O Sári Vermelho
Ato Ii - o Anjo Exterminador
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Sanj ay , com o era de se esperar, opôs-se term inantem ente aos desígnios de sua m ãe. Está com etendo um erro im enso - sentenciou. - Você pode perder as eleições, e o que acontecerá, então? O inform e que recebeu do Serviço de Inteligência assegura que o Congresso perderá.
Não confio nesses inform es - respondeu Indira. - O Serviço de Inteligência está infiltrado por extrem istas hindus. Dizem o que querem ...
Não pode esperar antes de suspender o estado de sítio? Esperar o quê?
Esperar que alguns prisioneiros políticos sej am libertados, que os ânim os se acalm em . Não que estej am os contra as eleições - Sanj ay falava tam bém em nom e de seus protetores e com parsas Bansi Lal e o secretário Dhawan, que agora tinham m edo de ser vítim as de eventuais represálias- m as seria m elhor soltar a oposição prim eiro e esperar um ano para que esqueçam os problem as e acabem os rum ores.
Indira ficou olhando para ele em um de seus longos silêncios, um silêncio denso que falava de sua determ inação com m ais contundência que se houvesse respondido.
MAS DESSA VEZ INDIRA NÃO O OUVIU. NO dia seguinte, 18 de j aneiro de 1977, surpreendeu toda a nação anunciando eleições gerais ao cabo de dois m eses. "Será um a oportunidade para lim par a vida pública de tanta confusão", declarou. Sanj ay estava arrasado. Er a a prim eira vez que sua m ãe o desautorizava. E fez isso de novo ordenando a libertação im ediata de todos os líderes políticos e suspendendo a censura de im prensa. A oposição recebeu essas m edidas com receio. A essa altura, não confiava em Indira, nutriam suspeitas sobre sua m otivação profunda e tinha certeza de que se tratava de algum a arm adilha. Mas seu velho inim igo J. P. Naray an, que havia sido trancafiado em um a cela nos prim eiros tem pos da Em ergency e que a seguir, por questões de saúde, havia sido autorizado a voltar para casa, confessou a um am igo dos Nehru: "Indira foi m uito valente. Deu um grande passo". Com o ele, m uitos não o esperavam .
A decisão de agir com tanta rapidez, que deixou Sanj ay atônito, foi, no fundo, um a m anobra astuta de um a política experim entada. Tratava-se de pegar toda a oposição, fraca e fragm entada, de surpresa, e não lhe dar a oportunidade de se organizar. Era sua m elhor cartada para ganhar essas eleições, porque não tinha todas as cartas consigo. Queria pensar que a m agia que havia atuado em outras ocasiões tam bém atuaria nessa contenda. Passava da dúvida à certeza de que o povo continuava am ando-a, apesar de tudo.
Com o sem pre, dedicou-se a fazer cam panha com vigor, atravessando todo o país, dorm indo pouco, viaj ando em qualquer m eio de transporte. Com o em outras ocasiões, pôde contar com Sônia, sem pre presente, sem pre disposta a aj udá-la a se organizar e a tornar sua vida m ais fácil. Sônia se com padecia de sua sogra. Via-a esgotada perseguindo um a quim era: o afeto e a veneração do povo. Dessa vez, a sedução não funcionava. Indira voltava cabisbaixa dos com ícios. Contava a Sônia que havia ouvido gritos contra ela, vozes que pediam sua derrota, às vezes insultos. Vira as pessoas abandonarem as concentrações, deixando-a sozinha em frente a um grupo cada vez m ais reduzido de fiéis seguidores. Teve que ouvir m uitas histórias sobre os excessos do program a de esterilização, sobre as torturas, as prisões arbitrárias... Não sabia se acreditava em tudo o que diziam , m as acabou percebendo que esse contato privilegiado de que havia desfrutado com o povo j á não existia. "Não posso suportar", confessou um dia.
"Mantiveram -m e trancada entre estas quatro paredes." Sônia não se atrevia a lhe dizer que não quisera ouvir.
Nadar contra a m aré enfraqueceu Indira, e ela caiu doente várias vezes, sem conseguir se recuperar de um a espécie de gripe que lhe causava febres recorrentes. Os golpes que com eçou a receber de seus próprios com panheiros de partido m ergulhavam -na ainda m ais na angústia. De repente, seu m inistro da Agricultura, um conhecido líder da com unidade dos intocáveis, desertou de suas filas para j untar-se à oposição. A vida política do país pareceu eletrificar-se. Um a onda de pânico percorreu as filas do Congresso. Indira m anteve-se im passível publicam ente, m as Sônia adivinhava quão ferida se sentia. Aquele líder havia sido um am igo pessoal, um com panheiro de trilha, u m bastião do partido. Cham ava-se Jagj ivam Ram e havia exigido a suspensão im ediata do estado de sítio. Mais tarde, Indira descobriria que a verdadeira razão pela qual Ram lhe dera as costas era sua oposição ao lim ite de idade que Sanj ay queria im por para se candidatar. Com seus 68 anos, Ram - e m uitos outros - ficava, assim , fora do j ogo. Quando Indira quis em endar o problem a, j á era tarde dem ais. Im ediatam ente depois, m uitos velhos cam aradas tom aram o m esm o cam inho e seguiram os trânsfugas. "Que estranho terem ficado calados todos esses m eses...", disse-lhe Indira, que entendia que os ratos com eçavam a abandonar o barco... Mas ela j á sabia que a política é de traições. Churchill dizia que havia três tipos de inim igos: os inim igos, apenas; os inim igos m ortais; e os com panheiros de partido. O que m ais lhe doeu foi sua própria tia, Viy aj a Lakshm i Pandit, irm ã de Nehru, abandonar seu retiro político e entrar na roda denunciando que Indira e o estado de sítio haviam "destruído" as instituições dem ocráticas. Depois de fazer essas declarações incendiárias, ingressou em um a coalizão de partidos opositores que havia se form ado sob o nom e de Janata Party. Para Indira, m ais que um a traição, aquilo foi um a hum ilhação. Foi quando estourou um herpes na boca que a obrigou a fazer seus discursos com m etade do rosto coberto pelo véu de seu sári. "O que m e preocupa é ficar com cicatrizes no rosto", dizia a Sônia enquanto esta lhe aplicava um unguento.
Estou cansada da política - confessou-lhe de repente, sem dram a, sem exagero, quase sem em oção. Ver Indira ferida na alm a fez Sônia perceber que a alta política e as baixas paixões eram as duas faces de um m esm o m undo. Nunca a havia atraído, m as agora, ao ver sua sogra traída e sofrendo, sentia um a rej eição total. Indira confessou a sua am iga Pupul: "Vou brigar nestas eleições e depois vou renunciar. Estou farta. Não posso confiar em ninguém ".
Diante do fortalecim ento da oposição, Sanj ay pediu de novo a sua m ãe que cancelasse ou pelo m enos adiasse a convocatória. Mas ela continuou firm e. Seu filho, então, decidiu sair com o c a ndida to a deputado ao Parlam ento pela circunscrição eleitoral de Am ethi, vizinha da circunscrição de sua m ãe, Rae Bareilly, no estado de Uttar Pradesh. Era território dos Nehru e dos Gandhi, onde a vitória estava garantida. Se ganhasse, Sanj ay estaria protegido da vingança de seus incontáveis inim igos pela im unidade parlam entar. Maneka e ele eram tão ingênuos que em seu prim eiro discurso elogiaram os resultados da cam panha de esterilização. Foram vaiados por um grupo de m ulheres enfurecidas:
Vocês nos transform aram em viúvas! - gritaram . - Nossos m aridos não são m ais hom ens!
Indira encontrou reações parecidas por todo o país. Um discurso seu foi interrom pido por um a cam ponesa que a desafiou: "Tudo o que está contando de sua preocupação com o bem -estar das m ulheres é m uito bonito, m as e as vasectom ias? Nossos hom ens se tornaram fracos, e nós, suas m ulheres, tam bém ". Em um lugar próxim o a Délhi, outra cam ponesa a quem pedia voto trouxe à baila o assunto da esterilização, e fez isso em um a linguagem sugestiva: "Senhora, de que serve um rio sem peixes?". Por fim Indira percebia que em um país de m aioria hindu, que venera o Xingam (a pedra fálica) com o divindade prim igênia e fonte de toda a vida, a cam panha de esterilização em m assa havia sido um erro m onum ental. E sabia que, em política, os erros se pagam .
Depois daquelas viagens extenuantes, Indira voltava para casa com lágrim as nos olhos.
EM 20 DE MARÇO DE 1977, dia da convocatória, Pupul foi vê-la em sua casa. Eram 20h e as ruas de Nova Délhi transbordavam de um a alegria nunca vista desde as com em orações da independência dos ingleses, trinta anos antes. Grupos de pessoas tocavam tam bor, palhaços andando sobre pernas de pau distribuíam balas para as crianças, os m oradores dançavam nas ruas, havia cheiro de pólvora por causa das bom binhas e dos fogos de artifício... O povo, soberano, havia votado e com em orava a queda da "Im peratriz da índia". A casa, porém , estava envolvida em um silêncio inquietante. Não havia agitação nem luzes, nem carros estacionados do lado de fora, com o em noites de eleições anteriores. Não se viam crianças nem cães. Um secretário com fisionom ia patibular levou Pupul ao salão decorado em tons de bege e verde-claro. Indira estava sozinha, e levantou-se para cum prim entá-la. Havia envelhecido dez anos. "Pupul, eu perdi", disse sim plesm ente. Am bas se sentaram e ficaram em silêncio, um dos clam orosos silêncios de Indira que faziam com que as palavras sobrassem .
Sanj ay e Maneka estavam em Am ethi, sua circunscrição. Raj iv e Sônia em seu quarto, m uito preocupados. Sabiam m elhor que ninguém nessa casa a forte repulsa que a Em ergency havia causado na sociedade e tinham m edo das represálias contra sua m ãe, contra seu irm ão e contra eles tam bém . Tem iam por sua segurança, agora que Indira tinha que abandonar o poder. A isso se acrescentava um m onte de incógnitas derivadas da nova situação: onde m orar, por exem plo, porque era necessário devolver a casa ao governo. Mas, principalm ente, tinham m uito m edo pelas crianças. Sônia estava m uito afetada. Agora, sentia as garras da política em sua própria carne. Pressentira, m as que poderia ter feito para im pedir um desenlace desses? Um em pregado a interrom peu batendo à porta:
O j antar está pronto.
A m esa da sala de j antar estava posta com o em qualquer dia norm al. Sônia não podia conter as lágrim as. Raj iv estava sério, lúgubre, calado. Só com eram um pouco de frutas, enquanto Indira j antava copiosam ente chuletas vegetarianas com verdura e salada, com o se a derrota não a afetasse tanto. Mais parecia que havia tirado um peso das costas. Ninguém abriu a boca. Só se ouvia o barulho dos talheres sobre a louça, e o tím ido m urm urar de Sônia. Só houve um a interrupção do secretário Dhawan, o cupincha de Sanj ay, que veio anunciar uns últim os resultados catastróficos. Sanj ay havia perdido em Am ethi e Indira em sua circunscrição. O nunca visto: a derrota era absoluta e total, até em seu feudo tradicional. Indira não se alterou e serviram -se frutas de sobrem esa.
Passaram para a sala de estar, e continuaram sem abrir a boca, exceto para trocar banalidades c om um am igo da fam ília que os acom panhava. Ficaram assim um tem po, até que Pupul anunciou que ia em bora. Raj iv acom panhou-a até a porta.
Nunca perdoarei Sanj ay por ter levado m inha m ãe a esta situação - confessou. - Ele é o responsável por tudo.
Pupul ouviu-o em silêncio. Raj iv prosseguiu:
Eu disse a m am ãe várias vezes a verdade sobre o que estava acontecendo, m as ela não acreditou em m im …
Circulavam rum ores de que, se o Congresso houvesse ganhado, Sanj ay teria sido nom eado m inistro do Interior, e o povo estava aterrado com isso - disse Pupul. Eu acredito. Tenho certeza de que ele teria tentado.
Pupul notou, na penum bra do hall, que os olhos de Raj iv estavam em baçados de lágrim as.
À MEIA-NOITE, INDIRA SAIU DE CASA para reunir-se pela últim a vez com seus m inistros e suspender o estado de sítio de m aneira form al depois de dezoito m eses, m as quase todas as m edidas j á haviam sido anuladas na prática. Foi um a reunião breve, na qual quase ninguém falou. Todos haviam perdido seus postos. Estavam diante da m aior queda que j am ais acontecera no partido. Pela prim eira vez desde a independência, o Congresso não estava no poder. Dali, Indira dirigiu-se ao Palácio da Presidência da República. Envolvido na neblina, os fogos de artifício ilum inavam fugazm ente o antigo palácio do vice-rei britânico. Lá dentro, apresentou oficialm ente sua renúncia ao presidente.
A cam inho de casa, viu o povo com em orando sua derrota com j úbilo - crianças e adultos continuavam nas ruas a essa hora da noite - e de repente sentiu m edo. Pareceu-lhe que sua casa e sta va pobrem ente protegida. Ao chegar, dirigiu-se ao quarto de Raj iv e Sônia. Estavam acordados.
Seria prudente que vocês fossem com as crianças para a casa de am igos - propôs Indira - esta noite m esm o.
Não a vam os deixar sozinha.
Só por uns dias, até que o am biente na cidade estej a calm o. Agora há m uito alvoroço. Ficarei m ais tranqüila se vocês forem para outra casa. Vam os todos, então, você tam bém .
Não posso. Tenho que ficar aqui. Além do m ais, Sanj ay volta esta noite, de m odo que não ficarei sozinha. Vão, eu não m e perdoaria se acontecesse algum a coisa com as crianças. Às duas da m adrugada, Raj iv e Sônia, com Rahul e Priy anka m eio adorm ecidos e enrolados em m antas, saíram de casa com o se fossem refugiados em um país em guerra. Indira abstivera-se de lhes dizer que uns dias antes havia rej eitado a oferta do chefe de segurança de trazer tropas para Nova Délhi para protegê-la caso perdesse as eleições e a oposição decidisse organizar um a m archa contra sua casa.
A m ultidão poderia se descontrolar e assaltar sua residência... - dissera o chefe de segurança.
Não se preocupe com igo - respondera Indira. - O que lhe peço é que vele por m eus filhos. Talvez Indira não houvesse nunca acreditado que perderia, a despeito dos fortes indícios. Talvez se sentisse protegida pela aura de seus sobrenom es, quase de m aneira sobrenatural, para não perceber o que se aproxim ava. Talvez estivesse cega pela idéia que tinha de si m esm a. Quando o j ornalista e am igo Dom Moraes perguntou: "Senhora, vai voltar à política?" Indira respondeu: "Não. Sinto que tirei um peso de m inhas costas. Nunca voltarei à política". Talvez o alívio que agora sentia era porque a vida a pusera de novo em contato com a realidade. Mas era um a realidade dura de aceitar: aos 59 anos, estava sem em prego, sem receitas econôm icas e sem um teto sobre sua cabeça. Pela prim eira vez em sua vida percebia que não tinha nada. A casa fam iliar de Anand Bhawan havia sido doada ao Estado e agora era um m useu. Mesm o que houvesse ficado com ela, não a poderia m anter. Eram quatro da m anhã quando Sanj ay e Maneka chegaram . Não pareciam especialm ente deprim idos ou afetados pela derrota. Não pareciam conscientes do que significava. Ao contrário, Maneka contou-lhe que haviam voltado de Am ethi no avião particular de um am igo e relatou com o o próprio Sanj ay havia assum ido os controles para aterrissar.
Um a m anobra perfeita, acrescentou. "Foi quando percebi a força e o caráter do hom em com quem havia m e casado", escreveria m ais tarde. Nenhum dos dois sabia, ainda, que os habitantes de Turkm an Gate, na Velha Délhi, haviam voltado para casa eufóricos, e que am eaçavam esterilizar Sanj ay .
Indira dispensou-lhes um de seus silêncios significativos e foi se deitar. Era m uito tarde e estava exausta quando se deixou cair na cam a. Pensou em seus netos. O im portante é que estavam a salvo, pelo m enos m om entaneam ente. Ao longe, ouviam -se ainda as explosões dos fogos de artifício.
Definitivam ente, Indira era um personagem desconcertante. A naturalidade e a integridade com que assum iu sua derrota deixaram perplexos seguidores e inim igos. Poucos eram os exem plos na história de governantes que teriam feito o harakíri político com tanta integridade. Sentia-se satisfeita a despeito de tudo, e era porque havia devolvido à índia a confiança no poder do voto, em um a nação que agora era m ais estável e m ais próspera que antes. No que lhe dizia respeito, havia cum prido sua m issão e estava com a consciência tranqüila. Do sofrim ento provocado por suas m edidas não se sentia responsável. A culpa era do sistem a, da burocracia, do j ogo suj o da oposição. "Com estas eleições, a índia dem onstrou que a dem ocracia não é um luxo que pertence aos ricos", disse o The New York Tim es em sua defesa. No que todos os observadores - tanto nacionais quanto estrangeiros - concordaram , foi em que a carreira política de Indira Gandhi havia chegado ao fim . Todos estavam enganados, exceto um a velha colega m ilitante de um partido de esquerda que a foi visitar e lhe disse: Você vai ver, o povo voltará a você...
Então Indira voltou-se para ela com os olhos cobertos de lágrim as e perguntou: Quando? Quando eu estiver m orta?
Sua fiel secretária Usha não sabia que cara fazer nem o que dizer quando foi trabalhar no dia seguinte às eleições. Nunca fora a favor do estado de sítio, e seus com entários ao ler artigos críticos quase lhe custaram o cargo, não fosse Sônia a ter avisado para não continuar expressando-os. Não havia dorm ido a noite toda, ouvido colado no rádio. Ao entrar no gabinete, que ficava ao lado da sala de j antar, encontrou Indira sentada a sua m esa. Sorrindo, a ex-prim eira-m inistra disse:
Usha, você tem que devolver a m ulher gorda. A m ulher gorda?
Sim , a estátua que nos em prestaram do Museu Nacional. Ela se referia a um a estátua sem cabeça nem braços, e sem m uito valor, que Indira havia pedido em prestada ao m useu para decorar o salão de sua casa. Usha logo encontrou o recibo correspondente e pôs m ãos à obra. "Eu sabia que ela havia dito isso para relaxar a tensão. Era m uito típico dela.”
Precisava se m udar logo, porque seu sucessor, o direitista hin-duísta Morarj i Desai, apesar de dispor de um a grande casa confortável em Dupleix Road, queria transform ar a casa de Indira em sua residência oficial. Expulsá-la de casa era um sím bolo de sua vitória e, ao m esm o tem po, um a m esquinharia. Indira estava aborrecida. Mas o que podia fazer? Os oficiais que iam revistar gabinetes e quartos com um inventário na m ão j á estavam na casa. Com eçaram a levar obj etos e aparelhos que haviam sido prerrogativas do prim eiro-m inistro: telefones secretos, m áquinas de escrever, fotocopiadoras, aparelhos de ar condicionado, m esas e cadeiras de escritório, e tudo isso enquanto U sha e Sônia classificavam docum entos, guardavam arquivos e tentavam desesperadam ente pôr ordem em tanto caos.
Sônia, que poucos dias depois voltou com o resto da fam ília da casa de sua am iga Sabine, onde haviam se refugiado, encontrou funcionários levando m óveis, abaj ures, talheres e louça. Toda a decoração de seus últim os nove anos estava sendo levada por uns suj eitos que agiam com a arrogância do vencedor. A sensação de desam paro tornava-se ainda m aior ao notar a ausência dos em pregados oficiais, dos secretários contratados pelo governo, dos guardas da entrada e até dos j ardineiros que desapareceram , alguns sem nem m esm o se despedir. Morto o cão, acabava a raiva.
Indira era dona de um pedaço de terra em Mehrauli, na periferia da cidade, que Firoz havia com prado em 1959 e no qual sonhava m orar com sua fam ília depois de se aposentar. Raj iv havia investido parte de suas econom ias para construir um a casa de cam po, m as ficara sem dinheiro para acabá-la. De qualquer m aneira, Indira não queria se exilar no cam po. Preferia ficar perto de seus netos, no m iolo, em Nova Délhi. Conhecia a frase de um general de Napoleão cham ado Desaix quando da batalha de Marengo: "É verdade que acabo de perder um a batalha, m as são duas da tarde, e, antes do cair da noite, posso ganhar outra". A essa altura, Indira sabia que tanto os conceitos de sucesso quanto de derrota eram efêm eras em política.
Fo i um velho am igo de fam ília que a salvou. O diplom ata Moham -m ed Yunus ofereceu generosam ente desocupar sua casa do núm ero 12 da Willingdon Crescent, onde havia sido celebrado o casam ento de Sanj ay e Maneka três anos antes, para cedê-la aos Gandhi. Essa nova casa era bem m enor, e Sônia se perguntava com o caberiam todos. A m udança durou vários dias, o que se leva para transportar posses acum uladas durante treze anos, os pertences de cinco adultos e duas crianças, cinco cães, incontáveis caixas de livros, arquivos transbordantes de papéis e docum entos, quadros, obj etos, lem branças de viagens etc. Indira não gostava de j ogar nada fora: cada papel, cada presente, cada livro era um a lem brança. De m odo que se acum ulavam caixas e baús nos corredores. No quarto de Indira só cabia sua cam a e sua poltrona favorita, cuj o encosto utilizava para apoiar-se e escrever. Não tinha m ais taquígrafo, nem m esm o um escritório próprio. Recebia as pessoas na varanda ou na abarrotada sala de j antar. Sônia dava um j eito para que houvesse sem pre um vaso com gladíolos à vista.
Grande parte do trabalho dessa enorm e m udança recaiu nos om bros da italiana, que precisou c om pr a r ou pedir em prestados a suas am igas um a geladeira, vários aparelhos de ar
condicionado, aquecedores, panelas, frigideiras e potes de cozinha. Seu senso de fam ília havia se intensificado vivendo na índia. Trabalhava com um perfeito senso de organização, que lhe lem brava o de seus pais durante sua infância, quando eram pobres em Lusiana e tinham que trabalhar sem parar para seguir em frente.
Voltaram -lhe à m em ória seus conhecim entos de horticultura, e lim pou um a parte do fundo do j ardim , onde plantou de alface, abobrinha e tom ate até verduras desconhecidas e exóticas na índia, com o o brócolis. O fato de ter conhecido tem pos difíceis aj udava-a, agora, a superar o transe com m ais integridade que seu m arido, que não se perdoava por não ter sido m ais firm e: "Fui incapaz de deter m eu irm ão", confessara a um am igo da fam ília, sem disfarçar sua frustração.
Com o o cozinheiro havia ido em bora e Indira se m ostrava reticente em contratar um novo com m edo de que fosse um infiltrado do governo que os pudesse envenenar, cabia a Sônia encarregar-se de fazer as com pras e preparar as refeições. Nunca nesse lar degustaram tão deliciosas lasanhas, m assas à la puttanesca e risotos com o naqueles dias difíceis. Tam bém havia aprendido a cozinhar pratos indianos, que ficavam m enos picantes que o habitual. Era especialista em espinafre com queij o e em frango com m olho korm a à base de am êndoas m oídas, coentro e nata. Cozinhar era, tam bém , sua m aneira de m im ar a fam ília e contribuir para a descontração do am biente, que estava tenso. A freirinha de seu internato j á dizia que Sônia tinha a qualidade de ser conciliadora. Essa qualidade m anteve a fam ília unida durante essa época. Raj iv e Sanj ay continuavam sem se falar, exceto para o indispensável, apesar de agora seus respectivos quartos ficarem de frente um para o outro, de cada lado do corredor.
Indira insistia em preservar o costum e de com er j untos pelo m enos um a vez ao dia, m as era quase im possível sentar à m esm a m esa os dois irm ãos. Raj iv responsabilizava Sanj ay pela queda do status da fam ília, de terem passado de os m ais respeitados a párias. Tam bém era verdade que viviam do salário de Raj iv e das doações dos poucos am igos fiéis que não haviam abandonado Indira, esperando, talvez, que sua lealdade fosse recom pensada no futuro. Sanj ay não contribuía com nada, ao contrário, precisava de dinheiro para pagar a horda de advogados que o defendiam de um sem fim de acusações dos crim es m ais horríveis. Ele não podia contribuir com dinheiro para o caixa fam iliar, m as tentava com pensar alegando que um dos m agnatas que os aj udavam financeiram ente era um j ovem am igo seu, dono de um a fábrica de refrescos em Nova Délhi.
Maneka, fiel a si m esm a, não aj udava nas tarefas dom ésticas, ao contrário de Indira, que não hesitava em pegar um a vassoura e varrer a casa. "Sônia cozinhava, Maneka com ia", dizia um am igo da fam ília. O resultado foi que a relação entre Indira e Sônia tornou-se ainda m ais estreita durante essa época, o que atiçava o ciúm e da j ovem Maneka.
Quando acabaram de se instalar, Usha sentiu que j á não fazia sentido ficar. Continuou indo em dias alternados, até que decidiu se dem itir:
"Vou acom panhar m inha irm ã a Bom baim ", anunciou a Indira, que adivinhou que se tratava de um a desculpa e que não voltaria. Mas Usha não se atrevia a dizer-lhe a verdade: talvez houvesse ficado se Sanj ay e seu cupincha, o secretário Dhawan, não continuassem com esse ar arrogante que Usha não suportava. Indira esboçou um sorriso triste ao se despedir. Lam entava perder aquela m ulher que havia sido sua secretária por trinta anos, e em quem tinha plena confiança. Sabia que Usha conhecia até os cantinhos m ais recônditos de sua alm a. Indira estava m ental e fisicam ente esgotada, preocupada com a debandada geral, com as brigas em casa entre seus filhos, e com as represálias que o novo governo, tinha certeza, tom aria. Tinha olheiras escuras, e parecia que todo seu corpo havia encolhido. Com o antiga prim eira-m inistra, tinha direito de m anter a proteção oficial, m as o novo chefe de governo e acérrim o inim igo político Morarj i Desai, hindu ortodoxo, queria tirá-la com o havia lhe tirado a casa. De que tem m edo? - perguntou a um ex-m inistro de Indira. - Não é bom que ande sem pre cercada de policiais.
Há um am biente hostil contra ela e seu filho... Não, não é por isso. É por vaidade.
A seguir, o novo prim eiro-m inistro lançou-se a um a diatribe contra as m ulheres no poder, de Cleópatra a Indira, passando por Catarina da Rússia, chegando à conclusão de que todas haviam sido vaidosas e desastrosas com o governantes. A cam panha que esse hom em desatou contra os Gandhi tornou-se um a verdadeira caça às bruxas. No início, Sônia estranhou, quando ia às com pras, ver sem pre os m esm os indivíduos seguindo-a a certa distância. O m esm o acontecia com os outros m em bros da fam ília, inclusive Maneka. Indira soube que eram agentes do CBI (Central Bureau of Intelli-gence, o serviço central de inform ação do governo) que tinham instruções de segui-los e de gram pear suas conversas telefônicas. Sanj ay , com a arrogância de quem nunca teve que enfrentar um percalço do qual não se houvesse recuperado, oferecia carona em seu próprio carro, ironicam ente, aos agentes do serviço secreto que o seguiam , para econom izar gasolina. Um dia, apareceram na casa m eio construída de Mehrauli com detectores de m etais. "Mas o que estão procurando?", perguntou Raj iv.
Não lhe responderam , m as m ais tarde ouviu-os gritar quando o detector com eçou a em itir um silvo. Pensaram que haviam encontrado o tesouro que Sanj ay havia enterrado. O tesouro acabou sendo um a lata vazia de óleo de cozinha.
Foi aproxim adam ente nessa época, em pleno calor anterior às chuvas das m onções, que Indira apareceu tarde da noite na casa de sua am iga Pupul. Ia visitá-la sem pre para fugir das tensões de casa. De novo Raj iv havia lhe j ogado na cara que "Sanj ay e Dhawan é que a arrastaram até aqui". Indira não havia respondido, lim itando-se a baixar a cabeça. Sabia perfeitam ente que a responsável últim a por tudo o que havia acontecido era ela, por isso escusava Sanj ay. "Vim m e sentar um pouco, desfrutar da tranqüilidade", dizia a sua am iga. E passava um tem po em silêncio, na varanda, encontrando-se consigo m esm a.
Em outra noite de canícula chegou m uito agitada e com um olhar desesperado: "Tenho inform ação fidedigna de que querem pôr Sanj ay na cadeia e torturá-lo". Pupul ficou petrificada, sem saber o que dizer. Indira sentia um m edo im enso. "Nem m eu filho nem eu som os o tipo de gente que se suicida, de m odo que, se aparecerm os m ortos, não acreditem no que disserem ..." O fato de o novo governo, em seu desej o de vingança, andar procurando diligentem ente provas para se vingar dela por m eio de Sanj ay era um segredo sabido por todos. Terem decidido torturar Sanj ay era m ais fruto de sua im aginação paranóica que de um plano preestabelecido. Ninguém m elhor que Indira sabia que, estando no poder, era relativam ente fácil m anipular os serviços de inform ação. E a antiga im peratriz da índia sentia-se desesperadam ente sozinha. Via políticos que a iam visitar diariam ente, m as não podia contar com nenhum deles. Os que a podiam aj udar não se atreviam a aproxim ar-se de sua casa com m edo da vigilância.
Por outro lado, a situação financeira da fam ília, com tanto gasto com advogados, tornava-se insustentável. Os m eios de com unicação, que tão docem ente haviam cedido a suas exigências quando havia im posto a Em ergency - tanto que um político da oposição, assim que foi suspenso o estado de sítio, disse acerca do papel da im prensa: "pe dira m que se contivessem , e preferiram rastej ar" - agora se dedicavam com afinco a inventar histórias terríveis, ou a exagerar rum ores para m ostrar que os Gandhi eram um bando de m alfeitores. "Acusam -m e de todo tipo de crim es, até de ter m atado não sei quanta gente..." queixava-se Indira. Era verdade, o m inistro do Interior havia dito no Parlam ento que Indira "planej ara m atar todos os líderes da oposição que havia m andado prender durante o estado de sítio". Cinco dias depois, o governo encarregara o j uiz da Corte Suprem a, J. C. Shah, da form ação de um a com issão de investigação, com a m issão de "investigar se houve subversão de procedim entos, abuso de autoridade, uso indevido do poder e excessos durante o estado de sítio". Outra com issão foi criada especificam ente para investigar tudo o que se relacionasse ao Maruti. O governo estava decidido a fazer Indira e Sanj ay engolir o m esm o am argo rem édio que eles haviam adm inistrado ao país durante o período de sítio.
Nesse am biente, a notícia do suicídio do coronel Anand, pai de Maneka, soou com o o prim eiro acorde de um dram a m ais am plo que com eçava a se desenrolar, com o o prim eiro acorde de um a m archa fúnebre. Seu corpo foi encontrado de bruços em um terreno, e ao lado um a pistola e um bilhete que dizia: "Preocupação Sanj ay insuportável".
No início, não se soube bem se havia sido suicídio ou hom icídio, m as Maneka e os fam iliares próxim os tinham certeza de que o coronel havia se m atado. Já havia com etido um a tentativa igual havia algum tem po com um a overdose de com prim idos e tinha um histórico de
instabilidade m ental e depressão. Não suportara a queda vertiginosa de sua reputação e de sua posição social. Seus incontáveis am igos de conveniência haviam se evaporado no ar rarefeito de Nova Délhi. Im ediatam ente surgiu o rum or de que o sogro sabia m uito sobre os negócios turvos de Sanj ay e que sua m orte era, na realidade, um hom icídio disfarçado de suicídio. Mas não se pôde provar nada e, assim que a atenção da m ídia desapareceu, o caso caiu no esquecim ento.
Indira ficou perturbada, e Sônia tam bém . Um a m orte assim , no m om ento em que aconteceu, criou um m edo difuso e profundo, um a m istura de desassossego e alarm e. A queda do poder ha via feito um a vítim a m uito próxim a. O sangue havia chegado ao rio, e onde m enos o esperavam . Indira ficou ainda m ais paranóica, relacionando inconscientem ente a m orte de seu consogro com as am eaças a Sanj ay. Agora, m ais que nunca, sentia que devia proteger seu filho a qualquer custo. A notícia do suicídio transcendeu as fronteiras e Sônia recebeu ligações angustiantes de sua m ãe. Lá em Orbassano, os Maino acom panhavam os acontecim entos com um a angústia e um a inquietude crescentes. Chegavam boatos de Nova Délhi, rum ores de que Sônia e Raj iv estavam tentando fugir e de que Sônia havia pedido asilo na em baixada italiana…
- Mam ãe, nada disso é verdade. Estam os bem , as crianças tam bém , m as não posso falar, depois lhe conto...
E, invariavelm ente, a ligação caía. Sônia absteve-se de dizer a sua m ãe que o governo havia confiscado o passaporte de todos os m em bros de sua fam ília. Mesm o que quisessem , agora não poderiam ir para a Itália, nem m esm o por um a em ergência.
INDIRA DEDICOU-SE COM AFINCO A TRABALHAR com seus advogados para defender-se da com issão Shah, enquanto m antinha um a vida pública m uito discreta. Um j ornalista inglês cham ado Jam es Cam eron entrevistou-a e achou-a "a m ulher m ais sozinha e m ais apreensiva do m undo", segundo o título que deu a seu artigo. "Está resignada e não quer falar sobre nada. P arece um boxeador derrotado esperando um m ilagre. Mas não haverá m ilagre para ela", escreveu no The Guardian em 21 de setem bro de 1977.
Jam es Cam eron enganou-se. O m ilagre que faria a fênix ressurgir de suas cinzas ocorreu em um lugar cham ado Belchi, um a pequena e inacessível aldeia no rem oto estado de Bihar, cercada de arrozais, m ontanhas e cataratas. Um a paisagem idílica que havia sido palco de um atroz m assacre. O crim e havia acontecido em parte pela atm osfera de im punidade propiciada pelo novo governo, cuj a coalizão incluía elem entos hindus extrem istas, e na qual hindus de alta casta se sentiam de novo livres para subj ugar pobres cam poneses intocáveis, com o haviam feito durante m ilhares de anos antes da independência. Em Belchi, um grupo de latifundiários havia atacado um a com unidade de cam poneses sem -terra, exterm inando várias fam ílias e j ogando os corpos ao fogo.
Dentre as vítim as havia dois bebês. A notícia levou vários dias para ser divulgada, antes de se tornar capa da im prensa nacional. O governo não reagiu. Seu presidente, Morarj i Desai, que considerava a proibição de m atar vacas e de consum ir álcool prioridades nacionais, não achava que esse tipo de acontecim ento m erecesse atenção prioritária. Nem sequer se apressou a condenar o crim e.
Indira viu im ediatam ente a brecha no adversário. Soube o que devia fazer. Pediu a Sônia que a aj udasse a preparar suas coisas para ir a Belchi. Todo o m undo diz que Bihar é um lugar m uito perigoso, que há bandidos que assaltam as pessoas... - disse Sônia, que de fato estava bem inform ada. Bihar era o estado m ais atrasado, anárquico e inseguro da índia. E o m ais pobre tam bém . - Você não tem equipe de segurança, é m uito arriscado - insistiu a italiana.
Não vou sozinha, vou com um grupo de fiéis do partido. Mas em Bihar o partido não conseguiu um a única cadeira no Parlam ento... Terão força para protegê-la?
Claro que sim . Não se preocupe - cortou Indira - nada vai acontecer. Sônia não insistiu. Conhecia-a suficientem ente bem para saber que nada a faria m udar de idéia. Mas ficou preocupada. Em um am biente tão carregado de hostilidade com o o daqueles dias na índia, qualquer coisa podia acontecer.
Quando voltou para casa cinco dias depois, Sônia quase não a reconheceu. Indira estava com o sári suj o, toda ela estava coberta de um a cam ada de pó e pingando suor. Tinha olheiras e havia em agrecido. Parecia um a m endicante. Mas Sônia percebeu um a centelha de luz em seus olhos, com o um a cham a de vida. Logo soube que a viagem a Belchi havia sido um sucesso. Indira contou-lhe a odisséia que acabara de viver com toda a riqueza de detalhes. Sônia a ouvia, encantada.
- Choveu tanto que todas as estradas para Belchi estavam intransitáveis. Dos quinhentos sim patizantes que haviam com eçado o traj eto com igo, seguindo-m e em um a caravana de carros, de repente percebi que só restavam dois. Os outros haviam j ogado a toalha. Minha idéia era chegar a Belchi antes do anoitecer, m as as estradas estavam tão alagadas que tivem os que trocar o 4 x 4 por um trator, que, por sua vez, acabou afundando no barro uns quilôm etros m ais adiante. Meus acom panhantes insistiam para que voltássem os, m as eu disse que seguiria a pé. Olhavam -m e com o se estivesse louca. Eu sabia que não iam m e deixar seguir sozinha, e tive razão; sentiram -se obrigados a m e acom panhar, m esm o que contrariados. Depois de um a longa cam inhada, exaustos e ensopados, chegam os ao rio, e percebem os que era im possível atravessá-lo a pé. Não havia barcas debaixo daquele tem poral, nem barqueiros dispostos a levar as pessoas para o outro lado. Meus com panheiros estavam dispostos a voltar, m as eu perguntei a uns aldeões que haviam saído de suas choças ao nos ver chegar: "Tem que haver um a possibilidade de atravessar... Há cavalos por aqui?" "Não, m adam e, disse um ."
"Um a m ula? Um burro?"
"Não, m adam e. Só um elefante." "Onde?, perguntei."
"Na aldeia. É o elefante do tem plo." "Podem trazê-lo?"
"Sim , m adam e, m as..., o hom em parecia incom odado, as palavras não saíam ."
"Mas o quê?, perguntei."
"É que não tem os howdah, adm itiu finalm ente, m eio envergonhado." Sabe o que é um howdah? - Indira perguntou a Sônia. Não é aquela torreta que colocam sobre o elefante para levar personalidades im portantes? De fato... Na índia, acim a de considerações práticas, sem pre vem a preocupação com o status Parece que é a única coisa que rege as relações entre as pessoas. O caso é que eu lhes disse que não fazia m al não terem howdah, e então um deles anunciou triunfalm ente que colocaria um a m anta.
Indira parecia um a m enina encantada contando essa aventura a Sônia. Vê-la tão viva e anim ada, tão direta e próxim a, era com o um m ilagre. Indira estava transform ada. Sabe... eu não m e sentia cansada, e isso depois de ficarm os esperando m ais de um a hora em baixo da chuva.
O que aconteceu com o elefante?
Por fim chegou, cham ava-se Moti. Os cam poneses m e aj udaram a subir prim eiro, e depois ergueram um de m eus acom panhantes, que se sentou atrás de m im . Quando m e voltei, notei que ele estava com os olhos esbugalhados de pavor. Sônia riu. Indira continuou contando:
O outro optou por ficar e organizar a volta. Foi assustador, porque o anim al balançava m uito e as águas do rio chegavam à altura de sua barriga. O hom em estava agarrado a m eu sári com o um a criança à saia de sua m ãe. Pensei que ia com eçar a chorar... Am bas caíram na gargalhada. Sem pre era engraçado ouvir histórias onde as m ulheres tinham o controle da situação. A seguir, o sem blante de Indira tornou-se grave. Er a tarde quando chegam os a Belchi - continuou contando. - Os sobreviventes do m assacre estavam refugiados em um edifício m eio abandonado de dois andares.
De repente, vi surgirem um as tochas que ilum inavam o rosto daqueles que as portavam : havia idosos com o rosto cheio de rugas, j ovens viúvas, crianças com grandes olhos brilhantes, om ens de pele escura, todos m uito tem erosos e surpresos... Quando m e reconheceram , j ogaram -se a m eus pés. Acho que m e viam com o um a aparição divina. Eu não tinha nada para lhes oferecer, e xc e to m eu tem po, m as aquela gente tão assustada não parava de m e agradecer por m e interessar por eles, por ter vencido tantos perigos para ir ouvi-los. Diziam que m inha presença era um m ilagre, percebe? Ficam os várias horas, e ouvi histórias horríveis sobre o m assacre. Saí chorando dali... era tanta pobreza, tanta dor dos cam poneses m e m ostrando as cinzas da pira onde haviam j ogado vivos seus fam iliares que saí arrasada. Era noite fechada quando abandonam os Belchi. Havia barulho de trovões, m as não estava chovendo, de m odo que um barqueiro se ofereceu para nos levar ao outro lado. Sabe o que aconteceu, então?
Sônia negou com a cabeça. Indira prosseguiu: Com o a carga era excessiva, ao se aproxim ar da outra m argem , o barco virou. Tornaram a cair na risada. Indira prosseguiu:
Está va m os todos m ergulhados naquelas águas negras. Consegui chegar até a m argem . Continuam os cam inhando até a estrada principal, onde nos esperavam uns 4x4. Estávam os ensopados. Então, aconteceu outro m ilagre, Sônia. Os cam poneses dos arredores, que ficaram sabendo de m inha visita, com eçaram a chegar. Traziam frutas, flores e lanternas. De repente, ouvi um barulho de tam bores e um as vozes de m ulheres... Sabe o que estavam cantando? "Votam os contra você. Nós a traím os. Desculpe", diziam . Vinham com doces e m e ofereceram seus m odestos sáris secos para m e secar ou m e trocar. Algum as até pediam m inha bênção!
Sônia percebeu que Indira havia visto a luz no fim do túnel. Mergulhara na "m assa de hum anidade indiana" e não se sentira rej eitada. Ao contrário, tornara a encontrar sua voz e um a resposta.
Indira continuou contando que no dia seguinte foi a Patna, a decom posta capital do estado de Bihar, para visitar seu antigo inim igo J. P. Naray an, o hom em cuj o boicote a havia levado a declarar estado de sítio. Estava m uito velho, quase no leito de m orte. Agora que Indira havia sido derrotada e vilipendiada, J. P. a perdoou. Ficaram reunidos durante cinqüenta m inutos, falando da s m uitas lem branças que com partilhavam dos tem pos em que a esposa de Naray an era a m elhor am iga da m ãe de Indira. Tam bém falaram do m assacre de Belchi e da sorte dos intocáveis. A seguir, posaram para a im prensa. Indira tirou de sua bolsa de pano um j ornal am assado e m ostrou a foto a sua nora. Era um a foto im portante para Indira, porque selava sua reconciliação política. Sônia entendeu que sua sogra estava voltando à roda. Mas... há m enos de duas sem anas você não disse que estava se retirando da política? - perguntou Sônia.
Ainda não voltei, e gostaria de não voltar, m as com o posso m e retirar? Enquanto quiserem a pele de Sanj ay ou a m inha, terei que lutar para nos defender.
Anim ada, Indira decidiu partir no dia seguinte para sua antiga circunscrição de Rae Bareilly, onde os votantes a haviam rej eitado contundentem ente m enos de quatro m eses antes. Era arriscado, porque podia encontrar m ultidões hostis, j á que esse estado fora alvo preferencial da cam panha de esterilização; m as, para sua grande surpresa, m ilhares de pessoas foram recebê-la sob um sol inclem ente. Tam bém ali soube perfeitam ente o que devia fazer e dizer. Sem rodeios, pediu perdão pelos excessos do estado de sítio, e a seguir lançou um ataque contra a coalizão Janata, que estava no poder. O povo a aclam ou ainda m ais fervorosam ente que em Belchi. Decidiu fazer um a turnê relâm pago por várias aldeias do estado, repetindo a m esm a m ensagem . Em todos os lugares, a recepção era m ultitudinária. Voltava para casa descadeirada, suj a, esgotada, m as contente.O relato da viagem de Indira a Belchi propagou-se com o um eco pelo subcontinente até alcançar as aldeias engastadas nas faldas do Him alaia, as choças de barro do deserto, as barracas de folha de palm a das castas m ais baixas, os barracos de plástico e latão dos intocáveis do sul... Para além da distinção de raças, castas ou religiões, a voz dos pobres se reencontrara com sua fonte de inspiração e consolo. Apesar de sentir que a índia com eçara a perdoá-la, Indira continuava m uito preocupada com sua situação e com a am eaça da Com issão Shah. Vozes no governo exigiam um a "espécie de j ulgam ento de Nurem berg" por seus crim es durante a Em ergency .
Tenho certeza de que encontrarão algum pretexto para m e prender. Não se atreverão - disse Sônia, m ais para acalm á-la que por convicção. Soube que o governo Janata prom eteu não perseguir j udicialm ente m eus antigos m inistros se aceitassem responsabilizar Sanj ay por todos os deslizes com etidos durante o estado de sítio. Sei perfeitam ente que m e trairão. Tam bém querem m eter Sanj ay na prisão.
Essas traições feriam -na profundam ente e a precipitavam em um abism o de solidão que lhe dava vertigem . Sônia a via tão forte e, no entanto, tão vulnerável. Ao contrário de sua sogra, a m aioria dos políticos estava na política por pura am bição pessoal, não por senso de dever. A m esquinharia desse m undo a enoj ava. Mas ela percebia que a vida pública e a política entendida com o serviço aos dem ais eram a razão de ser de Indira, e que nunca m udaria. Mesm o que ela gostasse de dizer que sonhava em se afastar do m undo, Sônia j á não acreditava. Retirar-se era um luxo que Indira não podia se perm itir.
Diante do cerco do governo e da Com issão Shah, Indira pegou o touro à unha. Fiel à m áxim a de que não há m elhor defesa que um bom ataque, viaj ou extensam ente para afirm ar sua presença, para entrar em contato com o m aior núm ero possível de pessoas, para consolidar o que havia conseguido em Belchi, o perdão do povo. Na estação de Agra, a recepção foi tão triunfal que houve um estouro da m ultidão que acabou com vários feridos. Em todos os lugares, com eçava se desculpando por ter prej udicado tanta gente, m as tam bém lem brava as conquistas do estado de sítio, principalm ente em econom ia e em segurança, deixando bem claro que ela m esm a havia convocado eleições, e que, ao ser derrotada, havia aceitado com retidão o veredito do povo. A seguir, passava a denunciar os erros do adversário. De fato, o novo governo via-se incapaz de deter a inflação, que de novo estava descontrolada, e de segurar o m ercado negro. Era um a coalizão díspar, que j á m ostrava sinais de rachadura.