O Retorno do Jovem Príncipe
Capítulo XVI
Naquela noite, dormimos em uma bela pousada às margens de um lago, cercada por um grande bosque. Fora construída em madeira e pedra, e tinha recantos agradáveis, com lareiras acesas. Todos os quartos eram decorados com papel de parede, cujos temas e cores combinavam com o nome de cada um. O nosso recebera o nome de “A Pastagem”: suas paredes exibiam imagens de ervas e flores, de um verde suave. Em função dos regulamentos da pousada, Asas dormiu sozinho naquela noite, em um pequeno, mas aconchegante cubículo. Eu sabia que não seria fácil, para meu amigo, separar-se física e emocionalmente do cachorro, mesmo que só por uma noite.
Quando fomos jantar, não fiquei surpreso ao encontrar a mesma família barulhenta que encontráramos no almoço, pois as possibilidades de alimentação e hospedagem não eram muitas naquela área. Nossa entrada, é claro, provocou o mesmo burburinho de antes, provando a verdade do ditado: “Faça o que fizer, você nunca irá agradar a todo mundo.” Ao longo da refeição, entretanto, provavelmente devido à fadiga tanto das crianças quanto dos adultos, a atmosfera na mesa deles foi se tornando tão desagradável que começamos a nos sentir incomodados com a manifesta agressividade e violência mal contida. A criança mais nova chorava desconsoladamente. Outra recebera a punição de não participar da refeição; uma terceira estava sendo obrigada a terminar um prato de peixe, do qual obviamente não tinha gostado. As outras duas mantinham os olhos em seus pratos, sem se atrever a comentar as punições dos irmãos. Tudo isso perturbou muito meu jovem amigo. Desacostumado a querelas de família, ele não conseguia comer. Foi então que realizou o segundo milagre de nossa jornada. Levantando-se da mesa, foi buscar Asas, que trouxe nos braços como um lindo bebê branco e ofereceu de presente às crianças. Com os olhos faiscantes de alegria, elas estenderam as mãos para acariciar o bichinho. O gesto do Jovem Príncipe e sua atitude foram tão comoventes que os pais não souberam o que dizer. Por fim, decidiram recusar a oferta. Mas quando sorri e assenti com a cabeça, o assunto foi resolvido: no dia seguinte, haveria oito passageiros no carro da família.
A partir desse momento, a felicidade retornou à sala de jantar, e meu jovem amigo conseguiu saborear sua refeição, frequentemente interrompida por acenos e risos das crianças, e pelos latidos deliciados de Asas, que agora tinha cinco donos dispostos a brincar com ele e satisfazer suas necessidades.
— Foi maravilhoso você ter feito isso, ainda mais depois que aqueles garotos caçoaram de você hoje de manhã — disse eu, curioso para saber qual seria a reação dele.
Ele disse:
— Você me fez ver que eu provoquei aquelas crianças com minha aparência incomum. Não é errado as crianças serem espontâneas em suas reações. De qualquer forma, eu já não aguentava mais a tensão e senti vontade de fazer alguma coisa para acabar com aquilo. Asas ficou ao meu lado quando eu mais precisei, me dando felicidade. É bom que ele agora possa alegrar outros corações.
Com essa experiência reconfortante, o segundo dia de nossa jornada chegou ao fim. Uma vez mais, senti que, com um simples gesto, o Jovem Príncipe superara todas as minhas muitas palavras.