O Iluminado

Stephen King · Capítulo 1 de 9 · parte 3/3

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O Iluminado

Primeira parte: Introdução

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Jack e Al se tornaram amigos de forma completamente natural e acidental: nos muitos eventos da escola, eles eram sempre as duas pessoas mais embriagadas. Shockley estava separado da mulher, e o próprio casamento de Jack estava derrapando lentamente ladeira abaixo, apesar de ele ainda amar Wendy e de lhe prometer sincera (e frequentemente) que ia se regenerar, pelo bem dela e do bebê Danny.

Os dois seguiam bebendo depois de muitas festas do corpo docente, indo de bar em bar, até que estivessem fechados. Terminavam então em uma mercearia para comprar uma caixa de cervejas, que bebiam estacionados no final de alguma estradinha. Havia dias em que Jack chegava cambaleando na casa alugada deles, com a aurora se infiltrando no céu, e encontrava Wendy e o bebê adormecidos no sofá, Danny sempre aconchegado na mãe, com a mãozinha dobrada embaixo do queixo dela. Jack olhava para os dois e a repulsa por si mesmo subia em sua garganta como uma onda amarga, ainda mais forte do que o gosto da cerveja, dos cigarros e martínis… marcianos, como dizia Al. Era para esses momentos que a mente dele se voltava, pensativa e sensata, para o revólver, ou a corda, ou a lâmina de barbear.

Se a farra fosse em dia de semana, ele dormia por três horas, levantava-se, vestia-se, tomava quatro pílulas de Excedrin e saía às nove para dar aula de poesia americana, ainda embriagado. Bom dia, rapazes, hoje o Monstro de Olhos Vermelhos vai lhes contar como Longfellow perdeu a mulher em um incêndio.

Ele não tinha se convencido de que era um alcoólatra, pensava, enquanto o telefone de Al começou a chamar em seu ouvido. As aulas que havia perdido ou dado sem se barbear, ainda com o hálito forte dos marcianos da noite anterior. Eu não, posso parar a qualquer hora. As noites que Wendy e ele passaram em camas separadas. Ouça, estou bem. Para-lamas amassados.

Claro que consigo dirigir. As lágrimas que ela derramara no banheiro.

Olhares desconfiados dos colegas, em qualquer festa em que bebida alcoólica era servida, até mesmo vinho. A percepção lenta de que falavam dele. A consciência de que não estava produzindo nada na máquina de escrever, a não ser bolas de papel quase inteiramente em branco que terminavam na cesta de lixo. Ele fora um achado para Stovington, talvez um escritor americano que desabrochava, e decididamente um homem qualificado para ensinar o grande mistério: como escrever de forma criativa. Publicara duas dúzias de contos. Estava trabalhando em uma peça e pensava que talvez existisse um romance incubando em alguma sala dos fundos mental. Mas agora ele não produzia nada e suas aulas haviam se tornado muito irregulares.

Tudo finalmente terminou em uma noite, pouco menos de um mês após Jack ter quebrado o braço do filho. Aquilo, pareceu-lhe, tinha acabado com seu casamento. Só faltava que Wendy reunisse suas forças… se a mãe dela não fosse uma vaca tão miserável, Wendy teria tomado um ônibus de volta a Nova Hampshire assim que Danny pudesse viajar. E estaria tudo acabado.

Passava um pouco da meia-noite. Jack e Al voltavam para Barre pela rodovia U.S 31. Al, no volante do Jaguar, trocava as marchas cheio de estilo ao fazer as curvas, às vezes cruzando a linha dupla amarela. Ambos estavam muito bêbados; os marcianos haviam aterrissado com força total naquela noite. Faziam a última curva antes da ponte a cento e vinte quilômetros por hora quando uma bicicleta infantil surgiu na estrada, e então ouviram um guinchar agudo e ferido enquanto a borracha era retalhada nos pneus do Jaguar. Jack se lembrava do rosto de Al pairando gradativamente sobre o volante, como uma lua cheia. Depois, o retinir do barulho do impacto contra a bicicleta a setenta quilômetros por hora, ela voando como um pássaro torto e retorcido, o guidom se chocando contra o para-brisa, e então pairando no ar de novo, deixando o vidro estilhaçado, mas inteiro diante dos olhos esbugalhados de Jack. Segundos depois, veio o estrondo final quando aquilo caiu na estrada atrás do carro. Alguma coisa emitiu um baque surdo sob o carro, quando os pneus passaram por cima. O Jaguar derrapou de lado, Al ainda manobrava o volante e, de longe, muito longe, Jack ouvia sua própria voz dizendo: “Santo Deus, Al. Atropelamos alguém. Acabei de sentir”.

O telefone continuava tocando em seu ouvido. Vamos logo, Al. Atenda.

Deixe-me acabar com isso.

Al conseguiu fazer o carro parar soltando fumaça a um metro de um dos pilares da ponte. Dois dos pneus do Jaguar estavam vazios. Haviam deixado no asfalto marcas sinuosas de borracha queimada em uma extensão de

quarenta metros. Entreolharam-se por um momento e voltaram correndo pela escuridão.

A bicicleta estava completamente destruída. Estava sem uma das rodas e, olhando para trás, Al a avistou no meio da estrada, com meia dúzia de raios levantados como cordas soltas de um piano. Al disse, hesitante:

— Acho que foi por cima disso que passamos, cara.

— Então onde está a criança?

— Você viu alguma criança?

Jack franziu as sobrancelhas. Tudo acontecera em uma velocidade tão alucinante. O carro fazendo a curva. A bicicleta aparecendo gradativamente no farol do automóvel. Al gritando alguma coisa. A colisão e a longa derrapagem.

Eles levaram a bicicleta para o acostamento. Al voltou ao Jaguar e ligou o pisca-alerta. Pelas duas horas seguintes, eles vasculharam as margens da estrada com uma poderosa lanterna de longo alcance. Nada. Apesar de ser tarde, vários carros passaram pelo Jaguar encalhado e pelos dois homens com a lanterna. Nenhum deles parou. Jack imaginou depois que uma espécie de providência divina, inclinada a dar aos dois uma última chance, havia mantido os guardas afastados e evitado que os outros motoristas chamassem a polícia.

Às 2h15, os dois voltaram para o carro, sóbrios mas enjoados.

— Se não havia ninguém montado nela, o que a bicicleta estava fazendo no meio da estrada? — indagou Al. — Não estava parada no acostamento; estava na porra do meio da estrada!

Jack se limitava a balançar a cabeça.

— A pessoa não responde — informou a telefonista. — Gostaria que eu continuasse tentando?

— Mais alguns toques, senhora. Não se importa?

— Não, senhor — respondeu a voz, obediente.

Vamos, Al!

Al atravessou a ponte e foi até o telefone público mais próximo, ligou para um amigo solteiro e disse que lhe pagaria cinquenta dólares se ele pegasse na garagem de Al os pneus de neve do Jaguar e os levasse para a ponte da U.S.

31, fora de Barre. O amigo chegou vinte minutos mais tarde, vestindo calça de brim e paletó de pijama. Inspecionou o carro.

— Matou alguém?

Al já estava levantando a traseira do carro com o macaco, e Jack

afrouxando as porcas.

— Graças a Deus, ninguém — disse Al.

— Acho que vou embora. Pode me pagar pela manhã.

— Tudo bem — Al respondeu sem levantar os olhos.

Os dois trocaram os pneus, sem incidentes, e juntos voltaram para a casa de Al Shockley. Após estacionar o carro na garagem e desligar o motor, no silêncio da escuridão Al disse:

— Chega de bebedeira, cara. Tudo encerrado. Liquidei meu último marciano.

Agora, suando na cabine telefônica, ocorreu a Jack que nunca duvidara da capacidade de Al em cumprir a promessa. Voltara para casa dirigindo o fusca com o rádio ligado, tocando música disco em alto volume. Apesar da altura, ainda conseguia escutar o frear estridente dos pneus, o impacto. Com os olhos cerrados, via aquela única roda amassada com os raios apontados para o céu.

Quando chegou, Wendy dormia no sofá. Foi ao quarto de Danny e o encontrou deitado no berço, dormindo profundamente, com o braço ainda imobilizado. Pela luz filtrada que vinha da rua, podia ver no gesso os rabiscos das assinaturas de todos os médicos e de todas as enfermeiras da pediatria.

Foi um acidente. Caiu na escada.

(seu mentiroso sem-vergonha)

Foi um acidente. Perdi o controle.

(seu beberrão, filho da puta do cacete)

Ouça, ei, vamos, por favor, apenas um acidente…

A última desculpa foi, no entanto, afastada pela imagem da lanterna, na busca pelo capim seco de novembro, à procura do corpo caído que devia estar por ali, esperando a polícia. Não importava que Al estivesse dirigindo. Havia noites em que ele dirigia.

Cobriu Danny, foi para o quarto e tirou o revólver que estava em uma caixa de sapatos, na prateleira de cima do armário. Sentou-se na cama, segurando-o por quase uma hora, observando-o, fascinado com seu brilho.

Amanhecia quando o guardou de volta na caixa e no armário.

Pela manhã, telefonou para Bruckner, chefe do departamento, e pediu que por gentileza fosse substituído nas aulas. Estava gripado. Bruckner concordou, com menos boa vontade que de costume. Jack Torrance estivera muito suscetível a gripes no último ano.

Wendy lhe preparou café e ovos mexidos. Comeram em silêncio. O único

som vinha do quintal, onde Danny, usando apenas uma das mãos, brincava contente com seus caminhões percorrendo o monte de areia.

Wendy foi lavar os pratos. De costas para o marido, disse:

— Jack, eu andei pensando.

— É mesmo?

Jack acendeu um cigarro, com as mãos trêmulas. Não estava de ressaca, por estranho que fosse. Apenas tremores. Fechou os olhos. Naquele instante de escuridão, a bicicleta voava contra o para-brisa, quebrando o vidro. O

canto dos pneus. A luz da lanterna.

— Quero conversar com você sobre… sobre o que pode ser o melhor para mim e para Danny. Talvez para você também. Não sei. Devíamos ter conversado antes, eu acho.

— Você pode fazer uma coisa para mim? — Jack olhou para a ponta do cigarro. — Um favor?

— O quê? — Sua voz era monótona e indiferente. Continuava de costas.

— Vamos falar sobre isso daqui a uma semana. Se ainda quiser.

Wendy virou-se para ele, as mãos envolvidas em espuma, o rosto bonito, pálido e desiludido.

— Jack, promessas não adiantam. Você simplesmente continua…

Ela parou, olhando em seus olhos, fascinada, repentinamente insegura.

— Daqui a uma semana — ele repetiu. A voz perdeu a vitalidade e se transformou em um sussurro. — Por favor. Não estou prometendo nada. Se ainda quiser conversar, conversaremos. Sobre qualquer coisa que você queira.

Fitaram-se por um longo tempo na cozinha ensolarada e, quando ela voltou a lavar a louça sem dizer nada, Jack voltou a tremer. Deus, precisava beber.

Apenas um gole para levantar e dar aos fatos sua real perspectiva…

— Danny sonhou que você havia sofrido um acidente de carro — Wendy falou abruptamente. — De vez em quando ele tem sonhos engraçados. Me contou esta manhã, quando eu o estava vestindo. É verdade, Jack? Você sofreu um acidente?

— Não.

Ao meio-dia, a vontade de beber se tornou insuportável. Ele foi à casa de Al.

— Sóbrio? — perguntou a Jack antes de deixá-lo entrar. Al estava horrível.

— Sóbrio de corpo e alma. Você está parecendo Lon Chaney no Fantasma da ópera.

— Entre.

Jogaram buraco a tarde inteira. Não beberam.

Uma semana se passou. Wendy e ele quase não conversaram. Jack sabia que ela o observava, com descrença. Tomava café e inúmeras latas de coca-cola. Uma noite bebeu de uma vez uma caixa inteira com seis cocas, depois correu para o banheiro e vomitou. O número de garrafas de bebida alcoólica no armário não diminuía. Depois da aula, ia para a casa de Al Shockley (Wendy odiava Al Shockley mais do que a qualquer outra pessoa). Quando voltava, a esposa podia jurar que ele estava cheirando a uísque ou gim, mas Jack conversava lucidamente antes do jantar, tomava café, brincava com Danny depois de comerem, dividindo a coca com ele, lia uma história para o filho antes de dormir e se sentava para corrigir redações, com uma xícara de café depois da outra. Ela, então, admitia para si mesma seu engano.

Passaram-se semanas, e a palavra não dita havia se retraído ainda mais dos lábios dela. Jack estava consciente de que havia aposentado a bebida, mas sabia que não seria para sempre. As coisas começavam a ficar um pouco mais fáceis. Em seguida, George Hatfield. Perdera o controle novamente, dessa vez totalmente sóbrio.

— Senhor, a pessoa ainda não…

— Alô? — A voz de Al, sem fôlego.

— Pode falar — disse a telefonista rispidamente.

— Al, Jack Torrance falando.

— Jack, meu amigo! — Havia um prazer genuíno na voz dele. — Como vai?

— Bem. Estou telefonando para agradecer. Consegui o emprego. Tudo certo. Se não conseguir terminar a maldita peça neste inverno, não termino nunca mais.

— Vai terminar.

— Como vão as coisas? — perguntou Jack, hesitante.

— Sóbrias — respondeu Al. — E você?

— De corpo e alma.

— Está sentindo falta?

— Todos os dias.

Al riu.

— Sei como é. Não sei como conseguiu ficar sóbrio depois do episódio com Hatfield. Foi muito além do que se poderia esperar.

— Eu realmente ferrei as coisas pra mim — Jack comentou de forma

consciente.

— Merda. Vou reunir o Conselho na primavera. Effinger já está dizendo que talvez tenha sido muito precipitado da parte deles. E se a peça der em alguma coisa…

— Sim. Ouça, Al, meu filho está lá fora, no carro. E já deve estar impaciente…

— Claro. Entendo. Desejo que vocês tenham uma boa temporada de inverno por aí, Jack. Fico feliz por ter podido ajudar.

— Mais uma vez, obrigado, Al.

Desligou. Ainda dentro da cabine abafada, fechou os olhos e novamente viu a bicicleta e a lanterna. O jornal publicara uma nota no dia seguinte, não mais que para ocupar espaço, sem mencionar o nome do dono da bicicleta.

Por que ela estava durante a noite no meio de uma estrada seria sempre um mistério para eles, e talvez devesse ficar assim.

Voltou para o carro e entregou a Danny a barra de chocolate já um pouco derretida.

— Papai?

— O que foi, velhinho?

Danny hesitou, olhando para a fisionomia absorta do pai.

— Quando eu tava esperando você voltar do hotel, tive um pesadelo. Você lembra? De quando eu dormi?

— Aham…

Mas não adiantava. A cabeça de papai estava em outro lugar, não com Danny. Pensando na Coisa Feia de novo.

(Sonhei que você tinha me machucado, papai.)

— Qual foi o sonho, velhinho?

— Nada — Danny respondeu enquanto saíam do estacionamento. Colocou os mapas de volta no porta-luvas.

— Tem certeza?

— Tenho.

Jack lançou um olhar ligeiro e confuso para o filho, e sua mente se voltou para a peça.

6

CONVERSANDO COM O TRAVESSEIRO

Fizeram amor e seu homem dormia a seu lado.

Seu homem.

Ela sorriu um pouco na escuridão. O sêmen ainda escorria morno e

vagaroso por suas coxas ligeiramente separadas, e o sorriso era tanto de prazer quanto de mágoa, pois a expressão seu homem invocava uma centena de sentimentos. Cada sentimento, analisado por si só, era desnorteador.

Juntos, naquela escuridão impregnada de sono, eram como a melodia distante de uma balada em um bar vazio, triste porém agradável.

Amar seu bem é como rolar um pião,

Mas, se não posso ser sua mulher, com certeza não serei seu cão.

Isso era Billie Holiday? Ou alguém mais prosaico, como Peggy Lee? Não importava. No silêncio de sua mente, tocava suavemente, baixinho e claro, como se estivesse saindo de um daqueles jukeboxes antigos, um Wurlitzer talvez, meia hora antes de o bar fechar.

Agora, no caminho do inconsciente, ela imaginava em quantas camas já havia dormido com aquele homem deitado a seu lado. Eles se conheceram na faculdade e se amaram pela primeira vez no apartamento dele… Isso acontecera uns três meses depois de sua mãe tê-la expulsado de casa dizendo para nunca mais voltar e que, se quisesse ir para algum lugar, que fosse para junto do pai, já que ela é que havia sido a responsável pelo divórcio dos dois.

Isso foi em 1970. Fazia tanto tempo? Seis meses depois, foram viver juntos, encontraram emprego durante o verão e continuaram no apartamento até o último ano de faculdade. Lembrava-se com exatidão daquela cama, uma cama grande que afundava no meio. Quando faziam amor, o colchão de molas rangia no mesmo ritmo. Finalmente conseguira se livrar da mãe no outono. Jack a ajudou. Ela quer continuar agredindo você, dizia Jack. Quanto mais telefonar e se arrastar de volta, implorando perdão, mais ela agredirá você usando seu pai. Isso faz bem a ela, Wendy, pois ela pode continuar fazendo de conta que a culpa foi sua. Mas não faz bem a você. Conversaram sobre isso milhares de vezes naquela cama, naquele ano.

(Jack sentado, com o lençol enrolado na cintura, um cigarro queimando entre os dedos, fixando-lhe o olhar — ele tinha um jeito todo especial de fazer aquilo —, dizendo: — Ela falou para você nunca mais voltar, certo?

Nunca mais aparecer na porta dela, né? Então, por que ela não desliga o telefone quando sabe que é você? Por que só não lhe diz que não quer que você apareça em casa em minha companhia? Porque ela acha que posso acabar com esse teatrinho. Ela quer continuar torturando você, amor. E você será uma tola se continuar permitindo isso. Ela falou para você nunca mais voltar, então por que não faz o que ela disse? Dá um tempo. — Wendy finalmente havia entendido o ponto de vista dele . )

Jack sugeriu uma separação temporária… para fazer um balanço do relacionamento. Ela temia que ele estivesse interessado em outra pessoa.

Mais tarde descobriu que não era esse o motivo. Estavam juntos novamente na primavera, e ele perguntou se Wendy tinha ido ver o pai. Ela pulou como se ele tivesse lhe dado uma chicotada.

Como você sabe disso?

O Sombra sabe.

Você andou me espionando?

E a risada impaciente dele, que sempre a deixava sem graça… como se ela tivesse oito anos, e ele pudesse ver suas razões melhor do que ela própria.

Você precisava de tempo, Wendy.

Para quê?

Acho que… para ver com qual de nós dois você queria se casar.

Jack, o que está dizendo?

Acho que estou pedindo a sua mão.

O casamento. O pai estava presente. A mãe, não. Descobriu que poderia conviver com isso, desde que tivesse Jack. Depois veio Danny, o filho maravilhoso.

Aquele tinha sido o melhor ano, a melhor cama. Depois que Danny nasceu, Jack lhe conseguiu um emprego de datilógrafa para alguns professores do Departamento de Inglês (testes, provas, resumos de aulas, anotações, listas de texto). Ela terminou datilografando um romance para um deles, um romance que nunca foi publicado… para a satisfação muito pessoal e irreverente de Jack. A quarenta dólares por semana, era um bom emprego, e, durante os dois meses em que datilografou o romance, chegou a ganhar sessenta. Compraram o primeiro carro, um Buick de cinco anos, com uma cadeira de bebê no meio.

Um jovem casal inteligente, em ascensão social. Danny estimulou uma reconciliação entre ela e a mãe, uma reconciliação sempre tensa e nunca feliz, mas, ainda assim, uma reconciliação. Quando Wendy levava Danny para visitá-la, ia sem o marido. E não dizia a Jack que a mãe sempre recolocava as fraldas de Danny, franzia a testa em relação à sua maneira de educá-lo e sempre criticava acusadoramente os primeiros sinais de assadura na bundinha do bebê. Nunca dizia as coisas abertamente, mas por meio de indiretas: era o preço que tinha que pagar (talvez para sempre) pela reconciliação… a sensação de não ser uma boa mãe. Era a forma de a mãe continuar com as torturas.

Durante o dia, Wendy ficava em casa, trabalhando nas tarefas domésticas,

dando as mamadeiras para Danny na ensolarada cozinha do apartamento de segundo andar, de quatro quartos, e ouvindo seus discos na vitrola portátil que tinha desde os tempos de escola. Jack chegava em casa às três (ou às duas, se percebesse que podia matar a última aula) e, enquanto Danny dormia, ele a levava para o quarto, e a sensação de incapacidade logo passava.

À noite, enquanto Wendy datilografava, ele escrevia e preparava as aulas.

Naqueles dias, ela saía do quarto onde estava a máquina de escrever e encontrava os dois dormindo no sofá do escritório: Jack apenas de cueca, Danny deitado confortavelmente em seu peito, com o dedo na boca. Ela colocava o filho no berço, lia qualquer coisa que Jack tivesse escrito e depois o acordava para ir para a cama.

A melhor cama, o melhor ano.

Dias melhores virão…

Naquela época, o hábito de bebida de Jack ainda estava sob controle. Aos sábados à noite, eles recebiam uma porção de colegas dele, e havia então uma caixa de cerveja e discussões das quais Wendy raramente participava, pois sua área era sociologia, e a de Jack, inglês: debatiam se os diários de Pepys seriam literatura ou história; discutiam sobre a poesia de Charles Olson; às vezes realizavam a leitura de algum trabalho em andamento. Essas e centenas de outras. Não, milhares. Não sentia vontade de participar: contentava-se em sentar na cadeira de balanço ao lado de Jack, que se sentava no chão com uma lata de cerveja em uma das mãos e com a outra segurava suavemente a panturrilha da mulher ou envolvia o tornozelo dela.

Os alunos na Universidade de Nova Hampshire competiam duramente entre si, e Jack, além disso, carregava o fardo adicional de seus escritos.

Passava pelo menos uma hora, todas as noites, escrevendo. Era a rotina dele.

As reuniões dos sábados eram uma terapia indispensável. Elas o libertavam de coisas que, de outro modo, poderiam ter aumentado e aumentado até explodir.

Depois ele conseguiu o emprego em Stovington, em especial por causa de seus contos… quatro deles já publicados, um deles na Esquire. Wendy se lembrava nitidamente daquele dia; três anos não eram o suficiente para esquecê-lo. Quase jogara fora o envelope, pensando que fosse oferta para assinatura da revista. Ao abri-lo, encontrou uma carta da Esquire dizendo que

gostariam de publicar o conto de Jack, “A respeito dos buracos negros”, no início do ano seguinte. Pagariam novecentos dólares mediante sua aceitação.

Isso correspondia a aproximadamente seis meses de trabalho como datilógrafa, e ela voou para o telefone, deixando Danny na cadeirinha enquanto ele a seguia comicamente com os olhos, o rosto sujo de creme de ervilhas e purê de carne.

Jack chegou da universidade quarenta e cinco minutos mais tarde, com o Buick arriado pelo peso de sete amigos e um barril de chope. Depois de um brinde formal (Wendy também bebeu um copo, apesar de não gostar de cerveja), Jack assinou o termo de cessão, colocou-o no envelope de devolução e foi até a caixa dos correios, na esquina. Quando voltou, parou na porta sério e disse: “Veni, vidi, vici”. Houve aclamações e aplausos. Quando o barril se esvaziou, às onze da noite, Jack e os outros dois únicos companheiros capazes de andar foram circular pelos bares.

Wendy conseguiu falar a sós com ele no hall de entrada do prédio. Os outros dois já estavam no carro, cantando embriagados o hino do Estado de Nova Hampshire. Jack estava ajoelhado, atrapalhado com os cadarços dos sapatos.

— Jack — disse ela —, você não devia. Não consegue nem amarrar seus sapatos, quanto mais dirigir.

O marido se levantou e pôs as mãos calmamente nos ombros de Wendy.

— Esta noite eu poderia pilotar um foguete à Lua se quisesse.

— Não. Nem por todos os contos da Esquire no mundo.

— Volto cedo.

Só chegou às quatro da manhã, cambaleando e resmungando pela escada, acordando Danny ao entrar em casa. Tentou acalmar a criança e a deixou cair no chão. Wendy se precipitou pensando no que sua mãe diria se visse aquele hematoma (que Deus a proteja, que Deus proteja os dois), pegou Danny no colo, sentou-se com ele na cadeira de balanço e o acalmou. Pensara na mãe durante quase todo o período de cinco horas em que Jack passara fora, na profecia da mãe, de que o marido nunca seria alguém. Grandes ideias, dissera a mãe. Claro. As filas da Previdência Social estão cheias de bobalhões cultos com grandes ideias. O conto para a Esquire tornava a mãe com ou sem razão? Winnifred, você não está segurando o bebê da forma correta. Deixe-me carregá-lo. Estaria Wendy segurando o marido da forma correta? Por que ele extravasava sua alegria fora de casa? Uma espécie de medo brotou dentro dela, e não lhe ocorreu que ele tivesse saído por outros motivos.

— Parabéns — disse Wendy, balançando Danny, que já estava quase dormindo novamente. — Talvez você lhe tenha provocado uma concussão.

— Foi apenas um machucado — ele falou contrariado, querendo se arrepender: parecia um garotinho. Durante um minuto, ela o odiou.

— Talvez sim — considerou ela, firme. — Talvez não.

Ouvia a voz da mãe em sua própria voz. Sentia-se enjoada e amedrontada.

— Tal mãe, tal filha — resmungou Jack.

— Vá para a cama! — gritou com raiva. — Vá para a cama, você está bêbado!

— Não me diga o que fazer.

— Jack… por favor, não devemos… isso… — Não havia palavras.

— Não me diga o que fazer — repetiu, mal-humorado, e entrou no quarto.

Wendy ficou abandonada na cadeira de balanço com Danny, que dormia novamente. Cinco minutos depois, os roncos de Jack chegavam à sala. Fora a primeira noite em que ela dormiu no sofá.

Estava agora deitada na cama, virando de um lado para o outro, quase dormindo. Sua mente, livre de qualquer organização linear por causa do sono que se aproximava, flutuava pelo primeiro ano em Stovington, passando tempos cada vez piores que os levaram ao fundo do poço, desde o dia em que o marido quebrara o braço de Danny até chegar àquele café da manhã.

Danny brincava no quintal com os caminhões no monte de areia, o braço ainda engessado. Jack, sentado à mesa, pálido e grisalho, segurava um cigarro entre os dedos trêmulos. Ela havia decidido pedir o divórcio. Ponderara a questão em suas centenas de aspectos durante seis meses. Wendy repetia a si mesma que, se não fosse por Danny, já teria tomado a decisão havia muito tempo, mas nem isso necessariamente era verdade. Sonhava, nas noites longas em que Jack não estava em casa, e os sonhos eram sempre sobre o rosto da mãe e o próprio casamento.

( Quem entrega esta mulher? O pai de pé, vestindo seu melhor terno, que não era grande coisa — ele era um caixeiro-viajante de uma firma de produtos enlatados que estava falindo —, o rosto cansado, parecia tão velho, tão pálido: Eu entrego. )

Mesmo depois do acidente (se é que se podia chamar de acidente), ela não pudera extravasar completamente, admitir que seu casamento havia fracassado. Esperara estupidamente por um milagre, que Jack enxergasse o que estava acontecendo não só com ele, mas com ela. Não houve melhora.

Um gole antes de sair para dar aula. Duas ou três cervejas no almoço. Três ou

quatro martínis antes do jantar. Mais cinco ou seis enquanto corrigia redações. Os fins de semana eram piores. As noites em que saía com Al Shockley, piores ainda. Wendy nunca imaginara que pudesse haver tanta dor em uma vida quando não há nada de errado fisicamente. Ela sentia dor o tempo inteiro. Seria sua culpa? Essa pergunta a assombrava. Sentia-se como a mãe. Como o pai. Às vezes, quando se sentia ela mesma, imaginava como seria para Danny e temia o dia em que ele já estivesse crescido o bastante para culpá-los. E imaginava para onde iriam. Não tinha dúvida de que a mãe a receberia e não duvidava de que, seis meses depois de ver a mãe recolocando as fraldas do seu jeito, refazendo as refeições dele, trocando as roupas de Danny em sua ausência, cortando o cabelo da criança ou levando os livros que considerava inadequados para a idade do menino para o limbo do sótão… seis meses depois de tudo isso, Wendy teria uma crise nervosa. E

a mãe, acariciando a mão da filha e a confortando, diria: Apesar de não ser sua culpa, é exclusivamente sua culpa. Você nunca esteve preparada. Você mostrou sua verdadeira face quando se intrometeu entre mim e seu pai.

Meu pai, o pai de Danny. Meu, dele.

( Quem entrega esta mulher? Eu entrego. Morto de um ataque cardíaco seis meses depois.)

Na noite anterior, Wendy havia ficado deitada, acordada até quase a hora em que ele chegou, pensando, decidindo.

O divórcio era necessário, disse a si mesma. Os pais não faziam parte da decisão. Nem os sentimentos de culpa que ela nutria pelo casamento deles, nem os sentimentos de inadequação em relação ao próprio casamento. Era necessário, pelo bem do filho dela e pelo bem de si mesma, se quisesse salvar qualquer coisa que fosse do início de sua vida adulta. A visão era cruel, mas clara: o marido era um alcoólatra. Tinha um temperamento difícil, um temperamento que não podia mais manter inteiramente sob controle agora que estava bebendo tanto e tendo tantos problemas que nem conseguia escrever. De forma acidental ou não, ele quebrara o braço do filho. Ia perder o emprego mais cedo ou mais tarde. Wendy já havia percebido os olhares de compaixão das esposas dos outros professores. Repetia para si mesma que já havia tolerado a tarefa árdua de seu casamento até onde fora possível. Agora tinha que acabar com isso. Jack teria todo o direito a visitas, e ela receberia pensão apenas até encontrar um emprego, resolver a vida… E isso precisaria ser rápido, pois não sabia até quando Jack poderia sustentá-la. Faria tudo da forma menos dolorosa possível. Mas tinha que ter um fim.

Assim, pensando, Wendy caiu em um sono leve e nada reparador, assombrada pelo rosto dos pais. Você não é nada. É apenas uma destruidora de lares, dizia a mãe. Quem entrega esta mulher? , dizia o pastor. Eu entrego, havia dito o pai. Mas na manhã ensolarada ainda se sentia da mesma forma como havia adormecido. De costas para Jack, as mãos envolvidas pela espuma, iniciara a conversa pela parte desagradável.

— Quero conversar com você sobre… sobre o que pode ser o melhor para mim e para Danny. Talvez para você também. Não sei. Devíamos ter conversado antes, eu acho.

E então ele respondeu uma coisa estranha. Wendy tinha esperado despertar a raiva dele, provocar sua amargura, receber recriminações. Esperara uma corrida louca ao armário de bebidas. Mas nunca aquela resposta calma, sem cor, tão contrária ao modo de ser do marido. Era como se o Jack com quem tinha vivido durante seis anos não tivesse voltado para casa na noite anterior… Como se tivesse sido substituído por uma duplicata sobrenatural que ela jamais conheceria ou com quem jamais se sentiria segura.

— Você pode fazer uma coisa para mim? Um favor?

— O quê? — Precisou controlar a voz para que não saísse trêmula.

— Vamos falar sobre isso daqui a uma semana. Se ainda quiser.

Wendy concordara. Ficou tudo guardado no silêncio entre eles. Naquela semana, ele encontrara Al Shockley mais do que nunca, mas voltava para casa mais cedo sem estar com cheiro de bebida. Wendy pensava que estivesse sentindo o cheiro, mas sabia que não estava. Mais uma semana. Mais outra.

O divórcio voltou para a gaveta e não foi votado.

O que havia acontecido? Wendy ainda pensava nisso e continuava sem ter a menor ideia. O assunto era um tabu entre eles. Jack parecia um homem que dobrara a esquina e encontrara um monstro inesperado, à espreita, agachado em meio aos ossos daqueles que havia matado. A bebida continuava no armário, mas ele não a tocava. Wendy considerou, por dezenas de vezes, a hipótese de jogar tudo fora, mas sempre desistia, como se o ato fosse quebrar a magia.

E ainda havia Danny naquilo tudo para considerar.

Se Wendy tinha a sensação de que não conhecia o marido, tinha então pavor do próprio filho… pavor no sentido mais estrito da palavra: uma espécie de medo supersticioso, indefinido.

Quase dormindo, surgiu a imagem do momento em que o filho nasceu.

Deitada na mesa de parto, banhada de suor, o cabelo ensopado, os pés

afastados nos estribos,

(e um pouco altinha com o gás que lhe davam para inspirar constantemente; em determinado momento, resmungara que sentia como se estivesse em um anúncio de estupro coletivo, e a enfermeira, uma veterana que assistira a nascimentos de crianças suficientes para encher uma escola, achou aquilo muitíssimo engraçado)

o médico entre suas pernas, a enfermeira ao lado arrumando os instrumentos e cantarolando. As dores agudas a intervalos cada vez menores.

Várias vezes ela gritara, apesar da vergonha.

O médico então lhe disse muito severamente que fizesse FORÇA e ela fez, e em seguida sentiu algo sendo tirado de dentro dela. Uma sensação clara e distinta que jamais poderia esquecer — a coisa tirada. Ele ergueu o bebê pelas pernas (ela viu o pequenino pênis e soube imediatamente que era um menino) e, enquanto o médico apalpava a máscara de oxigênio, ela viu mais alguma coisa. Algo tão horrível que encontrou forças para gritar mais uma vez depois de pensar que todos os seus gritos se haviam esgotado.

Ele não tem rosto!

É claro que ele tinha um rosto, o próprio rosto meigo de Danny. O saco amniótico que o envolvia estava agora em um vidrinho que ela guardava, quase envergonhada. Não acreditava em superstições, mas resolveu guardar o saco amniótico mesmo assim. Não acreditava em historinhas de comadres, mas, desde o início, o menino fora diferente. Não acreditava em sexto sentido, mas…

Papai se machucou? Sonhei que papai sofreu um acidente.

Alguma coisa o modificara. Não achava que pudesse ter sido apenas a ameaça do divórcio que tivesse motivado a mudança. Alguma coisa acontecera naquela madrugada. Alguma coisa enquanto ela dormia. Al Shockley garantiu que não havia sido nada, absolutamente nada, mas ele desviava os olhos ao afirmar o fato. E, se fosse para acreditar em boatos do corpo docente, Al também havia parado de beber.

Papai se machucou?

Talvez o destino, nada de mais concreto. Lera o jornal do dia e o do dia seguinte com mais atenção que de costume, mas não viu nada que tivesse ligação com Jack. Que Deus a perdoasse, mas procurava por alguma notícia do tipo “atropelamento e fuga” ou uma briga de bar que tivesse resultado em ferimentos graves ou… quem sabe? Quem queria saber? Mas não aparecera nenhum policial para investigações ou com ordens para inspecionar o para-

choque do carro. Nada. Apenas a mudança de cento e oitenta graus do marido e a pergunta sonolenta do filho ao acordar:

Papai se machucou? Sonhei…

Ela permanecia casada com Jack mais por causa de Danny do que sua consciência admitia, mas agora, ligeiramente adormecida, podia reconhecer: o filho era “o queridinho” de Jack desde o início. Assim como ela mesma havia sido a queridinha do pai desde o início. Danny nunca vomitaria a mamadeira na camisa de Jack. O pai conseguia fazê-lo comer depois que ela já tinha desistido das tentativas, até mesmo quando os dentes de Danny começaram a nascer, causando-lhe dores visíveis ao mastigar. Quando o filho tinha cólicas, Wendy precisava niná-lo durante uma hora até que ele se acalmasse; mas bastava Jack o pegar nos braços, dar duas voltas pelo quarto, que Danny adormecia no ombro do pai, com o dedo na boca.

Ele não se importava de trocar fraldas, mesmo aquelas que chamava de encomendas especiais. Sentava-se com Danny no colo durante horas, balançando-o, mexendo nos dedos das mãos, fazendo caretas enquanto o filho cutucava seu nariz e dava gargalhadas. Jack preparava as mamadeiras e dava na hora certa, só se levantando depois do último arroto. Levava Danny no carro para ir comprar jornais, leite ou pregos na loja de ferragens, mesmo quando o filho ainda era bebê. Os dois foram juntos a um jogo de futebol quando Danny tinha apenas seis meses, e o menino ficou quieto, imóvel, sentado no colo do pai durante toda a partida, enrolado em um cobertor e com uma pequena flâmula do time de Stovington presa no punho gordinho.

Danny amava a mãe, mas era o garotinho do papai.

Wendy não teria sentido, em alguns momentos, a oposição silenciosa do filho à ideia do divórcio? Se estivesse pensando no assunto ao cortar as batatas para o jantar, ao virar-se via Danny sentado na cadeira da cozinha, de pernas cruzadas, encarando-a com um olhar que parecia ao mesmo tempo amedrontado e acusador. Passeando pelo parque, Danny de repente agarrava as mãos dela e perguntava… quase em tom de intimação: “Você me ama?

Você ama o papai?”. E ela, confusa, balançava a cabeça concordando. Ou respondia: “Claro que sim, meu bem”. Ele corria então para o lago dos patos, que fugiam assustados para o outro lado, batendo as asas e grasnando diante de tanta ferocidade, deixando Wendy para trás, olhando para o filho e pensando.

Algumas vezes sua determinação em, pelo menos, discutir o assunto com Jack se desfazia, não por fraqueza, mas por causa do empenho do filho.

Não acredito nessas coisas.

Mas em sonhos acreditava, e, em sonhos, com o sêmen do marido ainda secando em suas coxas, sentia que os três formavam um só corpo… e, se a trindade fosse desfeita, não o seria por nenhum deles, mas por algum fator externo.

A maior parte de suas crenças girava em torno do amor que sentia por Jack. Nunca deixara de amá-lo, a não ser talvez durante aquela fase sombria que se seguiu ao “acidente”. Amava o filho. E, acima de tudo, amava-os juntos no dia a dia; a cabeça grande de Jack e a pequenina de Danny enquanto liam uma revistinha, dividindo uma garrafa de coca-cola. Adorava quando estavam juntos e pedia a deus que o emprego de zelador do hotel, que Al arranjou para Jack, fosse o reinício dos bons tempos.

E o vento vai soprar

E levar embora minhas tristezas…

Suave, doce e melodiosa, a canção foi chegando e a levando a um sono profundo, onde os pensamentos cessavam e onde os rostos que apareciam em sonhos se tornavam esquecidos.

7

EM OUTRO QUARTO

Danny acordou com o estrondo ainda em seu ouvido, e a voz bêbada, selvagem, mal-humorada, gritando rouca: Saia e venha aqui tomar seu remédio! Vou encontrar você! Vou encontrar você!

O estrondo agora era apenas de seu coração disparado, e o único som no meio da noite era o de uma sirene da polícia ao longe.

Estava imóvel, deitado na cama, olhando para as sombras das folhas agitadas pelo vento e refletidas no teto do quarto. Entrelaçavam-se sinuosamente, formando desenhos de trepadeiras em uma floresta, como se fossem tecidas nos fios de um tapete grosso. Ele vestia um pijama de macacão, e, entre o pijama e a pele, havia uma camada fina de suor.

— Tony? — sussurrou. — Você está aí?

Não houve resposta.

Escorregou da cama, arrastou-se até a janela e olhou a rua Arapahoe, que naquele momento estava calma e silenciosa. Eram duas da madrugada. Não havia nada lá fora, a não ser calçadas vazias com montes de folhas secas, carros estacionados e um poste de luz com o pescoço comprido, na esquina

do outro lado da rua, onde ficava o posto de gasolina Cliff Brice. Com o topo encoberto e sua posição imóvel, o poste parecia um monstro em uma exibição espacial.

Olhou para ambos os lados da rua, esforçando a vista à procura da pequena figura de Tony acenando, mas não havia ninguém.

O vento suspirava por entre as árvores, e as folhas caídas chacoalhavam na calçada e em volta das calotas dos carros estacionados. O ruído era fraco e triste, e o menino pensou que talvez fosse o único habitante de Boulder acordado àquela hora e capaz de ouvir o ruído. Pelo menos, o único ser humano. Não havia outro meio de saber o que mais poderia estar solto no meio da noite, andando faminto, às escondidas, por entre as sombras, sentindo o perfume da brisa.