O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 3 de 6 · parte 3/6

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O Sári Vermelho

Ato Ii - o Anjo Exterminador

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

A idéia de que Indira havia restaurado a paz e a ordem no território calou tam bém no exterior. Usha, sua secretária particular, era a encarregada de trazer, e ler ou apontar os artigos da im prensa internacional que tinham a ver com a atualidade indiana. Muitas vezes lia as m anchetes ou as cartas que eram publicadas sentada na m esa da sala de j antar. "O governo autoritário ganha am pla aceitação na índia", rezava um a m anchete do The New York Tim es. Mas havia outras m anchetes abertam ente hostis que provocavam inquietantes trocas de olhares entre Sanj ay e sua m ãe. Um dia, Usha estava sozinha em seu escritório quando Sônia entrou. As duas m ulheres se apreciavam m uito.

Usha, acho que é m elhor você não ler as críticas que saem na im prensa estrangeira na frente de todos, e não digo isso por m am ãe - com o agora cham ava Indira - e sim porque não quero que olhem torto para você.

Obrigada por m e avisar - disse Usha, que tam bém notara que o am biente havia m udado e receava a influência de Sanj ay sobre Indira.

PODIAM SILENCIAR AS VOZES CRÍTICAS NA ÍNDIA, m as não no exterior. Dorothy Norm an, a velha grande am iga de Indira, m ostrou-se abertam ente hostil a ela. Reuniu assinaturas de personalidades norte-am ericanas - o escritor Noam Chom sky , o tenista Arthur Ashe, o Prêm io Nobel Linus Pauling, o pediatra Benj am in Spock etc. - para publicar um texto na im prensa deplorando as duras m edidas do estado de exceção e exigindo sua suspensão. Entre os que aderiram , para m aior hum ilhação de Indira, estava Allen Ginsberg, o poeta que havia conhecido em Londres quando fora inaugurar a hom enagem a Nehru, e que anos depois havia cantado a tristeza dos refugiados de Bangladesh.

Isso doeu nela. A correspondência entre am bas acabou, e só seria retom ada quatro anos depois. Sua outra am iga, Pupul Jay akar, enfrentou Indira quando voltou de viagem : "Com o é possível que você, filha de Jawaharlal Nehru, perm ita isso?". Indira não esperava, e ficou petrificada. Ninguém se atrevia a desafiá-la abertam ente.- Você não conhece a gravidade do que está acontecendo - respondeu. - Não conhece os com plôs que existem contra m im . J. P. nunca gostou que eu fosse prim eira-m inistra. Ele ainda não descobriu seu verdadeiro papel... O que quer ser? Um m ártir? Um santo? Por que não aceita que não é m ais que um político e que quer ser prim eiro-m inistro? Indira com unicou-lhe que sua intenção era m anter o estado de sítio durante dois m eses apenas, e que , de qualquer m aneira, aproveitaria esse tem po para lançar um program a de vinte pontos para tirar o país do subdesenvolvim ento. Entre essas m edidas, havia duas que eram revolucionárias: tornar ilegal o trabalho escravo e o cancelam ento das dívidas que os pobres tinham com os prestam istas das aldeias.

Pupul percebeu que era inútil discutir com Indira. A única coisa que podia fazer era ouvi-la para que sua am iga se sentisse livre para esvaziar seu coração com alguém de confiança. Pupul a conhecia bem e sabia com o se sentia sozinha. Mesm o estando em profundo desacordo com ela, decidiu m anter-se por perto.

Indira tinha a intenção de anunciar o fim da Em ergency, com o o estado de sítio era conhecido, em 15 de agosto de 1975, o m esm o dia e no m esm o lugar em que seu pai, 28 anos antes, havia feito o fam oso discurso da independência: "Chega o instante, raram ente oferecido pela História, quando um povo sai do passado para entrar no futuro, quando um a época acaba, quando a alm a de um a nação, longam ente asfixiada, torna a encontrar sua expressão..." Naquele m om ento histórico, essas palavras a haviam deixado paralisada de em oção. Declarara ao correspondente da BBC: "Você sabe, quando se vai de um extrem o de dor a outro de prazer, ficam os intum escidos. A liberdade é algo tão grande que custa assim ilar". Agora, enquanto seu carro circulava pelas largas avenidas de Nova Délhi, de onde os m endigos e as vacas errantes haviam m isteriosam ente desaparecido - esse foi um dos efeitos m ilagrosos da ordem im posta pelo estado de sítio - e se dirigia ao Forte Verm elho para devolver a liberdade ao povo, essa liberdade que havia sido obrigada a seqüestrar, seu chefe de protocolo deu-lhe um a notícia que a abalou profundam ente. Sheikh Muj ibur Rahm an, seu am igo, o herói que ela havia restituído à presidência de Bangladesh, havia sido derrubado em um golpe m ilitar. Mas isso não era o pior: Sheikh, sua m ulher, três filhos, duas noras e dois sobrinhos haviam sido assassinados. Os golpistas haviam se assegurado de que a dinastia Rahm an não sobrevivesse.

Indira estava devastada. "Notei que havia algo estranho no m om ento em que com eçou seu discurso", contaria sua am iga Pupul, que estava entre a m ultidão do Forte Verm elho. " O tim bre de sua voz estava forçado com o se estivesse tentando suprim ir em oções poderosas. Essa voz havia perdido a capacidade de com over as pessoas." Pupul ficou ouvindo atentam ente o discurso, no qual Indira falou de liberdade, da necessidade de tom ar decisões duras, das noções de sacrifício e de serviço, da coragem , da fé, da dem ocracia... m as nem um a palavra sobre o final do estado de sítio.

Pupul foi vê-la à noite e encontrou-a em estado de choque. Indira tinha certeza de que a CIA estava envolvida nessas m ortes (o que era verdade), e não queria acabar com o Allende. Repetira isso recentem ente ao líder trabalhista britânico Michael Foot. Pensava que o que acontecera em Bangladesh havia sido o prim eiro elo de um a cadeia de com plôs para desestabilizar o sul da Ásia e m udar a cor ideológica de seus governos. Tinha certeza de que ela seria a próxim a vítim a. O chefe do Serviço de Inteligência havia confirm ado que descobriram várias conspirações para elim iná-la. Segundo Pupul, estava paranóica, suspeitava de todos, cada som bra escondia um inim igo.

- Em quem posso confiar? - perguntou-lhe Indira. - Meu neto Rahul tem a m esm a idade que o filho de Sheikh Rahm an. Am anhã poderia ser a vez dele. Querem m e destruir a qualquer custo, a m im e a m inha fam ília.

Foi a prim eira vez que Indira percebeu que não era só ela que estava em perigo pelo fato de ser prim eira-m inistra. Toda sua fam ília, inclusive seus netos, estavam na m ira, pensava. Era prisioneira em um círculo vicioso que j á não sabia com o rom per. Nessas condições, pensou que não era o m om ento de suspender o estado de sítio. Ao contrário, devia tom ar m edidas para se proteger intensificando as detenções sem j ulgam ento e a atividade do Serviço de Inteligência.

Indira sentia-se segura no m eio da m ultidão, m as dentro de sua casa, agora fortem ente protegida, com eçou a sentir-se em perigo. A verdade é que estava doente de m edo, cansada pelo exercício do poder, desgastada por tanta luta, desanim ada pela falta de resultados. Era um a m ulher intensam ente patriótica e tinha um a fé absoluta no destino da índia. Mas percebia que sua política esquerdista havia sido incapaz de tirar o país do atraso. Com o fazer da índia um país m oderno, próspero e forte? Não sabia m ais que fórm ula utilizar, exceto a m ão de ferro, que ia contra sua própria tradição.

Havia colocado a índia, sua fam ília e a si m esm a em um beco do qual não sabia sair. Instintivam ente, voltou-se para seus filhos. O m ais velho, Raj iv, não podia ser de grande aj uda para ela. Havia expressado várias vezes sua discordância com a Em ergency, inclusive em público, e sem pre que podia diante de seus am igos. O contato entre am bos reduziu-se tanto que ele, que trabalhava m uito e ficava pouco em casa, ficava sabendo das viagens e das decisões de sua m ãe pelos j ornais. Além do m ais, Indira sabia que ele não era afeito a se apiedar dela. Até Sônia havia se com padecido de um antigo rival político que fora preso na prim eira onda de detenções. "Deve ser terrível para você o fato de seu pai estar na prisão. Eu realm ente sinto m uito", dissera em um a recepção ao filho desse político, e a frase chegou aos ouvidos dos outros, que não tardaram a fazê-la circular pelas rodinhas de Nova Délhi. Indira não lhes guardava rancor por isso; sem pre havia achado que Raj iv não servia para a política e que nem ele nem Sônia eram capazes de entender as profundas razões que a haviam levado a tom ar essa decisão. Por outro lado, sabia que Sônia insistia em ir para a Itália por um a tem porada com as crianças até que a situação se norm alizasse.

Nada contagia tanto quanto o m edo...

Restava o m ais novo, Sanj ay, seu favorito. Via-o cheio de energia, forte, fiel. Arrogante, é verdade, capaz de pisar na bola com o ninguém , m as um filho em quem podia confiar, que estava a seu lado e que assum ia seus problem as. E que, pensava ela, sem pre poderia controlar. Além do m ais, havia outra razão, que nada tinha a ver com o sentim entalism o de um a m ãe. Sanj ay era ferozm ente anticom unista e defendia um a política liberal que fom entasse a iniciativa privada e o espírito em preendedor dos indianos. Sua experiência com o Maruti o havia convencido ainda m ais da necessidade de livrar o país de tantos obstáculos burocráticos. Indira pensou que podia usar seu filho para abrir a econom ia e dar um a guinada para a direita. E não só por pura convicção, m as por necessidade política. De fato, radicais com unistas haviam se infiltrado em seu partido e lutavam por "elim inar a propriedade privada com o direito fundam ental" na Constituição, entre outras m edidas de cunho m arxista que queriam im por. Indira os havia controlado alegando que qualquer atalho que não respeitasse o procedim ento dem ocrático era perigoso. Mas constituíam um a am eaça capaz de provocar um a cisão no Congresso. Apoiando-se em seu darling boy Sanj ay , pensou que poderia opor-se a eles.

Indira tinha tanto m edo que acontecesse algum a coisa com seu filho que lhe pediu que m udasse de quarto. "Não quero que continue aqui, tão perto da entrada principal e da rua, não é um lugar seguro", disse. "Melhor que se m udem para o quarto do fundo do corredor, ao lado do m eu." A um a am iga que lhe perguntou a razão dessa m udança, respondeu: "Não m e sinto m uito bem , durm o em m eu quarto e Sanj ay no do lado. Se m e acontecer algum a coisa durante a noite, posso cham á-lo logo." A realidade era que Indira se enrolava em Sanj ay com o em um desses xales de pashm ina da Caxem ira de que tanto gostava, e fazia isso para se proteger do frio que sentia na alm a, sem perceber que esse filho era seu m aior problem a e, em certo sentido, sua m aior am eaça.

SANJAY FICARA SEM DINHEIRO E, certo de que j á não sairia nenhum veículo Maruti da fábrica, estava vendendo a estrutura com o ferro-velho. Havia deixado na m ão os concessionários que haviam se endividado com os bancos para construir loj as cham ativas, e que agora se viam forç a dos a vender suas propriedades para pagar esses em préstim os. Com o se fosse pouco, Sanj ay m andou prender os dois únicos concessionários que tiveram a ousadia de exigir o adiantam ento que haviam pago.

Com o desastre do Maruti, os carros haviam deixado de lhe interessar. Então resolvera voar, com o seu irm ão. Antes da Em ergency , havia tirado brevê de piloto particular e, com o gostava de velocidade, logo se apaixonou por voo acrobático. Sua fraqueza por aparelhos cada vez m ais rápidos e o excesso de confiança que tinha em suas próprias habilidades assustavam a m aioria de seus conhecidos e am igos, que tinham m edo de voar com ele. Maneka acabou sendo sua única passageira.

Sanj ay precisava de um a desculpa para atuar paralelam ente a sua m ãe. Para j ustificar seu poder extraconstitucional, Indira decidiu colocá-lo à frente de um a organização m oribunda, o Youth Congress (a ala j uvenil do Partido do Congresso), e em um a cerim ônia em Chandigarh, a ultram oderna capital do Punj ab proj etada por Le Corbusier, foi nom eado m em bro do Com itê Executivo. Mas todos interpretaram a m ensagem sublim inar: Sanj ay era oficialm ente o herdeiro de Indira. A prim eira-m inistra, que havia sido desapiedada com os príncipes porque antepunham o nascim ento ao talento, sucum bia agora à m esm a tentação e instaurava a dinastia. Raj iv e Sônia assistiam assom brados e desgostosos ao auge de Sanj ay, confusos e m uitas vezes constrangidos. A im prensa cham ava-o de "Messias", "o Sol" ou "a voz dos j ovens e da razão". Estava sem pre cercado de aduladores que cham avam de cham chas, o que em híndi significa colher, aludindo ao m ovim ento curvo que a m anipulação desse talher exige. Eram indivíduos resistentes sob um aspecto dócil, habilidosos na m anipulação, sem conhecim ento real dos desafios do governo, com pouca educação e form ação, assim com o Sanj ay. Um a m istura de políticos, am iguinhos e encrenqueiros. Só o que lhes interessava era tirar partido de sua relação c o m o poder. Com eçaram encarregando-se de revitalizar os cofres do Youth Congress organizando-se em brigadas que exigiam doações, quase sem pre de m aneira intim idativa. Os com erciantes de Délhi queixavam -se a Raj iv ou a Sônia de que os rapazes do Youth Congress os extorquiam . Mas os protestos de Raj iv caíam em um saco furado.- Não acredite nas m entiras que as pessoas dizem - respondia invariavelm ente o irm ão. A questão é que ninguém parecia se responsabilizar pelo ruim , só pelo bom . Porque tam bém havia algo de bom nas intenções de Sanj ay que, im ediatam ente após ser nom eado para esse cargo, acrescentou quatro pontos ao program a de sua m ãe, que ele m esm o se encarregou de executar. Os quatro pontos eram : lutar contra as favelas ilegais em um a cam panha para em belezar as cidades; erradicar o analfabetism o e o sistem a de dote e fom entar o planej am ento fam iliar.

Em tese, ninguém discordava dessas m edidas, sobretudo da luta contra a superpopulação, causada em parte pelo sucesso dos program as de saúde que haviam conseguido reduzir m uito a m ortalidade infantil e que fizera aum entar a esperança de vida de 27 para 45 anos em duas décadas. Em sum a, havia m ais gente vivendo m ais anos reprodutivos. Os progressos na agricultura, na indústria e na educação não podiam acom panhar o ritm o da dem ografia. Havia m ais riqueza, m as tam bém m ais pobreza. Mais educação, m as tam bém m ais analfabetos. "Hoj e, cria-se um m ilhão de postos de trabalho, e j á tem os 10 m ilhões procurando esses postos", dissera Sanj ay. "De nada adiantam o desenvolvim ento industrial e o aum ento da produção agrícola se a população continuar crescendo no ritm o atual." Ele tinha razão, assim não havia m aneira de sair da pobreza. Não foi na idéia, que era óbvia, e sim em sua aplicação que Sanj ay foi por um m au cam inho, conseguindo desacreditar com pletam ente o estado de sítio, e de quebra, sua m ãe.

No FIM, FORAM os POBRES, a quem se supunha que o estado de exceção devia aj udar, que m ais sofreram . Os hom ens de Sanj ay escolheram a esterilização com o m étodo m ais apropriado para reduzir a população da índia. Os dem ais m étodos de planej am ento fam iliar haviam dado parcos resultados. A pílula não estava disponível ainda e o diafragm a era im possível de ser usado por cam ponesas que viviam sem privacidade algum a. Durante um a tem porada, os preservativos alim entaram a esperança de controlar a natalidade. Chegavam às aldeias elefantes com carregam entos de preservativos que deviam ser distribuídos gratuitam ente à população, m as as crianças descobriram que era m uito divertido inflá-los e am arrá-los em pauzinhos para brincar, de m odo que os interceptavam . A ninguém escapava a ironia do slogan do governo que dizia que o planej am ento fam iliar gerava crianças felizes... A esterilização m asculina era o m étodo m ais barato, eficaz e seguro. Além do m ais, havia dinheiro do Ocidente para executar esses program as.

Sanj ay com eçou a percorrer o país, estim ulando os chefes de governo locais a irem além do que os outros faziam . "O chefe de Hary ana conseguiu 60 m il cirurgias em três sem anas, vam os ver quantas vocês conseguem !" dizia. Os obj etivos a atingir eram anunciados aos diversos chefes de distrito, que recebiam um a recom pensa se os ultrapassassem , ou, ao contrário, eram transferidos ou rebaixados se não os alcançassem . Um sistem a assim fom entava o abuso de poder. Modestos funcioná rios do governo tiveram que se subm eter ao bisturi do cirurgião para receber pagam entos atrasados. Os cam inhoneiros e condutores de riquixás não tinham a licença de circulação renovada se não apresentassem um certificado de esterilização. A m esm a condição era aplicável aos favelados que solicitavam um a escritura de propriedade de seus barracos para regularizar sua situação. Um antropólogo cham ado Lee Schlesinger foi testem unha, depois de um a visita relâm pago de Sanj ay Gandhi à aldeia onde realizava suas pe squisa s, do m odo com o a cam panha com eçou. Oficiais locais prepararam listas de "candidatos" - os que tinham j á três ou quatro filhos - e uns dias depois apareceram cam inhonetes da polícia para levá-los ao centro de saúde m ais próxim o, de onde, em troca de 120 rupias, um a lata de óleo de cozinha ou um rádio, saíam esterilizados. Mais tarde, alguns hom ens, quando ficavam sabendo que a cam inhonete estava a cam inho, fugiam para as m ontanhas. Outros, porém , deixavam -se operar duas vezes para ganhar m ais de um prêm io. Nas cidades, o m edo se apoderou das pessoas. Délhi ficou sem trabalhadores, o que era insólito em um a cidade onde as pessoas chegavam do cam po à procura de trabalho. Os im igrantes retornaram a suas aldeias para evitar a fatal incisão em seus genitais. Em novem bro de 1975, a com em oração do aniversário de Nehru - que incluía lanche grátis para centenas de crianças, teve que ser cancelada porque as m ães se negaram a m andar seus filhos hom ens com m edo de que os "m édicos de Sanj ay Gandhi" os esterilizassem . Rapidam ente, o certificado oficial de esterilização transform ou-se em um requisito indispensável para vencer as necessidades da vida cotidiana.

ERA INEVITÁVEL QUE UMA CAMPANHA assim topasse rapidam ente com um a forte resistência, principalm ente com a difusão do falso rum or de que a esterilização derivava em im potência. Para lutar contra essa resistência, o governo estabeleceu um sistem a de cotas por m eio do qual os salários de policiais, professores, m édicos e enferm eiras eram pagos só depois de m otivarem certo núm ero de pessoas a se subm eter a um a vasectom ia. Com o não podia ser de outra m aneira, as vítim as dessa desapiedada política foram os m ais fracos, os m ais pobres, os grupos sociais m ais m arginalizados, com o os intocáveis ou certas com unidades m uçulm anas e tribais que, a princípio, eram os que sem pre haviam apoiado Indira incondicionalm ente. Não entendiam com o sua deusa, em quem sem pre haviam votado, podia castigá-los assim . Esse era o prêm io que recebiam por sua lealdade? Os indianos não estavam acostum ados que o Estado determ inasse o tam anho de suas fam ílias. A índia não era um a ditadura com o a China, onde as decisões tom adas no topo podiam ser executadas à força. Essa tradição ditatorial não existia. Na índia, os filhos eram um recurso m uito valioso, algo assim com o "a previdência dos pais", porque desde pequenos trabalhavam nos cam pos, nas oficinas, nas tecelagens, ou m endigando nas ruas. As fam ílias eram grandes porque m ais filhos significavam m ais braços, e, com o conseqüência, m ais recursos. Para os pobres cam poneses, trabalhadores e m endigos sem lar, a possibilidade de ter filhos representava quase o único ato de liberdade individual de que poderiam desfrutar na vida. Tirar dos pobres o prazer de fazer e de ter filhos era tirar deles a única coisa que tinham . Mas, claro, isso Sanj ay não podia ver, pois seu coração estava cego ao sofrim ento dos pobres. Tam bém não tinha experiência em governar, na arte de m anipular oficiais e burocratas. Ao tentar sacudir a estratificada hierarquia adm inistrativa para torná-la eficaz, utilizando m étodos com o a am eaça de transferência, os duvidosos incentivos à esterilização ou a am eaça de ser investigado pelas autoridades fiscais, o que conseguiu foi que essa tácita irm andade de burocratas, que se m antinha unida por laços invisíveis havia séculos, se unisse ainda m ais para se defender dos ataques. Por um lado o adulavam , por outro o boicotavam . E ele era m uito ingênuo para perceber isso.

Quanto a sua m ãe, optou por não acreditar no que lhe contavam . Com pletam ente afastada da realidade pela corte de aduladores de seu filho, que lhe garantiam que os inform es de abusos eram baseados em rum ores não com provados, Indira via as críticas com o ataques pessoais, e as descartava com um a canetada.

As pessoas exageram m uito - dizia a Raj iv quando se cruzavam em casa, repetindo as palavras de Sanj ay . - Não se deve acreditar no que dizem . Acabo de voltar de Bhopal - insistia Raj iv - e lá os m uçulm anos estão aterrados. Dizem que os hindus m anipulam a cam panha contra eles... Precisam os tranqüilizar essa gente antes que transform em isso em um conflito entre com unidades. O que se deve fazer é lim itar a população a qualquer preço. Não há saída para a índia se não conseguirm os isso.

Raj iv tam bém percebia que falar com sua m ãe era im possível. Não adm itia que ninguém a contradissesse. Tudo para ela era vendetta política, ou sobrenatural, o que era especialm ente preocupante. A influência de seu professor de ioga, o guru Dhirendra Brahm achari, era m aior que nunca. O hom em se aproveitava da solidão da prim eira-m inistra. Chegou a ter acesso m ais fácil a Indira que seu próprio filho Raj iv. Ele soube aproveitar a seu favor essa proxim idade com o poder, porque, durante o estado de sítio, foi acum ulando um a pequena fortuna, tanto que lhe perm itiu com prar um avião. Na cidade, era conhecido com o "o santo voador". Raj iv e Sônia detestavam -no porque percebiam com o estava se aproveitando de Indira . Estiveram observando-o: prim eiro ele a assustava falando de com plôs sobrenaturais contra ela e Sanj ay , e a seguir a convencia a aceitar recitar certos m antras e proteger-se, assim , daqueles que buscavam sua destruição. Dessa m aneira, m antinha um a notável influência, da qual Indira não conseguia se livrar. Quando Sônia e Raj iv tentavam alertá-la, trancava-se em um de seus fam osos silêncios. Sônia não podia suportar a presença do guru em casa, que exigia com ida e bebida a seu bel-prazer. Estava cada vez m ais gordo, fruto de seu voraz apetite, e não tinha m odos.

É um porco! - diziam enoj ados ao vê-lo com er. Não sei com o m inha m ãe o agüenta... - dizia Raj iv. - Vive trancada em um a torre de m arfim , e, se seu único contato com o m undo são Sanj ay e o guru, estam os fritos! Vam os para a Itália, Raj iv, vam os dar às crianças um pouco de vida norm al. Q ua ndo lhe contaram , a expressão do rosto de Indira m udou por com pleto, tanto que

im ediatam ente se arrependeram de ter sequer m encionado a idéia. Com preenderam , ainda antes de Indira pronunciar um a palavra sequer, que aquilo seria difícil, para não dizer im possível. Eu entendo, Sônia, entendo que estej a farta de viver neste am biente - disse Indira - que tenha que ouvir todas essas críticas infundadas que se vertem sobre m im , entendo que tenha vontade de ir e m bor a para a Itália... Mas im aginam o que diriam aqui se vocês fossem em bora agora? Interpretariam isso com o um a deserção, com o um a obscura m anobra m inha... "Manda os filhos para a Europa, depois é a vez dela... está preparando sua fuga"; j á posso ouvir o que dirão... É que pensam os que isso é algo que podem os fazer agora que as crianças são pequenas - disse Sônia. - Depois, será im possível...

Não podem esperar um pouco?

Sônia olhou para Raj iv e baixou a cabeça. Ele estava pensativo. Sônia adivinhou com o devia se sentir por dentro. Indira prosseguiu:

É que o m om ento é tão ruim ...

Eu entendo, e a últim a coisa que querem os é prej udicá-la - disse a italiana levantando-se antes m esm o de Raj iv tom ar a palavra.

Em m om entos difíceis, a fam ília tem que se m ostrar unida. É im portante que as pessoas, que o povo perceba isso.

Sônia fez um gesto de aprovação com a cabeça.

Não se preocupe, m am ãe, vam os ficar - disse ela com um sorriso de com preensão. O que não se m encionou na conversa era igualm ente im portante. Além do m edo de que acontecesse algum a coisa, Sônia queria ir em bora por um tem po porque estava farta do com portam ento de sua cunhada Maneka, que a cham ava pej orativam ente de "italiana" e que a gia com um a insolência digna de um a rainha consorte ao abrigo de seu m arido, deus ex m achina do estado de sítio. Por sua vez, Indira tam bém não m encionou o horror que lhe causava separar-se de seus netos, a quem adorava. Brincava com eles, às vezes os levava a seu gabinete, orgulhava-se de apresentá-los às pessoas. Eram sua grande paixão. A verdade é que Indira havia se transform ado em um a m atriarca tão possessiva e protetora quanto havia sido seu avô Motilal Nehru, o antigo patriarca do clã.

Foi um pobre indivíduo, com as solas de suas sandálias gastas pelos cinco dias de cam inhada que levava para chegar até o gabinete da Akbar Road, que abriu os olhos de Indira para a realidade dos abusos com etidos em nom e da Em ergency. Era um j ovem professor de um a escola que vinha de um a aldeia perdida. Um hom em inocente, idealista e lutador, que foi contar a Indira que o haviam esterilizado à força, a despeito de ter só um a filha. A polícia o havia espancado e o levara a um am bulatório j unto com outros m oradores da aldeia. Contou o desespero de sua e sposa e de toda a fam ília por não poder ter m ais descendência, principalm ente um filho hom em . Falou de aldeias inteiras que a polícia cercava à noite para perseguir os hom ens e esterilizá-los. Pela prim eira vez, Indira ouviu de viva voz o testem unho de um a vítim a de sua política e saiu abalada do encontro. "Sim ", adm itiu, "talvez Raj iv e tantos outros tenham certa razão, afinal." Estava horrorizada com o que o professor contava sobre outros professores que haviam sido surrados por não atingirem sua cota de voluntários para a vasectom ia. De repente, a verdade a assaltava com toda sua crueza pela boca daquele hom enzinho valente e ossudo. Não havia m ais desculpas: "Tem os que m andar um a m ensagem urgente e taxativa a todos os chefes de governo regionais", ordenou a seu secretário, "dizendo que qualquer indivíduo surpreendido em ato de violência enquanto aplica o program a de planej am ento fam iliar será castigado". Por fim , Indira estava reagindo.

Sônia achou, então, que ela adotaria algum a m edida para deter Sanj ay , m as enganou-se. Ela não fez nada. "Com o pode o am or por seu filho cegá-la tanto?", perguntava-se. "Será que vai acontecer a m esm a coisa com igo em relação a Rahul?" Espero que não, que você nunca perca a obj etividade - dizia Raj iv, que suportava cada vez m ais dificilm ente a situação.

Já praticam ente não falava nem com seu irm ão nem com Maneka. Abom inava os m étodos e o estilo de Sanj ay e sentia-se im potente para m udar as coisas. Im potente perante sua m ãe: "Sanj ay é que consegue resultados", Raj iv a ouviu dizer, aludindo aos quase 4 m ilhões de indianos que haviam sido esterilizados nos prim eiros cinco m eses do estado de exceção. A esse ritm o, a m eta de alcançar 23 m ilhões em três anos estava em vias de se cum prir, por isso Indira, no fundo, estava satisfeita. O próprio Raj iv, graças às relações que tinha com seus colegas e na em presa, percebia antes que sua própria m ãe o desastre que se avizinhava. Sabia que os contadores de histórias, os sábios m endicantes e os adivinhos narravam nos quatro cantos desse país continente, às vezes distorcendo e exagerando os fatos para dar-lhes um a dim ensão épica, os abusos e sofrim entos que a cam panha de esterilização havia desatado. O terror que essas histórias invocavam e a insegurança que geravam abalavam a confiança que as pessoas depositavam em seus governantes. O estado de sítio com eçava a se voltar contra o poder, contra Indira. Mas a prim eira-m inistra não percebia isso.

Meu irm ão e m inha m ãe estão traindo o legado da fam ília - Raj iv repetia a Sônia em um tom de voz desesperado.

Estava preso em um a situação sem saída. Não podia ir em bora, e ficar repugnava-o. Não gostava que o relacionassem a tudo o que estava acontecendo. A despeito de ter um a das profissões m ais neutras do m undo, era inevitável que os colegas e as pessoas em geral o pusessem no m esm o saco que seu irm ão. Não se im portava de enfrentar Sanj ay ...-Você está traindo o vovô! - j ogou-lhe várias vezes na cara. Estam os m odernizando este país! - replicava Sanj ay . Estão pondo as pessoas contra vocês!... O fim não j ustifica os m eios. Mas dizer a m esm a coisa a sua m ãe era im possível para Raj iv. Um filho indiano não enfrenta seus progenitores. Certa subm issão à figura dos pais é um traço que faz parte do acervo cultural m ais profundo da índia.

Sônia sabia, por isso procurava não pôr m ais lenha na fogueira. Tinha fé em que o passar do tem po acabasse arranj ando as coisas. Fugindo da tensão latente, refugiaram -se em seus aposentos no fundo da casa, participando o m ínim o possível da vida com unitária. Já não sentiam que esse lar lhes pertencia, com o antes. O escritor Kushwant Singh, um assíduo visitante da casa, chegou um dia para ver Maneka enquanto Raj iv e Sônia com em oravam o aniversário de um de seus filhos: "Percebi que as crianças e cada um a das m ulheres ocupavam lugares afastados da casa e que tinham pouco a ver uns com outros". As brigas dos cães refletiam a tensão de seus m oradores. Sanj ay e Maneka tinham dois lebréis irlandeses "grandes com o asnos", segundo contava o escritor, que ficou vários m inutos paralisado de terror na sala quando o deixaram com um a xícara de chá na m ão j unto com os cães. Foi Indira quem o salvou dessa situação levando-os para o j ardim . Em contraste, Sônia tinha um a cadelinha salsicha cham ada Reshm a, e Zabul, um afegão m anso. Quando os cães se pegavam , Sônia, horrorizada, intervinha para separá-los, enquanto Maneka contem plava a cena im perturbável, porque sabia que seus cães eram m ais fortes.

Apesar da agressividade latente, dentro do lar, os Gandhi tentavam fugir da confrontação direta. A com unicação reduzia-se a bilhetes, sem pre educados, para expressar queixas e discrepâncias: "Ontem você deixou o cachorro solto dentro de casa, por favor, não torne a fazer isso, pois as crianças se assustam ". Maneka lia o bilhete, m as não se im portava.

Raj iv e Sônia encontraram apoio em seus am igos, dentre os quais se encontravam Sabine e seu m a rido, bem com o um casal italiano recém -chegado, Ottavio e Maria Quattrochi, m uito espirituosos e sim páticos, com quem saíam bastante para j antar. Tam bém faziam parte desse grupo um piloto da Indian Airlines, um casal indiano com posto por um hom em de negócios e um a decoradora m uito am iga de Sônia, um j ornalista e sua m ulher editora e m ais um casal. Sônia ria m uito com seu conterrâneo Ottavio Quattrochi, um experiente hom em de negócios, representante de grandes em presas italianas, dotado de um refinado senso de hum or. Os am igos aj udavam a suportar a desagradável situação fam iliar.

SÔNIA SOUBE DO QUE ESTAVA acontecendo na Velha Délhi por um a am iga indiana que a avisou por telefone. Disse que seu m otorista e seu cozinheiro, am bos m uçulm anos, haviam pedido aj uda, sabendo que se relacionava com a fam ília de Indira. Am bos estavam horrorizados porque, segundo diziam , "os hom ens de Sanj ay estavam arrasando o bairro". Queriam que sua "senhora" intercedesse para salvar suas casas. Sônia não sabia nada sobre isso. Se m pr e som os os últim os a saber. Você sabe com o está a situação em casa, não sei se poderem os fazer algum a coisa.

Quando indagou, soube que Sanj ay havia ordenado a dem olição do bairro, um labirinto de becos, antigos edifícios em ruínas e favelas insalubres. Um bairro suj o, congestionado e contam inado, m as com alm a de cidade velha. Fazia parte de seu program a de "em belezam ento de cidades". Os m oradores haviam se rebelado j ogando pedras, tij olos e até coquetéis m olotov nas escavadeiras. Um a turba de m ulheres havia cercado a clínica de planej am ento fam iliar gritando slogans e am eaçando esterilizar os funcionários.

A polícia não tardou a chegar, e dispersou a m ultidão com gases lacrim ogêneos. Desatou-se um a batalha cam pal cuj o saldo foram centenas de feridos e um a dezena de m ortos, dentre os quais se encontrava um m enino m uçulm ano de treze anos que olhava para os distúrbios com o se fosse um film e. No final, a polícia im pôs o toque de recolher para que as dem olições pudessem prosseguir. Quando Sônia lhe contou tudo isso, Raj iv exasperou-se. Com o é possível que m inha m ãe perm ita que destruam essa área, um a das partes que ela m esm a protegeu na época dos distúrbios da Partição?

DESSA VEZ, RAJIV ATREVEU-SE a dizer a sua m ãe: O program a de em belezam ento de cidades está causando um enorm e m al-estar entre a população, os pobres são forçados a abandonar seus barracos sem tem po de pegar suas coisas... Foram arrasados centenas de m ilhares de barracos, até os em pregados de nossos am igos estão ligando para que façam os algum a coisa... Indira ouviu-o sem dizer nada. Raj iv prosseguiu:

O vovô convenceu esses m oradores, na m aioria m uçulm anos, a ficar e não fugir para o Paquistão. Isso você sabe, m am ãe. Prom eteu-lhes proteção. E agora o neto dele os está expulsando a paulada! Indira m andou cham ar Sanj ay, que im ediatam ente desm entiu as acusações de seu irm ão.

Bobagens! - insistiu o j ovem . - Todos os desaloj ados receberam aloj am ento alternativo. Indira acreditou nele.

Neste país, há um a grande resistência à m odernização - m urm urou. Ela sem pre acreditava em Sanj ay quanto a assuntos de política ou da rua. Acreditava em Raj iv quando algo se estragava em casa; só então sua palavra valia ouro.

O que Sanj ay havia dito era um a m eia verdade. Na Velha Délhi, m ais de 70 m il pessoas, dentre as quais se encontravam o cozinheiro e o m otorista da am iga de Sônia, haviam sido obrigadas, sob a m ira do fuzil, a entrar em cam inhões para serem conduzidas a suas novas "residências", um eufem ism o para designar ínfim as parcelas de terra cercadas de um alam brado do outro lado do rio Yam una, a uns 20 km da cidade. Cada fam ília tinha direito a um lote de tij olos para construir seu novo refúgio e a cartões de racionam ento para com prar m ateriais e com ida. Mas, enquanto isso, não tinham teto para se abrigar.

No fim , quem fez Indira ver a verdade sobre as barbaridades que estavam acontecendo foi sua am iga Pupul. Ela voltou escandalizada de Varanasi, a cidade sagrada às m argens do Ganges. O assom broso, o m aravilhoso de Varanasi é que a vida continuava praticam ente igual desde o século VI a.C. Porém , Pupul havia visto com seus próprios olhos escavadeiras destruindo edifícios antigos para alargar o Vishwanath Gali, um beco estreito, serpeante, pavim entado com velhas pedras de rio que brilhavam por um a patina produzida pelos pés de incontáveis gerações de peregrinos e que atravessava o coração da cidade. Um a rua onde as vacas tinham preferência desde o am anhecer dos tem pos, e que ascetas percorriam com o corpo coberto de cinzas e o cabelo em aranhado, cam poneses recém -casados de braços dados com suas m ulheres, avós com seus netos e idosos que vinham de m uito longe para chegar ao tem plo de Vishwanath, o senhor do Universo. Considerado o m ais sagrado do m undo pelos fiéis hindus, esse tem plo abrigava um a pedra de granito polido, a relíquia m ais preciosa de Varanasi, o lingam original, um em blem a f á lic o que sim boliza a potência vital do deus Shiva, representante da força e do poder regenerador da Natureza.

Ao prostrar-se e oferecer-lhe água do Ganges, os fiéis hindus expressavam , assim , um a das m ais antigas form as do fervor religioso hindu. Varanasi, e o tem plo de Vishvanath em particular, eram o centro desse culto. Havia lingam s e y onis (o equivalente fem inino) em todos os lugares, nos tem plos, nos pequenos altares em butidos nas fachadas dos edifícios, nos degraus dos ghats, essas escadas m onum entais de pedra que m ergulham nas m argens com o raízes gigantescas, selando, assim , a união de Varanasi com o m ais sagrado dos rios. Todas as m anhãs, desde que o hom em tinha m em ória, m ilhares de hindus untavam com devoção a superfície polida dos lingam s com pasta de sândalo ou com óleo. Trançavam coroas de j asm ins e de cravo-da-índia que colocavam com esm ero ao redor da pedra ereta j unto a pétalas de rosa e folhas am argas de bilva, a árvore preferida de Shiva.

Querem os alargar a rua para que possam circular carros - disse a Pupul o delegado da corporação m unicipal que a acom panhava. Ela ficou gelada. E o que vão fazer com os tem plos, com os deuses, com todos esses altarzinhos? Vam os m udá-los de lugar, está prevista um a estrutura de concreto para colocá-los todos dentro. Mas não podem , são os guardiões da cidade, não os podem m udar assim com o se não fosse nada... Pupul estava tão indignada que não encontrava as palavras. O hom em , a seguir, acrescentou:

É que Sanj ay quer em belezar a cidade.

Mas não se pode brincar com Varanasi, é a m ais sagrada das cidades sagradas... Não se pode brincar com a fé das pessoas.

Pupul entendeu que era inútil tentar convencer o delegado, que se lim itava a cum prir instruções. Abalada e nervosa, pediu-lhe que suspendesse as atividades de dem olição até que ela regressasse a Délhi e falasse com a prim eira-m inistra. O hom em concordou. Quando Indira viu as fotos de Pupul e ouviu seu relato, "subiu pelas paredes", segundo sua am iga. "Nunca a havia visto tão enfurecida. Pegou o telefone e pediu a seu secretário que a pusesse em contato com o chefe de governo do estado de Uttar Pradesh. Explodiu quando falou com ele: Você não sabe o que está acontecendo em Varanasi?, perguntou, antes de m andar que a fosse ver im ediatam ente em Nova Délhi. A seguir, desligou e cobriu o rosto com as m ãos: O que está acontecendo neste país? Meu Deus, ninguém m e conta nada."

Qua ndo o chefe do governo de Uttar Pradesh soube do que estavam tentando fazer com Vishwanath Gali, ficou m udo de estupefação. Ele tam bém não sabia do que estava acontecendo. Quem havia dado as ordens? Todo o m undo sabia que vinham de Sanj ay , m as sua autoridade era difusa e difícil de rastrear. Era im possível conseguir explicações suas. Raras vezes falava em público, m al dava entrevistas, e quando o fazia eram penosas. Sua assinatura nunca aparecia em papéis oficiais. Era a som bra que reinava na escuridão do estado de sítio. Os funcionários subalternos, encarregados de cum prir suas ordens, desm anchavam -se em zelo para cair nas boas graças dele e interpretavam as ordens a sua m aneira, sendo ainda m ais intransigentes do que lhes exigia. O poder subia à cabeça de m uitos, e se transform avam em seres tirânicos, brutais e incontroláveis.

Na época da Em ergency, Raj iv passou do Avro a copiloto do Boeing 737, que a partir de então com poria o grosso da frota da Indian Airlines. Depois de um de seus vôos a Bom baim , enquanto ia para o hotel na cam inhonete da com panhia para passar a noite, um a longa caravana de m otos e carros de polícia, com as sirenes ululando e as luzes giratórias ilum inando o ar brum oso, obrigou seu veículo a parar. O destacam ento era im pressionante, "VIP!", disse o m otorista, aludindo à passagem de um a personalidade im portante. Quando quis seguir cam inho, um policial desviou-o para um a viela adj acente. "Quem é?" perguntou o m otorista ao policial. WIP! - respondeu. - Shri Sanj ay Gandhi!

Raj iv, sentado na parte de trás, ergueu os olhos para o céu. Assim circulava seu irm ão, com o se fosse o hom em m ais poderoso da índia, m esm o que não tivesse autoridade form al nem no Partido nem no governo. O m otorista não perdeu a oportunidade de espetar seu passageiro: Irm ão m ais novo passa, irm ão m ais velho desviado para os becos... O que você acha? Assim é a política! - respondeu Raj iv com hum or, no fundo satisfeito por não precisar fazer parte desse circo.

Inacessíveis ao desalento provocado pelas críticas da oposição, Sanj ay e Maneka faziam turnês pelo país com o se fossem um casal real, supervisionando tudo, dando ordens e instruções e sendo adulados por obsequiosos funcionários, m inistros e chefes de governo regionais. A im prensa cobria as viagens detalhadam ente.

"Sua im agem brilha com luz própria", declarava um sem anário. "Sanj ay está firm em ente estabelecido no coração das pessoas", rezava outra m anchete. A realidade era bem diferente: naquela época, Sanj ay era, talvez, o hom em m ais odiado da índia.

Prova de seu im enso poder era, por exem plo, o fato de Bansi Lal, o gordo chefe de governo de Ha ry a na e am igo seu, que fora nom eado m inistro da Defesa, antes de decidir a quem prom overia a alm irante, levar seus dois candidatos a Sanj ay para que este os entrevistasse. Ou qua ndo Sanj ay visitou Raj asthan e teve que inspecionar quinhentos arcos erigidos em sua hom enagem . Um a recepção sim ilar esperava-o em Lucknow, e ali aconteceu um incidente m uito revelador da aura que em anava de seu poder. Quando perdeu um a sandália na pista do aeroporto, foi o próprio chefe de governo de Uttar Pradesh quem se agachou para pegá-la, e entregou-lha reverencialm ente.

A fam ília de Maneka, especialm ente a m ãe, viu-se lançada ao estrelato. "De ninguém , passou a ser a principal dam a de honra da im peratriz da índia, Indira Gandhi", lem bra o escritor Kushwant Singh. "Tornou-se arrogante além do im aginável." Conheceu-a um dom ingo quando, acom panhada de sua filha, foram visitá-lo. Am bas queriam fundar um a revista sem anal de inform ação e entretenim ento e Sanj ay havia sugerido que o fossem ver para pedir-lhe conselho e envolvê-lo no proj eto. Kushwant Singh aceitou a tarefa, lisonj eado de encontrar-se tão próxim o a Indira e a seu filho. "Senti que Maneka exigia m uito de Sanj ay e que ele queria envolvê-la em qualquer atividade que reduzisse sua pressão sobre ele", diria o escritor. A revista, praticam ente escrita, revisada e editada por Singh, foi um sucesso, o que deu a Maneka um poder que não tivera antes e um a relevância social que a fazia feliz. O sucesso de Sury a, com o se cham ava sua revista, não confirm ava que ela era a digna esposa do hom em m ais influente do país? Em casa, esse acontecim ento traduziu-se em um com portam ento ainda m ais arrogante. Com parada a ela, quem era essa italiana que só gostava de cozinhar ou de ficar em casa? Agora, m ais que nunca, m ostrava seu desdém para com seus cunhados. Nem sequer as crianças se livravam . Um j ovem m em bro do Congresso foi testem unha de um a cena reveladora do caráter da "prim eira dam a", com o alguns a cham avam . Tocou o telefone e o rapaz atendeu, m as logo Maneka arrancou-lhe o fone das m ãos.

E r a um a ligação para seu sobrinho Rahul. "Aqui não m ora nenhum Rahul!", exclam ou, sim plesm ente porque nesse m om ento não queria ser interrom pida. Com o podem viver assim ? - perguntou a Raj iv e Sônia um a am iga íntim a. - Por que não se m udam para outra casa?

Não posso fazer isso com m inha m ãe - respondeu Raj iv. Era verdade. Nesse m om ento, pelo m enos, não podiam . Viam que Indira estava m udando e pre ste s a reagir. Já chegara a ela inform ação suficiente para que finalm ente adm itisse a veracidade dos abusos com etidos em nom e das cam panhas de seu filho. Com eçou a duvidar de seus conselheiros e a ouvir as pessoas de fora. Afetada pela crescente ira que sentia ferver no povo, j á não encontrava j ustificativa para prosseguir com as m edidas repressivas. Tam bém se sentia afetada pelos contínuos pedidos de diferentes personalidades dentro e fora da índia para suspender o estado de sítio. Seu tio

B. K. Nehru, em baixador na Inglaterra, falou-lhe francam ente e sem rodeios da im agem ruim que a índia tinha agora, pois j á não era considerada um farol de civism o brilhando em m eio às ditaduras da Ásia.

Indira j á havia adiado as eleições em duas ocasiões, a pedido de Sanj ay, m as da segunda vez contrariada. Achava que adiá-las era m andar um sinal errado para a sociedade, com o se estivesse com m edo de enfrentar o povo. Havia proclam ado o estado de sítio com o m edida transitória, m as não queria transform ar a índia em um a ditadura. A im agem de "ditadora benévola" que lhe chegava do exterior perturbava-a m uito. Que diria seu pai! Às vezes, parecia-lhe ouvir a voz de Nehru das profundezas de seu ser, incitando-a a tom ar um a decisão seguindo sua consciência. Além do m ais, Indira notava que perdera a conexão íntim a com essa "extensa m assa de hum anidade indiana", e queria recuperá-la. Sentia falta das m ultidões, precisava voltar a vibrar com o clam or e o am or do povo. Tinha saudade de seus sucessos eleitorais anteriores... Com o estava longe o triunfo apoteótico de 1971!

Continuar: parte 4 de 6