O Retorno do Jovem Príncipe
Capítulo XX
Como eu deixara a janela aberta, para me sentir mais próximo de meu jovem amigo, acordei com as primeiras luzes do dia. Vesti-me rapidamente e, sem tomar o café da manhã, dirigi até o lugar onde havíamos nos separado.
O desconforto que eu sentia na boca do estômago desapareceu quando o vi tagarelando com o mendigo, como se fossem velhos amigos.
— Olá! — disse o Jovem Príncipe, adiantando-se para me receber, bem-disposto como se tivesse dormido sobre um colchão de pétalas de rosas.
— Olá! — respondi. Um tanto curioso, perguntei: — Me diga, qual é a história dele?
— Ele é uma boa pessoa, se formou em uma universidade e tinha uma boa posição econômica. Durante um check-up de rotina, foi diagnosticado com uma doença terminal: só tinha dois ou três meses de vida. Ele saiu do consultório em completo desespero e, para poupar a família de sofrimentos, resolveu dar fim à própria vida. Felizmente, não teve coragem, ou melhor, a covardia de fazer isso. Acabou tomando o primeiro trem que encontrou e veio para este lugar, onde desistiu de tudo.
Um sorriso surgiu no rosto do Jovem Príncipe, quando ele percebeu meu assombro — uma prova de que eu, mais uma vez, avaliara mal uma pessoa e uma situação.
Mas ele continuou a história, sem mencionar que notara mais uma falha de julgamento minha.
— Levei a noite inteira para convencê-lo de que ele deveria voltar para casa e deixar que seus familiares o cerquem de carinho, talvez retribuindo um pouco do que receberam. O amor, mesmo que não seja eterno, pode ser infinito enquanto dura.
— De fato — disse eu, comovido com a história. — Já ouvi muitas vezes que os últimos momentos de vida podem ser mais intensos que todos os anos anteriores. Acho que o tempo não é, necessariamente, linear. Que maravilha seria se pudéssemos viver cada dia como se fosse o último! Quantas coisas iríamos fazer, e quantas iríamos nos recusar a fazer! E também estou convencido de que a morte só vem até nós depois que aprendemos tudo o que viemos ao mundo para aprender. — Finalmente, perguntei ao meu amigo: — O que você vai fazer agora?
— Vou acompanhá-lo até sua casa e ficarei com ele e sua família enquanto precisarem de mim. De qualquer maneira, a gente nunca pode descartar a possibilidade de um milagre — disse ele sorrindo. E acrescentou com uma piscadela: — Às vezes os diagnósticos estão errados.
Com essas palavras, ele me abraçou. Senti uma corrente elétrica percorrer meu corpo, como se cada artéria, cada nervo e cada célula tivessem sido carregados com uma nova energia. Por um instante, tive a sensação de estar suspenso no espaço. Depois, ainda um tanto abalado, dei também uma piscadela e disse:
— É verdade, nunca devemos descartar a possibilidade de um milagre.
O mendigo parecia cheio de uma nova vitalidade. Seu rosto, antes sombrio e macilento, adquirira uma expressão angelical e visionária.
Enquanto ambos se afastavam, tive a impressão de que transportavam uma nova luz pelas ruas da cidade ainda adormecida.
De súbito, comecei a ver tudo de forma diferente. Senti que fora o Jovem Príncipe quem me guiara com suas perguntas, das quais já sabia as respostas. Era eu quem deveria tentar não ser massacrado por meus problemas. Era eu quem deveria não me tornar um fantasma ou uma pessoa séria. Era eu quem deveria sentir mais afeição por um animal que por uma máquina; eu quem deveria viver no presente, deixando de me agarrar ao passado e ao futuro; eu quem deveria me esquecer de ter e me concentrar em ser; quem deveria deixar de me emaranhar nos meios para me concentrar nos fins; quem deveria crescer no amor para ser feliz.
O Jovem Príncipe me permitira descobrir o melhor que havia nele apenas para que eu pudesse descobrir o melhor que havia em mim.
Foi um milagre que, em três dias, transformou-me dos pés à cabeça. Um desses prodígios colossais que ocorrem sem que ninguém os note, pois os milagres do amor são imensos e simples assim.
Lágrimas de alegria turvaram minha visão. Era minha hora de dizer “obrigado”, embora ele estivesse distante demais para me escutar. Mesmo assim, naquele exato momento, ele se virou e sorriu para mim. Mesmo àquela distância, fui ofuscado por sua luz branca. Percebi então que todo o universo sorria com ele.
“ Era eu quem deveria viver no presente, deixando de me
agarrar ao passado e ao futuro.”