seu pai também já havia feito a Coisa Feia.
Uma vez, Scotty contou que o pai golpeara a mãe bem no olho e a jogara no chão. Finalmente conseguiram o DIVÓRCIO por causa da Coisa Feia. Quando Danny o conheceu, Scotty morava com a mãe e só via o pai nos fins de semana. O maior terror na vida de Danny era o DIVÓRCIO, uma palavra que surgia sempre em sua mente como um cartaz escrito em letras vermelhas e coberto de sibilantes cobras venenosas. No DIVÓRCIO, os pais não vivem mais juntos.
Travam uma guerra por você perante um juiz (de tênis? de badminton?
Danny não sabia qual era o juiz, mas papai e mamãe jogavam tênis e badminton em Stovington, então ele concluiu que poderia ser qualquer um desses dois), e você tem que ficar com um deles, sem praticamente ver o outro. E aquele com quem você for morar pode se casar com uma pessoa desconhecida. A coisa mais terrível sobre o DIVÓRCIO era que Danny compreendia que a palavra (ou o conceito, ou seja lá qual fosse seu entendimento) pairava na cabeça dos próprios pais algumas vezes como uma ideia difusa e distante, outras vezes tão intensa, sombria e aterrorizante quanto um trovão. Tudo começou naquele dia em que papai o castigara por estragar os papéis no escritório, e o médico colocara gesso em seu braço. Essa imagem já estava esmaecida, mas a lembrança dos pensamentos sobre DIVÓRCIO era nítida e apavorante. Mamãe havia pensado nisso com mais frequência, e Danny sentia um medo constante de que ela arrancasse a palavra do cérebro e a concretizasse pela boca. DIVÓRCIO. Os pensamentos eram uma corrente constante, e um dos poucos que ele podia detectar vinha como o compasso de uma música simples. Mas, assim como o compasso, o pensamento central formava apenas o eixo de pensamentos mais complexos, pensamentos que ele não podia nem começar a interpretar. Vinham coloridos e tristes. O eixo dos pensamentos de mamãe sobre DIVÓRCIO estava centrado no que papai fizera com seu braço e no que acontecera em Stovington quando papai perdeu o emprego. Aquele garoto. Aquele tal de George Hatfield, que tinha ficado danado da vida com papai e furara os pneus do fusca. Os pensamentos de papai quanto ao DIVÓRCIO eram mais complexos, pintados de roxo e correndo por veias negras de pavor. Papai parecia pensar que tudo melhoraria se ele fosse embora. A dor acabaria. As dores que papai sentia quase o tempo todo eram por causa da Coisa Feia. Danny quase sempre podia captar isto também: a necessidade constante do pai de ir para um lugar escuro, ficar vendo
televisão, comer amendoim e fazer a Coisa Feia até a mente se acalmar e deixá-lo em paz.
Mas, naquela tarde, sua mãe não tinha com o que se preocupar, e ele queria poder ir até ela e lhe dizer isso. O fusca não havia enguiçado. Papai não estava em lugar algum fazendo a Coisa Feia. Estava quase chegando em casa, com o carro pipocando pela estrada entre Lyons e Boulder. Por enquanto, papai não estava pensando na Coisa Feia. Estava pensando em… em…
Danny olhou furtivamente para a janela da cozinha. Às vezes o ato de pensar intensamente fazia algo acontecer com ele. Fazia as coisas (coisas reais) desaparecerem, e em seguida o menino via coisas que não estavam ali.
Uma vez, não muito tempo depois que engessaram seu braço, aconteceu isso na hora do jantar. Não estavam conversando muito. Mas estavam pensando.
Ah, sim. Pensamentos sobre DIVÓRCIO pairando na mesa de jantar como uma nuvem escura, cheia de chuva e pronta para explodir. A sensação era tão ruim que o deixava sem fome. Pensar em comer sob aquela nuvem negra do DIVÓRCIO
fazia Danny sentir vontade de vomitar. E aquilo tinha lhe parecido desesperadamente importante, então o menino mergulhou em total concentração e algo aconteceu. Quando voltou à realidade, estava deitado no chão, com grãos de feijão e purê no colo, sua mãe segurando-o e chorando, e o pai ao telefone. Ele ficou assustado, tentou explicar aos pais que não houvera nada de errado, que aquilo, às vezes, acontecia quando se concentrava para entender melhor as coisas. Tentava falar sobre Tony, a quem chamavam de seu “amigo invisível”.
— Ele está tendo uma A-LU-CI-NA-ÇÃO. Parece estar bem, mas eu gostaria que um médico desse uma olhada nele mesmo assim — dizia o pai.
Depois que o médico saiu, mamãe fez Danny prometer que nunca mais faria aquilo, que nunca mais os assustaria daquela forma, e ele concordou.
Ele mesmo estava assustado, pois, ao se concentrar, sua mente voou para o pai. Por um momento, antes que Tony surgisse (muito longe, como sempre fazia, chamando à distância) e as coisas estranhas escurecessem a cozinha e o assado fatiado no prato azul, por um breve momento sua própria consciência mergulhou nas trevas do pai até chegar a uma palavra incompreensível, muito mais apavorante do que DIVÓRCIO. E essa palavra era SUICÍDIO. Danny nunca mais vira essa palavra atravessar a mente do papai outra vez e certamente nunca mais a procurou. Ele não se importou em saber o exato significado dela.
Na verdade, Danny gostava de se concentrar, porque às vezes Tony aparecia. Mas nem sempre. Às vezes as coisas ficavam vertiginosas e turvas
por um minuto e, em seguida, clareavam (na maioria das vezes, de fato). Mas outras vezes Tony aparecia no limite da visão do menino, chamando de longe e acenando…
Isso havia acontecido duas vezes desde que se mudaram para Boulder, e Danny se lembrava de como foi agradável e surpreendente saber que Tony viera com ele lá de Vermont. Enfim, nem todos os amigos ficaram para trás.
Na primeira vez, ele tinha saído para o quintal, mas nada de muito importante aconteceu. Apenas viu Tony acenando e, em seguida, a escuridão.
E, poucos minutos depois, eram apenas uns vagos fragmentos de lembrança, como um sonho confuso. Na segunda vez, duas semanas atrás, havia sido mais interessante. Tony chamava com um aceno, a aproximadamente quatro metros de distância: “Danny… vem ver…”. Parecia estar se levantando e depois caindo em um buraco grande, como Alice no País das Maravilhas.
Então Danny estava no porão do edifício, com Tony ao seu lado, apontando para o baú em que o pai guardava os papéis importantes, em especial “A PEÇA”.
— Olha — dizia Tony com sua voz distante e musical. — Está embaixo da escada. Bem embaixo da escada. Os caras da mudança colocaram ele bem…
embaixo… da escada.
Danny deu um passo à frente para ver a maravilha mais de perto, mas então começou a cair de novo, dessa vez do balanço em que estivera sentado todo o tempo. E o menino ficou completamente sem fôlego também.
Três ou quatro dias depois, seu pai estava revirando tudo, dizendo à mãe furiosamente que havia procurado por todo o maldito porão e o baú não estava lá, e que ia processar a maldita transportadora por tê-lo largado em algum lugar entre Vermont e o Colorado. Como é que ele conseguiria terminar “A PEÇA” se essas coisas continuassem acontecendo?
— Não, papai — falou Danny. — Está embaixo da escada. Os carregadores colocaram o baú bem embaixo da escada.
Papai lançou um olhar estranho para ele e desceu para ver. O baú estava lá, bem onde Tony mostrara. O pai pôs Danny em seu colo e perguntou quem havia levado o baú para o porão. Teria sido Tom, o vizinho de cima? O porão era perigoso, disse papai. Por isso o proprietário o mantinha trancado. Se alguém estava deixando a porta aberta, gostaria de saber quem era. Estava feliz por ter seus papéis e sua “PEÇA”, mas nada disso teria importância se Danny caísse na escada e quebrasse… uma perna. Danny respondeu com seriedade ao pai que não estivera no porão. A porta estava sempre trancada. E
mamãe concordou.
— Danny nunca foi lá — ela confirmou —, pois é úmido, escuro e infestado de aranhas. E ele não mente.
— Então como é que você ficou sabendo, velhinho?
— Tony me mostrou.
O pai e a mãe se entreolharam. Isso já havia acontecido antes, algumas vezes. E, por ser assustador, eles imediatamente afastaram o pensamento da cabeça. Mas Danny sabia que se preocupavam com Tony, sobretudo mamãe, e por isso ele tomava cuidado para não pensar daquele jeito que fazia Tony aparecer em uma hora em que ela pudesse ver. Naquele momento, porém, ela devia estar deitada, pois ainda não havia nenhum movimento na cozinha, e Danny então se concentrou profundamente para ver se conseguia saber no que papai estava pensando.
Franziu a testa, e as mãos um pouco sujas cerraram-se sobre as calças de brim. Não fechou os olhos — não era necessário —, mas os apertou até que se tornassem pequenas fendas, imaginando a voz do pai, a voz de Jack, a voz de John Daniel Torrance, grave e constante, às vezes ardilosa de satisfação, ou ainda mais grave de raiva, ou então apenas se mantendo estável porque ele estava pensando. Pensando em. Pensando sobre. Pensando…
(pensando)
Danny suspirou em silêncio e seu corpo caiu na calçada como se seus músculos tivessem sido desligados. Estava plenamente consciente; via a rua e o casalzinho passeando na calçada do outro lado, de mãos dadas, pois estavam
(apaixonados?)
tão felizes por estarem juntos naquele dia. Viu as folhas de outono caindo na sarjeta ao balançar do vento, cambalhotas amarelas de formatos irregulares. Viu a casa por onde passavam e viu o telhado coberto de ( telhas. acho que não vai ter problema se estiver bem calafetado. é…
estará tudo bem. aquele watson. deus, que figura. quem me dera ter um papel para ele na “PEÇA”. vou botar toda a miserável humanidade nela se eu não tomar cuidado. é. telhas. há pregos por lá? que merda, me esqueci de perguntar. bem, são fáceis de conseguir. loja de ferragens de sidewinder. vespas. nesta época do ano estão acasalando. devo precisar de uma daquelas bombas contra insetos caso encontre alguma por lá quando retirar as telhas velhas. telhas novas. velhas. )
telhas. Então era nisso que ele estava pensando. Havia conseguido o emprego e estava pensando em telhas. Danny não sabia quem era Watson,
mas todo o resto parecia suficientemente claro. E pode ser que chegue a ver um ninho de vespas. Tão certo quanto seu nome era
— Danny… Danniii…
Levantou os olhos e lá estava Tony, no final da rua, acenando ao lado de uma placa de “PARE”. Danny, como sempre, sentiu uma calorosa explosão de alegria ao ver o velho amigo, mas dessa vez parecia sentir também uma pontada de medo, como se Tony tivesse vindo com alguma escuridão escondida nas costas. Um vidro de vespas que, quando soltas, picariam profundamente.
Mas não havia a possibilidade de não ir.
Danny escorregou ainda mais no meio-fio, as mãos deslizando frouxamente pelas coxas e balançando ao lado da cintura. O queixo mergulhado no peito. Houve então um puxão indolor quando parte dele se levantou e correu atrás de Tony escuridão adentro.
— Danniii…
A escuridão foi invadida por um turbilhão de brancura. Um ruidoso som de tosse e sombras curvadas e torturadas que se decompuseram em pinheiros durante a noite, oscilantes em um estrondoso vendaval. A neve dançava e girava. Neve por toda a parte.
— Profundo demais — disse Tony da escuridão, e havia uma tristeza em sua voz que amedrontava Danny. — Profundo demais para poder sair.
Outra silhueta surgiu de forma gradual, esguia. Imensa e retangular. Um telhado íngreme. Brancura obscurecida pela sombra da tempestade. Muitas janelas. Um edifício alto, coberto de telhas de madeira. Algumas telhas eram mais verdes e mais novas. Seu pai as havia instalado. Com pregos da loja de ferragens de Sidewinder. A neve estava agora cobrindo as telhas. Cobria tudo.
Uma luz bruxuleante verde surgiu brilhante em frente ao prédio, estremeceu e se transformou em uma caveira gigante e sorridente sobre dois ossos cruzados.
— Veneno — disse Tony, da escuridão. — Veneno.
Outros sinais passaram por seus olhos, alguns em letras verdes, outros em placas enfiadas na massa de neve acumulada pelo vento. PROIBIDO NADAR. PERIGO! FIOS DE ALTA TENSÃO. PROPRIEDADE CONDENADA. ALTA VOLTAGEM. TERCEIRO TRILHO. PERIGO DE MORTE. MANTENHA-SE AFASTADO. ENTRADA PROIBIDA. NÃO
ULTRAPASSE. INVASORES SERÃO FUZILADOS. Ele não entendia nada daquilo (ele não sabia ler!), mas captava o sentido de tudo, e um pavor nebuloso flutuou para dentro dos ocos sombrios de seu corpo, como esporos marrons que morreriam sob a luz do sol.
Desapareceram. Agora ele estava em uma sala cheia de móveis estranhos, uma sala escura. A neve salpicava as janelas como se fosse areia. A boca estava seca, os olhos eram como duas bolas de gude quentes, o coração martelava forte. Um ruído crescente veio lá de fora, como uma porta sendo aberta. Passos. Do outro lado da sala havia um espelho, e nas profundezas daquela bolha prateada uma única palavra aparecia em uma chama verde, e essa palavra era: REDRUM.
A sala desapareceu. Outra sala. Ele conhecia
(conheceria)
aquela sala. Uma cadeira caída no chão. Uma janela quebrada que deixava a neve entrar; já havia coberto a borda do tapete. As cortinas soltas e caídas de um trilho quebrado. Um armário pequeno tombado para a frente.
Mais estrondos ocos, altos, constantes, compassados, horríveis. Vidro se quebrando. A destruição que se aproximava. Uma voz rouca, a voz de um louco, era ainda mais terrível por ser familiar:
Saia! Saia, seu merdinha! Tome seu remédio!
Crash, crash, crash. Madeira lascando. Um berro de raiva e satisfação.
REDRUM. Aproximando-se.
Flutuando pela sala. Quadros arrancados da parede. Um toca-discos (o toca-discos de mamãe?)
virado no chão. Seus discos: Grieg, Handel, Beatles, Art Garfunkel, Bach, Liszt, espalhados por toda parte. Quebrados em estilhaços negros e pontiagudos, como fatias de torta. Um raio de luz vinha de outro cômodo, o banheiro, luz clara e desagradável e uma palavra tremeluzindo no espelho do armário de remédios como um olho vermelho: REDRUM. REDRUM. REDRUM…
— Não — murmurou ele. — Não, Tony, por favor.
E, pendurada na porcelana branca da banheira, estava a mão. Flácida.
Sangue escorria lentamente (REDRUM) por um dos dedos, o dedo médio, pingando da unha bem cuidada no ladrilho…
Não, ah não, ah não…
(ah, por favor, Tony, você está me apavorando)
REDRUM REDRUM REDRUM.
(pare, Tony, pare)
Desaparecendo.
Na escuridão, os estrondos ficaram mais altos, ainda mais altos, ecoando, em toda parte, por todos os lugares.
E agora Danny estava agachado em um corredor escuro, em um tapete
azul, em um emaranhado de formas pretas, ouvindo os estrondos se aproximarem. Um Vulto dobrou o corredor e começou a vir na direção dele, cambaleando, se escorando, cheirando a sangue e perdição. Segurava um taco de croquet e o balançava (REDRUM) de um lado para o outro em arcos maldosos, batendo-o contra a parede, rasgando o papel de parede de seda e provocando explosões fantasmagóricas de pó de gesso:
Venha aqui tomar seu remédio! Seja homem!
O Vulto avançava contra ele, exalando aquele odor agridoce, a cabeça do taco de croquet cortando o ar em um maléfico assovio sussurrante. E então veio o estrondo surdo quando ele acertou a parede, espalhando poeira em uma lufada sarnenta e de cheiro seco. Minúsculos olhos vermelhos brilhavam no escuro. O monstro estava em cima dele, o descobrira agachado diante de uma parede nua. E o alçapão no teto estava trancado.
Escuridão. Movimento.
— Tony, por favor, me leva de volta, por favor, por favor…
E ele estava de volta, sentado no meio-fio da rua Arapahoe. A camisa colada nas costas, o corpo banhado em suor. Em seus ouvidos ainda ecoava aquele estrondo em contraponto, e ele podia sentir o cheiro da própria urina enquanto se aliviava no extremo do próprio terror. Podia ver aquela mão flácida balançando no canto da banheira, com o sangue pingando do dedo médio, e aquela palavra inexplicável muito mais terrível do que todas as outras: REDRUM.
Finalmente, a luz do sol. Coisas reais. Exceto Tony, a seis quarteirões dali, apenas uma mancha parada na esquina, a voz fraca, aguda e doce.
— Cuidado, velhinho…
Depois, no instante seguinte, Tony se foi, e o velho fusca vermelho do papai dobrou a esquina, trepidando pela rua, soltando fumaça azul. Danny pulou do meio-fio em um segundo, acenando, pulando de um pé para o outro, gritando:
— Papai! Oi, papai! Oi! Oi!
O pai encostou o carro no meio-fio, desligou o motor e abriu a porta.
Danny correu em sua direção, mas ficou paralisado, com os olhos arregalados. O coração subiu pela garganta e congelou. Ao lado do pai, no banco do carona, estava um curto taco de croquet com a cabeça coberta de sangue e de cabelo.
Depois era apenas um saco de mercearia.
— Danny… você está bem, velhinho?
— É. Eu tô bem.
Foi até o pai, enterrou o rosto na jaqueta jeans com forro de pele de ovelha e o abraçou muito, muito, muito apertado. Jack o abraçou também, um pouco confuso.
— Ei, velhinho. Não fique no sol tanto tempo assim. Você está pingando de suor.
— Acho que adormeci um pouco. Amo você, papai. Eu tava te esperando.
— Também te amo, Dan. Trouxe algumas coisas. Será que você já é grande o bastante para carregar até lá em cima?
— Claro que sou!
— Velhinho Torrance, o homem mais forte do mundo, cujo passatempo é dormir em uma esquina — disse Jack, bagunçando o cabelo do filho.
Caminharam até a porta, e mamãe tinha descido até a entrada para se encontrar com eles. Danny parou no segundo degrau e assistiu ao beijo dos dois. Estavam felizes por estarem juntos. Expressavam seu amor da mesma forma que o casalzinho que havia passado pela calçada de mãos dadas.
Danny estava feliz.
O saco de mercearia ( apenas um saco de mantimentos) estalou nos braços do menino. Tudo estava bem. Papai estava em casa. Mamãe o amava. Não havia nada ruim. Nem tudo o que Tony lhe mostrava acontecia.
Mas o medo tinha se instalado em volta do coração do menino, profundo e terrível, em volta do coração e daquela palavra indecifrável que vira no espelho de sua alma.
5
CABINE TELEFÔNICA
Jack estacionou o fusca em frente à farmácia do shopping Table Mesa e deixou o motor morrer. Perguntou-se novamente se não seria melhor trocar a bomba de gasolina, porém também concluiu mais uma vez que não tinha dinheiro. Se o carrinho conseguisse andar até novembro, seria aposentado com uma medalha de honra ao mérito. Em novembro, a neve nas montanhas estaria cobrindo o teto do fusca… cobriria talvez até mesmo três fuscas empilhados um em cima do outro.
— Fique no carro, está bem, velhinho? Vou trazer uma barra de chocolate pra você.
— Por que não posso ir também?
— Tenho que dar um telefonema. Coisa particular.
— Foi por isso que você não ligou de casa?
— Exatamente.
Wendy havia insistido em ter um telefone em casa, apesar de a situação financeira não estar muito boa. Argumentara que, com uma criança pequena (especialmente um menino como Danny, que às vezes sofria desmaios), não poderiam ficar sem comunicação. Jack então arcou com a despesa da instalação, uma taxa já bastante pesada de trinta dólares, e com um depósito realmente elevado de noventa dólares. E até aquele momento o telefone só estivera mudo, exceto por duas chamadas que receberam por engano.
— Você me traz um chocolate bem grande?
— Trago. Fique aí quietinho e não mexa na alavanca de câmbio, certo?
— Certo. Vou ficar olhando os mapas.
— Faça isso.
Quando Jack saiu, Danny abriu o porta-luvas e retirou cinco mapas surrados: Colorado, Nebraska, Utah, Wyoming e Novo México. O menino adorava mapas rodoviários, adorava acompanhar com o dedo o trajeto das estradas. Na sua opinião, os novos mapas foram a melhor coisa que acontecera na mudança para o Oeste.
Jack foi ao balcão da farmácia, comprou uma barra de chocolate para Danny, um jornal e um exemplar de outubro da Revista do escritor. Pagou com uma nota de cinco dólares e pediu o troco em moedas de vinte e cinco centavos. Com os trocados na mão, caminhou até a cabine telefônica, ao lado da máquina de fazer chaves, e entrou. Dali, podia ver Danny no fusca através de três vidros. A cabeça do menino estava estudiosamente debruçada sobre os mapas. Jack sentiu uma onda de amor quase desesperada pelo menino. A emoção se manifestou no rosto dele como uma severidade pétrea.
Sabia que poderia ter feito o obrigatório telefonema de agradecimento a Al de casa; certamente não falaria nada que Wendy reprovasse. Mas seu orgulho não permitia. Nos últimos tempos, quase sempre escutava o que seu orgulho lhe ditava, pois, além da esposa e do filho, seiscentos dólares em uma conta bancária e um cansado Volkswagen 1968, o orgulho era tudo o que lhe restava. A única coisa que era realmente dele. Até a conta bancária era conjunta. Um ano atrás, estava lecionando inglês em uma das melhores escolas preparatórias da Nova Inglaterra. Tinha amigos (apesar de não serem os mesmos de antes), dava algumas gargalhadas, e os colegas do corpo docente admiravam sua eficiência em sala de aula e sua dedicação pessoal à literatura. Seis meses atrás, as coisas estavam bem. De repente, havia dinheiro sobrando no final de cada período de duas semanas, entre cada
pagamento, para abrir uma poupança. Na época em que bebia, nunca sobrava um centavo, mesmo com Al Shockley pagando muitas rodadas. Wendy e ele haviam conversado com cautela sobre a possibilidade de, em um ano ou menos, encontrar uma casa e dar entrada em uma hipoteca. Uma casa no campo levaria de seis a oito anos para ser reformada, ora essa, eram jovens e tinham o tempo a seu favor.
Então ele perdera o controle.
George Hatfield.
O cheiro de esperança havia se transformado no cheiro de couro velho no escritório de Crommert. A situação toda parecia uma cena de sua própria peça: os velhos retratos dos diretores anteriores de Stovington pendurados na parede; gravuras em aço, uma da escola como havia sido em 1879, quando foi inaugurada, e outra de 1895, quando o dinheiro dos Vanderbilt permitiu a construção do ginásio, que ainda ficava no fundo do campo de futebol, atarracado, imenso, coberto de hera. A hera de abril farfalhava na janela estreita da sala de Crommert, e do aquecedor saía o ruído sonolento do vapor.
Não era uma fantasia. Era a realidade. Sua vida. Como pôde tê-la fodido tanto?
— É uma situação grave, Jack. Terrivelmente grave. O Conselho me pediu para lhe comunicar a decisão.
O Conselho queria a demissão de Jack, e ele se demitiu. Em circunstâncias diferentes, Jack teria conseguido a estabilidade no cargo em junho daquele ano.
O que se seguiu àquele encontro no escritório de Crommert foi a noite mais escura e mais terrível de sua vida. A vontade, a necessidade de se embriagar nunca fora tão forte. As mãos tremiam. Ele derrubava os objetos.
Queria descarregar tudo em cima de Wendy e Danny. Sentia-se como um animal selvagem amarrado em uma coleira puída. Ele saiu de casa pelo medo de agredir a esposa e o filho. Viu-se parado à porta de um bar, e a única coisa que o impediu de entrar foi a consciência de que, se fizesse isso, Wendy o abandonaria, levando Danny. Ele estaria morto no dia em que eles partissem.
Em vez de entrar no bar, onde vultos sombrios sorviam as deliciosas águas do esquecimento, ele foi para a casa de Al Shockley. A decisão do Conselho tinha sido de seis votos contra um. Al havia sido esse um.
Jack discou para a telefonista, e ela informou que, por um dólar e oitenta e cinco centavos, poderia colocá-lo em contato com Al, a três mil quilômetros de distância, durante três minutos. O tempo é relativo, querida, pensou ele, e depositou dois dólares. Podia ouvir os distantes ruídos eletrônicos da ligação farejando o caminho para o leste.
Al era filho de Arthur Longley Shockley, o barão do aço. Deixara para seu único herdeiro, Albert, uma fortuna e uma enorme gama de investimentos, diretorias e assentos em vários conselhos. Um desses era o Conselho Diretor da Academia Preparatória de Stovington, a obra de caridade preferida do velho. Tanto Arthur quanto Albert eram ex-alunos, e Al morava em Barre, próximo o bastante para ter um interesse particular pela escola. Por muitos anos, Al fora o treinador de tênis de Stovington.