O Reino de Deus Está em Vós
Abertura
O reino de Deus
está em vós
ou
O cristianismo apresentado
não como uma doutrina
mística mas como
uma moral nova
1
A doutrina da não resistência ao mal por meio da violência tem
sido ensinada pela minoria dos homens desde a origem do
cristianismo
Os primeiros comentários provocados por meu livro foram-me endereçados por quakers americanos. Dando-me ciência de sua absoluta concordância de pontos de vista quanto à ilegitimidade, para o cristão, de qualquer guerra e de qualquer violência, os quakers me comunicaram detalhes interessantes sobre sua seita que há mais de duzentos anos pratica a doutrina de Cristo de não resistência ao mal por meio da violência. Simultaneamente, enviavam-me seus jornais, folhetos e livros que tratavam dessa questão, para eles indiscutível desde há muito, e demonstravam o erro da doutrina da Igreja ao admitir as penas capitais e a guerra.
Após provarem, com uma longa série de argumentos fundamentados em experiências, que a religião, edificada sobre a concórdia e o amor ao próximo, não poderia admitir a guerra, isto é, a mutilação e o homicídio, os quakers afirmam que nada contribui tanto para obscurecer a verdade do Cristo e impedi-la de se difundir no mundo quanto o não reconhecimento desse princípio por parte dos homens que se dizem cristãos. E mais:
A doutrina de Cristo que penetrou na consciência dos homens não por meio da espada ou da
violência mas pela não resistência ao mal, pela resignação, pela humildade e pelo amor, só pode
ser difundida no mundo por meio do exemplo da concórdia e da paz entre seus seguidores.
O cristão, conforme os ensinamentos do próprio Deus, não pode ser guiado, em suas relações
com o próximo, senão pelo amor. Assim, não pode existir autoridade alguma capaz de
constrangê-lo a agir contrariamente aos ensinamentos de Deus e ao próprio espírito do
cristianismo.
A regra da necessidade do Estado não pode obrigar à traição da lei de Deus, exceto para
aqueles que, por interesse da vida material, procuram conciliar o inconciliável. Mas para o cristão
que crê firmemente que a salvação reside na prática da doutrina de Cristo, essa necessidade não
pode ter qualquer importância.
A história dos quakers e o estudo de suas obras – dos trabalhos de Fox e Penn e, sobretudo, dos livros de Dymond (1827) – demonstraram-me não apenas que a impossibilidade de conciliar o cristianismo com a guerra e a violência foi reconhecida desde há muito, mas também que é tão nítida e indiscutivelmente provada, a ponto de não se poder compreender essa união impossível entre a doutrina de Cristo e o uso da força, que foi e continua a ser pregada pelas Igrejas.
Além das informações recebidas dos quakers, obtive, na mesma época, e também vindos dos Estados Unidos, pormenores de uma fonte, para mim absolutamente desconhecida, a respeito do mesmo assunto. O filho de William Lloyd Garrison, o famoso defensor da liberdade dos negros, escreveu-me afirmando que encontrara, em meu livro, as ideias expressas por seu pai em 1838 e, supondo que me interessaria constatá-lo, enviou-me o texto de uma declaração ou manifesto de “não resistência”, escrita por seu pai havia cerca de cinquenta anos.
Essa declaração originou-se das seguintes circunstâncias: William Lloyd Garrison, ao tomar parte numa discussão sobre os meios de fazer cessar a guerra na Sociedade para o Estabelecimento da Paz entre os Homens, que existia nos Estados Unidos em 1838, chega à conclusão de que a paz universal não se pode erigir senão sobre o reconhecimento público do mandamento da não resistência ao mal por meio da violência (Mt 5,39) em toda sua amplitude, como o praticam os quakers com os quais Garrison mantinha relações de amizade. Chegando a essa conclusão, ele redige e propõe a essa associação a declaração a seguir, que foi subscrita por vários de seus membros:
Declaração de princípios adotados pela Convenção da Paz
Boston, 1838
Nós, abaixo-assinados, acreditamos ter o dever, para conosco e para com a causa tão cara a
nossos corações, para com o país em que vivemos e para com o mundo inteiro, de proclamar a
nossa fé, expressando os princípios que professamos, a finalidade por nós buscada e os meios que
temos intenção de usar para chegar a uma revolução benéfica, pacífica e geral.
Eis os nossos princípios:
Não reconhecemos qualquer governo humano. Não reconhecemos senão um só rei e
legislador, um juiz e líder da humanidade. Nossa pátria é o mundo inteiro; nossos compatriotas
são todos os homens. Amamos todos os países como nosso próprio país, e os direitos de nossos
compatriotas não nos são mais caros do que os de toda a humanidade. Por isso, não admitimos
que o sentimento de patriotismo possa justificar a vingança de uma ofensa ou de um mal feito ao
nosso país.
Entendemos que o povo não tem o direito de se defender dos inimigos externos, nem de
atacá-los. Concebemos, ainda, que os indivíduos isolados não possuem esse direito em suas
relações recíprocas, não podendo a unidade ter direitos maiores do que os da coletividade. Se o
governo não deve se opor aos conquistadores estrangeiros que visam a ruína de nossa pátria e a
destruição de nossos concidadãos, da mesma forma não pode opor a violência aos indivíduos
que ameaçam a tranquilidade e a segurança pública.
O dogma ensinado pelas Igrejas, de que todos os países da Terra são criados e aprovados por
Deus, e de que as autoridades, que existem nos Estados Unidos, na Rússia, na Turquia etc.
emanam de Sua vontade, não é apenas estúpido, como também blasfematório. Esse representa
nosso Criador como um ser parcial, que estabelece e encoraja o mal. Ninguém pode afirmar que
as autoridades existentes, em qualquer país que seja, ajam com seus inimigos segundo a doutrina
e o exemplo de Cristo. Nem mesmo seus atos podem ser agradáveis a Deus. Não podem,
portanto, ter sido estabelecidos por Ele, e devem ser derrubados, não pela força, mas pela
regeneração moral dos homens.
Reconhecemos como anticristãs e ilegais todas as guerras – ofensivas ou defensivas – e,
também, as organizações para a guerra, quaisquer que sejam: arsenais, fortalezas, navios de
guerra, exercícios permanentes, monumentos comemorativos de vitórias, troféus, solenidades de
guerra, conquistas através da força, enfim, reprovamos igualmente como anticristã qualquer lei
que nos obrigue ao serviço militar.
Em consequência, consideramos impossível para nós não apenas qualquer serviço ativo no
Exército, mas também qualquer função que nos dê a missão de manter os homens no bem por
meio da ameaça de prisão ou da condenação à morte. Excluímo-nos, então, de todas as
instituições governamentais, repelimos qualquer política e recusamos todas as honrarias e todos
os cargos de autoridade.
Não nos reconhecendo o direito de exercer funções nas instituições governamentais,
recusamos também o direito de eleger para esses cargos outras pessoas. Consideramos que não
temos o direito de recorrer à justiça para nos fazer ser restituído o que nos foi tirado e
acreditamos que, em vez de fazer uso da violência, estamos obrigados a “deixar também o manto
àquele que nos roubou a veste”. (Mt 5,40)
Preconizamos que a lei criminal do Antigo Testamento – olho por olho, dente por dente – foi
anulada por Jesus Cristo e que, segundo o Novo Testamento, todos os fiéis devem perdoar seus
inimigos, em todos os casos, sem exceção, e não se vingar. Extorquir dinheiro à força, prender,
mandar para a cadeia ou condenar à morte não se constitui, evidentemente, em perdão, e sim
em vingança.
A história da humanidade está cheia de provas de que a violência física não contribui para o
reerguimento moral e de que as más inclinações do homem somente podem ser corrigidas por
meio do amor; de que o mal não pode desaparecer senão por meio do bem; de que não se deve
contar com a força do próprio braço para se defender do mal; de que a verdadeira força do
homem está na bondade, na paciência e na caridade; de que só os pacíficos herdarão a Terra e
de que aqueles que com a espada ferirem pela espada perecerão.
Por isso, tanto para garantir com mais segurança a vida, a propriedade, a liberdade e a
felicidade dos homens, quanto para seguir a vontade Daquele que é o Rei dos reis e o Senhor
dos senhores, aceitamos de todo o coração o princípio fundamental da não resistência ao mal por
meio do mal, porque acreditamos firmemente que esse princípio, que atende a todas as
circunstâncias possíveis da nossa existência e, ao mesmo tempo, exprime a vontade de Deus,
deve finalmente triunfar.
Não pregamos uma doutrina revolucionária. O espírito da doutrina revolucionária é um
espírito de vingança, de violência e de morte, sem temor a Deus e sem respeito à personalidade
humana, e não queremos nos deixar penetrar senão pelo espírito do Cristo. Nosso princípio
fundamental de não resistência ao mal por meio do mal não nos permite participar de
insurreições, nem de rebeliões, nem de atos de violência. Submetemo-nos a todas as regras e a
todas as exigências do governo, exceto àquelas que sejam contrárias aos mandamentos do
Evangelho. Não resistiremos de outra forma a não ser submetendo-nos passivamente às punições
que poderão ser infligidas devido à nossa doutrina.
Suportaremos todas as agressões sem deixar de, por nosso lado, combater o mal onde quer
que o encontremos, no alto ou no baixo, no terreno político, administrativo ou religioso, e
procuraremos atingir, servindo-nos de todos os meios possíveis, a fusão de todos os reinos
terrestres num só reino de Nosso Senhor Jesus Cristo. Consideramos como verdade indiscutível
que tudo aquilo que seja contrário ao Evangelho deve ser definitivamente destruído.
Acreditamos, como o profeta, que virá um tempo em que as espadas serão transformadas em
relhas e as lanças, em foices, e que devemos trabalhar sem demora, na medida de nossas forças,
para a concretização dessa profecia. Em consequência, aqueles que fabricam, vendem ou se
servem de armas contribuem para os preparativos da guerra e se opõem, pela mesma razão, ao
poder pacífico do Filho de Deus na Terra.
Após a exposição de nossos princípios, especificaremos, agora, as medidas que propomos para
alcançar nosso objetivo.
Esperamos vencer “por meio da loucura da pregação”. Procuraremos difundir nossas ideias
entre todos os homens, de qualquer nação, religião ou classe social. Para tanto, organizaremos
palestras públicas, difundiremos programas e opúsculos, constituiremos sociedades e enviaremos
petições a todas as autoridades públicas.
Em suma, nos empenharemos, com todos os meios de que dispusermos, para produzir uma
revolução radical nas opiniões, nos sentimentos e nos costumes da nossa sociedade, em tudo o
que concerne à ilegitimidade do uso da violência contra os inimigos internos ou externos.
Empreendendo essa grande obra, compreendemos perfeitamente que nossa sinceridade talvez
nos prepare cruéis provações.
Nossa missão pode nos expor a muitos ultrajes e a muitos sofrimentos, e também à morte.
Seremos incompreendidos, ridicularizados e caluniados. Uma tempestade se erguerá contra nós.
O orgulho e a hipocrisia, a ambição e a crueldade, os chefes de Estado e os poderosos, tudo pode
se voltar contra nós. Não foi de outro modo tratado o Messias a quem procuramos imitar, na
medida de nossas forças. Mas tudo isso não nos amedronta. Não colocamos nossa esperança nos
homens, mas no Nosso Senhor Onipotente. Se recusamos qualquer proteção humana, é porque
nos sustentamos apenas em nossa fé, mais poderosa do que tudo. Não nos maravilharemos com
as provações e ficaremos felizes por haver merecido compartilhar dos sofrimentos de Cristo.
Assim, então, entregamos nossas armas a Deus, confiantes em Sua palavra de que aquele que
abandonar campos e casas, irmão e irmã, pai e mãe, mulher e filhos, para seguir Cristo, receberá
cem vezes mais e herdará a vida eterna.
Acreditando firmemente, apesar de tudo o que poderia cair sobre nós, no indubitável
triunfo, em todo o mundo, dos princípios expostos nesta declaração, aqui pomos nossas
assinaturas, confiando no bom-senso e na consciência dos homens, mas, ainda mais, no poder
divino, ao qual nos reportamos.
Posteriormente a esta declaração, Garrison fundou a Sociedade da Não Resistência e uma revista intitulada Não Resistente, na qual expunha a própria doutrina em toda sua importância e com todas as suas consequências, tal como formulada em sua declaração. Informações quanto ao destino dessa sociedade e da revista me foram fornecidas pela excelente biografia de W. L. Garrison, em quatro volumes, escrita por seu filho.
Nem a sociedade nem a revista tiveram grande duração. A maior parte dos colaboradores de Garrison no trabalho de libertação dos negros desistiu de prosseguir nessa campanha, receando indispor os adeptos da mesma com os princípios radicais da revista; assim, sociedade e revista não tardaram a desaparecer.
Seria possível crer que a profissão de fé de Garrison, de tão grande eloquência, tivesse impressionado fortemente o público e, tornando-se conhecida no mundo inteiro, fosse objeto de um profundo exame. Nada de parecido aconteceu. Ela não só é desconhecida na Europa, mas também praticamente ignorada pelos norte-americanos que, entretanto, professam um culto profundo à memória de Garrison.
A mesma indiferença estaria reservada a outro defensor do princípio da não resistência ao mal por meio da violência, o norte-americano Adin Ballou, morto recentemente e que durante cinquenta anos lutou por essa doutrina.
Para demonstrar o quanto tudo o que se refere a essa questão é ignorado, citarei o filho de Garrison. À minha pergunta relativa à existência de sociedades de não resistência ou adeptos dessa doutrina, respondeu-me que tal sociedade se havia dissolvido e que não mais existia partidário algum da doutrina, até onde ele sabia. Ora, no momento em que me escrevia, vivia ainda em Hopedale, Massachusetts, Adin Ballou, que havia colaborado com a obra de Garrison e dedicado cinquenta anos de sua vida à propaganda falada e escrita da doutrina da não resistência.
Mais tarde recebi uma carta de Wilson, discípulo e colaborador de Ballou, e entrei em contato com o próprio Ballou. Escrevi; respondeu-me e enviou-me suas obras. Eis um trecho:
Jesus Cristo é meu Senhor e meu patrão [disse Ballou em um de seus estudos que demonstra
a inconsequência dos cristãos que admitem o direito de defesa e da guerra].
Prometi abandonar tudo e a Ele seguir até à morte, na alegria ou na dor. Mas sou cidadão da
República Democrática dos Estados Unidos, à qual prometi ser fiel e sacrificar minha vida, se for
o caso, pela defesa de sua Constituição. O Cristo me ordena que faça aos outros aquilo que
desejo que seja feito a mim mesmo. A Constituição dos Estados Unidos exige de mim que faça a
dois milhões de escravos [na época havia escravos, hoje pode-se francamente trocar essa palavra
por “operários”] exatamente o contrário do que eu gostaria que fosse feito comigo mesmo, isto é,
ajudar a mantê-los na escravidão. E, apesar disso, continuo a eleger ou a ser elegível, ajudo a
gerir os negócios do Estado, estou também inteiramente pronto para aceitar qualquer cargo
governamental. E isso não me impede de ser cristão! Continuo a praticar a minha religião, não
encontro a menor dificuldade de cumprir, ao mesmo tempo, meus deveres para com Cristo e
com o Estado!
Jesus Cristo me proíbe de resistir àqueles que cometem o mal e arrancar-lhes olho por olho,
dente por dente, sangue por sangue, vida por vida.
Meu governo exige de mim exatamente o contrário e constrói sua defesa contra os inimigos
internos e externos sobre o patíbulo, sobre o fuzil e sobre a espada, e o país é amplamente
provido de forças, arsenais, navios de guerra e soldados.
Não existe meio de destruição que pareça excessivamente caro! E achamos muito fácil
praticar o perdão das ofensas, amar nossos inimigos, abençoar aqueles que nos amaldiçoam e
fazer o bem àqueles que nos odeiam!
Temos, para isso, um clero permanente que reza por nós e invoca as bênçãos de Deus sobre
nossas santas carnificinas.
Vejo perfeitamente tudo isso (a contradição entre a doutrina e os atos) e continuo a praticar
a minha religião e a servir o país, e me glorifico por ser, ao mesmo tempo, um cristão e um servo
devoto e fiel do governo. Não quero admitir esse louco conceito de não resistência ao mal, não
posso renunciar à minha parcela de influência e abandonar o poder apenas aos homens imorais.
A Constituição diz que o governo tem o direito de declarar a guerra, e eu consinto, e o apoio, e
nem por isso deixo de ser cristão!
Também a guerra é um dever cristão! Não será, talvez, praticar um ato cristão matar centenas
de milhares dos próprios semelhantes, violentar mulheres, destruir e incendiar cidades e cometer
toda espécie de crueldade?
É tempo de abandonar todo esse sentimentalismo pueril! Eis o verdadeiro meio de perdoar
as ofensas e amar os nossos inimigos. Porque, sendo feitos em nome do amor, nada é mais
cristão do que esses massacres.
Em outro opúsculo, intitulado Quantos homens são necessários para transformar um crime num ato justo, afirma:
Um homem sozinho não deve matar: se ele matou, é um réu, um homicida. Dois, dez, cem
homens, se matarem, serão também homicidas. Mas o Estado ou o povo podem matar, quanto
queiram, e seu ato não será um homicídio, e sim uma ação gloriosa. Trata-se somente de reunir
o maior número possível de pessoas e a matança de dezenas de homens se transforma numa
ocupação inocente. E quantos homens são necessários para isso? Eis a questão. Um indivíduo
não pode roubar e saquear, mas um povo inteiro pode.
Por que um, dez, cem homens não devem infringir as leis de Deus, enquanto uma grande
quantidade pode?
Eis, agora, o catecismo de Ballou, composto para seus fiéis:
CATECISMO DA NÃO RESISTÊNCIA1
Pergunta – De onde foi tirada a expressão “não resistência”?
Resposta – Da frase: “Não resistais ao mal”. (Mt 5,39)
P – O que exprime essa sentença?
R – Exprime uma alta virtude cristã ensinada por Cristo. P – Devemos aceitar a expressão “não resistência” em seu sentido mais amplo, ou seja, que
ela significa que não devemos opor qualquer resistência ao mal?
R – Não. Ela deve ser compreendida no sentido exato do mandamento de Cristo, isto é, não
pagar o mal com o mal. É preciso resistir ao mal com todos os meios justos, mas não por meio do
mal.
P – De onde se deduz que o Cristo tenha ordenado a não resistência nesse sentido? R – Das palavras que ele pronunciou a esse respeito: “Ouvistes o que foi dito: Olho por olho
e dente por dente. E eu vos digo: Não te oporás ao malvado; assim, se alguém te bate na face
direita, oferece-lhe a esquerda. E se alguém quer brigar contigo, e tirar-te o manto, deixa-lhe
também a veste.”
P – De que fala o Cristo ao dizer: “Ouvistes o que foi dito?” R – Dos patriarcas e dos profetas e do que eles disseram e que está escrito no Antigo
Testamento que os israelitas chamam geralmente de a Lei e os Profetas.
P – A que mandamento o Cristo faz alusão com as palavras “Vos foi dito”? R – Ao mandamento com o qual Noé, Moisés e outros profetas dão o direito de fazer um mal
pessoal àqueles que vos fizeram mal para punir e para suprimir as más ações.
P – Cite esses mandamentos.
R – “Quem versa o sangue do homem, pelo homem terá seu sangue versado.” (Gn 9,6) “Quem ferir a outro e causar sua morte, será morto. Mas se houver dano grave, então darás
vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por
queimadura, ferimento por ferimento, golpe por golpe.” (Ex 21,12.23.24.25).
“Se um homem golpear um ser humano, quem quer que seja, deverá morrer. Se um homem
ferir o próximo, desfigurando-o, como ele fez, assim se lhe fará. Fratura por fratura, olho por
olho, dente por dente.” (Lv 24,17.19.20)
“Juízes investigarão cuidadosamente. Se a testemunha for uma testemunha falsa, e tiver
caluniado seu irmão, então, vós a tratareis conforme ela própria maquinava tratar seu próximo.
Que teu olho não tenha piedade; vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão,
pé por pé.” (Dt 19, 18.19 e 21)
“Eis os mandamentos de que fala Jesus.
“Noé, Moisés e os profetas ensinam que aquele que mata, mutila ou martiriza seu
semelhante, pratica o mal.
“Para se opor a esse mal e para suprimi-lo querem que aquele que o praticou seja punido
com a morte, com a mutilação ou com qualquer outro castigo. Querem pagar ofensa com ofensa,
homicídio com homicídio, sofrimento com sofrimento, o mal com o mal. Mas Cristo desaprova
tudo isso. ‘Eu vos digo: não vos oponhais ao mal, não pagueis ofensa com ofensa, nem mesmo se
deveis suportá-la novamente’, escreve ele no Evangelho. O que era lícito, está proibido. Tendo
compreendido qual gênero de resistência ensinavam Noé, Moisés e os profetas, sabemos
igualmente o que significa não resistência ensinada por Cristo.”
P – Então, os antigos admitiam a resistência à ofensa com a ofensa? R – Sim, mas Jesus a proibiu. O cristão não tem, em caso algum, o direito de tirar a vida ou
de atingir com um castigo aquele que lhe fez mal.
P – Pode ele matar ou ferir para se defender?
R – Não.
P – Pode ele levar acusações diante dos tribunais para obter a punição do ofensor? R – Não, porque o que ele faz por intermédio dos outros é o que realmente faz. P – Pode ele combater um exército contra os inimigos de fora ou contra os rebeldes internos? R – Não, é claro. Ele não pode tomar qualquer parte na guerra, nem mesmo na organização
da guerra. Não pode usar armas mortais, não pode resistir à ofensa com a ofensa, seja sozinho ou
unido a outros, aja por si ou por intermédio dos outros.
P – Pode ele, voluntariamente, reunir e armar soldados para o serviço do Estado? R – Ele não pode fazer nada disso, se quiser ser fiel às leis do Cristo. P – Pode ele, com benevolência, dar dinheiro ao governo que é sustentado pelas Forças
Armadas, pela pena de morte e pela violência?
R – Não, a menos que esse dinheiro se destine a um objetivo em especial, justo por si mesmo
e cujos fins e meios sejam bons.
P – Pode ele pagar impostos a tal governo?
R – Não, ele não deve voluntariamente pagar impostos; mas não deve resistir ao
recolhimento de impostos. O imposto decretado pelo governo é recolhido independentemente
da vontade de contribuintes. O homem não pode escapar dele sem recorrer à violência, e o
cristão, não podendo usar de violência, deve oferecer a sua propriedade às arrecadações do
poder.
P – Pode um cristão ser eleitor, juiz ou agente do governo? R – Não, a participação nas eleições, na justiça, na administração, nos faz participar da
violência governamental.
P – Qual a principal virtude da doutrina da não resistência? R – A possibilidade de cortar o mal pela raiz em nosso próprio coração, assim como no de
nossos semelhantes. Essa doutrina reprova o que perpetua e multiplica o mal no mundo. Aquele
que ataca seu próximo, ou que o ofende, provoca sentimentos de ódio, origem de todo o mal.
Ofender o próximo porque ele nos ofendeu, com o propósito de repelir o mal, é reprovar uma
má ação, é despertar ou pelo menos liberar, encorajar o demônio que pretendemos repelir.
Satanás não pode ser expulso por Satanás, a mentira não pode ser purificada pela mentira e o
mal não pode ser vencido pelo mal.
“A verdadeira não resistência é a única resistência ao mal. Ela degola o dragão. Destrói e faz
desaparecer por completo os maus sentimentos.”
P – Mas se a ideia da doutrina é justa, ela é, afinal, exequível? R – Tão exequível como todo bem ordenado pela Sagrada Escritura. O bem, para ser feito em
qualquer circunstância, exige renúncia, privações, sofrimentos e, em casos extremos, o sacrifício
da própria vida. Mas aquele que preza mais sua vida do que o cumprimento da vontade de Deus
já está morto para a única vida verdadeira. Tal homem, querendo salvar sua vida, a perderá.
Ademais, em geral, onde a não resistência requer o sacrifício de uma só vida ou de alguma
felicidade essencial à vida, a resistência requer milhares de sacrifícios semelhantes.
A não resistência conserva, a resistência, destrói. É muito menos perigoso agir com igualdade do que com injustiça, suportar a ofensa do que
resistir a ela com violência. Em nossa vida atual, isso é também mais seguro. Se todos os homens
se abstivessem de resistir ao mal com o mal, a felicidade reinaria sobre a Terra.
P – Mas, se somente alguns agissem desse modo, o que seria deles? R – Ainda que um só homem agisse assim e que todos os outros concordassem em crucificá-
lo, não seria mais glorioso para ele morrer pelo triunfo do amor do que viver e carregar a coroa
dos Césares encharcada com o sangue dos imolados? Mas, fosse um só homem ou fossem mil
homens a ter decidido não resistir ao mal com o mal, estivesse ele entre os bárbaros ou entre os
selvagens, estaria muito mais livre da violência do que com aqueles que se apoiam na violência.
O bandido, o assassino, o ladino o deixariam em paz, dando preferência aos que resistem com
armas.
“Aquele que golpeia com a espada perecerá pela espada, enquanto aqueles que buscam a paz,
que vivem fraternalmente, que perdoam e esquecem as ofensas, desfrutam, habitualmente, de
paz durante a vida e são abençoados após a morte.
“Se, então, todos os homens observassem o mandamento da não resistência, não haveria
mais ofensa, nem delito. Se, ainda que por pouco, eles fossem a maioria, estabeleceriam logo o
poder do amor e da benevolência também sobre os ofensores, sem nunca usar de violência. Se
fossem apenas uma minoria importante, sempre exercitariam uma ação moralizadora e
regeneradora sobre a humanidade que todos os castigos cruéis seriam anulados; a violência e o
ódio cederiam lugar à paz e ao amor. E ainda que não fossem senão uma pequena minoria,
raramente teriam que sofrer algo pior do que o desprezo do mundo, e, entretanto, o mundo,
sem se aperceber e sem agradecimentos, tornaria-se progressivamente melhor e mais sábio, a
partir da influência dessa pequena minoria oculta. Mesmo admitindo que alguns membros dessa
minoria fossem perseguidos até a morte, essas vítimas da verdade deixariam atrás de si a sua
doutrina já consagrada pelo sangue do martírio.
“A paz esteja com aqueles que procuram a paz, e que o amor vencedor permaneça a herança
imorredoura de todas as almas que se submetem livremente à lei de Cristo: ‘Não resistais ao
mal.’
ADIN BALLOU
Durante cinquenta anos Ballou escreveu e publicou livros que se referiam, sobretudo, à não resistência. Nessas obras, notáveis pela lucidez de pensamento e pela beleza do estilo, a questão é examinada sob todos os ângulos possíveis. Ele faz da observância desse mandamento um dever para todo cristão que crê na Bíblia como em uma revelação divina. Passa em revista todas as objeções... tanto as tratadas no Antigo e no Novo Testamentos – como, por exemplo, a expulsão dos mercadores do Templo – quanto as independentes da Escritura, e as refuta vitoriosamente, mostrando o sentido prático da não resistência. Assim, um capítulo inteiro de sua obra é dedicado ao exame de casos especiais. Reconhece que só um caso, no qual a não resistência não pudesse ser admitida, bastaria para provar a falsidade dessa regra. Mas, examinando essas ocasiões excepcionais, demonstra que exatamente então é útil e sábio conformar-se a esse preceito. Digo tudo isso para melhor evidenciar o interesse que têm esses trabalhos para os cristãos. Pareceria que devessem conhecer a missão de Ballou e ter admitido ou refutado os princípios. Mas não é assim.
Mais ainda do que meu relacionamento com os quakers, a obra de Garrison, a sociedade da não resistência por ele fundada e sua declaração provaram-me que desde há muito foi constatada a derrogação do cristianismo do Estado à lei de Cristo sobre a questão de não se opor ao mal por meio da violência e que muitas pessoas trabalharam e trabalham ainda para demonstrar essa evidência. Ballou confirmou-me esta opinião. Mas o destino de Garrison e sobretudo o destino de Ballou, desconhecido por todos, apesar dos cinquenta anos de trabalho obstinado e incessante, convenceram-me de que existe uma espécie de conspiração do silêncio, tácita, mas formal, contra todas essas tentativas.
Ballou morreu em agosto de 1890, e um jornal norte-americano, que traz um título cristão (Religio-philosophical Journal – edição de 23 de agosto), dedicou-lhe um obituário. Nessa oração fúnebre laudatória foi dito que Ballou era o chefe espiritual da comunidade, que pronunciou de oito a nove mil sermões, uniu em matrimônio mil casais e escreveu cerca de quinhentos artigos e estudos, mas nem uma só palavra foi pronunciada a respeito da missão à qual dedicou sua vida. Nem a expressão “não resistência” foi mencionada.
Como tudo o que pregam os quakers há duzentos anos, como a obra de Garrison, sua declaração, a fundação de sua sociedade e de sua revista, fica parecendo que também os trabalhos de Ballou nunca existiram.
Como exemplo admirável dessa ignorância das obras que visam explicar a não resistência e confundir aqueles que não reconhecem esse mandamento, pode-se citar o destino do livro do tcheco Kheltchitsky, que só recentemente foi conhecido e ainda não publicado.
Pouco depois da publicação da tradução alemã de meu livro, recebi uma carta de um professor da Universidade de Praga, que me informava sobre a existência de uma obra inédita do tcheco Kheltchitsky, do século XV, intitulada A rede da fé. Nessa obra, dizia-me o professor, Kheltchitsky expressou, há quatro séculos, a propósito do cristianismo verdadeiro ou falso, ideias semelhantes às de meu livro Minha religião. Acrescentava meu correspondente que a obra de Kheltchitsky estava prestes a ser publicada pela primeira vez, em língua tcheca, em uma publicação da Academia do Silêncio de Pittsburg. Não conseguindo obter essa obra, procurei tudo o que era conhecido a respeito de Kheltchitsky e recolhi algumas informações em um livro alemão, que me foi aconselhado pelo mesmo professor de Praga, a História da literatura tcheca, de Pypine. Eis o que diz este último:
A rede da fé é a doutrina do Cristo que deve tirar o homem das obscuras profundezas do
oceano da vida e de suas mentiras. A verdadeira fé está na crença das palavras de Deus, mas
houve um tempo em que os homens consideravam a verdadeira fé uma heresia. É por esse
motivo que a razão deve demonstrar em que consiste a verdade, se alguém a ignora. A noite a
ocultou dos homens. Estes não mais reconhecem a verdadeira lei do Cristo.
Para explicar essa lei, Kheltchitsky lembra a organização primitiva da sociedade cristã,
organização que hoje seria, diz ele, considerada pela Igreja Romana como uma terrível heresia.
Essa Igreja primitiva foi o ideal da organização social baseada na liberdade, na igualdade e na
fraternidade, que são até hoje, segundo Kheltchitsky, os fundamentos do cristianismo. Se a
sociedade voltasse à sua doutrina pura, a existência dos reis e dos papas se tornaria inútil: a lei
única do amor bastaria para a ordem social.
Historicamente, Kheltchitsky localiza o início da decadência do cristianismo no tempo de
Constantino Magno, a quem o papa Silvestre induziu a abraçar o cristianismo sem obrigá-lo a
renunciar aos princípios e costumes pagãos. Constantino, por sua vez, deu ao papa a riqueza e o
poder temporal. Desde aquele tempo os dois poderes reuniram seus esforços e visaram somente
o desenvolvimento de sua grandeza material.
Os doutores, os sábios e os padres não mais pensaram em outra coisa senão em subjugar o
mundo e em armar os homens uns contra os outros, para a matança e o roubo. Eles foram os
responsáveis pelo desaparecimento da doutrina evangélica da religião e da vida. Kheltchitsky
repele totalmente o direito da guerra e das execuções capitais; todo guerreiro, ainda que
“cavalheiro”, nada mais é do que um assassino e um bandido.
O mesmo é dito no livro alemão, que contém, ainda, algumas particularidades biográficas e muitas citações da correspondência de Kheltchitsky.
Ciente, então, em que consistia a doutrina de Kheltchitsky, esperei com ansiedade a publicação de A rede da fé nas memórias da Academia. Mas, passou-se um ano, depois dois, e três, sem que a obra viesse a público. Só em 1888 soube que a edição, já iniciada, havia sido suspensa. Obtive as provas de tudo o que já havia sido composto e encontrei, em cada parágrafo, uma obra estupenda.
Essa obra foi muito bem resumida por Pypine. A ideia fundamental de Kheltchitsky é que o cristianismo, unindo-se ao poder sob Constantino e continuando a desenvolver-se nessas condições, corrompeu-se por completo e deixou de ser o que era. O título de A rede da fé foi dado por Kheltchitsky a seu livro porque, havendo usado como epígrafe o versículo do Evangelho que conclamava os discípulos a se tornarem pescadores de homens, dá sequência a esse paralelo e diz: “Cristo, por meio de seus discípulos, envolveu o mundo inteiro na ‘rede da fé’; mas os peixes grandes, tendo rasgado as malhas da rede, escaparam, e pelo buraco que fizeram passaram também os peixes pequenos, de modo que a rede ficou quase vazia. Os peixes grandes que rasgaram a rede são os governantes: imperadores, papas, reis, que sem abandonar o poder aceitaram não o cristianismo, mas sua aparência.”
Kheltchitsky ensina a doutrina que foi e é até hoje pregada pelos “não resistentes”, pelos menonitas, pelos quakers e, nos tempos antigos, pelos bogomilos, pelos paulicianos e por tantos outros. Ele ensina que o cristianismo, que exige de seus adeptos a resignação, a submissão, a doçura, o perdão das ofensas, que se ofereça a face direita àquele que bateu na esquerda e o amor aos inimigos, não pode se conciliar com a violência, condição essencial do poder.
O cristão, segundo Kheltchitsky, não só não pode ser comandante ou soldado, mas sequer fazer parte de qualquer administração; não pode ser comerciante nem proprietário de terras: não pode ser senão um artesão ou um agricultor.
Esse livro é uma das raras obras que escaparam aos autos de fé, entre as que fustigaram o cristianismo oficial, e é isso que o torna tão interessante.
Mas, além de seu interesse, esse livro, de qualquer ponto de vista que o examinemos, é um dos mais notáveis produtos do pensamento, tanto pela profundidade das opiniões, como pela extraordinária energia e pela beleza da linguagem popular na qual é escrito. E, no entanto, permanece apenas como manuscrito há mais de quatro séculos e continua a ser ignorado, exceto pelos especialistas.
Seria de se esperar que esse tipo de obra – a dos quakers, de Garrison, de Ballou, de Kheltchitsky –, que afirma e demonstra, tomando por base o Evangelho, que o mundo entende mal a doutrina do Cristo, provocasse o interesse, a agitação, o murmúrio, as discussões, tanto entre os pastores quanto entre as ovelhas. Referindo-se à própria essência da doutrina cristã, essas obras deveriam ser examinadas e reconhecidas como justas, ou, então, refutadas e rechaçadas. Mas isso não acontece.
O mesmo fato se repete em relação a todas essas obras. Pessoas com as mais diversas opiniões, tanto os fiéis como – e isto é surpreendente – os livres-pensadores, todos parecem obedecer a uma palavra de ordem de silenciar a seu respeito, e tudo aquilo que os homens fazem para explicar o verdadeiro sentido da doutrina do Cristo permanece oculto ou esquecido.
Entretanto, ainda mais surpreendente é a obscuridade na qual permaneceram duas obras, de cuja existência só tomei conhecimento quando publiquei meu livro. São elas a obra de Dymond, On War [Sobre a guerra], publicada pela primeira vez em Londres em 1824, e a obra de Daniel Musser, Sobre a não resistência, escrita em 1864. É verdadeiramente estranho que essas obras tenham permanecido desconhecidas, porque, sem falar de seu valor, tratam tanto da teoria da não resistência quanto de sua aplicação prática na vida e do cristianismo em suas relações com o serviço militar; o que, hoje, é sobremaneira importante devido ao serviço militar obrigatório.
As pessoas talvez se perguntem: qual deve ser a atitude daquele cidadão cuja religião é inconciliável com a guerra, mas do qual o governo exige o serviço militar?
Esta pergunta parece essencial, e o serviço militar obrigatório confere à resposta uma importância especial. Todos ou quase todos os homens cristãos e todos os homens adultos são chamados às armas. Como pode, então, um homem, na qualidade de cristão, responder a essa exigência? Eis o que responde Dymond:
Seu dever é recusar, com doçura, mas firmemente, o serviço militar. Certos homens, sem raciocínio bem definido, concluem, não se sabe bem de que maneira,
que a responsabilidade pelas medidas governamentais cabe inteiramente àqueles que governam,
isto é, que os governantes e os reis decidam o que é o bem e o que é o mal para seus súditos, e
que o dever destes é apenas obedecer. Creio que este modo de pensar nada faz senão ofuscar a
consciência. “Não posso participar dos conselhos do governo, portanto, não sou responsável por
seus delitos.” É verdade que não somos responsáveis pelos erros dos governantes, mas somos
responsáveis pelos nossos erros, e os cometidos por nossos governantes transformam-se em
nossos se, sabendo que são erros, participamos de sua execução. Aqueles que acreditam que seu
dever é obedecer ao governo e que a responsabilidade dos delitos que cometem recai
inteiramente sobre o soberano, estão bastante enganados. Estes dizem: “Submetemos nossos atos
à vontade alheia e nossos atos não podem ser maus ou bons. Em nossos atos não pode haver o
mérito de uma boa ação, nem a responsabilidade de uma má ação, já que são alheios à nossa
vontade.”
Devemos notar que essas mesmas ideias são desenvolvidas nas instruções dadas aos soldados
e que devem por eles ser decoradas. Nelas é dito que somente o comandante será responsável
pelas consequências de suas ordens. Mas isso não é verdade. O homem não pode fugir da
responsabilidade dos atos que comete. Eis por que: se o comandante ordena que mateis o filho
do vosso vizinho, vosso pai, vossa mãe, ireis obedecer-lhe? E, se não lhe obedecerdes, todos os
raciocínios caem por terra, porque, se há caso em que podeis não obedecer, onde encontrareis o
limite até o qual deveis fazê-lo? Não existe para vós outro limite senão aquele estabelecido pelo
cristianismo; e respeitá-lo é algo, ao mesmo tempo, sábio e fácil.
Portanto, acreditamos que o dever de cada homem que considere a guerra como
inconciliável com sua religião é recusar, suave mas firmemente, o serviço militar. Aqueles que
assim agirem irão se recordar que cumprem um grande dever. De sua fidelidade à religião
depende (tanto quanto isso pode depender dos homens) o destino da paz da humanidade.
Professem e defendam sua convicção, não apenas com palavras, mas, se necessário, com
sofrimento. Se acreditais que o Cristo tenha condenado a matança, não atendais aos raciocínios
nem às ordens dos homens que vos ordenam tomar parte em algo semelhante.
Com essa firme recusa a participar da violência, merecereis a bênção daqueles que escutam e
seguem essas ordens, e chegará um dia em que o mundo vos louvará como artífices da
regeneração humana.
O livro de Musser tem o título Non-resistance asserted ou Kingdom of Christ and kingdom of this world separated, 1864 [Afirmação da não resistência ou Separação do reino de Deus do reino terrestre].
Esse livro foi escrito por ocasião da Guerra de Secessão, quando o governo norte-americano impôs o serviço militar a todos os cidadãos. Isto é também importante, na atualidade, pelos assuntos que aborda em relação à recusa ao serviço militar. No prefácio, diz o autor:
Sabe-se que nos Estados Unidos muitos negam a necessidade da guerra. Estes são chamados
os cristãos não resistentes, ou defenceless [sem defesa]. Recusam-se a defender o próprio país, a
usar armas e a combater contra os inimigos a pedido do governo. Até pouco tempo essa razão
religiosa foi respeitada pelo governo, e aqueles que a invocaram eram liberados do serviço
militar. Mas, no início da Guerra de Secessão, a opinião pública indignou-se com essa situação. É
natural que os cidadãos que, para a defesa de sua pátria, consideravam um dever submeter-se às
durezas e aos perigos da vida militar, tenham visto com desprezo aqueles que, evitando essas
obrigações, usufruíam há muito, em igualdade de condições, da proteção e das vantagens do
Estado que se recusavam a defender no momento de perigo. E é também natural que
considerassem a atitude desses homens como algo monstruoso, irracional e inexplicável.
Inúmeros oradores e escritores rebelaram-se contra a doutrina da não resistência e tentaram
provar sua falsidade, fosse por meio de raciocínio, fosse por meio da Sagrada Escritura. Há uma
lógica, e em muitos casos esses escritores têm razão, quando se trata daquelas pessoas que,
recusando-se às durezas do serviço militar, não recusam as vantagens do serviço social; mas eles
não têm razão quando se trata do próprio princípio da não resistência.
Antes de tudo, o autor estabelece para os cristãos o dever da não resistência pelo fato de que o mandamento é, nitidamente e sem equívoco possível, expresso por Cristo: “Julgai vós mesmos se é justo obedecer ao homem em vez de Deus”, como reportaram Pedro e João. Portanto, todo homem que quer ser cristão tem apenas uma conduta a manter, a recusa, quando desejarem mandá-lo à guerra, pois Cristo disse: “Não resistais ao mal por meio da violência.”
Eis por que o autor considera a questão, a princípio, resolvida. Quanto à outra questão, relativa às pessoas que, não recusando as vantagens a elas dadas por um governo baseado na violência, ainda assim se recusam ao serviço militar, o autor a estuda em detalhes e chega à conclusão de que, caso o cristão que segue as leis de Cristo se recuse a ir à guerra, não pode tomar parte alguma na administração governamental, no Poder Judiciário ou no poder eletivo. Não pode sequer recorrer à autoridade, à polícia ou à justiça para regularizar seus problemas pessoais.
Mais adiante o autor examina as relações existentes entre o Antigo e o Novo Testamentos e mostra o que significa o Estado para os não cristãos. Expõe as objeções feitas à doutrina da não resistência e as rebate; enfim, assim conclui: “Os cristãos não precisam do governo e, portanto, não são obrigados a obedecer-lhe e, menos ainda, a participar dele.”
Cristo escolheu, fora do mundo, seus discípulos: eles não almejam as satisfações e a felicidade terrenas; almejam, sim, a vida eterna. O espírito no qual vivem os torna satisfeitos e felizes em qualquer condição. Se o mundo lhes é tolerante, estão contentes; se não são deixados em paz, vão-se para outros países, porque são peregrinos na Terra e não se fixam em lugar algum. Acreditam que cabe aos mortos “enterrar seus mortos”; no que lhes diz respeito, nada devem fazer senão “seguir seu mestre”.
Sem examinar se a definição do dever do cristão em relação à guerra é ou não justa, definição estabelecida nos dois livros, não se pode negar a possibilidade prática nem a urgência de uma solução para esse problema.
Centenas de milhares de homens, os quakers, os menonitas, os nossos dukhobors, molokanes e uma quantidade de pessoas que não pertencem a qualquer seita definida, consideram a violência, e, por conseguinte, o serviço militar como inconciliáveis com o cristianismo. Eis por que a cada ano, entre nós, na Rússia, alguns recrutados recusam o serviço militar, fundamentando-se em sua convicção religiosa. E o que faz o governo? Libera-os? Obriga-os a marchar e os pune, em caso de recusa? Não.
Em 1818, o governo assim regulamentou. Eis um extrato de jornal, que quase ninguém conhece na Rússia, de Nicolau Nicolaiewic Muraviev-Karsky, suprimido pela censura:
Tíflis, 2 de outubro de 1818
Hoje, pela manhã, o comandante disse-me que foram mandados recentemente para a
Geórgia cinco camponeses da comarca de Tambov. Esses homens foram recrutados pelo
Exército, mas se recusam a se submeter ao serviço militar. Foram já muitas vezes punidos com o
knut2 e com o bastão; mas abandonaram sem resistência seus corpos às mais cruéis torturas e à
morte, para não serem soldados. “Deixai-nos ir”, disseram, “não nos façais mal e não o faremos a
ninguém. Todos os homens são iguais e o czar é um homem como nós. Por que lhe pagaremos
impostos? Por que iremos expor nossas vidas na guerra para matar homens que não nos fizeram
mal algum? Podereis cortar-nos em pedaços, mas não mudareis nossas ideias. Não vestiremos a
farda e não comeremos na gamela. Aquele que tiver piedade de nós, dará esmola; nada temos
que pertença ao czar e dele nada queremos ter.” Eis o que dizem esses mujiques. Garantem que
na Rússia muitos pensam da mesma forma. Foram conduzidos quatro vezes à frente do conselho
de ministros, e finalmente decidiu-se submeter a questão ao soberano, que determinou, como
medida de punição, mandá-los para a Geórgia, ordenando ao general-comandante que lhe
fizesse um relatório mensal sobre os progressos da conversão deles a ideias mais sadias.
Se conseguiu submetê-los? Não se sabe; e é também desconhecido o próprio fato, a respeito do qual foi mantido o mais profundo segredo.
Assim agia o governo há 75 anos; assim continuou a agir na maior parte dos casos, cuidadosamente
ocultados do povo; assim age ainda hoje,3 exceto para com os alemães menonitas que vivem na comarca de Kherson, cuja recusa ao serviço militar é respeitada, e dessa maneira servem somente no corpo da guarda florestal.
Porém, nos mais recentes casos de recusa ao serviço militar fundamentada em convicções religiosas, por homens que não pertencem à seita dos menonitas, as autoridades regulamentam da maneira como explicarei em seguida.
Antes de tudo, adotam-se todas as medidas coercitivas que hoje são usadas para “corrigir” o recalcitrante e convertê-lo às ideias “sadias”, e é mantida secreta qualquer instrução referente a tal espécie de assunto. No que concerne a um desses refratários, sei que em 1884, em Moscou, dois meses após sua recusa, o caso havia se transformado em volumoso dossiê, conservado no mais profundo segredo nos arquivos do ministério.
Começa-se, geralmente, por mandar o recalcitrante aos padres, que para sua vergonha procuram sempre induzi-lo à submissão. Mas essa exortação, em nome de Cristo, a renegar Cristo, permanece, na maior parte das vezes, sem efeito.
Então, entregam-no aos guardas. Estes, em geral, não encontrando em seu caso qualquer razão política, mandam-no embora. Então são os doutores, os médicos, que dele se ocupam e os mantêm em observação num manicômio.
Em todo esse ir e vir, o infeliz, privado de liberdade, sofre todo tipo de humilhação e sofrimento, como um delinquente condenado (o fato repetiu-se quatro vezes). Quando os médicos o deixam sair do manicômio, começa uma longa série de manobras ocultas e pérfidas que visam impedi-lo de partir, a fim de que não leve o mau exemplo aos que pensam como ele. Evita-se, também, deixá-lo entre os soldados, porque estes poderiam aprender com ele que sua convocação para o Exército está longe de ser o cumprimento das leis de Deus, como são levados a crer.
O mais cômodo, para o governo, seria simplesmente cortar a cabeça do refratário, surrá-lo até a morte ou suprimi-lo de qualquer outro modo, como outrora se fazia. Desgraçadamente, é impossível condenar à morte abertamente um homem pelo motivo de ser ele fiel à doutrina que nós próprios professamos. Por outro lado, é da mesma forma impossível deixar em paz um homem que se recusa a obedecer. Então, o governo esforça-se para obrigar, pelo sofrimento, esse homem a renegar Cristo, ou suprime-o secretamente por um meio qualquer, de forma que ninguém conheça seu suplício ou seu exemplo. Todo tipo de astúcia foi adotado para submeter os refratários a todos os tipos de tortura: deportação para algum país distante; processo por indisciplina; prisão; incorporação aos batalhões de punição, onde se pudesse torturá-lo livremente; ou a rotulação de “loucos” e internação num manicômio. Assim, um foi deportado para Tashkent, com o pretexto de mandá-lo para o exército de Tashkent; um outro foi mandado para Omsk; um terceiro foi julgado por rebelião e encarcerado; um quarto, enfim, foi trancado num manicômio.