O Reino de Deus Está em Vós
Capítulo 10
Diante da insubordinação dos cristãos, os governos estão desarmados. Veem que a profecia do cristianismo se confirma, que caem os grilhões dos acorrentados, os escravos livram-se do jugo, e esta libertação deve ser, infalivelmente, a ruína dos opressores; veem e sabem que seus dias estão contados e nada podem fazer. Só existe algo que podem fazer para sua salvação: retardar o momento de sua ruína. Não deixam de fazê-lo; mas sua situação é, entretanto, desesperada. É semelhante à de um conquistador que quisesse conservar uma cidade incendiada pelos habitantes. O fogo, apagado por sua ordem, num local, se acenderia logo depois, em dois outros.
Os focos são ainda raros, mas se reunirão num incêndio que, nascido de uma centelha, não findará senão quando tudo houver consumido.
A situação dos governos diante dos homens que professam o cristianismo é tão precária que pouco falta para a queda de seu poder, erguido há tantos séculos, tão sólido na aparência. E, não obstante, o homem social vem pregar que é inútil, além de nocivo e imoral, libertar-se isoladamente.
Alguns indivíduos desejam desviar um rio. Trabalharam por longo tempo para escavar um novo leito, mas, enfim, nada lhes resta a fazer além de lhe dar uma desembocadura. Ainda uns poucos golpes de enxada e a água, jorrando com força, se desembaraçará dos últimos obstáculos. Mas neste ponto chegam outros homens que acham ruim o modo de proceder e declaram que é melhor construir sobre o rio um mecanismo através do qual se possa fazer subir a água e passá-la de um lado para o outro.
Mas as obras estão muito avançadas.
Os governos já sentem sua impotência e sua fragilidade, e já os homens cristãos acordam de seu torpor e começam a sentir sua força.
“Eu vim trazer fogo à terra, e como anseio pelo momento de vê-lo arder!”, disse Cristo.
Tal fogo começa a arder.
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Inutilidade da violência governamental para suprimir o mal – O
progresso moral da humanidade realiza-se não apenas com o
conhecimento da verdade, mas também com a formação da
opinião pública
O cristianismo, em seu verdadeiro significado, destrói o Estado. Isto foi assim compreendido desde o princípio e por isso Cristo foi crucificado. Foi assim compreendido em todos os tempos por homens que não estivessem presos à necessidade de justificar o Estado cristão. Somente quando os chefes de Estado aceitaram o cristianismo nominal externo começaram a ser inventadas as sutis teorias segundo as quais o cristianismo pode se conciliar com o Estado.
Mas para qualquer homem sincero de nosso tempo é evidente que o verdadeiro cristianismo – a doutrina da resignação, do perdão, do amor – não pode estar em consonância com o Estado, com seu despotismo, sua violência, sua justiça cruel e suas guerras. Não só o verdadeiro cristianismo não permite reconhecer o Estado, como também destrói seus princípios.
Mas, assim sendo, sendo verdade que o cristianismo é inconciliável com o Estado, uma pergunta nasce naturalmente: o que é mais necessário para o bem da humanidade; o que lhe assegura a maior soma de felicidade? A organização governamental ou o cristianismo?
Dizem alguns que o Estado é muito necessário; que a destruição do regime governamental produziria o fim de tudo o que a humanidade conseguiu até agora; que o Estado foi, em todos os tempos, e continua a ser, a única forma sob a qual a humanidade pôde se desenvolver e que todos os abusos podem ser corrigidos sem a destruição de um ordenamento do qual são independentes e que permite ao homem progredir e atingir o mais alto grau de bem-estar. E aqueles que assim pensam apoiam sua opinião em argumentos filosóficos, históricos e até religiosos, que consideram irrefutáveis.
Existem, porém, homens que acreditam no oposto, ou seja, que uma vez que houve um momento em que a humanidade viveu sem governo, esse regime é temporâneo, e que virá um tempo em que os homens precisarão de um ordenamento novo, e que esse tempo já chegou. E aqueles que assim pensam dão, em apoio à sua opinião, argumentos filosóficos, históricos ou religiosos que consideram irrefutáveis.
Volumes inteiros podem ser escritos em favor da primeira tese (já foram de há muito escritos e ainda hoje são), mas é também possível escrever contra (o que, mais recentemente, foi feito, e de forma magistral).
Não se pode provar, contudo, como procuram fazer os defensores do Estado, que a destruição do ordenamento atual produziria um caos social: a bandidagem, o assassinato, a ruína de todas as instituições e o retorno da humanidade à barbárie.
Não se pode tampouco provar, como procuram fazer os adversários do Estado, que os homens já se tornaram sábios e bons, que não roubam e não matam, que preferem as relações pacíficas ao ódio; que, por si mesmos, sem ajuda do Estado, criarão tudo aquilo de que necessitarão, e que, em consequência, o Estado, longe de para tanto contribuir, com o pretexto de dar aos homens a segurança, exerce sobre eles uma influência nociva e desmoralizadora. Não se pode provar, com um raciocínio abstrato, qualquer destas teses. Menos ainda, pode-se demonstrá-las pela experiência, porque se trata, antes de mais nada, de saber se é preciso tentá-la ou não.
A questão de saber se o tempo de derrubar o Estado chegou, ou não, seria então insolúvel, se não existisse outro meio para resolvê-la com certeza.
Os pintinhos já estão bastante desenvolvidos para que a galinha seja afastada e para que se deixe que saiam do ovo, ou ainda é muito cedo? Decidirão eles mesmos a questão quando, não mais podendo continuar dentro da casca, irão quebrá-la com o bico.
Da mesma forma, o tempo de destruir a forma governamental e de substituí-la por uma nova chegou ou não para os homens? Se o homem, em consequência da consciência superior que nele nasceu, não mais pode obedecer às exigências do Estado, se não mais pode fechar-se em si mesmo e se, por outro lado, não mais precisa da proteção do Estado, a questão está resolvida pelos próprios homens, que já ultrapassaram a forma do Estado e dele saíram, como o pintinho saiu do ovo no qual nenhuma força poderia fazê-lo reentrar.
O homem que assimilou o conceito cristão de vida diz:
É bastante possível que o Estado já tenha sido necessário e que ainda hoje o seja, por todas as
vantagens que nele reconheceis.
Sei apenas que, para mim, por um lado, não mais preciso do Estado, e, por outro, eu não
mais posso cometer as ações necessárias à sua existência. Organizem-se como melhor lhes
parecer; quanto a mim, não posso demonstrar a necessidade ou a inutilidade do Estado, mas sei
o que preciso e o que me é inútil, o que posso fazer e o que não posso fazer. Não preciso me
isolar dos homens das outras nações e, por isso, não posso reconhecer que pertenço
exclusivamente a qualquer nação e me recuso a qualquer submissão; sei que não preciso de todas
as atuais instituições governamentais, e eis que não posso, privando os homens que necessitam
de meu trabalho, dá-lo sob a forma de impostos para benefícios dessas instituições; sei que eu
não preciso de administração ou de tribunais fundamentados na violência e, por isso, não posso
participar da administração ou da justiça; sei que eu não preciso atacar os homens de outras
nações, matá-los, ou sequer defender-me deles com armas na mão, e, assim, não posso participar
da guerra nem para ela me preparar. É bem possível que existam homens que consideram tudo
isso necessário, não posso dizer o contrário; sei apenas, mas de modo absoluto, que eu não
preciso. E não preciso não porque eu, ou seja, a minha personalidade, assim deseje, mas porque
não o quer Aquele que me deu a vida e uma lei indiscutível para guiar-me.
Qualquer que seja o argumento invocado em favor do poder do Estado, cuja supressão poderia causar desventuras, os homens já saídos da forma governamental não podem mais a ela voltar, como os pintinhos, repito, não podem entrar novamente na casca do ovo da qual saíram.
Mas também neste caso, dizem os defensores da ordem atual:
A supressão da violência governamental somente seria possível e desejável caso todos os
homens se tornassem cristãos; até que isto aconteça, ou seja, enquanto existirem homens que se
dizem cristãos e não o são, cruéis, prontos para a satisfação de suas paixões, a maltratar os outros,
a suprimir o governo, esta supressão, longe de ser um bem para os outros homens, só faria
aumentar-lhes a miséria. A supressão da forma governamental não será desejável, não só
enquanto houver uma minoria de verdadeiros cristãos, mas nem mesmo se todos o fossem e
enquanto entre eles, ou ao seu redor, nas outras nações, existissem ainda não cristãos, porque
estes últimos roubariam, violentariam, matariam impunemente os cristãos e tornariam a sua vida
miserável. Os maus dominariam impunemente os bons. Por isso, o Estado não deve ser
suprimido até o dia em que todos os homens maus e ladrões tiverem desaparecido. E como isto
não pode acontecer, nunca ou ao menos ainda por muito tempo, o poder governamental, não
obstante as tentativas isoladas de libertação, deve ser mantido pela maioria dos homens.
Assim, então, segundo os defensores do Estado, sem o poder governamental os maus violentariam os bons e os dominariam; enquanto hoje o Estado permite que os bons dominem os maus.
Mas, afirmando-o, os defensores da ordem atual decidem antecipadamente a indiscutibilidade do princípio que desejam provar. Ao dizer que sem o poder governamental os maus dominariam os bons, eles consideram provado que os bons são aqueles que estão hoje no poder, e os maus aqueles que se submetem. Mas eis exatamente o que se precisaria provar. Isto seria verdade se em nossa sociedade as coisas acontecessem como aconteceu, ou, antes, como se supõe que aconteçam na China, isto é, que sejam sempre os bons que atingem o poder e que sejam derrubados tão logo deixem de ser os melhores.
Supõe-se que assim aconteça na China, mas a realidade é outra. Aliás, não pode acontecer porque, para derrubar o poder do opressor, não basta ter este direito, é preciso ter força. De modo que se trata de uma simples suposição em relação à China e, em nosso mundo cristão, não há sequer lugar para suposições. Aqueles que se apossam do poder, e não são os melhores, conservam-no para si mesmos e seus herdeiros. Para conquistá-lo e conservá-lo é preciso amar o poder. E a ambição não está em harmonia com a bondade, mas, ao contrário, com o orgulho, a astúcia e a crueldade.
Sem a exaltação de si mesmo e a humilhação alheia, sem a hipocrisia e a esperteza, sem as prisões, as fortalezas, as execuções capitais, os assassinatos, poder algum pode nascer ou conservar-se.
“Caso fosse suprimido o governo, o mau dominaria o bom”, dizem os defensores do Estado. Os egípcios venceram os hebreus; os persas, os egípcios; os macedônios, os persas; os romanos, os gregos; os bárbaros, os romanos. Valeriam talvez, em verdade, os vencedores mais do que os vencidos?
Do mesmo modo, visto que o poder se transmite de um indivíduo para outro, num Estado, passaria sempre para o melhor? Quando Luís XVI foi derrubado e o poder passou para Robespierre, depois para Napoleão: quem estava no poder, o melhor ou o pior? Quem eram os melhores, os versalheses ou os comunais? Carlos I ou Cromwell? E quando o czar Pedro III foi morto e Catarina tornou-se imperatriz de uma parte da Rússia, e Pugatscev soberano da outra, quem deles era o mau? Quem era o bom?
Dominar significa violentar, violentar significa fazer aquilo que não deseja aquele contra o qual é cometida a violência e, certamente, aquilo que não gostaria de sofrer aquele que a comete; em consequência, estar no poder significa fazer a outros o que não desejamos que nos seja feito, ou seja, o mal.
Submeter-se significa preferir a paciência à violência e preferir a paciência à violência significa ser bom ou menos mau do que aqueles que fazem aos outros o que não gostariam que lhes fosse feito.
Consequentemente, segundo todas as probabilidades, não são os melhores e sim os piores que sempre estiveram no poder, e ainda estão. Podem existir pessoas más entre aqueles que se submetem ao poder, mas é impossível que os melhores dominem os piores.
Esta suposição era possível na época da definição inexata do bem feita pelos pagãos, mas, sob o império da definição exata e clara do bem e do mal feita pelos cristãos, não se pode mais acreditar nisso. Se os mais ou menos bons, ou os mais ou menos maus, podem não se distinguir no mundo pagão, o conceito cristão tão bem e claramente definiu as naturezas para se reconhecerem os bons e os maus que se torna impossível confundi-las. Segundo a doutrina de Cristo, os bons são aqueles que se submetem, que são resignados, que não resistem ao mal por meio da violência, que perdoam as ofensas, que amam seus inimigos; os maus são aqueles que são orgulhosos, dominadores, que lutam e violentam os homens. Por isso, segundo a doutrina de Cristo, não pode haver dúvida quanto ao lugar dos bons: estão eles entre os dominadores ou entre os submissos? Seria até ridículo falar de cristãos no poder.
Os não cristãos, ou seja, aqueles que veem o objetivo de vida na felicidade terrestre, devem sempre dominar os cristãos, os que desprezam tal felicidade.
E assim foi sempre, e tornou-se mais evidente à medida que se foi difundindo a verdadeira inteligência da doutrina cristã.
“A supressão da violência governamental, caso todos os homens não se tornassem cristãos verdadeiros, não faria senão conduzir os maus ao poder e lhes permitiria oprimir os bons”, dizem os defensores do atual regime.
Mas nada diferente existiu ou poderia existir. Os maus sempre dominam os bons e sempre os violentam. Caim violentou Abel, o astuto Jacó dominou o confiante Esaú, Labão enganou Jacó, Caifás e Pilatos perseguiram Cristo; os imperadores romanos dominaram os Sênecas, os Epictetos e os romanos virtuosos; Ivan IV, com a sua guarda feroz, o bêbado sifilítico Pedro, com seus palhaços, a impudica Catarina, com seus amantes, dominava os laboriosos e pios russos de seu tempo e violentava-os. Guilherme domina os alemães; Stambulov, os búlgaros; as autoridades russas, o povo russo. Os alemães dominava-os italianos, agora dominam os húngaros e os eslavos; os turcos dominavam os gregos e dominam os eslavos; os ingleses dominam os hindus; os mongóis, os chineses.
Portanto, suprima-se ou não a violência governamental, a situação dos bons oprimidos pelos maus não mudará.
Amedrontar os homens com o fato de que os maus dominarão os bons é impossível, porque isto sempre aconteceu, acontece, e não pode deixar de acontecer.
Toda a história da época pagã demonstra que os maus sempre se apoderaram do poder com crueldade e perfídias e conservavam-no com o pretexto de assegurar a justiça e defender os bons. Afirmando que se o poder não existisse os maus oprimiriam os bons, os governantes apenas manifestam seu desejo de não ceder o poder a outros opressores que dele gostariam de se apoderar. Mas sua afirmação apenas os denuncia. Dizem que seu poder, ou seja, a violência, é necessário para defender os
homens de não se sabe quais maus, presentes ou futuros.19
O perigo do uso da violência é, precisamente, este: que todos os argumentos que fazem valer em seu favor os opressores lhes podem ser opostos com maior fundamento de razão. Falam da violência passada e, com maior frequência, da que dizem prever para o futuro, mas, na realidade, eles mesmos não deixam de usar de violência.
Então, deveriam dizer os oprimidos aos opressores:
Dizem que os homens saquearam e assassinaram no passado, e temem que façam o mesmo
hoje, caso seu poder desapareça. Isto pode acontecer, como pode não acontecer. Mas o fato de
que perdem milhares de homens nas prisões, nas galerias, nas fortalezas; de que arruínam
milhares de famílias e sacrificam ao materialismo, física e moralmente, milhões de homens, este
fato é uma violência não suposta, mas real, contra a qual, segundo o meu raciocínio, é preciso
também lutar com violência. Por isso, os maus, contra os quais, para seguir seus conselhos, é
preciso sem dúvida usar de violência, são vocês mesmos.
De fato, os não cristãos pensam, falam e agem dessa forma. Quando, entre os oprimidos, existem indivíduos piores do que os opressores, estes atacam-nos e procuram suprimi-los, e, em circunstâncias favoráveis, conseguem-no, ou, então, o que ocorre na maioria das vezes, entram nas fileiras dos opressores e tomam parte em suas violências.
Assim, esta pressuposta violência, da qual os defensores do Estado se servem como de um espantalho, é uma realidade que nunca deixou de existir. Por isso, a supressão da violência do Estado não pode, em caso algum, ser a causa do aumento da violência dos maus contra os bons.
Se a violência governamental desaparecesse, talvez se reproduzissem os casos de violência, mas a quantidade de violência nunca poderia aumentar pelo fato de que o poder passaria das mãos de uns para as de outros.
“A violência governamental não poderá desaparecer, a não ser que desapareçam os maus”, dizem os defensores do atual regime, subentendendo que, já que os maus sempre existiram, a violência nunca terá fim. Isto seria verdade somente se fosse exato que os opressores são melhores e que o único meio de proteger os homens contra o mal é a violência. Neste caso, de fato, a violência nunca poderia ter fim. Mas como, pelo contrário, ela nunca fez desaparecer o mal, e como existe outro meio para aniquilá-la, a afirmação de que a violência sempre existirá é falsa. Ela diminui cada vez mais e tende, evidentemente, a desaparecer, mas não como supõem certos defensores da ordem atual, com a progressiva melhoria dos oprimidos sob a influência da ação do governo (aliás, eles tornam-se piores), mas porque todos os homens tornando-se, por si mesmos, melhores, os maus que estão no poder tornam-se, por seu lado, cada vez menos maus e, assim, suficientemente bons para serem incapazes de usar de violência.
O progresso da humanidade acontece não porque os opressores se tornam melhores, mas porque os homens assimilam, cada dia mais, o conceito cristão de vida. Sucede aos homens algo similar ao fenômeno da ebulição. Os homens defensores do conceito social tendem sempre para o poder e lutam para conquistá-lo. Nessa luta, os elementos mais cruéis, mais rudes e menos cristãos da sociedade, violentando os mais dóceis, os mais dispostos ao bem, os mais cristãos, sobem, em consequência de sua violência, às camadas superiores dessa mesma sociedade. E, então, se cumpre a profecia de Cristo: “Ai de vós, ricos, fartos, glorificados!” Esses homens do poder e da riqueza, atingidos os objetivos a que se propuseram, reconhecem sua vaidade e retornam ao estágio do qual saíram. Carlos V, Ivan, o Terrível, Alexandre I, tendo reconhecido a vaidade e a crueldade do poder, abandonaram-no porque se sentiram incapazes de desfrutar ainda mais a violência.
Mas não apenas homens como Carlos V e Alexandre I atingiram esse desgosto do poder; cada homem que conquistou a potência a que aspirava, cada ministro, cada general, cada milionário ou mesmo cada chefe de escritório que vivamente ansiou por seu cargo durante anos, cada mujique enriquecido sente a mesma desilusão e, por isso, esses homens se tornam melhores.
Não só os indivíduos isolados, mas grupos de homens, povos inteiros realizam a mesma evolução.
As vantagens do poder e de tudo o que traz, as vantagens da riqueza, das honras, do luxo, são os objetivos da atividade humana enquanto não atingidos, mas, mal os alcança, o homem apercebe-se de sua vaidade. Essas vantagens perdem pouco a pouco a sedução, como as nuvens, que não têm forma e esplendor, exceto se vistas de longe.
Os homens que conquistaram o poder e a riqueza, por vezes eles próprios, mas com mais frequência seus herdeiros, deixam de ser muito ávidos de poder e não mais adotam métodos muito cruéis.
Tendo conhecido, por meio da vaidade, os frutos da violência, os homens perdem, às vezes depois de uma geração, ou depois de muitas, os vícios adquiridos pela paixão, pelo poder e pela riqueza e, uma vez convertidos em menos cruéis, não mais são capazes de defender sua situação. São logo afastados do poder por outros homens, menos cristãos, mais cruéis, e retornam ao estágio inferior do ponto de vista material, mas moralmente superior, elevando assim o nível médio de consciência cristã de todos os homens. Mas, em seguida, os elementos piores, mais rudes e menos cristãos da sociedade ascendem e passam pelo mesmo processo e, de novo, após uma ou várias gerações, havendo reconhecido a vaidade dos frutos da violência e tendo sido penetrados pelo cristianismo, retornam para o lugar dos oprimidos, substituídos por novos opressores, sempre menos rudes do que os precedentes. De modo que, embora o poder permaneça o mesmo em sua forma externa, a cada mudança dos homens que o ocupam, o número daqueles que a experiência leva a reconhecer a necessidade do conceito cristão aumenta cada vez mais, e homens cada vez menos rudes e cruéis substituem os outros no poder.
O poder escolhe e atrai os piores elementos da sociedade, transforma-os, melhora-os, suaviza-os e os devolve à sociedade.
Tal é o processo por meio do qual o cristianismo propaga-se cada vez mais. O cristianismo penetra na consciência dos homens, apesar da violência do poder e, também, graças a essa violência.
Por isso, a afirmação dos defensores do Estado de que, ao suprimir-se a violência governamental os maus dominariam os bons, não só prova que se deva temer o domínio dos maus, pois que estes já existem, mas prova o contrário, que o poder na mão dos maus é exatamente o mal que se deve suprimir e que se suprime gradualmente por força da consciência.
E perguntam os defensores da ordem atual:
Mas se fosse verdade que a violência governamental devesse desaparecer quando os
governantes se tornassem bastante cristãos para abandonar voluntariamente o poder e não se
encontrasse mais ninguém para substituí-los, o que aconteceria? Se, apesar dos 18 séculos já
transcorridos, encontram-se ainda tantos amantes do poder e tão poucos resignados à submissão,
não existe probabilidade alguma de que isso ocorra, não apenas em breve, mas nunca.
Se também existem homens que abandonaram o poder, a reserva daqueles que preferem a
dominação à submissão é tão grande que se torna difícil imaginar um tempo em que esta será
esgotada.
Para que se produza a cristianização de todos os homens, para que estes abandonem
voluntariamente o poder e a riqueza e ninguém queira se aproveitar disto, é preciso que se
convertam todos aqueles que são rudes, semibárbaros, absolutamente incapazes de assimilar o
cristianismo, e estes são sempre muito numerosos em cada nação cristã. E mais, todos os povos
selvagens e em geral não cristãos, ainda também tão numerosos, deveriam igualmente se tornar
cristãos. Se, portanto, fosse admitido que esta cristianização de todos os homens se pudesse
completar algum dia, a julgar pelo avanço desta obra durante 18 séculos, isso não ocorreria
senão em muitos outros séculos: é, portanto, impossível e inútil pensar em suprimir agora o
poder; é preciso apenas procurar confiá-lo às mãos dos melhores.
Este raciocínio seria corretíssimo se a passagem de um conceito de vida para outro só acontecesse com a ajuda da evolução de cada homem isoladamente e, por sua vez, reconhecendo cada um a vaidade do poder e atingindo a verdade cristã por uma via interna.
Essa evolução realiza-se de fato, mas os homens não se tornam cristãos apenas por essa via interna, mas também por um meio externo que suprime a lentidão dessa passagem.
Essa passagem não se efetua como a da areia na ampulheta, grão a grão, mas sim como a da água que penetra num vaso submerso, que primeiro se deixa encher de um lado, lentamente, então, em consequência do peso adquirido, afunda rapidamente e quase de imediato está cheio.
O mesmo ocorre com as sociedades na passagem de um conceito a outro e, portanto, de uma organização a outra. No início, os homens penetravam, lentamente, um a um, na nova verdade; mas quando essa verdade já está suficientemente propagada, todos a assimilam imediata e quase inconscientemente.
Por isso, os defensores do Estado estão enganados quando dizem que, se durante 18 séculos uma mínima parte dos homens voltou-se para o cristianismo, serão necessários ainda muitos séculos antes que toda a humanidade a ele se converta.
Os homens assimilam uma verdade não só porque a advinham por intuição profética ou por experiência de vida, mas porque, quando essa verdade atingir certo grau de extensão, os homens de cultura inferior aceitam-na de imediato unicamente pela confiança que têm naqueles que a aceitaram antes deles e que a aplicaram à vida.
Toda verdade nova, que muda os costumes e faz progredir a humanidade, não é desde logo aceita senão por um restrito número de homens que têm perfeita consciência dessa verdade. Os outros, que aceitaram e confiaram na verdade precedente, aquela na qual está alicerçado o regime vigente, opõem-se sempre à difusão da nova verdade.
Mas como no início os homens progridem sempre e aproximam-se cada vez mais da verdade, ajustando sua vida a ela e, como, em seguida, são, conforme sua idade, educação, etnia, mais ou menos capazes de compreender as novas verdades, aqueles que estão perto desses homens que a compreenderam pela via interna passam, no começo lentamente, depois mais depressa, à nova verdade, e essa verdade torna-se sempre mais compreensível.
E quantos mais são os homens que penetram na nova verdade, mais essa verdade é assimilável e maior confiança inspira aos homens de cultura inferior. Assim, o movimento acelera, cresce em tamanho, como uma bola de neve, até o momento em que todos passam de uma só vez para a nova verdade e estabelece-se um novo regime.
Os homens que atingem a nova verdade fazem-no sempre em massa, de uma só vez, como o lastro de uma embarcação que se carrega rapidamente para mantê-la em equilíbrio. Se não tivesse lastro, o navio não estaria suficientemente imerso e mudaria de posição a cada instante. Esse lastro, que no início parece inútil, é a condição necessária para seu movimento regular e para sua estabilidade.
O mesmo fato reproduz-se com a massa de homens que, não um a um, mas sempre todos juntos, sob a influência da nova opinião social, passam de um ordenamento de vida para outro. Essa massa, com sua inércia, impede sempre a passagem rápida, frequente, não verificada pela sabedoria, de uma ordem para outra, e retém por longo tempo a verdade confirmada por uma longa experiência de lutas e penetrada na consciência da humanidade.
Por isso, aqueles que dizem que, uma vez que 18 séculos decorreram para que uma ínfima minoria da humanidade assimilasse a verdade cristã, ainda serão necessários inúmeros séculos para que toda a humanidade nela penetre, e que esta circunstância nos impele para uma época tão longínqua que não podemos sequer imaginar, certamente se enganam.
Enganam-se porque os homens de cultura inferior, os povos que os defensores do atual regime apresentam como obstáculo à efetivação do regime cristão, são precisamente aqueles que passam sempre em massa e de uma só vez para a verdade aceita pelas classes cultas.
Por isso, a mudança na existência da humanidade, em consequência da qual os poderosos abandonarão seu poder sem que encontrem alguém para substituí-los, só acontecerá quando o conceito cristão, facilmente assimilável, triunfar sobre os homens, não mais um após o outro, mas de uma só vez sobre toda a massa inerte.
E dirão os defensores do atual regime:
Mas, ainda que fosse verdade que a opinião pública pode converter a massa inerte de povos
não cristãos, e os homens corruptos e rudes que vivem em meio dos cristãos, como
reconheceremos que os hábitos cristãos nasceram e que a violência tornou-se inútil?
Renunciando à violência que mantém a ordem atual para confiar na força fugaz e vaga da
opinião, não se corre o risco de ver os selvagens internos e externos violentarem impunemente os
cristãos?
Se, tendo poder, defendemo-nos com dificuldade dos elementos não cristãos da sociedade,
sempre prontos a invadir-nos e a anular os progressos da civilização, como, então, poderia a
opinião pública suprir a força e dar-nos segurança? Confiar numa só lei seria tão louco quanto
pôr em liberdade os animais ferozes de uma jaula, com o pretexto de que parecem inofensivos
em sua prisão, atrás de barras de ferro em brasa.
Por isso, os homens que estão no poder e que lá foram colocados por Deus ou pelo destino
não têm o direito de renunciar à violência e de colocar em risco a civilização, simplesmente para
tentar uma experiência, para saber se a opinião pública pode ou não substituir as garantias dadas
pelo poder.
O escritor francês, hoje esquecido, Alphonse Karr, disse, querendo provar a impossibilidade da supressão da pena de morte: “Que os senhores assassinos comecem por nos dar o exemplo.” Muitas vezes ouvi repetir esta sutileza por homens que pensavam exprimir com estas palavras um argumento convincente e perspicaz contra a supressão da pena de morte. Entretanto, não se pode encontrar melhor argumento contra a violência dos governos.
“Que os senhores assassinos comecem por nos dar o exemplo”, dizem os defensores da violência governamental. Mas os assassinos dizem o mesmo, e com mais razão. Dizem eles: “Aqueles que aceitaram a missão de instruir-nos, de guiar-nos, mostrem-nos o exemplo, abolindo o assassinato legal, e nós o seguiremos.” E assim dizem com grande seriedade, porque esta é a verdadeira situação.
“Não podemos deixar de recorrer à violência porque estamos cercados por violentos.” Nada, além deste falso raciocínio, impede o progresso da humanidade e o advento do regime que corresponde a seu desenvolvimento moral atual.
Os que possuem o poder estão convencidos de que apenas a violência guia os homens; por isso, a usam para a manutenção da ordem vigente. Ora, esta ordem é mantida não em virtude da violência, mas em virtude da opinião pública, cuja ação está comprometida pela violência. Por isso, a ação da violência enfraquece exatamente aquilo que se quer manter.
No melhor dos casos, a violência, se não tem em mira o único objetivo pessoal dos homens que se encontram no poder, condena com a única forma imóvel da lei aquilo que há muito tempo e por muitas vezes foi condenado pela opinião pública; mas com a diferença de que, enquanto a opinião pública reprova todas as ações contrárias à lei moral, a lei, mantida pela violência, não reprova e não condena senão uma categoria muito restrita de ações, parecendo assim justificar todas as ações da mesma ordem não englobadas em sua fórmula.
Já desde os tempos de Moisés a opinião pública considera a cobiça, a desonestidade e a crueldade como culpas e as reprova. Reprova também qualquer gênero de manifestações de cobiça, não só a apropriação dos bens alheios pela violência ou pela astúcia, mas também o gozo cruel das riquezas; reprova toda espécie de depravação, seja cometida com a amante, com a escrava, com uma mulher divorciada ou com a própria esposa; reprova qualquer crueldade, pancadas, maus-tratos, matanças, não só de homens, mas também de animais. Ao contrário, a lei calcada na violência condena somente alguns casos de cobiça, como o furto, a fraude e certos casos de desonestidade e crueldade, como a traição conjugal, o assassinato e as sevícias, e parece até mesmo autorizar todos os casos de cobiça, desonestidade e crueldade que não entram em sua restrita definição.
Mas, além de corromper a opinião pública, a violência faz ainda nascer nos homens a funesta convicção de que progridem, não sob o impulso da força espiritual que os impele para o conhecimento da verdade e sua realização na vida, mas por meio da violência, isto é, por meio daquilo que, em vez de aproximá-los da verdade, afasta-os. Este erro é funesto pelo fato de que conduz os homens a desprezar o principal fator de sua vida – a ação espiritual – e fixa toda a sua atenção e toda a sua energia sobre a ação violenta externa, geralmente nociva.
Esse erro é semelhante àquele que cometeriam os homens que, para movimentar uma locomotiva, girassem as rodas com a força dos braços, sem suspeitar que a causa fundamental do movimento é a dilatação do vapor e não o empurrar das rodas. Os homens que quisessem girar as rodas pela força dos braços ou de alavancas produziriam apenas uma aparência de movimento, estragando inclusive as rodas e impedindo, assim, a possibilidade do verdadeiro movimento.
Diz-se que a vida cristã não se pode estabelecer sem violência, porque existem povos selvagens na África, na Ásia (alguns apresentam também os chineses como uma ameaça à nossa civilização), e porque existem, na sociedade, segundo a nova teoria de hereditariedade, delinquentes natos, selvagens e corruptos.
Mas esses selvagens, que estão dentro e fora das sociedades cristãs, nunca foram submetidos à violência e não o são hoje. Os povos nunca submeteram os outros povos unicamente pela violência. Se o povo que submete outro fosse menos civilizado, não introduziria pela violência sua ordem social mas, ao contrário, iria se submeter, ele próprio, à ordem do povo conquistado.
Quando povos inteiros se submetiam a uma nova religião, tornavam-se cristãos ou maometanos, essa transformação realizava-se não porque era dita obrigatória pelos homens que tinham o poder (a violência agia, muitas vezes, num sentido completamente oposto), mas porque essa era a consequência da opinião pública; pois, ao contrário, os povos que foram forçados a abraçar a religião dos vencedores tornaram-se refratários delas.
O mesmo fato se repete com os elementos selvagens que vivem entre nós: nem o aumento nem a diminuição das severidades penais, nem as modificações originadas do aprisionamento, nem o reforço da polícia diminuem ou aumentam o número de delitos; ele apenas decresce como consequência da evolução dos costumes. Nenhuma severidade fez desaparecer os duelos e as vinganças. Apesar do grande número de cossacos condenados à morte por furto, estes continuavam a roubar para vangloriar-se, porque nenhuma jovem desposaria um cossaco que não tivesse dado provas de audácia roubando um cavalo ou ao menos um carneiro. Se os homens de nossa sociedade deixarem de duelar e os cossacos, de roubar, não será por temor ao castigo, mas porque os costumes estarão modificados. O mesmo pode ser dito dos outros delitos. A violência nunca poderá fazer desaparecer o que faz parte dos costumes. Pelo contrário, bastaria que a opinião pública se opusesse francamente à violência para torná-la impossível.
O que aconteceria se a violência não fosse empregada contra os inimigos externos e contra os elementos criminosos da sociedade? Não o sabemos. Mas sabemos, por longa experiência, que o uso da violência não serviu para domar uns aos outros.
Como, de fato, sujeitar pela força os povos cuja educação, tradições, a própria religião, conduzem a ver a virtude mais alta na luta contra os opressores e no amor à liberdade? E como suprir pela violência, em nossa sociedade, atos considerados como delitos pelos governos e como atos louváveis pela opinião pública?
A única força que tudo dirige e à qual obedecem os indivíduos e os povos foi sempre a da opinião pública, essa potência impalpável, que é o resultado de todas as forças morais de um povo ou de toda a humanidade.
A violência só enfraquece essa potência, a diminui, a desvirtua e a substitui por outra, absolutamente nociva ao progresso da humanidade.
Para submeter ao cristianismo os selvagens do mundo não cristão – todos os zulus, os manchus, os chineses, que muitos consideram selvagens – e os selvagens que vivem entre nós, só existe um método: a propagação, entre estes e aqueles, dos costumes cristãos, que só podem ser difundidos por meio do exemplo. Ora, para que o cristianismo se imponha àqueles que lhe são rebeldes, os homens de nosso tempo fazem exatamente o contrário do que deveriam.
Para converter ao cristianismo os povos selvagens que nos atacam e que não temos motivo algum para oprimir, deveremos, antes de tudo, deixá-los tranquilos e não agir sobre eles senão com o exemplo das virtudes cristãs: a paciência, a doçura, a abstinência, a pureza, a fraternidade, o amor. Em vez disso, apressamo-nos em estabelecer em seu território novos mercados para o nosso comércio; espoliamo-los, apoderando-nos de suas terras; corrompemo-los, vendendo-lhes álcool, tabaco, ópio, e exportamos para seu meio nossos costumes, ensinando-lhes a violência e novos meios de destruição. Numa palavra, a eles ensinamos somente a lei da luta animal, abaixo da qual o homem não pode descer, e cuidamos de ocultar de seus olhos tudo o que pode haver de cristão em nós. Depois, mandamo-lhes duas dúzias de missionários, que vão lhes dizer idiotices hipócritas, e damos, como prova irrefutável da impossibilidade de adaptar as verdades cristãs à vida prática, essas experiências de conversão.
O mesmo acontece em relação àqueles que chamamos de delinquentes e que vivem entre nós. Para que o cristianismo se imponha a esses homens só existe uma maneira: a opinião pública cristã que não se pode propagar entre eles senão com a única doutrina verdadeira confirmada pelo exemplo. E para pregar essa doutrina cristã e afirmá-la por meio de um exemplo cristão, temos as prisões, as guilhotinas, as forcas, os suplícios; degradamos o povo com religiões idólatras; embrutecemo-lo com a venda governamental do veneno – álcool, tabaco, ópio –; organizamos até a prostituição; damos terra aos que dela não necessitam; ostentamos um luxo insensato em meio à mais cruel miséria; tornando assim impossível qualquer aparência de costumes cristãos, dedicamo-nos com zelo a destruir as ideias cristãs já estabelecidas; então, quando houvermos corrompido os homens, os encerraremos como animais ferozes em locais dos quais não poderão fugir e onde se tornarão mais selvagens, ou os mataremos. E servimo-nos deles como exemplos para provar que não se pode agir sobre os homens senão com a violência brutal.
Da mesma forma os médicos ignorantes, após ter colocado o doente num estado de total anti-higiene, ou ter-lhe administrado remédios que o matam, afirmam que morreu devido à doença, enquanto teria se curado se o tivessem deixado em paz.
A violência, que nos é mostrada como sustentáculo da ordem da vida cristã, impede, ao contrário, que a ordem social seja a que deveria ou poderia ser. Esta é da forma como a vemos não graças às violências, mas apesar das violências.
Por isso, os defensores da ordem atual estão errados ao dizer que, se a violência é suficiente para nos preservar dos maus elementos e dos não cristãos da humanidade, sua substituição pela influência moral da opinião pública nos deixaria sem defesa contra seus ataques.
Isto não é exato, porque a violência não protege a humanidade, aliás, priva-a da única proteção possível: a difusão do princípio cristão.
Mas como suprimir a proteção visível do guarda armado, para confiar em algo impalpável: a opinião pública? Acaso ela existe? E a ordem atual nos é conhecida; boa ou má, conhecemos seus defeitos e a eles estamos habituados. Sabemos como nos comportar e o que devemos fazer nas circunstâncias atuais; mas o que acontecerá quando renunciarmos a essa ordem e nos entregarmos a algo totalmente desconhecido?
Os homens temem esse desconhecido no qual entrariam se renunciassem à atual ordem de vida conhecida. Sem dúvida, é bom temer o desconhecido, quando nossa situação conhecida é boa e segura; mas não é o caso, e sabemos, sem margem de dúvida, que estamos à beira do abismo. Se é preciso ter medo, temos medo daquilo que é verdadeiramente temível e não daquilo que suspeitamos ser.
Receando fazer esforços para sair de uma ordem que nos é prejudicial – unicamente porque o futuro nos parece duvidoso –, ficamos parecendo com os passageiros de um navio prestes a afundar que têm medo de descer para o barco salva-vidas e se trancam em suas cabines, delas não querendo sair; ou com um rebanho de carneiros que, atemorizados com o incêndio no estábulo, amontoam-se num canto e se recusam a sair pela porta aberta.
Podemos, talvez, às vésperas da guerra social espantosa e letal, em comparação com a qual, como
dizem os que a estão preparando, os horrores da guerra de 189320 serão brincadeiras infantis, falar do perigo que nos ameaça por parte dos daomeanos, dos zulus etc., tão distantes de nós e que sequer pensam em atacar-nos, ou do que representam para a sociedade alguns milhares de homens por nós mesmos corrompidos, malfeitores, ladrões, assassinos, que nossos tribunais, nossas prisões e nossos suplícios não tornarão menos numerosos?
Ademais, o medo de suprimir a defesa visível do guarda é um medo próprio dos citadinos, ou seja, de gente que vive em condições anormais e artificiais. Aquele que vive em condições naturais, não nas cidades, mas em meio à natureza, e que com ela lutam, não precisam dessa proteção e sabem quão pouco a violência nos protege contra os perigos reais. Existe, nesse temor, algo mórbido que provém, sobretudo, das condições artificiais nas quais vive e cresce a maioria de nós.
Um médico alienista contava que, num dia de verão, saindo do hospício, os loucos acompanharam-no até a porta da rua. Então, disse-lhes: “Venham à cidade comigo!”
Os doentes concordaram e uma pequena comitiva o seguiu. Porém, quanto mais avançavam, em meio ao livre movimento dos homens sãos, mais se intimidavam e se agrupavam ao redor do médico. Finalmente, todos pediram para retornar ao hospício, a seu modo de viver insensato, mas habitual, a seu vigia, às surras, à camisa de força, às celas solitárias.
Da mesma forma, agrupam-se e desejam voltar a seu antigo modo de vida, às suas fábricas, aos tribunais, às prisões, aos suplícios, às guerras os homens que o cristianismo conclama à liberdade, à vida do futuro, livre e racional.
Pergunta-se: qual será a garantia de nossa segurança quando a ordem social vigente tiver desaparecido? Por que nova ordem será ela substituída? Enquanto não o soubermos, não iremos adiante.
Seria como se um explorador de um país desconhecido solicitasse uma descrição pormenorizada da região a percorrer.
Se o futuro de um indivíduo isolado, no momento de sua passagem de uma idade para outra, lhe fosse inteiramente conhecido, ele não mais teria razão para viver; assim é para a humanidade: ter um programa da vida que a espera à entrada de uma nova era seria o mais seguro indício de que não vive, não se move, mas agita-se sempre no mesmo lugar.
As condições da nova ordem não podem ser conhecidas, porque devem ser, exatamente, criadas por nós mesmos. A vida reside, precisamente, na busca do desconhecido e na subordinação da ação aos conhecimentos recentemente adquiridos.
Esta é a vida de cada indivíduo, e a vida de toda a humanidade.