O Reino de Deus Está em Vós
Capítulo 11
O conceito cristão da vida nasce em nossa sociedade e
infalivelmente destrói a ordem de nossa vida calcada na
violência
A situação da humanidade cristã, com suas prisões, trabalhos forçados, patíbulos, oficinas; concentração de riquezas, impostos, igrejas, tabernas, casas públicas, armamentos sempre crescentes e os milhões de homens embrutecidos, prontos, como cães, a se lançarem sobre aqueles contra os quais o patrão os incita, seria terrível se fosse apenas produto da violência; mas essa situação é, também, e sobretudo, produto da opinião pública. Ora, aquilo que é estabelecido pela opinião pública pode ser por ela destruído.
Números que somam centenas de milhares, dezenas de milhões de homens disciplinados, armas de destruição de uma força inaudita, uma organização levada ao mais alto grau de perfeição, uma legião de homens encarregados de enganar e hipnotizar o povo, e tudo isso sujeito, graças à eletricidade que suprime a distância, a homens que consideram essa organização vantajosa para eles e sabem que, sem ela, desapareceriam: que força invencível parece! Bastaria, entretanto, ver para onde fatalmente vamos, bastaria que os homens tivessem vergonha de participar da violência e aproveitar-se dela, como têm vergonha das fraudes, do furto, da mendicância, da covardia, para que, de repente, por si só, sem luta alguma, desaparecesse essa ordem que parece tão complicada e poderosa. E, por isso, é inútil que algo de novo penetre na consciência humana, é preciso apenas que se disperse a névoa que oculta dos homens o verdadeiro significado de certos atos de violência; a opinião pública e os costumes cristãos que se desenvolvem, absorvem os costumes pagãos que permitiam e justificavam a violência, mas cujo tempo chega ao fim. E esse progresso se faz lentamente. Mas nós não o vemos, como não vemos o movimento quando giramos, e, conosco, tudo o que nos rodeia.
É verdade que a ordem social, em seus aspectos principais, traz ainda o mesmo caráter de violência que possuía há mil anos, e até pior, sob certos aspectos, como os armamentos e as guerras, mas a opinião pública cristã, expandindo-se, já principia sua ação. A árvore seca parece sólida como antes, aliás parece ainda mais sólida porque endureceu, mas seu tronco torna-se oco e sua queda está próxima. Assim ocorre com a atual ordem social, calcada na violência. O aspecto externo permanece o mesmo – os mesmos opressores, os mesmos oprimidos –, mas mudaram seus pontos de vista sobre suas respectivas situações.
Os homens que oprimem, aqueles que participam da administração, e os homens que se aproveitam da opressão, isto é, os ricos, não mais constituem a flor da sociedade e não mais oferecem o ideal de felicidade e grandeza para o qual se inclinavam antes todos os oprimidos.
Hoje, são os opressores que, muitas vezes, abandonam voluntariamente as vantagens de sua situação pela dos oprimidos e procuram igualá-los quanto à simplicidade de sua vida.
Sem falar das profissões já desprezadas como de espião, agente da polícia secreta, usurário, taverneiro, há ainda um grande número delas, antes levadas em consideração, como as de policiais, de cortesãos, de juízes, de funcionários administrativos, eclesiásticos ou militares, de empreiteiros, de banqueiros, que são hoje consideradas pouco invejáveis e até reprovadas por pessoas mais respeitáveis. Existem homens que abandonam voluntariamente essas funções, outrora invejadas, por postos menos lucrativos, mas não ligados à violência.
Não são apenas as autoridades que renunciam a seus privilégios, mas também as não autoridades ricas. Veem-se algumas que, já obedecendo à influência da opinião pública nascente e não, como antes, a um sentimento religioso, abandonam os bens recebidos como herança, considerando justos apenas os conquistados com o trabalho.
Os jovens mais dotados, na idade em que, ainda não tendo sido corrompidos pela vida, escolhem uma carreira, preferem as trabalhosas profissões de médico, engenheiro, professor, artista, escritor ou até, simplesmente, de proprietário rural que vive do próprio trabalho, às posições de juiz, administrador, padre, militar, pagas pelo governo, ou às dos homens que vivem de renda.
A maioria dos monumentos é hoje erguida não mais a homens de Estado, a generais e muito menos a homens ricos, mas a artistas, sábios, inventores, homens que, longe de ter algo em comum com o governo, muitas vezes lutaram contra ele. A poesia e as artes glorificam, sobretudo, os últimos.
Assim, a classe dos homens de governo, e dos ricos, torna-se cada dia menos numerosa e de nível moral bem mais baixo. De tal modo que, a julgar pela inteligência, pela instrução e, sobretudo, pela moralidade, não são mais, como outrora, a flor da sociedade, muito pelo contrário.
Na Rússia e na Turquia, como nos Estados Unidos e na França, apesar das frequentes mudanças de autoridades, a maior parte destas é ávida, venal e tão pouco recomendável do ponto de vista moral que não satisfaz às mais elementares exigências de honestidade demandadas pelo povo. Assim, ouvem-se várias vezes as ingênuas lamúrias dos governos que se maravilham de ver os melhores dentre nós, por razões que lhes parecem estranhas, sempre no campo da oposição. Seria como lamentar que, por estranhas razões, a profissão de carrasco não seja aceita por gente refinada e de bom caráter.
Tampouco hoje em dia está entre os ricos a maioria dos homens cultos e refinados da sociedade. Os ricos são, em maioria, grosseiros especuladores de dinheiro, que não têm outra preocupação além de aumentar as próprias riquezas, em geral por expedientes impuros, ou os herdeiros degenerados desses especuladores que, longe de representar um papel importante na sociedade, inspiram o desprezo geral.
Muitas situações perderam sua antiga importância. Reis e imperadores nada mais dirigem; estes quase nunca se decidem a introduzir modificações internas ou a mudar a política externa. Ademais, abandonam a solução destas questões a alguma instituição governamental e à opinião pública. Todos os seus deveres reduzem-se a serem os representantes da unidade e de sua potência. E cumprem este dever sempre de forma pior do que antes. A maioria dos chefes de Estado não só não conserva sua antiga majestade inacessível, como até se democratiza cada vez mais, e também se envilece, destruindo seu último prestígio, ou seja, exatamente o que se espera que mantenha.
O mesmo acontece com os militares. O alto funcionário militar, em vez de encorajar, entre os soldados, a rudeza e a ferocidade necessárias a sua obra, propaga ele próprio a instrução no exército, prega a humanidade e, frequentemente, participando das convicções socialistas das massas, nega a utilidade da guerra. Na última conspiração contra o governo russo, muitos dentre os participantes eram militares.
Acontece com frequência (aconteceu recentemente) que o exército, chamado a restabelecer a ordem, se recuse a abrir fogo contra a população. Os hábitos da caserna são francamente reprovados pelos próprios militares, que muitas vezes fazem deles motivo de zombaria.
O mesmo acontece com os juízes: obrigados a julgar e condenar os delinquentes, conduzem os debates de modo a fazê-los parecer inocentes até onde seja possível, o que tem levado o governo russo, para obter a condenação daqueles que deseja punir, a confiar esses casos não aos tribunais ordinários, mas à corte marcial, que nada mais é do que uma paródia da justiça. Até mesmo os promotores renunciam, muitas vezes, a pedir uma condenação e, contornando a lei, amiúde defendem aqueles a quem têm o dever de mostrar como culpados.
Doutos jurisconsultos, cuja missão é justificar a violência do poder, negam cada vez mais o direito de punir e, em seu lugar, colocam as teorias da irresponsabilidade. Em vez do castigo, preconizam a recuperação dos supostos delinquentes, mediante uma cura médica ou moral.
Os carcereiros e verdugos tornam-se, frequentemente, defensores daqueles que, por sua missão, deveriam martirizar, e muitas vezes os policiais salvam aqueles que devem matar.
O clero prega a tolerância, por vezes até a negação da violência, e os mais cultos dentre seus membros procuram evitar em seus sermões a mentira, que é a própria base de sua situação e que são chamados a sustentar.
Os carrascos se recusam a cumprir seu dever, de modo que, amiúde, na Rússia, as sentenças de morte não podem ser executadas e, apesar de todas as vantagens dadas às galés, entre as quais são recrutados os carrascos, tornam-se cada vez mais raros os que aceitam essas funções.
Os governadores, os comissários, os cobradores de impostos têm piedade do povo e procuram toda espécie de pretextos para dispensar dos impostos os pobres-diabos.
Os ricos não mais ousam desfrutar sozinhos de suas riquezas, mas oferecem uma parte em obras de caridade.
Os latifundiários constroem, em suas terras, hospitais, escolas, e alguns chegam a entregar suas propriedades aos agricultores ou nelas estabelecem colônias agrícolas.
Os proprietários de usinas e fábricas criam, também, hospitais, escolas, fundos de pensões, espetáculos para seus operários. Alguns formam associações, das quais fazem parte com o mesmo título e com os mesmos direitos que outros membros.
Os capitalistas entregam uma parte de seus capitais a instituições públicas de instrução, arte ou filantropia. Não tendo força para se separar de suas riquezas em vida, muitos dentre eles deixam-nas como herança para institutos públicos.
Todos estes fenômenos poderiam parecer casos excepcionais se não se adivinhasse sua causa única, assim como, em abril, poderiam causar maravilha os primeiros brotos se não se conhecesse a causa geral, a primavera; de modo que, vendo alguns ramos intumescerem e tornarem-se verdes, pode-se dizer, com certeza, que os outros farão o mesmo.
O mesmo pode ser dito em relação às manifestações da opinião pública cristã. Se já esta opinião pública age sobre várias pessoas, sobre as mais impressionáveis, e força-as cada uma em seu ambiente a abandonar as vantagens que lhes concede a violência, continuará a agir e sua ação se prolongará até o momento em que haverá a mudança em toda a ordem atual, pondo-se de acordo com o pensamento cristão que já penetrou na consciência dos homens que estão na vanguarda.
Se já se encontram governantes que nada decidem por autoridade própria, que procuram assemelhar-se ao máximo não a soberanos, mas a simples mortais, e que estão prontos a abandonar suas prerrogativas e a tornarem-se os primeiros cidadãos de seus países; se já se encontram militares que compreendem toda a barbárie da guerra e desejam não precisar abrir fogo contra os estrangeiros nem contra seus concidadãos; se já há juízes e procuradores que não desejam oprimir e condenar os delinquentes, padres que evitam pregar a mentira, coletores de impostos que procuram suavizar ao máximo possível o rigor de suas funções – e ricos que abandonam suas riquezas –, o mesmo acontecerá, fatalmente, com outros governantes, outros militares, juízes, padres, coletores e ricos. E quando não mais existirem homens que queiram ocupar essas posições, essas mesmas posições, calcadas na violência, desaparecerão.
Mas não é esse o único caminho pelo qual a opinião pública conduz os homens à supressão da ordem atual e a sua substituição por uma nova ordem. À medida que as posições calcadas na violência tornam-se menos sedutoras e menos cobiçadas, sua inutilidade torna-se mais evidente.
Vemos sempre, no mundo cristão, os mesmos governantes e os mesmos governos, os mesmos exércitos, os mesmos tribunais, os mesmos impostos, o mesmo clero, os mesmos ricos latifundiários, industriais, capitalistas; mas a situação de uns em relação aos outros não é mais a mesma. Os mesmos chefes de Estado mantêm os mesmos diálogos, os mesmos encontros, as mesmas festas, a mesma pompa; os mesmos diplomatas têm as mesmas conversas sobre alianças e sobre guerras; os mesmos
Parlamentos discutem as mesmas questões do Oriente e da África e os casos de guerra, o Home Rule21 e a jornada de oito horas; sempre as mesmas mudanças de Ministérios, os mesmos discursos, os mesmos incidentes; mas para aqueles que percebem como um artigo de jornal muda, às vezes, a situação, mais do que o fazem dezenas de conferências de monarcas e de sessões parlamentares, parece tornar-se cada vez mais claro que não são aquelas conferências e discussões parlamentares que dirigem os negócios, mas algo independente de tudo isso e que não reside em lugar algum.
Os mesmos generais, oficiais e soldados, os mesmos canhões, fortalezas, revistas e manobras; mas a guerra não é declarada. Um ano, dez anos, vinte anos se passam. Entretanto, tem-se cada vez menos confiança no exército para reprimir as rebeliões e torna-se cada vez mais evidente que os generais, os oficiais e os soldados são simplesmente figurantes de procissões solenes, objetos de divertimento para os governos, algo como corpos de baile que custam demasiado caro.
Os mesmos procuradores e juízes, os mesmos tribunais, mas torna-se cada vez mais evidente que os tribunais civis pronunciam suas sentenças sem se preocuparem com a justiça, e que os tribunais penais não têm nenhum sentido, porque as punições não alcançam o objetivo a que aspiram os próprios juízes. Essas instituições não servem, então, senão para nutrir homens incapazes de atitudes mais úteis.
Os mesmos padres, arcebispos; mas torna-se cada vez mais evidente que esses homens não mais creem naquilo que ensinam e, portanto, não mais podem dar a ninguém uma fé que não possuem.
Os mesmos coletores de impostos; mas cada vez mais incapazes de tirar à força os bens dos contribuintes; e assim torna-se cada vez mais evidente que, sem os coletores de impostos, os homens podem, com uma subscrição voluntária, prover todas as necessidades sociais.
Os mesmos ricos; mas torna-se cada vez mais evidente que eles não podem ser úteis, senão deixando de ser administradores pessoais de seus bens e entregando-os à sociedade, integralmente, ou, ao menos, em parte.
E quando tudo isso se tornar evidente, será natural que os homens se perguntem: “Qual a utilidade de manter todos esses reis, imperadores, presidentes e membros de toda espécie de Câmaras e Ministérios se, após todas as suas reuniões e de todos os seus discursos, nada acontece? Não seria melhor, como disse um espirituoso, fazer uma rainha de borracha?”
E de que serve o exército com seus generais, músicos, cavalos, tambores? Em que consiste sua utilidade, já que não existe guerra, já que ninguém quer conquistar ninguém e já que, mesmo quando eclodisse a guerra, os outros povos não permitiriam que dela fosse tirado proveito, enquanto o exército se recusa a abrir fogo contra os compatriotas?
E de que servem os juízes e procuradores que, nas causas civis, não julgam segundo a justiça e, nas causas penais, reconhecem a inutilidade do castigo?
De que servem os coletores de impostos que cumprem com tristeza seu dever, já que sem eles é possível reunir somas necessárias?
De que serve o clero que há muito não mais crê naquilo que prega?
De que servem os capitais concentrados nas mãos de poucos, já que não podem ser úteis senão tornando-se propriedade de todos?
E, uma vez colocadas estas questões, os homens não podem deixar de chegar à resolução de parar de manter todas essas instituições tornadas inúteis.
Mais ainda, os homens que ocupam essas posições privilegiadas reconhecerão um dia a necessidade de abandoná-las.
A opinião pública condena cada vez mais a violência e, por isso, essas posições calcadas na violência são cada vez menos procuradas.
Um dia, em Moscou, eu assistia a uma das discussões religiosas que se realizam regularmente no domingo da Páscoa, perto da igreja, no Okhotny-Rjad. Uns vinte homens estavam reunidos na calçada e conversavam com muita seriedade sobre religião.
Simultaneamente, realizava-se um concerto, no edifício do círculo da nobreza, e o oficial de polícia de sentinela no local, tendo percebido o grupo, mandou um guarda a cavalo com a ordem de dissolvê-lo. Para dizer a verdade, o oficial não tinha a mínima necessidade de dispersar aquele grupo que a ninguém incomodava, mas ele havia ficado ali durante toda a manhã, e era preciso dar um sentido a isso. O policial, jovem garboso, levando o punho à ilharga e fazendo tinir a espada, aproximou-se de nós e ordenou em tom severo: “Dispersai-vos! O que é esta reunião?” Todos voltaram-se para ele e um de nós, homem modesto, respondeu com ar calmo e afável: “Falamos de coisas sérias, por que nos separaríamos? Seria melhor, jovem, que descesses do cavalo e viesses escutar-nos; será útil para ti também.” Voltou-se, então, novamente para nós e continuou a conversa. O policial deu meia-volta e afastou-se sem dizer uma palavra.
O mesmo deve acontecer em todos os atos de violência. Aquele pobre oficial se entediou; o infeliz foi colocado numa posição que o obriga a cometer atos de autoridade; ele vive uma vida à parte; pode apenas vigiar e dar ordens, dar ordens e vigiar, embora sua vigilância e suas ordens não tenham qualquer utilidade. Na mesma condição já se encontram em parte, e dentro em breve se encontrarão inteiramente, os infelizes chefes de Estado, membros dos Parlamentos, governadores, generais, oficiais, arcebispos, padres e, também, os ricos. Estes nada têm a fazer além de dar ordens, e assim fazem, mandam os seus subordinados – como o oficial manda o soldado – para incomodar as pessoas. E como as pessoas que incomodam lhes pedem para não serem incomodadas, eles imaginam ser muito necessários.
Mas um tempo virá – já vem – em que todos compreenderão claramente que essas autoridades são de todo inúteis e apenas incomodam, em que as pessoas a quem incomodamos lhes dirão, com a mesma candura e a mesma calma: “Não nos incomodem, por favor.” E todos esses mandantes, com suas ordens, serão obrigados a seguir este bom conselho, ou seja, parar de curvetear por entre os homens com o punho na ilharga e de incomodá-los; mas, descendo de seus belos cavalos e retirando todas as suas ferragens, virão escutar aquilo que se diz e, reunindo-se aos outros, reingressarão na verdadeira vida.
Chega o tempo em que todas as instituições fundamentadas na violência desaparecerão em consequência de sua inutilidade, de sua estupidez e, sobretudo, de sua evidente inconveniência.
Esse tempo terá chegado quando acontecer, aos homens de nossa sociedade que ocupam posições criadas pela violência, o que aconteceu ao rei, no conto A roupa nova do rei, de Andersen – quando o menino, tendo visto o rei inteiramente despido, grita ingenuamente: “Olhem, o rei está nu!” Então, todos aqueles que o viam da mesma forma, mas nada diziam, não puderam deixar de admiti-lo.
No conto, trata-se de um rei, grande amante de roupas novas, ao qual alguns alfaiates prometem um traje extraordinário, cujo tecido tem a especial qualidade de permanecer invisível para quem não estiver à altura do cargo que ocupa. Os cortesãos que vêm para assistir ao trabalho dos alfaiates nada veem, porque os alfaiates movem suas agulhas no ar. Mas, lembrando-se da qualidade própria daquele tecido, todos dizem vê-lo e extasiam-se com sua beleza. O rei faz o mesmo. Chega o momento da procissão, na qual deve aparecer com seu novo traje. Ele se desnuda e veste o traje imaginário, isto é, permanece nu, e assim passeia pela rua. Mas, lembrando-se da qualidade do tecido, ninguém se decide a dizer que não existe roupa até o momento em que uma criança grita: “Olhem, o rei está nu!”
O mesmo deve acontecer com todos aqueles que ocupam, por inércia, posições há muito tempo tornadas inúteis, tão logo o primeiro grite ingenuamente: “Mas há tempos esses homens não servem para nada!”
A situação da humanidade cristã, com suas fortalezas, com seus canhões, com a dinamite, os fuzis, os torpedos, as prisões, os patíbulos, as igrejas, as fábricas, as alfândegas, os palácios, é realmente terrível; mas nem os torpedos, nem os canhões, nem os fuzis disparam sozinhos; as prisões não prendem sozinhas, os patíbulos não enforcam, as igrejas a ninguém enganam sozinhas, as alfândegas não detêm, os palácios, as fortalezas e as fábricas não se constroem sozinhos. Tudo isto é feito por homens. E quando os homens compreenderem que não se deve fazê-lo, tudo isto não mais existirá.
E eles já começaram a compreender. Senão todos, ao menos os homens de vanguarda, aqueles que serão seguidos por todos os outros. E deixar de compreender aquilo que uma vez foi compreendido é impossível; e aquilo que compreenderam os homens de vanguarda os outros podem e devem compreender.
De modo que, no tempo previsto pelo profeta, em que todos os homens serão instruídos por Deus, desaprenderão a guerra, transformarão as espadas em arados e as lanças em foices; em que, traduzindo para nossa língua, as prisões, as fortalezas, as casernas, os palácios e as igrejas ficarão vazios, e os patíbulos, os fuzis e os canhões ficarão ociosos. Não é mais uma utopia, mas uma nova forma de vida para a qual a humanidade caminha com uma rapidez cada vez maior.