O Retorno do Jovem Príncipe

A. G. Roemmers · Capítulo 10 de 23

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O Retorno do Jovem Príncipe

Capítulo IX

 

— Como você vê, é uma história muito triste, e não há muita coisa que você possa fazer para me ajudar — concluiu o Jovem Príncipe.

Eu estava tão entretido com suas aventuras que, quando ele terminou o relato, tive a impressão de que o carro estava no piloto automático.

— Uma história triste, realmente — disse eu. — Mas você está enganado em pensar que eu não sou capaz de te ajudar. Há muita coisa que eu posso fazer!

O Jovem Príncipe logo adotou uma posição defensiva.

— Mas você não entende? Eu perdi o único amigo que podia fazer as estrelas sorrirem, o carneiro que passeava comigo à tarde e a flor que me alegrava com seus joguinhos e com sua beleza. Você não compreende que eu nunca mais verei a erva que era minha protetora e conselheira, nem meu pequeno planeta, que com certeza vai explodir por causa das erupções vulcânicas? E você acha que pode me ajudar? — perguntou ele, me desafiando.

Notei que a súbita irrupção emocional trouxera um pouco mais de cor a seu rosto.

— É verdade — disse eu, confiante. — Posso ajudar você a recuperar tudo o que perdeu e até mais. Porque, afinal de contas, o que você perdeu foi a alegria de viver, a própria felicidade. Mas eu só posso ser útil se você permitir e estiver disposto a ajudar a si mesmo.

Ele olhou para mim com ar duvidoso, mas não disse nada. Então prossegui:

— Esta é a primeira dificuldade importante que você enfrenta em sua vida, e tem de resolvê-la. A verdade é que, apesar de se sentir arrasado, isso não é o fim do mundo. Você tem a seu favor o fato de querer superar essa situação, o que é uma exigência tanto da sua natureza espiritual quanto do seu instinto animal.

— Como você pode estar tão certo de que eu tenho determinação suficiente para resolver meu problema, quando eu mesmo não acho que tenho?

— Essa é uma boa observação — disse eu, congratulando-me comigo mesmo por ter captado a atenção dele. — Vou lhe dizer por que estou tão certo. Em primeiro lugar, você teve coragem para abandonar a aparente segurança do seu pequeno planeta e sair pelo universo, em busca de uma solução. Em segundo lugar, mesmo se sentindo no final de suas forças, você se deitou em um lugar onde poderia conseguir ajuda. Se você tivesse se deitado no meio da autoestrada ou no meio da planície, provavelmente agora estaria morto. Em terceiro lugar, nossa primeira conversa foi sobre problemas e dificuldades, o que significa que você está tentando obter informações úteis para sair dessa situação.

Percebendo que estava conseguindo a atenção e a confiança dele, continuei:

— Mais cedo, nós conversamos a respeito de como analisar e resolver problemas. Se você estiver disposto, seria bom examinar sua dificuldade agora. Estou dizendo “dificuldade” porque sei que você pode superá-la. E embora você não consiga acreditar, a chave para resolver o problema está dentro de si mesmo.

Sua reação foi imediata.

— Como você pode dizer isso, quando minha vida era tranquila e feliz até eu descobrir a falsidade do meu amigo? Esta, e somente esta, é a causa de toda a minha infelicidade — respondeu o Jovem Príncipe, indignado.

— Você está colocando o problema fora de você e culpando outra pessoa pela sua situação, o que é uma ótima maneira de não resolver o assunto — disse eu calmamente. Seus olhos pareciam estar me queimando. Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, prossegui: — Mais tarde vou lhe mostrar que essa suposta falsidade não foi o que você pensa ou, pelo menos, não teve a intenção negativa que você imagina. Mas vamos supor, por enquanto, que seu amigo enganou você. Isso justificaria sua raiva, sua desilusão e até sua tristeza, mas não pode explicar o fato de você ter parado de se deslumbrar com a beleza da flor, a poesia dos crepúsculos e a música das estrelas.

Com a atenção do meu ouvinte garantida, continuei tranquilamente.

— A suposta falsidade do seu amigo teve um efeito tão devastador na sua vida porque estava baseada em uma coisa extremamente frágil. É provável que o carneiro já não pudesse mais consolar você, e a flor, de tão egocêntrica, não fosse capaz de lhe trazer satisfação. É óbvio que as tarefas do dia a dia já não preenchiam sua alma, e você não tinha nenhuma outra atividade que lhe servisse como refúgio temporário. Sua realidade talvez tivesse se tornado insípida. A única coisa que mantinha sua tranquilidade era a saudade que sentia do seu amigo ausente. Quando esse único apoio se esfarelou, tudo acabou desmoronando. Na verdade, seu mundo já estava vazio. Como a flor, que já tinha murchado antes de você partir. A suposta falsidade do seu amigo foi apenas o detonador, mas não foi de forma nenhuma responsável pela sua situação atual. Quanto mais cedo você aceitar isso, mais rapidamente vai progredir.

Pude sentir que uma luta entre a justificativa e a aceitação começava a ser travada dentro dele. Apressei-me então a acrescentar o que havia notado como observador externo.

— Se você tivesse sido mais seguro de si mesmo, mais confiante em seus sentimentos, a erva não teria conseguido se introduzir com tanta facilidade na fenda que se abriu no seu coração, nem ter uma influência tão negativa em sua vida.

O Jovem Príncipe estava a ponto de protestar, provavelmente para defender a erva daninha, mas, tomando fôlego, retomei a palavra.

— Por que tantas vezes preferimos a pessoa que nos desilude àquela que nos oferece uma ilusão?

Sua momentânea perplexidade, ao ouvir minha pergunta, proporcionou-me a pausa necessária para que eu prosseguisse.

— Desconfie daqueles que destroem seus sonhos com a desculpa de que estão lhe fazendo um favor, porque geralmente eles não têm nada para oferecer em troca!

Perguntei a mim mesmo se não haveria alguma sensatez no antigo costume de se matar o arauto de más notícias. Ao longo dos anos, descobri que, na maioria dos casos, as notícias eram incorretas, não tinham a intenção que lhes era atribuída ou, como não havia nada a ser feito, eu teria preferido ouvi-las o mais tarde possível. Continuei então:

— Mais cedo ou mais tarde, todos os sonhos deixam de ser sonhos. Até mesmo o sonho da vida, em que nós acordamos na morte, ou vice-versa. Eu lhe digo sinceramente que seu amigo lhe deu o mais belo carneiro do mundo, o carneiro com o qual você sonhava, o único que iria adorar, o único que o acompanharia até seu pequeno planeta. Você não gostava da companhia dele durante o pôr do sol? Não lhe fazia companhia durante a noite para que ele não se sentisse sozinho, e para que você também não se sentisse sozinho? Não desconfiou de que ele era seu porque você é quem o tinha domesticado e que, portanto, você também pertencia a ele? Não há dúvida de que ele era muito mais real e vivo do que o animal que você viu na foto, porque esse era apenas um carneiro, enquanto o outro era o seu carneiro.

Naquele momento, entendi por que, quando viajo, não levo fotos de meus entes queridos: é porque a imagem que levo deles em meu coração é muito mais vívida.

Parei de falar, porque quando olhei para meu jovem companheiro, vi que seus olhos estavam cheios de lágrimas, como se há muito tempo ele estivesse com vontade de chorar.

— Muito obrigado — disse o Jovem Príncipe.

E ao pousar a cabeça em meu ombro para me dar um abraço, foi adormecendo aos poucos.

“ Por que tantas vezes preferimos a pessoa que nos

desilude àquela que nos oferece uma ilusão?”