O Reino de Deus Está em Vós
Capítulo 3
Parece, contudo, necessário dar alguma solução a essa questão, porque ela é a base de tudo o que é de nosso interesse.
Nisso consiste a dificuldade. Como resolver o antagonismo entre pessoas, algumas das quais consideram um mal aquilo que outras consideram um bem e vice-versa? Porque declarar como mal o que assim considero, apesar da afirmação de meu adversário, que declara ser o mesmo um bem, não é uma resposta. Não podem existir senão duas soluções: ou encontrar um critério verdadeiro, indiscutível, do que se chama mal, ou não resistir ao mal com o mal.
A primeira solução foi tentada no princípio dos tempos históricos e, como sabemos, não deu qualquer resultado satisfatório. A segunda solução é não resistir com o mal ao que classificamos como sendo o mal, até que tenhamos encontrado um critério certo: e isto foi o que nos ensinou Cristo.
Pode-se considerar a solução de Cristo insatisfatória, pode-se substituí-la por outra, melhor, dando um critério que determina para todos o que é o mal. Pode-se achar simplesmente inúteis essas questões, como fazem os povos selvagens; mas não se pode, como fazem os críticos que tratam do estudo da doutrina evangélica, aparentar a crença de que essas questões não existem ou que já tenham sido resolvidas pelo direito reconhecido a certos homens ou a certas classes de homens (sobretudo se delas fazemos parte) de definirem o mal e de a ele resistirem usando da violência. Tal atribuição, sabemos todos, nada resolve, pois sempre se encontram homens que se negam a reconhecer esse direito a outros homens.
Os críticos leigos na doutrina cristã ou nada entendem da questão, ou fundamentam seus argumentos numa definição arbitrária do mal, definição que a eles parece indiscutível. De tal modo que os estudos sobre meu livro, leigos ou religiosos, mostraram-me simplesmente que a maior parte dos homens não compreende não só a palavra de Cristo, mas sequer as questões às quais ela corresponde.
3
O cristianismo mal compreendido pelos fiéis As informações que recebi após a publicação de meu livro, tanto sobre o modo de compreender a doutrina de Cristo, em seu verdadeiro significado, por uma minoria de pensadores, quanto sobre as críticas, religiosas ou leigas, por ele provocadas e nas quais se nega a possibilidade de compreender a doutrina de Cristo em seu significado literal, convenceram-me de que, enquanto para a minoria essa doutrina, longe de deixar de ser compreensível, revelava-se cada vez mais clara, para a maioria seu significado se tornava sempre mais obscuro. Essa obscuridade chegou a tal ponto que os homens não mais compreendem as noções mais simples, expressas no Evangelho com as mais simples palavras.
Os ensinamentos de Cristo não são entendidos em seu verdadeiro, simples e direto sentido, ainda hoje, tendo a luz da doutrina de Cristo penetrado até os recônditos da consciência humana, quando, conforme as Suas palavras, o que se dizia ao pé do ouvido pode ser gritado de cima dos telhados; quando essa doutrina se mescla a todas as manifestações da vida doméstica, econômica, social, política e internacional, seria inexplicável que permanecesse incompreendida se para tanto não houvesse causas especiais.
Uma dessas causas é que tanto fiéis como ateus estão firmemente convencidos de que compreenderam, há muito tempo, tão completa, positiva e definitivamente a doutrina evangélica, que não é possível atribuir-lhe um significado diverso daquele que lhe é dado. E sua interpretação errônea é fortalecida pela antiguidade da tradição. O rio mais copioso não pode acrescentar uma gota d’água a um copo já cheio.
Pode-se explicar ao homem mais ignorante as coisas mais abstratas, se ele ainda não tem noção alguma sobre elas; mas não se pode explicar a coisa mais simples ao homem mais inteligente, se ele está firmemente convencido de saber muito bem o que se lhe quer ensinar.
A doutrina de Cristo apresenta-se aos homens de nosso tempo como uma doutrina perfeitamente conhecida desde há muito em seus mínimos detalhes, e que não pode ser compreendida de modo diverso do que o é atualmente.
O cristianismo é, assim, para os fiéis, uma revelação sobrenatural, milagrosa, de tudo o que é dito no Credo. Para os livres-pensadores é uma manifestação esgotada do desejo que têm os homens de crer no sobrenatural, um fenômeno histórico que encontrou sua expressão definitiva no catolicismo, na ortodoxia, no protestantismo, e que para nós não possui mais qualquer significado prático. A importância da doutrina é ocultada dos fiéis da Igreja e dos livres-pensadores da ciência.
Comecemos a falar dos primeiros.
Há 1.800 anos, em meio ao mundo romano, surge uma nova doutrina, estranha, nada semelhante a nenhuma das que a haviam precedido e atribuída a um homem, Cristo.
Essa doutrina era inteiramente nova (tanto na forma como na substância) para o mundo judaico que a tinha visto nascer e, sobretudo, para o mundo romano, onde era pregada e propagada.
Em meio às complicadíssimas regras religiosas do mundo judaico – onde, segundo Isaías, havia regra sobre regra – e à legislação romana, levada a um alto grau de perfeição, surge uma nova doutrina que negava não apenas todas as divindades, como também todas as instituições humanas e suas necessidades. Em troca de todas as regras das antigas crenças, essa doutrina não oferecia senão um modelo de perfeição interna, de verdade e de amor na pessoa do Cristo e, como consequência da perfeição interna, a perfeição externa, preconizada pelos profetas: o reino de Deus, no qual todos os homens, não mais sabendo odiar, serão unidos pelo amor, e no qual o leão estará frente ao cordeiro. Em vez de ameaças de castigo para as infrações das regras ditadas por antigas leis religiosas ou civis, em vez de atrair recompensas por sua observância, essa doutrina atraía apenas por ser a verdade.
“Se alguém quiser cumprir Sua vontade, saberá se minha doutrina é de Deus ou se falo de mim mesmo.” (Jó 7,17)
“Vós, porém, procurais matar-me, a mim que vos falei a verdade”, (Jó 8,40) “e a verdade vos fará livres. Não devemos obedecer a Deus senão com a verdade. Toda a doutrina será revelada e compreendida pelo espírito da verdade. Façam o que Deus lhes manda e conhecerão a verdade.” (Jó 8,36)
Nenhuma outra prova da doutrina foi apresentada além da verdade, a adequação da doutrina com a verdade. Toda a doutrina consistia na busca da verdade e em sua observação, na efetivação cada vez mais perfeita da verdade e do desejo de se aproximar dela, sempre mais, na vida prática. Segundo essa doutrina, não é por meio de práticas que o homem se torna justo. Os corações elevam-se à perfeição interna por intermédio de Cristo, modelo de verdade, e à perfeição externa pela efetivação do reino de Deus. O cumprimento da doutrina está no caminho da estrada indicada, na busca da perfeição interna pela imitação de Cristo, e da perfeição externa graças ao estabelecimento do reino de Deus. A maior ou menor felicidade do homem depende, segundo essa doutrina, não do grau de perfeição que ele pode alcançar, mas do seu caminho mais ou menos rápido para essa perfeição.
O ímpeto para a perfeição do publicano Zaqueu, da pecadora, do ladrão na cruz é, segundo essa doutrina, uma felicidade maior que a virtude imóvel do fariseu. A ovelha desgarrada é mais querida ao coração do pastor do que 99 ovelhas não desgarradas; o filho pródigo, a moeda perdida e reencontrada, são mais caros a Deus do que tudo o que nunca foi perdido.
Cada situação, segundo essa doutrina, não é mais que uma etapa para o caminho da perfeição interna e externa realizável. Eis por que ela não tem importância. A felicidade não consiste senão em aspirar sempre à perfeição; a pausa em qualquer grau de perfeição é a pausa da felicidade.
“A mão esquerda ignora o que faz a direita.” “O lavrador que toma do arado e olha para trás não é digno do reino dos céus.” “Não vos alegreis se os demônios vos obedecem, procurai que vosso nome seja inscrito no céu.” “Sede perfeitos como vosso Pai Celeste.” “Buscai o reino de Deus e sua verdade.”
O cumprimento da doutrina não consiste senão no caminhar incessante em direção à posse da verdade cada vez mais alta, de sua atuação cada vez maior no próprio ser por meio de um amor sempre mais ardente e, fora do ser, na atuação perfeita do reino de Deus.
É evidente que essa doutrina, nascida no meio judaico e pagão, não podia ser aceita pela maioria dos homens, acostumados a uma vida totalmente diversa daquela por ela exigida. A doutrina não podia ser compreendida em todo o seu significado nem mesmo por aqueles que a haviam aceitado, porque era contrária a todos os antigos conceitos de vida.
Somente após uma série de mal-entendidos, erros, explicações restritas, retificadas e completadas por muitas gerações, o princípio do cristianismo ficou mais claro para os homens. O conceito evangélico influenciou os do judaísmo e do paganismo, e, por sua vez, essas correntes deixaram sua marca no cristianismo. Mas o conceito cristão, mais vivo, penetrava dia a dia, mais e mais no judaísmo e no paganismo agonizantes e aparecia cada vez mais puro, libertando-se dos maus elementos a que estava misturado. Os homens compreendiam melhor o sentido cristão, usavam-no sempre mais em suas vidas.
Mais envelhecia a humanidade, quanto mais claro via a doutrina de Cristo; por outro lado, não pode ser diferente em qualquer doutrina social.
As sucessivas gerações corrigiam os erros das gerações precedentes e aproximavam-se mais a cada dia do verdadeiro sentido da doutrina. Assim foi desde os primeiros tempos do cristianismo. Desde o princípio apareceram alguns homens que afirmavam ser o seu modo de explicar a doutrina o único exato, e provaram a exatidão de suas interpretações por meio de fenômenos sobrenaturais.
Essa é a razão principal de ter sido a doutrina, primeiro, mal compreendida e, depois, desvirtuada.
Admitiu-se que a doutrina de Cristo foi transmitida aos homens não como todas as outras verdades, mas por um caminho especial, sobrenatural. De modo tal que é demonstrada não por sua lógica e por seu acordo com as necessidades da vida humana, mas pelo caráter milagroso de sua transmissão.
Esta suposição, nascida do entendimento imperfeito da doutrina, teve como resultado a impossibilidade de ser mais bem compreendida.
Isso ocorreu desde os primeiros tempos, quando a doutrina era interpretada de forma tão incompleta e, frequentemente, tão falsa, como vemos nos Evangelhos e nos Atos. Quanto menos era compreendida, tanto mais misteriosa e mais era necessário dar provas exteriores de sua verdade. O preceito: “Não faças aos outros o que não queres que te seja feito” não precisa ser demonstrado com a ajuda de milagres e não exige um ato de fé, porque é convincente por si mesmo e satisfaz simultaneamente a inteligência e o instinto humanos, enquanto a divindade de Cristo precisava ser provada com milagres absolutamente incompreensíveis.
Quanto mais obscura era a noção da doutrina de Cristo, mais elementos milagrosos eram nela infiltrados; quanto mais nela se infiltrava o maravilhoso, tanto mais ela se afastava de seu sentido e se tornava obscura; quanto mais precisava afirmar com força sua infalibilidade, mais se tornava incompreensível.
Desde os primeiros tempos pode-se observar no Evangelho, nos Atos e nas Epístolas como a não compreensão do sentido exato da doutrina fazia nascer a necessidade de provas milagrosas.
Isso teve início, segundo os livros dos Atos, na reunião em que os Apóstolos examinaram, em Jerusalém, a questão do batismo dos não circuncidados e daqueles que comiam carnes sacrificadas.
A única maneira de expor a questão mostrava que os que estavam tratando dela não compreendiam a doutrina de Cristo, que exclui qualquer cerimônia exterior: abluções, purificações, jejum, sábado. Lê-se textualmente no Evangelho: “Não é aquilo que entra na boca que macula, e sim o que sai do coração.” Eis por que a questão do batismo dos não circuncidados não pôde nascer senão entre homens que amavam o Mestre e sentiam a grandeza de Sua doutrina, mas que ainda não a compreendiam com clareza.
Assim, uma confirmação exterior de sua interpretação era, para aqueles homens, tão necessária quanto essa interpretação era falsa. E para resolver essa questão que provava, assim como era colocada, quão incompreendida era a doutrina, foram pronunciadas naquela assembleia as palavras terríveis e funestas:
“Pareceu bem ao Espírito Santo e a nós...” (At 15,28)
Pela primeira vez os apóstolos afirmam, externamente, a exatidão de algumas de suas decisões, isto é, apoiando-se na milagrosa participação do Espírito Santo, ou seja, de Deus.
Mas a afirmação de que o Espírito Santo, isto é, Deus, tenha falado por meio dos apóstolos devia também ser provada; e foi, então, dito que, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo havia descido sob forma de línguas de fogo sobre aqueles que assim o afirmaram (na narrativa, a descida do Espírito Santo precede essa deliberação, mas os Atos foram escritos muito tempo depois). Mas era também preciso confirmar a descida do Espírito Santo para aqueles que não viram as línguas de fogo (ainda que seja incompreensível que uma língua de fogo acesa sobre a cabeça de um homem demonstre ser verdade absoluta aquilo que esse homem está para dizer); e, então, foi necessário recorrer a novos milagres: curas maravilhosas, ressurreições, mortes, enfim, todos os falsos milagres de que está cheio o livro dos Atos, e que não só não podem convencer ninguém da verdade da doutrina, mas, ao contrário, devem levantar dúvidas. Esse modo de afirmar a verdade tinha como consequência afastar a doutrina de seu sentido primitivo e torná-la tanto mais incompreensível quanto mais se acumulavam as narrativas dos milagres.
Foi o que aconteceu desde os primeiros tempos e continuou posteriormente, chegando, em nossos tempos, aos dogmas da transubstanciação e da infalibilidade do papa, dos bispos e da Escritura, isto é, até a exigência de uma fé cega, incompreensível até o absurdo, não em Deus, não em Cristo, nem mesmo na doutrina, mas em uma pessoa, como no catolicismo, ou em várias pessoas, como na ortodoxia, ou num livro, como no protestantismo. Quanto mais se propagava o cristianismo, mais se englobava um sem-número de pessoas despreparadas, e menos era compreendido. Quanto mais se afirmava energicamente a infalibilidade da interpretação oficial, menos possível se tornava penetrar no verdadeiro sentido da doutrina. Já ao tempo de Constantino ela reduzia-se a uma síntese confirmada pelo poder secular – síntese das discussões que ocorreram no concílio –, o símbolo da fé, onde isto é dito: “Creio nisto... nisto... nisto, e finalmente numa Igreja universal, sagrada e apostólica, ou seja, na infalibilidade das pessoas que se dizem a Igreja.” De tal modo que tudo foi feito para o que o homem não creia mais nem em Deus, nem em Cristo tal como eles se revelaram, mas somente no que a Igreja ordena que se acredite.
Mas a Igreja é sagrada. Mas a Igreja foi fundada por Cristo. Deus não podia deixar aos homens a liberdade de interpretar sua doutrina arbitrariamente; por isto, ele instituiu a Igreja. Todas estas máximas são a tal ponto falsas e privadas de fundamento que se tem vergonha de refutá-las.
Em lugar algum aparece qualquer indício (exceto nas afirmações da própria Igreja) de que Deus ou Cristo tenha fundado algo que se assemelhe ao que hoje se entende pela palavra “Igreja”. Existe, no Evangelho, uma indicação contrária à Igreja como autoridade externa, indicação das mais claras e das mais evidentes de que não se deve chamar ninguém de Mestre ou Pai. Mas menção alguma é feita à instituição daquilo que os fiéis chamam de Igreja.
A palavra “igreja” é usada duas vezes no Evangelho; primeiramente, no sentido de uma assembleia para resolver uma questão dúbia; depois, junto a palavras obscuras sobre pedra, Pedro e as portas do inferno. Destas duas menções à palavra “igreja”, não havendo outro significado além da palavra “assembleia”, deduziu-se o que hoje entendemos por Igreja. Mas Cristo não poderia absolutamente fundar a Igreja, isto é, o que hoje entendemos por esta palavra, porque nada que se possa assemelhar ao conceito atual de Igreja, com sua afirmação de infalibilidade, encontra-se nas palavras de Cristo, nem no pensamento dos homens daqueles tempos.
O simples fato de que aquilo que se formou a seguir tenha sido nomeado com uma palavra empregada por Cristo não permite afirmar que Cristo tenha fundado a única, a verdadeira Igreja.
Ademais, se ele realmente houvesse estabelecido uma instituição como a Igreja, sobre a qual são baseadas toda a doutrina e toda a fé, o teria feito em termos tão precisos quanto cristalinos e, em vez de cercar essa Igreja única e verdadeira, por milagres usados em superstições, cercaria-a por sinais a tal ponto evidentes que dúvida alguma seria possível quanto a sua realidade. Mas nada parecido existe e, como de outras vezes, existem ainda hoje diferentes Igrejas, cada uma delas intitulando-se única e verdadeira.
O catecismo católico diz: “A Igreja é a Sociedade dos fiéis, estabelecida por Nosso Senhor Jesus Cristo, espalhada por sobre toda a Terra e submissa à autoridade de pastores legítimos, principalmente o Nosso Santo Padre, o papa”, entendendo-se por “pastores legítimos” uma instituição humana que tem por chefe seu papa e se compõe de determinadas pessoas ligadas entre si por uma determinada organização.
O catecismo ortodoxo grego diz: “A Igreja é uma sociedade, fundada na Terra por Jesus Cristo, reunida num só todo, por uma só doutrina e pelos sacramentos, sob a direção e sob a égide da hierarquia estabelecida por Deus” , entendendo-se por “hierarquia estabelecida por Deus” precisamente a hierarquia grega, composta de tais ou tais pessoas, que se encontram em tais ou tais lugares.
O catecismo luterano diz: “A Igreja é o santo cristianismo ou a reunião de todos os fiéis sob o Cristo, seu chefe, e na qual o Espírito Santo, por intermédio do Evangelho e dos Sacramentos, oferece e comunica a salvação divina”, dando a entender que a Igreja Católica abandonou o verdadeiro caminho, e que a verdadeira tradição é conservada pelo luteranismo.
Para os católicos, a Igreja divina coincide com o clero romano e o papa; para os fiéis da Igreja
ortodoxa grega, a Igreja encarna-se na hierarquia do clero russo;7 e para os luteranos, na reunião dos homens que reconhecem a Bíblia e o catecismo de Lutero.
Em geral, falando da origem do cristianismo, os homens pertencentes a uma das Igrejas existentes empregam a palavra no singular, como se nunca houvesse existido e não exista senão uma só Igreja. Mas isto não é exato. A Igreja, instituição que afirma possuir a verdade indiscutível, não surgiu senão no momento em que não mais estava só, em que já existiam pelo menos duas.
Enquanto os fiéis concordavam não foi necessário que sua sociedade única se constituísse em Igreja; somente quando esses homens se dividiram em partidos opostos, negando-se mutuamente, cada qual sentiu a necessidade de afirmar sua ortodoxia, atribuindo-se a posse exclusiva da verdade. O conceito de uma Igreja única foi consequência do fato de que cada um de seus participantes, em desacordo, declarando ser o outro cismático, reconheceu como infalível apenas sua própria Igreja.
Se conhecemos a existência de uma Igreja que no ano de 51 decidiu admitir os não circuncidados, é porque havia outra, de judaizantes, que havia decidido não admiti-los.
Se hoje existe uma Igreja Católica, convencida de sua infalibilidade, é porque existem Igrejas greco-russas, ortodoxas, protestantes, cada uma das quais afirma sua própria infalibilidade, negando, em consequência, as outras. Assim, essa Igreja única não é senão uma palavra ilusória, sem qualquer realidade.
Essas numerosas sociedades que afirmam, cada uma por conta própria, ser a Igreja universal fundada por Cristo e serem as outras cismáticas e heréticas não existiram e realmente não existem a não ser como fenômenos históricos.
O catecismo das Igrejas mais difundidas: católica, ortodoxa e protestante, o afirma abertamente.
O catecismo católico: “Quem são os que estão fora da Igreja?” “Os infiéis, os hereges e os cismáticos.”
Os cismáticos são aqueles que se chamam ortodoxos; os protestantes são reconhecidos como hereges. De modo que, segundo o catecismo católico, na Igreja existem apenas católicos.
No catecismo chamado ortodoxo lemos: “Sob o nome de Igreja única de Cristo, entende-se somente a Igreja ortodoxa, que permanece em plena concordância com a Igreja universal. Quanto à Igreja romana e outras confissões (aos luteranos e aos outros esse catecismo não dá nem mesmo o nome de Igreja), não podem ser compreendidas na Igreja universal, pois dividiram-se em si mesmas.”
Segundo esta definição, os católicos e os protestantes estão fora da Igreja, e só os ortodoxos fazem parte dela.
O catecismo luterano diz, por sua vez: “A verdadeira Igreja é reconhecida pela palavra de Deus ensinada clara e puramente, sem intervenções humanas, e pelos sacramentos nela estabelecidos fielmente, a exemplo da doutrina de Cristo.”
Segundo esta definição, todos aqueles que acrescentaram algo à doutrina de Cristo e dos Apóstolos, como fizeram as Igrejas católica e grega, estão fora da Igreja, e só os protestantes fazem parte dela.
Os católicos afirmam que o Espírito Santo manifesta-se constantemente em sua hierarquia; os ortodoxos também o afirmam. Os arianos afirmaram-no (com o mesmo direito das Igrejas que hoje reinam). Cada tipo de protestantes: os luteranos, a Igreja reformada, os presbiterianos, os metodistas, os mórmons e os seguidores de Swedenborg, afirmam também que o Espírito Santo só se manifesta entre eles.
Se os católicos afirmam que o Espírito Santo, no momento da separação das Igrejas ariana e grega, abandonou essas Igrejas cismáticas, e só permaneceu na única Igreja verdadeira, com os mesmos direitos podem afirmar os protestantes das mais variadas correntes que, com a separação de sua Igreja da Igreja Católica, o Espírito Santo abandonou esta última e passou para sua Igreja. Aliás, assim fazem.
Cada Igreja tem como base de sua fé a tradição ininterrupta transmitida desde os tempos de Cristo e dos Apóstolos. De fato, cada confissão cristã proveniente de Cristo deveria, necessariamente, chegar à geração presente por meio de certas tradições. Mas isso não prova que essas tradições sejam indiscutíveis e excluam todas as outras.
Cada galho da árvore vem da raiz sem interrupção, mas disto não se pode deduzir que cada ramo seja o único galho.
Cada Igreja apresenta as mesmas provas de sua continuidade na tradição, e os mesmos milagres em apoio a sua ortodoxia. Assim, a definição exata e absoluta do que é a Igreja só pode ser uma: a Igreja é uma reunião de homens que afirmam serem os únicos de posse da verdade. Essas sociedades, transformadas em sequência com a contribuição do poder civil em potentes instituições, foram o obstáculo principal à propagação da verdadeira inteligência da doutrina de Cristo.
Não poderia ter sido diferente. A característica principal da doutrina de Cristo, a que a distingue de todas as outras, é que aqueles que a aceitaram tendem sempre a compreendê-la mais e a pô-la em prática, enquanto a Igreja afirma a inteligência definitiva da doutrina e seu cumprimento.
Por mais que nos possa parecer estranho, a nós que fomos educados na doutrina errônea da Igreja como instituição cristã e no desprezo pela heresia, o fato é que apenas no que foi chamado de heresia houve o verdadeiro movimento, isto é, o verdadeiro cristianismo, que só deixou de ser assim quando essas heresias interromperam seu movimento e tornaram-se imóveis na forma fixa de uma Igreja.
O que é, de fato, a heresia? Leiam todas as obras teológicas que tratam desse assunto (que é o primeiro a ser definido, porque cada teologia fala da doutrina verdadeira em meio a doutrinas errôneas, isto é, heréticas) e não encontrarão em lugar algum nem mesmo uma aparência de definição de heresia.
A argumentação sobre esse tema do erudito historiador do cristianismo E. de Pressensé, em sua
História do dogma 8 , com a epígrafe: Ubi Christus, ibi Ecclesia (Paris, 1869), é um exemplo dessa total ausência de qualquer definição da palavra “heresia”. Eis o que ele diz no prefácio dessa obra:
Sei que nos é contestado o direito de qualificar assim [isto é, de chamar heresia] as
tendências que tão vivamente foram combatidas pelos primeiros padres. A própria definição de
heresia parece um atentado à liberdade de consciência e de pensamento. Não podemos
participar desse escrúpulo, porque nem mesmo ele nos levaria a tirar do cristianismo qualquer
caráter especial...
E após ter dito que depois de Constantino a Igreja realmente abusava de seu poder de considerar como hereges aqueles que não concordavam com ela, e que os perseguia, diz ele, fazendo um breve histórico dos primeiros tempos:
A Igreja é uma livre associação; separar-se dela só pode ser vantajoso. A polêmica contra o
erro não tem outros pretextos senão o pensamento e o sentimento. Um tipo doutrinal uniforme
não foi ainda elaborado; as divergências secundárias produzem-se no Oriente e no Ocidente
com total liberdade; a teologia não está, de modo algum, ligada a fórmulas invariáveis. Se no seio
dessa diversidade aparece um fundo comum de crenças, não temos nós o direito de ver, não um
sistema formulado e composto por representantes de uma autoridade de escola, mas a própria fé,
em seu mais seguro instinto e em sua manifestação mais espontânea? Se essa mesma
unanimidade, que se revela nas crenças essenciais, aí está para rechaçar tais ou tais tendências,
não temos nós o direito de concluir que essas tendências estavam em flagrante desacordo com os
princípios fundamentais do cristianismo? Não se transformará essa presunção em certeza se
reconhecermos, na doutrina universalmente rechaçada pela Igreja, os traços característicos de
uma religião do passado? Para dizer que o gnosticismo e o ebionismo são as formas legítimas do
pensamento cristão é preciso dizer audaciosamente que não existe pensamento cristão nem
caráter específico onde se possa reconhecê-lo. Com o pretexto de ampliá-lo, diluem-no.
Ninguém, nos tempos de Platão, teria ousado cobrir com seu nome uma doutrina que não
tivesse dado origem à teoria das ideias; e teriam provocado merecidos sarcasmos da Grécia
querendo fazer de Epicuro ou de Zenão um discípulo da Academia. Reconhecemos então que,
se existe uma religião ou uma doutrina que se chama cristianismo, essa doutrina pode ter suas
heresias.
A argumentação do autor diz, em resumo, que todo raciocínio discordante dos dogmas professados em qualquer tempo é uma heresia. Mas em uma época e em um lugar quaisquer, os homens certamente professavam algo, e essa crença em algo, em algum lugar, em um tempo qualquer, não pode ser o critério da verdade.
Tudo se relaciona a isso: desde que Ubi Christus, ibi Ecclesia, então Cristo está onde nós estamos.
Cada pretensa heresia que não reconhece como verdadeiro senão o que ensina pode encontrar uma explicação na história da Igreja, apoderar-se por conta própria de todos os argumentos de Pressensé e considerar a sua fé como o único e verdadeiro cristianismo: assim fizeram e fazem todas as heresias. Tudo é reconhecido ao Ubi Christus, ibi Ecclesia, e o Cristo está onde nós estamos.
A única definição de heresia é o nome dado por uma reunião de homens a toda argumentação que refuta parte da doutrina professada por essa sociedade. O significado mais especial frequentemente atribuído à palavra heresia é o de uma opinião que derruba a doutrina estabelecida pela Igreja e sustentada pelo poder temporal.
Existe uma obra importante, notável, mas pouco conhecida, de Gottfried Arnold, Unpartheyische Kirchen und Ketzer-Historie [História imparcial das igrejas e das heresias], de 1699, que trata desse tema e demonstra a ilegitimidade, o arbítrio, o absurdo e a credulidade da palavra “heresia” no sentido de reprovação. Esse livro é um ensaio de descrição histórica do cristianismo, sob a forma de história das heresias.
Na introdução, o autor coloca uma série de pontos: 1º – Dos que formam os hereges; 2º – Dos que se transformam em hereges; 3º – Dos motivos de heresia; 4º – Dos modos de se criarem hereges; 5º – Do objetivo e das consequências da fomentação da heresia. Cada um destes pontos provoca inúmeras perguntas, às quais o autor responde com citações de teólogos célebres, deixando, porém, ao leitor o cuidado de tirar a conclusão sobre o conjunto de seu livro.
Como exemplo dessas perguntas que contêm parte das respostas, desejo citar as seguintes: no quarto ponto, relativo aos modos de se criar hereges, encontra-se esta pergunta (a 7ª): “Toda a história não nos demonstra, talvez, que os maiores produtores de hereges foram precisamente aqueles doutores a quem o Pai ocultou seus mistérios, isto é, os hipócritas, os fariseus e os juristas, ou seja, homens absolutamente privados de fé e de moral?” Perguntas 20ª e 21ª: “Nos tempos corruptos do cristianismo, os hipócritas e os invejosos não rechaçaram talvez aqueles homens especialmente dotados por Deus, os quais, nos tempos do cristianismo puro, teriam sido altamente honrados?” “E, ao contrário, os homens que nos tempos da decadência do cristianismo elevaram-se acima dos outros e declararam-se propagadores do cristianismo puro não teriam sido, nos tempos dos apóstolos e dos discípulos do Cristo, reconhecidos como hereges e cínicos anticristãos?”
Exprimindo entre outras coisas, nestas perguntas, a ideia de que a expressão verbal da fé, exigida pela Igreja, e da qual qualquer afastamento era considerado heresia, não pode nunca conter inteiramente o próprio conceito de fiel, e que, por consequência, esta exigência da expressão da fé por meio de determinadas palavras provocava heresias, ele diz (pergunta 31ª): “E se os atos e pensamentos de Deus parecem ao homem tão grandes e tão profundos que ele não pode encontrar palavras correspondentes para exprimi-los, devemos considerá-lo herege, por não poder traduzir exatamente o que sente?”
E na pergunta 33ª: “E não é por esse motivo que nos primeiros tempos do cristianismo não existiam heresias, pois os homens julgavam-se uns aos outros não pelas palavras, mas sim pelo coração e pelos atos, havendo plena liberdade de exprimir seus pensamentos sem receio de serem acusados de heresia?” “A Igreja [diz ele em sua 34ª pergunta] não usava, talvez, o meio mais fácil e mais ordinário, tornando suspeitas as pessoas das quais o clero queria se desfazer, e atirando sobre elas o manto da heresia?”
“Embora seja verdade [diz ele mais adiante] que aqueles chamados hereges pecavam e erravam, não resulta de forma menos real e menos evidente, dos inúmeros exemplos aqui citados [isto é, na história da Igreja e das heresias], que existisse um homem sincero e consciencioso de certa influência que, por inveja ou qualquer outro motivo, tenha sido desacreditado pelos partidários da Igreja.”
Da mesma forma, há quase dois séculos já não se compreendia o significado da palavra “heresia”, e esta mesma opinião reina, entretanto, até hoje. Por outro lado, esta opinião não pode deixar de existir enquanto existir o conceito de Igreja. A heresia é o reverso da Igreja. Onde existe a Igreja deve existir a heresia. A Igreja é uma sociedade de homens que pretendem possuir a verdade absoluta; a heresia é a opinião daqueles que não reconhecem a indiscutibilidade dessa verdade.
A heresia é uma manifestação do movimento, uma revolta contra a inércia dos princípios da Igreja, uma tentativa de concessão viva da doutrina. Todos os passos em direção à inteligência e à efetivação da doutrina foram dados por hereges: Tertuliano e Orígenes, Santo Agostinho e Lutero, Huss e Savonarola, Kheltchitsky e outros eram hereges. Não poderia ter sido diferente.
O discípulo de Cristo, cuja doutrina consiste na penetração progressiva do pensamento evangélico, em sua observância, cada vez maior, no caminho para a perfeição, não pode afirmar, por conta própria ou por conta de outrem, exatamente por ser discípulo de Cristo, conhecer por inteiro Sua doutrina e observá-la. Menos ainda pode afirmá-lo em nome de toda uma assembleia.
Qualquer que seja o grau de compreensão e perfeição que tenha atingido, o discípulo de Cristo sente sempre a insuficiência de seu entendimento e de sua observância, e se inclina para uma penetração e uma obediência cada vez maiores. Eis por que a afirmação – em seu nome, ou em nome de uma sociedade – de nos encontrarmos de posse do total entendimento e da perfeita observância da doutrina de Cristo seria uma renúncia ao espírito da própria doutrina.
Por mais estranho que possa parecer, cada Igreja, como Igreja, sempre foi e não pode deixar de ser uma instituição, não só alheia, mas diretamente oposta à doutrina de Cristo. Não foi sem motivo que Voltaire a chamou de infame. Não é sem motivo que todas, ou quase todas as pretensas seitas cristãs, reconheceram e reconhecem a Igreja na grande pecadora profetizada no Apocalipse. Não é sem motivo que a história da Igreja é a história das maiores crueldades e dos piores erros da humanidade.
As Igrejas, enquanto Igrejas, não são instituições que têm por base um princípio cristão, ainda que um tanto desviado do caminho certo, como pensa um grande número de pessoas. As Igrejas, enquanto Igrejas, como sociedades afirmadoras de sua infalibilidade, são instituições anticristãs. Não só nada existe em comum entre as Igrejas e o cristianismo, exceto o nome, como seus princípios são absolutamente opostos e hostis. As primeiras representam o orgulho, a violência, a sanção arbitrária, a imobilidade e a morte; o segundo representa a humildade, a penitência, a submissão, o movimento e a vida.
Não se pode servir ao mesmo tempo a estes dois senhores: é preciso escolher um ou outro.
Os servidores das Igrejas de todos os credos procuram, sobretudo nestes últimos tempos, apresentar-se como partidários do progresso no cristianismo. Fazem concessões, querem corrigir os abusos que se introduziram na Igreja e dizem que não se pode negar, devido a esses abusos, o próprio princípio da Igreja cristã que, sozinha, pode reunir todos em um só todo e ser a intermediária entre os homens e Deus. Mas isto é um erro. Não só as Igrejas nunca uniram ninguém, como sempre foram uma das principais causas do desacordo entre os homens, do ódio, das guerras, das inquisições, das noites de São Bartolomeu etc.; e nunca as Igrejas serviram de intermediárias entre os homens e Deus, o que é, aliás, inútil e proibido por Cristo, que revelou sua doutrina diretamente a cada homem. Elas introduzem, ao contrário, fórmulas mortas no lugar de Deus e, longe de mostrá-lo aos homens, escondem-no. Nascidas da ignorância, a qual conservam com sua imobilidade, as Igrejas não fazem mais que perseguir e se recusar a reconhecer a justa compreensão da doutrina. Procuram escondê-la, mas isto é impossível; porque, cada avanço que damos, ao seguir o caminho indicado por Cristo, é um passo rumo a sua destruição.
Ao ouvir ou ler os sermões ou artigos nos quais os escritores religiosos dos novos tempos e de todos os credos falam de virtude e de verdade cristã, ao ouvir ou ler as hábeis argumentações, as exortações, as profissões há séculos elaboradas e que, às vezes, têm aparência de sinceridade, estaremos inclinados a duvidar da possibilidade de as Igrejas terem sido hostis ao cristianismo. “Mas é impossível que homens como Crisóstomo, Fénelon, Botler e outros pregadores do cristianismo lhe sejam hostis.” Somos tentados a dizer: “As Igrejas podem ter se afastado do cristianismo, caído no erro, mas não lhe podem ser hostis.” Porém, ao examinar o fruto para julgar a árvore, como ensinou Cristo, e ao ver que os frutos eram ruins, que a corrupção do cristianismo foi a consequência de seus atos, não podemos deixar de reconhecer que, por melhores que tenham sido os homens, a obra da Igreja para a qual eles colaboraram não foi uma obra verdadeiramente cristã. A bondade e o mérito de todos esses servidores das Igrejas foram as virtudes dos homens, não as virtudes da obra a que eles serviam. Todos esses homens virtuosos, como Francisco de Assis e Francisco de Sales, como nosso Tikhon Zadonski, Tomás de Kempis etc., eram bons, apesar de seus serviços a uma obra hostil ao cristianismo, e teriam sido ainda melhores e mais dignos se não tivessem caído no erro ao qual serviram.
Mas por que falar do passado, por que julgar o passado que pode ser mal ou pouco conhecido? As Igrejas, com seus princípios e suas ações, não fazem parte do passado; estão, hoje, diante de nós, e podemos julgá-las segundo seus atos e sua ação sobre os homens.
Em que, então, consiste a ação das Igrejas atualmente? Como influenciam os homens? O que fazem as Igrejas junto a nós, junto aos católicos e junto aos protestantes de todos os credos? Quais são as consequências de sua ação?
A ação de nossa Igreja russa, chamada ortodoxa, é visível a todos. É um grande fato, que não se pode ocultar nem discutir.
Em que consiste a ação dessa Igreja russa, dessa imensa instituição animada por vida intensa e composta por um exército de meio milhão de homens que custam ao povo dezenas de milhões?
A ação dessa Igreja consiste em incutir, por todos os meios possíveis, nos cem milhões de homens desta nação russa, as antigas crenças que foram uma vez professadas por homens absolutamente estranhos a nosso povo, nas quais ninguém mais crê, muitas vezes nem mesmo aqueles cuja missão é protegê-las. Arraigar no povo fórmulas do clero bizantino sobre a Trindade, a mãe de Deus, os sacramentos, as graças, que nenhum sentido fazem mais para os homens de nosso tempo, constitui uma parte da ação da Igreja russa. A outra parte de sua ação é o apoio, fornecido pela idolatria, no sentido literal da palavra: veneração das santas relíquias, das santas imagens e sacrifícios que lhes são ofertados para a obtenção da realização dos próprios desejos.
Não falarei do que diz e escreve o clero russo, com uma tintura de erudição e liberalismo, nas revistas religiosas, mas falarei do que faz, realmente, o clero, na imensa extensão da terra russa em meio a um povo de cem milhões de almas. O que se ensina com intensidade ao povo, e por toda parte, com o mesmo zelo? O que dele se exige em virtude da suposta fé cristã?
Começarei do princípio, isto é, do nascimento da criança. Quando do nascimento da criança, ensina-se que é preciso fazer, para o recém-nascido e para a mãe, uma prece de purificação, porque sem essa prece aquela mãe é impura. Com tal propósito, o padre toma em seus braços a criança e pronuncia as palavras sacramentais diante das imagens dos santos que o povo chama francamente de deuses. Assim, ele purifica a mãe. Então, é sugerido e mesmo exigido, dos pais, com ameaças de punições, que batizem a criança, isto é, que a façam ser mergulhada pelo padre na água, três vezes seguidas, com a leitura de palavras incompreensíveis acompanhadas por atos ainda mais incompreensíveis: unção de várias partes do corpo, corte dos cabelos; os padrinhos sopram e cospem no demônio imaginário. Tudo isto deve purificar a criança e fazer dela um cristão. Ensina-se, assim, aos pais, que é preciso fazer a criança comungar, isto é, fazê-la engolir, sob forma de pão e vinho, uma partícula do corpo de Cristo, o que terá como consequência fazer penetrar nela toda a graça divina etc. É, então, dito que, à medida que ela crescer, será preciso ensiná-la a rezar. Rezar quer dizer colocar-se diante de um quadro sobre o qual estão desenhados o rosto de Cristo, da Virgem ou dos santos e, com os dedos postos de determinada maneira, tocar a fronte, os ombros, o abdômen, pronunciando palavras eslavas, entre as quais as mais usadas são: “Santa Virgem..., Virgem, alegra-te etc.”
Ensina-se, então, que à vista de uma igreja ou de uma imagem sacra é preciso fazer aquele mesmo sinal da cruz. Depois ensina-se que durante as festas (as festas são: o dia em que nasceu Cristo – ainda que ninguém conheça a data deste acontecimento –, o dia em que foi circuncidado, o dia em que morreu a Virgem, o dia em que foi carregada a cruz, o dia em que o inocente viu a aparição etc.) é preciso vestir as melhores roupas, ir à igreja, comprar velas e colocá-las defronte as imagens dos santos, dar bilhetinhos e lembrancinhas, dar pãezinhos nos quais são feitos cortes triangulares e, depois, rezar inúmeras vezes pela saúde e felicidade do czar e dos arcebispos e por si e seus próprios negócios, e por fim beijar a cruz e a mão do padre. Além dessas orações, ensina-se ainda que é preciso, pelo menos uma vez por ano, confessar-se e comungar. Confessar significa ir à igreja e contar os próprios pecados ao padre, supondo que essa confissão a um estranho nos purifique por completo: e, então, comer numa colher um pedaço de pão com vinho, o que purifica ainda mais.
É ensinado também que, se o homem e a mulher desejam que sua união carnal seja santa, devem ir à igreja, colocar sobre suas cabeças coroas de metal, beber determinada bebida, andar três vezes em volta de uma mesa com acompanhamento de cânticos e, então, a união carnal do homem e da mulher se tornará santa e em tudo diferente das outras.
Para a vida, ensinaram-se as seguintes regras: não comer carne nem beber leite em determinados dias; assistir aos ofícios e rezar pelos mortos em outros determinados dias; convidar o padre nas festas e dar-lhe dinheiro, e, várias vezes por ano, retirar da igreja as imagens e carregá-las sobre os ombros pelos campos e pelas casas. Enfim, ensina-se ao homem a obrigação de comer, no momento da morte, numa colherinha, pão com vinho e, ainda mais válido, se lhe ainda resta tempo, untar-se com óleo. Isto lhe garante a felicidade na vida futura. Após a morte, ensina-se aos parentes do finado que, para a saúde de sua alma, é útil colocar-lhe entre as mãos uma folha de papel na qual está escrita uma oração; e também útil ler sobre o corpo do morto determinado livro e pronunciar seu nome na igreja, em determinados dias. Em tudo isto consiste a fé obrigatória.
Mas, se alguém quer tomar especial cuidado com sua alma, é ensinado que, de acordo com essa crença, a garantia mais segura da felicidade da alma no outro mundo é dar dinheiro às igrejas e aos conventos, o que obriga os homens santos a rezar pelo doador. As peregrinações aos conventos e o beijo nas imagens milagrosas e nas relíquias são ainda outros meios de purificar a alma. Segundo esta crença, as imagens milagrosas concentram em si uma força, uma graça e uma santidade especiais; tocá-las ou beijá-las, acender velas e ajoelhar-se diante delas em muito contribui para a salvação, assim como as missas celebradas em seu favor.
E esta crença, e não outra, esta crença chamada ortodoxa, isto é, fé verdadeira, é que é ensinada ao povo como cristianismo, há muitos séculos e ainda hoje.
E não se diga que os padres ortodoxos compreendem de outro modo o sentido da doutrina e que essas são fórmulas antigas que não se acha necessário destruir. Não é verdade. Em toda a Rússia, hoje, só esta fé é ensinada, por todo o clero russo, com especial cuidado. Nada mais existe. Escreve-se e fala-se de outra coisa nas capitais mas, entre os cem milhões de almas do povo, nada de diferente é feito, nada além disto é ensinado. Os ministros da Igreja discutem entre si aquela outra coisa, mas ensinam apenas esta.
As prostrações diante das relíquias e das imagens sacras fazem parte da teologia, do catecismo. São ensinadas, teórica e praticamente, ao povo, com pompa, com solenidade, com autoridade e com violência; hipnotizando-o, obrigam-no a acreditar nelas, e assim essa fé é zelosamente preservada de qualquer tentativa de emancipação do povo dessas superstições dignas de selvagens.
Como eu disse quando publiquei meu livro, a doutrina de Cristo e suas próprias palavras a respeito da não resistência ao mal por meio da violência foram, na minha presença, por muitos anos, objeto de zombaria, de ironia geral; e os ministros da Igreja não só não se opunham a essas blasfêmias, como até encorajavam-nas. Experimentai falar desrespeitosamente do ridículo ídolo que pessoas embriagadas carregam, em Moscou, de maneira sacrílega, sob o nome de ícone de Iverski. Um grito de indignação rapidamente se levantará dentre os próprios ministros da Igreja ortodoxa. Prega-se somente o culto externo da idolatria.
E não se diga que um não impede o outro; que uma coisa deve ser feita e que outra não deve ser abandonada.
“Portanto, fazei e observai tudo quanto vos disserem. Mas não imiteis as suas ações, pois dizem mas não fazem.” (Mt 23,3) Isto foi dito dos fariseus que observavam todas as regras exteriores da religião; e por isto as palavras: “Fazei e observai tudo quanto vos disserem” referem-se aos atos de caridade e de beneficência, enquanto as palavras: “Mas não imiteis as suas ações, pois dizem mas não fazem” referem-se à sua observância das cerimônias e à não observância das obras de Deus. Estas palavras têm um significado totalmente oposto ao que querem atribuir-lhes os ministros da Igreja, que as interpretam como uma ordem de observância das cerimônias. O culto exterior e o culto do bem e da verdade dificilmente se conciliam; aliás, excluem-se mutuamente. Assim faziam os fariseus, e o mesmo acontece ainda hoje entre os cristãos da Igreja.
Se o homem pode obter a salvação pela expiação, pelos sacramentos e pelas orações, as boas obras não mais lhe são necessárias.
O Sermão da Montanha ou o Credo: não se pode crer em ambos; e os partidários da Igreja escolheram o último. O Credo é ensinado e lido como oração nas igrejas, enquanto o Sermão da Montanha é excluído até mesmo das leituras das passagens do Evangelho, a tal ponto que os fiéis nunca o ouvem, salvo nos dias em que o Evangelho é lido por inteiro. E não poderia ser diferente.
Homens que creem num Deus malvado e insensato, que amaldiçoou a raça humana e mandou seu filho ao sacrifício e uma parte dos homens à tortura eterna não podem crer num Deus de amor. O homem que crê em Deus-Cristo que julga e pune ruidosamente os vivos e os mortos não pode crer num Cristo que ordena dar a face ao ofensor, não julgar, perdoar e amar os próprios inimigos. O homem que crê no caráter divino do Antigo Testamento e na santidade de Davi, que em seu leito de morte delega a missão de matar o velho que o ofendeu, a quem ele não pode matar pessoalmente por estar ligado a um juramento (1 Rs 2,8), e muitas outras vilanias das quais o Antigo Testamento está cheio, não pode crer no sagrado amor de Cristo. O homem que crê na doutrina e nos sermões da Igreja relativos à conciliação do cristianismo com as execuções capitais e a guerra não pode mais acreditar na humanidade de todos os homens.
E, sobretudo, o homem que acredita na salvação pelo caminho da expiação e dos sacramentos não pode mais concentrar todos os seus esforços na observância da doutrina moral de Cristo.
O homem a quem a Igreja ensinou essa doutrina sacrílega, ou seja, que ele não pode encontrar em si a salvação e que existe outro meio de obtê-la, recorrerá necessariamente a esse meio, e não à sua própria força, na qual não pode confiar sem pecado, como lhe é afirmado. A doutrina da Igreja, qualquer que seja, com suas expiações e seus sacramentos, exclui a doutrina de Cristo (sobretudo a Igreja ortodoxa, com sua idolatria).
“Mas, se poderá objetar, o povo sempre acreditou, e ainda acredita, dessa forma. Toda a história do povo russo assim o prova. Não se pode tirar suas tradições.”
É uma falsidade. O povo realmente professou, por algum tempo, algo parecido com o que hoje professa a Igreja; mas não era, na verdade, a mesma coisa.
Ao lado da idolatria das imagens, das relíquias, existiu sempre no povo uma compreensão profundamente moral do cristianismo, que nunca existiu na Igreja e que só é encontrada em seus melhores representantes. Mas o povo, apesar de todos os obstáculos a ele colocados neste sentido pelo Estado e pela Igreja, já percorreu, há muito, a etapa grosseira desse conceito. O que demonstra isso, por outro lado, é o espontâneo e geral desenvolvimento das seitas racionalistas que hoje proliferam na Rússia, e contra as quais lutam, com tão pouco sucesso, os ministros da Igreja. O povo segue adiante na penetração do código moral e vivo do cristianismo. E é, então, que aparece a Igreja, não para trazer seu apoio a esse movimento, mas para inculcar ainda mais no povo um antigo paganismo, de formas petrificadas, e para novamente empurrá-lo para as trevas das quais com tanta dificuldade tenta sair.
“Não ensinamos ao povo nada de novo, mas apenas aquilo em que ele crê, e de uma forma mais perfeita”, dizem os ministros da Igreja. Este modo de agir assemelha-se ao que consistiria em amarrar um pintinho que cresce e fechá-lo na casca de onde saiu.
A primeira pergunta, a primeira dúvida que se apresenta ao russo quando este começa a refletir refere-se às imagens milagrosas e, sobretudo, às relíquias: é verdade que são incorruptíveis e fazem milagres? Centenas de homens se fazem esta pergunta, mas se detêm diante da solução, principalmente devido ao fato de que os arcebispos, os bispos e todos os homens de alta posição beijam as relíquias e as imagens milagrosas. Perguntai aos arcebispos e aos grandes personagens por que o fazem e nos responderão que o fazem para dar o exemplo ao povo. E o povo assim faz porque eles o fazem.
A Igreja russa, apesar do verniz superficial de modernidade e refinamento do caráter sacro que seus membros começam hoje a introduzir em suas obras, em seus artigos, suas revistas religiosas e seus sermões, não tem outro objetivo senão manter o povo numa idolatria selvagem e grosseira e difundir a superstição e a ignorância, obscurecendo a compreensão da doutrina evangélica que sobrevive no povo ao lado da superstição.
Lembro-me de um dia ter visto, na livraria do convento Optin, um velho camponês analfabeto escolhendo alguns livros religiosos para o filho. Um frade recomendava-lhe a história das relíquias, das festas, das aparições das imagens, o livro dos salmos etc. Perguntei ao velho se ele possuía um Evangelho.
– Não.
– Dê-lhe, então, um Evangelho em russo – disse eu ao frade.
– Não serve para eles – respondeu o frade.
Eis, em poucas palavras, toda a ação de nossa Igreja.
Mas isto só acontece na bárbara Rússia, objetará um leitor europeu ou norte-americano. E esta opinião será justa, mas só enquanto houver um governo que ajude a Igreja na Rússia em sua missão de desmoralização e embrutecimento.
É bem verdade que em parte alguma da Europa existe um governo tão despótico e que tão bem se ponha de acordo com a Igreja atual. A participação do poder na desmoralização do povo russo é também muito grande. Mas seria injusto crer que a Igreja russa se distingue no que quer que seja de qualquer outra Igreja em sua influência sobre o povo.
As Igrejas são as mesmas por toda parte, e se as Igrejas católica, anglicana, luterana não têm nas mãos um governo assim tão dócil, não é, certamente, porque não o desejam.
A Igreja, qualquer que seja – católica, anglicana, luterana, presbiteriana –, não pode deixar de não visar o mesmo objetivo da Igreja russa, isto é, encobrir o verdadeiro sentido da doutrina de Cristo e substituí-la por um ensinamento que a nada obrigue e que, sobretudo, justifique a existência de bonzos nutridos à custa do povo.
Não é o que faz o catolicismo, quando proíbe a leitura do Evangelho, quando exige uma submissão cega aos chefes da Igreja e ao papa infalível? Ensina o catolicismo algo diferente do que ensina a Igreja russa? O mesmo culto externo, as mesmas relíquias, os mesmos milagres, as mesmas estátuas milagrosas, a Madona e as procissões, os mesmos raciocínios afetados e nebulosos sobre o cristianismo nos livros e nos sermões; na verdade, o mesmo encorajamento à mais vulgar idolatria.
E o mesmo não ocorre nas Igrejas anglicana, luterana e em cada protestantismo que tem uma Igreja? As mesmas exigências de fé nos dogmas expressos no século IV, e que perderam qualquer sentido para os homens de nosso tempo, as mesmas práticas de idolatria, se não às relíquias e aos ícones, ao menos ao dia de sábado e aos textos da Bíblia. Sempre a mesma tendência a esconder as verdadeiras exigências do cristianismo e substituí-las por um culto externo e pelo cant, que não obriga a nada, como definem tão bem os ingleses, que lhe são especialmente afeiçoados. No protestantismo, essa tendência é, sobretudo notável porque não tem o pretexto da antiguidade. E acaso não se dá o mesmo no calvinismo regenerado, no evangelismo que deu origem ao Exército de Salvação?
Assim como as diferentes doutrinas de Igreja são semelhantes no que se refere à doutrina de Cristo, é igualmente semelhante seu procedimento.
Sua situação é tal que elas não podem deixar de envidar todos os seus esforços para ocultar a doutrina de Cristo, de cujo nome se servem. A incompatibilidade de todos os credos eclesiásticos com a doutrina de Cristo é tal que são feitos esforços especiais para dissimulá-la perante os homens. Qual é, na realidade, a situação de um adulto, não digo instruído, mas que haja assimilado, ainda que superficialmente, as noções que flutuam no ar sobre geologia, física, química, cosmografia e história, quando, pela primeira vez, examina com consciência as crenças que lhe foram inculcadas na infância e que as Igrejas consagram? Que crenças! Deus criou o mundo em seis dias, a luz antes do sol, Noé reuniu todos os animais na arca etc., Jesus é Deus-filho que tudo criou transitoriamente, desceu à Terra por causa do pecado de Adão, ressuscitou, subiu ao céu, onde está sentado à direita do Pai, e voltará por sobre as nuvens para julgar o mundo etc.
Todas estas noções elaboradas pelos homens do século IV, e que, naquela época, faziam para eles certo sentido, não fazem mais, hoje em dia. Os homens de nosso tempo podem repetir com os lábios essas palavras, mas não podem acreditar nelas, porque afirmações como estas – Deus vive no céu, o céu abriu-se e uma voz desceu e disse algo, Cristo ressuscitou e subiu para algum lugar no céu e voltará sobre as nuvens etc. – não fazem sentido algum para nós.
O homem que considerava o céu como uma abóboda sólida e limitada poderia crer ou não crer que Deus houvesse criado o céu, que este se tivesse aberto, que Cristo tivesse ascendido; mas, para nós, que sentido pode ter tudo isso? Os homens de nosso tempo somente podem crer que é preciso crer; e assim fazem. E, no entanto, não podem crer no que para eles não faz sentido.
Mas se todas essas expressões devem ter um sentido alegórico, sabemos, em primeiro lugar, que os partidários da Igreja não estão propositalmente de acordo e que a maioria insiste no entendimento da Sagrada Escritura em seu sentido literal e, em segundo lugar, que todas essas interpretações, muito diferentes umas das outras, em nada se apoiam.
Mas, ainda que os homens quisessem se esforçar para acreditar na doutrina das Igrejas da forma como é ensinada, a difusão da instrução e do Evangelho oporiam à sua crença um obstáculo intransponível.
Bastaria ao homem de nosso tempo comprar por três moedas o Evangelho e ler as palavras claras de Cristo: palavras que não requerem qualquer comentário, como aquelas ditas à samaritana, isto é, que o Pai precisa de fiéis, não em Jerusalém, nem neste ou naquele monte, mas de fiéis no espírito e na verdade; ou como as que afirmam que o cristão deve orar, não como um pagão num templo, mas secretamente, em retiro, e que o discípulo de Cristo a ninguém deve chamar de Pai ou Mestre; bastaria ler estas palavras para se convencer indiscutivelmente que os pastores das Igrejas que chamam a si mesmos de Mestres, contrariamente à doutrina de Cristo, e que discutem entre si, não têm autoridade alguma, e que aquilo que ensinam não é o cristianismo.
E mais: se o homem moderno continuasse a acreditar em milagres e a não ler o Evangelho, suas únicas relações com os homens de outras crenças, relações tornadas tão fáceis em nosso tempo, o fariam duvidar da verdade da sua fé. Era fácil, para um homem que não podia ver seus semelhantes de outra crença, acreditar que a sua fosse a única verdadeira; enquanto basta a um homem que reflete, para duvidar de sua fé, ser colocado em contato com outros homens, bons ou maus, de outros credos, que discutem e condenam reciprocamente suas próprias crenças. Em nossa época, somente o homem absolutamente ignorante ou indiferente a todas as questões da vida iluminadas pela religião pode conservar a fé na Igreja.
Quanta astúcia e quantos esforços não devem pôr em prática as Igrejas, porque, apesar das condições desfavoráveis à fé, elas podem ainda construir templos, cantar missas, pregar, ensinar, fazer adeptos e, sobretudo, ser regiamente pagas por isso na pessoa de todos os seus padres, pastores, intendentes, superintendentes, abades, arquidiáconos, bispos e arcebispos! Esforços enormes, sobre-humanos, são necessários, e as Igrejas os fazem com energia sempre maior. Entre nós, na Rússia (sem falar dos outros meios), adota-se simplesmente a brutal violência do poder para a submissão à Igreja. Os homens que se negam às práticas exteriores ao culto e não o escondem são punidos sem qualquer processo, ou são privados de seus direitos. Ao contrário, os homens que praticam todas as formas exteriores da fé são recompensados e conquistam novos direitos.
Assim agem os ortodoxos; mas todas as Igrejas, sem exceção, empregam, para esse fim, todos os meios, entre os quais hoje está, em primeiro lugar, o que se chama hipnotismo.
São utilizadas todas as artes, da arquitetura à poesia, para influenciar a alma e para entorpecer a inteligência, e essa influência é contínua. A necessidade de hipnotizar os homens pode ser especialmente notada no Exército de Salvação, que adota métodos novos, aos quais nós não estamos ainda acostumados, como as trompas, os tambores, os cânticos, as bandeiras, as roupas, as procissões, o baile, as lágrimas e outros métodos dramáticos.
Mas tudo isso não nos impressiona senão por se tratar de procedimentos novos. Não seriam, talvez, análogos os antigos procedimentos dos templos, com sua iluminação especial, o esplendor dos dourados, as velas, os coros, os órgãos, os sinos, os pregadores lamurientos etc.?
Mas, apesar de todo o poder dessa hipnose, não consiste nisto a ação mais infausta da Igreja. Esta reside em sua tendência para enganar as crianças, aquelas mesmas crianças das quais disse Jesus: “Ai daquele que tocar num só destes pequeninos!” Desde o primeiro despertar de sua consciência, começa-se a mentir à criança; ensinam-lhe solenemente ideias em que seus próprios educadores não creem; e isto é feito com tanta habilidade e tanta constância que essas crenças tornam-se para ela, com o passar do tempo, uma segunda natureza. Tem-se o cuidado de enganá-la sobre a questão mais importante da vida, e quando essa mentira criou em sua mente raízes tão profundas que é impossível erradicá-las, abre-se diante da criança o mundo da ciência e da realidade, que de modo algum podem conciliar-se com as crenças nela inculcadas, e deixa-se a ela o trabalho de se desenredar, como puder, dessas contradições.