O Reino de Deus Está em Vós

Liev Tolstói · Capítulo 8 de 15

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O Reino de Deus Está em Vós

Capítulo 5

Enfim, a opinião errônea dos doutores, que o sobrenatural é a essência do cristianismo, e que sua doutrina é impraticável, é também uma das causas pelas quais os homens de nosso tempo não compreendem o cristianismo.

 

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Contradições entre nossa vida e a consciência cristã

 

A incompreensão da doutrina de Cristo por parte dos homens tem causas diversas. Uma delas é que os homens creem tê-la compreendido quando, como os fiéis da Igreja, admitem sua revelação sobrenatural, ou, então, quando, como os doutores, limitam-se ao estudo dos fenômenos externos por meio dos quais ela se manifestou. Outra dessas causas está na convicção de que ela é impraticável e pode ser substituída pela doutrina do amor à humanidade. Mas a principal dessas causas, a que é a fonte de todos os mal-entendidos, consiste na opinião de que o cristianismo é uma doutrina que se pode aceitar ou rejeitar sem mudar de vida.

Os homens, habituados à ordem atual das coisas, à qual são afeiçoados e que receiam modificar, procuram entender a doutrina como um conjunto de revelações e regras, que se pode aceitar sem mudar de vida. Porém, o cristianismo não é apenas uma doutrina que dá normas para seguir, mas uma explicação nova do sentido da vida, uma definição da ação humana absolutamente diversa da antiga, porque a humanidade entrou num novo período.

A vida da humanidade modifica-se, como a vida do indivíduo, passando por diversas idades: cada idade tem, sobre a vida, um conceito correspondente, que os homens infalivelmente assimilam. Aqueles que não o assimilam com a razão assimilam-no inconscientemente. O que ocorre pela mudança do modo de encarar a vida pelos indivíduos, ocorre da mesma forma pela mudança do modo de encarar a vida pelos povos e por toda a humanidade. Se o pai de família continuasse a agir segundo o conceito de vida que ele tinha quando jovem, sua vida tornar-se-ia tão difícil que ele procuraria por si mesmo um outro conceito e, de bom grado, aceitaria aquele que correspondesse à sua idade.

É isto o que hoje ocorre com a humanidade, no tempo que atravessamos, período de transição entre o conceito pagão de vida e o conceito cristão. O homem social de nosso tempo é levado pela própria vida à necessidade de rejeitar o conceito pagão da vida, impróprio para a idade atual da humanidade, e a submeter-se às exigências da doutrina cristã, cujas verdades, por mais corruptas e mal-interpretadas que sejam, são, porém, conhecidas e as únicas a oferecer a solução para as contradições que se apresentam a ele.

Se o homem seguidor do conceito social considera as exigências do cristianismo estranhas e também perigosas, igualmente estranhas, incompreensíveis e perigosas pareciam ao selvagem das épocas antigas as exigências da doutrina social, quando ele ainda não as entendia e não podia prever suas consequências.

“É uma insensatez sacrificar a própria tranquilidade e a própria vida pela defesa de algo incompreensível, intangível e convencional: a família, a tribo, a pátria, e é sobretudo perigoso colocar-se nas mãos de um poder estrangeiro”, dizia o selvagem.

Mas veio um tempo em que o selvagem compreendeu, ainda que vagamente, o valor da vida social e de seu principal estímulo, a aprovação ou a reprovação social: a glória – e um tempo no qual, por outro lado, as dificuldades de sua vida pessoal tornaram-se tais que não podia continuar a acreditar no valor de seu antigo conceito da vida, e precisou aceitar a doutrina social e a ela submeter-se.

O mesmo repete-se hoje com o homem social.

“É uma insensatez sacrificar a própria felicidade, a da própria família e da própria pátria para satisfazer as exigências de algumas leis, superiores, sim, mas incompatíveis com o sentimento melhor, mais natural, o amor a si próprio, à própria família, à própria tribo, à própria pátria, e é sobretudo perigoso abandonar a garantia da vida que assegura a ordem social”, diz ele.

Mas chega o tempo em que a vaga consciência da lei superior do amor a Deus e ao próximo e os sofrimentos resultantes das contradições da vida forçam o homem a rejeitar o conceito social e a aceitar o que lhe é proposto, que resolve todas as contradições e remedia todos os sofrimentos: o conceito cristão da vida. E este tempo chegou.

Nós que suportamos, por milhares de anos, a transição do conceito animal da vida ao conceito social, acreditamos que essa transição era então necessária, natural, enquanto aquela na qual nos encontramos há 1.800 anos nos parece arbitrária, artificial e assustadora. Mas nos parece assim somente porque a primeira transição já se completou e porque os costumes que fez nascer tornaram-se habituais, enquanto a transição presente ainda não terminou e devemos conscientemente levá-la adiante.

Longos séculos, milhares de anos passaram-se, antes que o conceito social penetrasse na consciência dos homens. Ele passou por diversas formas e entrou hoje no domínio do inconsciente, por meio da herança, da educação e do hábito. Por isso, nos parece natural. Mas, há cinco mil anos, parecia ao homem tão pouco natural e tão apavorante quanto lhe parece, agora, a doutrina cristã, em seu verdadeiro sentido.

Parece-nos, hoje, que as exigências do cristianismo, a fraternidade universal, a supressão da nacionalidade, a supressão da propriedade e o tão estranho preceito da não resistência ao mal por meio da violência são inaceitáveis. Mas pareciam, também, inaceitáveis, há milhares de anos, todas as exigências da vida social e mesmo as da vida doméstica, como a obrigação dos pais de nutrir os filhos e dos jovens de nutrir os velhos, ou mesmo a obrigação dos esposos de serem fiéis um ao outro. Mais estranhas ainda, até insensatas, pareciam as diversas exigências sociais, como a obrigação dos cidadãos de submeterem-se ao poder, de pagar impostos, de guerrear em defesa da pátria etc. Todas essas exigências nos parecem, hoje, simples, compreensíveis, naturais, e nada vemos nelas de místico ou apavorante. Todavia, há cinco ou três mil anos pareciam inadmissíveis.

O conceito social servia de base às religiões porque, na época em que foi proposto aos homens, era absolutamente incompreensível, místico e sobrenatural. Hoje, tendo atravessado essa fase da vida humana, compreendemos as causas racionais do agrupamento humano em famílias, comunidade, Estados; mas, na Antiguidade, a necessidade de tais reuniões foi apresentada em nome do sobrenatural e por ele confirmada.

As religiões patriarcais divinizavam a família, a etnia, o povo; as religiões sociais divinizavam o rei, os Estados. Ainda hoje, a maior parte dos ignorantes – como nossos camponeses que chamam o czar de Deus terrestre – submete-se às leis sociais, não segundo a consciência racionalizada de sua necessidade, não por terem uma ideia do Estado, mas por sentimento religioso.

Do mesmo modo, hoje, a doutrina de Cristo aparece sob o aspecto de uma religião sobrenatural, enquanto, na verdade, nada tem de misteriosa, mística ou mesmo sobrenatural. É simplesmente uma doutrina de vida, correspondente ao grau de desenvolvimento da idade em que se encontra a humanidade e que, em consequência, deve ser por ela aceita.

Virá o tempo – e já está vindo – no qual os princípios cristãos da vida – fraternidade, igualdade, comunhão de bens, não resistência ao mal por meio da violência – parecerão tão simples e tão naturais como hoje parecem os princípios da vida doméstica e social.

Nem o homem nem a humanidade podem voltar atrás. Os conceitos doméstico e social são fases atravessadas pelos homens; é preciso que eles progridam e assimilem o conceito subsequente, superior; e isso já ocorre atualmente.

Esse movimento é executado de dois modos simultâneos: conscientemente, como resultado de causas materiais; inconscientemente, como sequência de causas materiais.

Assim como um indivíduo isolado não muda sua existência apenas por razões morais e, na maioria das vezes, continua a viver como no passado, apesar de um novo sentido e de uma nova finalidade revelados pela razão, e só modifica sua vida quando esta se torna absolutamente contrária à sua consciência e, portanto, intolerável, também a humanidade, tendo aprendido com seus guias religiosos o novo sentido da vida, os novos objetivos que deve alcançar, continua ainda, por longo tempo após essa iniciação, a viver como no passado, e não é induzida a aceitar o novo conceito a não ser devido à impossibilidade de continuar a antiga vida.

Não obstante a obrigação de modificar a vida, obrigação formulada pelos guias religiosos, reconhecida pelos homens mais inteligentes, e já parte da consciência, a maioria dos homens, ainda que mantenha um respeito religioso por esses guias, ou seja, a fé em sua doutrina, continua a seguir pelo caminho mais complicado, pelos princípios da antiga doutrina, como faria um pai de família que, sabendo muito bem como é preciso viver em sua idade, continuasse, por hábito e por leviandade, a viver sua existência de garoto.

Eis o que acontece no período de transição da humanidade de uma idade para outra, que nesse momento atravessamos. A humanidade saiu da idade social e entrou numa nova idade. Porém, conhecedora da doutrina que deve servir de base a essa nova idade, continua, por inércia, a conservar as antigas formas de vida. Deste antagonismo do novo conceito com a prática da vida resulta uma série de contradições e sofrimentos que envenenam nossa existência e exigem sua modificação.

Basta, na realidade, comparar apenas a prática com sua teoria, para assustar-se frente à contradição flagrante das condições de nossa existência e de nossa consciência.

Toda nossa vida está em contradição constante com tudo o que sabemos e que consideramos necessário e obrigatório. Esta contradição está em tudo: na vida econômica, na vida política e na vida internacional. Como se tivéssemos esquecido o que aprendemos e posto provisoriamente de lado o que acreditamos ser justo, fazemos o contrário daquilo que pedem nossa razão e nosso bom-senso.

Guiamo-nos, em nossas relações econômicas, sociais e internacionais, pelos princípios que eram bons para os homens há três ou cinco mil anos, e que estão em contradição direta com nossa consciência atual, bem como com as condições da vida em que, hoje, nos encontramos.

O homem da Antiguidade podia julgar ser seu direito gozar os bens deste mundo em detrimento dos outros homens, fazendo-os sofrer de geração em geração, porque acreditava que os homens pertenciam a diversas origens, nobres ou vis, estirpe de Jafé ou de Cam. Não só os maiores sábios do mundo, os educadores da humanidade – Platão, Aristóteles etc. – justificavam a escravidão e demonstravam sua legitimidade, como, há três séculos, os homens que descreveram a sociedade imaginária do futuro, a Utopia, não conseguiam representá-la sem escravos. Os da Antiguidade e também os da Idade Média acreditavam que os homens não são iguais, que os verdadeiros homens eram somente os persas, somente os gregos, somente os romanos, somente os franceses; mas não mais podemos acreditar nisso, e os que, em nosso tempo, se esforçaram tanto para defender a aristocracia e o patriotismo não podem acreditar naquilo que dizem.

Sabemos todos, e não temos como não saber, ainda que nunca tivéssemos ouvido ou lido coisa alguma a esse respeito, ainda que nós mesmos nunca houvéssemos expressado, impregnando-nos do sentimento que age na área cristã, sabemos, com todo o nosso coração, que somos todos filhos de um só Pai, qualquer que seja o lugar em que moramos, qualquer que seja a língua que falamos; que somos todos irmãos e todos sujeitos ao julgamento da lei única do amor, colocada em nosso coração por nosso Pai comum.

Quaisquer que sejam as ideias e o grau de instrução de um homem de nosso tempo, um culto liberal de qualquer grau, um filósofo de qualquer sistema, um doutor, um economista de qualquer escola, também um fiel de qualquer crença, cada homem sabe que todos os homens têm os mesmos direitos à vida e aos prazeres deste mundo, e que todos, nem piores ou melhores do que os outros, são iguais. Cada um sabe isto do modo mais absoluto e seguro. Entretanto, não só cada um vê a seu redor a divisão dos homens em duas castas, uma lastimosa, sofrida, miserável, oprimida, e a outra ociosa, dominadora, vivendo no luxo e nas festas; mas, além disso, voluntariamente ou não, cada qual participa de um lado ou de outro da manutenção dessas divisões que sua consciência condena, porque não pode deixar de sofrer com essa contradição e com sua contribuição para esse ordenamento.

Seja patrão ou escravo, o homem moderno não pode deixar de perceber a contradição constante, aguda, entre sua consciência e a realidade, e deixar de conhecer os sofrimentos que daí resultam.

A massa trabalhadora, a grande maioria dos homens, suportando a pena e as privações sem fim e sem razão que absorvem durante toda a vida, sofrem ainda mais com essa flagrante contradição entre o que é e o que deveria ser, segundo o que eles mesmos professam e o que professam aqueles que os reduziram a esse estado.

Eles sabem que vivem na escravidão e condenados à miséria e às trevas para o prazer da minoria que os escraviza. Sabem e dizem. E essa consciência não só aumenta seu sofrimento, mas é sua principal causa.

O escravo da Antiguidade sabia que era escravo por natureza, enquanto o nosso operário, sentindo-se escravo, sabe que não deveria sê-lo e, por isso, sofre o suplício de Tântalo, desejando sempre e jamais obtendo, não só o que lhe poderia ser concedido, mas sequer o que lhe é devido. Os sofrimentos das classes operárias, derivando da contradição entre o que é e o que deveria ser, decuplicam com a inveja e com o ódio resultantes da consciência dessa situação.

O operário de nosso tempo, ainda que seu trabalho seja menos penoso do que o do escravo antigo, ainda que obtenha a jornada de oito horas e o salário de poucas liras por dia, não deixaria de sofrer porque, fabricando objetos dos quais não usufrui, trabalha não para si e voluntariamente, mas por necessidade, para a satisfação dos ricos e dos ociosos, e para o proveito de um só capitalista, proprietário de fábrica ou de indústria. Sabe que isto ocorre num mundo em que é reconhecida a máxima científica de que só o trabalho alheio é uma injustiça, um delito punido por lei, num mundo que professa a doutrina de Cristo, segundo a qual somos todos irmãos, e que não se reconhece ao homem outro mérito senão o de vir em auxílio do próximo, em vez de explorá-lo.

Ele sabe tudo isso e não pode deixar de sofrer devido a essa flagrante contradição entre o que é e o que deveria ser.

“Segundo todos os dados e segundo tudo o que sei do que acontece no mundo, eu deveria ser livre, amado, igual a todos os outros homens, mas, em vez disto, sou escravo, humilhado, odiado”, diz para si mesmo o trabalhador. E ele também odeia e procura o modo de sair de sua situação, de livrar-se do inimigo que o oprime e de, por sua vez, oprimi-lo.

Diz-se: “Os operários estão errados ao desejarem colocar-se no lugar do capitalista, o pobre no lugar do rico.” É falso. O trabalhador e o pobre seriam injustos se assim o desejassem no mundo em que escravos e patrões, ricos e pobres são reconhecidos como sucedâneos de Deus; mas eles assim o desejam num mundo no qual se professa a doutrina evangélica, cujo primeiro princípio é que todos os homens são filhos de Deus, donde resultam a fraternidade e igualdade universal. E, não obstante todos os esforços dos homens, não é possível esconder que uma das principais condições da vida cristã é o amor não a palavras, mas a fatos.

O homem da classe que se diz culta sofre até mais com as contradições de sua vida. Cada membro dessa classe, se acredita em algo, acredita, se não na fraternidade dos homens, pelo menos num sentimento de humanidade ou na justiça, ou na ciência; e ele sabe, entretanto, que toda a sua vida está estabelecida sobre princípios diretamente opostos a tudo isso, a todos os princípios do cristianismo, da humanidade, da justiça e da ciência.

Ele sabe que todos os hábitos em meio aos quais foi educado, e cujo abandono lhe seria penoso, só podem ser satisfeitos por meio de um trabalho árduo, muitas vezes fatal, dos operários oprimidos, isto é, pela violação mais evidente, mais grosseira, daqueles mesmos princípios de cristianismo, de humanidade, de justiça e, até, de ciência (e omite as exigências da economia política) por ele professados. O homem ensina princípios de fraternidade, de humanidade, de justiça, de ciência, mas não só vive de modo a ser obrigado a recorrer à opressão do trabalhador, a qual reprova, como, ainda, toda a sua vida repousa sobre os benefícios dessa opressão, assim dirigindo toda a sua ação para a manutenção desse estado de coisas absolutamente contrário aos princípios que professa.

Somos todos irmãos, e, no entanto, a cada manhã, este irmão ou esta irmã fazem para mim os serviços que não desejo fazer. Somos todos irmãos, e, no entanto, preciso a cada dia de charuto, de açúcar, de espelho e de outros objetos em cuja fabricação meus irmãos e minhas irmãs, que são meus semelhantes, sacrificaram e sacrificam sua saúde; e sirvo-me desses objetos, e até os reclamo como meu direito. Somos todos irmãos, e, no entanto, ganho a vida trabalhando num banco, ou numa casa de comércio, num estabelecimento cuja ação final é tornar mais custosas todas as mercadorias necessárias a meus irmãos. Somos todos irmãos, e, no entanto, vivo e sou pago para interrogar, julgar e condenar o ladrão e a prostituta, cuja existência resulta de todo o meu modo de viver e a quem não se deve, como sei, condenar ou punir. Somos todos irmãos, e vivo e sou pago para recolher impostos dos trabalhadores carentes e empregá-los para o bem-estar dos ociosos e dos ricos. Somos todos irmãos, e sou pago para pregar aos homens uma suposta fé cristã, na qual eu mesmo não creio, e que os impede de conhecer a verdadeira fé; recebo salário como padre, como bispo, para enganar os homens nas questões, para eles, mais essenciais. Somos todos irmãos, mas não forneço ao pobre, senão por dinheiro, meu trabalho de pedagogo, de médico, de literato. Somos todos irmãos, e eu me preparo para o assassinato; aprendendo a matar, fabrico armas, pólvora, construo fortalezas e por isso sou pago.

Toda a vida de nossas classes superiores é uma constante contradição, tanto mais dolorosa para um homem quanto sua consciência é mais sensível e mais elevada.

O homem dotado de uma consciência impressionável não pode deixar de não sofrer com tal vida. O único meio para livrar-se desse sofrimento é impor silêncio à própria consciência; mas se alguns conseguem isso, não conseguem impor silêncio a seu medo.

Os homens das classes superiores opressivas, cuja consciência é pouco impressionável ou que aprenderam a fazê-la calar, se não sofrem devido a ela, sofrem com o medo e com o ódio, e não conseguem deixar de sofrer. Conhecem todo o ódio que contra eles nutrem as classes trabalhadoras; não ignoram que os operários são enganados e explorados e que começam a se organizar para combater a opressão e vingar-se dos opressores. As classes superiores veem as associações, as greves, o 1º de Maio e sentem o perigo que os ameaça, e esse medo envenena sua vida e transforma-se num sentimento de defesa e de ódio. Sabem que, enfraquecendo por um instante na luta contra os escravos oprimidos, perecerão, porque os escravos estão exasperados e porque cada dia de opressão aumenta essa exasperação. Os opressores, ainda que quisessem, não poderiam dar fim à opressão. Sabem que eles próprios pereceriam, não apenas logo que deixassem de ser opressores, mas também assim que dessem sinais de enfraquecimento. Por isso não enfraquecem, apesar de seus supostos cuidados com o bem-estar do operário, das jornadas de oito horas, das leis trabalhistas para o menor e a mulher, das pensões e de recompensas. Tudo isso nada é senão prepotência ou desejo de deixar ao escravo a força de trabalho; mas o escravo permanece escravo e o patrão, que não pode ficar sem ele, está menos disposto do que nunca a libertá-lo.

As classes dirigentes encontram-se, face às classes trabalhadoras, na situação de um homem que houvesse jogado ao chão seu adversário e não o soltasse, não tanto porque não o quisesse, mas porque um momento de liberdade concedido a seu inimigo, irritado e armado com uma faca, bastaria para que este o degolasse.

Por isso, impressionáveis ou não, nossas classes abastadas não podem, como os antigos que acreditavam em seus direitos, gozar das vantagens das quais despojaram o pobre. Toda a sua vida e todos os seus prazeres são perturbados pelo remorso e pelo medo.

Assim é a contradição econômica. Mais surpreendente ainda é a contradição política.

Todos os homens são educados, antes de tudo, no hábito da obediência às leis. A vida de nossos tempos baseia-se nessas leis. O homem se casa, se divorcia, cria os filhos e até mesmo professa uma crença (em muitos países) de acordo com as leis. Qual é, então, essa lei sobre a qual repousa toda a nossa existência? De fato, nenhuma. Ademais, os homens de nosso tempo não acreditam na justiça dessas leis, desprezam-nas e, por isso, não se submetem a elas. Compreende-se que os homens da Antiguidade se tenham sujeitado a sua lei; realmente acreditavam que essa lei (que em geral era também religiosa) fosse a única, a verdadeira, aquela a que todos os homens deviam sujeitar-se. Mas, e nós? Nós sabemos e não temos dúvida de que a lei do nosso Estado não é a única, a eterna lei, mas somente uma lei como as outras, tão numerosas, dos outros Estados, igualmente imperfeita e muitas vezes também claramente falsa e injusta. Compreende-se que os judeus tenham obedecido às suas leis, uma vez que não duvidavam que Deus as houvesse escrito com seu dedo, o mesmo se compreende com relação aos romanos, que as acreditavam ditadas pela ninfa Egéria. Compreende-se até a obediência às leis quando se acreditava que os soberanos que as ditaram eram os representantes de Deus na Terra, ou quando as Assembleias Legislativas que as elaboraram foram animadas pelo desejo de fazê-las o melhor possível e tiveram a habilidade de consegui-lo. Mas todos sabemos como são feitas essas leis. Estivemos todos nos bastidores; sabemos que são geradas pela cobiça, pela astúcia, pela luta entre os partidos; que nelas não há e não pode haver justiça real. Por isso, os homens de nosso tempo não podem crer que a submissão às leis sociais e políticas satisfaça às exigências da razão e da natureza humana. Os homens de há muito sabem que é irracional submeter-se a uma lei cuja verdade é dúbia e, portanto, não podem deixar de sofrer ao se submeterem a uma lei cujo bom-senso e cujo caráter obrigatório eles não reconhecem.

O homem não pode deixar de sofrer quando toda a sua vida é regulada antecipadamente por leis às quais ele deve obedecer sob ameaça de castigo, ainda que não acredite na sabedoria e justiça dessas leis e que até, muitas vezes, tenha plena consciência de sua crueldade e de seu caráter artificial.

Reconhecemos a inutilidade das alfândegas e das taxas de importação, mas somos obrigados a pagá-las. Reconhecemos a inutilidade das listas civis e de muitas outras despesas governamentais; consideramos nocivos os ensinamentos da Igreja, e devemos contribuir para a manutenção dessas instituições. Reconhecemos como cruéis e injustas as condenações pronunciadas pelos tribunais e somos obrigados a participar dessa Justiça. Reconhecemos ser irregular e funesta a distribuição da propriedade rural, e devemos suportá-la. Não reconhecemos a necessidade do exército e da guerra, e devemos pagar terríveis impostos para a manutenção das tropas e para as despesas da guerra.

Mas essa contradição não é nada se comparada àquela que se ergue diante dos homens em suas relações internacionais e que, sob pena de perda da razão e da vida humana, exige uma solução: a contradição entre a consciência cristã e a guerra.

Todos nós, povos cristãos, que participamos da mesma vida espiritual, de tal modo que cada pensamento generoso, fecundo, que nasce numa extremidade da Terra, comunica-se imediatamente a toda a humanidade cristã e provoca por toda parte o mesmo sentimento de alegria e orgulho, a despeito das nacionalidades; nós, que amamos o pensador, o filantropo, o poeta, o sábio estrangeiro; nós, que

estamos orgulhosos com o empreendimento de Damien,12 como se nosso fosse; nós, que simplesmente amamos os estrangeiros – franceses, alemães, norte-americanos, ingleses; nós, que pregamos suas qualidades, que ficamos felizes ao encontrá-los, que os acolhemos com prazer, que não só não podemos considerar como um ato heroico a guerra contra eles, mas que também não podemos pensar sem terror que uma desavença tão grave possa ser deflagrada entre nós e eles, nós somos todos chamados a participar da carnificina que inevitavelmente deve acontecer, senão hoje, pelo menos amanhã.

Compreende-se que os judeus, os gregos, os romanos tenham defendido sua independência com o assassinato e que, pelo assassinato, outros povos os tenham submetido, porque cada um deles acreditava firmemente ser o único povo escolhido, bom e amado por Deus, enquanto os outros não eram senão filisteus ou bárbaros. Os homens da Idade Média, e também aqueles do final do século XVIII e do princípio deste [século XIX], podiam ainda ter a mesma crença. Mas nós, apesar de todas as nossas excitações, não mais podemos tê-la. E essa contradição é tão terrível em nossos tempos que não mais podemos viver sem encontrar uma solução.

O conde Komarovski, professor de Direito Internacional, escreve em suas sábias memórias:

Os nossos tempos são ricos em contradições de toda espécie; a imprensa de todos os países

nos fala, em todos os tons, da necessidade da paz entre os povos e deseja-a ardentemente. Os

membros dos governos declaram-no, assim como órgãos oficiais e privados; disso se fala na

Câmara dos Deputados, nas correspondências diplomáticas e até nos tratados que se assinam. A

paz está em todas as bocas e, no entanto, os governos a cada ano aumentam seus armamentos,

introduzem novos impostos, fazem empréstimos e elevam desmedidamente seus débitos,

deixando às gerações futuras o trabalho de reparar todos os erros de nossa política insensata.

Que lamentável contraste entre palavras e atos! E o que fazem os governos para justificar seus

armamentos e o déficit de seus balanços? Colocam absolutamente tudo na conta exclusiva da

defesa! Mas eis o ponto obscuro, o que nenhum homem imparcial pode ou poderá

compreender: de que parte virá o ataque se, em sua política, todas as grandes potências são

unânimes ao objetivar a defesa. É, todavia, evidente que cada uma dessas potências está pronta,

a cada minuto, para atacar as outras. Eis o que causa uma desconfiança geral, bem como os

esforços sobre-humanos de cada Estado para superar em forças militares todos os outros:

competem para apresentar no campo de batalha a multidão mais imponente.

Tanta rivalidade é, por si só, o maior perigo de guerra; os povos não podem prolongar ao

infinito esse estado de coisas e cedo ou tarde deverão preferir a guerra à tensão em que agora

vivem e à destruição que os ameaça. Então, o mais fútil pretexto bastará para acender o fogo da

guerra em toda a Europa, de uma extremidade à outra. E esperamos em vão salvar-nos, com a

crise, das calamidades políticas e econômicas que nos oprimem. A experiência das últimas

guerras nos demonstrou suficientemente que cada uma delas rendeu o mais profundo ódio

entre os povos, o peso do militarismo mais insuportável e o mais triste e mais difícil estado

político e econômico da Europa.

Por sua vez, escreve Enrico Ferri:

A Europa moderna tem um exército de nove milhões de homens, e cerca de 15 milhões na

reserva, e gasta quatro bilhões de libras por ano. Armando-se cada vez mais, esgota as fontes do

bem-estar social e individual; e poderia facilmente ser comparada a um homem que, para

conseguir armas, condena-se à anemia, perdendo as forças de que precisa para se servir das

armas que conseguiu e sob cujo peso acaba por sucumbir.

O mesmo diz Charles Booth, em seu discurso lido em Londres na Associação pela Reforma e Codificação da Lei das Nações, a 26 de julho de 1887. Após ter mencionado a mesma cifra de 9 milhões de homens no exército ativo e 17 milhões na reserva, e as enormes despesas dos governos para a manutenção e o armamento desses exércitos, ele acrescenta:

Essas cifras não representam senão uma ínfima parte da despesa real, porque, além dessas

despesas conhecidas do balanço de guerra das diversas nações, devemos também considerar as

incalculáveis perdas causadas à sociedade pela absorção de uma quantidade tão considerável de

homens que, escolhidos entre os mais vigorosos, são tirados da indústria e de qualquer outro

trabalho, além dos enormes juros das quantias despendidas em preparativos militares que nada

rendem. A inevitável consequência dessas despesas de guerra e dos preparativos militares é o

aumento progressivo dos débitos do Estado. A maior parte dos débitos dos Estados da Europa foi

feita em previsão de guerra. Seu total soma quatro bilhões de libras esterlinas, ou cem bilhões de

liras, e esses débitos aumentam a cada ano.

O mesmo Komarovski diz, em outra parte:

Vivemos em tempos penosos. Ouvem-se por todos os lugares lamentações em torno da

estagnação do comércio e da indústria, e, em geral, em torno da má situação econômica: são

evidenciadas duras condições da vida das classes operárias e o empobrecimento das massas.

Inventam-se, por toda parte, novos impostos, e a opressão financeira das nações não tem limites.

Se examinarmos os balanços dos Estados da Europa durante os últimos cem anos, o que

antes de tudo nos chama a atenção é seu aumento progressivo e rápido. Como podemos explicar

esse extraordinário fenômeno que mais cedo ou mais tarde ameaça os Estados de uma inevitável

falência?

Isso provém certamente das despesas para a manutenção dos exércitos, que absorvem a terça

parte ou até mesmo a metade do balanço de todos os Estados da Europa. O mais triste é que não

se vê o final desse aumento dos balanços e do empobrecimento das massas. O que é o socialismo

senão um protesto contra essa situação extremamente anormal na qual se encontra a maior parte

da população de nosso continente?

Já Frédéric Passy, no último Congresso Universal da Paz, em Londres (1890), afirma:

Arruinamo-nos para tomar parte nos loucos massacres do futuro, ou para pagar os juros dos

débitos para nós deixados pelos loucos e criminosos massacres do passado. Estamos morrendo de

fome para podermos nos matar.

Falando mais sobre o modo como essa questão é considerada na França, acrescenta:

Acreditamos que, cem anos após a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, chegou

o tempo de reconhecer os direitos das nações e de renunciar para sempre a todas essas façanhas

de mentira e violência que sob o nome de conquistas são verdadeiros crimes de lesa-

humanidade e que, não obstante o que pensam a ambição dos soberanos e o orgulho dos povos,

debilitam até aqueles que triunfam.

Já Sir Wilfrid Lawson diz no mesmo congresso:

A educação religiosa do nosso país surpreende-me. O rapaz vai à escola dominical e lhe

dizem: “Meu caro rapaz, deves amar os teus inimigos. Se um companheiro te bate, não te deves

vingar, mas sim procurar reconduzi-lo, pela suavidade, a melhores sentimentos.” Muito bem. O

rapaz frequenta a escola dominical até os 14 ou 15 anos; depois os seus amigos fazem-no entrar

para o exército. O que acontecerá? O que ele deve fazer não é amar o inimigo, mas, ao contrário,

transpassá-lo com sua baioneta tão logo o encontre. Assim é a instrução religiosa neste país. Não

creio que seja esta a melhor maneira de obedecer aos mandamentos da religião. Creio que, se é

bom para um rapaz amar seu inimigo, também o é para um adulto...

E F. Wilson:

Existem na Europa 28 milhões de pessoas armadas para resolver as questões não pelo debate,

mas pelo massacre. Esta é a forma de discutir, em uso, nas nações cristãs. Esta forma é, ao

mesmo tempo, muito dispendiosa, porque, segundo as estatísticas por mim consultadas, as

nações da Europa gastaram, de 1872 até hoje, a inacreditável soma de sessenta bilhões,

unicamente para preparar a solução de suas questões por meio do massacre recíproco. Parece-

me, então, que, nessa ordem de ideias, se deva aceitar um dos dois finais para esse dilema: ou o

cristianismo é um fracasso, ou aqueles que assumiram a missão de interpretá-lo

compreenderam-no mal. Até que nossos encouraçados sejam desarmados e nossos exércitos

dispensados, não teremos o direito de nos chamar uma nação cristã.

Numa conversa a respeito da obrigação, para os pastores cristãos, da propaganda contra a guerra, G. D. Bartlett disse, entre outras coisas:

Se compreendo um pouco a Sagrada Escritura, afirmo que os homens não fazem outra coisa

senão fingir sua fé no cristianismo, não levando em consideração a guerra. Entretanto, durante

toda a minha existência ouvi apenas meia dúzia de vezes nossos pastores pregarem a paz

universal. Eu disse, há vinte anos, que a guerra é inconciliável com o cristianismo. Mas

consideraram-me um fanático insensato. A ideia de que se possa viver sem guerra foi acolhida

como uma imperdoável fraqueza, uma loucura.

O padre católico Defourney exprimiu-se no mesmo sentido:

Um dos primeiros preceitos da lei eterna, resplandecente na consciência dos homens, é o que

proíbe tirar a vida ao próprio semelhante, espalhar o sangue humano sem causa justa, ou sem ser

obrigado pela necessidade. É um dos preceitos mais profundamente impressos no coração do

homem... Mas, tratando-se da guerra, isto é, do derramamento de torrentes de sangue humano,

os homens de hoje não mais se importam com a justa causa. Os que nela tomam parte não mais

pensam em se perguntar se essas inúmeras mortes são ou não justificáveis, ou seja, se as guerras,

ou aquilo que se entende por este nome, sejam justas ou iníquas, legais ou ilegais, lícitas ou

criminosas; se, ao manejar o fogo que consome os bens e a arma que destrói as vidas humanas,

eles violam ou não a lei primordial que proíbe o homicídio, a matança, o saque e o incêndio sem

justa causa. Sua consciência emudece quanto a isso... A guerra deixou de ser, para eles, um ato

dependente da moral. Eles não têm outra alegria, nas fadigas e nos perigos dos campos, além de

serem vencidos...

Muito tempo transcorreu desde que um gênio poderoso vos disse estas palavras, que se

tornaram proverbiais: “Tirai a justiça, o que são os impérios, além de vastas sociedades de

bandidos?” E as companhias de bandidos não são também esses pequenos impérios? Até os

bandidos possuem certas leis ou convenções que os regem. Eles também lutam pela conquista da

presa ou pelo ponto de honra da quadrilha... Assim, senhores, vos peço em grande confiança

que adoteis o princípio da instituição proposta [a instituição de um tribunal de arbítrio

internacional], a fim de que as nações europeias deixem de ser nações de ladrões, e os exércitos,

quadrilhas de bandidos e piratas; devo acrescentar: de escravos... Os exércitos são rebanhos de

escravos, escravos de um ou dois governantes, de um ou dois ministros, que deles dispõem

tiranicamente, sem qualquer outra garantia além de uma responsabilidade puramente nominal,

como bem sabemos... O que caracteriza o escravo é que ele está nas mãos do seu patrão, como

um objeto, uma ferramenta, e não mais um homem. Assim acontece com o soldado, com o

oficial, com o general, que marcham para o sangue e o fogo sem pensamento de justiça, pela

vontade arbitrária dos ministros nas condições expostas. Assim existe a escravidão militar, e é a

pior das escravidões, sobretudo hoje que põe, com o recrutamento, a corrente no pescoço de

todos os homens livres e fortes da nação para deles fazer instrumentos de morte, homicidas por

profissão, açougueiros de carne humana, porque este é o único opus servile em previsão do qual

são acorrentados e adestrados.

Os governantes, em número de dois ou três, pouco mais ou pouco menos, reunidos num

gabinete secreto, deliberando sem registros e sem processo verbal destinado à publicidade,

falando sem responsabilidade possível... poderiam talvez ordenar assim massacres, se a

consciência não fosse apagada?

Também diz E. T. Moneta:

Os protestos contra os armamentos desastrosos para o povo não começaram em nossos

tempos. Ouvi o que escreveu Montesquieu em sua época: “A França [hoje se poderia dizer a

Europa] perecerá devido ao militarismo. Uma nova doença espalhou-se pela Europa. Atacou os

reis e obriga-os a manter inúmeros exércitos. Essa doença é infecciosa e, em consequência,

contagiosa, porque, tão logo um Estado aumenta o seu exército, os outros fazem o mesmo. De

modo que não resulta senão na perda de todos. Cada governo mantém tantos soldados quantos

poderia manter se seu povo fosse ameaçado de extermínio; e os homens chamam paz a esse

estado de tensão de todos contra todos. Por isso, a Europa está tão arruinada que, se os

desprovidos estivessem na situação dos governos deste lado do mundo, os mais ricos entre eles

não teriam do que viver. Somos pobres, possuindo as riquezas e o comércio do mundo inteiro!”

Isto foi escrito há quase 150 anos. O quadro parece ter sido feito hoje. Só o regime

governamental mudou. Ao tempo de Montesquieu, dizia-se que a causa da manutenção dos

exércitos numerosos estava no absolutismo dos reis que guerreavam na esperança de aumentar,

através das conquistas, suas propriedades privadas e sua glória. As pessoas costumavam dizer:

“Ah, se ao menos pudéssemos eleger governos que recusassem soldados e dinheiro! Então, seria

o fim da política militar!” Há, hoje, governos representativos em quase toda a Europa e, apesar

disso, os gastos bélicos e a preparação para a guerra crescem em proporções alarmantes.

Evidentemente, a loucura dos soberanos tomou conta das classes dirigentes. Agora, não mais

se guerreia porque um rei foi descortês com a amante de um outro, como aconteceu na época de

Luís XIV. Porém, exagerando o sentimento honrado e natural de dignidade nacional e do

patriotismo, e exacerbando a opinião pública de uma nação contra outra, chega-se ao ponto em

que bastou dizer-se (embora a notícia fosse inexata) que o embaixador de nosso país não foi

recebido pelo chefe de outro Estado para que explodisse a mais terrível e mais assustadora

guerra. A Europa mantém, agora, nas forças armadas, mais soldados do que durante as grandes

guerras de Napoleão.

Todos os cidadãos, salvo raras exceções, são obrigados, em nosso continente, a passar

inúmeros anos de suas vidas nos quartéis. Constroem-se fortalezas, arsenais, navios; fabricam-se

continuamente armas que serão, em pouquíssimo tempo, substituídas por outras, porque a

ciência, que deveria ter sempre como alvo o bem da humanidade, concorre desgraçadamente

para a obra da destruição e sem cessar inventa novos meios de matar grandes quantidades de

homens, no menor tempo possível.

E para manter tantos soldados e fazer tão grandes preparativos de carnificina, gastam-se a

cada ano centenas de milhões, ou seja, somas que bastariam para a educação do povo e a

realização dos mais grandiosos trabalhos de utilidade pública e que gerariam a possibilidade de

resolver pacificamente a questão social.

A Europa, por conseguinte, encontra-se, neste aspecto, não obstante todas as conquistas científicas, na mesma situação em que se encontrava nos piores e mais bárbaros dias da Idade Média. Todos se queixam desse estado que não é nem guerra, nem paz, e dele todos gostariam de sair. Os chefes de diversos Estados afirmam desejar a paz, e competem para fazer, solenemente, declarações as mais pacíficas. Mas, no mesmo dia, ou no seguinte, apresentam aos parlamentares projeto de lei para o aumento dos efetivos, dizendo tomarem medidas preventivas precisamente com a finalidade de garantir a paz.

Mas essa não é a paz que desejamos, e as nações não se iludem. A verdadeira paz baseia-se na confiança recíproca, enquanto esses formidáveis armamentos revelam, entre os Estados, uma hostilidade declarada, ou ao menos uma desconfiança oculta. O que diremos de um homem que, querendo demonstrar seus sentimentos amigáveis a seu vizinho, o convidasse a examinar as questões que os dividem com o revólver na mão?

“E é essa flagrante contradição entre as declarações pacíficas e a política militar dos governos que todos os bons cidadãos gostariam de fazer cessar a qualquer custo.”

As pessoas surpreendem-se que sessenta mil suicídios ocorram a cada ano na Europa, e esta cifra contém somente os casos conhecidos e registrados, excetuadas a Rússia e a Turquia. Seria antes preciso surpreender-se por ocorrerem tão poucos. Cada homem de nosso tempo, se penetrarmos na contradição entre sua consciência e sua vida, encontra-se na mais cruel situação. Sem falar de todas as outras contradições entre a vida real e a consciência que preenchem a existência do homem moderno, bastaria esse estado de paz permanente e sua religião cristã para que o homem, desesperado, duvidasse da razão humana e renunciasse à vida num mundo tão insensato e bárbaro. Essa contradição, requinte de todas as outras, é tão terrível que viver participando dela só é possível caso não pensemos, caso a esqueçamos.

Mas como? Todos nós, cristãos, não só professamos o amor ao próximo, como também vivemos realmente uma vida comum, uma vida cujo pulso bate num só movimento; ajudando-nos mutuamente, ensinamos uns aos outros cada vez mais, para a felicidade comum, aproximamo-nos uns dos outros com amor! – e nessa aproximação está o sentido da vida –, para amanhã algum chefe de Estado, fora de si, dizer uma tolice qualquer à qual um outro responderá com outra tolice, e iremos nos expor à morte e matar homens que não só nada nos fizeram, mas que amamos! E esta não é uma probabilidade longínqua, mas uma inevitável certeza, para a qual todos nos preparamos.

Basta, de modo claro, ter consciência para enlouquecer ou suicidar-se. E é isto o que acontece, sobretudo entre os militares. Basta voltar a si por um momento para sermos reduzidos à necessidade de tal fim.

Só essas razões podem explicar a intensidade terrível com a qual o homem moderno procura entorpecer-se com o vinho, o fumo, o ópio, o jogo, a leitura dos jornais, com viagens e com toda espécie de prazeres e espetáculos. As pessoas abandonam-se a isso como a uma ocupação séria e importante, e de fato assim é. Se não houvesse um meio externo de embrutecer suas sensibilidades, a metade do gênero humano atiraria na própria cabeça imediatamente, porque viver em contradição com a própria razão é uma situação intolerável. E todos os homens de nosso tempo encontram-se nessa situação; todos vivem numa contradição constante e flagrante entre sua consciência e sua vida. Essas contradições são econômicas e poéticas, mas a mais notável está na consciência da lei cristã da fraternidade dos homens e, ao mesmo tempo, da necessidade que impõe aos homens o serviço militar obrigatório, a necessidade de ser preparado para o ódio, para a matança, de ser, ao mesmo tempo, cristão e gladiador.