O Reino de Deus Está em Vós

Liev Tolstói · Capítulo 4 de 15

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O Reino de Deus Está em Vós

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O reino de Deus

está em vós

ou

O cristianismo apresentado

não como uma doutrina

mística mas como

uma moral nova

1

A doutrina da não resistência ao mal por meio da violência tem

sido ensinada pela minoria dos homens desde a origem do

cristianismo

 

Os primeiros comentários provocados por meu livro foram-me endereçados por quakers americanos. Dando-me ciência de sua absoluta concordância de pontos de vista quanto à ilegitimidade, para o cristão, de qualquer guerra e de qualquer violência, os quakers me comunicaram detalhes interessantes sobre sua seita que há mais de duzentos anos pratica a doutrina de Cristo de não resistência ao mal por meio da violência. Simultaneamente, enviavam-me seus jornais, folhetos e livros que tratavam dessa questão, para eles indiscutível desde há muito, e demonstravam o erro da doutrina da Igreja ao admitir as penas capitais e a guerra.

Após provarem, com uma longa série de argumentos fundamentados em experiências, que a religião, edificada sobre a concórdia e o amor ao próximo, não poderia admitir a guerra, isto é, a mutilação e o homicídio, os quakers afirmam que nada contribui tanto para obscurecer a verdade do Cristo e impedi-la de se difundir no mundo quanto o não reconhecimento desse princípio por parte dos homens que se dizem cristãos. E mais:

A doutrina de Cristo que penetrou na consciência dos homens não por meio da espada ou da

violência mas pela não resistência ao mal, pela resignação, pela humildade e pelo amor, só pode

ser difundida no mundo por meio do exemplo da concórdia e da paz entre seus seguidores.

O cristão, conforme os ensinamentos do próprio Deus, não pode ser guiado, em suas relações

com o próximo, senão pelo amor. Assim, não pode existir autoridade alguma capaz de

constrangê-lo a agir contrariamente aos ensinamentos de Deus e ao próprio espírito do

cristianismo.

A regra da necessidade do Estado não pode obrigar à traição da lei de Deus, exceto para

aqueles que, por interesse da vida material, procuram conciliar o inconciliável. Mas para o cristão

que crê firmemente que a salvação reside na prática da doutrina de Cristo, essa necessidade não

pode ter qualquer importância.

A história dos quakers e o estudo de suas obras – dos trabalhos de Fox e Penn e, sobretudo, dos livros de Dymond (1827) – demonstraram-me não apenas que a impossibilidade de conciliar o cristianismo com a guerra e a violência foi reconhecida desde há muito, mas também que é tão nítida e indiscutivelmente provada, a ponto de não se poder compreender essa união impossível entre a doutrina de Cristo e o uso da força, que foi e continua a ser pregada pelas Igrejas.

Além das informações recebidas dos quakers, obtive, na mesma época, e também vindos dos Estados Unidos, pormenores de uma fonte, para mim absolutamente desconhecida, a respeito do mesmo assunto. O filho de William Lloyd Garrison, o famoso defensor da liberdade dos negros, escreveu-me afirmando que encontrara, em meu livro, as ideias expressas por seu pai em 1838 e, supondo que me interessaria constatá-lo, enviou-me o texto de uma declaração ou manifesto de “não resistência”, escrita por seu pai havia cerca de cinquenta anos.

Essa declaração originou-se das seguintes circunstâncias: William Lloyd Garrison, ao tomar parte numa discussão sobre os meios de fazer cessar a guerra na Sociedade para o Estabelecimento da Paz entre os Homens, que existia nos Estados Unidos em 1838, chega à conclusão de que a paz universal não se pode erigir senão sobre o reconhecimento público do mandamento da não resistência ao mal por meio da violência (Mt 5,39) em toda sua amplitude, como o praticam os quakers com os quais Garrison mantinha relações de amizade. Chegando a essa conclusão, ele redige e propõe a essa associação a declaração a seguir, que foi subscrita por vários de seus membros:

Declaração de princípios adotados pela Convenção da Paz

Boston, 1838

Nós, abaixo-assinados, acreditamos ter o dever, para conosco e para com a causa tão cara a

nossos corações, para com o país em que vivemos e para com o mundo inteiro, de proclamar a

nossa fé, expressando os princípios que professamos, a finalidade por nós buscada e os meios que

temos intenção de usar para chegar a uma revolução benéfica, pacífica e geral.

Eis os nossos princípios:

Não reconhecemos qualquer governo humano. Não reconhecemos senão um só rei e

legislador, um juiz e líder da humanidade. Nossa pátria é o mundo inteiro; nossos compatriotas

são todos os homens. Amamos todos os países como nosso próprio país, e os direitos de nossos

compatriotas não nos são mais caros do que os de toda a humanidade. Por isso, não admitimos

que o sentimento de patriotismo possa justificar a vingança de uma ofensa ou de um mal feito ao

nosso país.

Entendemos que o povo não tem o direito de se defender dos inimigos externos, nem de

atacá-los. Concebemos, ainda, que os indivíduos isolados não possuem esse direito em suas

relações recíprocas, não podendo a unidade ter direitos maiores do que os da coletividade. Se o

governo não deve se opor aos conquistadores estrangeiros que visam a ruína de nossa pátria e a

destruição de nossos concidadãos, da mesma forma não pode opor a violência aos indivíduos

que ameaçam a tranquilidade e a segurança pública.

O dogma ensinado pelas Igrejas, de que todos os países da Terra são criados e aprovados por

Deus, e de que as autoridades, que existem nos Estados Unidos, na Rússia, na Turquia etc.

emanam de Sua vontade, não é apenas estúpido, como também blasfematório. Esse representa

nosso Criador como um ser parcial, que estabelece e encoraja o mal. Ninguém pode afirmar que

as autoridades existentes, em qualquer país que seja, ajam com seus inimigos segundo a doutrina

e o exemplo de Cristo. Nem mesmo seus atos podem ser agradáveis a Deus. Não podem,

portanto, ter sido estabelecidos por Ele, e devem ser derrubados, não pela força, mas pela

regeneração moral dos homens.

Reconhecemos como anticristãs e ilegais todas as guerras – ofensivas ou defensivas – e,

também, as organizações para a guerra, quaisquer que sejam: arsenais, fortalezas, navios de

guerra, exercícios permanentes, monumentos comemorativos de vitórias, troféus, solenidades de

guerra, conquistas através da força, enfim, reprovamos igualmente como anticristã qualquer lei

que nos obrigue ao serviço militar.

Em consequência, consideramos impossível para nós não apenas qualquer serviço ativo no

Exército, mas também qualquer função que nos dê a missão de manter os homens no bem por

meio da ameaça de prisão ou da condenação à morte. Excluímo-nos, então, de todas as

instituições governamentais, repelimos qualquer política e recusamos todas as honrarias e todos

os cargos de autoridade.

Não nos reconhecendo o direito de exercer funções nas instituições governamentais,

recusamos também o direito de eleger para esses cargos outras pessoas. Consideramos que não

temos o direito de recorrer à justiça para nos fazer ser restituído o que nos foi tirado e

acreditamos que, em vez de fazer uso da violência, estamos obrigados a “deixar também o manto

àquele que nos roubou a veste”. (Mt 5,40)

Preconizamos que a lei criminal do Antigo Testamento – olho por olho, dente por dente – foi

anulada por Jesus Cristo e que, segundo o Novo Testamento, todos os fiéis devem perdoar seus

inimigos, em todos os casos, sem exceção, e não se vingar. Extorquir dinheiro à força, prender,

mandar para a cadeia ou condenar à morte não se constitui, evidentemente, em perdão, e sim

em vingança.

A história da humanidade está cheia de provas de que a violência física não contribui para o

reerguimento moral e de que as más inclinações do homem somente podem ser corrigidas por

meio do amor; de que o mal não pode desaparecer senão por meio do bem; de que não se deve

contar com a força do próprio braço para se defender do mal; de que a verdadeira força do

homem está na bondade, na paciência e na caridade; de que só os pacíficos herdarão a Terra e

de que aqueles que com a espada ferirem pela espada perecerão.

Por isso, tanto para garantir com mais segurança a vida, a propriedade, a liberdade e a

felicidade dos homens, quanto para seguir a vontade Daquele que é o Rei dos reis e o Senhor

dos senhores, aceitamos de todo o coração o princípio fundamental da não resistência ao mal por

meio do mal, porque acreditamos firmemente que esse princípio, que atende a todas as

circunstâncias possíveis da nossa existência e, ao mesmo tempo, exprime a vontade de Deus,

deve finalmente triunfar.

Não pregamos uma doutrina revolucionária. O espírito da doutrina revolucionária é um

espírito de vingança, de violência e de morte, sem temor a Deus e sem respeito à personalidade

humana, e não queremos nos deixar penetrar senão pelo espírito do Cristo. Nosso princípio

fundamental de não resistência ao mal por meio do mal não nos permite participar de

insurreições, nem de rebeliões, nem de atos de violência. Submetemo-nos a todas as regras e a

todas as exigências do governo, exceto àquelas que sejam contrárias aos mandamentos do

Evangelho. Não resistiremos de outra forma a não ser submetendo-nos passivamente às punições

que poderão ser infligidas devido à nossa doutrina.

Suportaremos todas as agressões sem deixar de, por nosso lado, combater o mal onde quer

que o encontremos, no alto ou no baixo, no terreno político, administrativo ou religioso, e

procuraremos atingir, servindo-nos de todos os meios possíveis, a fusão de todos os reinos

terrestres num só reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como verdade indiscutível

que tudo aquilo que seja contrário ao Evangelho deve ser definitivamente destruído.

Acreditamos, como o profeta, que virá um tempo em que as espadas serão transformadas em

relhas e as lanças, em foices, e que devemos trabalhar sem demora, na medida de nossas forças,

para a concretização dessa profecia. Em consequência, aqueles que fabricam, vendem ou se

servem de armas contribuem para os preparativos da guerra e se opõem, pela mesma razão, ao

poder pacífico do Filho de Deus na Terra.

Após a exposição de nossos princípios, especificaremos, agora, as medidas que propomos para

alcançar nosso objetivo.

Esperamos vencer “por meio da loucura da pregação”. Procuraremos difundir nossas ideias

entre todos os homens, de qualquer nação, religião ou classe social. Para tanto, organizaremos

palestras públicas, difundiremos programas e opúsculos, constituiremos sociedades e enviaremos

petições a todas as autoridades públicas.

Em suma, nos empenharemos, com todos os meios de que dispusermos, para produzir uma

revolução radical nas opiniões, nos sentimentos e nos costumes da nossa sociedade, em tudo o

que concerne à ilegitimidade do uso da violência contra os inimigos internos ou externos.

Empreendendo essa grande obra, compreendemos perfeitamente que nossa sinceridade talvez

nos prepare cruéis provações.

Nossa missão pode nos expor a muitos ultrajes e a muitos sofrimentos, e também à morte.

Seremos incompreendidos, ridicularizados e caluniados. Uma tempestade se erguerá contra nós.

O orgulho e a hipocrisia, a ambição e a crueldade, os chefes de Estado e os poderosos, tudo pode

se voltar contra nós. Não foi de outro modo tratado o Messias a quem procuramos imitar, na

medida de nossas forças. Mas tudo isso não nos amedronta. Não colocamos nossa esperança nos

homens, mas no Nosso Senhor Onipotente. Se recusamos qualquer proteção humana, é porque

nos sustentamos apenas em nossa fé, mais poderosa do que tudo. Não nos maravilharemos com

as provações e ficaremos felizes por haver merecido compartilhar dos sofrimentos de Cristo.

Assim, então, entregamos nossas armas a Deus, confiantes em Sua palavra de que aquele que

abandonar campos e casas, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos, para seguir Cristo, receberá

cem vezes mais e herdará a vida eterna.

Acreditando firmemente, apesar de tudo o que poderia cair sobre nós, no indubitável

triunfo, em todo o mundo, dos princípios expostos nesta declaração, aqui pomos nossas

assinaturas, confiando no bom-senso e na consciência dos homens, mas, ainda mais, no poder

divino, ao qual nos reportamos.

Posteriormente a esta declaração, Garrison fundou a Sociedade da Não Resistência e uma revista intitulada Não Resistente, na qual expunha a própria doutrina em toda sua importância e com todas as suas consequências, tal como formulada em sua declaração. Informações quanto ao destino dessa sociedade e da revista me foram fornecidas pela excelente biografia de W. L. Garrison, em quatro volumes, escrita por seu filho.

Nem a sociedade nem a revista tiveram grande duração. A maior parte dos colaboradores de Garrison no trabalho de libertação dos negros desistiu de prosseguir nessa campanha, receando indispor os adeptos da mesma com os princípios radicais da revista; assim, sociedade e revista não tardaram a desaparecer.

Seria possível crer que a profissão de fé de Garrison, de tão grande eloquência, tivesse impressionado fortemente o público e, tornando-se conhecida no mundo inteiro, fosse objeto de um profundo exame. Nada de parecido aconteceu. Ela não só é desconhecida na Europa, mas também praticamente ignorada pelos norte-americanos que, entretanto, professam um culto profundo à memória de Garrison.

A mesma indiferença estaria reservada a outro defensor do princípio da não resistência ao mal por meio da violência, o norte-americano Adin Ballou, morto recentemente e que durante cinquenta anos lutou por essa doutrina.

Para demonstrar o quanto tudo o que se refere a essa questão é ignorado, citarei o filho de Garrison. À minha pergunta relativa à existência de sociedades de não resistência ou adeptos dessa doutrina, respondeu-me que tal sociedade se havia dissolvido e que não mais existia partidário algum da doutrina, até onde ele sabia. Ora, no momento em que me escrevia, vivia ainda em Hopedale, Massachusetts, Adin Ballou, que havia colaborado com a obra de Garrison e dedicado cinquenta anos de sua vida à propaganda falada e escrita da doutrina da não resistência.

Mais tarde recebi uma carta de Wilson, discípulo e colaborador de Ballou, e entrei em contato com o próprio Ballou. Escrevi; respondeu-me e enviou-me suas obras. Eis um trecho:

Jesus Cristo é meu Senhor e meu patrão [disse Ballou em um de seus estudos que demonstra

a inconsequência dos cristãos que admitem o direito de defesa e da guerra].

Prometi abandonar tudo e a Ele seguir até à morte, na alegria ou na dor. Mas sou cidadão da

República Democrática dos Estados Unidos, à qual prometi ser fiel e sacrificar minha vida, se for

o caso, pela defesa de sua Constituição. O Cristo me ordena que faça aos outros aquilo que

desejo que seja feito a mim mesmo. A Constituição dos Estados Unidos exige de mim que faça a

dois milhões de escravos [na época havia escravos, hoje pode-se francamente trocar essa palavra

por “operários”] exatamente o contrário do que eu gostaria que fosse feito comigo mesmo, isto é,

ajudar a mantê-los na escravidão. E, apesar disso, continuo a eleger ou a ser elegível, ajudo a

gerir os negócios do Estado, estou também inteiramente pronto para aceitar qualquer cargo

governamental. E isso não me impede de ser cristão! Continuo a praticar a minha religião, não

encontro a menor dificuldade de cumprir, ao mesmo tempo, meus deveres para com Cristo e

com o Estado!

Jesus Cristo me proíbe de resistir àqueles que cometem o mal e arrancar-lhes olho por olho,

dente por dente, sangue por sangue, vida por vida.

Meu governo exige de mim exatamente o contrário e constrói sua defesa contra os inimigos

internos e externos sobre o patíbulo, sobre o fuzil e sobre a espada, e o país é amplamente

provido de forças, arsenais, navios de guerra e soldados.

Não existe meio de destruição que pareça excessivamente caro! E achamos muito fácil

praticar o perdão das ofensas, amar nossos inimigos, abençoar aqueles que nos amaldiçoam e

fazer o bem àqueles que nos odeiam!

Temos, para isso, um clero permanente que reza por nós e invoca as bênçãos de Deus sobre

nossas santas carnificinas.

Vejo perfeitamente tudo isso (a contradição entre a doutrina e os atos) e continuo a praticar

a minha religião e a servir o país, e me glorifico por ser, ao mesmo tempo, um cristão e um servo

devoto e fiel do governo. Não quero admitir esse louco conceito de não resistência ao mal, não

posso renunciar à minha parcela de influência e abandonar o poder apenas aos homens imorais.

A Constituição diz que o governo tem o direito de declarar a guerra, e eu consinto, e o apoio, e

nem por isso deixo de ser cristão!

Também a guerra é um dever cristão! Não será, talvez, praticar um ato cristão matar centenas

de milhares dos próprios semelhantes, violentar mulheres, destruir e incendiar cidades e cometer

toda espécie de crueldade?

É tempo de abandonar todo esse sentimentalismo pueril! Eis o verdadeiro meio de perdoar

as ofensas e amar os nossos inimigos. Porque, sendo feitos em nome do amor, nada é mais

cristão do que esses massacres.

Em outro opúsculo, intitulado Quantos homens são necessários para transformar um crime num ato justo, afirma:

Um homem sozinho não deve matar: se ele matou, é um réu, um homicida. Dois, dez, cem

homens, se matarem, serão também homicidas. Mas o Estado ou o povo podem matar, quanto

queiram, e seu ato não será um homicídio, e sim uma ação gloriosa. Trata-se somente de reunir

o maior número possível de pessoas e a matança de dezenas de homens se transforma numa

ocupação inocente. E quantos homens são necessários para isso? Eis a questão. Um indivíduo

não pode roubar e saquear, mas um povo inteiro pode.

Por que um, dez, cem homens não devem infringir as leis de Deus, enquanto uma grande

quantidade pode?

Eis, agora, o catecismo de Ballou, composto para seus fiéis:

CATECISMO DA NÃO RESISTÊNCIA1

Pergunta – De onde foi tirada a expressão “não resistência”?

Resposta – Da frase: “Não resistais ao mal”. (Mt 5,39)

P – O que exprime essa sentença?

R – Exprime uma alta virtude cristã ensinada por Cristo. P – Devemos aceitar a expressão “não resistência” em seu sentido mais amplo, ou seja, que

ela significa que não devemos opor qualquer resistência ao mal?

R – Não. Ela deve ser compreendida no sentido exato do mandamento de Cristo, isto é, não

pagar o mal com o mal. É preciso resistir ao mal com todos os meios justos, mas não por meio do

mal.

P – De onde se deduz que o Cristo tenha ordenado a não resistência nesse sentido? R – Das palavras que ele pronunciou a esse respeito: “Ouvistes o que foi dito: Olho por olho

e dente por dente. E eu vos digo: Não te oporás ao malvado; assim, se alguém te bate na face

direita, oferece-lhe a esquerda. E se alguém quer brigar contigo, e tirar-te o manto, deixa-lhe

também a veste.”

P – De que fala o Cristo ao dizer: “Ouvistes o que foi dito?” R – Dos patriarcas e dos profetas e do que eles disseram e que está escrito no Antigo

Testamento que os israelitas chamam geralmente de a Lei e os Profetas.

P – A que mandamento o Cristo faz alusão com as palavras “Vos foi dito”? R – Ao mandamento com o qual Noé, Moisés e outros profetas dão o direito de fazer um mal

pessoal àqueles que vos fizeram mal para punir e para suprimir as más ações.

P – Cite esses mandamentos.

R – “Quem versa o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue versado.” (Gn 9,6) “Quem ferir a outro e causar sua morte, será morto. Mas se houver dano grave, então darás

vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por

queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe.” (Ex 21,12.23.24.25).

“Se um homem golpear um ser humano, quem quer que seja, deverá morrer. Se um homem

ferir o próximo, desfigurando-o, como ele fez, assim se lhe fará. Fratura por fratura, olho por

olho, dente por dente.” (Lv 24,17.19.20)

“Juízes investigarão cuidadosamente. Se a testemunha for uma testemunha falsa, e tiver

caluniado seu irmão, então, vós a tratareis conforme ela própria maquinava tratar seu próximo.

Que teu olho não tenha piedade; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão,

pé por pé.” (Dt 19, 18.19 e 21)

“Eis os mandamentos de que fala Jesus.

“Noé, Moisés e os profetas ensinam que aquele que mata, mutila ou martiriza seu

semelhante, pratica o mal.

“Para se opor a esse mal e para suprimi-lo querem que aquele que o praticou seja punido

com a morte, com a mutilação ou com qualquer outro castigo. Querem pagar ofensa com ofensa,

homicídio com homicídio, sofrimento com sofrimento, o mal com o mal. Mas Cristo desaprova

tudo isso. ‘Eu vos digo: não vos oponhais ao mal, não pagueis ofensa com ofensa, nem mesmo se

deveis suportá-la novamente’, escreve ele no Evangelho. O que era lícito, está proibido. Tendo

compreendido qual gênero de resistência ensinavam Noé, Moisés e os profetas, sabemos

igualmente o que significa não resistência ensinada por Cristo.”

P – Então, os antigos admitiam a resistência à ofensa com a ofensa? R – Sim, mas Jesus a proibiu. O cristão não tem, em caso algum, o direito de tirar a vida ou

de atingir com um castigo aquele que lhe fez mal.

P – Pode ele matar ou ferir para se defender?

R – Não.

P – Pode ele levar acusações diante dos tribunais para obter a punição do ofensor? R – Não, porque o que ele faz por intermédio dos outros é o que realmente faz. P – Pode ele combater um exército contra os inimigos de fora ou contra os rebeldes internos? R – Não, é claro. Ele não pode tomar qualquer parte na guerra, nem mesmo na organização

da guerra. Não pode usar armas mortais, não pode resistir à ofensa com a ofensa, seja sozinho ou

unido a outros, aja por si ou por intermédio dos outros.

P – Pode ele, voluntariamente, reunir e armar soldados para o serviço do Estado? R – Ele não pode fazer nada disso, se quiser ser fiel às leis do Cristo. P – Pode ele, com benevolência, dar dinheiro ao governo que é sustentado pelas Forças

Armadas, pela pena de morte e pela violência?

R – Não, a menos que esse dinheiro se destine a um objetivo em especial, justo por si mesmo

e cujos fins e meios sejam bons.

P – Pode ele pagar impostos a tal governo?

R – Não, ele não deve voluntariamente pagar impostos; mas não deve resistir ao

recolhimento de impostos. O imposto decretado pelo governo é recolhido independentemente

da vontade de contribuintes. O homem não pode escapar dele sem recorrer à violência, e o

cristão, não podendo usar de violência, deve oferecer a sua propriedade às arrecadações do

poder.

P – Pode um cristão ser eleitor, juiz ou agente do governo? R – Não, a participação nas eleições, na justiça, na administração, nos faz participar da

violência governamental.

P – Qual a principal virtude da doutrina da não resistência? R – A possibilidade de cortar o mal pela raiz em nosso próprio coração, assim como no de

nossos semelhantes. Essa doutrina reprova o que perpetua e multiplica o mal no mundo. Aquele

que ataca seu próximo, ou que o ofende, provoca sentimentos de ódio, origem de todo o mal.

Ofender o próximo porque ele nos ofendeu, com o propósito de repelir o mal, é reprovar uma

má ação, é despertar ou pelo menos liberar, encorajar o demônio que pretendemos repelir.

Satanás não pode ser expulso por Satanás, a mentira não pode ser purificada pela mentira e o

mal não pode ser vencido pelo mal.

“A verdadeira não resistência é a única resistência ao mal. Ela degola o dragão. Destrói e faz

desaparecer por completo os maus sentimentos.”

P – Mas se a ideia da doutrina é justa, ela é, afinal, exequível? R – Tão exequível como todo bem ordenado pela Sagrada Escritura. O bem, para ser feito em

qualquer circunstância, exige renúncia, privações, sofrimentos e, em casos extremos, o sacrifício

da própria vida. Mas aquele que preza mais sua vida do que o cumprimento da vontade de Deus

já está morto para a única vida verdadeira. Tal homem, querendo salvar sua vida, a perderá.

Ademais, em geral, onde a não resistência requer o sacrifício de uma só vida ou de alguma

felicidade essencial à vida, a resistência requer milhares de sacrifícios semelhantes.

A não resistência conserva, a resistência, destrói. É muito menos perigoso agir com igualdade do que com injustiça, suportar a ofensa do que

resistir a ela com violência. Em nossa vida atual, isso é também mais seguro. Se todos os homens

se abstivessem de resistir ao mal com o mal, a felicidade reinaria sobre a Terra.

P – Mas, se somente alguns agissem desse modo, o que seria deles? R – Ainda que um só homem agisse assim e que todos os outros concordassem em crucificá-

lo, não seria mais glorioso para ele morrer pelo triunfo do amor do que viver e carregar a coroa

dos Césares encharcada com o sangue dos imolados? Mas, fosse um só homem ou fossem mil

homens a ter decidido não resistir ao mal com o mal, estivesse ele entre os bárbaros ou entre os

selvagens, estaria muito mais livre da violência do que com aqueles que se apoiam na violência.

O bandido, o assassino, o ladino o deixariam em paz, dando preferência aos que resistem com

armas.

“Aquele que golpeia com a espada perecerá pela espada, enquanto aqueles que buscam a paz,

que vivem fraternalmente, que perdoam e esquecem as ofensas, desfrutam, habitualmente, de

paz durante a vida e são abençoados após a morte.

“Se, então, todos os homens observassem o mandamento da não resistência, não haveria

mais ofensa, nem delito. Se, ainda que por pouco, eles fossem a maioria, estabeleceriam logo o

poder do amor e da benevolência também sobre os ofensores, sem nunca usar de violência. Se

fossem apenas uma minoria importante, sempre exercitariam uma ação moralizadora e

regeneradora sobre a humanidade que todos os castigos cruéis seriam anulados; a violência e o

ódio cederiam lugar à paz e ao amor. E ainda que não fossem senão uma pequena minoria,

raramente teriam que sofrer algo pior do que o desprezo do mundo, e, entretanto, o mundo,

sem se aperceber e sem agradecimentos, tornaria-se progressivamente melhor e mais sábio, a

partir da influência dessa pequena minoria oculta. Mesmo admitindo que alguns membros dessa

minoria fossem perseguidos até a morte, essas vítimas da verdade deixariam atrás de si a sua

doutrina já consagrada pelo sangue do martírio.

“A paz esteja com aqueles que procuram a paz, e que o amor vencedor permaneça a herança

imorredoura de todas as almas que se submetem livremente à lei de Cristo: ‘Não resistais ao

mal.’

ADIN BALLOU

Durante cinquenta anos Ballou escreveu e publicou livros que se referiam, sobretudo, à não resistência. Nessas obras, notáveis pela lucidez de pensamento e pela beleza do estilo, a questão é examinada sob todos os ângulos possíveis. Ele faz da observância desse mandamento um dever para todo cristão que crê na Bíblia como em uma revelação divina. Passa em revista todas as objeções... tanto as tratadas no Antigo e no Novo Testamentos – como, por exemplo, a expulsão dos mercadores do Templo – quanto as independentes da Escritura, e as refuta vitoriosamente, mostrando o sentido prático da não resistência. Assim, um capítulo inteiro de sua obra é dedicado ao exame de casos especiais. Reconhece que só um caso, no qual a não resistência não pudesse ser admitida, bastaria para provar a falsidade dessa regra. Mas, examinando essas ocasiões excepcionais, demonstra que exatamente então é útil e sábio conformar-se a esse preceito. Digo tudo isso para melhor evidenciar o interesse que têm esses trabalhos para os cristãos. Pareceria que devessem conhecer a missão de Ballou e ter admitido ou refutado os princípios. Mas não é assim.

Mais ainda do que meu relacionamento com os quakers, a obra de Garrison, a sociedade da não resistência por ele fundada e sua declaração provaram-me que desde há muito foi constatada a derrogação do cristianismo do Estado à lei de Cristo sobre a questão de não se opor ao mal por meio da violência e que muitas pessoas trabalharam e trabalham ainda para demonstrar essa evidência. Ballou confirmou-me esta opinião. Mas o destino de Garrison e sobretudo o destino de Ballou, desconhecido por todos, apesar dos cinquenta anos de trabalho obstinado e incessante, convenceram-me de que existe uma espécie de conspiração do silêncio, tácita, mas formal, contra todas essas tentativas.

Ballou morreu em agosto de 1890, e um jornal norte-americano, que traz um título cristão (Religio-philosophical Journal – edição de 23 de agosto), dedicou-lhe um obituário. Nessa oração fúnebre laudatória foi dito que Ballou era o chefe espiritual da comunidade, que pronunciou de oito a nove mil sermões, uniu em matrimônio mil casais e escreveu cerca de quinhentos artigos e estudos, mas nem uma só palavra foi pronunciada a respeito da missão à qual dedicou sua vida. Nem a expressão “não resistência” foi mencionada.

Como tudo o que pregam os quakers há duzentos anos, como a obra de Garrison, sua declaração, a fundação de sua sociedade e de sua revista, fica parecendo que também os trabalhos de Ballou nunca existiram.

Como exemplo admirável dessa ignorância das obras que visam explicar a não resistência e confundir aqueles que não reconhecem esse mandamento, pode-se citar o destino do livro do tcheco Kheltchitsky, que só recentemente foi conhecido e ainda não publicado.

Pouco depois da publicação da tradução alemã de meu livro, recebi uma carta de um professor da Universidade de Praga, que me informava sobre a existência de uma obra inédita do tcheco Kheltchitsky, do século XV, intitulada A rede da fé. Nessa obra, dizia-me o professor, Kheltchitsky expressou, há quatro séculos, a propósito do cristianismo verdadeiro ou falso, ideias semelhantes às de meu livro Minha religião. Acrescentava meu correspondente que a obra de Kheltchitsky estava prestes a ser publicada pela primeira vez, em língua tcheca, em uma publicação da Academia do Silêncio de Pittsburg. Não conseguindo obter essa obra, procurei tudo o que era conhecido a respeito de Kheltchitsky e recolhi algumas informações em um livro alemão, que me foi aconselhado pelo mesmo professor de Praga, a História da literatura tcheca, de Pypine. Eis o que diz este último:

A rede da fé é a doutrina do Cristo que deve tirar o homem das obscuras profundezas do

oceano da vida e de suas mentiras. A verdadeira fé está na crença das palavras de Deus, mas

houve um tempo em que os homens consideravam a verdadeira fé uma heresia. É por esse

motivo que a razão deve demonstrar em que consiste a verdade, se alguém a ignora. A noite a

ocultou dos homens. Estes não mais reconhecem a verdadeira lei do Cristo.

Para explicar essa lei, Kheltchitsky lembra a organização primitiva da sociedade cristã,

organização que hoje seria, diz ele, considerada pela Igreja Romana como uma terrível heresia.

Essa Igreja primitiva foi o ideal da organização social baseada na liberdade, na igualdade e na

fraternidade, que são até hoje, segundo Kheltchitsky, os fundamentos do cristianismo. Se a

sociedade voltasse à sua doutrina pura, a existência dos reis e dos papas se tornaria inútil: a lei

única do amor bastaria para a ordem social.

Historicamente, Kheltchitsky localiza o início da decadência do cristianismo no tempo de

Constantino Magno, a quem o papa Silvestre induziu a abraçar o cristianismo sem obrigá-lo a

renunciar aos princípios e costumes pagãos. Constantino, por sua vez, deu ao papa a riqueza e o

poder temporal. Desde aquele tempo os dois poderes reuniram seus esforços e visaram somente

o desenvolvimento de sua grandeza material.

Os doutores, os sábios e os padres não mais pensaram em outra coisa senão em subjugar o

mundo e em armar os homens uns contra os outros, para a matança e o roubo. Eles foram os

responsáveis pelo desaparecimento da doutrina evangélica da religião e da vida. Kheltchitsky

repele totalmente o direito da guerra e das execuções capitais; todo guerreiro, ainda que

“cavalheiro”, nada mais é do que um assassino e um bandido.

O mesmo é dito no livro alemão, que contém, ainda, algumas particularidades biográficas e muitas citações da correspondência de Kheltchitsky.

Ciente, então, em que consistia a doutrina de Kheltchitsky, esperei com ansiedade a publicação de A rede da fé nas memórias da Academia. Mas, passou-se um ano, depois dois, e três, sem que a obra viesse a público. Só em 1888 soube que a edição, já iniciada, havia sido suspensa. Obtive as provas de tudo o que já havia sido composto e encontrei, em cada parágrafo, uma obra estupenda.

Essa obra foi muito bem resumida por Pypine. A ideia fundamental de Kheltchitsky é que o cristianismo, unindo-se ao poder sob Constantino e continuando a desenvolver-se nessas condições, corrompeu-se por completo e deixou de ser o que era. O título de A rede da fé foi dado por Kheltchitsky a seu livro porque, havendo usado como epígrafe o versículo do Evangelho que conclamava os discípulos a se tornarem pescadores de homens, dá sequência a esse paralelo e diz: “Cristo, por meio de seus discípulos, envolveu o mundo inteiro na ‘rede da fé’; mas os peixes grandes, tendo rasgado as malhas da rede, escaparam, e pelo buraco que fizeram passaram também os peixes pequenos, de modo que a rede ficou quase vazia. Os peixes grandes que rasgaram a rede são os governantes: imperadores, papas, reis, que sem abandonar o poder aceitaram não o cristianismo, mas sua aparência.”

Kheltchitsky ensina a doutrina que foi e é até hoje pregada pelos “não resistentes”, pelos menonitas, pelos quakers e, nos tempos antigos, pelos bogomilos, pelos paulicianos e por tantos outros. Ele ensina que o cristianismo, que exige de seus adeptos a resignação, a submissão, a doçura, o perdão das ofensas, que se ofereça a face direita àquele que bateu na esquerda e o amor aos inimigos, não pode se conciliar com a violência, condição essencial do poder.

O cristão, segundo Kheltchitsky, não só não pode ser comandante ou soldado, mas sequer fazer parte de qualquer administração; não pode ser comerciante nem proprietário de terras: não pode ser senão um artesão ou um agricultor.

Esse livro é uma das raras obras que escaparam aos autos de fé, entre as que fustigaram o cristianismo oficial, e é isso que o torna tão interessante.

Mas, além de seu interesse, esse livro, de qualquer ponto de vista que o examinemos, é um dos mais notáveis produtos do pensamento, tanto pela profundidade das opiniões, como pela extraordinária energia e pela beleza da linguagem popular na qual é escrito. E, no entanto, permanece apenas como manuscrito há mais de quatro séculos e continua a ser ignorado, exceto pelos especialistas.

Seria de se esperar que esse tipo de obra – a dos quakers, de Garrison, de Ballou, de Kheltchitsky –, que afirma e demonstra, tomando por base o Evangelho, que o mundo entende mal a doutrina do Cristo, provocasse o interesse, a agitação, o murmúrio, as discussões, tanto entre os pastores quanto entre as ovelhas. Referindo-se à própria essência da doutrina cristã, essas obras deveriam ser examinadas e reconhecidas como justas, ou, então, refutadas e rechaçadas. Mas isso não acontece.

O mesmo fato se repete em relação a todas essas obras. Pessoas com as mais diversas opiniões, tanto os fiéis como – e isto é surpreendente – os livres-pensadores, todos parecem obedecer a uma palavra de ordem de silenciar a seu respeito, e tudo aquilo que os homens fazem para explicar o verdadeiro sentido da doutrina do Cristo permanece oculto ou esquecido.

Entretanto, ainda mais surpreendente é a obscuridade na qual permaneceram duas obras, de cuja existência só tomei conhecimento quando publiquei meu livro. São elas a obra de Dymond, On War [Sobre a guerra], publicada pela primeira vez em Londres em 1824, e a obra de Daniel Musser, Sobre a não resistência, escrita em 1864. É verdadeiramente estranho que essas obras tenham permanecido desconhecidas, porque, sem falar de seu valor, tratam tanto da teoria da não resistência quanto de sua aplicação prática na vida e do cristianismo em suas relações com o serviço militar; o que, hoje, é sobremaneira importante devido ao serviço militar obrigatório.

As pessoas talvez se perguntem: qual deve ser a atitude daquele cidadão cuja religião é inconciliável com a guerra, mas do qual o governo exige o serviço militar?

Esta pergunta parece essencial, e o serviço militar obrigatório confere à resposta uma importância especial. Todos ou quase todos os homens cristãos e todos os homens adultos são chamados às armas. Como pode, então, um homem, na qualidade de cristão, responder a essa exigência? Eis o que responde Dymond:

Seu dever é recusar, com doçura, mas firmemente, o serviço militar. Certos homens, sem raciocínio bem definido, concluem, não se sabe bem de que maneira,

que a responsabilidade pelas medidas governamentais cabe inteiramente àqueles que governam,

isto é, que os governantes e os reis decidam o que é o bem e o que é o mal para seus súditos, e

que o dever destes é apenas obedecer. Creio que este modo de pensar nada faz senão ofuscar a

consciência. “Não posso participar dos conselhos do governo, portanto, não sou responsável por

seus delitos.” É verdade que não somos responsáveis pelos erros dos governantes, mas somos

responsáveis pelos nossos erros, e os cometidos por nossos governantes transformam-se em

nossos se, sabendo que são erros, participamos de sua execução. Aqueles que acreditam que seu

dever é obedecer ao governo e que a responsabilidade dos delitos que cometem recai

inteiramente sobre o soberano, estão bastante enganados. Estes dizem: “Submetemos nossos atos

à vontade alheia e nossos atos não podem ser maus ou bons. Em nossos atos não pode haver o

mérito de uma boa ação, nem a responsabilidade de uma má ação, já que são alheios à nossa

vontade.”

Devemos notar que essas mesmas ideias são desenvolvidas nas instruções dadas aos soldados

e que devem por eles ser decoradas. Nelas é dito que somente o comandante será responsável

pelas consequências de suas ordens. Mas isso não é verdade. O homem não pode fugir da

responsabilidade dos atos que comete. Eis por que: se o comandante ordena que mateis o filho

do vosso vizinho, vosso pai, vossa mãe, ireis obedecer-lhe? E, se não lhe obedecerdes, todos os

raciocínios caem por terra, porque, se há caso em que podeis não obedecer, onde encontrareis o

limite até o qual deveis fazê-lo? Não existe para vós outro limite senão aquele estabelecido pelo

cristianismo; e respeitá-lo é algo, ao mesmo tempo, sábio e fácil.

Portanto, acreditamos que o dever de cada homem que considere a guerra como

inconciliável com sua religião é recusar, suave mas firmemente, o serviço militar. Aqueles que

assim agirem irão se recordar que cumprem um grande dever. De sua fidelidade à religião

depende (tanto quanto isso pode depender dos homens) o destino da paz da humanidade.

Professem e defendam sua convicção, não apenas com palavras, mas, se necessário, com

sofrimento. Se acreditais que o Cristo tenha condenado a matança, não atendais aos raciocínios

nem às ordens dos homens que vos ordenam tomar parte em algo semelhante.

Com essa firme recusa a participar da violência, merecereis a bênção daqueles que escutam e

seguem essas ordens, e chegará um dia em que o mundo vos louvará como artífices da

regeneração humana.

O livro de Musser tem o título Non-resistance asserted ou Kingdom of Christ and kingdom of this world separated, 1864 [Afirmação da não resistência ou Separação do reino de Deus do reino terrestre].

Esse livro foi escrito por ocasião da Guerra de Secessão, quando o governo norte-americano impôs o serviço militar a todos os cidadãos. Isto é também importante, na atualidade, pelos assuntos que aborda em relação à recusa ao serviço militar. No prefácio, diz o autor:

Sabe-se que nos Estados Unidos muitos negam a necessidade da guerra. Estes são chamados

os cristãos não resistentes, ou defenceless [sem defesa]. Recusam-se a defender o próprio país, a

usar armas e a combater contra os inimigos a pedido do governo. Até pouco tempo essa razão

religiosa foi respeitada pelo governo, e aqueles que a invocaram eram liberados do serviço

militar. Mas, no início da Guerra de Secessão, a opinião pública indignou-se com essa situação. É

natural que os cidadãos que, para a defesa de sua pátria, consideravam um dever submeter-se às

durezas e aos perigos da vida militar, tenham visto com desprezo aqueles que, evitando essas

obrigações, usufruíam há muito, em igualdade de condições, da proteção e das vantagens do

Estado que se recusavam a defender no momento de perigo. E é também natural que

considerassem a atitude desses homens como algo monstruoso, irracional e inexplicável.

Inúmeros oradores e escritores rebelaram-se contra a doutrina da não resistência e tentaram

provar sua falsidade, fosse por meio de raciocínio, fosse por meio da Sagrada Escritura. Há uma

lógica, e em muitos casos esses escritores têm razão, quando se trata daquelas pessoas que,

recusando-se às durezas do serviço militar, não recusam as vantagens do serviço social; mas eles

não têm razão quando se trata do próprio princípio da não resistência.

Antes de tudo, o autor estabelece para os cristãos o dever da não resistência pelo fato de que o mandamento é, nitidamente e sem equívoco possível, expresso por Cristo: “Julgai vós mesmos se é justo obedecer ao homem em vez de Deus”, como reportaram Pedro e João. Portanto, todo homem que quer ser cristão tem apenas uma conduta a manter, a recusa, quando desejarem mandá-lo à guerra, pois Cristo disse: “Não resistais ao mal por meio da violência.”

Eis por que o autor considera a questão, a princípio, resolvida. Quanto à outra questão, relativa às pessoas que, não recusando as vantagens a elas dadas por um governo baseado na violência, ainda assim se recusam ao serviço militar, o autor a estuda em detalhes e chega à conclusão de que, caso o cristão que segue as leis de Cristo se recuse a ir à guerra, não pode tomar parte alguma na administração governamental, no Poder Judiciário ou no poder eletivo. Não pode sequer recorrer à autoridade, à polícia ou à justiça para regularizar seus problemas pessoais.

Mais adiante o autor examina as relações existentes entre o Antigo e o Novo Testamentos e mostra o que significa o Estado para os não cristãos. Expõe as objeções feitas à doutrina da não resistência e as rebate; enfim, assim conclui: “Os cristãos não precisam do governo e, portanto, não são obrigados a obedecer-lhe e, menos ainda, a participar dele.”

Cristo escolheu, fora do mundo, seus discípulos: eles não almejam as satisfações e a felicidade terrenas; almejam, sim, a vida eterna. O espírito no qual vivem os torna satisfeitos e felizes em qualquer condição. Se o mundo lhes é tolerante, estão contentes; se não são deixados em paz, vão-se para outros países, porque são peregrinos na Terra e não se fixam em lugar algum. Acreditam que cabe aos mortos “enterrar seus mortos”; no que lhes diz respeito, nada devem fazer senão “seguir seu mestre”.

Sem examinar se a definição do dever do cristão em relação à guerra é ou não justa, definição estabelecida nos dois livros, não se pode negar a possibilidade prática nem a urgência de uma solução para esse problema.

Centenas de milhares de homens, os quakers, os menonitas, os nossos dukhobors, molokanes e uma quantidade de pessoas que não pertencem a qualquer seita definida, consideram a violência, e, por conseguinte, o serviço militar como inconciliáveis com o cristianismo. Eis por que a cada ano, entre nós, na Rússia, alguns recrutados recusam o serviço militar, fundamentando-se em sua convicção religiosa. E o que faz o governo? Libera-os? Obriga-os a marchar e os pune, em caso de recusa? Não.

Em 1818, o governo assim regulamentou. Eis um extrato de jornal, que quase ninguém conhece na Rússia, de Nicolau Nicolaiewic Muraviev-Karsky, suprimido pela censura:

Tíflis, 2 de outubro de 1818

Hoje, pela manhã, o comandante disse-me que foram mandados recentemente para a

Geórgia cinco camponeses da comarca de Tambov. Esses homens foram recrutados pelo

Exército, mas se recusam a se submeter ao serviço militar. Foram já muitas vezes punidos com o

knut2 e com o bastão; mas abandonaram sem resistência seus corpos às mais cruéis torturas e à

morte, para não serem soldados. “Deixai-nos ir”, disseram, “não nos façais mal e não o faremos a

ninguém. Todos os homens são iguais e o czar é um homem como nós. Por que lhe pagaremos

impostos? Por que iremos expor nossas vidas na guerra para matar homens que não nos fizeram

mal algum? Podereis cortar-nos em pedaços, mas não mudareis nossas ideias. Não vestiremos a

farda e não comeremos na gamela. Aquele que tiver piedade de nós, dará esmola; nada temos

que pertença ao czar e dele nada queremos ter.” Eis o que dizem esses mujiques. Garantem que

na Rússia muitos pensam da mesma forma. Foram conduzidos quatro vezes à frente do conselho

de ministros, e finalmente decidiu-se submeter a questão ao soberano, que determinou, como

medida de punição, mandá-los para a Geórgia, ordenando ao general-comandante que lhe

fizesse um relatório mensal sobre os progressos da conversão deles a ideias mais sadias.

Se conseguiu submetê-los? Não se sabe; e é também desconhecido o próprio fato, a respeito do qual foi mantido o mais profundo segredo.

Assim agia o governo há 75 anos; assim continuou a agir na maior parte dos casos, cuidadosamente

ocultados do povo; assim age ainda hoje,3 exceto para com os alemães menonitas que vivem na comarca de Kherson, cuja recusa ao serviço militar é respeitada, e dessa maneira servem somente no corpo da guarda florestal.

Porém, nos mais recentes casos de recusa ao serviço militar fundamentada em convicções religiosas, por homens que não pertencem à seita dos menonitas, as autoridades regulamentam da maneira como explicarei em seguida.

Antes de tudo, adotam-se todas as medidas coercitivas que hoje são usadas para “corrigir” o recalcitrante e convertê-lo às ideias “sadias”, e é mantida secreta qualquer instrução referente a tal espécie de assunto. No que concerne a um desses refratários, sei que em 1884, em Moscou, dois meses após sua recusa, o caso havia se transformado em volumoso dossiê, conservado no mais profundo segredo nos arquivos do ministério.

Começa-se, geralmente, por mandar o recalcitrante aos padres, que para sua vergonha procuram sempre induzi-lo à submissão. Mas essa exortação, em nome de Cristo, a renegar Cristo, permanece, na maior parte das vezes, sem efeito.

Então, entregam-no aos guardas. Estes, em geral, não encontrando em seu caso qualquer razão política, mandam-no embora. Então são os doutores, os médicos, que dele se ocupam e os mantêm em observação num manicômio.

Em todo esse ir e vir, o infeliz, privado de liberdade, sofre todo tipo de humilhação e sofrimento, como um delinquente condenado (o fato repetiu-se quatro vezes). Quando os médicos o deixam sair do manicômio, começa uma longa série de manobras ocultas e pérfidas que visam impedi-lo de partir, a fim de que não leve o mau exemplo aos que pensam como ele. Evita-se, também, deixá-lo entre os soldados, porque estes poderiam aprender com ele que sua convocação para o Exército está longe de ser o cumprimento das leis de Deus, como são levados a crer.

O mais cômodo, para o governo, seria simplesmente cortar a cabeça do refratário, surrá-lo até a morte ou suprimi-lo de qualquer outro modo, como outrora se fazia. Desgraçadamente, é impossível condenar à morte abertamente um homem pelo motivo de ser ele fiel à doutrina que nós próprios professamos. Por outro lado, é da mesma forma impossível deixar em paz um homem que se recusa a obedecer. Então, o governo esforça-se para obrigar, pelo sofrimento, esse homem a renegar Cristo, ou suprime-o secretamente por um meio qualquer, de forma que ninguém conheça seu suplício ou seu exemplo. Todo tipo de astúcia foi adotado para submeter os refratários a todos os tipos de tortura: deportação para algum país distante; processo por indisciplina; prisão; incorporação aos batalhões de punição, onde se pudesse torturá-lo livremente; ou a rotulação de “loucos” e internação num manicômio. Assim, um foi deportado para Tashkent, com o pretexto de mandá-lo para o exército de Tashkent; um outro foi mandado para Omsk; um terceiro foi julgado por rebelião e encarcerado; um quarto, enfim, foi trancado num manicômio.