O Reino de Deus Está em Vós

Liev Tolstói · Capítulo 15 de 15 · parte 1/3

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O Reino de Deus Está em Vós

Capítulo 12

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Mas quando tudo isso acontecerá?

Há 1.800 anos, Cristo respondeu a esta pergunta: o fim do século atual, isto é, da organização pagã, chegará quando as calamidades humanas estarão multiplicadas e a feliz novidade da vinda do reino de Deus, ou seja, a possibilidade de uma nova organização de vida, não alicerçada sobre a violência, será pregada por toda a Terra. (Mt 24,4-28)

“Daquele dia e da hora, ninguém sabe, nem os anjos do céu, nem o Filho, mas só o Pai”, diz Cristo. (Mt 21,35) Porque Ele pode sempre vir a qualquer instante e quando menos o esperamos.

Quando virá essa hora? Cristo diz que não podemos sabê-lo. Devemos, então, estar sempre prontos para sua vinda, como deve velar aquele que guarda sua própria casa dos ladrões, como devem velar as virgens que com suas lanternas esperam o noivo, e mais, devemos trabalhar com todas as nossas forças para antecipar essa hora, como devem trabalhar os servos para fazer render os talentos que receberam. (Mt 24,42-44; 25,13)

E não pode haver outra resposta. Saber quando virá o reino de Deus os homens não podem, porque essa hora só depende dos próprios homens.

A resposta é como a daquele sábio a quem um viajante perguntou se faltava muito para chegar à cidade: “Caminha!”

Como podemos saber se ainda está longe o objetivo para o qual se dirige a humanidade, já que não sabemos como ela caminhará e já que dela depende caminhar ou parar, moderar ou acelerar seu movimento?

Tudo o que podemos saber é aquilo que nós, que fazemos parte da humanidade, devemos ou não fazer para que venha o reino de Deus, e isto sabemos. Basta que cada um comece a fazer o que deve fazer e deixe de fazer o que não deve fazer; basta que coloquemos em nossos atos toda a luz que há em nós, para que em breve se estabeleça o reino de Deus, prometido, e para o qual tende a alma de cada homem.

 

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Conclusão

Fazei penitência, porque o reino de Deus está próximo, está à

nossa porta Terminava eu finalmente esta obra, na qual trabalhava há dois anos, quando, atravessando de trem os territórios de Tula e Riazan, já, então, atormentados como hoje pela carestia, o trem que me levava cruzou, numa estação, com um outro, transportando soldados que acompanhavam o próprio governador da região. Esses soldados tinham fuzis, cartuchos e açoites para martirizar aqueles infelizes esfomeados.

As surras com açoites para fazer respeitar as decisões das autoridades, embora as penas corporais já tenham sido abolidas há trinta anos, tornam-se cada vez mais frequentes.

Já havia ouvido falar de coisas semelhantes; havia também lido nos jornais a relação das execuções ocorridas em Cernigov, em Tambov, em Saratov, em Astracã e em Orel, e daquelas de que se vangloriou o governador de Nijni-Novgorod, Baranov. Nunca, porém, me havia acontecido, como naquele dia, ver os homens em ação. Assim, vi russos bons e compenetrados do espírito cristão armados de fuzis, cartuchos e açoites, que iriam martirizar seus irmãos famintos!

O motivo pelo qual viajavam era este: numa das mais belas propriedades da região, os camponeses mantinham uma floresta numa terra comum a eles e a um dos mais ricos proprietários do entorno, quando este atribuiu a si toda a floresta e começou a derrubá-la. Os camponeses, que havia muito desfrutavam da floresta que consideravam, ao menos, uma propriedade comum, apresentaram queixa. Em primeira instância, os juízes pronunciaram uma sentença injusta. (Digo injusta de acordo com o governador e o procurador, que assim declararam.) O juiz deu razão ao proprietário.

Todas as outras sentenças que se seguiram, inclusive a do Senado, embora todos vissem claramente que a primeira sentença havia sido injusta, confirmaram-na, e a floresta foi entregue ao proprietário.

O proprietário continuou a derrubá-la, mas os camponeses, não podendo crer que tão flagrante injustiça pudesse ser cometida pelos poderes supremos, não se submeteram. Expulsaram os operários vindos para os cortes, declarando que a floresta lhes pertencia, que iriam até o czar, mas que não deixariam que tocassem na floresta.

O fato foi referido em Petersburgo, de onde foi transmitida uma ordem ao governador para executar a sentença, e este pediu a tropa, e ei-los, os soldados com sua provisão de fuzis, cartuchos e feixes de açoites expressamente preparados para a ocasião, tudo isto desordenadamente, no vagão, ei-los enviados para fazer executar a decisão suprema.

A execução da decisão das autoridades superiores traduz-se no homicídio, no suplício e na ameaça de um ou outro, conforme as pessoas se revoltem ou se submetam.

No primeiro caso, isto é, se o camponês se revolta, tudo acontece na Rússia (como em todos os países nos quais existe o direito de propriedade), e tudo acontece do seguinte modo: o governador pronuncia um discurso em que pede a submissão. A multidão, superexcitada e naturalmente envolvida pelos mais exaltados, nada compreende da linguagem pomposa do funcionário; o governador pede, então, a sujeição da multidão e ordena sua dispersão, caso contrário será obrigado a recorrer à força.

Se a multidão não se sujeita e não se dispersa, o governador ordena que se dispare para o ar. Se a multidão, ainda assim, não cumpre o ordenado, o governador torna a ordenar que se atire sobre o povo, não importa em quem; o soldado atira, mortos e feridos caem nas ruas. A multidão, então, se dispersa, e os soldados, por ordem do governador, apanham aqueles que julgam mais perigosos e conduzem-nos sob escolta; depois, são recolhidos os moribundos ensanguentados, os mutilados, os mortos, os feridos, por vezes mulheres e crianças. Os mortos são enterrados, os mutilados são mandados para os hospitais.

Os que são considerados os líderes mais exaltados são conduzidos à cidade e julgados por um conselho de guerra. Quando é provado que sua rebelião chegou à violência, são condenados ao enforcamento. Então, a forca é armada. Enforcam-se vítimas sem defesa, como amiúde sucede na Rússia e como não pode deixar de acontecer em todos os lugares onde a ordem social é fundamentada na força. Eis o que acontece em caso de revolta.

No segundo caso, isto é, no caso em que o camponês se submete, acontece algo especial, absolutamente russo. Eis o que acontece: o governador chega ao local designado, pronuncia um discurso no qual reprova o povo por sua insubordinação e, em seguida, ou ordena a ocupação pelo exército das casas do vilarejo onde, por vezes durante um mês, os soldados esgotam os meios de subsistência do camponês, ou, tendo-se limitado às ameaças, vai embora sem praticar maus-tratos, ou, ainda, o que ocorre na maioria das vezes, declara que os líderes devem ser punidos. Escolhem-se a esmo, sem critério, alguns indivíduos, reconhecidos como líderes, que, diante dele, são açoitados.

Para dar uma ideia de como se procede, quero descrever uma execução desse gênero e que recebeu a aprovação das autoridades superiores.

Eis o que aconteceu em Orel:

Como no governo de Tula, o proprietário resolveu se apropriar dos bens dos camponeses e,

assim como lá, os camponeses opuseram-se às suas pretensões. O motivo do litígio era este: o

proprietário queria desviar, em favor de seu moinho, um rio que irrigava os campos dos

camponeses. Estes rebelaram-se. O proprietário recorreu ao comissário rural que, injustamente

(como, aliás, foi depois reconhecido pela justiça), deu razão ao proprietário. Permitiu-lhe desviar

a água. O proprietário mandou operários escavarem os canais através dos quais deveria a água

chegar até ele. Os camponeses, exasperados por esta sentença iníqua, mandaram suas mulheres

impedirem que os operários do proprietário escavassem os canais: nos diques, elas derrubaram as

carroças e expulsaram os operários.

O proprietário recorreu contra as mulheres. O comissário rural ordenou que colocassem na

prisão uma mulher de cada família.

A ordem não era de fácil execução, pois em cada casa havia várias mulheres e não era

possível saber qual delas deveria ser presa; e assim a sentença não foi cumprida. O proprietário

lamentou-se da negligência da polícia com o governador que, sem se aprofundar na questão,

simplesmente ordenou a execução da sentença do comissário rural.

O comissário do distrito chegou à aldeia e severamente ordenou aos seus agentes que

prendessem em cada casa uma mulher qualquer: mas, como eu disse, havendo em cada casa

várias mulheres, surgiram discussões; o comissário do distrito ordenou que não se importassem

com isto, que prendessem a primeira mulher que encontrassem e que a conduzissem à prisão.

Os camponeses defenderam suas mulheres e suas mães; impediram que a polícia cumprisse

sua missão; espancaram os agentes e o comissário do distrito. Um novo delito juntou-se, então,

ao primeiro, a rebelião às leis; notícias sobre este fato novo foram levadas à cidade; e eis que

aparece, como em Smolensk, o governador do lugar, chefiando um batalhão de soldados,

armados de fuzis e açoites, com grande reforço do telégrafo e do telefone, viajando em trem

expresso, acompanhado por um douto médico encarregado de inspecionar que as surras fossem

aplicadas higienicamente; e eis que o governador, encarnando o Gengis Khan moderno previsto

por Herzen, chega ao lugar da execução.

Em um município próximo encontravam-se a tropa, um regimento de guardas com

revólveres pendentes de seus cinturões vermelhos, os principais camponeses do lugar e, enfim, os

culpados. Ao redor, agrupava-se uma multidão de mais de mil pessoas.

O governador, chegando em carruagem, desceu, pronunciou o discurso de costume e pediu

que viessem os culpados e um banco. A princípio, seu pedido não foi compreendido, mas um

guarda, que o governador conduzia junto a si para todos os lugares e que se ocupava

especialmente de organizar tais execuções, repetidas inúmeras vezes naquele governo, explicou

que o banco serviria para o flagelo.

O banco foi trazido, assim como os açoites, e foram chamados os carrascos. Os carrascos são

preparados antecipadamente, são escolhidos entre os ladrões de cavalos do próprio vilarejo,

porque os soldados recusam absolutamente esse gênero de função.

Quando tudo estava pronto, o governador ordenou que fosse retirado da fila o primeiro dos

12 homens indicados pelo proprietário como os mais culpados. Tratava-se de um pai de família

honrado, estimado por todos, um homem de 40 anos que defendia energicamente os interesses

de sua classe e que, por isso, gozava de muita consideração entre os habitantes. Conduziram-no

ao banco, desnudaram-no, estenderam-no sobre o mesmo.

O camponês começou a suplicar mas, vendo que seria inútil, fez um grande sinal da cruz e

deitou-se. Dois soldados precipitaram-se para segurá-lo. O médico estava por perto, para o caso

em que sua ajuda e sua alta ciência médica fossem necessárias. Os carrascos cuspiram nas mãos,

ergueram os açoites e começaram a bater. Acontece que o banco não era suficientemente largo e

era difícil nele manter a vítima que se contorcia. O governador ordenou que trouxessem um

outro banco e que nele fosse colocada uma prancha. Os soldados – fazendo a saudação militar e

repetindo: “Muito bem, excelência” – prepararam-se para executar a ordem, enquanto seminu,

pálido, o homem martirizado aguardava, franzindo as sobrancelhas, olhando para o chão,

batendo os dentes. Quando o banco foi alargado, recolocaram nele a vítima e, novamente, os

ladrões de cavalos começaram a bater. Os ombros e os rins do homem cobriam-se cada vez mais

de estrias e manchas, e a cada golpe ouviam-se os gemidos surdos que o torturado não conseguia

reprimir.

Na multidão que os circundava, ouviam-se os gritos da mulher, da mãe, dos filhos, dos

parentes do martirizado, e de todos aqueles que haviam sido chamados para assistir ao suplício.

O desgraçado governador, ébrio de seu poder, contava nos dedos cada golpe, dobrando-os

um depois do outro, sem parar de fumar o charuto que várias pessoas servis se apressavam a

acender, oferecendo-lhe velas acesas.

Quando os golpes passaram dos cinquenta, o camponês parou de gritar e de agitar-se, e o

médico, que havia feito seus estudos numa instituição do Estado para poder depois colocar sua

alta ciência a serviço de seu soberano e de sua pátria, aproximou-se do torturado, tomou-lhe o

pulso, auscultou-lhe o coração e declarou ao governador que o homem punido tinha perdido a

consciência e que, segundo os dados da Ciência, poderia ser perigoso para a vida do paciente

continuar a execução. Mas o desgraçado governador, já ébrio com a visão do sangue, ordenou

que continuassem, e a execução prosseguiu até o septuagésimo golpe, limite que ele havia fixado,

não se sabe por quê. Só então o governador disse: “Basta! O próximo.” E levaram embora o

martirizado, com os ombros em frangalhos e sem sentidos; e trouxeram, então, um outro. Os

soluços da multidão aumentavam, mas o representante da autoridade ordenou que continuasse

a execução.

Assim foi feito até o décimo segundo, e cada um deles recebeu setenta golpes. Todos

imploravam perdão, gritavam e gemiam. Os soluços da multidão e, sobretudo, os das mulheres,

tornavam-se dilacerantes. Os rostos dos homens fechavam-se cada vez mais. Mas a tropa

rodeava-os e a execução não parou senão quando pareceu suficiente àquele desgraçado meio

ébrio e desvairado que se chamava governador. Os funcionários, os oficiais, os soldados não só

assistiam àquela execução, mas dela participavam, já que, com sua presença, tornavam

impossível qualquer resistência da multidão.

Quando perguntei a um desses governadores o motivo da execução de pessoas já submissas, com a importância de um homem que conhece toda a delicadeza da sabedoria governamental, respondeu-me estar provado pela experiência que, se os camponeses não fossem punidos, se revoltariam novamente e que a execução de alguns atesta para sempre a autoridade do poder.

Por isso, o governador de Tula, com seus funcionários, oficiais e soldados, ia por sua vez cumprir uma execução semelhante. Também ali o homicídio e o suplício deveriam ratificar a decisão da autoridade superior. Tratava-se de dar a possibilidade a um jovem latifundiário que já possuía cem mil rublos de renda de receber outros três mil com a madeira por ele subtraída de toda uma comunidade de camponeses famintos, para poder gastar esse dinheiro, em duas ou três semanas, nos restaurantes de Moscou, Petersburgo ou Paris. Eis a obra que iam realizar as pessoas que encontrei.

Como se houvesse sido feito de propósito, quis o acaso, após dois anos de meditação sobre o mesmo tema, tornar-me testemunha, pela primeira vez em minha vida, de um fato cuja realidade brutal me mostrava, com total evidência, o que eu, havia muito, vira com clareza absoluta em teoria: que nossa ordem social está instituída não como querem dar a entender os homens interessados na ordem atual, em bases jurídicas, mas na mais rude violência, no assassinato e no suplício.

Os homens que possuem grandes quantidades de terras e capitais, ou que recebem altos ordenados sugados da classe mais miserável, a classe operária, e ainda aqueles, como os negociantes, os médicos, os artistas, os empregados, os cientistas, os cocheiros, os cozinheiros, os escritores, os camareiros, os advogados, que se sustentam junto a esses homens ricos, gostam de acreditar que os privilégios de que desfrutam resultam não da violência, mas de uma troca de serviços absolutamente regular e livre. Preferem crer que os privilégios de que desfrutam existem por si só e são o resultado de uma livre convenção entre os homens, e que as violências, existindo também por si mesmas, resultam de não sei quais leis gerais. Eles esforçam-se para não ver que seus privilégios são sempre a consequência da mesma causa, daquela que obriga os camponeses, sob pena de serem açoitados ou mortos, a entregar sua madeira a um proprietário que não precisa e que em nada participou do cultivo da floresta.

Contudo, se é verdade que, graças às ameaças, aos açoites e ao homicídio, aumentou a renda do moinho de Orel e que as florestas cultivadas pelos camponeses foram dadas ao proprietário ocioso, é igualmente verdade que todos os excepcionais privilégios de que gozam os ricos, privando os pobres do necessário, são alicerçados nas mesmas causas.

Se aqueles que precisam de terra para alimentar sua família não podem cultivar a que circunda suas casas e se um único homem, seja quem for, russo, inglês, austríaco, ou qualquer grande proprietário que não cultiva e possui uma extensão capaz de alimentar mil famílias, se o rico comerciante, aproveitando-se da miséria do agricultor, pode comprar o grão por um terço de seu valor e, sem incorrer em punição, conservá-lo em seus armazéns, entre gente faminta a quem ele o revende por três vezes mais, é claro que tudo isso provém da mesma causa.

E se não se podem comprar certos produtos devido a uma linha divisória que se chama fronteira, sem pagar imposto àqueles que não tomaram parte alguma na produção dessas mercadorias, se os camponeses devem vender sua última vaca para pagar os impostos que o governo distribui a seus funcionários ou destina a nutrir os soldados encarregados, por sua vez, de matar esses mesmos espoliados, deveria parecer evidente que tudo isso não é a consequência de qualquer princípio abstrato, mas tem a mesma causa comum com o que acontece em Orel, com o que teria podido acontecer em Tula e que se apresenta, sob uma ou outra forma, no mundo inteiro, onde quer que haja governo, ricos e pobres.

Os homens que desfrutam dos privilégios das classes dirigentes convencem-se e convencem aos outros – somente porque existem casos de violência sem suplícios e sem homicídios – que as vantagens de que gozam não são consequência de martírios e execuções e, sim, de algumas causas gerais e misteriosas. Todavia, se os homens que veem a injustiça de tudo isso (como os operários, hoje) entregam, ainda assim, a maior parte do produto de seu trabalho aos capitalistas, aos latifundiários, e pagam os impostos, sabendo a que mau uso se destinam, é evidente que o fazem não para obedecer a certas leis abstratas, de que não têm ideia alguma, de que nunca ouviram falar, mas porque sabem que serão açoitados e serão mortos, caso se recusem.

E se não se é obrigado a prender, a matar, a justiçar, a cada vez que o proprietário exige seu arrendamento, a cada vez que aqueles que precisam de pão devem pagar três vezes mais seu valor, a cada vez que o operário é forçado a contentar-se com o salário insuficiente, enquanto o patrão ganha o dobro, a cada vez que o pobre é submetido a dar seus últimos rublos para pagar taxas e impostos, isso resulta da seguinte constatação: de um modo ou de outro, os homens já se mataram tanto por suas antigas tentativas de independência que para sempre delas se recordarão. Como um tigre domado que, em sua jaula, não come a carne colocada à sua frente e que pula um bastão quando assim lhe é ordenado, age desse modo porque se lembra da barra de ferro em brasa, ou do jejum com o qual foi castigado por sua desobediência, da mesma forma os homens, que se submetem ao que é contrário a seus interesses e ao que consideram injusto, lembram-se do que sofreram quando tentaram resistir.

Quanto aos homens que se aproveitam das vantagens resultantes das violências anteriores, estes com frequência esquecem, e gostam de esquecer, de como foram adquiridas essas vantagens. Contudo, basta reler a história, não das proezas dos diversos soberanos, mas a verdadeira História, das opressões da maioria pela minoria, para perceber que todos os privilégios dos ricos baseiam-se nos açoites, nas prisões, nos calabouços, nas execuções capitais.

Podem-se citar casos de opressão, raros, é verdade, que não têm o objetivo de granjear vantagens para as classes dirigentes, mas também pode-se dizer, sem hesitação, que, em nossa sociedade, para cada homem que vive na abundância, existem dez consumidos pelo trabalho, invejosos, ávidos e, muitas vezes, sofrendo cruelmente com suas famílias. Todos os privilégios dos ricos, todo o seu luxo e todo o seu supérfluo não são adquiridos e mantidos senão com maus-tratos, com encarceramentos, com execuções capitais.

O trem expresso que encontrei no dia 9 de setembro constituía-se de um vagão de primeira classe para o governador, os funcionários e os oficiais, e de alguns vagões de mercadoria, repletos de soldados. Aquelas autoridades e aqueles soldados dirigiam-se a Tula para cometer uma injustiça flagrante. Este fato prova, claramente, como os homens podem cometer atos absolutamente contrários às suas convicções e à sua consciência, sem disto se aperceberem.

Os soldados, jovens garbosos, em seus uniformes novos e limpos, estavam agrupados em pé ou sentados com as pernas pendentes na grande abertura dos vagões. Uns fumavam, outros, davam-se cotoveladas, brincavam, riam, mostrando todos os dentes; outros, roendo sementes de girassol, cuspiam as películas com ar de importância. Alguns corriam para beber no barril de água que havia na plataforma e, encontrando alguns oficiais, diminuíam o passo, faziam seu gesto idiota, levando a mão à fronte com ar sério, como se fizessem algo muito importante, seguiam adiante e depois recomeçavam a correr ainda mais alegremente, batendo as pranchas da plataforma, rindo e conversando como é natural a jovens de boa saúde e a bons rapazes que viajam em alegre companhia. Iam matar seus pais e seus avós famintos como se se encaminhassem a um divertimento.

Os funcionários, em uniforme de gala, e os oficiais, espalhados pela plataforma e pela sala da primeira classe, produziam a mesma impressão. Defronte a uma mesa repleta de garrafas estava sentado, em traje semimilitar, o governador, chefe de toda a expedição. Comia e conversava tranquilamente sobre o tempo com alguns conhecidos que havia encontrado, como se o objetivo de sua viagem fosse tão simples e corriqueiro que não pudesse perturbar sua tranquilidade e o interesse que demonstrava pela mudança do tempo.

Um pouco distante da mesa sentava-se o general de polícia, com ar impenetrável, mas entediado, como se todas aquelas formalidades o cansassem enormemente. Por toda parte, oficiais, em seus uniformes com galões de ouro, iam e vinham ruidosamente. Alguns, à mesa, terminavam sua garrafa de cerveja, alguns, de pé junto ao banco, comiam um salgado, sacudindo os farelos caídos no uniforme e jogavam o dinheiro com gesto soberbo; alguns, passeando ao lado de nosso trem, olhavam as mulheres graciosas.

Todos eles, indo assassinar ou martirizar pessoas famintas e inofensivas que os alimentavam, tinham o ar de quem sabia muito bem o que fazia, e até se vangloriava.

O que significa tudo isso?

Todos encontravam-se a cerca de meia hora do local onde iriam cometer os mais terríveis atos que se possam imaginar e aproximavam-se desse lugar tranquilamente!

Dizer que todos aqueles funcionários, oficiais e soldados não sabiam o que seria feito é impossível, porque para isso se prepararam. O governador precisou dar ordens relativas aos açoites, os funcionários precisaram discutir seus preços, compará-los e inscrevê-los no livro de despesas; os militares deram ou receberam ordens relativas aos cartuchos. Sabiam todos do martírio de seus irmãos enfraquecidos pela carestia e que, também, começariam sua obra daqui a uma hora, talvez.

Dizer, como em geral se diz e eles próprios repetem, que agem por convicção da necessidade de manter a ordem governamental seria injusto, em primeiro lugar, porque é duvidoso que todos aqueles homens tenham se preocupado com a ordem governamental e sua necessidade; depois, porque não podem estar convencidos de que o ato do qual participam servirá à manutenção e não à destruição do Estado, e, enfim, porque, na realidade, a maioria deles, senão todos, não só nunca sacrificará sua tranquilidade e sua alegria para manter o Estado, como também nunca deixará passar a ocasião de aproveitar, em detrimento deste, tudo o que possa aumentar sua tranquilidade e seu bem-estar. Portanto, não são guiados por princípio algum.

O que significa tudo isso?

Entretanto, conheço todos aqueles homens. Se não os conheço pessoalmente, conheço mais ou menos seus caracteres, seus passados, seus pontos de vista. Todos têm mãe, alguns têm mulher e filhos. A maioria é bom filho, generoso, dócil, por vezes sensível, e detesta qualquer crueldade; sem falar em assassinato, muitos não podem matar ou martirizar um animal e, mais, são cristãos e consideram qualquer violência contra gente inofensiva como uma ação vil e vergonhosa. Na vida normal, nenhum desses homens é capaz de fazer, para seu menor proveito, a centésima parte do que fez o governador de Orel, aliás, se ofenderiam se fossem considerados capazes de atos como aquele. E, no entanto, ei-los a meia hora de distância do local em que podem, necessariamente, ser induzidos a fazê-lo.

O que significa tudo isso?

Não só aqueles homens conduzidos pelo trem estão prontos para o homicídio e a violência, mas também os outros que são a causa de toda essa questão: o proprietário, o gerente, o juiz e aqueles que, de Petersburgo, deram as ordens. Como puderam, aqueles homens, também bons, também cristãos, empreender e ordenar semelhante ato? Como os próprios simples espectadores que dele não participam, que se indignam com qualquer ato de violência na vida privada, ainda que se trate de um cavalo martirizado, como podem deixar perpetrar algo tão terrível? Por que não se indignam, por que não bloqueiam a estrada e gritam: “Não, nós não permitiremos que se espanquem e se matem famintos só porque não cedem os últimos poucos bens que lhes querem tirar indevidamente!” Ao contrário, esses homens e também aqueles que foram a causa do fato, o proprietário, o gerente, o juiz e aqueles que deram as ordens, como o governador, o ministro, têm a consciência absolutamente tranquila. Todos aqueles que iam cometer aquele delito pareciam também tranquilos. Os espectadores, que aparentemente não podiam ter qualquer interesse pessoal no fato, olhavam mais com simpatia do que com repulsa para toda aquela gente que se preparava para cometer uma ação tão atroz. No mesmo vagão que eu, viajava um comerciante de madeira, antigo camponês. Ele exprimia francamente e em voz alta sua aprovação.

“Não se deve desobedecer à autoridade. Ela existe para ser obedecida. Esperai um pouco, sereis bem castigados. Não fareis mais rebeliões. Assim é que se faz!”, dizia.

O que significa tudo isso?

Não se pode dizer que todos eles, provocadores, participantes, indiferentes, fossem a tal ponto degradados que agissem contrariamente a suas convicções, uns pelo ordenado, outros por medo de uma punição. Em alguns casos, sabem defender suas convicções. Nenhum desses funcionários roubará uma bolsa, lerá uma carta a si não endereçada, suportará uma ofensa sem exigir um desagravo; nenhum desses oficiais trapaceará no jogo, denunciará um companheiro, fugirá do campo de batalha ou abandonará a bandeira; nenhum desses soldados concordaria em cuspir na hóstia, nem em comer carne na Sexta-feira Santa. Todos estão prontos a suportar toda espécie de privações e sofrimentos antes de consentir em fazer o que consideram uma má ação. Têm, portanto, a força da resistência, quando se trata de suas convicções.

Dizer que todos eles são animais, aos quais não repugna cometer essas crueldades, é ainda menos possível. Basta falar-lhes para ver que todos, o latifundiário, o juiz, o ministro, o soberano, o governador, os oficiais e os soldados, não só em seu coração não aprovam essa ação, mas até mesmo sofrem por serem obrigados a participar dela, quando lhes é recordada sua iniquidade. Procuram apenas não pensar nisso.

Bastaria falar-lhes para percebermos que têm consciência dessa iniquidade, que teriam preferido dela não participar e que sofrem com isso.

Uma senhora que professava opiniões liberais e viajava em nosso trem, tendo visto o governador e os oficiais na sala da primeira classe, e tomando conhecimento da finalidade da viagem, erguendo ostensivamente a voz, pôs-se a criticar violentamente os costumes de nosso tempo e a atacar os homens que eram os instrumentos daquela perversidade. Todos se sentiram pouco à vontade, não se sabia para onde olhar. Mas ninguém a contradisse. Fingiu-se não dar importância alguma a suas palavras, mas o comportamento constrangido dos passageiros comprovava o que sentiam: vergonha. Notei o mesmo embaraço nos soldados. Também eles sabiam que a ação que iam cometer era indigna, mas não queriam pensar.

Quando o comerciante de madeira – sem sinceridade, suponho, mas só para mostrar que não era mais um camponês – pôs-se a dizer o quanto semelhantes medidas eram necessárias, os soldados que o escutaram deram-lhe as costas, franzindo as sobrancelhas e aparentando não tiver ouvido.

Todos aqueles que contribuíam para a execução daquela repressão, como os passageiros de nosso trem que, sem dela participar, somente assistiam aos preparativos, todos sentiam vergonha.

Por que, então, o faziam e o toleravam?

Pergunte a cada um deles. Responderão que isso acontece para assegurar a ordem necessária ao bem do país, indispensável ao progresso de toda sociedade constituída.

Os que obedecem, os que devem cometer a violência com as próprias mãos, os camponeses, os soldados responderão que tudo foi ordenado pela autoridade superior e que a autoridade sabe o que faz. E quanto a saber se a autoridade deve estar nas mãos dos homens que a têm, tal é, para eles, indiscutível. Ainda que pudessem admitir a possibilidade de um erro, não podiam compreendê-lo senão num funcionário inferior; quanto à autoridade superior, esta é, para eles, sempre infalível.

Embora expliquem sua conduta por diversos motivos, os chefes e os subordinados estão de acordo ao dizerem que agem dessa maneira porque a ordem vigente é necessária e porque cada um tem o sagrado dever de contribuir para sua manutenção.

Baseiam-se na necessidade e na imutabilidade dessa ordem para justificar sua participação nas violências do governo. Já que essa organização é imutável, dizem, a recusa à obediência por parte de um indivíduo isolado não poderia trazer a menor mudança. “Apenas aconteceria que a missão, da qual esse insubordinado não se quisesse encarregar, seria confiada a outro, que a cumpriria de um modo talvez mais rigoroso e mais cruel.”

É este o argumento que permite a homens, honestos e bons em suas vidas privadas, participarem, com a consciência mais ou menos tranquila, de atos como os ocorridos em Orel e como aqueles para os quais se preparavam os que iam de trem para Tula.

Mas em que se baseia esta afirmação?

Compreende-se facilmente que, para um latifundiário, é prazeroso e desejável acreditar na necessidade e na imutabilidade da ordem atual, que lhe assegura a renda de centenas de milhares de acres de terra e lhe permite viver sua vida habitual, ociosa e luxuosa.

Compreende-se igualmente que o juiz acredite de bom grado na necessidade da ordem que lhe permite receber cinquenta vezes mais do que o operário mais dedicado. Assim é para com todos os outros funcionários públicos. Somente graças a essa ordem o governador, o procurador, os senadores, os membros de todos os conselhos podem receber enormes ordenados sem os quais pereceriam imediatamente com toda a sua família, porque toda a sua inteligência, todo o saber e todo o trabalho não lhes dariam em outras circunstâncias a centésima parte do que ganham. No mesmo caso encontram-se os ministros, o chefe de Estado e todas as autoridades superiores, com a única diferença que, quanto mais altas suas posições, mais sua situação é excepcional e mais devem acreditar que o atual regime seja o único possível porque não só não poderiam ter, fora dele, uma situação equivalente, como até estariam abaixo de todos os outros homens. Um homem engajado voluntariamente como guarda municipal, com uma paga de dez rublos ao mês, que facilmente poderia ganhá-los de qualquer outra forma, está pouco interessado na conservação da ordem atual e, portanto, pode não acreditar em sua necessidade absoluta. Mas um rei ou um imperador, que recebe milhões, que sabe que a seu redor encontram-se milhares de homens invejosos de seu posto, que sabe que em nenhuma posição receberia as mesmas honras e a mesma renda e até, se o derrubassem, poderiam processá-lo por seus abusos de poder, cada rei ou imperador, digo, não pode deixar de acreditar no caráter imutável e sagrado da ordem vigente. Quanto mais alta é a posição de um homem, tanto mais é instável; e quanto mais terrível sua queda pode ser, tanto mais ele tem fé na duração ilimitada da organização existente, que lhe permite cometer violências e crueldades com a maior e a mais perfeita tranquilidade de espírito, como se não agisse por interesse próprio, mas somente por interesse do regime. Tal é a situação de todos os funcionários que ocupam posições mais lucrativas do que as que poderiam ocupar com outra organização; dos mais humildes policiais à mais alta autoridade.

Mas os camponeses, os soldados, os posicionados em graus inferiores da escala social, que não obtêm benefício algum desta ordem, que se encontram na mais ínfima e mais humilde posição, por que, então, acreditam que essa ordem é exatamente a que deve existir e que, portanto, se deve manter, até com o preço de atos contrários à consciência?

Quem os obriga a acreditar nessa imutabilidade, já que é evidente que só é imutável porque eles a mantêm?

Quem obriga esses camponeses, tirados ontem do arado e metidos em trajes desajeitados e inconvenientes, de colete azul e botões dourados, a irem, armados de fuzis e espadas, assassinar seus pais e seus irmãos famintos? Estes já não têm interesse algum na conservação do atual regime e não podem recear perder sua posição, sendo ela bem pior do que aquela da qual foram arrancados.

Os chefes, com frequência bons, humanos, além do proveito que obtêm, são capazes de participar de semelhantes atos porque sua participação limita-se à instigação, às decisões, às ordens. Ademais, sequer veem como são cometidas todas essas atrocidades por eles provocadas ou ordenadas. Mas os desgraçados das classes inferiores que, sem o menor proveito, são, antes, desprezados – arrancam com as próprias mãos homens de suas famílias, amarram-nos, prendem-nos, deportam-nos, vigiam-nos, fuzilam-nos, e por que o fazem?

Todas as violências só podem ser cometidas graças a sua obra. Sem elas, nenhum daqueles homens que assinam as sentenças de morte, de prisão e de reclusão perpétua teria se decidido a, pessoalmente, enforcar, prender, martirizar a milésima parte daqueles que, de seu gabinete, com tanta tranquilidade ordena que se enforque e martirize, apenas porque não o vê, porque não o faz pessoalmente, mas porque o manda fazer a distância, por seus submissos executores.

Todas essas injustiças e crueldades tornam-se habituais somente porque existem pessoas sempre prontas para cometê-las servilmente, pois, se não existissem, aqueles que dão as ordens nunca teriam sequer ousado sonhar com o que ordenam com tamanha desenvoltura, e ninguém ousaria afirmar, como fazem hoje todos os proprietários ociosos, que a terra que rodeia os camponeses miseráveis pertence a um homem que não a cultiva e que as reservas de trigo, debulhadas pelos agricultores, devem ser conservadas intactas em meio a uma população faminta, porque os comerciantes devem ganhar mais.

Se esses executores não existissem, o proprietário nunca teria tido a ideia de roubar aos mujiques a floresta que cultivaram, nem os funcionários públicos a de considerar legítimos seus ordenados, tirados do povo faminto, que ganham oprimindo o povo ou perseguindo homens que rechaçam a mentira e pregam a verdade.

Todas estas ações, como as de todos os tiranos, de Napoleão ao último comandante de companhia que abre fogo contra a multidão, não se explicam senão porque estes estão inebriados pelo poder que lhes confere a submissão de homens prontos a cumprir todas as suas ordens e com os quais sentem contar. Toda a força reside, então, nos homens que cometem com suas próprias mãos os atos de violência, nos homens que servem na polícia, no exército; sobretudo no exército, porque a polícia só age quando sente o exército lhe dando suporte.

O que, então, levou essas massas honestas, das quais tudo depende, a acreditar nessa surpreendente aberração, que um regime tão mortífero deva necessariamente existir?

Quem, então, as fez cair num erro tão grosseiro?

Esses homens, é claro, não se puderam convencer, por si mesmos, que devem fazer o que é contrário à sua consciência, nocivo e mortífero para eles e para toda sua classe, que representa nove décimos da população.

“Como poderei matar homens, quando a lei de Deus diz: ‘Não matarás’?”, perguntei mais de uma vez a diversos soldados. Deixava-os sempre embaraçados recordando-lhes, com esta pergunta, algo em que não queriam pensar. Sabiam que existe uma lei de Deus obrigatória: Não matarás, e sabiam também que existe um serviço militar obrigatório, mas nunca haviam pensado que nisso houvesse uma contradição. O sentido das respostas tímidas que obtinha era sempre que matar na guerra, ou condenar à morte um bandido por ordem da autoridade, não entra na proibição geral. Mas quando eu dizia que essa distinção não está escrita na lei de Deus e recordava a obrigação, para todos, da doutrina cristã, da fraternidade, do perdão às ofensas, do amor, que em caso algum pode se conciliar com o homicídio, os homens do povo davam-me geralmente razão, mas por sua vez perguntavam-me: “Como é então possível que o governo [que, em sua opinião, não pode errar] mande o exército à guerra e faça justiçar os delinquentes?” Quando eu respondia que o governo age mal dando essas ordens, meu interlocutor perturbava-se ainda mais e interrompia a conversa ou se irritava comigo.

“É provável que tenha sido encontrada uma lei para isso, quero acreditar que os arcebispos sejam tão sábios quanto o senhor”, respondeu-me um soldado. Depois, absolutamente certo de que seus chefes encontraram uma lei que autorizava seus avós, seus herdeiros e milhões de homens, e a ele próprio a servir o exército, sentiu-se visivelmente tranquilizado e convenceu-se de que eu simplesmente recorria a uma astúcia, que o colocava diante de uma espécie de adivinhação.

Todos os homens de nosso mundo cristão sabem, de forma absoluta e pela tradição, pela revelação, pela consciência, que o homicídio é um dos maiores delitos que pode cometer um homem, como está dito no Evangelho, e que esse delito não é relativo, isto é, que matar seja um pecado para uns e não o seja para outros. Todos sabem que é sempre pecado, qualquer que seja a vítima. É um pecado como o adultério, como o furto ou qualquer outro. Contudo, os homens veem, desde a sua infância, que o homicídio não só é admitido, mas também abençoado por aqueles que são considerados como seus guias espirituais, designados pelo próprio Deus, e veem também os chefes leigos portarem, com perfeita tranquilidade e até com orgulho, armas letais e, em nome da lei, exigirem dos cidadãos, e até mesmo de Deus, sua participação nos assassinatos. Os homens sentem, em tudo isso, uma contradição, mas, não podendo resolvê-la, supõem que seja aparente e que resulte apenas de sua ignorância.

Sua convicção é consolidada pela mesma rudeza e pela evidência dessa contradição. Não podem imaginar que aqueles que caminham à frente da civilização preguem com tanta desenvoltura duas obrigações que lhes parecem tão opostas: a lei cristã e o homicídio. Uma simples criança, não corrupta, depois adolescente, não pode imaginar que homens que ocupam tão alta posição em sua estima possam, por um objetivo qualquer, enganar a todos tão impudicamente.

Entretanto, isso é feito, e não deixa de sê-lo. Isso é feito, primeiro, porque a todos os trabalhadores, que não têm tempo para examinar eles mesmos as questões morais e religiosas, é sugerido, desde a infância, pelo exemplo e pelo ensinamento, que a tortura e o homicídio são conciliáveis com o cristianismo e que, em determinados casos, não só podem como devem ser usados; segundo, porque, para alguns deles, alistados no exército, seja para o serviço obrigatório, seja voluntariamente, se sugere que aplicar com as próprias mãos a tortura e cometer homicídio é um dever sagrado e também um feito glorioso, digno de louvor e recompensa.

Esta mentira universal é difundida por todos os catecismos e por livros que os substituem e que servem, hoje, a instrução obrigatória. Neles se diz que a violência, a tortura, o aprisionamento e as execuções capitais, como também o assassinato durante a guerra civil ou estrangeira, que têm o objetivo de manter e defender a ordem social existente, seja qual for – monarquia absoluta ou constitucional, convenção, consulado, império, república ou comunas –, são absolutamente legítimos e não contradizem a moral ou o cristianismo.

E os homens convencem-se tão bem de tudo isso que crescem, vivem e morrem nessa convicção, sem nunca duvidar um só instante.

Esta é a mentira universal, mas existe também a mentira especial, própria para os soldados e policiais que cometem as crueldades e os homicídios necessários à manutenção da ordem atual.

Em todos os códigos militares se diz, mais ou menos nos mesmos termos, o que se lê no código militar russo:

§ 87. Cumprir rigorosamente e sem observações as ordens superiores, quer dizer, cumpri-las

sem discutir se são boas ou más ou se sua execução é possível. Somente o chefe é responsável

pelas consequências de sua ordem.

§ 88. O subordinado não deve desobedecer às ordens do chefe, exceto no caso em que veja

claramente que, obedecendo, viola... [espera que se diga, no caso em que viole a lei de Deus?

Absolutamente.] viola o juramento de fidelidade ao czar.

Nesse código está dito que o homem, quando é soldado, pode e deve executar, sem exceção, todas as ordens do chefe; ora, constituindo-se essas ordens, sobretudo, em homicídios, ele deve, consequentemente, violar todas as leis divinas e humanas, mas não deve violar seu juramento de fidelidade àquele que, em um dado momento, se encontra por acaso no poder. E não pode ser diferente, pois todo o poder do Estado repousa sobre essa mentira. Eis aqui a razão da estranha crença das classes inferiores de que a ordem atual, para elas tão mortífera, é exatamente a que deve existir, e que se deve mantê-la com a tortura e com o homicídio.

Essa crença está fundada em um artifício usado conscientemente pelas classes mais altas sobre as mais baixas. E não poderia ser diferente. Para subjugar as classes mais baixas, que são mais numerosas, para oprimi-las e guiá-las, inclusive a ações contrárias às suas consciências, foi necessário usar de artifícios. E isso foi feito de comum acordo.

Nos últimos dias, fui novamente testemunha dessa mentira desavergonhada e cínica e, de novo, admirei-me de que ela possa ser perpetrada tão despudoradamente.

No princípio do mês de novembro, passando por uma cidade do interior, vi outra vez, às portas desta, a multidão que tão bem conheço e a cujo burburinho se mesclavam as vozes embriagadas dos homens e os lamentos das mães e das mulheres. Era o conselho de revisão. Jamais consigo passar diante desse espetáculo sem parar; ele parece atrair-me a contragosto, como por fascínio. Misturei-me então à multidão, olhando, interrogando, e fui surpreendido pela liberdade com que se comete esse grande delito em plena luz do dia e no coração de uma cidade.

Como em todos os anos, a 1º de novembro, em todos os burgos e em todos os vilarejos desta Rússia

de cem milhões de habitantes, os estarostes 22 reuniram os homens inscritos em determinadas listas, às vezes até os próprios filhos, e conduziram-nos à cidade. Pela estrada, bebia-se, sem que os recrutas fossem impedidos pelos anciãos, porque dispor-se a executar algo tão insensato, abandonando mulher, filhos, mães e tudo o que se tem de mais caro, simplesmente para se transformar numa arma passiva de destruição, seria demasiado cruel se não se atordoassem com vinho.

Ei-los, portanto, escorregando nos trenós, fazendo festa, blasfemando, cantando, empurrando-se e passando a noite nas tabernas. Pela manhã, armaram-se de coragem, esvaziando novos copos, e reuniram-se diante dos muros do município. Lá estão, cobertos de casacos de pele de carneiro, novos em folha, com cachecóis de lã no pescoço, olhos inchados pela bebida, uns gritando selvagemente para excitar-se, outros calmos e tristes; aglomeram-se junto à porta, esperando seu turno, cercados pelas mães e mulheres com os olhos cheios de lágrimas. Outros comprimem-se no vestíbulo do escritório de recrutamento.

Lá dentro, nesse ínterim, o trabalho avança rapidamente. A porta abre-se e o guarda chama Petro Sidorov. Este estremece, faz o sinal da cruz e entra num pequeno quarto com uma porta de vidro, onde se desnudam os recrutados. Um companheiro de Petro Sidorov, que àquela altura havia sido declarado apto para o serviço e saiu completamente nu da sala do conselho de revisão, com os maxilares tremendo, veste-se apressadamente. Sidorov já percebeu e, aliás, vê, pelo rosto de seu companheiro, que ele foi declarado apto para o serviço.

Quer interrogá-lo, mas chamam-no e ordenam-lhe que se dispa o mais depressa possível. Ele tira o casaco de pele de carneiro, as botas, descalçando um pé com o outro, depois o colete; tira a camisa, virando-a pelo avesso, e com os quadris sobressaindo, inteiramente nu, o corpo todo tremendo e exalando odor de vinho, de tabaco e de suor, entra na sala do conselho, não sabendo onde colocar os braços musculosos.

Na sala, em evidência, está suspenso na parede, numa moldura dourada, o retrato do imperador, em uniforme de gala, com um grande cordão ao pescoço, e, num canto, um pequeno retrato de Cristo, sem camisa e coroado de espinhos. No meio da sala está colocada uma mesa coberta por um pano verde, sobre a qual estão papéis e um bibelô triangular, encimado por uma águia, chamado o espelho da justiça.

Ao redor da mesa estão sentados os membros do conselho, com ar desenvolto e tranquilo. Um fuma um charuto, um outro consulta documentos.

Tão logo Sidorov entra, o guarda aproxima-se e o coloca de braços abertos, erguendo-lhe bruscamente o queixo e em seguida arrumando-lhe os pés. O homem do charuto aproxima-se – é o médico – e, sem olhar para seu rosto, apalpa com repugnância o corpo do recrutado, mede-o, ausculta-o, ordena que o guarda abra a sua boca, manda que ele respire, fale. Alguém escreve algo. Enfim, sem tê-lo encarado uma só vez, diz: “Apto! Que venha outro.” E, com ar cansado, vira o corpo e senta-se.

Novamente, o guarda empurra o rapaz, apressa-o. Este recoloca rapidamente, como pode, a camisa, mal encontrando a abertura das mangas, abotoa precipitadamente as calças, recoloca as botas, procura o cachecol, o gorro, põe o casaco sob o braço e reconduzem-no à sala do conselho, separando-o dos outros por um banco. Ali esperam os recrutados reconhecidos aptos ao serviço. Um jovem, camponês como ele, mas de uma província longínqua, já soldado, armado de um fuzil com uma baioneta na ponta, vigia-o, pronto a trespassá-lo caso lhe viesse a ideia de fugir.

Entrementes, a multidão de pais, mães e mulheres, empurrada pela guarda municipal, comprime-se à porta, ansiosa para saber quem é declarado apto e quem está salvo.

Sai um reformado que declara que Petro está retido e, no mesmo instante, ouve-se um grito da jovem esposa dele, para quem a palavra “retido” significa separação por quatro ou cinco anos e uma vida de mulher de soldado, como serva, na devassidão.

Mas eis que naquele momento chega a coche um homem de cabelos longos e vestido com um traje que o distingue dos outros; aproxima-se da porta da sede do município. A guarda municipal abre-lhe uma passagem em meio à multidão. É o “padre” que veio para fazer prestar o juramento. E então esse “padre”, a quem se fez crer que é o servidor particular, exclusivo, de Cristo, e que na maior parte do tempo não vê, ele mesmo, a mentira que o cerca, entra na sala do conselho onde o esperam os recrutados. Ele veste por sobre o hábito, à guisa de veste, um cortinado de brocado, solta os longos cabelos, abre aquele mesmo Evangelho onde está proibido o juramento, segura a cruz, a mesma cruz em que foi pregado Cristo por não ter querido fazer o que ordena seu suposto servidor, coloca-os na estante, e todos aqueles jovens infelizes, sem defesa e enganados, repetem depois dele a mentira que pronuncia em tom firme e habitual. Lê e os outros repetem: “Prometo e juro por Deus onipotente e diante de seu Santo Evangelho etc...” defender (isto é, com homicídio) todos aqueles que me serão indicados e fazer tudo o que me ordenarão meus superiores (homens que não conheço e que precisam de mim para oprimir os meus irmãos e cometer os delitos que os conservem em suas posições).

Todos os recrutados repetem estupidamente essas palavras selvagens. Depois esse pretenso “padre” se vai, persuadido de ter conscienciosa e corretamente cumprido seu dever, enquanto aqueles jovens enganados estão convencidos de que as palavras néscias, ininteligíveis que pronunciaram, os dispensam, por todo o tempo de seu serviço, de qualquer obrigação humana, e lhes criam outras, novas e mais rigorosas: as obrigações do soldado.

E esse ato é cometido publicamente e ninguém grita aos enganadores e aos enganados: “Reflitam! É uma mentira, a mais vil e mais pérfida mentira que perde não só vossos corpos, mas também vossas almas.”

Ninguém o faz. Aliás, concluída a operação, como para zombar dos recrutados, o coronel entra com ar solene na sala onde estão trancafiados e grita-lhes militarmente: “Bom dia, jovens! Felicito-os por vê-los entrarem ao serviço do czar.” E os desventurados (alguém já lhes ensinou) balbuciam com a língua inábil e ainda pesada pelos excessos da véspera algumas palavras que parecem querer manifestar contentamento.

Lá fora, a multidão de parentes continua esperando, à porta. As mulheres, com os olhos vermelhos de lágrimas, têm o olhar fixo na porta. Esta finalmente se abre e os recrutados reconhecidos aptos ao serviço saem cambaleantes, mas aparentando coragem. Evitam olhar para seus parentes. De repente, irrompem os gritos e gemidos das mães e mulheres. Alguns atiram-se em seus braços e choram, outros conseguem conter-se, outros consolam-nas. As mães, as mulheres, sabendo que agora ficarão abandonadas, sem sustento, por três, quatro ou cinco anos, gritam e lamentam-se em voz alta. Os pais falam pouco. Estalam a língua com tristeza e suspiram. Cada um deles sabe que não verá mais o companheiro, o ajudante criado e formado com tanto sacrifício; cada um deles sabe que, na maioria das vezes, esses jovens não retornarão mais como são agora, agricultores, dóceis e trabalhadores, e sim dissolutos e velhacos desabituados da vida simples.

Enfim, a multidão sobe novamente nos trenós e segue pela estrada em direção às tascas e tabernas e mais e mais alto ainda ecoam confusamente os cantos, o pranto, os gritos bêbados, os lamentos das mães e das mulheres, os sons dos órgãos e as blasfêmias. Vão gastar seu dinheiro nas tabernas e nos empórios, cujo comércio constitui uma das rendas do governo. E já começa a festa que sufoca, neles, o sentimento de injustiça do qual são vítimas.

Permanecem duas ou três semanas em casa, onde se embriagam quase diariamente.

Então, no dia marcado, são reunidos como um rebanho e começam a ensinar-lhes os exercícios militares.

Os instrutores são homens iguais a eles, mas que foram enganados e embrutecidos um, dois ou três anos antes. Os métodos para instruí-los são a mentira, o embrutecimento, as surras e a aguardente. Em menos de um ano, aqueles jovens, sãos de corpo e alma, inteligentes, bons, tornam-se seres selvagens como seus instrutores.

– Muito bem! E se teu pai, preso, quisesse fugir, o que farias? – perguntei a um jovem soldado.

– Iria trespassá-lo com minha baioneta – respondeu-me ele com a voz estúpida, própria dos soldados – e, se ele “escapar”, eu deverei abrir fogo contra ele – acrescentou, visivelmente orgulhoso por saber o que deveria fazer caso seu pai escapasse.

Então, quando o bom rapaz descer mais baixo que as feras, se tornará aquilo que deve ser para os que o usaram como instrumento de violência. Ele está pronto: o homem está perdido e o novo instrumento de violência foi fabricado. E tudo isso é cometido a cada outono, por toda parte, em toda a Rússia, à luz do dia, no meio da cidade, diante e com o conhecimento de todos, e o engano é tão hábil que, mesmo conhecendo no fundo da alma toda a sua infâmia, todos o temem e não se podem libertar dele.

Continuar: parte 2 de 3