O Sári Vermelho
Ato Ii - o Anjo Exterminador
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Os tem ores sobre a fam ília de Maneka viram -se confirm ados pela inform ação que com eçou a fluir depois do pedido. Indira soube que Am teshwar, sua futura consogra, passara dez anos litigando com seu irm ão pela herança do pai, que era um a m ulher com um a educação m uito elem entar e, segundo aqueles que a conheciam , intrigante e gananciosa. Chegavam rum ores de que os outros m em bros da fam ília eram rudes e descarados. Outras fontes cham avam -nos de arrivistas. Entrara na vida de Sanj ay j usto o tipo de pessoa que ela sem pre tentara evitar. Raras vezes os pais ficam satisfeitos com a escolha dos parceiros feita por seus filhos, m as agora Indira ia beber da m esm a taça que dera a seu pai quando lhe inform ara de sua decisão de se casar com Firoz. Com o naquele caso, tam bém agora se tratava de fam ílias que vinham de m undos opostos, que não com partilhavam os m esm os valores. Mas adiantaria algum a coisa confrontar seu filho com o Nehru a havia confrontado? Poucas vezes na vida havia se sentido tão m al com o na ocasião, de m odo que não quis fazer o m esm o. Não podia abrir m ais um a frente de batalha. A quantidade de problem as com que precisava lidar a havia deixado deprim ida. Não via com o tirar a índia da pobreza, e isso a desesperava. Sua fiel secretária, Usha, lem braria que, no fim de j ulho, ao voltar do funeral de um velho am igo da fam ília, Indira confessou-lhe que estava cansada de viver. Deu-lhe instruções sobre a m aneira de dispor de seu corpo quando m orresse.
Não quero um funeral, Usha. Anote... Quero que ponham m eu corpo em um caixão e que o deixem cair de um avião sobre as neves eternas do Him alaia. Talvez assim consiga desfrutar de um a paz que não desfrutei em vida.
Senhora, o im portante é ter paz nesta vida, não acha? Na outra, está garantida... Sim , eu sei, m as não está em m inhas m ãos e não creio m ais que sej a possível.
Tem que ser, senhora. Além do m ais, deixe-m e lhe dizer que ninguém concordará em dispor de seu corpo dessa m aneira. Se fossem cinzas, ainda... m as com o quer que j oguem um caixão de um avião e que se arrebente no chão?
Pois não quero nem ser enterrada nem crem ada - concluiu Indira. Nesse estado de ânim o, a perspectiva de casar seu filho com um a garota de dezessete anos de um a fam ília que considerava "ordinária" não era algo que lhe levantasse o m oral. A única coisa que pôde fazer foi retardar o casam ento. Quando soube que na data fixada Maneka não teria chegado à m aioridade, disse a seu filho:
Terão que esperar que ela com plete dezoito anos. Não posso perm itir que descum pra a lei. O problem a dos casam entos infantis continuava sendo um tem a espinhoso na índia; havia sido denunciado por Gandhi, Nehru e por todos os que queriam m odernizar o país. Milhares de m eninas acabavam sendo "negociadas" por seus pais, casadas e transform adas em criadas da fam ília do m arido, sem poder algum para decidir sobre o núm ero de filhos que teriam . O caso de Maneka distava m uito disso, m as Indira não estava disposta a perm itir que Sanj ay não desse o exem plo. Além do m ais, ganhando tem po, talvez seu filho acabasse m udando de idéia.
Mas não aconteceu. Nesse verão, Sanj ay teve que se subm eter a um a pequena cirurgia de hérnia. Depois de suas aulas m atinais, Maneka passava a tarde e parte da noite no quarto particular do Ali índia Institute of Medical Sciences, o hospital m ais avançado de Nova Délhi. Um as sem anas depois de sua convalescença, em 23 de setem bro de 1974, casaram -se em um a cerim ônia civil na casa de um velho am igo da fam ília, Moham m ed Yunus. O casam ento foi um a dem onstração da índia laica que os Nehru sem pre haviam defendido: o filho de um parse e de um a hindu casava-se com um a garota sique na casa de um am igo m uçulm ano diante de um a nora católica. Indira foi generosa com Maneka: deu-lhe 21 sáris dos tecidos m ais finos, algum as j óias de ouro e, o m ais valioso, um dos sáris de algodão que Nehru havia fiado na prisão com sua roca.
Cum priu ao pé da letra seu dever de sogra. Para receber sua nora, designou ao novo casal um dorm itório que dava para a sala principal, perto da porta de entrada, na parte da casa oposta ao quarto de Raj iv e Sônia. Decorou-o e arrum ou-o com m im o, colocou obj etos e frascos em cim a da penteadeira e escolheu um as pulseiras que, por tradição, Maneka devia usar em sua noite de núpcias, e deixou-as no criado-m udo.
Depois da celebração, Maneka entrava no lar dos Gandhi-Nehru do m esm o m odo que Sônia o havia feito com Raj iv seis anos antes. "O casam ento correu tranqüilam ente", escreveu Indira a Dorothy Norm an nessa m esm a noite. "Maneka é tão j ovem que eu tinha m inhas dúvidas sobre o assunto e não conseguia adivinhar se sabia o que estava fazendo. Mas parece que deu certo, e ela é j ovial e alegre."
Mas Maneka não era Sônia, e m esm o vindo de um a fam ília que m orava a 1 km de distância, sua adaptação foi m uito m ais árdua que a de sua cunhada, que vinha do outro lado do m undo. A despeito do desej o de Indira, a garota custava a se encaixar nessa casa. Para com eçar, fum ava, um hábito que era m uito m alvisto. Sanj ay odiava cigarro; Indira, que havia sido tuberculosa, detestava; e Sônia, asm ática, era alérgica à fum aça. Mau com eço. Além do m ais, era loquaz e falava em um tom de voz alto. "Em m inha própria casa éram os inform ais e às vezes desbocados", diria Maneka. "Os Gandhi m antêm o decoro entre eles em toda circunstância." Sanj ay e ela tinham tem peram entos diam etralm ente opostos e reuniam m uitos ingredientes para um fracasso m atrim onial. É verdade que nem sem pre devia ser fácil se com unicar com Indira, um a presença im ponente. Às vezes, durante as refeições, Maneka com eçava a falar de livros que havia lido ou que estava lendo com o se quisesse im pressioná-la com sua capacidade intelectual. Indira levantava os olhos, lançava-lhe um olhar de soslaio e continuava com endo. "Era fogosa e inteligente", diria Usha, a fiel secretária de Indira, "m as, ao m esm o tem po, era am biciosa e m uito im atura." Várias vezes m encionava que Sanj ay, um dia, seria prim eiro-m inistro, o que provocava constrangim ento nos outros. Outras vezes falava da felicidade com um a expressão m urcha: "Sabia que não se referia a um a busca filosófica", lem braria Usha, "e sim a sua própria infelicidade causada pela ausência de Sanj ay ". O que gostava m esm o era de sair e ser vista, j ustam ente o que seu m arido não podia se perm itir agora, ocupado com o estava em deixar sua m arca na sociedade indiana.
Consequentem ente, Maneka entediava-se m uito em um a casa onde ninguém fum ava, nem bebia, nem dizia palavrões. Passava as horas m ortas no gabinete de Usha perguntando pelo program a de seu m arido, que estava sem pre m uito carregado, e tentando descobrir os segredos desse m undo novo em que estava inserida. Do m undo tradicional não queria nem se aproxim ar. Quando Sônia propôs ensinar-lhe a cozinhar, m esm o que só para se distrair - porque ninguém m elhor que ela sabia pelo que sua cunhada estava passando - Maneka respondeu que não se interessava pela cozinha nem pelas coisas de casa. Todos rapidam ente perceberam que Maneka era um a nota dissonante. Raj iv ficava nervoso quando a encontrava deitada em um sofá da sala fum ando enquanto Sônia estava atarefada com a casa.
- Ela não faz nada! - dizia em voz baixa a Sônia. - Quem pensa que é? Sônia dava de om bros, com o dizendo: é o que se tem . Tam bém não gostava de sua m aneira de tratar os em pregados, aos gritos e sem respeito, m uito típico da classe rica indiana. Indira tam bém não gostava de seu com portam ento vulgar e espalhafatoso. O problem a era que o único lugar onde encontrava proteção contra a dureza da vida política era sua casa, que agora estava perturbada. O núm ero 1 da Safdarj ung Road deixou de ser um rem anso de paz.
O hum or de Indira refletia o da índia, que ainda não se recuperara da guerra de Bangladesh. O desem prego subia, e com isso o descontentam ento popular. A cadência de greves e m anifestações era infernal, e m uitas acabavam em violentos choques com a polícia. Para Sônia, a tarefa de fazer as com pras podia se transform ar em um a verdadeira via-crúcis: ruas interditadas, desvios arbitrários, disputas à base de pedradas, loj as fechadas por falta de m ercadoria devido a um a greve dos transportes etc. Não havia um dia norm al, era com o se o país houvesse perdido o norte e abraçasse a anarquia. Em todo o território nacional não se falava de outra coisa que não fosse corrupção, distúrbios, prisões, protestos e greves. Sônia se im pressionou m uito com o escândalo do "açúcar", com o ficou conhecido, que causou a m orte de m uita gente, especialm ente crianças. Com erciantes sem escrúpulos haviam posto à venda um a m istura de açúcar com vidro m oído, o que foi letal e evidenciou a falta de controle e a indolência com pleta da adm inistração. Sônia, que sem pre tinha seus filhos em m ente, perguntava-se horrorizada: e se esse açúcar houvesse ido parar na creche de Rahul?
Diante do espetáculo desolador que o país oferecia, um herói do m ovim ento de libertação e velho am igo da fam ília Nehru, um hom em frágil de 72 anos cham ado J. P. Naray an, foi capaz de unificar diversos grupos opostos a Indira. Seu program a advogava por um a federação de aldeias e pretendia lançar um a "revolução total", um a dem ocracia sem partidos. Era um a loucura, a idéia vaga de um idealista m essiânico, m as serviu para m obilizar as m ultidões contra o partido de Indira, acusado de corrupção. Na realidade, a sem ente da queda de Indira j á estava plantada e j azia no im enso poder que havia conseguido acum ular e que agia com o um veneno que infectava tudo, até sua própria casa por m eio de Sanj ay. Com o não existia um sistem a legal de financiam ento de partidos, o Congresso dependia de substanciosas doações privadas. Muitos m em bros de seu partido, cientes do poder que lhes outorgava o fato de contar com um a im ensa m a ioria no Parlam ento nacional e na m aior parte dos parlam entos estaduais, tornaram -se gananciosos e especialistas em trocar aj uda econôm ica por favores políticos. O m ovim ento de J. P. conseguiu organizar várias greves im portantes, que acabaram em enfrentam entos com a polícia. O protesto acabou em um a revolta geral quando se descobriu que um líder do Partido do Congresso havia perm itido um a alta do preço do óleo de cozinha em troca de um a im portante doação dos produtores. Foi a fagulha que fez a fúria popular explodir. Houve pilhagem de casas e loj as, incêndios de ônibus e destruição de bens do governo. Raj iv ficou vários dias sem voltar para casa porque seu avião não pôde decolar devido ao fecham ento dos aeroportos. Indira, incapaz de controlar todas as falcatruas e as m anobras dos m em bros de seu pa rtido, sentiu-se am eaçada. Seu m edo som ava-se à paranóia que a invadira desde o ano anterior, quando ocorrera o golpe, apoiado pela CIA, que derrubara no Chile o presidente dem ocraticam ente eleito Salvador Allende, outro socialista. Conhecia bem aqueles que o haviam orquestrado, e tem ia que se aproveitassem da situação caótica da índia para tentar o m esm o com ela. Principalm ente porque Nixon acabava de ser reeleito, e Kissinger estava de novo a seu lado. O que fazer? Não pensava em renunciar, pelo m enos não sem lutar. Atribuía os distúrbios à pérfida m anipulação da oposição, em penhada em expulsá-la do poder, e a um a obscura conj ura internacional. Custava-lhe acreditar que o povo estivesse perdendo sua fé nela. Mas não podia deixar por m ais tem po que a anarquia se espalhasse com o um a m ancha de óleo. De m odo que se arm ou de coragem para enfrentar o m aior desafio de sua carreira, um a greve nacional de trens que am eaçava paralisar o país.
Ganhar esse confronto era decisivo para ela e para a índia. Enfrentava 1,5 m ilhão de trabalhadores ferroviários que exigiam , dentre outras reivindicações, j ornadas de trabalho de oito horas e um aum ento de salário de 75%, concessão esta que era im possível outorgar. "Em um país onde há m ilhões de desem pregados e m uitos outros m ilhões com em pregos precários", explicou com audácia em um a conferência sindical, "o que se necessita é um a j usta distribuição de oportunidades. Nesse sentido, os trabalhadores deveriam reconhecer que, em nosso país, estar em pregado é, em si, um privilégio." Palavras que inflam aram ainda m ais os ânim os, de m odo que a greve foi convocada. Um m ilhão de ferroviários aderiu. De repente, a lista de exigências aum entou: "O que querem os é m udar a história da índia e derrubar o governo de Indira Gandhi".
Com o sem pre nesses conflitos, a vida dos m ais pobres estava em j ogo. A paralisação dos trens, ao alterar o transporte de m ercadorias, podia provocar fom e, algo que Indira não estava disposta a consentir. De m odo que aplicou um a recente lei (MISSA, Maintenance of Security Act) que perm itia fazer prisões preventivas. Um destacam ento nunca visto de policiais invadiu as railway colonies - os antigos bairros criados pelos ingleses para aloj ar os ferroviários - que ficavam perto das estações de trem . "Parecia um país ocupado", diria um líder sindical m uito im pressionado. Ao am anhecer, a polícia entrava nas casas dos ferroviários e detinha todo aquele que se negasse a ir trabalhar. Algum as fam ílias foram expulsas de suas casas - eram propriedade do governo. As prisões eram , às vezes, violentas - houve um caso em que a polícia pôs fogo na casinha de um ferroviário - e alguns grevistas acabaram feridos. No total, 70 m il trabalhadores foram presos. Indira agia com o um general no fragor da batalha. Mandou o Exército e a Marinha proteger as instalações ferroviárias contra eventuais sabotagens. Os m ilitares fizeram funcionar as
sinalizações e as telecom unicações, e operaram os trens sob a proteção de guardas arm ados. Ela tinha certeza de que, se acabasse com essa greve, não haveria outra em cinqüenta anos. Indira estava m uito lúcida, com pleno dom ínio de suas faculdades, com o era habitual em m om entos de alta tensão. Confiava em si m esm a. Procurava fazer várias coisas ao m esm o tem po, era sua receita infalível para relaxar e encontrar soluções para problem as difíceis. Um a tarde, enquanto dava um a entrevista coletiva no j ardim de sua casa e via seu neto Rahul se divertindo no gram ado brincando de guerra com arm as de plástico, ocorreu-lhe um a idéia. Pensou que havia chegado o m om ento de dar a autorização que os cientistas esperavam havia a nos para detonar um a bom ba nuclear. Fora j ustam ente a decisão de Nixon de m andar um porta-aviões nuclear à baía de Bengala que provocara a aceleração do program a atôm ico indiano. Não era exatam ente a idéia de um a avozinha, e sim de um a brilhante estrategista. Manteve-a em sigilo até o m om ento da explosão, que ocorreu em Pokhran, no deserto de Raj asthan, próxim o à fronteira com o Paquistão, alguns dias depois.
Tal com o havia previsto, a notícia provocou o entusiasm o de certas cam adas da população, que a receberam com verdadeiro fervor patriótico. Os deputados que se levantaram na grande sala do P a rla m e nto para cum prim entar-se uns aos outros pareciam ter esquecido os problem as econôm icos e a greve dos trens. Indira havia atingido seu propósito, que era desviar a atenção do país. A índia, superpovoada e quase paralisada, cuj a renda per capita a situava no 102ª lugar no ranking m undial, transform ava-se, em grande parte por necessidades de política interna, na sexta potência nuclear
m undial. As críticas cresceram no estrangeiro. Indira defendeu-se: "... A índia não aceita o princípio do apartheid em nenhum âm bito, e a tecnologia não é exceção".
Levou 22 dias para sufocar a greve com m ão de ferro. A despeito de a im prensa ter condenado a bruta lida de da repressão, a classe m édia, as pessoas que sem pre haviam apreciado a pontualidade dos trens, elogiou a firm eza da prim eira-m inistra. As câm aras de com ércio tam bém , m as isso não significava m uitos votos. Para Indira, foi um a vitória agridoce. Enquanto a de Bangladesh a havia elevado à categoria de deusa, esta deixava um am argo sabor na boca. A prim eira-m inistra havia dem onstrado que podia ser dura e até desapiedada. Sua m aneira de reprim ir a greve deixou um a m arca profunda de m edo em am plos setores da sociedade. O efeito contraproducente de tanta severidade foi que a oposição se uniu ainda m ais contra ela. Até os observadores políticos m ais sim páticos a ela tiveram de adm itir que sua popularidade estava desabando. Nas eleições previstas para 1976, um a derrota do Congresso parecia um a possibilidade real.
O DIA 12 DE JUNHO DE 1975 am anheceu com grossas nuvens negras no céu, o que anunciava as ansiadas chuvas, ou talvez previssem tem pos duros. O calor, a essa hora da m anhã, j á era intenso, m as Indira seguiu sua rotina diária de fazer vinte m inutos de exercícios de ioga em seu quarto. O choro de sua neta Priy anka provocou-lhe a tentação de interrom per o exercício, m as, com o logo parou, pensou que Sônia j á havia se levantado e estava cuidando da m enina. A seguir, tom ou um banho e vestiu-se em cinco m inutos, "algo que poucos hom ens podem fazer", gostava de se gabar. Em seu criado-m udo os livros se am ontoavam . Com j ornadas que duravam dezesseis horas, não tinha tem po para nada, nem para estar com a fam ília, nem para receber a am igos, nem evidentem ente para ler, e sentia falta.
Estava tom ando o café-da-m anhã em seu quarto em frente a um a bandej a com chá, fruta e torradas quando seu secretário R. K. Dhawan, esse que se m ostrava tão solícito com Sanj ay, bateu à porta. Trazia um a m á notícia. D. P. Dhar, velho am igo e conselheiro de Indira, o hom em que ela havia enviado a Moscou quando da crise de Bangladesh para assegurar-se do apoio dos soviéticos, e que desde então atuava com o em baixador na URSS, havia m orrido m inutos antes de um a cirurgia para colocar um m arca-passos. Outro pilar de confiança e am izade desaparecia de sua vida. Indira foi rapidam ente ao hospital consolar a fam ília e a aj udar na organização dos ritos funerários. Voltou para casa na hora do alm oço, onde a esperava outra m á notícia. Seu secretário com unicou-lhe que, nas eleições da véspera no estado de Guj arat, a Frente Janata, um a coalizão de cinco partidos que incluía os sim patizantes de J. P. Naray an, o idealista que a queria derrubar, havia vencido o Congresso. Não a surpreendeu m uito.
O ruim era que esses resultados auguravam derrotas em outros estados. Era, talvez, o início do fim ?
perguntava-se. Todos os em preendim entos hum anos seguiam o m esm o m odelo de evolução da natureza, ou sej a, um a fase de crescim ento, outra de desenvolvim ento, e um final. Tentara fazer as pazes com J. R, m as sua idéia utópica de estabelecer um governo sem partidos era inaceitável porque significava a m orte do funcionam ento dem ocrático. Assim lhe havia dito, m as J. P. era um revolucionário que continuava acreditando em grandes idéias abstratas. Não retrocedia em seu em penho nem se m ostrava flexível em suas dem andas. Concorda com igo que o governo de Bihar é m uito corrupto? - perguntou-lhe J. P. com sua voz trêm ula.
Sim , isso todo o m undo sabe - replicou Indira.
Pois insisto que você tem que o destituir e convocar novas eleições. Não posso fazer isso, J. P. É um governo eleito dem ocraticam ente e não tenho autoridade para destituí-lo.
Não houve reconciliação, ao contrário. Indira acabou acusando-o de contar com o apoio da CIA e dos Estados Unidos para derrubá-la, e ele a censurou por querer fazer da índia um satélite soviético. Porém , no fim da reunião, J. P. pediu para falar com ela a sós, sem seus conselheiros. Foram para a sala, e ali, diante da surpresa de Indira, o hom em teve um gesto de am abilidade pessoal, a despeito da violência de seu enfrentam ento político. Entregou-lhe um a velha pasta que havia pertencido a sua esposa e que continha cartas que a m ãe de Indira, Kam ala, lhe havia escrito cinqüenta anos antes no fragor da luta pela independência. Estavam guardadas desde que m inha m ulher m orreu - disse J. P. - com a esperança de entregá-las a você quando tivesse a oportunidade de vê-la.
Indira se com oveu com o gesto desse hom em que, no entanto, estava em penhado em destruí-la. Com o a política é estranha - deve ter pensado - que perm ite o ódio e o afeto ao m esm o tem po e na m esm a pessoa. Sentiu um a pontada no coração quando leu essas cartas que ressuscitavam sua m ãe, tão frágil, tão doente sem pre, e que agora revelavam sua infelicidade por sentir o desprezo das irm ãs de Nehru, que a achavam m uito tradicional e religiosa. Agradeceu a J. P. de todo o coração, m esm o sabendo que ele cum priria sua am eaça de intensificar a cruzada contra ela.
A TERCEIRA MÁ NOTÍCIA DO DIA chegou às três da tarde. Raj iv, usando seu uniform e de piloto, irrom peu no dorm itório de Indira. Ao voltar do aeroporto, havia cruzado com um dos secretários de sua m ãe, que o havia inform ado de um a notícia que acabava de chegar pelo teletipo.
Saiu o veredicto do j uiz de Allahabad... - disse Raj iv. E...? - perguntou Indira, voltando um pouco a cabeça, com o se esperasse o golpe que ia receber.
Raj iv lhe leu o texto da sentença que o secretário lhe havia entregado. Dizia que a prim eira-m inistra havia sido declarada culpada de negligência nos procedim entos eleitorais do sufrágio de 1971. Em conseqüência, o resultado dessas eleições ficava invalidado. O tribunal dava vinte dias ao Congresso para tom ar as m edidas necessárias para que o governo continuasse funcionando. Além do m ais, era proibida de assum ir um cargo público nos seis anos seguintes. Indira suspirou e se m anteve serena. Olhou para o j ardim . Seus netos brincavam no gram ado. Tudo parecia tão norm al e tranqüilo, exceto pelas nuvens negras que continuavam am eaçando descarregar chuva. Com o a vida é curiosa, deve ter pensado. O m aior golpe de sua carreira era dado em sua cidade natal, nos m esm os tribunais em que seu avô Motilal Nehru fizera suas m ais brilhantes argum entações. Voltou-se para seu filho:
Ac ho que não resta outra solução a não ser renunciar. Chegou a hora - disse, sem a m enor em oção. Esperava um a sentença condenatória, m as não tão desproporcional. A oposição havia utilizado um subterfúgio legal para encurralá-la. A sentença correspondia à denúncia que um rival político cham ado Raj Narain, que havia perdido por cem m il votos de diferença, havia apresentado quatro anos antes no tribunal de Allahabad. As acusações eram triviais e referiam -se ao uso indevido de pessoal e transporte de propriedade do governo durante a cam panha eleitoral anterior. Em particular, todo o m undo, inclusive seus adversários, reconheciam que as acusações contra ela eram ridículas e que os j uizes haviam se excedido. Segundo o j ornal Tim es de Londres, era equivalente a "destituir um prim eiro-m inistro por um a m ulta de trânsito". Mas na índia de 1975, as pessoas saíram às ruas para com em orar.
Seu am igo Siddharta Shankar Ray , chefe do governo de Bengala, chegou a sua casa pouco tem po depois. Era um hom em de confiança, íntegro, a velha guarda dos am igos incondicionais. O partido estava abalado, disse. E prosseguiu:
O que a oposição não conseguiu nas urnas, tenta m anipular por m eio de um a sentença j udicial. Tenho que renunciar - disse Indira, im passível. O hom em se sentou. Olhou para Indira: seu rosto transparecia um cansaço infinito. Não tom e essa decisão apressadam ente. Vam os pensar. Indira ergueu os om bros: Há outra solução?
Sem pre se pode apelar.
Levará m eses... Sabem os com o a j ustiça funciona. A conversa foi interrom pida pela chegada de dois m inistros, seguidos pouco tem po depois pelo presidente do partido e vários outros com panheiros. A casa foi ficando cheia de gente. Sônia lhes oferecia doces e bebidas. Com seus próprios olhos, via que uns estavam preocupados com perder o posto, outros ao contrário, excitados porque o lugar de Indira ficava disponível. Os rum ores, a incerteza e o calor faziam com que o ar se tornasse irrespirável. Uns falavam com Indira tentando dissuadi-la de apresentar sua renúncia; outros faziam rodinhas, m edindo as forças de diversos líderes que a poderiam substituir. A ainda prim eira-m inistra ouvia a todos calada. "Acho que devo renunciar im ediatam ente", repetia.
A NOITE, SANJAY CHEGOU DA "FÁBRICA". Soubera da notícia pelo rádio. Entrando em casa, encontrou seu irm ão:
O que ela vai fazer? - perguntou-lhe.
Renunciar. Não tem outro j eito.
Não - disse Sanj ay - isso não.
Em um segundo, Sanj ay viu seu sonho de ser um grande em presário se desfazer. Se sua m ãe cedesse ante seus inim igos, podia despedir-se para sem pre da Maruti Ltda. Entrou no salão abarrotado de gente, e m al cum prim entando, com o era costum e seu, pegou sua m ãe pelo braço e pediu-lhe para falar a sós com ela uns m inutos. Foram para o estúdio contíguo. Raj iv m e disse que você pretende renunciar.
Estam os avaliando. Não tenho m uitas opções.
Você não deve fazer isso, m am ãe. Se ceder agora e renunciar por essas acusações tão ínfim as, quando não tiver im unidade parlam entar conseguirão pô-la na prisão por qualquer coisa que inventarem .
Minha consciência está tranqüila. Estam os pensando em trocar os papéis. O presidente do partido a ssum e o cargo de prim eiro-m inistro enquanto m eu recurso segue os trâm ites no Tribunal Suprem o. Nesse período, eu m e encarrego da presidência do partido. Isso é um a loucura, m am ãe! - disse Sanj ay, e o grito se ouviu no salão contíguo. - Acha que o presidente do partido, depois que estiver em sua cadeira, vai devolvê-la depois? Nunca. Parecem todos m uito leais e m uito am igos, m as você sabe m elhor que eu que os sorrisos escondem suas am bições pessoais. Todos querem seu lugar. Todos buscam o poder. Você não deve renunciar em hipótese algum a.
Aceitar a derrota não era algo fácil para Indira. Com o podia se retirar com o rabo entre as pernas por algo tão trivial, ela que dedicara sua vida à política e fora prim eira-m inistra durante quase um a década? Não com binava com seu conceito de dignidade. Poderia deixar seus com panheiros de partido na m ão, e todos os que dependiam dela? O país inteiro? Não diziam que a índia é Indira e Indira é a índia? Perm itiria que J. P. Naray an acabasse com a dem ocracia afundando o país na anarquia? É verdade, estava cansada, às vezes até deprim ida por não encontrar soluções para os m ales do país. Se só tivesse que ouvir sua voz interior, essa que lhe pedia sossego, talvez optasse pela renúncia. Por ela, faria isso. Mas não estava sozinha. Pensou em Sanj ay ... Que seria dele se ela perdesse o cargo? Cairiam com o cães de caça sobre ele para devorá-lo por ter se atrevido a ser em preendedor, ou sim plesm ente por ser quem era. Que seria do resto da fam ília? O poder se revelava com o um a defesa necessária contra todos os inim igos que esse m esm o poder havia criado com o passar dos anos. O poder protegia a fam ília. Sem esse escudo, estavam em perigo.
Indira voltou à sala. "Estou decidida a lutar para m e m anter no cargo", disse a seu advogado. Decidiram que ele solicitaria à Corte Suprem a o adiam ento da sentença até que o tribunal decidisse sobre seu recurso. A m anobra perm itiria ganhar tem po e m anter-se com o prim eira-m inistra até conseguir reunir forças e apoios. Assim que anunciou sua decisão, a tensão na casa relaxou. Para disfarçar sua decepção, os que j á haviam se atrevido a sonhar substituí-la derreteram -se nos m ais ser-vis elogios. Sônia estava desconcertada. No fundo, teria gostado que sua sogra renunciasse, porque sentia falta de um a vida m ais sossegada. Nos dias seguintes, Sanj ay e seu am igo, o secretário Dhawan, organizaram m anifestações e m archas de apoio a Indira. Não acharam errado requisitar os ônibus da em presa m unicipal de transportes de Délhi para transportar m ilhares de m anifestantes. Todo o aparato do partido foi m obilizado para que a voz a favor de Indira fosse ouvida em alto e bom som . Chegaram à capital trens fretados especialm ente para os com ícios, lotados de sim patizantes.
Agora Sônia e Maneka não podiam entrar e sair tão facilm ente de casa porque perm anentem ente havia um a m ultidão às portas exigindo a presença de Indira, que saía um a vez por dia para cum prim entá-los. Nem Sônia nem Raj iv gostavam do rum o que os acontecim entos estavam tom ando. Ela estava assustada porque o carro que a levara certa m anhã ao Khan Market havia levado um a pedrada. Só havia causado um arranhão na carroceria, m as bastara para fazê-la sentir m edo. Além do m ais, a convivência com Maneka se tornava m uito difícil. E Sanj ay parecia outro. Mal o via, m as quando isso acontecia, ele j á não era tão carinhoso com o antes. Percebia que a presença de Maneka estava envenenando as relações entre os irm ãos, e entre ela e Sanj ay tam bém .
Por que não vam os para a Itália por um a tem porada - pediu a seu m arido - até que as águas voltem a seu curso?
Raj iv gostava da idéia, e reconhecia que seria bom para as crianças. Mas m ostrava-se preocupado.
Com o vam os dizer isso a m inha m ãe? Podem os abandoná-la em um m om ento assim ? Sônia ficou ensim esm ada, sem resposta. Pela prim eira vez tinha m edo, por ela e pelas crianças. Nunca o am biente estivera tão tenso.
Em 20 de j unho de 1975, Sanj ay teve a idéia de a fam ília inteira com parecer a um com ício de solidariedade que havia organizado no Boat Club de Nova Délhi. É bom que nos vej am todos j untos - disse.
Prefiro que você não decida por nós - respondeu Raj iv. É por m am ãe - argum entou seu irm ão.
Diante do com prom isso, Raj iv e Sônia concordaram contrariados. Foi, talvez, o prim eiro ato político de Sônia. Ficou im pressionada de encontrar-se diante de um a m ultidão de m ais de 100 m il pessoas. Usando um sári caqui, estava ao lado de Raj iv, e Maneka e Sanj ay atrás de Indira. Dali, dava vertigem im aginar a desm esura de seu país de adoção. Tanta gente, tantas crenças, tantas religiões... Quando sua sogra se voltou para eles, Sônia sorriu para ela. De repente, via-a em contato com o povo de que sem pre falava, esse contato privilegiado que j ustificava todos os seus dissabores e que agora não era algo abstrato, e sim bem real. Estava ali, rendido a seus pés. Sônia pôde verificar o enorm e apoio popular de que Indira ainda desfrutava, que excedia em m uito a m era presença dos sim patizantes pagos por Sanj ay. Ficou arrepiada quando ouviu sua sogra dizer à m ultidão que servir ao país era a tradição da fam ília Nehru-Gandhi, e que se com prom etia a continuar servindo-o até seu últim o suspiro.
Era a prim eira vez que Indira se m ostrava acom panhada por sua fam ília, e o com ício foi um grande sucesso. Sônia percebeu quanto Indira precisava ter a fam ília a seu lado. Não, não era m om ento de abandoná-la.
Os seguidores de P. organizaram contram anifestações em frente ao palácio do presidente da República e em várias cidades do im enso país. A j ornalista Oriana Fallaci foi a prim eira a saber, pela boca de um líder da oposição, que estavam planej ando bloquear a entrada do núm ero 1 da Safdarj ung Road com hordas de pessoas para transform ar Indira em prisioneira em sua própria casa. "Vam os acam par lá dia e noite", disse o líder. "Vam os forçá-la a renunciar. Para sem pre. Ela não sobreviverá a nosso m ovim ento."
Na m anhã de 25 de j unho, Indira convocou a seu escritório de casa Siddarta Shankar Ray, chefe de governo de Bengala, que se encontrava casualm ente em Nova Délhi, e que, quando a sentença fora tornada pública, aconselhara-a a não renunciar. Notou-a m uito tensa. Sua m esa estava coberta de relatórios do Serviço de Inteligência. Não podem os perm itir isso - disse Indira. - Tenho inform ação de que J. P. Naray an, em um com ício esta noite, vai pedir à polícia e ao Exército que se am otinem .
É possível que a CIA estej a envolvida. Você sabe que estou entre os prim eiros na lista de pessoas odiadas por Richard Nixon... O que podem os fazer? Ray era especialista em assuntos legais, com fam a de honesto e de duro. Continuava pensando que Indira devia se m anter em seu cargo. Ela prosseguiu descrevendo com o o país estava m ergulhado no caos.
Deve haver um m eio de deter esta loucura. Sinto que a dem ocracia indiana é com o um a criança, e da m esm a m aneira que às vezes tem os que dar um chacoalhão em um a criança, acho que tem os que chacoalhar o país para fazê-lo acordar. Você está pensando no estado de sítio? Indira assentiu com a cabeça.
Na realidade, não procurava conselho sobre que decisão tom ar, porque j á a havia tom ado no dia anterior. Sanj ay a havia m encionado, m as a idéia não era dele, e sim de seu protetor Bansi Lal, o gordo chefe do governo de Hary ana que lhe cedera os terrenos para erguer a fábrica. Segundo Bansi Lal e Sanj ay, havia pelo m enos cinqüenta políticos no país que era necessário elim inar da vida pública. O prim eiro, evidentem ente, era J. P. Naray an. Declarar o estado de sítio era um a fuga para adiante... Mas que opção restava a Indira? Entre um a saída desonrosa e o estado de sítio, preferiu o últim o. Quero fazer isso tudo de um a m aneira im pecável do ponto de vista legal - precisou a prim eira-m inistra.
Deixe-m e estudar o aspecto constitucional. Dê-m e algum as horas e lhe digo algum a coisa. Por favor, sej a rápido - pediu ela.
Ray foi em bora e voltou às três da tarde. Passara várias horas revisando o texto da Constituição indiana e da norte-am ericana tam bém .
Sob o artigo 352 da Constituição - disse a Indira - o governo pode im por o estado de sítio se houver risco de agressão externa ou de distúrbios internos.-A incitação de J. P. Naray an para que o Exército e a polícia se am otinem não é um a am eaça interna suficientem ente grave?
Sim , é.
Então, ao fazer isso, caíram em sua própria arm adilha. De fato. Entregaram -lhe em bandej a de prata a j ustificativa que você precisa para suspender a atividade parlam entar e im por o estado de sítio. Houve um silêncio. Os olhos de Indira brilhavam na escuridão. Faltava um requisito: a assinatura do presidente da República, m as este era um aliado, e Indira não duvidava de sua lealdade. Você m e acom panha até o palácio do presidente? - pediu a Ray . Vam os.
Com o docum ento de quatro linhas que o presidente assinou nessa m esm a noite no m aravilhoso salão Ashoka do antigo palácio do vice-rei, e que decretava o estado de sítio, a m aior dem ocracia do m undo tornava-se um a ditadura virtual. O governo da índia estava agora autorizado a prender pessoas sem ordem prévia, a suspender os direitos civis e as liberdades, a lim itar o direito de interferência dos tribunais e a im por a censura.
RAJIV ESTAVA HAVIA DOIS DIAS fora de casa, voando, e em um a das escalas de sua rota teve um a grande surpresa ao saber pela im prensa que, na véspera, sua m ãe havia declarado o estado de sítio. Ninguém lhe havia dito nada. A m edida se chocava com seu caráter pacífico e, m esm o que não fosse um hom em político, achava que ia contra os princípios dem ocráticos da tradição fam iliar. Acim a de tudo, o que o preocupava era que sua m ãe havia cedido a seu irm ão. Conhecia a ascendência que Sanj ay tinha sobre sua m ãe. Por algum a obscura razão, sua m ãe era incapaz de resistir à chantagem em ocional a que seu irm ão a subm etia. E ninguém m elhor que ele conhecia Sanj ay , seus pontos fortes, suas lim itações e o perigo que podia representar. Por isso, estava entre perturbado e alarm ado, e a idéia de Sônia de ir para a Itália por um a tem porada tornou a lhe passar pela cabeça.
Não sei o que deveríam os fazer - disse Sônia. - O com portam ento de seu irm ão m e preocupa m uito. Está cada vez m ais m etido em política.
Contou-lhe que Maneka estava em Caxem ira, para onde Sanj ay a m andara por indicação de Indira , pois tem ia que a garota, tão loquaz, pudesse revelar suas intenções a respeito da declaração do estado de sítio, coisa que m antiveram em sigilo total até a prom ulgação. Continuou contando que, no dia anterior, Sanj ay estivera reunido no escritório de Indira até m uito tarde com o secretário Dhawan e com o segundo hom em do m inistro do Interior. Sabe o que estavam fazendo? Estavam entrando em contato com chefes de governo locais e lhes m andavam ordens de detenção. Tinham um a lista negra de "inim igos". O pior não é isso; o pior é que faziam isso em nom e de sua m ãe. Sei que prenderam J. P. Naray an de m adrugada, soube no aeroporto - disse Raj iv, suspirando. -Um a patrulha da polícia levou-o algem ado para o calabouço. Parece que Naray an não conseguia acreditar nisso; parecia-lhe inconcebível que m am ãe houvesse tom ado um a m edida tão drástica.
Sônia continuou contando que, às três da m adrugada, Siddharta Shankar Ray, depois de ter aj udado Indira a term inar o esboço do discurso que anunciaria o estado de sítio à população, estava indo em bora quando cruzou no corredor com o secretário Dhawan, que lhe disse: "Já estão tom adas as m edidas para cortar o fornecim ento elétrico dos principais j ornais do país e para fechar os tribunais".
Ray ficou petrificado - prosseguiu Sônia - e furioso. Pediu que acordassem sua m ãe, que estava esgotada depois de um dia tão longo. Nesse m om ento, Sanj ay saiu e com eçou a discutir com Ray . Sabe o que Sanj ay lhe disse? "Vocês não sabem com andar um país!" Com o se ele soubesse! - disse Raj iv erguendo a vista para o céu. O caso é que Ray não foi em bora enquanto sua m ãe não apareceu; ela estava espantada porque não sabia nada dessas ordens de detenção.
Seu irm ão as havia dado. Pediu-lhe que esperasse uns m inutos e foi falar com Sanj ay . O que Sanj ay quer com essas m edidas é proteger a si m esm o e a sua em presa, fingindo que tam bém protege m am ãe das ações legais em preendidas contra ela. Sua m ãe pode ter tentações autoritárias, m as tem princípios. Quando saiu da sala em que se trancara com Sanj ay , estava com os olhos verm elhos por ter chorado. Disse a Ray que os j ornais teriam eletricidade e que não se fecharia nenhum tribunal. Mas é m entira - disse Raj iv. - Hoj e não há j ornais na rua porque cortaram a luz. De novo, Sanj ay aprontou.
TERIA SIDO UM GRANDE SUCESSO de Indira se o estado de sítio houvesse durado pouco tem po, e sobretudo se Sanj ay não houvesse crescido com o um poder na som bra. No prim eiro dia, quando o m inistro da Inform ação, I. K. Guj ral, um hom em respeitado, culto e suave em seus m odos, chegou ao escritório da Akbar Road, Sanj ay ordenou-lhe que todos os boletins de notícias fossem subm etidos a ele antes de sua difusão. Usha, sentada em seu escritório, foi testem unha da cena.
Isso não é possível - disse o hom em - os boletins são confidenciais.
Pois, de agora em diante, terá que ser possível. Indira estava na porta e ouviu a conversa: O que está acontecendo? - perguntou. O m inistro repetiu sua explicação. Entendo - disse Indira - se não quer entregá-los a Sanj ay, sugiro que um em pregado de seu m inistério os traga a m im todas as m anhãs para que os possa ver.
O m inistro foi em bora com a firm e intenção de apresentar sua dem issão, m as foi convocado de novo à tarde ao local que j á cham avam de "palácio", que não era outra senão a residência de Indira Gandhi. Sanj ay pediu-lhe que expulsasse do país o correspondente da BBC, um j ornalista m uito conhecido e querido cham ado Mark Tully, por ter enviado um a m atéria que "distorcia" os fatos.
N ã o é tarefa do m inistro da Inform ação prender correspondentes estrangeiros - respondeu Guj ral. Quando, a seguir, Sanj ay censurou-o porque o discurso de sua m ãe não fora divulgado na íntegra pela televisão, o m inistro perdeu a paciência: Se quer falar com igo, vai ter que aprender a fazer isso com educação - disse.
Você é m ais novo que m eu filho e não lhe devo explicações. Não teve tem po de apresentar sua dem issão. Indira cham ou-o nessa m esm a noite para afastá-lo do cargo "porque o Ministério da Inform ação precisava de alguém que pudesse cuidar dos assuntos com m ais firm eza, dadas as circunstâncias".
O novo m inistro prom ulgou duríssim as leis de censura, incluindo a proibição de citar Nehru e Gandhi em suas declarações a favor da liberdade de im prensa, o que não deixava de ser um a cruel ironia da História. Um a um , os representantes da im prensa internacional foram convidados a ir em bora.
O único m inistro seu que questionou a necessidade de im por o estado de sítio foi afastado do cargo e substituído por Bansi Lal, o chefe do governo de Hary ana e o prim eiro a sugerir a necessidade de im por o estado de sítio... aos 29 anos, Sanj ay , pelo sim ples fato de ser filho de sua m ãe, estava a cam inho de se transform ar no hom em m ais poderoso da índia.
A CENSURA DA IMPRENSA FOI MAIS DURA que a que os britânicos haviam im posto durante a luta pela independência. Pelo m enos, naquela época, os j ornais estavam autorizados a anunciar os nom es dos que haviam sido presos e as prisões para onde haviam sido levados. Agora as pessoas ficavam sabendo por rum ores onde se encontravam seus entes queridos, quase todos m em bros da oposição. Aproxim adam ente 100 m il pessoas foram presas sem acusação algum a nem j ulgam ento. As condições de detenção da m aioria eram tão insalubres que 22 detidos m orreram em suas celas suj as e abarrotadas. Se os ferroviários guardavam à m á recordação da m aneira com o a greve havia sido sufocada, agora nenhum a cam ada da população estava a salvo. As prisões m ais alardeadas foram , talvez, os das m aranis de Jaipur e de Gwalior, antigas princesas que lideravam em seus respectivos estados partidos opostos a Indira, e que foram trancafiadas na infam e prisão de Tihar, em Délhi, j unto com crim inosas e prostitutas. Gay atri Devi, a elegante m arani de Jaipur, não se queixou da suj eira, da prom iscuidade ou do m au cheiro. Som ente se queixou do barulho que as outras presas faziam e pediu a um a am iga que lhe enviasse tam pões de cera para os ouvidos.
Por outro lado, o Parlam ento outorgou a Indira a m esm a im unidade de que gozavam o presidente da República e os governadores dos estados. De m aneira retroativa, a prim eira-m inistra foi absolvida das acusações de fraude eleitoral que pesavam sobre ela, e que haviam desencadeado o atual estado de sítio.
De novo Indira, guiada por seu instinto de sobrevivência, encontrava-se com o controle absoluto do país, agora m ais que nunca, m esm o que a m anipulação dos m ecanism os dem ocráticos estivesse granj eando a ela um núm ero crescente de inim igos, dentro e fora da índia. Mas, nos prim eiros tem pos, o estado de sítio foi visto com alívio por um lado da população, principalm ente a classe m édia urbana. Até a própria Sônia, quando ia levar o m enino ao colégio, tinha a im pressão de estar em outra cidade, não na Nova Délhi dos últim os tem pos. O am biente era de um a tranqüilidade im pressionante. Não havia interrupções de trânsito, nem m anifestações, nem protestos, nem arroubos de violência contra sua sogra. Até os táxis e os condutores de riquixás andavam do lado certo da estrada. Com o ela, um a grande parte da população estava contente por as greves e os distúrbios terem acabado, por poder desfrutar de certa paz. Nas cidades, as pessoas celebravam o fato de se poder de novo cam inhar sem m edo, visto que o índice de crim inalidade caiu vertiginosam ente devido à m aior presença policial e ao endurecim ento da lei. Os funcionários públicos, cientes do novo am biente de seriedade, faziam suas j ornadas com pletas e trabalhavam com m ais eficácia. Os trens e os aviões eram pontuais, para alívio dos usuários e tam bém de Raj iv, que agora podia desfrutar de um a vida fam iliar m ais estável, sem os atrasos dos últim os tem pos, que o faziam voltar para casa a horas im possíveis. Cartazes enorm es com a foto de Indira decoravam largos e praças: "A diferença entre o caos e a ordem ", rezava um slogan j unto a sua foto.