O Retorno do Jovem Príncipe

A. G. Roemmers · Capítulo 9 de 23

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O Retorno do Jovem Príncipe

Capítulo VIII

 

Eu sabia que havia lágrimas em seu rosto enquanto ele falava, mas me esforcei para manter os olhos na faixa de asfalto, que se estendia, cinzenta e escura, até o horizonte. O Jovem Príncipe continuou a falar no mesmo tom resignado.

— Daquele momento em diante, a erva me explicou coisas que eu não entendia antes. Ela me alertou sobre a manipulação maliciosa das flores e sobre o comportamento traiçoeiro das pessoas. Ela me apresentou às ciências da química e da física e explicou as últimas estatísticas e variáveis econômicas. Apesar disso, sem o meu carneiro, os dias ficaram mais longos e os crepúsculos, mais tristes.

 

Certa noite, o Jovem Príncipe teve um sonho muito vívido. Ele estava com seu amigo em um avião, sobrevoando as maravilhosas paisagens da Terra. Contemplavam montanhas majestosas, vales deslumbrantes cortados por rios cristalinos — onde a sombra do avião planava de vez em quando — e prados floridos que pareciam tapetes bordados, protegidos dos ventos por densas florestas. Como voavam muito baixo, podiam ver cervos, cavalos, cabras, lebres e raposas correndo à solta pelos campos, e até mesmo trutas, que pulavam alegremente nos riachos. O Jovem Príncipe não sentia vontade de perguntar nada, e seu amigo não lhe oferecia nenhuma explicação.

Ambos apenas observavam as maravilhas que se estendiam diante de seus olhos. Sorrindo, apontavam para uma ou outra que lhes chamava mais a atenção e davam grandes risadas. O Jovem Príncipe nunca se sentira tão feliz. De repente, seu amigo começou a fazer uma curva, indicando que iriam pousar em uma colina coberta de grama. O pouso foi perfeito, como se a terra amolecesse sua crosta para lhes dar respeitosas boas-vindas. Assim que desceram, seu amigo piloto o levou até o outro lado da encosta, onde um rebanho de carneiros pastava pacificamente.

— São todos para você — disse ele. — Não sei quantos são. Não achei importante contá-los. Comecei a criar esses carneiros no dia em que você partiu. O rebanho cresceu, em meu coração, tanto quanto meus sentimentos por você.

Quando o Jovem Príncipe, muito comovido, virou-se para abraçar o amigo, acordou sozinho em seu tranquilo e silencioso planeta. Duas lágrimas doces se tornaram amargas enquanto caíam, e uma voz interior lhe disse:

“Procure seu amigo e deixe que ele explique as razões dele. É o único jeito de fazer as estrelas sorrirem novamente...”

 

— Foi assim que decidi fazer esta viagem — disse o Jovem Príncipe.

 

Na manhã seguinte, bem cedo, ele foi se despedir da flor, da qual ultimamente se sentia um pouco distante. Ela parecia pálida e murcha, como se a falta de atenção do Jovem Príncipe tivesse drenado sua vida.

— Adeus, estou partindo — disse o Jovem Príncipe, mas a flor não respondeu.

Ele a afagou com as duas mãos, mas ela não se moveu. Agora, nada mais o retinha.

Vários brotos de baobá haviam surgido ao lado da estrada, e o solo começara a estalar desde que ele deixara de limpar os vulcões. Mas nada parecia importante. Ele estava prestes a partir, quando se deparou com a erva daninha.

— Para onde o senhor vai tão cedo? — perguntou ela.

O Jovem Príncipe não disse nada, para não alarmá-la, mas seus olhos lhe deram a resposta que ela queria.

— O senhor não pode ir embora! O senhor é meu Amo! — ordenou ela.

— Sendo assim, daqui por diante você está livre — respondeu o Jovem Príncipe.

— O senhor não pode fazer isto comigo. O senhor sabe que não posso mais viver em liberdade. Preciso de alguém para servir e o senhor precisa de alguém para servi-lo — insistiu a erva.

— Se eu não pudesse viver sem você, eu seria seu escravo e você minha ama — observou o Jovem Príncipe.

— Eu vou morrer se o senhor me deixar aqui. Não há outro amo para arrancar as outras ervas, e logo elas vão cobrir todo o planeta — implorou a erva.

O Jovem Príncipe hesitou por um momento, mas já havia tomado sua decisão. Seguiria a orientação de seu sonho. Então disse à erva:

— Se você quer vir comigo, vou ter de arrancar você — e a agarrou firmemente pelo caule.

— Não, não! — berrou a erva.

— Então adeus — disse ele e partiu.

 

— Foi assim que começou minha jornada — continuou o Pequeno Príncipe, dando a entender que fora bem longa. — Finalmente cheguei à Terra e vim parar neste lugar solitário. Os animais e as flores não falavam comigo como quando eu era criança. Não encontrei nenhum ser humano para me orientar. Eu estava exausto. Sem saber para onde ir, deitei naquele lugar onde você me encontrou...

Ele ficou em silêncio. Percebi que mais cedo ou mais tarde todos temos de iniciar uma árdua jornada para o âmago de nós mesmos. Nenhuma conquista oferece uma recompensa maior que a conquista de nosso próprio ser.