O Retorno do Jovem Príncipe
Capítulo XII
Na manhã seguinte partimos cedo, impressionados com a imensidão que se abria diante de nós. Apesar da secura, a paisagem tinha seus encantos, talvez porque levássemos conosco o desejo de admirá-la. Distraidamente, o Jovem Príncipe afagava Asas, que se aninhara em seu colo. Eu podia perceber que alguma coisa o preocupava, mas respeitei seu silêncio. Depois de algum tempo, ele disse:
— Eu não quero ser uma pessoa séria.
— Que ótimo — respondi.
— Mas eu vou crescer — continuou ele.
— Sim, certamente — concordei.
— Nesse caso, como posso crescer sem me tornar uma pessoa séria? — perguntou, revelando o que o preocupava.
— Boa pergunta — disse eu. — Tão boa na verdade que nunca encontrei uma resposta adequada para ela. Quando somos jovens, saímos pelo mundo, um mundo muito diferente daquele onde vivíamos com nossos pais — pelo menos para os felizardos entre nós que ouviram contos de fadas e histórias de príncipes e castelos encantados. Então, começamos a encontrar egoísmo, incompreensão, agressividade e falsidade. Tentamos nos defender e preservar nossa inocência, mas a injustiça, a violência, a superficialidade e a falta de amor continuam a nos assombrar. E nosso espírito, em vez de espalhar luz e felicidade ao redor, começa a se recolher e se ocultar no fundo de nós. E chega o momento em que o mundo com o qual sonhamos em nossa juventude começa a tremer diante do avanço implacável da realidade. Existem aqueles que, neste ponto, descartam seu tesouro de sonhos e ancoram suas vidas na segurança ilusória do pensamento racional. Viram indivíduos sérios, que adoram números e rotinas, que, por sua vez, lhes dão uma aparente segurança. Entretanto, como a segurança nunca é abrangente, eles jamais conseguem ser felizes. Então começam a acumular posses, mas sempre há algo faltando. Possuir coisas não os torna felizes, pois os afasta da simples existência. Eles valorizam os meios e não os fins.
— Então por que, se isso não faz com que sejam felizes, os adultos dedicam a maior parte do tempo a obter mais coisas? — perguntou o Jovem Príncipe sensatamente.
— Pensar que a felicidade depende de se possuir alguma coisa é uma autoilusão reconfortante. Como depende de ter, não de ser, buscamos algo que está fora de nós. Assim, não precisamos olhar para nosso interior. De acordo com essa forma de raciocínio, podemos ser felizes sem mudarmos nossa maneira de ser. Basta obter isto e aquilo.
— Mas as pessoas não se dão conta dessa ilusão? — perguntou o Jovem Príncipe, achando difícil acreditar que a humanidade pudesse ser tão cega.
— O que acontece, meu jovem amigo, é que nossa sociedade multiplicou tremendamente a quantidade de coisas que podem ser adquiridas. E enquanto não obtêm até a última delas, as pessoas não percebem que tomaram o caminho errado. Elas se agarram a qualquer possibilidade, por menor que seja, contanto que isso signifique não ter de mudar. O problema é que, quando conseguem adquirir a última coisa, já perderam a primeira. São como aqueles mágicos que põem vinte piões para girar ao mesmo tempo, sem deixar nenhum parar. Mas os mágicos só têm vinte! Além disso, quando os indivíduos adquirem alguma coisa, logo querem mais uma. Aquela que pensavam que seria a última já não é a última. Então, passam o resto da vida nessa busca infrutífera, pulando de uma coisa para outra, como se fossem pedras no fundo de um rio que eles jamais conseguirão atravessar. Aqueles que buscam posses geralmente estão atrelados ao futuro. Nunca aproveitam o presente, pois toda a sua atenção está focada em uma coisa que deve acontecer em seguida.
— O que eles deveriam fazer? — perguntou meu jovem amigo, acariciando Asas.
— Apenas mergulhar na realidade da existência e se deixar levar pela corrente. Devem se concentrar em viver, sentir e amar cada momento, sem ficarem tão obcecados com o objetivo final da viagem. Afinal de contas, o sentido da existência é exatamente sentir. Quando os obstáculos se apresentam, suas formas podem ser adaptadas para outras formas, permitindo que as pessoas reafirmem sua essência e sigam seu caminho, assim como um rio modifica a forma de seu leito enquanto segue seu curso. O mais importante é estar plenamente vivo, com os sentidos receptivos e com capacidade para amar, aproveitar a vida e criar, aqui e agora, sem ficar atrelado ao passado nem ao futuro.
— Então devemos renunciar às nossas lembranças? — atalhou o Jovem Príncipe, pois as lembranças da flor e de seu amigo ainda eram importantes para ele.
— Não, pelo contrário. As lembranças agradáveis e as experiências gratificantes podem reconfortar você em momentos de solidão e dificuldade. O que você deve evitar é se apegar a esse passado seguro e se prender a ele, negando a si mesmo a experiência do presente. O passado é certo, porque está encerrado, morto. Mesmo assim, existem aqueles que preferem a calma e a segurança da morte às incertezas da vida, com suas possibilidades alternadas de sofrimento e alegria.
Após alguns momentos, acrescentei:
— Outro modo de fazer as lembranças conspirarem contra sua felicidade presente é querer sentir a mesma coisa de novo. Isso nunca irá acontecer. Assim como a água de um rio nunca é a mesma, as situações da vida nunca se repetem. Mas é incrível como tantas pessoas caem na armadilha de tentar reviver as mesmas experiências. Essa atitude as impede de aproveitar as experiências novas, tão ou mais agradáveis que as passadas. Nisso, lembram os animais que retornam ao lugar onde encontraram alimento antes até morrerem de fome, simplesmente porque não querem procurar um pouco mais.
Permanecemos em silêncio por um bom tempo, mergulhados em nossos pensamentos. Um dos méritos menos valorizados de uma paisagem é que ela sempre mantém uma respeitosa distância. Quando o Jovem Príncipe falou, suas palavras me surpreenderam.
— Obrigado — disse ele.
— Por que você está me agradecendo? — perguntei.
— Porque você me salvou da infelicidade.
— Como assim? — indaguei.
— Bem, eu estive pensando sobre o que você falou e descobri que havia um pensamento enraizado em minha mente. Era o seguinte: eu nunca seria realmente feliz se não encontrasse um amigo como o meu piloto perdido. Esse pensamento contém os três obstáculos que você mencionou antes. Primeiro, a necessidade de “alguém como ele”, que me faria ignorar outras pessoas, diferentes, mas também dignas e interessantes. Segundo, a questão da “segurança”, pois eu nunca vou poder estar absolutamente certo de que encontrei alguém como ele. E terceiro, a “busca”, que faz com que eu me concentre em encontrar alguém que conheço, um acontecimento futuro, sem dar valor às pessoas que estão ao meu lado.
— Estou vendo que você me entendeu perfeitamente — disse eu, com o orgulho que os professores sentem diante de um aluno fora de série.
— Não custa nada prestar atenção — disse o Jovem Príncipe.
— Não, não custa prestar atenção — repeti, e ambos sorrimos.
Silenciosamente, notei algo na expressão dele que ainda o ligava à tristeza em seu passado, mas decidi esperar para descobrir o que era.
Enquanto o carro avançava alegremente pela rodovia, como se esta fosse um longo riacho petrificado, senti que minha ansiedade para chegar estava desaparecendo e que eu estava começando a saborear cada momento da jornada.