O Reino de Deus Está em Vós

Liev Tolstói · Capítulo 9 de 15

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O Reino de Deus Está em Vós

Capítulo 6

Os homens de nossa sociedade e a guerra

 

A solução das contradições entre a vida e a consciência é possível de duas maneiras: mudar a vida ou mudar a consciência. E não parece que possa existir dúvida na escolha.

O homem pode deixar de fazer aquilo que considere errado, mas não pode deixar de achar errado o que é errado.

Da mesma forma, toda a humanidade pode deixar de fazer aquilo que acha errado, mas não pode não só mudar, mas nem mesmo deter por um momento, o progresso da consciência, cada dia mais lúcida e mais difundida, do que é errado e, portanto, não deve existir. Por isso, parece inevitável, para a humanidade cristã de nosso tempo, a necessidade de renegar as formas pagãs, que condena, e de tomar como base de sua vida os princípios cristãos, que reconhece.

Assim seria se não existisse a lei da inércia, imutável, tanto na vida dos homens e dos povos, como nos objetos inanimados, e que se exprime nos homens pela lei psicológica tão bem formulada nas palavras do Evangelho: “E eles não caminharam para a luz, porque suas ações eram más.” Esta lei existe devido ao que se segue: que a maior parte dos homens não pensa com a finalidade de conhecer a verdade, mas para persuadir-se de que vivem na verdade; para convencer-se de que a vida que vivem, acham agradável e à qual estão habituados é precisamente aquela que se harmoniza com a verdade.

A escravidão foi contrária a todos os princípios morais que pregavam Platão e Aristóteles, no entanto, nem um nem outro percebeu que a supressão da escravidão teria destruído todas as regras da vida à qual estavam acostumados. E o mesmo acontece em nossos tempos.

A divisão dos homens em duas castas, como também a violência política e militar, é contrária a todos os princípios morais que nossa sociedade professa; entretanto, os homens cultos de sua vanguarda não parecem percebê-lo.

Os homens modernos, cultos, senão todos, ao menos em sua maioria, esforçam-se inconscientemente para reter o antigo conceito social da vida, que justifica sua posição, escondendo de si mesmo e dos outros a insuficiência desse conceito e, sobretudo, ocultando a necessidade de adotar o conceito cristão que destrói toda a ordem atual das coisas. Procuram manter o regime fundado no conceito social de vida, em que nem eles mesmos acreditam, porque é tão antigo que não se pode mais acreditar.

Toda a literatura filosófica, política e artística de nosso tempo é característica, neste ponto. Que riquezas de ideias, de formas, de cores! Que erudição e que arte e, ao mesmo tempo, que ausência de teses sérias, que timidez diante da expressão de cada pensamento exato! Das sutilezas, das alegorias, das brincadeiras, os conceitos mais vastos, e nada de simples, de preciso, que se refira ao assunto tratado, ou seja, a questão da vida. E mais: escrevem-se e contam-se futilidades graciosas ou francas impudicícias, divulgam-se embustes, sustentam-se os paradoxos mais refinados, que reconduzem o homem à selvageria primitiva, aos princípios da vida não só pagã, mas também animal, pela qual passamos há cinco mil anos.

Aliás, não pode ser de outro modo. Dando as costas ao conceito cristão da vida que destrói a ordem apenas habitual para uns, habitual e vantajosa para outros, os homens não podem deixar de voltar ao conceito pagão e às doutrinas que dele derivam. Em nossos tempos, prega-se não só o patriotismo e o aristocratismo, como há dois mil anos, mas também o mais rude epicurismo, a bestialidade, com uma só diferença: os homens que outrora pregavam assim, acreditavam, enquanto hoje os pregadores não acreditam no que dizem, e não podem acreditar, porque não faz mais sentido. Não se pode estar parado num lugar quando o século se move; se não se vai adiante, volta-se atrás e – coisa estranha e terrível! – os homens cultos de nosso tempo, aqueles que caminham na vanguarda, com seus raciocínios especiais, arrastam para trás a sociedade, não para o estado pagão, mas para o estado das primitivas barbáries.

Não podem ser mais bem reveladas essas tendências dos homens cultos de nosso tempo do que por sua atitude em presença do fenômeno pelo qual manifestou-se a insuficiência do conceito social da vida: a guerra, o armamento geral e o serviço militar obrigatório.

A falta de clareza – a menos que haja boa-fé – na atitude dos homens cultos em presença desse fenômeno é surpreendente. Essa atitude manifesta-se de três maneiras: uns consideram o fenômeno como algo ocasional, produto da situação política da Europa e suscetível de ser melhorado sem mudanças na ordem interna da vida dos povos, mas por meio de simples medidas externas, internacionais e diplomáticas; outros veem o fenômeno como algo terrível e atroz, mas inevitável e fatal como a doença ou a morte; outros, ainda, encaram a guerra com tranquilidade e sangue-frio, como algo necessário, benéfico e, portanto, desejável.

Os homens tratam desse assunto de diversas formas, mas uns e outros falam de guerra como de um acontecimento que na verdade não depende da vontade dos homens, que, contudo, dela participam, e, sendo assim, não admitem a pergunta que se apresenta naturalmente a qualquer pessoa que conserva o próprio bom-senso: devo tomar parte nisso? Em sua opinião, esse gênero de questão não existe e cada homem, qualquer que seja sua opinião pessoal sobre a guerra, deve sutilmente submeter-se às exigências do poder.

A atitude dos primeiros, dos que creem na possibilidade de evitar a guerra com medidas internacionais e diplomáticas, está bem clara nas resoluções do último Congresso Universal da Paz, em Londres, em 1892, e nos artigos e cartas escritos sobre a guerra por escritores célebres e reunidos no número 8 da Revista das Revistas, de 1891. Eis os resultados do Congresso: havendo reunido de todos os pontos do globo as opiniões verbais ou escritas dos doutos, o Congresso, em seus trabalhos, iniciados com um serviço religioso na catedral e encerrados com um banquete seguido de diversos brindes, escutou durante cinco dias inúmeros discursos e chegou às seguintes resoluções:

1. O Congresso afirma que a fraternidade entre os homens implica, como consequência

necessária, uma fraternidade entre as nações.

2. O Congresso reconhece a importante influência que o cristianismo exerce sobre o

progresso moral e político da humanidade, e recorda, com insistência, aos ministros do

Evangelho e às outras pessoas que se ocupam da educação religiosa, a necessidade de difundir

estes princípios de paz e de boa vontade, que são a base dos ensinamentos de Jesus Cristo, dos

filósofos e dos moralistas; e o Congresso recomenda que a cada ano seja escolhido o terceiro

domingo do mês de dezembro para ser feita uma especial propagação destes princípios.

3. O Congresso emite a opinião de que os professores de História deveriam chamar a atenção

dos jovens sobre os terríveis males infligidos à humanidade em todos os tempos de guerra e

sobre o fato de que quase todas as guerras foram provocadas, em geral, por razões absolutamente

insignificantes.

4. O Congresso protesta contra o uso dos exercícios militares, dados como exercícios físicos

nas escolas, e sugere a formação de brigadas de salvamento, em vez das que possuam um caráter

quase militar. E insiste sobre a utilidade de inculcar nas comissões de examinadores

encarregados de formular as perguntas para os exames a necessidade de dirigir a inteligência dos

jovens para princípios da paz.

5. O Congresso é da opinião que a doutrina dos direitos imprescritíveis do homem exige que

os povos indígenas e fracos sejam defendidos, em seus territórios, em sua liberdade e em suas

propriedades, contra qualquer injustiça e qualquer abuso quando em contato com povos civis, e

que sejam protegidos dos vícios tão predominantes nas nações ditas adiantadas. Afirma, além

disto, a convicção de que as nações deveriam agir de acordo para alcançar este objetivo. O

Congresso deseja exprimir seu cordial apreço pelas conclusões da Conferência Antiescravagista,

recém-realizada em Bruxelas, quanto à melhoria do estado das populações africanas.

6. O Congresso está convencido de que os prejuízos militares e as tradições ainda

profundamente enraizadas em certas nações, como as exageradas declarações que fazem, nas

Assembleias Legislativas e nos órgãos de imprensa, certos condutores da opinião pública, são,

com muita frequência, a causa indireta das guerras. O Congresso faz, então, votos para que

sejam eliminados estes erros, publicando-se fatos exatos e informações que dissipem os mal-

entendidos que se infiltram por entre as nações. O Congresso recomenda também à Conferência

Interparlamentar que examine atentamente a conveniência de ser criado um jornal

internacional, destinado a corresponder às necessidades acima expressas.

7. O Congresso propõe à Conferência Interparlamentar que aconselhe seus membros à

defesa, frente a seus respectivos Parlamentos, dos projetos de unificação dos pesos e medidas,

das moedas, das diversas tarifas, dos regulamentos postais e telegráficos, dos meios de transporte

etc., devendo essa unificação constituir uma verdadeira união comercial, industrial e científica

dos povos.

8. O Congresso, considerando a enorme influência moral e social da mulher, conclama cada

uma, como esposa, mãe, irmã, cidadã, a encorajar tudo o que tende a assegurar a paz, porque,

de outra forma, ela incorre em grande responsabilidade pela continuação do Estado de guerra e

de militarismo, que não só aflige como também corrompe a vida das nações. Para concentrar e

aplicar esta influência de forma prática, o Congresso convida as mulheres a se unirem às

sociedades para a propaganda da paz universal.

9. O Congresso exprime a esperança de que a Associação pela Reforma Financeira e outras

sociedades do gênero, na Europa e nos Estados Unidos, se unam para convocar em futuro

próximo uma Conferência que examine os melhores meios capazes de estabelecer relações

comerciais equitativas entre os Estados, com a redução das taxas de importação, como um

primeiro passo para o câmbio livre. O Congresso acredita poder afirmar que, mantendo a

recíproca confiança, o mundo civil deseja a paz, e espera com impaciência o momento de ver

cessar os armamentos que, construídos a título de defesa, tornam-se, por sua vez, um perigo, e

são simultaneamente a causa do mal-estar econômico geral que impede a discussão, em

condições satisfatórias, das questões que deveriam vir à frente de todas as outras, as do trabalho

e da miséria.

10. O Congresso, reconhecendo que o desarmamento geral seria a melhor garantia da paz e

conduziria à resolução, do ponto de vista dos interesses gerais, das questões que agora dividem

os Estados, emite o voto de que um congresso de representantes de todos os Estados da Europa

seja reunido o mais depressa possível, para providenciar os meios de efetuar o desarmamento

gradual geral, que já se vislumbra como possível.

11. O Congresso, visto que a timidez de um só governo poderia bastar para retardar

indefinidamente a convocação do congresso acima mencionado, é da opinião de que o governo

que primeiro decidir mandar de volta ao lar um número considerável de soldados terá prestado

um dos maiores serviços à Europa e à humanidade, porque obrigará os outros governos,

sensibilizados pela opinião pública, a seguir seu exemplo e, com a força moral desse fato

consumado, terá aumentado, em vez de diminuir, as condições de sua defesa nacional.

12. O Congresso, considerando que a questão do desarmamento, como da paz em geral,

depende da opinião pública, recomenda às sociedades da paz, aqui representadas, e também a

todos os amigos da paz, que se dediquem a uma propaganda ativa junto ao público,

especialmente durante os períodos de eleições parlamentares, a fim de que os eleitores deem

seus votos aos candidatos que terão como parte de seu programa a paz, o desarmamento e a

arbitragem.

13. O Congresso congratula os amigos da paz pela resolução adotada na Conferência

Americana Internacional (exceto os representantes do México), em Washington, no último mês

de abril, na qual foi aconselhado que a arbitragem se torne obrigatória em todas as contestações

relacionadas com privilégios diplomáticos e consulares, fronteiras ou limites, territórios,

indenização, direitos de navegação, ou concernentes à validade, à estipulação e à execução dos

tratados e, em todos os outros casos, quaisquer que sejam a origem, a natureza e a ocasião,

exceto aqueles que, segundo o parecer de qualquer nação, parte interessada na controvérsia,

poderiam colocar em perigo a independência dessa nação.

14. O Congresso respeitosamente recomenda esta resolução à atenção dos homens de Estado

da Europa e da América e exprime o ardente desejo de que tratados feitos em termos análogos

sejam prontamente assinados pelas outras nações do mundo, de modo a prevenir qualquer causa

de conflitos futuros entre eles e, ao mesmo tempo, para servir como exemplo aos outros Estados.

15. O Congresso exprime sua satisfação pela adoção, por parte do Senado espanhol, no dia

16 de junho passado, de um projeto de lei que autoriza o governo a concluir tratados gerais ou

especiais de arbitragem, para a regulamentação de qualquer contenda, exceto as que se referem à

independência ou administração interna dos Estados em litígio. Exprime também sua satisfação

pela adoção de resoluções visando o mesmo objetivo por parte do Storthing norueguês no dia 6

de março passado e por parte da Câmara italiana a 11 de julho corrente.

16. O Congresso pede que se forme um Comitê de cinco membros para preparar, em seu

nome, uma mensagem ou comunicado às principais instituições religiosas, políticas, comerciais,

do trabalho e da paz, de todas as nações civis, para pedir-lhes que enviem petições aos governos

de seus respectivos países solicitando que tomem as medidas necessárias à constituição de

tribunais convenientes, chamados a solverem as questões internacionais e, assim, evitarem

recorrer à guerra.

17. Considerando: 1º – que o fim ao qual aspiram todas as sociedades da paz é a

consolidação da ordem jurídica entre as nações; 2º – que a neutralização garantida em tratados

internacionais constitui um preparo para esse Estado jurídico e diminui o número de lugares

onde a guerra poderá ser feita; o Congresso recomenda uma extensão sempre maior do regime

de neutralização, e expressa, em primeiro lugar, que todos os tratados que hoje asseguram a

certos Estados as vantagens da neutralidade permaneçam em vigor, ou, sendo o caso, sejam

modificados de modo que garantam a neutralidade mais efetiva, seja estendendo a neutralização

à totalidade do Estado do qual apenas uma parte seja neutra, seja ordenando a demolição de

fortalezas que constituem mais um perigo do que uma garantia de neutralidade; em segundo,

que novos tratados, contanto que sejam conforme à vontade das populações às quais se referem,

sejam concluídos, para estabelecer a neutralidade de outros Estados.

18. A sessão do Comitê propôs:

I. Que as ulteriores reuniões do Congresso da Paz sejam fixadas antes da mesma reunião da Conferência Internacional anual, ou logo após, e na mesma cidade; II. Que a questão da escolha do emblema internacional da paz seja adiada para data indeterminada;

III. Que sejam tomadas as seguintes resoluções:

a. Encaminhar testemunho de satisfação à Igreja presbiteriana dos Estados Uni1.4dos por sua proposta oficial aos representantes superiores de cada sociedade religiosa de fé cristã, para que se reúnam a fim de examinar, em comum, os meios adequados para substituir a guerra por uma arbitragem internacional; b. Encaminhar, em nome do Congresso, homenagem à memória de Aurelio Saffi, o grande jurista italiano, membro do comitê da Liga Internacional da Paz e da Liberdade;

IV. Que os atos do Congresso, assinados pelo presidente, sejam transmitidos, na medida do possível, aos chefes de todos os países civis, por delegações autorizadas; V. Que o comitê de organização seja autorizado a fazer as necessárias correções nos

documentos e processos verbais adotados;

VI. Que sejam tomadas também as seguintes resoluções:

a. Exprimir o reconhecimento do Congresso aos presidentes de suas diversas sessões; b. Exprimir o reconhecimento ao presidente, aos secretários e aos membros de seu gabinete;

c. Exprimir o reconhecimento aos membros de suas diferentes sessões; d. Exprimir o reconhecimento ao reverendo Scott Holland, ao reverendo doutor Reuen Thomas e ao reverendo J. Morgan Gibbon por seus discursos antes da abertura do Congresso, como também ao clero da catedral de São Paulo, de City Temple e da igreja de Stamford Hill, pela utilização dos prédios para os serviços públicos. e. De apresentar carta de reconhecimento a Sua Majestade, por haver autorizado aos membros do Congresso a visita ao palácio de Windsor; f. De igualmente agradecer ao lord mayor e sua esposa, como ao senhor Passmore Edwards e outros amigos que concederam sua hospitalidade aos membros do Congresso.

19. O Congresso exprime seu reconhecimento a Deus, pela notável harmonia que não deixou

de reinar, durante as sessões, entre tantos homens e tantas mulheres de nacionalidades e credos,

línguas, povos diferentes, reunidos num esforço comum, para o final feliz dos trabalhos dos

congressistas; e exprime sua firme e tenaz confiança no triunfo final da causa da paz e nos

princípios defendidos em suas sessões.

A ideia fundamental do Congresso foi a necessidade: em primeiro lugar, de propagar entre os homens, por todos os meios, a convicção de que a guerra é absolutamente contrária a seu interesse e de que a paz é um grande benefício; em segundo lugar, de agir sobre os governos para demonstrar-lhes as vantagens que oferecem, em comparação com as guerras, os tribunais de arbitragem e, então, o interesse e a necessidade do desarmamento.

Para atingir o primeiro objetivo, o Congresso dirigiu-se aos professores de História, às mulheres e ao clero, e aconselhou-os a consagrar o terceiro domingo do mês de dezembro à pregação contra os males da guerra e a favor dos benefícios da paz. Para atingir o segundo objetivo, o Congresso dirigiu-se aos governos e propôs-lhes o desarmamento e a substituição da guerra pela arbitragem.

Pregar aos homens os males da guerra e os benefícios da paz! Mas eles conhecem tão bem esses males e esses benefícios que, desde que existem, o melhor augúrio sempre foi: “A paz esteja convosco!” Então, por que pregar isso?

Não só os cristãos, mas também todos os pagãos, há milhares de anos, conhecem os males da guerra e os benefícios da paz. Então, essa recomendação de que haja uma data especial – o terceiro domingo do mês de dezembro – para a propagação da paz é supérflua.

O cristão não pode deixar de pregá-la a cada dia de sua vida; e se os cristãos e os padres do cristianismo não o fazem, não é sem razão; e não o farão até que as razões já expostas não sejam afastadas. O conselho dado aos governos para dispensar seus exércitos e substituí-los pela arbitragem internacional é ainda mais útil. Os governos não ignoram as dificuldades que apresentam o recrutamento e a manutenção das tropas; se, então, eles as organizam e as mantêm sob as forças armadas à custa de inauditos esforços, é porque, evidentemente, não podem fazer de outro modo, e os conselhos do Congresso não mudarão tal situação. Mas os doutos não querem perceber este fato e esperam sempre encontrar uma combinação que obrigue os governos a reduzir por si mesmos seu próprio poder.

“Pode-se exorcizar a guerra?”, escreve um douto na Revista das Revistas. E continua:

Todos estão de acordo ao reconhecer que, acaso ela venha a eclodir na Europa, suas

consequências serão talvez iguais às das grandes invasões. Comprometerá até mesmo a própria

existência das nações e, por conseguinte, será sanguinolenta, implacável, atroz.

Assim, essa contradição, unida às dos terríveis instrumentos de destruição de que dispõe a

Ciência moderna, talvez retarde a declaração e mantenha as coisas num estado que poderia ser

levado a limites indefinidos, não fossem os enormes pesos que oprimem as nações europeias e

ameaçam, ao se prolongarem, conduzir a ruínas e desastres não maiores do que os produzidos

pela própria guerra.

Atingidos por estas ideias, pessoas de todos os países procuraram meios práticos para deter

ou, ao menos, atenuar os efeitos das espantosas carnificinas cuja ameaça paira sobre nossas

cabeças.

Tais são as questões, colocadas na ordem do dia da próxima abertura do Congresso da Paz

em Roma, publicação de um recente opúsculo sobre o desarmamento.

Infelizmente, é também certo que, com a organização atual da maior parte dos Estados

modernos, isolados uns dos outros, e guiados por interesses diversos, a supressão absoluta da

guerra é uma ilusão pela qual seria perigoso deixar-se levar. Porém, algumas leis ou alguns

regulamentos mais sábios impostos aos duelos entre as nações teriam, ao menos, o resultado de

circunscrever os erros.

É, ainda, bastante quimérico contar com os projetos de desarmamento – cuja execução se

torna quase impossível considerar sob um caráter popular –, presentes no espírito de nossos

leitores. A opinião pública não está preparada para aceitá-los e, por outro lado, as relações

internacionais estabelecidas entre os diversos povos são tais que impossibilitam esta aceitação.

Um desarmamento imposto por um povo a um outro em condições perigosas para a sua

segurança equivaleria a uma declaração de guerra.

Todavia, pode-se admitir que uma troca de ideias entre os povos interessados ajudará, de

certo modo, o acordo internacional indispensável a essa transação, e tornará possível uma

sensível redução das despesas militares que oprimem as nações europeias, com graves danos das

soluções sociais, cuja necessidade, entretanto, impõe-se a cada uma delas, individualmente, sob

pena de ter, internamente, a guerra evitada no exterior.

Pode-se ao menos pedir a redução das enormes despesas que resultam da atual organização da guerra, com o fim de invadir um território em 24 horas e travar uma batalha decisiva na semana seguinte à sua declaração.

“É preciso agir de tal modo que os Estados não se possam atacar entre si e, em 24 horas, apoderar-se de terras estrangeiras.” Esta ideia prática foi expressa por Maxime du Camp e forma a conclusão do seu artigo.

As propostas de Maxime du Camp são as seguintes:

1º – Um congresso diplomático, em que estejam representadas as diversas potências, se

reunirá a cada ano, em data e durante um tempo determinado, para examinar a situação dos

povos entre si, para amainar as dificuldades e servir de árbitro em caso de conflito latente;

2º – Nenhuma guerra poderá ser declarada antes de dois meses depois do incidente que a

terá provocado. No intervalo, o dever dos neutros será propor uma arbitragem;

3º – Nenhuma guerra será declarada antes de ser submetida, por plebiscito, à aprovação das

nações que se preparam para ser beligerantes;

4º – As hostilidades não poderão ser abertas senão um mês após a declaração oficial de

guerra.

Mas quem poderia impedir que as hostilidades começassem? Quem obrigará os homens a fazer isto ou aquilo? Quem forçará os governos a esperar os períodos fixados? Todos os outros Estados. Mas todos os outros Estados são também potências, as quais é preciso moderar e forçar. E quem forçaria, e como? A opinião pública. Mas, se existe uma opinião pública que pode forçar a potência a respeitar os períodos fixados, a mesma opinião pública pode forçar a potência a de fato não declarar a guerra.

Mas, objeta-se, é possível obter tal ponderação de forças, que impeça as potências de sair da reserva. Isto já não foi, talvez, tentado, e não o é ainda? A Santa Aliança não era senão isto, a Liga da Paz não é outra coisa etc. etc.

Mas, se todos entram em acordo?, responde-se. Se todos entram em acordo, a guerra não mais existirá e todos os tribunais de arbitragem tornam-se inúteis.

“Um tribunal de arbitragem! A arbitragem substituirá a guerra. As questões serão resolvidas pela

arbitragem. A questão 13 Alabama foi resolvida por um tribunal de arbitragem, a das ilhas Carolinas foi submetida à arbitragem do papa. A Suíça, a Bélgica, a Dinamarca, a Holanda, todas declararam preferir a arbitragem à guerra.”

Estou convencido de que também Mônaco expressou o mesmo desejo.

Falta apenas uma pequena coisa, que é esta: que nem a Alemanha, nem a Rússia, nem a Áustria, nem a França demonstraram até agora a mesma inclinação.

Como os homens zombam facilmente de si mesmos quando têm interesse! Os governos consentiram em resolver suas discórdias com a arbitragem e a dispensar seus exércitos. As contestações entre a Rússia e a Polônia, entre a Inglaterra e a Irlanda, entre a Áustria e a Boêmia, entre a Turquia e os eslavos, entre a França e a Alemanha sendo amainadas por meio de conciliação amigável.

Seria, nem mais, nem menos, como se fosse proposto aos negociantes e aos banqueiros que nada vendessem acima do preço de compra, que se ocupassem sem benefício da distribuição de riquezas e que suprimissem o dinheiro, tornado inútil.

Mas como o comércio e as operações bancárias consistem unicamente em venda mais cara do que o preço de compra, esta proposta equivaleria a um convite de suicídio. Assim é para os governos. A proposta de não usar a força, mas resolver seus mal-entendidos com justiça, é um conselho de suicídio. É pouco provável que consintam.

Os cientistas se agrupam em sociedades (destas existem mais de cem), em congressos (ocorreram recentemente em Paris, em Londres, em Ruma); pronunciam discursos, se reúnem em banquetes, fazem brindes, publicam revistas e assim demonstram por todos os meios que os povos, obrigados a manter milhões de homens no exército, não aguentam mais e que esses armamentos estão em oposição ao progresso, aos interesses e aos desejos das populações; mas que, sujando muito papel, gastando muitas palavras, poderia se colocar todos os homens de acordo e fazer com que não tenham mais interesses opostos, e, então, que não haja mais guerra.

Quando eu era criança, fizeram-me crer que, para capturar um pássaro, bastava colocar-lhe um grão de sal na cauda. Tentei então aproximar-me de um pássaro com o sal, mas logo me convenci de que se eu tivesse podido colocar-lhe sal na cauda, teria sido igualmente fácil para mim pegá-lo, e compreendi que havia sido enganado.

Os homens que leem os artigos e livros sobre arbitragem e desarmamento devem também perceber que alguém está zombando deles.

Se é possível colocar um grão de sal na cauda de um pássaro, é porque ele não voa, e é fácil capturá-lo. Se tem asas e não quer ser preso, não deixa que lhe ponham sal na cauda, que a qualidade própria do pássaro é voar. Do mesmo modo, a qualidade própria do governo é comandar e não obedecer. Sempre tende a isso e nunca abandonará o poder voluntariamente. Ora, já que o poder lhe é dado pelo exército, ele nunca renunciará ao exército e à sua razão de ser – a guerra.

O erro emerge dos doutos juristas, que – enganando-se e enganando os outros – afirmam em seus livros que o governo não é o que é: uma reunião de homens que exploram os outros, mas, segundo a ciência, a representação do conjunto de cidadãos. Afirmaram-no por tanto tempo que acabaram acreditando eles mesmos; persuadiram-se, assim, que a justiça pode ser obrigatória para os governos. Mas a História demonstra que, de César a Napoleão, e deste a Bismark, o governo é sempre, em sua essência, uma força que viola a justiça e que não pode ser diferente. A justiça não pode ser obrigatória para aquele ou aqueles que dispõem de homens enganados e treinados na violência – os soldados – e que, graças a eles, dominam os outros. Por isso, os governos não podem consentir em diminuir o número desses homens treinados e obedientes que constituem toda a sua força e influência.

Este é o modo de ver de uma parte dos doutos quanto à contradição que pesa sobre nossa sociedade, e tais são seus meios para resolvê-la. Digam a esses que a solução depende unicamente da atitude pessoal de cada homem em presença da questão moral e religiosa hoje colocada – isto é: a legitimidade ou ilegitimidade do serviço militar obrigatório –, esses doutos nada farão além de erguer os ombros e sequer se dignarão a responder.

Não veem nesta questão senão uma ocasião para pronunciar discursos, publicar livros, nomear presidentes, vice-presidentes, secretários; uma ocasião para se reunir ou falar nesta ou naquela cidade. Segundo eles, toda essa tagarelice, escrita ou falada, deve provocar este resultado: os governos deixarão de recrutar soldados, base de sua força, e, seguindo seus conselhos, dispensarão os exércitos e ficarão sem defesas, não só diante de seus vizinhos, como também diante de seus súditos. Seria como uma quadrilha de bandidos que, tendo amarrado fortemente alguns homens desarmados, para roubá-los, se deixassem enternecer por discursos sobre sofrimento causado a suas vítimas pela corda que as amarra, e se apressassem a cortá-la.

Existem, todavia, pessoas que acreditam em tudo isso, que se dedicam aos congressos de paz, pronunciam discursos e escrevem livros: os governos, compreende-se, dão a eles muitas provas de simpatia e fingem encorajá-los, como fingem proteger a sociedade de repressões, enquanto, em sua maioria, continuam a existir apenas graças à embriaguez dos povos; como fingem proteger a instrução, enquanto sua força tem por base precisamente a ignorância; como fingem garantir a liberdade e a Constituição, enquanto seu poder mantém-se graças à ausência de liberdade; como fingem cuidar da melhoria da vida dos trabalhadores, enquanto sua existência repousa sobre a opressão do operário; como fingem sustentar o cristianismo, enquanto o cristianismo destrói qualquer governo.

Nossa sociedade incumbe-se da repressão, mas de modo que este cuidado não possa diminuir a embriaguez; da instrução, mas de modo que, longe de destruir a ignorância, não faz senão aumentá-la; da liberdade e da Constituição, mas de modo que não se impeça o despotismo; da sorte dos operários, mas de modo que não sejam alforriados de sua escravidão; do cristianismo, mas do cristianismo oficial que sustenta os governos, em vez de destruí-los.

Existe, agora, um novo cuidado: a paz. Os soberanos que hoje se aconselham com seus ministros decidem, apenas por sua vontade, se o grande massacre começará este ano, ou no próximo ano. Sabem muito bem que todos os discursos deste mundo não impedirão, quando assim decidirem, de mandar milhões de homens para o matadouro. Escutam com prazer semelhantes dissertações pacíficas, encorajam-nas e delas participam.

Longe de serem nocivas, estas são, pelo contrário, úteis aos governos, porque desviam a atenção dos povos e os afastam da questão principal, essencial: deve-se ou não submeter-se à obrigatoriedade do serviço militar?

“A paz será dentro em pouco organizada, graças às alianças, aos congressos, aos livros e aos opúsculos. Neste ínterim, enverguem seus uniformes e fiquem prontos a, por nós, cometer e a sofrer violências”, dizem os governos; e os doutos organizadores de congressos e os autores de memórias pela paz aprovam integralmente.

Assim agem e assim pensam os cientistas desta primeira categoria. Sua atitude é a que mais proveito traz aos governos e, portanto, a que mais é encorajada por eles.

O ponto de vista de uma segunda categoria é mais trágico. É o dos homens aos quais parece que o amor pela paz e a necessidade da guerra são uma terrível contradição, mas destino do homem. São, em sua maioria, homens de talento, de natureza impressionável, que veem e compreendem todo o horror, toda a imbecilidade e toda a barbárie da guerra; mas, por uma estranha aberração, não veem e não procuram nenhuma saída para essa desoladora situação da humanidade, como se deliberadamente quisessem revolver a chaga.

Eis um excelente exemplo, tirado do célebre escritor francês Guy de Maupassant. Observando de seu iate as manobras e os exercícios de tiro dos soldados franceses, ocorreram-lhe as seguintes reflexões:

Quando penso somente nesta palavra, guerra, me assalta um desânimo, como se me falassem

de bruxaria, de Inquisição, de algo longínquo, fundo, abominável, monstruoso, contra a

natureza.

Quando se fala de antropófagos, sorrimos com orgulho, proclamando a nossa superioridade

sobre aqueles selvagens. Quais são os selvagens, os verdadeiros selvagens? Aqueles que lutam

para comer os vencidos ou aqueles que lutam para matar, com o único intuito de matar?

Os soldados de infantaria que correm ao longe estão destinados à morte, como o rebanho de

carneiros que um açougueiro vislumbra diante de si na estrada. Cairão numa planície, com a

cabeça quebrada por um golpe de espada ou com o peito perfurado por uma bala; e são jovens

que poderiam trabalhar, produzir, ser úteis. Seus pais são velhos e pobres, e suas mães, que

durante vinte anos os amaram, adoraram como adoram as mães, saberão dentro de seis meses,

ou talvez de um ano, que seu filho, o menino, o menino grande, educado com tanto sacrifício,

com tanto dinheiro, com tanto amor, foi jogado numa fossa, como um cachorro, depois de ser

estripado por um tiro de canhão e pisoteado, amassado, moído pelas cargas de cavalaria. Por que

mataram seu filhinho, seu lindo filhinho, sua única esperança, seu orgulho, sua vida? Ela não

sabe. Sim, por quê?

A guerra!... lutar!... degolar!... massacrar os homens!... e temos hoje, em nosso tempo, com a

nossa civilização, com a vastidão da ciência e com o grau de filosofia ao qual o ser humano

acredita ter chegado, escolas onde se aprende a matar, e matar a distância, com perfeição, muita

gente ao mesmo tempo, a matar pobres-diabos de homens inocentes, arrimos de família e sem

antecedentes criminais.

E o mais assombroso é que o povo não se volta contra os governos. Que diferença há, então,

entre as monarquias e as repúblicas? O mais assombroso é que a sociedade inteira não se rebela

contra estas palavras: guerra mundial.

Ah! Viveremos sempre sob o peso dos velhos e odiosos costumes dos preconceitos

criminosos, das ideias ferozes dos nossos antepassados bárbaros, porque somos bestiais e

continuaremos como bestas, que o instinto domina e nada muda. Talvez não houvesse sido

condenado ao desterro um outro que não fosse Victor Hugo, quando lançou aquele grito de

libertação e de verdade? Hoje, a força chama-se violência e começa a ser julgada; a guerra é

posta em cheque. A civilização, por denúncia do gênero humano, instrui o processo e reúne a

grande documentação criminal dos conquistadores e dos capitães. Os povos começam a

compreender que o engrandecimento criminal de um delito não pode ser a diminuição; que se o

ato de matar é um delito, matar muito não pode ser uma circunstância atenuante; que se o ato

de roubar é uma vergonha, invadir não pode ser uma glória! Ah! proclamemos estas verdades

absolutas, desonremos a guerra!

“Cóleras vãs”, continua Maupassant, “ira de poeta. A guerra é mais venerada do que nunca.” Um hábil artista neste setor, um massacrador talentoso, o senhor Moltke, respondeu um dia,

aos delegados da paz, com estas estranhas palavras:

“A guerra é santa, instituiu-a Deus; é uma das leis sagradas do mundo; mantém nos homens

todos os grandes e nobres sentimentos: a honra, o desinteresse, a virtude, a coragem, e impede-

os, numa palavra, de cair no mais horrível materialismo.”

Assim, reunir-se em rebanhos de quatrocentos mil homens, marchar dia e noite sem

repouso, em nada pensar, nada estudar, nada aprender, nada ler, a ninguém ser útil, dormir

emporcalhados na lama, viver como brutos em contínuo hebetismo, saquear cidades, incendiar

vilarejos, arruinar povos, lutar, então, com outra aglomeração de carne humana, cair sobre ela,

fazer lagos de sangue, planícies de carne massacrada misturada à terra enlameada e avermelhada

por pilhas de cadáveres; ter braços ou pernas arrancados, despedaçado o cérebro sem proveito

para ninguém, ou explodir num campo enquanto seus velhos pais, sua mulher e seus filhos

morrem de fome: eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo!

Os homens de guerra são o flagelo do mundo. Lutamos contra a natureza e a ignorância,

contra obstáculos de toda espécie, para tornar menos dura a nossa mísera vida. Existem homens,

benfeitores, cientistas, que consomem sua existência a trabalhar, a procurar o que pode ajudar, o

que pode socorrer, o que pode servir de alívio a seus irmãos. Continuamente imersos em sua útil

tarefa, acumulam descobertas, ampliam os horizontes da mente humana, enriquecem o

patrimônio da Ciência, dedicam à sua pátria, a cada dia, bem-estar, abundância, força.

Vem a guerra. Em seis meses, os generais destroem vinte anos de esforços, paciência e gênio. Eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo. Nós vimos a guerra. Vimos os homens, embrutecidos, fora de si, matarem por prazer, por

terror, por bravata, por ostentação. Quando o direito não mais existe, quando a lei está morta,

quando desaparece qualquer noção de justiça, vimos fuzilarem inocentes encontrados pela

estrada e transformados em suspeitos porque tinham medo. Vimos matarem cães acorrentados

defronte às portas de seus patrões, para experimentar revólveres novos; vimos metralharem por

prazer vacas deitadas num campo, sem qualquer razão, para tirar as balas dos fuzis, assim, de

brincadeira.

Eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo. Entrar numa aldeia, trucidar o homem que defende sua casa, porque veste uma camisa e não

traz na cabeça um quepe, queimar habitações de miseráveis que não têm mais pão, arrebentar

móveis, roubar, beber o vinho encontrado nas cantinas, violar as mulheres encontradas pelas

estradas, queimar milhares de liras e deixar atrás de si a miséria e a cólera.

Eis o que se chama não cair no mais horrível materialismo. O que fizeram, então, para dar provas de um pouco de inteligência os homens de guerra?

Nada. O que inventaram? Canhões e fuzis. Eis tudo.

O inventor do carrinho de mão não fez mais pelo homem com esta simples e prática ideia de

aplicar uma roda a dois bastões do que o inventor das modernas fortificações?

O que resta da Grécia? Livros, mármores. Será grande, talvez, porque venceu? Ou porque

produziu?

Foi a invasão dos persas o que os impediu de cair no mais horrível materialismo? Foram as invasões dos bárbaros que salvaram Roma e a regeneraram? Napoleão I continuou, talvez, o grande movimento intelectual iniciado pelos filósofos no fim

do século passado?

Pois bem, já que os governos desta forma se atribuem o direito de morte sobre os povos, não

é de admirar que os povos se atribuam o direito de morte sobre os governos.

Eles defendem-se. Têm razão. Ninguém tem o direito absoluto de governar os outros. Não se

pode fazê-lo senão para o bem daqueles que dirigem. Qualquer governo tem o dever de evitar a

guerra, como um capitão de navio tem o de evitar o naufrágio.

Quando um capitão perde sua embarcação, é julgado e condenado, se reconhecido culpado

de negligência ou mesmo de incapacidade.

Por que não se deveria julgar um governo após cada guerra declarada? Se os povos

compreendessem isto, se julgassem por si mesmos os poderes assassinos, se não admitissem se

deixarem morrer sem razão, se empregassem suas armas contra aqueles de quem as receberam

para matar, nesse dia a guerra estaria morta... Mas esse dia nunca chegará.

Sobre a água

Guy de Maupassant vê todo o horror da guerra, vê que é causada por governos que, enganando os povos, induzem-nos a se degolarem reciprocamente sem utilidade alguma; vê, ainda, que os cidadãos que compõem os exércitos poderiam voltar suas armas contra os governos e fazê-los pagar; mas pensa que isto nunca acontecerá e que, em consequência, não há saída possível.

“Penso que a obra de guerra é terrível mas inevitável; que a obrigatoriedade do serviço militar é inevitável como a morte e, uma vez que os governos sempre a desejarão, a guerra sempre existirá.”

Assim escreve esse escritor de talento, sincero, dotado da faculdade de penetrar no âmago do argumento, que constitui a essência do dom poético. Ele nos mostra toda a crueldade da contradição entre a consciência dos homens e suas ações, mas não tenta resolvê-la e parece reconhecer que essa contradição deve existir e que contém em si a tragédia poética da vida.

Outro escritor, não menos brilhante, Edouard Rod, pinta com cores até mais vivas as barbáries e a loucura da situação atual, mas também com o único intuito de constatar seu caráter trágico, sem propor qualquer saída.

Para que agir? Para que empreender o que quer que seja? E como amar os homens, nesta

época conturbada na qual o amanhã não é senão uma ameaça?... Tudo isto que começamos,

nossas ideias que amadurecem, nossas obras vislumbradas, aquele pouco de bem que teríamos

podido fazer, não será carregado pela tempestade que se prepara?... Por toda parte o terreno

treme sob nossos pés, e nosso horizonte vai-se cobrindo de nuvens que não nos serão benéficas.

Ah! Se não fosse preciso temer a revolução da qual se fez um espectro!... Incapaz de imaginar

uma sociedade mais detestável do que a nossa, tenho pela que a sucederá mais desconfiança que

temor. Se devesse sofrer com a transformação, iria me consolar pensando que os verdugos do dia

são as vítimas da vigília e que a expectativa do melhor faria suportar o pior. Mas não é este

perigo longínquo que me assombra: vejo outro, mais perto e, sobretudo, mais cruel; mais cruel

porque não tem qualquer desculpa, porque é absurdo, porque não pode resultar em bem algum:

a cada dia pensam-se as probabilidades de guerra do amanhã, e elas, dia a dia, tornam-se mais

cruéis.

O pensamento retrocede diante de uma catástrofe que aparece no pináculo do século como o

término do progresso de nossa era e, contudo, é preciso habituar-se: há vinte anos todas as forças

do saber exaurem-se para inventar instrumentos de destruição e dentro em pouco bastarão

alguns tipos de canhão para abater um exército; colocam-se em armas, não mais, como antes,

milhares de pobres-diabos cujo sangue era pago, mas povos inteiros que estão a ponto de se

estrangularem mutuamente; rouba-se deles o tempo (obrigando-os a servir), para roubar-lhes

mais seguramente a vida; a fim de prepará-los para o massacre, atiça-se seu ódio, persuadindo-os

de que são odiados; e homens dóceis deixam-se lograr, e logo se verão atirando-se uns sobre os

outros, com ferocidade de bestas, turbas furibundas de pacíficos cidadãos a quem uma ordem

inábil colocará nas mãos o fuzil, sabe Deus por que ridículo incidente de fronteira ou por que

mercantis interesses coloniais!... Marcharão, como ovelhas ao matadouro, mas, sabendo aonde

vão, sabendo que deixam suas mulheres, sabendo que seus filhos sofrerão fome, ansiosos e

ébrios pelas sonoras e mentirosas palavras trombetadas em seus ouvidos. Marcharão sem se

rebelar, passivos e resignados, enquanto são a massa e a força, e poderiam, se soubessem entender,

estabelecer o bom-senso e a fraternidade, em vez das selvagens práticas da diplomacia.

Marcharão, tão enganados, tão iludidos, que acreditarão ser o massacre um dever e pedirão a

Deus para abençoar seus apetites sanguinários. Marcharão, pisoteando as colheitas que

semearam, incendiando as cidades que construíram, com cantos de entusiasmo, com gritos de

alegria, com músicas de festa. E seus filhos erigirão estátuas àqueles que melhor tiverem

massacrado!...

A sorte de toda uma geração depende da hora em que algum fúnebre homem político der o

sinal, que será seguido. Sabemos que os melhores de nós serão forçados e que nossa obra será

destruída. Sabemos e trememos de cólera, e nada podemos fazer. Ficamos presos na rede dos

gabinetes e das papeladas, cuja destruição provocaria uma agitação por demais violenta.

Pertencemos às leis que fizemos para nos proteger e que nos oprimem. Nada somos além de

objetos dessa contraditória abstração, o Estado, que torna cada indivíduo escravo em nome da

vontade de todos, que, tomados isoladamente, desejariam exatamente o oposto do que serão

obrigados a fazer.

Se a geração que deverá ser sacrificada fosse ao menos apenas uma! Mas existem outros

interesses em jogo.

Os oradores assalariados, os ambiciosos aproveitadores das más inclinações das multidões e

os pobres de espírito, a quem a sonoridade das palavras engana, têm a tal ponto exacerbado os

ódios nacionais que a guerra de amanhã colocará em perigo a existência de toda uma etnia: um

dos elementos que constituíram o mundo moderno está ameaçado, aquele que será vencido

deverá moralmente desaparecer e, qualquer que seja este, se verá uma força aniquilada – como

se, para o bem, houvesse uma a mais! – se verá uma Europa nova se formando, sobre tais bases,

tão injustas, tão brutais, tão sanguinolentas, embrutecida por tão monstruosa mancha, que não

pode ser ainda pior do que a de hoje, mais iníqua, mais bárbara e mais violenta.

Assim, cada qual sente pesar sobre si um imenso desencorajamento. Agitamo-nos num beco

sem saída, com fuzis apontados para nós de todos os telhados. Nosso trabalho parece o dos

marinheiros que executam a última manobra quando o navio começa a afundar. Nossos prazeres

assemelham-se aos do condenado a quem se oferece uma iguaria de seu agrado, 15 minutos

antes do suplício. A angústia paralisa nosso pensamento, e o maior esforço que ele é capaz de

calcular – soletrando os vagos discursos dos ministros, alterando o sentido das palavras dos

soberanos, mudando as palavras atribuídas aos diplomatas e que os jornais divulgam

desordenadamente: se será amanhã ou depois de amanhã, neste ano ou no próximo, que nos

degolarão. De modo que em vão se buscaria na História uma época mais incerta e mais repleta

de angústias...

O sentido da vida

Destas linhas resulta que a força está nas mãos daqueles que se perdem por si mesmos, nas mãos de indivíduos isolados que compõem a massa, e que a fonte do mal está no Estado. Parece evidente que a contradição entre a consciência e a vida tenha atingido limites que não poderiam ser ultrapassados, e nos quais a solução se impõe.

Mas o autor não é desta opinião. Ele vê o caráter trágico da vida humana e, após ter mostrado todo o horror da situação, conclui que a vida humana deve transcorrer nesse erro.

A terceira categoria é dos homens que perderam a consciência e, portanto, o bom-senso e o sentimento pela humanidade.

A essa categoria pertence Moltke, cuja opinião foi citada por Maupassant, como também a maior parte dos militares, educados nessa cruel superstição, vivendo sob ela e, com frequência, ingenuamente convencidos de que a guerra é uma instituição não só inevitável, mas necessária e útil.

Alguns burgueses, ditos doutos e civis, têm a mesma opinião.

Eis o que escreve, no número da Revista das Revistas em que estão reunidas as cartas sobre a guerra, o célebre acadêmico Camille Doucet:

Prezado senhor,

Quando perguntais ao menos belicoso dos acadêmicos se ele é partidário da guerra, a sua

resposta é dada por antecipação.

Desventuradamente, senhor, vós mesmos qualificais de sonho o pensamento no qual se

inspiram hoje vossos generosos compatriotas.

Desde que estou no mundo, sempre ouvi muita gente honesta protestar contra o horrível

hábito de massacre internacional que o mundo reconhece como mau e deplora; mas como

remediá-lo?

Com frequência fomos também tentados a suprimir o duelo, e parecia fácil, mas não! Jamais

o que se fez com este nobre fim trouxe ou trará qualquer benefício.

Todos os congressos dos dois mundos em vão votarão contra a guerra e contra o duelo;

acima de todos os compromissos, de todas as convenções, de todas as legislações, existirão

eternamente:

A honra dos homens, que sempre quis o duelo; e o interesse dos povos, que sempre desejará a

guerra.

Não desejo menos, e de todo o coração faço votos que o Congresso da Paz consiga, enfim,

realizar sua honorabilíssima tentativa.

Recebei, senhor, os protestos etc...

Camille Doucet

O sentido desta carta é que a honra dos homens quer que eles lutem entre si e que o interesse dos povos exige que se arruínem e se massacrem reciprocamente. Quanto às tentativas para suprimir a guerra, nada merecem além de um sorriso.

Deste mesmo gênero é a opinião de outro acadêmico, Jules Claretie:

Prezado senhor,

Não pode existir senão uma única opinião, para um homem sensato, sobre a questão de paz

ou de guerra.

A humanidade é feita para viver, para viver com liberdade de aperfeiçoar e melhorar sua

sorte mediante um trabalho pacífico. O acordo geral pregado pelo Congresso da Paz talvez seja

um belo sonho, mas é, sem dúvida, o mais belo dos sonhos. O homem tem sempre diante dos

olhos a terra prometida, e sobre essa terra do futuro as colheitas deverão amadurecer sem medo

de serem trituradas por granadas, nem amassadas por rodas de canhões. Só que... Ah! Só que,

como os filósofos e os benfeitores da humanidade não são os patrões, será bom que os nossos

soldados vigiem a fronteira e os arredores dos lares, e suas armas, bem-carregadas e bem-

manejadas, talvez sejam as mais seguras garantias da paz que todos amamos.

Não se dá a paz senão aos resolutos e aos fortes. Aceitai, prezado senhor, meus mais sinceros e distintos sentimentos.

Jules Claretie.

O sentido desta carta é que nada impede que se fale do que ninguém tem intenção nem dever de fazer. Mas, quando se trata da prática, é preciso lutar.

Eis agora a opinião recentemente expressa sobre o assunto pelo mais popular romancista da Europa, Émile Zola:

Considero a guerra como uma necessidade fatal que parece inevitável devido a suas íntimas

ligações com a natureza humana e com todo o Universo. Gostaria de adiar a guerra o mais longo

tempo possível. Chega, contudo, um momento no qual somos obrigados a lutar. Neste momento

coloco-me sob o ponto de vista universal, e de modo algum faço alusão à nossa discórdia com a

Alemanha, que nada é além de um insignificante incidente na História da humanidade. Disse

que a guerra é necessária e útil, porque aparece como uma condição de existência para a

humanidade. Encontramos a guerra por toda parte, não apenas entre as diversas etnias e os

diversos povos, mas também na vida familiar e na vida privada. Ela é um dos elementos

principais do progresso, e cada passo à frente dado até agora pela humanidade foi dado sobre o

sangue.

Falou-se e fala-se ainda do desarmamento. O desarmamento é, entretanto, algo impossível e,

ainda que fosse possível, deveria ser rejeitado. Só um povo armado é poderoso e grande. Estou

convencido de que o desarmamento geral teria como resultado uma espécie de decadência

moral que se manifestaria pelo enfraquecimento geral e reteria o caminho progressivo da

humanidade. Uma nação guerreira goza sempre de uma saúde florescente. A arte militar traz

consigo o desenvolvimento de todas as outras artes. A História é testemunha. Assim, em Atenas

e em Roma, o comércio, a indústria e a literatura jamais alcançaram tão grande desenvolvimento

quanto na época em que essas cidades dominavam pela força das armas o mundo então

conhecido. Para tomar um exemplo em tempos mais recentes, recordemos o século de Luís XIV.

As guerras do grande rei não só não impediam o progresso das artes e das ciências, mas, pelo

contrário, parecem tê-las ativado e favorecido seu desenvolvimento.

A guerra, obra útil!

Mas a opinião mais característica neste sentido é do acadêmico De Vogue, o mais dotado entre os escritores desta tendência. Eis o que ele escreve, num artigo sobre a seção militar da Exposição de 1889:

Na esplanada dos Invalides, no centro dos acampamentos exóticos e coloniais, um edifício

mais severo domina o pitoresco bazar; todos estes fragmentos do globo vieram agregar-se ao

palácio da guerra, nossos hóspedes submissos montam guarda em turnos, defronte à casa-mãe,

sem a qual não estariam aqui. Belo tema de antítese para a retórica humanitária; quem não

desiste de se lamentar por estas aproximações e de afirmar que uma coisa matará a outra14 e que

a fusão dos povos, graças à ciência e ao trabalho, vencerá o instinto militar. Deixemo-la acalentar

a quimera de uma idade de ouro que chegaria em breve, caso se pudesse efetivar numa idade de

lama. Toda a História nos ensina que uma coisa é criada por outra, que é preciso sangue para

apressar e cimentar a fusão dos povos. As ciências da natureza têm ratificado, em nossos dias, a

lei misteriosa, revelada a Joseph de Maistre pela intuição de seu gênio e pela meditação sobre os

dogmas primordiais; ele via o mundo resgatar-se de suas decadências hereditárias por meio do

sacrifício; as ciências o mostram aperfeiçoando-se pela luta e pela seleção violenta; as duas partes

dão a constatação do mesmo decreto, redigido em terminologia diferente. A constatação é

desagradável, sem dúvida, mas as leis do mundo não são feitas para nosso deleite, são feitas para

o nosso aperfeiçoamento. Entremos, então, neste inevitável, neste necessário palácio da guerra;

teremos ocasião de observar como o mais tenaz de nossos instintos, sem jamais perder parte de

seu vigor, transforma-se e dobra-se às diversas exigências dos momentos históricos.

A necessidade da guerra é provada pelo senhor De Vogue por duas expressões de dois grandes pensadores, Joseph de Maistre e Darwin, e essas expressões agradam-no tanto que ele as recorda novamente em sua carta ao diretor da Revista das Revistas:

Senhor,

Vós me perguntais meu sentimento quanto ao possível sucesso do Congresso da Paz. Creio,

como Darwin, que a luta violenta é uma lei da natureza que rege todos os seres; creio, como

Joseph de Maistre, que é uma lei divina: duas maneiras diferentes de nomear a mesma coisa. Se,

por um acaso impossível, uma fração da sociedade humana – tomemos todo o Ocidente civil –

conseguisse suspender o efeito desta lei, as etnias mais instintivas se encarregariam de aplicá-la

contra nós: essas etnias dariam razão à natureza contra a razão humana; e teriam sucesso,

porque a certeza da paz – não digo a paz, digo a certeza da paz – geraria, antes de meio século,

uma corrupção e uma decadência mais destrutivas para o homem do que a pior das guerras.

Avalio que é preciso fazer pela guerra, lei criminal da humanidade, o que devemos fazer por

todas as nossas leis criminais, mitigá-las, tornar sua aplicação a mais rara possível, usar de todas

as nossas forças para que se tornem inúteis. Mas toda a experiência da História nos ensina que

não poderemos suprimi-las enquanto existirem na Terra dois homens, o pão, o dinheiro e uma

mulher entre eles.

Ficaria gratíssimo se o Congresso me desmentisse. Duvido que ele desminta a História, a

Natureza, Deus.

Dignai-vos aceitar, senhor, os protestos da minha distinta consideração.

M. de Vogue

O sentido desta carta é que a História, a natureza do homem e Deus nos mostram que a guerra subsistirá enquanto existirem dois homens e, entre eles, o pão, o dinheiro e a mulher. Isto significa que nenhum progresso induzirá os homens a abandonar o selvagem conceito da vida que não admite, sem luta, a divisão do pão, do dinheiro (o que está fazendo aqui o dinheiro?) e da mulher.