O Reino de Deus Está em Vós
Capítulo 2
Por toda parte a mesma história se repente! Não só o governo, mas também a maioria dos liberais, dos livres-pensadores, parece haver adotado a palavra de ordem de desviar cuidadosamente a atenção de tudo aquilo que foi dito, escrito, feito e que ainda se faz para revelar a inconciliabilidade entre a violência em sua forma mais terrível, mais grosseira, mais clara – o militarismo, isto é, a organização da morte – e a doutrina, não direi cristã, mas simplesmente humanitária, que a sociedade pretende professar.
Assim, as informações que recebi sobre até que ponto o verdadeiro significado da doutrina de Cristo foi explicado por muito tempo, e cada vez mais se explica, e qual seja, em relação a esta explicação e ao seguimento da doutrina, a atitude das classes superiores e dirigentes – não só na Rússia, mas também na Europa e nos Estados Unidos – convenceram-me de que, nessas classes, existe uma hostilidade consciente contra o verdadeiro cristianismo, e essa hostilidade se traduz, principalmente, na conspiração do silêncio em que são envolvidas todas as suas manifestações.
2
Opiniões dos fiéis e dos livres-pensadores sobre a não resistência
ao mal por meio da violência
Os comentários que recebi sobre o desejo de se ocultar, apagar, de se fazer silêncio em relação às ideias que procurei exprimir em meu livro, me levaram a reavaliá-lo.
Ao ser publicado, como eu já esperava, o livro foi proibido. Segundo a lei, deveria ser queimado. Mas, por outro lado, foi discutido pelas autoridades; uma enorme quantidade de cópias e litografias circulou e diversas traduções foram editadas no exterior.
E, logo depois, apareceram as críticas, religiosas ou não, que o governo não só tolerou como encorajou. Desse modo, a impugnação de um livro que supostamente ninguém conheceria foi discutida nas academias como tema para obras teológicas.
As críticas a meu livro, russas ou estrangeiras, dividem-se em duas categorias: as críticas religiosas de escritores que se consideram fiéis e as críticas dos livres-pensadores.
Começo pelas primeiras.
Acuso, em meu livro, os doutores da Igreja de ensinarem uma doutrina claramente contrária aos preceitos de Cristo expostos no Sermão da Montanha, sobretudo, ao mandamento da não resistência ao mal e de, com isso, retirarem da doutrina de Cristo toda a sua importância.
Os teólogos admitem o ensinamento, presente no Sermão da Montanha, da não resistência ao mal por meio da violência como revelação divina; então, já decididos a discutir meu livro, por que não respondem eles, antes de tudo, ao ponto principal da acusação? Deveriam dizer francamente se reconhecem ou não como obrigatórios para os cristãos a doutrina do Sermão da Montanha e o mandamento da não resistência ao mal por meio da violência. Em vez de responderem, como frequentemente fazem, que “por um lado não se pode por certo negar, mas, por outro lado, não se pode por certo afirmar... tanto mais que... etc...”, eles deveriam responder com clareza à pergunta que formulo em meu livro. Cristo pedia realmente a seus discípulos que aceitassem os preceitos do Sermão da Montanha? Então, pode ou não o cristão participar da justiça, seja como juiz, seja como acusador, o que se constitui numa apelação à força? Pode ele ou não, permanecendo cristão, participar da administração, isto é, usar da força contra seus semelhantes? E, enfim, pergunta mais importante, a que, com o serviço militar obrigatório, interessa hoje a todos: pode o cristão, contrariamente à indicação tão precisa de Cristo, servir o Exército e assim cometer homicídio ou preparar-se para tal?
Estas perguntas foram formuladas clara e francamente, e mereciam respostas igualmente claras e francas. Mas nada semelhante se encontra em todas as críticas provocadas por meu livro, nem mesmo, aliás, em todas as que responderam aos escritos por meio dos quais se conclamam os doutores da Igreja às verdadeiras prescrições do Evangelho, escritos dos quais a história está repleta, desde os tempos de Constantino.
Por ocasião de meu livro, censuraram-me pela interpretação errada de uma ou outra passagem da Bíblia; porque não reconheço a Trindade, a Redenção e a imortalidade da alma, comentaram meu desvio. Analisaram-se muitos aspectos, mas nada a respeito daquilo que, para todos os cristãos, se constitui na principal, na essencial pergunta de vida: como conciliar a doutrina claramente expressa pelo Senhor e contida no coração de cada um de nós – perdão, humildade, paciência, amor a todos, amigos ou inimigos – com a exigência da guerra e de sua violência contra os nossos compatriotas e contra os estrangeiros?
As aparentes respostas dadas a esta pergunta podem ser agrupadas em cinco categorias. Reuni aqui não apenas o que encontrei nas críticas a meu livro, mas também tudo o que foi escrito sobre esse assunto no passado.
O primeiro e mais grosseiro gênero de respostas consiste na afirmação audaciosa de que a violência não está em contradição com a doutrina de Cristo, que é autorizada e até mesmo ordenada pelo Antigo e Novo Testamentos.
As respostas desse tipo provêm, em sua maioria, de pessoas que se encontram no topo da hierarquia administrativa ou religiosa e que estão, por isso, absolutamente certas de que ninguém ousaria contradizê-las ou, por outro lado, dariam ouvidos a quem o fizesse. Devido à embriaguez do poder, esses homens perderam totalmente a noção do que é o cristianismo (em cujo nome ocupam suas posições), e tudo o que nele se encontra de realmente cristão lhes parece herético, enquanto tudo aquilo que, na Sagrada Escritura, pode ser interpretado no sentido anticristão e pagão parece-lhes o verdadeiro sentido do cristianismo.
Procurando confirmar a afirmação de que o cristianismo não está em contradição com a violência, invocam, com a maior audácia, as passagens mais equivocadas do Antigo e do Novo Testamentos, interpretando-as no sentido menos cristão como, por exemplo, a execução de Ananias e Safira, a de Simão Mago etc. Citam tudo o que lhes parece justificar a violência, como a expulsão dos mercadores do templo e as palavras: “Mas eu vos digo que o Dia do Juízo será mais suportável para a Terra de Sodoma que para vós.” (Mt 11,24)
Consoante a opinião desses homens, um governo cristão não tem, em absoluto, o dever de deixar-se guiar pelo espírito da caridade, pelo perdão às ofensas e pelo amor aos inimigos.
É inútil refutar tal tese, pois aqueles que a defendem refutam a si mesmos, ou melhor, separam-se de Cristo, imaginando seu próprio Cristo e seu próprio cristianismo, em vez daquele por cujo nome existem a Igreja e a posição por eles ocupada. Se todos soubessem que a Igreja reconhece um Cristo vingador, implacável e guerreiro, ninguém seria partidário dessa instituição e ninguém defenderia suas doutrinas.
O segundo meio – um pouco menos grosseiro – consiste em reconhecer que Cristo ensinava, é verdade, a dar a face e o manto, e que esta é, realmente, uma elevada moral..., mas... uma vez que, sobre a Terra, existe um grande número de malfeitores, é preciso mantê-los pela força, para que não se veja perecerem os bons e até mesmo o mundo inteiro. Encontrei pela primeira vez este argumento em São João Crisóstomo, e demonstro sua falsidade em meu livro Minha religião.
Esse argumento não tem valor porque, se permitimos a nós declarar, não importa quem, um malfeitor fora da lei, destruímos toda a doutrina cristã segundo a qual somos todos iguais e irmãos, na qualidade de filhos de um só Pai Celeste.
E mais, ainda que Deus houvesse permitido a violência contra os malfeitores, sendo impossível determinar de modo absolutamente certo a distinção entre o malfeitor e aquele que não é, aconteceria que os homens e a sociedade se considerariam mutuamente malfeitores: coisa que hoje existe. Enfim, supondo que fosse possível distinguir com segurança um malfeitor daquele que não é, não se poderia encarcerá-lo, torturá-lo e condená-lo à morte numa sociedade cristã, porque não haveria nela ninguém para cometer tais atos, sendo qualquer violência proibida ao cristão.
O terceiro meio de responder – mais sutil que os precedentes – consiste na afirmação de que o preceito da não resistência ao mal por meio da violência é certamente obrigatório para o cristão, mas somente enquanto o mal não ameaça senão a ele. Isto, porém, deixa de ser obrigatório quando o mal é dirigido contra seus semelhantes. Nesse caso, não só o cristão não deve se conformar ao preceito mas, ao contrário, deve opor-se à violência usando da violência. Esta afirmação é absolutamente arbitrária e é impossível encontrar-lhe confirmação em toda a doutrina de Cristo. Esta interpretação faz mais do que restringir o preceito: é sua negação absoluta. Se cada homem tem o direito de usar a violência para repelir um perigo que ameaça seu semelhante, muda a questão: não se trata mais de saber se a violência é proibida ou permitida, mas de saber qual a definição do que pode representar perigo para outrem. E se meu raciocínio particular pudesse decidir a questão, eu diria que não existe um só caso de violência que não possa ser explicado pelo perigo alheio. Queimaram e condenaram à morte bruxos; condenaram à morte aristocratas e girondinos; condenaram à morte também seus inimigos, porque os que ocupavam o poder consideravam-nos um perigo para a nação.
Se essa importante restrição, que aumenta a importância do preceito, tivesse estado na mente de Cristo, estaria formulada em algum lugar. Ela não se encontra nas prédicas nem na vida do Mestre. Mas, ao contrário, o que se vê é uma advertência contra tal restrição, tão falsa quanto sedutora. Isso ressalta, com especial clareza, o relato do raciocínio feito por Caifaz, que justamente censura essa restrição. Ele reconhece que é injusto condenar Jesus, inocente, mas vê o perigo não para si, mas para todo o povo. Por isso, diz: “É melhor que morra um só homem do que todo o povo.” O mesmo ensinamento sobressai ainda com mais nitidez das palavras ditas a Pedro quando este tentou se opor à violência dirigida a Jesus. (Mt 26,52) Pedro não defendia a si mesmo, mas a seu Mestre divino e adorado. Mas Cristo proibiu-o, dizendo: “Guarda tua espada no seu lugar, pois todos que pegam a espada, pela espada morrerão.”
Ademais, a violência para defender o semelhante de outra violência nunca é justificada, porque, não tendo sido ainda cometido o mal que se quer impedir, é impossível que se possa adivinhar qual mal será maior, se aquele que se está prestes a cometer ou aquele que se quer impedir. Condenamos à morte um delinquente para dele livrar a sociedade, e nada nos prova que esse delinquente não mudaria amanhã de conduta e que sua execução não seria uma crueldade inútil. Mandamos para a prisão um membro da sociedade, a nosso ver perigoso, mas amanhã esse indivíduo poderia deixar de ser uma ameaça e, então, sua prisão seria inútil. Vejo um bandido perseguir uma jovem. Tenho nas mãos um fuzil. Mato-o. Salvo a jovem; mas a morte ou o ferimento do bandido é fato certo, enquanto o que teria acontecido com a jovem me é desconhecido. Que mal imenso deve resultar, e na realidade resulta, do direito reconhecido pelos homens de prevenir os delitos que poderiam ocorrer! Da Inquisição às bombas de dinamite, das execuções capitais às torturas de dezenas de milhares de delinquentes ditos políticos, 99 por cento desses casos são fundamentados em tal raciocínio.
A quarta categoria de respostas, ainda mais sutis, consiste na afirmação de que o preceito da não resistência ao mal por meio da violência, longe de ser negado, é, pelo contrário, formalmente reconhecido como todos os outros; mas que um significado absoluto não lhe deve ser atribuído, como fazem os sectários.
Fazer dele uma condição sine qua non da vida cristã, à imitação de Garrison, Ballou, Dymond, dos menonitas, dos quakers e como fazem os irmãos morávios, os valdeses, os albigenses, os bogomilos, os paulicianos, é um sectarismo limitado. Esse preceito não tem maior ou menor importância do que todos os outros, e o homem que infringe, devido a sua fraqueza, não importa qual mandamento, inclusive o da não resistência, não deixa de ser cristão, se tem fé.
Esta astúcia é muito hábil e inúmeras pessoas, que desejam ser enganadas, a ela sucumbem sem dificuldade. Consiste isto em transformar a negação consciente do preceito numa infração ocasional. Mas basta comparar a atitude dos ministros da Igreja diante desse preceito e sua atitude frente àqueles que realmente o reconheçam para se convencer da diferença que fazem entre um e outros.
Eles, sem dúvida, reconhecem, por exemplo, o preceito contra a luxúria; assim, jamais admitem que a luxúria não seja um mal; nunca apontam uma ocorrência em que o preceito contra o adultério poderia ser infringido e sempre ensinam que devemos evitar as tentações da luxúria. Nada parecido em relação ao preceito da não resistência. Todos os padres reconhecem casos onde esse preceito pode ser violado, e assim ensinam. E não só ensinam a evitar as tentações das quais a primeira é o juramento, mas eles próprios o pronunciam. Em acontecimento algum aprovam a violação de qualquer outro mandamento; enquanto, em relação à não resistência, professam abertamente que não há necessidade de seguir à risca essa interdição; que não é necessário a ela resignar-se sempre e que, aliás, existem circunstâncias, situações, que exigem justamente o contrário, isto é, nas quais se deve julgar, fazer guerra, condenar à morte. De modo que, quando tratam do preceito da não resistência, o mais comum é que ensinem como não se deve conformar com ele. A observância desse preceito é, dizem eles, muito difícil; é este o apanágio da perfeição. Como não seria difícil observá-lo, na realidade, se sua violação, longe de ser reprovada, é, ao contrário, encorajada, visto que são abertamente abençoados os tribunais, as prisões, os canhões, os fuzis, o Exército e as batalhas? Não é, então, verdade que esse mandamento seja, como os outros, reconhecido pelos ministros da Igreja.
Estes não o reconhecem, simplesmente, por não ousar admiti-lo, e procuram dissimular este ponto de vista.
Tal é a quarta maneira de reagir.
O quinto modo, o mais hábil, o mais adotado e o mais forte, consiste em evitar responder, fingindo considerar essa questão como já há muito resolvida, e da maneira mais clara e mais satisfatória, de tal forma que não se deva mais falar nela. Esta resposta é adotada por todos os escritores religiosos que são instruídos demais para desconhecerem as leis da lógica. Sabendo que é impossível explicar a contradição existente entre a doutrina de Cristo, que nós, e toda a nossa classe social, professamos por palavras, e que, falando a respeito, só se consegue torná-la mais evidente, eles contornam a dificuldade com maior ou menor habilidade, simulando acreditar que a questão da conciliação da doutrina cristã com a
violência já foi resolvida e, absolutamente, não existe.4
A maior parte dos críticos religiosos que se ocuparam do meu livro adotou este argumento. Poderia citar dezenas dessas apreciações nas quais, sem exceção, ele foi sempre repetido. Fala-se de tudo, menos do assunto principal do livro. Como exemplo característico desse tipo de crítica, citarei o artigo do célebre e arguto escritor e pregador inglês Farrar, grande mestre, como todos os teólogos sábios, da arte de subterfúgios e reticências. Esse artigo foi publicado na revista norte-americana Forum do mês de outubro de 1888.
Depois de conscienciosa e rapidamente resumir meu livro, diz Farrar:
Tolstoi chegou à conclusão de que o mundo foi grosseiramente enganado quando se
assegurou aos homens que a doutrina de Cristo de não resistir ao mal por meio do mal é
conciliável com a guerra, com os tribunais, com as execuções capitais, com o divórcio, com o
juramento, com o patriotismo e, em geral, com a maior parte das instituições sociais e políticas.
Ele acredita, hoje, que o reino de Cristo existirá quando os homens seguirem os cinco
mandamentos de Cristo, ou seja: 1º – Viver em paz com todos os homens; 2º – Levar uma vida
pura; 3º – Não jurar; 4º – Nunca resistir ao mal; 5º – Abandonar qualquer fronteira entre as
nações.
Tolstoi nega a origem divina do Antigo Testamento, das Epístolas e de todos os dogmas da
Igreja, como a Trindade, a Redenção, a descida do Espírito Santo e a ordenação, e não
reconhece senão as palavras e os preceitos de Cristo.
Mas é, então, acertada tal interpretação da doutrina de Cristo? São os homens obrigados, e
como ensina Tolstoi, a observar os cinco mandamentos de Cristo?
Diante desta pergunta essencial, a única que levou o autor a escrever o artigo sobre meu livro, que podemos esperar? Que ele nos diga que essa interpretação da doutrina de Cristo é justa e que é preciso a ela obedecer, ou, então, que é inexata, e que ele assim prove e nos dê uma explicação mais acertada para as palavras que compreendo tão mal? Nada disso. Farrar restringe-se a exprimir a “convicção” de que “Tolstoi, ainda que guiado pela mais nobre sinceridade, caiu no erro das interpretações restritas do significado do Evangelho e do pensamento e da vontade de Cristo”. Em que consiste esse erro? Ele não explica, apenas diz: “É impossível, nesse artigo, aprofundar-me nesta demonstração, porque já ultrapassei o número de páginas que me foi fixado.”
E conclui, com admirável tranquilidade de espírito:
Porém, se o leitor se sente atormentado pelo pensamento de que deva, como cristão, a
exemplo de Tolstoi, renunciar às condições habituais de sua vida e viver como um simples
artesão, acalme-se e pense na máxima: 5 Securus Judicat Orbis Terrarum .
Salvo algumas exceções, toda a cristandade, desde o tempo dos apóstolos até nossos dias,
chegou à conclusão de que o objetivo de Cristo era dar aos homens um grande princípio, mas
não destruir as bases das instituições de todas as sociedades humanas, que se fundamentam na
sanção divina e na necessidade. Se eu tivesse tido a missão de provar a impossibilidade da
doutrina do comunismo, que Tolstoi apoia sobre paradoxos divinos (sic), que não podem ser
interpretados senão sobre princípios históricos, de acordo com todos os métodos da doutrina de
Cristo – isso teria demandado um espaço maior do que aquele que tenho à minha disposição.
Que pena! Ele não tinha espaço! E como é estranho que há 15 séculos ninguém tenha espaço para provar que o Cristo em quem acreditamos não tenha dito o que disse. E se poderia, entretanto, tê-lo feito, caso se houvesse desejado. É verdade que não vale a pena provar o que todos sabem. Basta dizer: Securus Judicat Orbis Terrarum.
Tal é, sem exceção, a argumentação de todos os crentes literatos que compreendem, por conseguinte, a falsidade de sua situação. Sua única tática consiste em se apoiar na autoridade da Igreja, em sua antiguidade e seu caráter sacro para intimidar o leitor e dissuadi-lo da ideia de ler o Evangelho e de estudar a fundo a questão. E a coisa funciona. Quem poderia supor, de fato, que aquilo que os arquidiáconos, os bispos, os arcebispos, os santos sínodos e os papas repetem com tanta segurança e tanta solenidade, século após século, não é senão uma pérfida mentira, e que eles caluniam o Cristo com o objetivo de garantir para si mesmos as riquezas de que precisam para levar uma vida agradável em prejuízo dos outros? Sua falsidade tornou-se hoje tão evidente que seu único meio de mantê-la é o de intimidar o público com sua audácia e desenvoltura.
O mesmo ocorre há anos nas sessões de recrutamento. Em uma mesa veem-se diante do zertzal – o símbolo da autoridade do czar –, sentados nos lugares de honra, sob o retrato do imperador, alguns velhos dignitários, todos cobertos de condecorações, conversando livre e negligentemente, escrevendo, chamando homens à sua presença, ordenando. A seu lado, em batina de seda, uma grande cruz no peito, cabelos brancos caídos por sobre a estola, um venerável padre senta-se a uma mesa sobre a qual estão uma cruz de ouro e um Evangelho de ângulos dourados. Chamam Ivan Petrov. Um adolescente malvestido, sujo, assustado, aproxima-se com o rosto descomposto, olhos irrequietos e febris e diz gaguejando, à meia-voz: “Eu... a lei... como cristão... não posso...”
– O que ele diz? – pergunta com impaciência o presidente, piscando, segurando a orelha e levantando a cabeça do livro.
– Fala em voz alta! – grita o coronel cujos galões brilham.
– Eu... eu... como cristão...
Por fim, entende-se que o jovem se recusa ao serviço militar, porque é cristão.
– Não diga asneiras. Abra os braços. Doutor, poderia medi-lo. Está bem?
– Está bem.
– Padre, faça-o prestar juramento.
Não somente ninguém está perturbado, mas nem sequer se dá atenção ao que balbucia aquele pobre adolescente assustado.
– Todos têm algo a dizer, como se tivéssemos tempo para escutá-los. Restam ainda muitos recrutas a examinar!
O recrutado parece querer acrescentar algo:
– Isto é contra a lei de Cristo.
– Sai, sai! Não precisamos de ti para saber o que está conforme a lei e o que não está. Sai! Vai-te embora! Padre, catequiza-o. Passemos a um outro: Vassili Nikitine!
E o jovem é conduzido para fora, trêmulo.
E ninguém suspeita – nem os guardas, nem Vassili Nikitine, que é introduzido no local naquele momento, nem uma só pessoa dentre as que assistiram a esta cena – que aquelas poucas palavras incoerentes, pronunciadas pelo jovem e rapidamente reprimidas, contêm a verdade, enquanto os solenes discursos dos funcionários e do padre, calmos e seguros, nada são do que mentira e enganação!
Os artigos de Farrar produzem a mesma impressão. O mesmo ocorre com todos os discursos retóricos, com tratados e livros que vêm a público tão logo a verdade apareça em algum lugar, para revelar a mentira imperante. Sem perda de tempo, escritores e oradores, verborrágicos ou hábeis, elegantes ou solenes, levantam e tratam de questões à margem do assunto, tendo, por outro lado, o cuidado de silenciar a respeito do tema em si.
É este o quinto método de reputação, o mais eficaz para ocultar a contradição em que se colocou o cristianismo oficial, professando a doutrina de Cristo na teoria, mas negando-a na prática.
Aqueles que tentam se justificar pelo primeiro método, afirmando aberta e brutalmente que o Cristo tenha autorizado a violência, as guerras, as matanças, afastam-se conscientemente da doutrina evangélica. Aqueles que se defendem pelo segundo, terceiro e quarto métodos emaranham-se em sua própria contradição, e é fácil convencê-los da mentira; mas os últimos, que não raciocinam ou não se dignam raciocinar, que se escondem atrás de sua grandeza, que aparentam acreditar que todas essas questões tenham sido resolvidas há muito tempo, por eles ou por outros, e não dão mais lugar a dúvidas, esses supostos impassíveis permanecerão serenos enquanto os homens estiverem submetidos à sugestão hipnótica dos governos e da Igreja. Assim foi, em relação a meu livro, a atitude dos teólogos, que professam a religião cristã.
Não poderiam ter tido outra. Eles estão presos pela contradição em que se encontram – a fé na divindade do Mestre e a negação de suas palavras mais claras –, contradições às quais se querem subtrair a qualquer custo.
Por conseguinte, não se poderia esperar deles uma argumentação independente sobre a própria essência da questão, sobre modificações das condições da existência que resultariam na aplicação da doutrina de Cristo à ordem atual. Eu esperava esse tipo de raciocínio por parte dos críticos livres-pensadores que não estão presos à fé e podem julgar livremente; esperava ver os livres-pensadores considerarem Cristo não apenas como fundador de uma religião de salvação pessoal (como entendem os partidários da Igreja), mas também como um reformador que derruba as antigas bases da sociedade e constrói novas, uma reforma ainda não concluída, e cuja efetivação prossegue a cada dia.
Este conceito da doutrina de Cristo é o de meu livro. Para meu grande assombro, entre as inúmeras críticas a ele feitas, não se encontrou uma única, russa ou estrangeira, que tenha tratado o tema sob este ponto de vista, isto é, considerando a doutrina de Cristo como uma doutrina filosófica, moral e social (segundo a expressão dos doutores).
Os livres-pensadores russos não viram em meu livro nada além do preceito da não resistência ao mal, e (provavelmente pela comodidade da objeção) compreenderam esse preceito no sentido absoluto, ou seja, como a interdição de qualquer luta contra o mal. Eles o atacaram com furor e demonstraram vitoriosamente, durante vários anos, que a doutrina de Cristo é falsa, uma vez que proíbe a oposição ao mal. Os críticos refutaram essa suposta doutrina de Cristo com tanto maior sucesso quanto sabiam muito bem, antecipadamente, que sua argumentação não seria relevada ou retificada, já que, havendo a censura proibido o livro, proibia, da mesma forma, qualquer artigo a seu favor.
É algo notável que entre nós, onde não se pode dizer uma só palavra sobre a Sagrada Escritura sem que se intrometa a censura, esse preceito de Cristo clara e formalmente expresso (Mt 5,39) foi, durante anos, falsamente interpretado, criticado, condenado e ridicularizado em todas as revistas.
Os livres-pensadores russos, ignorando, sem dúvida, o que foi feito a respeito do exame da questão de não resistência ao mal por meio da violência, fazendo até mesmo, aliás, crer que eu houvesse inventado pessoalmente essa regra, atacavam-na, falsificavam-na e refutavam-na com o máximo ardor. Buscavam argumentos, há longo tempo examinados e rejeitados sob todos os aspectos, para provar que o homem deve necessariamente defender (com violência) todos os fracos e todos os oprimidos, e que, portanto, a doutrina da não resistência ao mal é uma doutrina imoral.
Para os críticos russos, toda a importância da pregação de Cristo aparece como um suposto impedimento voluntário de certa ação direta contra tudo o que ele considerava, então, como um mal. De tal modo que o princípio da não resistência ao mal por meio da violência foi atacado por dois campos opostos: pelos conservadores, porque esse princípio teria impedido a resistência ao mal causado pelos revolucionários, sua perseguição e sua execução capital; e pelos revolucionários, porque esse princípio impedia a resistência ao mal causado pelos conservadores, e sua queda.
Os conservadores indignavam-se porque a doutrina da não resistência impedia a enérgica repressão dos elementos revolucionários que poderiam comprometer o bem-estar da nação; os revolucionários indignavam-se porque essa doutrina os impedia de derrubar os conservadores que comprometiam o bem-estar da nação. É notável que os revolucionários atacassem o princípio da não resistência ao mal por meio da violência, que é também o mais terrível, o mais perigoso para qualquer despotismo, pois,
desde que o mundo existe, todas as violências – da Inquisição à fortaleza de Schlüsselburg 6 – fundamentaram-se e fundamentam-se ainda no princípio contrário.
Ademais, os críticos objetavam ainda que a aplicação do preceito da não resistência à vida prática afastaria a humanidade do caminho da civilização, por ela seguida.
Ora, o caminho da civilização seguido pelos povos europeus é, em sua opinião, precisamente aquele que toda a humanidade deve sempre seguir.
Tal é o caráter principal das críticas russas.
As críticas estrangeiras eram concebidas com o mesmo espírito, mas diferiam bastante nas objeções. Estas se diferenciavam das críticas russas não só pelo sentido íntimo, mas também por mais urbanidade e menos paixão na forma.
Falando, a propósito de meu livro, da doutrina evangélica em geral, tal como é estabelecida no Sermão da Montanha, os críticos estrangeiros afirmam que essa doutrina não é, para dizer a verdade, a do cristianismo (que, em suas opiniões, é representado pelo catolicismo ou pelo protestantismo), mas apenas uma série de encantadoras e impraticáveis utopias Du charmant docteur, como dizia Renan, admissíveis para os habitantes meio-selvagens que viviam na Galileia há 1.800 anos, ou, ainda, para os meio-selvagens russos – Sutaiev, Bondarev e o místico Tolstoi –, mas absolutamente não aplicáveis às sociedades europeias possuidoras de grande cultura.
Os livres-pensadores estrangeiros tentaram, de maneira bastante delicada, dar a impressão de que a minha convicção de que a humanidade seria capaz de conformar-se com a ingênua doutrina do Sermão da Montanha devia-se à minha falta de saber, à minha ignorância da história e de todas as vãs tentativas feitas no passado para pôr em prática na vida os princípios dessa doutrina; e, ainda, que eu desconhecia o alto grau de civilização a que chegaram hoje as nações europeias, com os canhões Krupp, com a pólvora sem fumaça, com a colonização da África, com a administração da Irlanda, com o Parlamento, com o jornalismo, com as greves, com as Constituições, com a Torre Eiffel.
Assim escreveram o senhor De Vogue, o senhor Leroy-Beaulieu, Mathieu Arnold; assim escreveram o norte-americano Savage, Ingersoll – o popular livre-pensador e orador também norte-americano – e tantos outros.
“A doutrina de Cristo não é praticável porque não corresponde a nosso século industrial”, dizia ingenuamente Ingersol, exprimindo assim, com muita franqueza e clareza, a opinião das pessoas cultas e refinadas sobre a doutrina de Cristo. Ela não é prática em nosso século industrial! Como se a ordem de nosso século industrial, tal qual existe, fosse sagrada e não pudesse ser modificada! Seria como se bêbados respondessem, ao conselho de se tornarem mais sóbrios, que tal conselho não teria cabimento devido a seu estado de embriaguez.
As opiniões de todos os críticos, russos ou estrangeiros, apesar das diferenças de tom e forma, conduzem, em substância, ao mesmo estranho mal-entendido, ou seja: que a doutrina de Cristo, da qual um dos princípios é a não resistência ao mal por meio da violência, não nos é possível, pois nos obrigaria a modificar toda a nossa vida.
A doutrina de Cristo não é possível porque, se fosse seguida, nosso modo de viver como é, hoje, não poderia continuar. Em outras palavras, se tivéssemos começado a viver bem como nos ensina Cristo, não teríamos podido continuar a viver mal como fazemos e como nos habituamos. Quanto à questão da não resistência ao mal, ela não só não pode ser discutida, como o simples fato de tal prescrição no Evangelho é já prova suficiente da impossibilidade de toda a doutrina.