O Retorno do Jovem Príncipe

A. G. Roemmers · Capítulo 19 de 23

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O Retorno do Jovem Príncipe

Capítulo XVIII

 

Ao meio-dia, chegamos a uma cidade conhecida por seu hotel imponente, com um amplo centro de conferências. Fora construído para desenvolver a indústria do turismo na área e divulgar as atrações locais, mediante congressos para empresários, artistas e outros grupos.

Paramos lá para almoçar. Quando estávamos nos dirigindo ao restaurante, notamos, pelas portas abertas, que o grande salão de convenções estava cheio de gente. Ao olharmos casualmente para o púlpito, ficamos surpresos ao constatar que o orador era ninguém mais que o pai da família que encontráramos no dia anterior. Ele estava no final de um discurso de candidato, embora não conseguíssemos descobrir a que cargo ou função. Fiquei surpreso quando ele disse:

— ... Acreditem em mim. Eu não vou decepcionar vocês.

Foi quando seus olhos se encontraram com o olhar límpido e penetrante do Jovem Príncipe. Eu estava dominado pela irreprimível vontade de denunciá-lo publicamente, dizendo a todo mundo que naquela mesma manhã ele nos decepcionara, abandonando à própria sorte um cachorrinho indefeso.

Percebi com desgosto que o rosto do homem não revelava culpa nem vergonha, provavelmente porque essas emoções exigem um pouquinho de humanidade.

Na expressão do Jovem Príncipe, no entanto, não havia nenhum traço de rancor ou dureza, apenas uma grande luminosidade que sombra alguma poderia turvar.

Decidimos andar mais depressa até o restaurante, antes que os polidos aplausos despertassem a plateia, provavelmente faminta.

Estávamos iniciando a refeição quando o homem entrou no recinto. Ao nos ver, encaminhou-se diretamente para nossa mesa. Fiquei tenso, surpreso com o fato de que aquele indivíduo tivesse a coragem de nos encarar.

Mas o homem parecia calmo e relaxado. Aproximou-se de nós com um sorriso nos lábios. Pousando uma das mãos no ombro do Jovem Príncipe, disse:

— Foi maravilhoso o gesto de vocês, ontem à noite. E eu entendo perfeitamente que tenham se arrependido. O cachorro é mesmo especial. Mas devo dizer que as crianças ficaram muito desapontadas quando não o encontraram hoje de manhã...

— Eu não compreendo... — disse eu, lançando um rápido olhar ao Jovem Príncipe, que se mantinha calmo e impassível. — Como assim, eles não encontraram o cachorro?

Mas o pai prosseguiu, ignorando minha interrupção.

— ... Se vocês pelo menos tivessem deixado um bilhete, por exemplo, dizendo que amam muito o cãozinho, teria sido mais fácil explicar para as crianças que...

— Escute, por favor — disse eu em tom mais enérgico, incapaz de lidar com o fato de que aquele homem parecia compreensível e generoso, quando deveria ser o contrário. — Meu jovem amigo aqui não se arrepende de nada. Hoje de manhã, depois que vocês partiram, nós descobrimos o cachorro no bosque e achamos que...

— Que nós o tínhamos abandonado? — disse o pai, finalizando a frase que eu não ousara completar. — Abandonar esse filhote lindo e indefeso? Mas como você pode pensar num absurdo desses? — perguntou o homem com indignação.

Após um desconfortável momento de silêncio, em que eu não soube o que dizer, o homem continuou:

— Talvez vocês tenham me visto ser severo com meus filhos, mas eu não sou uma pessoa insensível e sempre tentei não ser injusto. Simplesmente, acredito que um pouco de disciplina é melhor que não ter limite nenhum.

Depois de pensar por uns momentos, ele acrescentou:

— Não consigo entender o que pode ter acontecido, a não ser que o cachorrinho tenha conseguido abrir a porta do cubículo durante a noite e se perdido no bosque.

Então olhou para o Jovem Príncipe.

— Os cães da raça kuvasz são muito irrequietos, sabia? Você tem muita sorte de ter encontrado esse filhote.

Eu ainda estava sem fala, incapaz de dizer qualquer coisa, como uma criança que foi apanhada se comportando mal.

— Vou me despedir agora. Boa viagem para vocês — disse o homem.

Quando ele já estava se afastando, o Jovem Príncipe o deteve.

— Onde eu posso encontrar os meninos? — perguntou meu jovem acompanhante.

— Eles estão nos quartos 310 e 311. Vão adorar ver você — disse o homem por sobre o ombro, caminhando em direção a uma grande mesa, onde era esperado para algum tipo de comemoração relativa à sua candidatura.

Mesmo conhecendo o Jovem Príncipe há relativamente pouco tempo, eu já podia imaginar o que iria acontecer: a nobreza de seu coração superaria sua afeição por Asas.

Minutos depois, a porta do quarto 311 se abriu, e os gritos das crianças novamente se misturaram aos latidos deliciados do cãozinho. Asas reencontrara seus estridentes donos.

No meio daquela tarde, de volta à estrada, prometi a mim mesmo que, na dúvida, iria pensar o melhor das pessoas, não o pior. Hoje, por mais que elas me decepcionem, acredito que o próximo indivíduo que eu encontrar merecerá meu amor e minha confiança. Agora sou mais feliz e vejo o mundo como um lugar melhor.

As expectativas favoráveis que tenho das pessoas e das circunstâncias têm atraído para mim pessoas e circunstâncias positivas. É como se a realidade desejasse fazer nossa vontade, para o melhor ou para o pior. Talvez seja verdadeiro o ditado que diz: “Acreditando que vai ter sucesso ou acreditando que vai fracassar, você tem razão.”

Olhando para o Jovem Príncipe, vi que sua expressão estava tranquila. Eu não conseguia me lembrar de nenhuma ocasião, ao longo do dia, em que ele tivesse manifestado qualquer opinião negativa sobre a família.

Eu condenara o pai, cega e precipitadamente. E o que era pior: quando o vira no púlpito, percebera que, apesar de todos os meus comentários sobre o perdão, eu não o perdoara.

Por um momento, achei que o Jovem Príncipe suspeitara da verdade desde o início e me deixara pensar de forma errada. Mas bani esse pensamento de minha mente. Neste exato momento, os lábios do Jovem Príncipe se abriram em um sorriso luminoso e angelical...

Logo estávamos de novo na autoestrada que, serpenteando em meio a um vale, logo nos levaria à cidade onde eu era esperado por um casal de amigos, para ser o padrinho de seu primeiro filho.

Durante aquele terceiro dia, o Jovem Príncipe mal pronunciou uma palavra. Escutava o que eu dizia e mergulhava de novo em seus pensamentos, como se, pressentindo o final de nossa viagem, desejasse absorver toda a minha experiência.

— Por favor, me fale sobre a felicidade e o amor — pediu ele subitamente.

— Que assunto! — disse eu com um suspiro. — Eu poderia falar sobre isso com você por mais tempo que Sherazade nas “Mil e Uma Noites”. Vou tentar lhe dar uma ideia do que uma vida pode ser com ou sem amor e felicidade, para que você mais tarde encontre seu próprio caminho. A experiência — comecei — me ensinou que não existe felicidade sem amor. Amor entendido como uma permanente paixão pela vida e um constante encantamento com tudo o que percebemos através de nossos sentidos, sejam cores, movimentos, sons, aromas ou formas.

— Você quer dizer — perguntou o Jovem Príncipe — que devemos colocar amor em tudo o que fazemos?

— Exatamente — respondi. — E fazer isso com paixão, seja no trabalho, na arte, na amizade, no esporte, na filantropia ou no romance. A felicidade — prossegui — é também um equilíbrio que requer a satisfação de uma ampla gama de necessidades humanas, das mais básicas, como comida, moradia, proximidade humana e estímulos sociais, até a criatividade, o reconhecimento, a produtividade e a variedade, inclusive outras ainda mais altas, como a necessidade de transcendência, o amor, o altruísmo e o propósito da própria vida. Somente nossa inteligência pode satisfazer essas necessidades de forma harmoniosa, de acordo com quem somos.

— Como posso saber se fui bem-sucedido? — perguntou o Jovem Príncipe.

— A felicidade — expliquei — não é tanto o objetivo final que alcançamos, como se fosse a estação final de um trem, mas um modo de viajar, ou seja, de viver.

— Um trem...? — começou a dizer o Jovem Príncipe.

— Não é um sentimento passivo — continuei, ignorando a interrupção. — Ao contrário, a felicidade exige atenção e trabalho diário para ser alcançada e aumentada.

— Por que você sempre diz primeiro o que alguma coisa não é? — reclamou o Jovem Príncipe. — Você economizaria metade do tempo se não fizesse isso.

E antes que eu pudesse dizer algo a respeito de nossa realidade bipolar, ele insistiu:

— O que é um trem?

— Um grupo de vagões puxado por uma locomotiva. Correm em dois trilhos que geralmente chamamos de ferrovia — respondi sucintamente, tentando não dizer o que um trem não era.

— Se é difícil sair de uma autoestrada — observou o Jovem Príncipe —, deve ser quase impossível sair de uma ferrovia.

Meu silêncio confirmou sua intuição.

— Parece haver muito pouca liberdade neste planeta — concluiu ele.

Parecia inútil iniciar uma discussão sobre a questão do livre-arbítrio, portanto retornei ao assunto anterior.

— Viver feliz requer uma defesa da liberdade, mas também da vida, da ética, da autoestima, da lealdade e da paz. Isso é dever de todo ser humano que queira viver melhor e também uma atitude honesta com nós mesmos e com as outras pessoas.

— O que significa “viver melhor”? — perguntou o Jovem Príncipe.

— Viver melhor é exercer a capacidade de viver plenamente, atraindo o que nos enriquece em termos emocionais, materiais e espirituais.

Fiz um esforço para me controlar e não explicar que o contrário de viver melhor é sobreviver, o que implica viver com o mínimo possível. Mas me sentia ferido no orgulho e não estava disposto a explicar mais que o necessário, mesmo que isso significasse não me fazer bastante claro.

— Parece que nós precisamos de um monte de coisas para sermos felizes — disse o Jovem Príncipe.

— Na verdade, não precisamos — contrapus rapidamente. — A felicidade é oriunda do ser e não do ter; de apreciarmos o que já possuímos, não de tentarmos conseguir o que não temos. Muitas vezes, o que não temos pode ser uma fonte de felicidade, pois permite que outros indivíduos complementem nossas posses. Se fôssemos tão perfeitos a ponto de ter tudo, como poderíamos nos relacionar com os outros? Alguém disse uma vez que não é nossa força que nos aquece durante a noite; é nossa ternura que faz com que outras pessoas queiram nos proteger.

Depois de alguns momentos em silêncio, vendo que meu jovem amigo estava ouvindo atentamente, prossegui.

— No que diz respeito ao amor, acho que a maior verdade já dita sobre ele é que aprendemos a amar, amando. Todos nós temos uma grande capacidade para dar amor. Até com um pequeno gesto ou um sorriso, que gratificam tanto a pessoa que dá quanto a que recebe.

— Acho que este planeta seria muito agradável se seus habitantes se cumprimentassem com um sorriso quando se encontrassem — disse o Jovem Príncipe.

— O verdadeiro amor — continuei — se concentra no que é bom para a outra pessoa, esquecendo o que é bom para nós. Para esse amor, que aceita tudo e perdoa tudo, nada é impossível. Se tratarmos os outros pelo que são, eles continuarão do mesmo jeito, mas se tratarmos os outros pelo que poderiam ser, eles alcançarão a verdadeira plenitude. Esse é o amor altruísta, que torna tudo melhor em seu caminho e não deixa nada nem ninguém indiferente a ele.

— Mas mesmo com um grande amor, nós não podemos resolver tudo — disse o Jovem Príncipe, talvez com saudade de sua flor ou do asteroide perdido no espaço, com dois vulcões a ponto de explodir.

— Mas você sempre pode fazer algo, não se esqueça disso — respondi. — Amar é não desistir de fazer essa coisa. Se tudo o que tem é o amor, você irá descobrir que o amor é suficiente.

— Deve ser muito triste não ser amado — observou o Jovem Príncipe.

— Mais triste ainda é não ser capaz de amar — disse eu e complementei: — Existem aqueles que concebem o mal como uma força poderosa oposta ao amor. Eu acho que nossa maior tragédia acontece quando deixamos de amar. A falta de amor: isso é que é o Inferno.

— O que acontece quando você comete um erro e fracassa em seu amor?

— Eu não vejo os erros como fracassos, pois nós podemos aprender com eles. O único fracasso é não tentar outra vez, e mais outra, de formas novas e inventivas. Se você simplesmente repetir o que fez antes, vai obter sempre o mesmo resultado. Portanto, você nunca fracassa no amor: o único fracasso é não amar.

— Como posso saber quem merece minha ajuda e meu amor? — perguntou o Jovem Príncipe.

— É comum nós ajudarmos apenas aqueles que merecem nossa ajuda. Isso está errado, pois nossa tarefa não é julgar méritos, uma coisa dificílima de fazer, mas apenas amar. Assim como acontece com o perdão, aquele que mais ama é quem se torna mais rico. Afinal, se Deus ama todos os seres humanos de forma igual, por que iríamos excluir alguns e preferir outros? Tenha piedade daqueles que se aproveitam de sua bondade. Para finalizar — disse eu —, se você dedicar a vida a extrair o que há de melhor nas pessoas, vai acabar encontrando o que há de melhor em você mesmo.

— O medo da morte — perguntou o Jovem Príncipe subitamente — não impede a pessoa de ser feliz?

— Há muitas pessoas que se preocupam com o fim de suas vidas; elas deviam se preocupar mais em dar um verdadeiro significado à vida que têm, uma verdadeira utilidade. Eu acredito que alma nenhuma está realmente perdida e que todos nós iremos alcançar nosso destino. Mas se formos julgados algum dia, eu não tenho dúvida de que a pergunta vai ser: “Quanto você amou?” Ninguém vai nos perguntar: “Quanto você ganhou?”, e sim, “Quanto você deu aos outros?” A grandeza aparente não terá importância, somente aquilo que doamos é que vai contar.

Depois de uma breve pausa, acrescentei com mal contida emoção:

— Quer saber de uma coisa? O amor é mais forte até que a morte. Tive um irmão que adorava asas. Tinha asas de todas as cores. Dizem que morreu, mas ele ainda está vivo em nossos corações. Portanto, acredito que os únicos indivíduos que estão realmente mortos são aqueles que nunca amaram e que não desejam mais amar.