O Retorno do Jovem Príncipe

A. G. Roemmers · Capítulo 12 de 23

Páginas do PDF

O Retorno do Jovem Príncipe

Capítulo XI

 

É impossível descrever as emoções que me assaltavam. Eu me sentia ultrajado, pois minha reação fora a habitual numa sociedade como a nossa, insensível a tais ocorrências. E mais: a maioria das pessoas, em nossa sociedade, nem mesmo teria parado. Eu também estava preocupado com o que poderia acontecer ao garoto, como se deixá-lo acompanhar outro ser humano fosse mais perigoso que deixá-lo no campo onde o encontrara. Percebi como agimos sob a influência do medo e da desconfiança, em vez de nos deixarmos guiar pelo amor que tantas vezes reprimimos. Nós, humanos, estamos condenados a viver ligados uns aos outros — ou abençoados por conta disso. Enquanto uma única pessoa estiver sofrendo, ninguém será totalmente feliz. Nada no mundo nos é estranho, nem a dor, nem a alegria, pois o mundo continua a ser um lugar de sofrimento, mesmo quando o prazer existe — e não deixa de ser prazeroso mesmo quando há dor. Quanto mais vivenciamos o sofrimento, mais apreciamos a felicidade. Eis por que não devemos sufocar os sentimentos de nosso coração: não devemos nunca viver como estranhos uns para os outros!

Enquanto a tarde majestosamente se transformava em trevas, um novo alvorecer despontou em meu coração. De repente, vi o Jovem Príncipe retornando sozinho. Parecia trazer uma coisa no colo. Quando chegou mais perto, vi que carregava um lindo filhote branco. Não consegui acreditar em meus olhos. O homem de quem nós acabáramos de tirar um companheiro amado nos deu uma nova vida de presente.

Foi um milagre do amor, e a primeira lição que o Jovem Príncipe me ensinou. Eu partilhara minha experiência com ele; e ele, como um verdadeiro professor, ofereceu-me em troca a sabedoria do silêncio. Jamais, como naquela ocasião, eu percebera tão claramente que cem manuais sobre o amor não valem um único beijo, nem cem discursos sobre o amor, um único gesto amoroso.

— É um filhote de kuvasz — disse o Jovem Príncipe. — Você sabia? Eles vêm do Tibete, mas hoje já são encontrados em alguns lugares da Europa. O homem acha que eu posso cuidar bem dele — explicou, sem parar de olhar e afagar seu novo amigo. — Vou lhe dar o nome de Asas, em homenagem ao meu amigo piloto, e porque ele é branco e macio como uma nuvem.

Sua voz adquirira uma doçura que antes não tinha. Confortados, fomos para o pequeno hotel onde passaríamos a noite. A partir daquele momento, com impressionante presteza, o Jovem Príncipe recuperou sua alegria natural.

Após o jantar, tivemos permissão para levar Asas para o nosso quarto. O filhote só se acalmou quando meu jovem amigo o levou para a cama e pousou sua cabeça ao lado da dele. Ambos logo adormeceram. Um leve sorriso surgiu nos lábios do Jovem Príncipe. E eu sabia que agora, quando ele vagueasse em seus sonhos, Asas estaria junto a ele.

“ Cem manuais sobre o amor não valem um único beijo,

nem cem discursos sobre o amor, um único gesto

amoroso.”