O Reino de Deus Está em Vós
Capítulo 4
Como fosse investigado o problema de desviar a inteligência sadia do homem, a fim de que não pudesse sair da contradição dos dois conceitos opostos nele inculcados desde a infância, não seria possível inventar algo mais poderoso do que o sistema de educação adotado em nossa sociedade dita cristã.
O que as Igrejas fazem dos homens é terrível, mas ao examinar bem sua situação reconhece-se que não podem agir de outra maneira. As Igrejas encontram-se em um dilema: devem escolher o Sermão da Montanha ou o Credo de Niceia. Um exclui o outro. Se o homem crê sinceramente no Sermão da Montanha, o Credo de Niceia perde fatalmente todo o sentido e todo o valor e, com o Credo de Niceia, a Igreja e seus representantes. E, se ele acredita nesse Credo, isto é, na Igreja, naqueles que se intitulam seus representantes, o Sermão da Montanha torna-se inútil para ele. É por isto que as Igrejas não podem deixar de fazer todos os esforços imagináveis para obscurecer o sentido do Sermão da Montanha e atrair para si os homens. É somente graças à ação intensiva das Igrejas, neste sentido, que sua influência pôde ser mantida até agora.
Se a Igreja detivesse, até mesmo por um breve momento, essa influência sobre as massas, por meio do hipnotismo, e sobre as crianças, por meio da mentira, os homens logo compreenderiam a doutrina evangélica, o que aniquilaria as Igrejas e sua influência. E é por isso que as Igrejas não interrompem sua ação por um só momento. E é essa ação que impede que a maioria dos homens supostamente cristãos entenda a doutrina de Cristo.
4
O cristianismo mal compreendido pelos cientistas
Falarei, agora, de outro suposto conceito do cristianismo, que impede a compreensão de seu sentido verdadeiro – o conceito científico.
Os partidários da Igreja deram ao cristianismo uma interpretação que consideram como única verdadeira.
Os cientistas examinaram o cristianismo tal como é professado pelas diversas Igrejas e, supondo que elas lhe dão seu significado absoluto, consideram-no como uma doutrina religiosa que já teve seu tempo. Para melhor compreender como seria impossível, com essa opinião, penetrar na doutrina de Cristo, é indispensável conhecer o lugar que ocuparam e ocupam, na realidade, as religiões em geral e o cristianismo em particular, na vida da humanidade, como também a importância que lhes é atribuída pela ciência.
Do mesmo modo que o indivíduo isolado não pode viver sem ter uma ideia de sua razão de ser e sem subordinar, às vezes inconscientemente, suas ações ao objetivo que dá a sua existência, assim também os grupos de homens que vivem em iguais condições, como as nações, não podem deixar de dar uma razão determinante a seus fins comuns e aos esforços que lhe são consequentes. Do mesmo modo que o homem isolado, envelhecendo, muda necessariamente seu conceito de vida e encontra para sua existência um sentido diferente do percebido por ele quando criança, assim as sociedades e as nações mudam necessariamente, segundo suas idades, seus conceitos de vida e a ação que daí deriva.
A diferença entre o indivíduo e a humanidade está em que o indivíduo pode aproveitar indicações de homens que viveram antes dele e já ultrapassaram a idade em que ele está, enquanto a humanidade não pode receber tais indicações, porque caminha por uma estrada ainda inexplorada e não encontra a quem perguntar como deve encarar e agir nas novas condições em que se encontra e nas quais ninguém jamais se encontrou.
Entretanto, assim como o pai de família não pode continuar a encarar a vida como encarava na infância, a humanidade, após várias mudanças – densidade da população, relações estabelecidas entre as nações, aperfeiçoamento dos meios de luta contra a natureza, acúmulo do saber –, não pode continuar a encarar a vida como antes. Ela precisa de um novo conceito de existência, conceito do qual resulta a nova atividade, adequado ao novo estado em que ingressou.
A essa necessidade responde a faculdade especial da humanidade de produzir homens que venham dar à vida humana um novo sentido, donde resulta uma ação totalmente diversa da antiga. O estabelecimento desses novos conceitos e da nova ação que daí resulta é aquilo que se chama religião.
Por isso a religião não é, como acredita a ciência, um fenômeno que em tempos idos acompanhou o desenvolvimento da humanidade, e que não mais se renovou, mas sim um fenômeno próprio da vida humana e ainda hoje absolutamente natural à humanidade como em qualquer outra época. Em segundo lugar, sendo sempre a religião a definição da ação no futuro e não do passado, é claro que o estudo dos fenômenos passados não pode, em caso algum, alcançar todo o sentido da religião.
A essência de qualquer doutrina religiosa não está no desejo de uma expressão simbólica das forças da natureza, nem no terror que suas forças inspiram, nem num desejo de maravilhas, nem nas formas exteriores com as quais se manifesta, como creem os cientistas. A essência da religião está na faculdade que têm os homens de profetizar e indicar o caminho que deve seguir a humanidade, numa direção diferente da seguida no passado e da qual resulta uma ação absolutamente diferente da humanidade.
Essa faculdade de prever o caminho da humanidade pertence mais ou menos a todos os homens, mas sempre, em todos os tempos, existiram homens nos quais isto se manifestou com uma força especial, e que, exprimindo lúcida e exatamente o que sentiam vagamente todos os outros, estabeleceram um novo conceito de vida, de onde resultou uma nova ação para muitos séculos ou por milhares de anos.
Conhecemos três desses conceitos de vida. Dois já passaram pela humanidade, e atravessamos hoje o terceiro, no cristianismo. Esses conceitos são três, e apenas três, não porque tenhamos arbitrariamente reunido diversos, mas porque as ações de todos os homens têm sempre seu princípio num desses três conceitos de vida, e porque só podemos compreender a vida dessas três maneiras.
Esses três conceitos são: primeiro, vida pessoal ou animal; segundo, vida social ou pagã; terceiro, vida universal ou divina.
De acordo com o primeiro conceito, a vida do homem está compreendida apenas em sua personalidade: a meta de sua vida é a satisfação da vontade desta personalidade. Consoante o segundo conceito, a vida do homem está compreendida não somente em sua personalidade, mas num complexo e numa graduação de personalidades: a família, a tribo, o clã, o Estado. O objetivo da vida consiste na satisfação da vontade deste complexo de personalidades. Segundo o terceiro conceito, a vida do homem não está compreendida nem em sua personalidade, nem num complexo ou numa graduação de personalidades, mas no princípio e na fonte da vida: Deus.
Estes três conceitos de vida servem de base a todas as religiões que existem e existiram.
O selvagem não reconhece a vida senão nele mesmo, em suas necessidades pessoais; a felicidade de sua vida concentra-se apenas em si. A maior felicidade para ele é a satisfação mais completa de seus próprios apetites. O que impulsiona sua vida é seu prazer pessoal. Sua religião consiste em cativar a divindade e em prostrar-se diante dos deuses imaginários, que ele imagina existirem para uma finalidade pessoal.
O pagão social reconhece a vida não apenas nele próprio, mas num conjunto de indivíduos: a família, a tribo, o povo, o Estado – e sacrifica a este conjunto sua própria felicidade. O estímulo de sua vida é a glória. Sua religião consiste na glorificação dos chefes: os antepassados, chefes de tribo, soberanos – e na adoração dos deuses que protegem, exclusivamente, sua família, sua tribo, seu povo,
seu Estado.9
O homem, pelo conceito divino da vida, já reconhece a vida, não em sua personalidade ou numa associação de personalidades (família, tribo, povo, pátria ou Estado), mas na fonte da vida eterna, isto é, em Deus, e para cumprir a vontade de Deus ele sacrifica sua felicidade pessoal, doméstica e social. O estímulo de sua vida é o amor e sua religião é a adoração do princípio de tudo: Deus.
Toda a história da humanidade não é senão uma passagem gradual do conceito de vida pessoal animal ao conceito social, e deste ao conceito divino. Toda a história dos povos antigos, que durou milhões de anos e termina com a história de Roma, é a história da substituição do conceito social e racional pelo conceito animal e pessoal. A história do mundo, desde a época da Roma imperial e da aparição do cristianismo, é a história que atravessamos ainda hoje, da substituição do conceito nacional pelo conceito divino.
Este último conceito (e a doutrina cristã que dele deriva) dirige toda a nossa vida e é a base de todas as nossas ações, tanto práticas quanto científicas. Os homens da suposta ciência, estudando-o só em suas manifestações externas, consideram-no coisa ultrapassada que, para nós, não tem mais valor.
Segundo esses cientistas, essa doutrina, que consiste apenas em dogmas – a Trindade, a Redenção –, em seus milagres, sua Igreja, seus sacramentos etc., não é senão uma das numerosas religiões que a humanidade fez nascer e que termina seu tempo hoje, após ter representado seu papel à luz da ciência e da civilização.
Ocorre, agora, o que acontece na maioria dos casos e dá origem a grandes erros – que homens de grau intelectual inferior deparam com fenômenos de ordem superior e que, em vez de se colocarem num ponto de vista suficientemente elevado para julgá-los com sinceridade, explicam-nos de seu ponto de vista inferior, e com audácia tanto maior quanto menos compreendem do que se trata.
Para a maior parte dos doutores que examinam a doutrina moral viva de Cristo de um ponto de vista inferior do conceito social da vida, essa doutrina não é mais do que uma espécie de amálgama sem coesão, de ascetismo hindu, de doutrinas estoicas e neoplatônicas e de utópicos sonhos antissociais que não têm qualquer importância séria para nosso tempo; e, para eles, tudo se concentra nas manifestações externas: o catolicismo, o protestantismo, os dogmas e a luta contra o poder secular. Definindo o significado do cristianismo segundo manifestações similares, eles assemelham-se a surdos que julgam o valor e a importância da música pelos movimentos dos músicos.
Disto resulta que todos esses homens, a começar por Kant, Strauss, Spencer e Renan, não entendem as palavras de Cristo, não percebem por que elas foram ditas. Então, sem compreender sequer a pergunta a que respondem, não tendo o cuidado de penetrar em seu sentido, negam-se simplesmente, sem disposições favoráveis, a reconhecer que a doutrina tenha um sentido razoável. E quando se dignam serem benevolentes, corrigem-na do alto de sua doutrina, supondo que Cristo queria dizer exatamente o que eles pensam, mas que não soube fazê-lo. Os doutores tratam a doutrina como os presunçosos tratam as palavras dos interlocutores, que consideram como inferiores, dizendo: “Mas, na verdade, quisestes dizer isto e aquilo.” E suas retificações têm, sempre, o objetivo de reconduzir o conceito superior divino ao conceito inferior social.
Diz-se, em geral, que a doutrina moral do cristianismo é boa, mas exagerada. Para que se torne praticável, é preciso retirar-lhe todo o supérfluo, que não se concilia com as condições de nossa existência. “Porque a doutrina que pede demais é irrealizável e não vale a que só exige dos homens o possível, compatível com suas forças”, pensam e afirmam os eruditos comentaristas do cristianismo, repetindo o que afirmavam e não podiam deixar de afirmar aqueles que, não o compreendendo, crucificaram o Mestre: os judeus.
Diante do julgamento dos doutores do nosso tempo, a lei judaica – dente por dente, olho por olho –, isto é, a lei do castigo justo, conhecida pela humanidade cinco mil anos antes da lei do amor pela qual Cristo a substituiu. Eles consideram que tudo aquilo que foi feito pelos homens que compreenderam corretamente a doutrina de Cristo e viveram segundo esse conceito, tudo o que foi feito e dito por todos os verdadeiros cristãos, todos os militantes da doutrina evangélica, tudo o que hoje transforma o mundo sob o sopro do socialismo e do comunismo, tudo isso é um exagero que não merece ser mencionado.
Os homens há 18 séculos instruídos no cristianismo convenceram-se, na pessoa de seus representantes autorizados, os doutores, que a doutrina cristã é uma doutrina de dogmas. Quanto a sua aplicação prática, trata-se de um mal-entendido, um exagero que compromete as verdadeiras e legítimas exigências da moral humana; e aquela doutrina de justiça que Cristo rejeitou e substitui pela sua própria nos é muito mais satisfatória.
O preceito da não resistência ao mal por meio da violência parece aos doutores um exagero e também um absurdo. É melhor rejeitá-lo, pensam, sem perceber que não discutem a doutrina de Cristo, mas sim o que acreditam ser a doutrina de Cristo.
Não percebem que dizer que o preceito da não resistência ao mal por meio da violência é um exagero da doutrina de Cristo equivale a dizer que, na definição do círculo, a afirmação da igualdade dos raios é um exagero. Eles fazem o que faria um homem que, não tendo qualquer noção do que seja um círculo, afirmasse ser exagero dizer que todos os pontos da circunferência são igualmente distantes do centro. Aconselhar a repelir ou atenuar o axioma da igualdade dos raios do círculo é não compreender o que é o círculo. Aconselhar a repelir ou atenuar, na doutrina de Cristo, o preceito de não resistência ao mal por meio da violência é não compreender a doutrina.
E aqueles que assim se comportam não a entendem de fato. Não compreendem que essa doutrina é a atuação prática de um novo conceito de vida, conceito correspondente à nova fase em que a humanidade já entrou há 1.800 anos, e do qual resulta a definição de nova vida.
Eles não concordaram que o Cristo tenha querido dizer o que disse; ou supõem que foi por impulso, por falta de raciocínio e de cultura que ele disse o que se encontra no Sermão da Montanha e em outros
lugares.10
Por isso, vos digo: Não vos preocupeis por vossa vida, quanto ao que havereis de comer, nem
com vosso corpo, quanto ao que havereis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o
corpo mais do que a roupa?
Olhai as aves do céu: não semeiam, nem colhem, nem ajuntem em celeiros. E, no entanto,
vosso Pai celeste as alimenta. Ora, não valeis vós mais do que elas?
Quem dentre vós, com as suas preocupações, pode prolongar, por pouco que seja, a duração
da sua vida?
E com as roupas, por que andais preocupados? Aprendei dos lírios do campo, como crescem,
e não trabalham nem fiam.
E, no entanto, eu vos asseguro que nem Salomão, em todo o seu esplendor, se vestiu como
um deles.
Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que existe hoje e amanhã será lançada ao forno,
não fará ele muito mais por vós, homens fracos na fé?
Por isso, não andeis preocupados, dizendo: Que iremos comer? Ou: que iremos beber? Ou:
que iremos vestir?
De fato, são os gentios que estão à procura de tudo isso: o vosso Pai celeste sabe que tendes
necessidade de todas essas coisas.
Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão
acrescentadas.
Não vos preocupeis, portanto, com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã se preocupará
consigo mesmo. A cada dia basta o seu mal. (Mt 6,25-34)
Vendei vossos bens e dai esmola; fazei bolsas que não fiquem velhas; um tesouro inesgotável
os céus, onde o ladrão não chega nem a traça rói. Pois onde está o vosso tesouro, aí estará
também o vosso coração. (Lc 12,33.34)
Vende teus bens e segue-me; quem não deixa pai e mãe, filhos e irmãos, campo e casa, não
pode ser meu discípulo.
Renuncia a ti mesmo, toma sobre ti a tua cruz e segue-me. Meu alimento consiste em
cumprir a vontade Daquele que me enviou, e de cumprir Sua obra! Não é minha vontade que
será feita, mas a Dele; não é o que eu quero, mas o que Ele quer. A vida consiste em cumprir
não a vontade própria, mas a vontade de Deus. (Mc 10,21.29; 9,34 e 14,36)
Estas máximas podem parecer aos homens importantes que têm da vida um conceito inferior a expressão de uma espécie de impulso entusiástico sem aplicação possível na prática. E, no entanto, estas citações resultam com tanto rigor do conceito cristão quanto o preceito do abandono do trabalho em prol da comunidade ou do sacrifício da vida pela defesa da pátria resultam do conceito social.
O homem, ligado ao conceito social da vida, pode dizer ao selvagem: “Volta a ti, reflete; a vida de tua personalidade não pode ser a verdadeira vida porque esta é miserável e efêmera. Somente a agregação e a gradação perpetuam-se: a família, a tribo, o povo, o Estado, e por isso deves sacrificar tua personalidade à existência desse grupo”; assim, a doutrina cristã fala ao homem a respeito do conceito social: “Arrependei-vos, isto é, retornai a vós mesmos, ou perecereis. Retornai a vós mesmos e entendei que a vida que viveis não é a vida verdadeira, que a vida da família, da sociedade, do Estado, não é a salvação. A verdadeira vida, sábia, só é possível para o homem quando ele dela participa com moderação, não a vida da família e do Estado, mas a vida do Pai.” Assim é, indiscutivelmente, o conceito cristão, que aparece em cada citação do Evangelho.
Pode-se não ter a mesma opinião, pode-se negá-la e provar sua inexatidão, mas é impossível julgar uma doutrina sem haver penetrado no conceito do qual ela deriva. E, mais ainda, é impossível julgar uma tese de ordem superior colocando-se num ponto de vista inferior: julgar o alto da torre quando estamos nas fundações. E é precisamente isso que fazem nossos doutores. E o fazem porque caem num erro semelhante ao dos fiéis da Igreja, que acreditam possuir tantos meios de investigação que basta aplicá-los para que nenhuma dúvida possa surgir do resultado de seu exame.
Essa posse de um método de investigação, supostamente infalível, constitui o principal obstáculo à compreensão da doutrina cristã por parte dos ateus e dos pretensos doutores, cuja opinião norteia a grande maioria dos incrédulos, crédulos e instruídos. E é dessa suposta interpretação que resultam todos os erros dos doutores sobre a doutrina cristã e, especialmente, dos estranhos mal-entendidos que, mais do que tudo, impedem sua compreensão.
Um desses mal-entendidos é que a doutrina cristã seja irrealizável; por isso, ou ela aparece como não sendo de fato obrigatória, isto é, não deve servir de guia, ou, então, como se precisasse ser modificada, atenuada até o limite em que sua obediência seja possível dentro de nossa ordem. O segundo mal-entendido consiste em que essa doutrina, que manda amar e servir a Deus, é pouco clara, mística, e não tem um objetivo definido de amor; e, portanto, deve ser substituída por uma doutrina mais exata e mais compreensível de amar e servir à humanidade.
O primeiro mal-entendido, quanto à impossibilidade de praticar a doutrina cristã, vem do fato que os homens seguidores do conceito social da vida, não compreendendo o motivo que guia os que seguem a doutrina cristã e, considerando a indicação da perfeição como uma regra de vida, pensam e dizem que lhes é impossível seguir a doutrina de Cristo, porque a execução completa das exigências dessa doutrina destruiria a vida. “Se um homem cumprisse o que prega Cristo, ele destruiria a sua vida; e se todos os homens o cumprissem, toda a espécie humana deixaria de existir”, dizem eles.
“Não vos preocupeis com o amanhã, com o que comereis, nem com o que bebereis, nem como vos vestireis”, diz Cristo. Sem defender a própria vida, sem resistir ao mal usando da violência, dando a própria vida pelo próximo e guardando a castidade absoluta, o homem e a humanidade não poderiam existir, pensam e dizem eles.
E têm absoluta razão, se consideram as indicações de perfeição dadas pela doutrina de Cristo como regras que cada um deve respeitar, assim como, na doutrina social, cada um deve cumprir as regras de pagamento dos impostos, de participação na justiça etc.
O mal-entendido consiste exatamente nisto: que a doutrina de Cristo dirige os homens com um meio que não as doutrinas fundamentadas no conceito da vida inferior. As doutrinas sociais são dirigidas somente com regras e com leis, às quais é preciso submeter-se exatamente. A doutrina de Cristo guia os homens mostrando-lhes a infinita perfeição do Pai celeste, perfeição a que cada homem pode aspirar livremente, independente do grau de imperfeição em que ele se encontre.
O mal-entendido dos homens que julgam a doutrina cristã do ponto de vista social consiste em que, supondo que a perfeição indicada por Cristo possa ser totalmente alcançada, eles se perguntam (supondo que as leis sociais sejam observadas): “O que acontecerá quando isso ocorrer?” Esta suposição é falsa, porque a perfeição indicada aos cristãos é infinita e nunca poderá ser alcançada. Cristo apresenta sua doutrina, sabendo que a perfeição absoluta nunca será alcançada, mas que a tendência a essa perfeição absoluta e infinita aumentará continuamente a felicidade dos homens, e que, por consequência, essa felicidade poderá ser indefinidamente aumentada.
Cristo ensina, não aos anjos, mas aos homens que se movem e vivem uma vida animal. A essa força animal do movimento, Cristo aplica, por assim dizer, uma nova força – a consciência da perfeição divina – e, assim, dirige o caminho da vida sobre a resultante dessas duas forças.
Crer que a vida do homem seguirá a direção indicada por Cristo é como acreditar que um barqueiro, para atravessar um rio veloz, remando quase que diretamente contra a corrente, navegaria naquela direção.
Cristo reconhece a existência dos dois lados do paralelogramo, das duas forças eternas, imortais, de que se compõe a vida do homem: a força da natureza animal e a força da consciência, isto é, de que ele é filho de Deus. Não falando da força animal que, afirmando-se por si só, permanece sempre igual a si mesma e está fora do alcance do homem, Cristo só fala da força divina, chamando o homem a uma maior consciência dessa força, a sua mais completa emancipação e a seu maior desenvolvimento.
Na emancipação e no aumento dessa força consiste, segundo a doutrina de Cristo, a verdadeira vida do homem. De acordo com as doutrinas que a precederam, a verdadeira vida estava no cumprimento das regras, das leis; enquanto, segundo a doutrina de Cristo, esta consiste na aspiração à perfeição divina, dada como fim, e cujo princípio todo homem tem consciência de trazer consigo, na assimilação mais completa da vontade humana à vontade de Deus, assimilação para a qual o homem tende, e que seria o aniquilamento da vida que conhecemos.
A perfeição divina é a assíntota da vida humana; a humanidade sempre tende para ela; pode dela se aproximar, mas só pode alcançá-la no infinito.
A doutrina de Cristo não parece excluir a possibilidade da vida senão quando é considerada como regra aquilo que é apenas a indicação de um ideal. Só neste caso os preceitos de Cristo parecem inconciliáveis com as necessidades da vida, enquanto, ao contrário, só eles oferecem a possibilidade de uma vida justa.
“Não se deve pedir demais, dizem os homens frequentemente, discutindo as exigências da doutrina cristã. Não se pode deixar de pensar no amanhã, como está dito no Evangelho, mas é preciso também não se preocupar demais; não se pode dar tudo aos pobres, mas é preciso dar-lhes com moderação; não se pode guardar uma castidade absoluta, mas é preciso fugir da depravação; não é preciso abandonar a mulher e os filhos, mas não é preciso ter por eles um amor absolutamente exclusivo etc.”
Falar assim é como dizer a um homem que atravessa, contra a correnteza, um rio veloz, que ele não deve remar assim, mas em linha reta, em direção ao ponto da margem que deseja alcançar.
A doutrina de Cristo distingue-se das antigas doutrinas no fato de dirigir os homens não com regras externas, mas com a consciência que têm da possibilidade de alcançar a perfeição divina. E a alma humana não contém regras moderadas de justiça e filantropia, mas o ideal da perfeição divina, inteira e infinita. Só a busca dessa perfeição modifica o curso da vida humana, do estado animal ao estado divino, tanto quanto isso é humanamente possível.
Para chegar ao lugar desejado é preciso dirigir-se, com todas as forças, a um ponto muito mais alto.
Baixar o nível do ideal é não só diminuir as probabilidades de alcançar a perfeição, mas destruir o próprio ideal. O ideal que nos atrai não foi inventado por ninguém; cada homem o traz no coração. Só esse ideal de absoluta e infinita perfeição nos seduz e nos atrai. Uma perfeição possível perderia qualquer influência sobre a alma humana.
A doutrina de Cristo tem grande poder exatamente porque requer a perfeição absoluta, isto é, a identificação do sopro divino que se encontra na alma de cada homem com a vontade de Deus, identificação do filho com o Pai. Libertar do animal o filho de Deus que vive em cada homem e aproximá-lo do Pai, apenas nisto está a vida, segundo a doutrina de Cristo.
A existência apenas do animal, no homem, não é a vida humana. A vida somente segundo a vontade de Deus, tampouco é a vida humana. A vida humana é o conjunto da vida divina e da vida animal, e quanto mais este conjunto se aproxima da vida divina, mais é vida.
A vida, segundo a doutrina cristã, é o caminho para a perfeição divina. Nenhum estágio, conforme essa doutrina, pode ser mais alto ou mais baixo do que o outro. Cada estágio não é senão uma etapa para uma perfeição irrealizável e, por consequência, não constitui por si só um grau mais ou menos alto da vida. O aumento da vida é apenas uma aceleração do movimento em direção à perfeição. Por isso, o ímpeto para a perfeição do coletor de impostos Zaqueu, da pecadora, do ladrão na cruz, constitui um grau mais alto da vida do que a imóvel infalibilidade do fariseu. Por isso, não podem existir regras obrigatórias para essa doutrina. O homem colocado num grau inferior, caminhando em direção à perfeição, tem melhor conduta moral, observa mais a doutrina do que o homem que, colocado num grau bem mais alto, não se encaminha para a perfeição.
É neste sentido que a ovelha desgarrada é mais cara ao Pai do que as outras; o filho pródigo, a moeda perdida e reencontrada são mais amados do que aqueles que nunca foram considerados perdidos.
O cumprimento da doutrina está no movimento do eu em direção a Deus. É evidente que isto não pode ter leis ou regras determinadas. Qualquer grau de perfeição ou imperfeição é igual frente a essa doutrina, cujo cumprimento não se constitui na obediência a lei alguma; por isso, não podem existir regras ou leis obrigatórias.
Dessa diferença radical entre a doutrina de Cristo e todas aquelas que a precederam, baseadas sobre o conceito social da vida, resulta também a diferença entre as leis sociais e os preceitos cristãos. As leis sociais são, em sua maioria, positivas, recomendando certos atos, justificando e absolvendo os homens. Ao contrário, os preceitos cristãos (o mandamento do amor não é um preceito no verdadeiro sentido da palavra, mas a expressão do próprio sentido da doutrina), os cinco mandamentos do Sermão da Montanha, são todos negativos e não indicam senão aquilo que, num certo grau de desenvolvimento da humanidade, os homens não mais devem fazer.
De qualquer forma, esses preceitos são como pontos de encontro na rota infinita da perfeição, em cuja direção caminha a humanidade, e os graus de aperfeiçoamento acessível num dado período de desenvolvimento.
No Sermão da Montanha, Cristo mostrou simultaneamente o ideal eterno ao qual os homens devem aspirar e os graus que já podem alcançar em nossos dias.
O ideal é não desejar fazer o mal, não provocar a malevolência, não odiar o próximo. O preceito para alcançar esse ideal é o da proibição de ofender os homens com a palavra. E este é o primeiro mandamento.
O ideal é a castidade completa, até em pensamento. O preceito é a pureza do casamento, evitando a lascívia. E este é o segundo mandamento.
O ideal é não se preocupar com o amanhã e, sim, viver o presente. O preceito é não jurar, nada prometer para amanhã. E este é o terceiro mandamento.
O ideal é nunca usar a violência para qualquer fim. O mandamento indica não pagar o mal com o mal, sofrer a ofensa, dar a própria veste. E este é o quarto mandamento.
O ideal é amar aqueles que nos odeiam. O mandamento é não fazer mal aos próprios inimigos, falar bem deles, não fazer diferença entre eles e os amigos. E este é o quinto mandamento.
Todos estes mandamentos são indicações daquilo que na rota da perfeição não mais devemos fazer, daquilo que, agora, nos devemos esforçar para transformar, pouco a pouco, em hábitos instintivos; mas, longe de constituir a doutrina de Cristo e de contê-la por inteiro, esses mandamentos são apenas uma das inúmeras etapas na rota da perfeição. E devem ser seguidos por mandamentos sempre superiores.
Por isso, cabe à doutrina cristã formular exigências mais altas que as expressas por esses mandamentos, e não diminuí-los, como pensam os homens que julgam essa doutrina sob o ponto de vista do conceito social da vida.
Assim é o primeiro mal-entendido dos doutores quanto à importância e ao objetivo da doutrina cristã. O outro, proveniente da mesma fonte, consiste na substituição da obrigação cristã de amar e servir aos homens pelo amor a Deus, pela obrigação de amar a Deus e servi-lo.
A doutrina cristã de amar e servir a Deus, e – apenas como consequência desse amor e dessa servidão – amar e servir ao próximo, parece aos doutores pouco clara, mística e arbitrária, e, assim, refutam, sem restrições, a obrigação de amar e servir a Deus, considerando que a doutrina que ensina somente o amor à humanidade é muito mais clara, sólida e sensata.
Os doutores ensinam, teoricamente, que a vida consciente e boa é aquela consagrada ao serviço de toda a humanidade; nisto consiste, para eles, o sentido da doutrina cristã; e a isto se reduz o ensinamento de Cristo. Eles procuram a confirmação de sua doutrina na do Evangelho, supondo que ambas sejam uma única.
Esta opinião é, realmente, falsa. A doutrina cristã e a dos positivistas, dos comunistas e de todos os apóstolos da fraternidade universal, alicerçada no interesse geral, nada têm em comum e distinguem-se uma das outras, principalmente, pelo fato de que a doutrina cristã tem bases firmes e claras na alma humana, enquanto a doutrina do amor à humanidade é apenas uma dedução teórica por analogia.
A única doutrina do amor à humanidade baseia-se no conceito social da vida.
A essência do conceito social da vida consiste na substituição do sentido da vida pessoal pelo da vida em grupo: família, tribo, povo, Estado. Este fenômeno completou-se e completa-se fácil e naturalmente nos primeiros graus, isto é, na família ou na tribo; mas no povo torna-se mais difícil e requer uma educação especial; enfim, seu extremo limite encontra-se no Estado.
Amar a si mesmo é natural e cada um se ama sem precisar ser encorajado; amar a própria tribo, da qual se recebe ajuda e proteção; amar a própria mulher, felicidade e amparo; amar os próprios filhos, consolação e esperança na vida, e os pais, de quem se recebeu a existência e a educação, tudo isto é natural, e esses amores, embora muito menos potentes do que o amor a si próprio, podem ser frequentemente encontrados.
Amar por si, pelo próprio orgulho, a própria tribo, o próprio povo, embora já não tão natural, é ainda frequente.
O amor à nação, este grupo de mesma origem, mesma língua, mesma religião, é também possível, ainda que esse sentimento esteja longe de ser tão forte, não só quanto o amor por nós mesmos, mas como também pela própria família e pela própria tribo. Mas o amor pelo Estado, como a Turquia, a Alemanha, a Inglaterra, a Áustria, a Rússia, já é algo quase impossível e, não obstante a educação dirigida nesse sentido, esse amor é apenas suposto e, na realidade, não existe. Neste grupo termina para o homem a possibilidade de conduzir a própria consciência e de provar, por meio desse artifício, um sentimento direto; os positivistas, no entanto, todos os apóstolos da fraternidade científica, sem levar em consideração a diminuição do sentimento à medida que se amplia o objeto da afeição, continuam a raciocinar teoricamente nessa direção, e vão ainda mais longe.
“Se o indivíduo tem interesse em estender o seu eu à família, à tribo, ao povo, ao Estado, está ainda mais interessado em estendê-lo ao complexo da humanidade, de modo que todos vivam para a humanidade, como cada um vive para a família e para o Estado”, dizem eles.
De fato, teoricamente, isto é lógico. Já que o amor foi transferido da personalidade à família, desta à tribo, depois ao povo e ao Estado, seria absolutamente lógico que os homens, para evitar as lutas e os males resultantes das divisões da humanidade em povos e Estados, transferissem seu amor para toda a humanidade. Isto pareceria mais natural, e os teóricos assim pregam, sem se dar conta de que o amor é um sentimento que se pode ter, mas não pregar, e que, ademais, o amor deve ter um objeto, enquanto a humanidade não o tem. Isto não é senão hipocrisia.
A família, a tribo, o próprio Estado não foram inventados pelo homem; essas instituições formaram-se por si mesmas, como os enxames das abelhas e a sociedade das formigas, e têm uma existência real. O homem que ama, por sua personalidade animal, a família, sabe que ama Ana, Maria, João, Pedro etc.
O homem que ama a sua tribo, e disto se orgulha, sabe que ama tanto os guelfos quanto os gibelinos.11 Aquele que ama o Estado sabe que ama, por exemplo, a França, das margens do Reno até os Pireneus, e sua cidade principal, Paris, e sua história etc. Mas e o homem que ama a humanidade? Existem Estados, povos; neles está o conceito abstrato do homem, mas a humanidade como conceito concreto não existe, e não pode existir.
A humanidade! Onde estão os limites da humanidade? Onde ela termina? Onde começa? A humanidade acaba, talvez, exclusivamente, no selvagem, no ignorante, no alcoólatra, no louco? Se traçamos uma linha que limite a humanidade, excluindo os representantes inferiores da espécie humana, onde traçaremos essa linha? Excluiremos os negros, como fazem os norte-americanos? E os hindus, como certos ingleses? E os judeus, como muitos outros? E se englobarmos todos os homens, sem exceção, por que admitiremos apenas os homens, e não os animais superiores, muitos dos quais são mais desenvolvidos que os representantes inferiores da raça humana?
Não conhecemos a humanidade como um objeto externo; ignoramos seus limites. A humanidade é uma hipocrisia; não se pode amá-la. Seria muito útil, é verdade, que os homens pudessem amar a humanidade tanto quanto amam a família. Seria muito vantajoso substituir, como desejam os comunistas, a concorrência entre os homens por uma ordem comum, ou a propriedade individual pela propriedade universal, a fim de que cada um pudesse trabalhar para todos e todos para cada um; entretanto, não há razão para fazê-lo. Os positivistas, os comunistas e todos os apóstolos da fraternidade científica pregam a extensão a toda a humanidade do amor que os homens sentem por si mesmos, por sua família e pelo Estado; esquecem-se de que o amor por eles pregado é um amor pessoal que, crescendo, foi capaz de abranger a família, e também o amor à pátria natural, mas que desaparece por completo na presença de um Estado artificial, como a Áustria, a Inglaterra, a Turquia, e que não podemos sequer chegar a imaginar quando se trata de toda a humanidade – conceito absolutamente místico.
“O homem ama a si próprio, a sua personalidade animal; ama sua família, ama também sua pátria. Por que não amaria do mesmo modo toda a humanidade? Como seria belo! Aliás, o cristianismo também o ensina.” Assim pensam os seguidores da fraternidade positivista, comunista e socialista. De fato, a ideia seria muito bonita, mas não pode acontecer, porque o amor baseado no conceito pessoal e social da vida não pode ir além do amor à pátria.
O erro de raciocínio consiste em que o conceito social da vida, sobre o qual se baseia o amor e a pátria, está, ele próprio, alicerçado no amor à personalidade, e que este amor, estendendo-se da personalidade à família, à raça, à nação, enfraquece cada vez mais e atinge, no amor ao Estado, seu limite extremo.
A necessidade de ampliar o domínio do amor é indiscutível mas, ao mesmo tempo, esta necessidade destrói de fato a possibilidade do amor e prova a insuficiência desse amor no sentido pessoal humano.
E é então que os apóstolos das fraternidades do Positivismo, Comunismo e Socialismo propõem, para evitar essa falência do amor humano, o amor cristão, mas somente diante dessas consequências, e não dessas causas. Eles propõem somente o amor à humanidade, sem o amor a Deus.
Mas esse amor não pode existir; não tem qualquer razão de ser. O amor cristão resulta unicamente do conceito cristão da vida, conceito segundo o qual o objetivo essencial da vida é amar e servir a Deus.
Por um procedimento natural, o conceito social da vida conduziu os homens, do amor a si mesmo, à família, à nação, à pátria, até à consciência da necessidade do amor pela humanidade, que não tem limites e se confunde com tudo o que vive. Essa necessidade de amar algo que não desperte no homem qualquer sentimento fez surgir uma contradição que o conceito social da vida não pode resolver.
Somente a doutrina evangélica em todo o seu significado a resolve, dando à vida um novo sentido. O cristianismo reconhece, assim, o amor por si mesmo, bem como o amor à família, à nação e à humanidade, e não só à humanidade, mas também a tudo o que vive. Mas o objeto desse amor não é encontrado fora de si em sociedades de indivíduos, tampouco no mundo exterior; ele é encontrado no próprio ser, em sua personalidade divina, cuja essência é esse amor verdadeiro, no qual o ser animal é levado a sentir o quão perecível é sua natureza.
O que distingue a doutrina cristã das que a precederam é que a antiga doutrina social dizia: “Vive contrariamente à tua natureza [entendendo por isto apenas a natureza animal]; submete-te à lei externa da família, da sociedade, do Estado.” Por sua vez, o cristianismo diz: “Vive conforme a tua natureza [referindo-se só à natureza divina]; a nada a submetas, nem à natureza animal, nem à dos outros, e alcançarás exatamente aquilo que procuras submetendo às leis externas tua natureza externa.”
A doutrina cristã reconduz o homem à consciência primitiva de seu eu, não de seu eu animal, mas de seu eu divino, da centelha divina, de seu eu filho de Deus, Deus como Pai, mas envolto num invólucro animal. E a consciência de ser filho de Deus, cuja essência é o amor, satisfaz a necessidade de ampliar os domínios do amor, necessidade à qual foi levado o homem do conceito social. Para este último, a salvação da personalidade exige de fato a ampliação cada vez maior dos domínios do amor; o amor é uma necessidade, em relação a determinados objetos: a si mesmo, à família, à sociedade, à humanidade. Com o conceito cristão da vida, o amor não é uma necessidade e não se exerce sobre coisa alguma; é uma faculdade essencial da alma humana. O homem ama, não porque tenha interesse em amar isso ou aquilo, mas porque o amor é a essência de sua alma, porque ele não pode deixar de amar”.
A doutrina cristã ensina ao homem que a essência de sua alma é o amor, que sua felicidade não é a de amar tal ou tal entidade, mas sim o princípio de tudo, Deus, que ele tem consciência de trazer consigo. Por isso, ele amará a todos e a tudo. Eis a diferença fundamental entre a doutrina cristã e a doutrina dos positivistas e de todos os teóricos da fraternidade universal não cristã.
São estes os dois principais mal-entendidos em relação ao cristianismo, dos quais resulta a maior parte dos raciocínios falsos de que é objeto. O primeiro consiste em acreditar que a doutrina de Cristo dá aos homens, como as doutrinas que a precederam, regras às quais estes devam obedecer, e que tais regras sejam impraticáveis; o segundo, que toda a filosofia do cristianismo se reduz a fazer da humanidade uma só família, e que este resultado pode ser obtido com o simples amor à humanidade, desvinculado do amor a Deus.