O Retorno do Jovem Príncipe

A. G. Roemmers · Capítulo 15 de 23

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O Retorno do Jovem Príncipe

Capítulo XIV

 

Assim que voltamos à estrada, o Jovem Príncipe se virou para mim e disse:

— Por favor, me diga como a gente faz para não se tornar uma pessoa séria.

Parecia que a ideia de sofrer esse tipo de transformação o estava deixando bastante preocupado.

— Eu tinha começado a falar — disse eu — sobre como algumas pessoas renunciam a seus sonhos e ideais e se concentram em obter posses e segurança. Às vezes a luta pelo sucesso e reconhecimento é deixada para o futuro, pois essas pessoas não têm coragem de ser elas mesmas, nem de enfrentar críticas por serem quem realmente são e seguirem sua verdadeira vocação. Outras vezes, você encontra indivíduos obcecados por disciplina, que procuram manipular e ordenar a realidade de acordo com sua própria posição. Eles julgam e classificam pessoas e coisas ao seu redor, colocando cada uma delas em um determinado escaninho físico e mental, de tal forma que elas não podem se movimentar. Assim, eles paralisam a ilimitada capacidade transformadora do universo e do amor humano. Se os pais se esforçassem para ensinar o amor a seus filhos como se esforçam para lhes incutir disciplina, este planeta seria um lugar muito mais agradável para se viver.

— Você está dizendo que disciplina em excesso não é bom? — perguntou o Jovem Príncipe.

— O que nós, humanos, normalmente entendemos como disciplina é impor nosso senso inferior de ordem sobre a ordem da natureza, que é divina e portanto superior. Os seres humanos precisam ter cuidado ao ordenar a natureza para seu próprio benefício, pois os resultados são muitas vezes o contrário do que pretendem: uma desordem natural se volta contra eles. A poluição do planeta, a extinção de espécies vegetais e animais, o desperdício de recursos naturais e tantas outras ocorrências são exemplos negativos da ordem e da disciplina humanas.

— Entendo o que você está dizendo. — O Jovem Príncipe balançou a cabeça pensativamente. — Em minha viagem anterior, encontrei um homem que achava que podia comandar as estrelas. Ele passava os dias contando e somando estrelas. Depois anotava o resultado e guardava o papel numa gaveta. Fazendo isso, ele acreditava que possuía as estrelas.

— Percebi que você já reparou como os números agradam os indivíduos sérios. Eles não ficam satisfeitos até saberem a altura exata de uma montanha, o número de vítimas em um acidente, ou quanto você ganha por ano, para mencionar só alguns exemplos.

— Eu ouvi dizer que, neste planeta, as próprias pessoas são ordenadas por números — disse o Jovem Príncipe, apreensivo.

Sua observação me fez pensar nos números dos passaportes, das carteiras de identidade, dos telefones, dos cartões de crédito...

— É verdade. Somos tantos na Terra que parece não haver outra forma de nos identificarem. Nomes não bastam — acrescentei tristemente.

— Me mostre onde você leva os números — pediu o Jovem Príncipe com curiosidade, achando que eu os tinha em alguma parte do corpo.

— Não, os números não são tatuados em nós — disse eu com um sorriso, entregando-lhe alguns dos documentos que tinha na carteira.

Minha expressão mudou quando me lembrei de alguns casos em que tal aberração havia ocorrido, casos que eu não saberia explicar a ele.

— Talvez num futuro próximo — disse eu, pensando em voz alta — algum código genético venha a ser a única identificação para o nosso corpo. Peço a Deus que o resultado não seja a restrição da nossa liberdade espiritual.

— Como assim? — perguntou o Jovem Príncipe, percebendo a preocupação em minha voz.

— Quero dizer que, desde que concebeu a matéria e o início da vida, Deus parece ter imaginado os seres humanos como o último passo na evolução da natureza. Um ser espiritual, com uma centelha de livre-arbítrio, autoconsciência e uma capacidade criativa que às vezes chamamos de alma. É por esse motivo que os seres humanos não podem dar o melhor de si, como seu amor e sua força criativa, se não estiverem livres.

— Deus? O que é Deus? Você O mencionou antes, como se Ele fosse a causa de muita coisa que ocorre aqui e pudesse solucionar muitas delas.

— Quem é Ele? Eu nem sei se devemos perguntar “quem” ou “o que” Ele é.

— Mas você fala dEle...

— Sim, sim — interrompi. — Como poderia não falar dEle...

Respirei profundamente, deixando passar alguns minutos, enquanto o Jovem Príncipe me olhava perplexo.

— Se eu soubesse quem é Deus — prossegui —, eu saberia tudo. Já disseram que Ele é o que é, é seu próprio início e fim. Portanto, é o início e o fim de tudo o que existe. Outros O imaginam como um contínuo renascimento, uma infinita sucessão de causas e efeitos. Há aqueles que O definem conforme suas próprias noções de perfeição, como a máxima bondade ou a máxima beleza; outros se referem a Ele como a Palavra, o Criador, a Verdade ou a Sabedoria Suprema.

— Está parecendo — observou o Jovem Príncipe — que o que as pessoas ignoram sobre Deus é mais que o que elas sabem sobre ele...

— Eu também penso assim, pois nossa limitada inteligência humana não consegue abarcar a noção de infinito. O que me deixa envergonhado é que ainda hoje os seres humanos, em sua ignorância, continuam a matar uns aos outros por causa das diferenças entre suas respostas. — O Jovem Príncipe parecia aturdido, portanto o tranquilizei com um sorriso. — Eu não sou primitivo assim!

— E existem outros motivos para que as pessoas se matem entre si? — perguntou ele, querendo saber o que deveria esperar de nosso intolerante e violento planeta.

— Sim, muitos, mas nenhum deles provoca ódios tão exacerbados quanto o medo de que a ideia de alguém sobre a divindade seja questionada. Mas eu acho que, ultimamente, uma coisa muito pior vem acontecendo: as pessoas já não se perguntam sobre Deus nos espaços silenciosos de suas mentes. É como se elas não quisessem mais saber por que estão vivas.

— E o que você acha? — perguntou o Jovem Príncipe, esperando que eu pudesse lançar alguma luz sobre um assunto que lhe parecia tão obscuro e confuso.

— Eu prefiro sentir Deus como uma necessidade de me unir a outras criaturas vivas, uma energia de amor que sustenta cada um de nós e todo o universo.

Essas palavras pareceram tranquilizar o Jovem Príncipe, e ele permaneceu por algum tempo em silêncio, pensando.

— Eu imagino que os animais também não poderão fazer o melhor que podem, se os trancarmos em uma jaula — disse o Jovem Príncipe, acariciando a cabeça do adormecido Asas, talvez se lembrando de seu carneiro fechado em uma caixa.

— Existem aqueles que trancam seus filhos ou outras pessoas em jaulas com grades feitas de exigências, expectativas e temores — disse eu —, sem entender que tudo o que é imposto como obrigação necessariamente provoca resistência. A disciplina humana, quando leva ao imobilismo e à falta de espontaneidade, vai de encontro à renovação que é o traço distintivo da vida. Afinal, nada é mais organizado e seguro que um cemitério.

— Então a ordem não é necessária? — perguntou o Jovem Príncipe, ainda confuso com o assunto.

— Há uma ordem externa da qual precisamos para nos sentir confortáveis e cuja intensidade varia segundo cada um de nós. Mas a ordem mais importante é a do espírito, que precisa estar orientada para Deus, já que viemos dele e iremos ao encontro dele. Não se trata de uma ordem sedentária, mas de uma constante evolução de nosso ser espiritual.

— Como você sabe tanto? — inquiriu o Jovem Príncipe, surpreso com minha capacidade para encontrar respostas para suas perguntas.

— Através da minha experiência e intuição — respondi.

— E como você sabe que está certo?

— Através da minha experiência e intuição — repeti.

— E você nunca se engana? — perguntou o Jovem Príncipe, admirado.

— Claro que cometo erros, mas acrescento os erros ao meu estoque de experiências. Veja bem, eu não posso dizer que aquilo em que acredito é a verdade absoluta; só posso dizer que é um pouco de sabedoria que me tem sido útil na vida. Você deveria fazer a mesma coisa. Não acredite em nada do que eu digo. Apenas preste atenção e veja se funciona para você.

— E onde eu encontro essa experiência? — quis saber o Jovem Príncipe.

— Na vida — respondi. — Minha experiência é todo o tempo que eu tive para cometer erros e minha capacidade para superá-los. Se você for inteligente, poderá incorporar os erros cometidos pelos outros à sua experiência, sem precisar repeti-los. Livros, professores e as histórias de outras pessoas podem lhe dar algumas pistas, mas no final você mesmo é que terá de decidir o que deve assimilar.

Vi em seus olhos que tudo isso parecia um tanto vago para ele. Os jovens, sem dúvida, aprendem mais com nossos exemplos que com nossas conversas.

Nesse momento, a estrada começou a ladear um rio que corria no fundo de um cânion. De ambos os lados, as encostas dos Andes exibiam formações rochosas estranhas e irregulares. Uma delas, em particular, atraiu nossa atenção. Era uma rocha alongada que se projetava da crista de uma colina. Um sinal ao lado da estrada informava seu nome: “Dedo de Deus”.

Sorri ao pensar em como alguém havia se apressado a dar um nome sagrado à rocha, antes que os habitantes locais encontrassem outras semelhanças.

Quanto a mim, eu achava mais fácil imaginar, como Michelangelo, que o dedo de Deus se estendia em direção ao homem. Então me veio à mente o exemplo de que precisava para me explicar melhor.

— A experiência — disse eu, atraindo a atenção de meu amigo — é como um mapa. Infelizmente é um mapa incompleto no que diz respeito ao futuro. É por isso que, todos os dias, temos de confirmar as suposições que se mostraram certas e descartar as que se mostraram erradas.

— E a intuição? — perguntou o Jovem Príncipe, implacável, deixando claro que, naquele carro, ninguém iria me elogiar pela eficiência de meus exemplos.

— A intuição é a primeira percepção que você tem de alguém ou de alguma coisa. Geralmente está certa. Infelizmente, nossa sociedade supervaloriza o conhecimento obtido por dedução racional, que é mais lento e difícil de ser aplicado aos assuntos humanos, apesar de ser útil na ciência. O conhecimento intuitivo, ao contrário, é instantâneo e abrangente.

— Acho que minha flor era intuitiva — observou o Jovem Príncipe —, pois ela sabia o que eu ia falar antes que eu falasse. Talvez seja por isso que às vezes os seres humanos e as flores não se entendem.

“ Os seres humanos não podem dar o melhor de si, como

seu amor e sua força criativa, se não estiverem livres.”