O Retorno do Jovem Príncipe

A. G. Roemmers · Capítulo 5 de 23

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O Retorno do Jovem Príncipe

Capítulo IV

 

Como eu tinha encorajado o jovem a formular perguntas, nada impediria que ele continuasse a fazer isso até o final da viagem. Decidi então que, como a estrada era longa e monótona, aquela conversa singular poderia ser uma fonte de entretenimento se, em vez de considerar as perguntas uma espécie de interrogatório, eu conseguisse transformá-las em um divertido jogo intelectual. Curiosamente, essa mudança de percepção fez minha fadiga desaparecer como que por mágica, e me vi esperto e alerta, disposto a deixar minha imaginação perambular à vontade.

— Você disse — prosseguiu o jovem, recostando-se no assento — que só a chave não é suficiente, que temos de encontrar o método correto para usá-la. Como vou descobrir esse método?

— Sim, realmente — comecei, com renovada energia, enfatizando minhas palavras com um gesto de mão. — O melhor método ou sistema para resolver um problema é não considerá-lo um problema, apenas uma dificuldade ou um desafio. Claro que o obstáculo continua o mesmo, mas agora é visto com uma conotação positiva. Você deve agradecer à Providência por encontrar dificuldades de vez em quando.

— Agradecer pelas dificuldades? — perguntou o jovem, incrédulo.

— Sim, pois isso lhe permite crescer e galgar o caminho da perfeição. Se os obstáculos em nossa vida forem vistos sob essa luz favorável, você perderá menos tempo reclamando deles e levará uma vida mais plena.

Como o jovem estava prestando atenção, prossegui.

— Outra coisa que você pode fazer, quando encontrar a dificuldade, é reconhecer que ela existe e observá-la sob diferentes ângulos; ou então dividi-la em partes menores, em dificuldades menores.

O jovem assentiu pensativamente e disse:

— Eu fui obrigado a solucionar em partes uma grande dificuldade.

— Que dificuldade? — perguntei com óbvia curiosidade.

— Seria impossível chegar à Terra de uma vez só...

Achei difícil manter a boca fechada enquanto ele continuava:

— Foi por isso que tive de dividir a distância e fazer sete paradas em sete asteroides.

Concluí que, mesmo que tivesse perdido o juízo, aquele garoto demonstrava uma imaginação fértil.

Após um momento de silêncio, durante o qual pareceu perdido em lembranças, ele disse:

— Em minhas viagens, encontrei alguém que tinha um problema sem solução.

— Ah, é? — comentei distraidamente.

— Era um homem que bebia para esquecer.

— Para esquecer o quê?

— Que estava cheio de vergonha e sentimentos de culpa.

— Por quê? — perguntei.

— Porque bebia — respondeu o jovem, fechando aquele intrigante círculo.

— O sentimento de culpa — disse eu — nos paralisa e nos impede de resolver muitos problemas. Assumir a responsabilidade o faz desaparecer e nos permite agir de forma mais positiva, compensando ou reparando o prejuízo causado. Ou simplesmente seguindo em frente, sem repetir o comportamento que provocou o sentimento de culpa.

— Mas se você fez alguma coisa errada — retrucou ele — como pode evitar o sentimento de culpa?

— O sentimento de culpa não ajudou o seu bêbado. É uma punição inútil, que esgota as forças dele. O homem só continua se punindo porque parou de amar a si mesmo. Você não lhe perguntou por que ele começou a beber, em primeiro lugar?

— Não — disse o jovem de forma hesitante.

Finalmente sorri, sabendo que seria mais fácil encontrar a tumba de um faraó desconhecido do que uma pergunta que aquele garoto ainda não tivesse feito.

— A solidão, não ser amado, alguma frustração... não sei qual pode ter sido a causa, mas não há dúvida de que o vício de beber é apenas uma consequência. Aí você tem um exemplo comovente dos efeitos destrutivos de não se superar uma dificuldade.

— Que ingenuidade minha ter julgado ele como julguei! — disse o jovem, arrependido. — Talvez meu amor pudesse ter sido a chave para abrir a porta pela qual ele nunca passou.

— Como nossa vida seria mais positiva — acrescentei —, se parássemos de nos julgar e julgar os outros, se não reclamássemos sobre todos os tipos de inconveniências e deixássemos de torturar a nós mesmos, perguntando se merecemos ou se poderíamos ter evitado as dificuldades que nos confrontam. E se, em vez disso, aplicássemos nossos talentos para solucionar os problemas e aceitar o que não pode ser mudado!

O jovem estava me escutando com atenção; continuei então a pensar em voz alta.

— Você vai descobrir que, muitas vezes, ao mudar seu ponto de vista, o obstáculo desaparece, pois a única dificuldade está dentro de nós, em nossa visão limitada e inflexível.

— A dificuldade está dentro de nós? — repetiu o jovem com ar incrédulo, olhando para sua barriga.

— Na maioria das vezes é assim — respondi. — Mas a solução também está dentro de nós. O mundo dos pensamentos carrega o mundo material em sua esteira. Basta imaginar coisas, e elas provavelmente existirão para você. Até certo ponto, você cria a realidade que o cerca, como se fosse um pequeno deus de suas redondezas.

— Como isso é possível? A realidade neste planeta não é a mesma para todas as pessoas? — perguntou o jovem em tom de surpresa.

— Talvez a realidade seja única em seu todo — refleti. — Mas cada um de nós só percebe a fração que nossa consciência registra através de nossos sentidos e nossas afinidades. Ao filtrar a realidade e admitir apenas algumas ideias, pessoas e situações que concordam conosco, estamos de certa forma refletindo nossa própria imagem.

— Você quer dizer que as pessoas nunca conhecem a realidade, mas apenas a si mesmas através dessa realidade?

— Isso é bastante óbvio quando você considera as vastas limitações de nossos sentidos, que ficam claras quando pensamos nas máquinas que captam ondas de alta e baixa frequência que nossos ouvidos não percebem, ou nos microscópios e telescópios que aumentam nossa capacidade visual. Mas nem sempre entendemos com igual clareza que a observação de nossas redondezas e dos eventos que nos afetam é um dos melhores métodos de autoconhecimento, pois tudo o que nos perturba no mundo externo é um sinal da falta de reconciliação com um princípio análogo em nosso interior.

— Por que você usa termos tão difíceis? — reclamou o jovem.

— É como se a avareza de outra pessoa só pudesse perturbar alguém que é avarento, pois um indivíduo generoso consideraria esse atributo apenas um fato, sem ser muito afetado por ele — disse eu, notando que meu companheiro de viagem estava começando a entender. — Da mesma forma, aqueles que lutam contra maus vizinhos e membros de sua família, contra a injustiça de seus patrões, contra a sociedade e muitas outras coisas, sejam certas ou erradas, estão na verdade lutando contra si mesmos — disse eu, sintetizando minha ideia.

— Se estão esgrimindo contra um espelho, quem eles vão vencer? — perguntou o atônito jovem.

— O problema dessas pessoas é não entenderem que quem entra em conflito com o ambiente que o cerca acaba sempre perdendo — concluí. — A maior parte do sofrimento humano resulta da resistência às circunstâncias que nos cercam e dos atritos entre seres humanos e as leis deste mundo. O homem sábio está em harmonia com tudo o que existe. Enxerga a realidade e reconhece que tudo o que existe é bom. Ele já não enxerga os atritos. Sabe que não há nada a ser melhorado neste mundo, mas há muito a ser melhorado em cada pessoa.

— Tudo o que existe é bom pelo simples fato de que existe? Por que você sempre torna as coisas tão difíceis? Por favor, me dê um exemplo que eu possa entender — pediu meu jovem acompanhante.

— Quando você empurra uma parede com toda a sua força — comecei —, pode sentir a parede resistindo com a mesma força. Se aumentar a pressão, a parede aumenta a resistência. A solução é tirar as mãos dela. A pressão desaparece por si mesma. Quem reconhece que a parede tem direito de existir, não precisa empurrá-la, nem será afetado pela existência dela.

— Tudo bem — disse o jovem —, mas se o que você disse sobre conhecer uma parte da realidade é verdade, então cada pessoa vive em seu mundo particular, e existem tantos mundos quanto pessoas.

— Pode ser mais fácil se você imaginar a coisa como peças em um quebra-cabeça. Juntas, elas formam uma realidade maior do que cada peça individual. A maravilha disso é que cada pessoa é capaz de mudar e transformar o mundo de acordo com sua percepção, sem ter de lutar e sem ajuda externa.

— Entendo o que você quer dizer — interrompeu o jovem. — Se eu vejo um rosto hostil no espelho, tudo o que preciso fazer é sorrir.

— Exatamente — concordei. — Da mesma forma, se você tiver um vizinho desagradável, deve tentar ser um vizinho melhor; se quiser ter um bom filho, comece a ser um pai melhor, ou vice-versa. O mesmo se aplica a maridos, esposas, patrões, empregados. Só existe uma maneira de mudar o mundo: mudar a si mesmo.