O Reino de Deus Está em Vós

Liev Tolstói · Capítulo 10 de 15

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O Reino de Deus Está em Vós

Capítulo 7

São realmente estranhos esses homens que se reúnem em congressos, pronunciam discursos para ensinar como se captura um pássaro colocando-lhe um grão de sal na cauda, mesmo sabendo que isto é impossível. São estranhos, também, aqueles que, como Maupassant, Rod e outros, veem claramente todo o horror da guerra, toda a contradição disto resultante: que os homens não fazem o que é preciso fazer e que lhes seria proveitoso, que lamentam as trágicas fatalidades da vida e não veem que essas fatalidades cessarão tão logo os homens, renunciando raciocinar sobre assuntos inúteis, se decidissem não mais fazer o que lhes parece penoso e repugnante.

Esses homens são surpreendentes; mas aqueles que, como De Vogue e outros, adotando a lei da evolução que considera a guerra não só inevitável como também útil e, portanto, desejável, esses homens são terríveis, pavorosos em suas aberrações morais. Os primeiros dizem, ao menos, que odeiam o mal e amam o bem, enquanto estes últimos declaram abertamente que não existe o bem ou o mal. Todas as dissertações sobre a possibilidade de estabelecer a paz em vez da guerra eterna não é senão sentimentalismo nocivo de faladores. Existe uma lei da evolução da qual resulta que devo viver e agir mal; o que fazer? Sou um homem culto, conheço a lei da evolução e, em consequência, agirei mal. “Entremos no palácio da guerra.” Existe uma lei da evolução e, em consequência, não há bem ou mal, e não é preciso viver senão para o próprio interesse pessoal, abandonando o resto à lei da evolução. Tudo isto é a última expressão da cultura refinada, o conjunto do obscurecimento da consciência que distingue as classes esclarecidas de nosso tempo.

O desejo das classes esclarecidas de conservar por todos os meios suas ideias prediletas e a existência que lhes é consequente atinge o paroxismo. Esses homens mentem, enganam a si próprios e aos outros, da forma mais refinada, para conseguir apenas obscurecer e ofuscar a consciência.

Em vez de mudar seu modo de viver, segundo as indicações de sua consciência, eles procuram, por todos os meios, sufocar-lhes a voz. Mas a luz brilha na escuridão, e é assim que a verdade começa a resplandecer por entre as trevas de nossos tempos.

 

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Significado do serviço militar obrigatório Os homens cultos das classes superiores procuram esconder a necessidade, cada vez mais evidente, de uma mudança na ordem natural das coisas; mas a vida, que continua a se desenvolver e a se complicar sem mudar sua direção, aumenta as contradições e os sofrimentos dos homens e os conduz ao limite extremo, que não pode ser ultrapassado. Este último limite da contradição é o serviço militar obrigatório para todos.

Acredita-se, em geral, que o serviço militar obrigatório e o aumento dos armamentos dele resultante, como também o aumento dos impostos e dos débitos de Estado em todos os povos, são um fenômeno passageiro, produzido por determinada situação política da Europa, e que determinadas convenções internacionais poderiam fazer desaparecer, sem que seja para isso necessário modificar a ordem atual das coisas.

Isto é absolutamente falso. O serviço militar obrigatório é uma contradição interna que penetrou por inteiro no conceito social da vida, levada a seus limites mais extremos, e que se tornou evidente apenas quando foi alcançado certo estado de desenvolvimento material.

O conceito social da vida consiste, como se sabe, em que o sentido da vida foi transferido do indivíduo para o grupo, em seus diversos graus: família, tribo, etnia, Estado.

Segundo este conceito, é evidente que, como o sentido da vida reside no agrupamento dos indivíduos, esses indivíduos sacrificam voluntariamente seus interesses aos do grupo. Isto de fato ocorreu e ainda ocorre em determinados tipos de agrupamento, na família e na tribo, na etnia e também no Estado patriarcal como consequência dos costumes transmitidos pela educação e confirmados pela sugestão religiosa, os indivíduos subordinavam seus interesses aos do grupo e sacrificavam-nos à comunidade sem a isto serem obrigados.

Porém, mais as sociedades tornavam-se grandes, mais crescia o número de novos membros para a conquista, e mais se afirmava a tendência dos indivíduos a perseguir seu interesse pessoal em prejuízo do interesse geral; e, mais ainda, devia o poder recorrer à violência para dominar esses indivíduos insubordinados. Os defensores do conceito social procuram, em geral, confundir a noção do poder, ou seja, a violência, com a noção da influência moral, mas esta confusão é absolutamente impossível.

A influência moral age sobre os próprios desejos do homem e modifica-os no sentido do que lhe é solicitado. O homem que sofre a influência moral age de acordo com seus desejos. Entretanto, o significado usual da palavra é um meio para forçar o homem a agir contrariamente a seus desejos. O homem submisso ao poder não age como quer, mas como é obrigado; e é somente por meio da violência física, isto é, da prisão, da tortura, da mutilação ou da ameaça destes castigos que se pode forçar o homem a fazer aquilo que não quer. Nisto consiste e sempre consistiu o poder.

Apesar dos contínuos esforços dos governos para escondê-lo e para dar ao poder um outro significado, ele é para o homem uma corda, uma corrente, com a qual será amarrado e é arrastado, o knut com o qual será flagelado, a faca ou o machado que lhe cortarão os braços, as pernas, o nariz, as orelhas, a cabeça; isto acontecia na época de Nero e Gengis Khan; e isto acontece ainda hoje, no governo mais liberal, no da república americana e no da república francesa. O pagamento dos impostos, o cumprimento dos deveres sociais, a submissão às punições, tudo isto que parece voluntário traz sempre, no fundo, o temor de uma violência.

A base do poder é a violência física; e a possibilidade de submeter os homens a uma violência física é, sobretudo, devida a indivíduos mal organizados, que agem concordando, embora estejam se submetendo a uma só vontade. E, reunidos, indivíduos armados que obedecem a uma vontade única formam o exército. O poder encontra-se sempre nas mãos dos que comandam o exército, e sempre todos os chefes do poder – dos césares romanos aos imperadores russos e alemães – preocupam-se com o exército mais do que com qualquer outra coisa, e somente a ele adulam, sabendo que, se ele está do seu lado, seu poder está assegurado.

Esta composição e esta força do exército, necessárias para a garantia do poder, são justamente as que introduziram no conceito social da vida o germe corruptor.

O objetivo do poder e sua razão de ser estão na limitação da liberdade dos homens que gostariam de colocar seus interesses pessoais acima dos interesses da sociedade. Mas, quer o poder seja adquirido pelo exército, por herança ou por eleição, os homens que o possuem em nada se diferenciam dos outros homens e, como eles, estão inclinados a não subordinar o próprio interesse ao interesse geral; muito pelo contrário. Quaisquer que sejam os meios usados, não foi possível, até hoje, concretizar o ideal de só confiar o poder a homens infalíveis, ou de ao menos remover daqueles que o possuem a possibilidade de subordinar, aos seus, os interesses da sociedade.

Todos os procedimentos conhecidos, o direito divino, a eleição, a herança, produzem os mesmos resultados negativos. Todos sabem que nenhum destes procedimentos é capaz de assegurar a transmissão do poder aos infalíveis, ou, ainda, de impedir o abuso do poder. Todos sabem que, ao contrário, os que o possuem – sejam soberanos, ministros, prefeitos ou guardas municipais – são sempre, por deterem o poder, mais inclinados à imoralidade, ou seja, a subordinar os interesses gerais aos interesses próprios, do que aqueles que não detêm o poder. Aliás, não pode ser de outro modo.

O conceito social só podia ser justificado enquanto os homens sacrificavam voluntariamente o interesse próprio aos interesses gerais; mas tão logo surgiram alguns que não sacrificavam voluntariamente o próprio interesse, surgiu a necessidade do poder, isto é, da violência, para limitar-lhe a liberdade e, então, entrou no conceito social e no ordenamento dele resultante o germe corruptor do poder, isto é, a violência de uns sobre outros.

Para que o domínio de uns sobre outros alcançasse seu objetivo, para que pudesse limitar a liberdade daqueles que passam seus interesses pessoais à frente dos da sociedade, o poder deveria se encontrar nas mãos de infalíveis, como supõem os chineses ou como se acreditava na Idade Média, e como creem hoje aqueles que têm fé na graça da unção. Somente nestas condições a ordem social pode ser compreendida.

Posto que tal não existe, mas, ao contrário, os homens que detêm o poder passam sempre ao largo da santidade, exatamente por terem o poder, já não se pode justificar o ordenamento social com base na autoridade.

Se existiu, todavia, um tempo em que, após aviltamento do nível moral e da disposição dos homens à violência, a existência de uma autoridade ofereceu alguma vantagem para restringir a violência dos indivíduos, é fato que essa vantagem não poderia durar para sempre. Quanto mais diminuía a tendência dos indivíduos à violência, mais os costumes se suavizavam, mais o poder se corrompia em consequência de sua liberdade de ação, mais desaparecia tal vantagem.

Essa mudança da relação entre o desenvolvimento moral das massas e a desmoralização dos governos é toda a História dos últimos dois mil anos.

Eis simplesmente como tudo ocorreu:

Os homens viviam em família, em tribos, em etnias, provocando-se, violentando-se, roubando-se, matando-se reciprocamente. Essas violências eram cometidas em grande e pequena escala: indivíduo contra indivíduo, família contra família, tribo contra tribo, etnia contra etnia, povo contra povo. O grupo mais numeroso, mais forte, apoderava-se do mais fraco e, mais este se fortalecia, mais diminuíam as violências internas, e mais pareciam asseguradas a duração e a vida do grupo.

Os membros da família ou da tribo, reunidos em um só grupo, são menos hostis uns aos outros, e a família, ou a tribo, não morre como o indivíduo isolado. Entre os membros de um Estado, submetidos a uma só autoridade, a luta entre os indivíduos parece também mais fraca, e a duração do Estado, mais indubitável.

Essas reuniões em grupos sempre maiores ocorreram não porque os homens tivessem consciência de daí obter alguma vantagem, como se narra na lenda russa, do chamado dos varegos, mas devido ao aumento das populações e, portanto, das lutas e conquistas.

Depois da conquista, de fato, o poder do conquistador faz desaparecer as discórdias internas e o conceito social da vida recebe sua justificativa. Mas esta justificativa é temporária. As discórdias internas, reprimidas pelo poder, renascem do próprio poder. Este encontra-se nas mãos de homens que, como todos os outros, estão inclinados a sacrificar o bem geral a seu bem pessoal, com a diferença de que os violentados não lhes podem resistir e sofrem a influência corruptora do poder.

Por isso o mal da violência, passando para o poder, não cessa de aumentar e torna-se maior do que aquele para o qual o poder foi um remédio. E isso acontece enquanto entre os membros da sociedade as tendências à violência enfraquecem cada vez mais, e enquanto a violência do poder, em consequência, torna-se cada vez menos necessária.

O poder governamental, mesmo que faça desaparecer as violências internas, sempre introduz na vida dos homens novas violências, cada vez maiores em razão de sua duração e de sua força. De modo que, se a violência do poder é menos evidente do que a dos particulares, porque se manifesta não pela luta, mas pela opressão, ela, não obstante, existe, e com maior frequência, num grau mais elevado.

E não pode ser diferente, porque, além do fato de que o poder corrompe os homens, os cálculos ou a tendência constante daqueles que o detêm terão sempre por objetivo o máximo enfraquecimento possível dos violentado – já que, quanto mais estes estão fracos, menos esforços são necessários para dominá-los.

Por isso, a violência aumenta sempre até o extremo limite que pode alcançar, sem matar a galinha dos ovos de ouro. E se esta galinha não põe mais ovos, como os índios da América, como os habitantes da Terra do Fogo, como os negros da África, mata-se a galinha, apesar dos sinceros protestos dos filantropos.

A melhor confirmação de tudo isso é a situação dos operários de nosso tempo, que, para dizer a verdade, nada são além de servos.

Apesar de todos os supostos esforços das classes superiores para melhorar a sorte dos trabalhadores, estes são submetidos a uma imutável lei de ferro, que lhes dá apenas o absolutamente necessário, a fim de que sejam sempre obrigados ao trabalho, embora conservando força suficiente para realizá-lo em proveito de seus patrões, cujo domínio lembra o dos conquistadores antigos.

Sempre foi assim. Sempre, à medida do aumento e da duração do poder, as vantagens para aqueles que lhe eram submissos diminuíam, e os inconvenientes aumentavam.

Isto aconteceu e acontece, independentemente das formas de governo sob as quais vivem os povos; com uma única diferença: que, na forma autocrática, o poder está concentrado nas mãos de um pequeno número de violentos, e a forma das violências é mais sensível, enquanto nas monarquias constitucionais e na república, como na França e nos Estados Unidos, o poder é dividido entre um número maior de opressores, e a forma em que se traduz a violência é menos sensível; mas seu resultado – as desvantagens do governo maiores que as vantagens – e seu modo de agir – enfraquecimento dos oprimidos – são sempre os mesmos.

Assim foi e é a situação dos oprimidos, mas até agora estes ignoravam e, em sua maioria, acreditavam ingenuamente que o governo existisse para seu bem; que sem governo estariam perdidos; que não se pode, sem sacrilégio, exprimir a ideia de viver sem governo; que seria uma terrível doutrina – por quê? – de anarquia e que se apresenta acompanhada por um cortejo de calamidades.

Acreditava-se, como em algo absolutamente provado, que, já que até agora todos os povos se desenvolveram sob a forma de Estados, esta forma permanece para sempre a condição essencial do desenvolvimento da humanidade.

Tudo isto continuou assim por centenas e milhares de anos, e os governos sempre se esforçaram e esforçam-se ainda para manter os povos neste erro.

Assim era na época dos imperadores romanos, e assim é em nossos dias, embora a ideia da inutilidade e dos inconvenientes do poder penetre cada vez mais na consciência das massas; e seria eternamente assim, se os governos não se achassem na obrigação de aumentar continuamente seus exércitos para manter sua autoridade.

Acredita-se, em geral, que os governos aumentam os exércitos unicamente para a defesa externa do país, enquanto, na realidade, os exércitos lhes são necessários, principalmente, para sua própria defesa contra os súditos oprimidos e reduzidos à escravidão.

Isto sempre foi e torna-se cada vez mais necessário à medida que se propaga a instrução, à medida que as relações entre os povos e os habitantes de um mesmo país se tornem mais fáceis e, sobretudo, devido ao movimento comunista, socialista, anarquista e operário. Os governos compreendem e

aumentam a força de seus exércitos.15

Recentemente, no Reichstag alemão, respondendo à interpelação que perguntava por que eram necessários capitais para aumentar o soldo dos suboficiais, o chanceler declarou francamente que precisava ter suboficiais seguros, para lutar contra o socialismo. O senhor De Caprivi nada fez além de dizer em voz alta aquilo que todos sabem no mundo político, mas que é cuidadosamente escondido do povo. Pelo mesmo motivo formavam-se guardas suíças e escocesas para o rei de França e para os papas e, ainda hoje, na Rússia, misturam-se com tanto cuidado os recrutas de modo que os regimentos destinados às guarnições do centro sejam compostos por soldados pertencentes às províncias de fronteira e vice-versa.

O sentido do discurso do senhor De Caprivi, traduzido em língua vulgar, é que o dinheiro é necessário não contra o inimigo externo, mas para comprar suboficiais, prontos a marchar contra os trabalhadores oprimidos.

De Caprivi disse, involuntariamente, aquilo que todos bem sabem ou que sentem, aqueles que não o sabem, ou seja: que a ordem atual é tal não porque deva ser naturalmente assim, não porque o povo quer que assim seja, mas porque o governo a mantém assim por meio da violência, apoiado no exército com seus suboficiais e seus generais comprados.

Se o trabalhador não tem terra, se ele é privado do direito mais natural, o de extrair do solo seu sustento e de sua família, não é porque o povo assim queira, mas porque determinada classe – os proprietários fundiários – tem o direito de contratar ou não o trabalhador. E esta ordem de coisas contra a natureza é mantida pelo exército. Se as imensas riquezas acumuladas pelo trabalho são consideradas pertencentes não a todos, mas a alguns; se o pagamento dos impostos e seu uso são abandonados ao capricho de alguns indivíduos; se as greves dos operários são reprimidas e as dos capitalistas, protegidas; se determinados homens podem escolher as formas de educação (religiosa ou leiga) dos jovens; se certos homens têm o privilégio de fazer leis às quais todos os outros devem se submeter, e de assim dispor dos bens e da vida de cada um; tudo isto acontece não porque o povo queira e porque deve acontecer naturalmente, mas porque os governos e as classes dirigentes assim querem, para seu proveito, e o impõem por meio de uma violência material.

Todos sabem disso, ou, se não sabem, saberão à primeira tentativa de insubordinação ou de mudança nesta ordem de coisas.

Mas não existe um só governo. Junto a ele existem outros, que dominam igualmente por meio da violência e estão sempre prontos a tirar do vizinho o produto de seus súditos, já reduzidos à escravidão. Por isso, cada um deles precisa de um exército, não só para se manter internamente, mas também para defender sua presa dos vizinhos ladrões. Os Estados são então levados a competir no aumento de seus exércitos, e este aumento é contagioso, como observou Montesquieu.

Cada aumento de efetivos, dirigido por um Estado contra seus súditos, torna-se inquietante para o Estado vizinho e obriga-o, por sua vez, a reforçar seu próprio exército.

Se os exércitos hoje em dia totalizam milhões de homens, não é somente porque cada Estado sentiu a ameaça de seus vizinhos, mas, sobretudo, porque teve que reprimir tentativas de revoltas internas. Um é resultado do outro; o despotismo dos governos aumenta com sua força e seu sucesso externo, e suas disposições agressivas aumentam com o despotismo interno.

Essa rivalidade nos armamentos conduziu os governos europeus à necessidade de estabelecerem o serviço militar obrigatório, que busca o maior número de soldados com as menores despesas possíveis. A Alemanha foi a primeira a ter esta ideia, e as outras nações imitaram-na. E, então, todos os cidadãos foram chamados às armas para manter as injustiças que entre eles eram cometidas, de modo que os cidadãos se tornaram seus próprios tiranos.

No serviço militar obrigatório esta contradição ficou evidente. De fato, o sentido do conceito social consiste em que o homem, tendo consciência da barbárie da luta entre indivíduos e da falta de segurança, transportou o sentido de sua vida para a associação dos indivíduos. Com o serviço militar obrigatório, os homens, tendo feito todos os sacrifícios possíveis para evitar as crueldades da luta e a instabilidade da vida, são vergonhosamente chamados a correr todos os perigos que acreditavam evitar e que, ademais, a associação – Estado – pela qual sacrificaram seus interesses pessoais corre os mesmos perigos de morte que ameaçavam o indivíduo isolado.

Os governos tentam poupar aos homens a luta entre indivíduos, dando-lhes a certeza da inviolabilidade do regime adotado; porém, expõem o indivíduo aos mesmos perigos, porquanto, evitando a luta entre indivíduos do mesmo grupo, preparam-nos para uma luta entre grupos.

A criação do serviço militar obrigatório faz pensar num homem que, para que sua casa não desabe, enche-a de escoras, vigas, traves, tábuas, de tal forma que só consegue mantê-la de pé tornando-a absolutamente inabitável.

Do mesmo modo o serviço militar obrigatório torna nulas todas as vantagens da vida social que é chamado a defender.

As vantagens da vida social consistem na segurança da propriedade e do trabalho, e na possibilidade de um melhoramento geral das condições de vida. Ora, o serviço militar destrói tudo isto.

Os impostos recolhidos para as despesas militares absorvem a maior parte do produto do trabalho que o exército deve defender.

A incorporação de todos os homens válidos ao exército compromete a própria possibilidade de trabalho. As ameaças de guerra, sempre prontas a eclodir, tornam inúteis e vãos todos os melhoramentos das condições da vida social.

Se há tempos atrás fosse dito a um homem que sem o Estado ele estaria exposto às agressões dos malfeitores, dos inimigos internos ou externos, que deveria se defender sozinho contra todos, que sua vida seria ameaçada, que, em consequência, seria vantajoso para ele submeter-se a algumas privações para evitar estes males, o homem teria podido acreditar, já que o sacrifício que fazia ao Estado dava-lhe a esperança de uma vida tranquila e uma ordem de coisas que não podia desaparecer. Mas, hoje, quando os seus sacrifícios desapareceram, é natural que cada um pergunte a si mesmo se a submissão ao Estado não é absolutamente inútil.

Mas não reside neste fato o fatal significado desse serviço militar, como manifestação da contradição que encerra o conceito social. A principal manifestação dessa contradição consiste em que, com o serviço militar obrigatório, cada cidadão se transforma no sustentáculo da ordem atual das coisas e participa de todos os atos do Estado, sem lhe reconhecer a legitimidade.

Os governos afirmam que os exércitos são necessários, por toda parte, para a defesa externa. É falso. São principalmente necessários contra os próprios cidadãos, e cada soldado participa à revelia das violências do Estado sobre os cidadãos.

Para convencer-se desta verdade basta lembrar o que se comete em cada Estado, em nome da ordem e da tranquilidade do povo, servindo-se sempre do exército como instrumento. Todas as brigas internas de dinastias ou de partidos, todas as execuções capitais que acompanham essas agitações, todas as repressões de revoltas, todas as intervenções da força armada para dissipar os grupos ou para impedir greves, todas as extorsões de impostos, todos os obstáculos à liberdade do trabalho, tudo isto é feito diretamente com a ajuda do exército ou da polícia, apoiada pelo exército. Cada homem que cumpre o serviço militar participa de todas essas pressões que, às vezes, lhe parecem ambíguas, mas, na maior parte do tempo, absolutamente contrárias à sua consciência.

Assim, alguns homens se recusam a abandonar a terra que cultivam de pai para filho há muitas gerações, outros não querem circular como pretende a autoridade, outros não querem pagar os impostos, outros não querem reconhecer como obrigatórias certas leis que não fizeram, outros não querem perder sua nacionalidade e eu, que estou cumprindo as obrigações do serviço militar, sou obrigado a atacar aquela gente? Eu não posso, tomando parte nessas repressões, deixar de perguntar a mim mesmo se são justas ou injustas e se devo concorrer para sua execução.

O serviço militar obrigatório é o último grau de violência necessária à manutenção da organização social, é o limite extremo que pode atingir a submissão de todos, é a mola mestra cuja queda determinará a de todo o edifício.

Com os crescentes abusos dos governos e com seu antagonismo, chegou-se a pretender dos governados não só sacrifícios materiais, mas também sacrifícios morais tais que cada um pergunta a si mesmo: “Posso obedecer?” “Em nome de quem devo fazer sacrifícios?” E esses sacrifícios são pedidos em nome do Estado. Em nome do Estado pedem-me que sacrifique tudo o que pode ser caro ao homem: a felicidade, a família, a segurança, a dignidade humana. Mas o que é, então, esse Estado que pretende sacrifícios tão terríveis? Por que ele nos é, então, tão necessário?

O Estado, dizem-nos, é necessário, em primeiro lugar, porque, sem o Estado, você e eu, todos ficaremos sem defesa contra a violência dos malvados; depois, porque, sem o Estado, permaneceríamos selvagens e não teríamos tido nem religião, nem instrução, nem educação, nem indústria, nem comércio, nem meios de comunicação, nem outras instituições sociais e, enfim, porque sem o Estado teríamos corrido o risco de ser conquistados por povos vizinhos.

“Sem o Estado”, dizem-nos, “teríamos corrido o perigo de sofrer as violências dos malvados em nossa própria pátria.”

Mas quem são esses malvados de cuja maldade e de cuja violência nos preservam nosso Estado e nosso exército? Há três ou quatro séculos, quando nos orgulhávamos de nossa habilidade militar e de nossas armas, quando matar era uma ação gloriosa, existiram homens desse tipo, mas hoje não mais existem, e os homens de nosso tempo não portam mais armas, e cada um prega leis de humanidade, de piedade pelo próximo e deseja aquilo que desejamos nós, isto é, a possibilidade de uma vida tranquila e estável significa que não existem mais malfeitores dos quais o Estado nos deva proteger. E se o Estado nos deve defender dos homens considerados criminosos, sabemos que não são homens de uma outra natureza, como as bestas ferozes entre as ovelhas, mas homens como todos nós, que não encontram, mais do que nós, satisfação em cometer delitos. Sabemos, hoje, que as ameaças e os castigos não podem fazer diminuir o número desses homens, e que este não diminuirá senão pela mudança do ambiente e da influência moral. De modo que a proteção do Estado contra os violentos, se era necessária há três ou quatro séculos, não o é hoje. Agora, o oposto é bem mais verdadeiro: a ação do governo, com seus cruéis métodos de coerção, atrasados para o estágio de nossa civilização – como as prisões, a forca, a guilhotina –, concorre muito mais para a barbárie dos costumes do que para sua suavização e, em consequência, cresce, mais do que diminui, o número de violentos.

“Sem Estado”, dizem-nos, “não teremos religião, educação, indústria, comércio, meios de comunicação ou outras instituições sociais. Sem o Estado, não teríamos podido organizar as instituições que são necessárias a todos.” Mas este assunto teria podido ter algum valor há alguns séculos.

Houve um tempo em que os homens se comunicavam tão pouco e em que os meios de aproximação e de troca de ideias eram tão precários que não era possível haver acordos comerciais, industriais e econômicos sem um centro, um Estado. Estes obstáculos, hoje, desapareceram. Os meios de comunicação tão amplamente desenvolvidos e a troca de ideias fizeram com que, para a formação das sociedades, corporações, congressos, instituições econômicas e políticas, os homens de nosso tempo não só possam prescindir dos governos mas, também, na maioria das vezes, sejam coibidos pelo Estado, o qual, em vez de ajudá-los, os contraria na efetivação de seus projetos.

A começar de fins do século passado, quase todos os passos da humanidade, em vez de serem encorajados, foram censurados pelos governos. Assim aconteceu pela supressão das penas corporais, da tortura, da escravidão, pela instituição da liberdade de imprensa e da liberdade de reuniões. Não só o governo não ajuda, como até se opõe a cada movimento que daria início a novas formas de vida. A solução das questões operárias, agrárias, políticas, religiosas, longe de ser encorajada, é contrariada pela autoridade governamental.

“Sem o Estado e sem o governo, o povo teria sido conquistado por povos vizinhos.”

Inútil responder a este argumento; ele responde por si. Dizem-nos que o governo e o seu exército nos são necessários para nos defender dos povos vizinhos, que poderiam nos sujeitar; mas o que se diz de todos os governos e em todas as nações, e que, portanto, sabemos muito bem, é que todos os povos da Europa exaltam os princípios da liberdade e da fraternidade. Não deveriam, então, se defender uns dos outros.

Mas, ao se falar dos bárbaros, a milésima parte das tropas que neste momento compõem o exército bastaria para mantê-los a distância. Vemos, portanto, precisamente o contrário daquilo que nos dizem. Não só o exagero das forças militares não nos preserva das agressões de nossos vizinhos, mas, ao contrário, poderia ser o motivo dessa agressão.

Em consequência disto, a cada homem, induzido pelo serviço militar obrigatório a refletir sobre o governo em cujo nome lhe é pedido o sacrifício do próprio repouso, da própria segurança e da vida, fica claro que nada justifica, hoje, este sacrifício.

Não só é evidente que os sacrifícios pedidos pelo governo não têm, em teoria, nenhuma razão de ser, mas também na prática, isto é, na presença das penosas condições em que o homem se encontre por culpa do Estado, cada um vê necessariamente que satisfazer as exigências do governo e submeter-se ao recrutamento militar é, às vezes, mais desvantajoso do que a rebelião.

Se a maioria prefere submeter-se, não é por madura reflexão sobre o bem e o mal que isto pode resultar, mas porque está, por assim dizer, hipnotizada. Obedecendo, os homens submetem-se simplesmente às ordens que lhes são dadas, sem refletir e sem fazer um esforço de vontade. Para não obedecer, é preciso refletir com independência, e isto constitui um esforço de que nem todos são capazes. Mas, caso fosse afastado o significado moral da sujeição ou da rebelião e consideradas apenas as vantagens materiais, se veria que a rebelião é, em geral, mais proveitosa do que a submissão.

Quem quer que seja, pertença à classe abastada e opressora ou à classe operária e oprimida, em ambos os casos as vantagens da rebelião serão maiores do que as da obediência.

Se pertenço à classe opressora, a menos numerosa, minha recusa a obedecer ao governo terá o inconveniente de que me processem como rebelde, e o que pode acontecer de melhor é que me absolvam, ou seja, como se faz entre nós com os menonitas, que me obriguem a fazer meu tempo de serviço nos trabalhos civis. Mas podem me condenar à deportação ou à prisão por dois ou três anos (falo dos casos que aconteceram na Rússia) ou, talvez, por um período mais longo. Podem até me condenar à morte, embora tal condenação seja improvável. Eis os inconvenientes da recusa a obedecer.

Os inconvenientes da submissão são os seguintes: no caso mais favorável, não me mandarão matar homens, não me farão correr o risco de ser mutilado ou morto, mas me submeterão à escravidão militar. Serei vestido com um uniforme de palhaço, cada um daqueles que tiver um posto me comandará, do soldado raso ao marechal de campo, cada um me obrigará a contorcer meu corpo a seu bel-prazer e, depois de me terem feito servir de um a cinco anos, me deixarão ainda por dez anos na condição de ser a qualquer instante chamado para executar as ordens que toda aquela gente me dará. No caso menos favorável, acontecerá que, além dessa escravidão, me mandarão para a guerra, onde serei obrigado a matar homens de países estrangeiros que nada me fizeram, onde posso ser aleijado ou morto, ou mandado para uma morte certa como em Sebastopol ou, o que é ainda mais cruel, posso ser conduzido contra meus próprios compatriotas e ser obrigado a matar meus irmãos, por interesses dinásticos ou governamentais, que me são de todo estranhos. Tais são os respectivos inconvenientes.