O Sári Vermelho
Ato Ii - o Anjo Exterminador
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
Suas viagens triunfais a Belchi e a Rae Bareilly irritaram esse governo fraco e cada vez m ais a la rm a do diante do espetáculo das m assas venerando sua arqui-inim iga. Era preciso fazer algum a coisa. Em 15 de agosto de 1977, dia da independência, a polícia prendeu seu secretário, o engom adinho R. K. Dhawan, bem com o seu antigo m inistro da Defesa, o gordinho Bansi Lal, am bos am igos de Sanj ay . O cerco estava se estreitando.
SÔNIA SENTIA MEDO. Raj iv estava tendo problem as no trabalho, parecia que a direção não queria renovar sua licença para continuar pilotando os Boeings 737. Isso cheirava a represália. Sua posição clara contra o estado de sítio não era levada em conta pela em presa, a despeito de ter um a reputação inatacável e apolítica entre seus colegas de trabalho. Aos contratem pos na Indian Airlines som ou-se um a investigação que o Ministério da Fazenda abriu contra Raj iv. A investigação tam bém dizia respeito a Sônia, que, para fazer um favor a seu cunhado, havia assinado, em 1973, docum entos que a haviam tornado proprietária de ações de um a em presa fictícia, a Maruti Services Lim ited. Aquilo, que j á havia causado um a violenta discussão entre os ir m ã os e tensão no casam ento, foi usado com o m unição pelo governo, em penhado em dem onstrar obscuras m anobras financeiras que na realidade nunca haviam existido. Sônia, por ser estrangeira, não tinha direito a possuir ações nem a exercer nenhum cargo rem unerado em um a em presa indiana sem a aprovação do Banco Central, aprovação que nunca ocorreu. Portanto, não existira infração. Mas, agora, Raj iv via-se obrigado a provar que sua m ulher não havia recebido um a única rupia da Maruti e que sem pre estivera desvinculada dessa em presa. O m áxim o a que a poderiam condenar era a um a m ulta.
O tem po que Raj iv não dedicava a voar, dedicava a declarar, a procurar docum entos antigos, ou, senão, a obtê-los de novo, a trilhar um a verdadeira via-crúcis tendo em conta quão em aranhada era a burocracia indiana. Mas m anteve-se sereno a todo m om ento. Sua consciência estava tra nqüila , o problem a de Sônia era um a bobagem e ele sem pre pagara seus im postos
religiosam ente. A italiana se perturbava com a idéia de que tentassem algum a m anobra suj a c om docum entos falsificados, por exem plo. O m edo era corrosivo e conseguia deform ar a percepção da realidade. "E qual era a realidade?" As idéias de Indira eram claras: "Isso é um a guerra de nervos, um a guerra psicológica. Tem os que agüentar, só isso". Sônia não queria acrescentar m ais paranóia ao am biente, m as a idéia de que os j ustos podiam pagar pelos pecadores a angustiava. Quando via seu m arido sair de casa para prestar depoim ento nos tribunais da Com issão Shah, sentia um nó no estôm ago, e não relaxava enquanto ele não voltava pa r a casa e o via são e salvo. Essas sessões eram um a prova m uito penosa, porque se desenrolavam em um am biente desorganizado e hostil que lem brava os tribunais populares chineses m ais que um a corte de j ustiça. Raj iv voltava sem pre agitado. Contava que a sala estava transbordando de gente que vociferava com grande hostilidade enquanto alguns com iam ou cochilavam no chão m esm o.
Os advogados, usando togas pretas e peitilhos brancos, estavam sentados atrás de m esas cheias de papéis am arrados com barbante, sob ventiladores que faziam os docum entos soltos voarem . Um a fotografia am arelada de Gandhi decorava as paredes. Cada vez que ele ou seu irm ão tentavam se defender, um a vaia enorm e sufocava suas palavras. O público não os deixava falar. Mal podiam distinguir o rosto do j uiz Shah por trás das pilhas de volum es do código penal indiano e da papelada que cobria sua m esa. Fora da sala, outros curiosos acom panhavam as sessões pelos alto-falantes. Obviam ente, Sanj ay era quem despertava m aior aversão. Cada vez que ele entrava na sala, era recebido por fortes assovios e insultos. Várias vezes a tensão provocou verdadeiras batalhas cam pais entre seus detratores e seus seguidores. Um a das sessões acabou em com pleta confusão, com cadeiras m etálicas voando e troca de socos. Sônia entendia com o era duro para Raj iv suportar isso, ele que sem pre havia odiado a confrontação e sem pre procurara levar um a vida discreta. Mas, afora a inj ustiça da situação, tanto Raj iv quanto Sônia estavam alarm ados pela repercussão de tanta hostilidade sobre seus filhos.
SANJAY E MANEKA, EMBORA FOSSEM O centro dos ataques, levavam tudo m uito m ais na esportiva, tanto no sentido figurado quanto real da palavra. Em 3 de outubro de 1977, estavam j ogando badm ington no gram ado do j ardim do núm ero 12 da Willingdon Crescent quando, às cinco da tarde, ouviram um carro de polícia chegar. Dois indivíduos bateram à porta. Um deles era um sique, alto, de turbante verm elho e excelentes m odos. Indira, que estava conversando com seus advogados, abriu-lhe a porta.
Meu nom e é N. K. Singh, da direção do Serviço de Inteligência - disse o sique, apertando as m ãos nervosam ente. - Viem os inform ar-lhe que a senhora está presa - disse olhando para o chão. Quer dizer que vão m e levar para a prisão?
Sim ... - balbuciou o hom em , visivelm ente intim idado. Será um a boa oportunidade para descansar - disse Indira. Na realidade, fazia tem po que esperava esse m om ento, com o o país inteiro. Posso saber de que sou acusada?
O hom em leu-lhe as acusações. Acusavam -na de ter coagido duas em presas a doarem 144 veículos 4x4 para a cam panha do Partido do Congresso, e, a seguir, de vendê-los ao Exército, o que sugeria suborno. Tam bém de ter outorgado um contrato a um a em presa que havia participado da licitação com um a oferta m ais alta que as outras, o que sugeria corrupção. Indira ergueu os olhos para o céu: era tudo m entira. "Eram esses os horrores da Em ergency ", pensou com seus botões.
Am anhã a senhora tem hora m arcada no tribunal, e para lá a levarem os - disse o hom em . Quero ver a ordem de prisão.
O hom em entregou-lhe uns papéis. Indira prosseguiu: Se não se im porta, vou consultar m eus advogados. Espere um m om ento, por favor. Entrou em casa com os docum entos. Saiu um a hora depois. O oficial sique esperava do lado de fora, sentado em um degrau da entrada.
Está faltando o First Inform ation Report - disse Indira. - Não pretendo sair daqui enquanto todos os papéis não estiverem em ordem .
Senhora, não adiantará nada tornar m eu trabalho m ais difícil do que j á é. Não se preocupe, aqui estarei quando voltar.
Está bem , m andarei um oficial buscar o docum ento que falta.
Pode esperar dentro, se quiser.
O hom em entrou, entre agradecido e constrangido. A casa estava cercada de policiais e m uitos curiosos com eçavam a se aproxim ar. Sanj ay e Maneka abandonaram sua partida e trancaram -se no quarto. Usha, que soube im ediatam ente do que havia acontecido, foi logo à Willing-don Crescent. "Quando cheguei, vi um a cena que m e entristeceu. Ante s, o cordão policial servia para proteger a prim eira-m inistra de possíveis conflitos e m anifestações. Agora, estava ali para im pedir a passagem das pessoas e para prendê-la." Usha conseguiu entrar. Indira entrava e saía de seu quarto, m uito atarefada. Alegrou-se m uito ao vê-la. Usha, que bom que está aqui! Por favor, por que não aj uda Sônia a preparar m inha m ala de viagem ?
Sônia estava no quarto de Indira, com a roupa de sua sogra espalhada em cim a da cam a. Dessa vez, não sabia m uito bem o que colocar. Essa não era um a viagem com o as outras. Para onde vão levá-la? - inquiriu Usha.
Não sei, não disseram - respondeu Sônia.
Melhor colocarm os um xale, talvez a levem para algum lugar nas m ontanhas. Confio em vocês para arrum ar bem m eu cabelo - disse Indira do corredor. Quero ficar o m ais bonita possível.
Nã o se preocupe com isso - disse Sônia, que j á sabia que sua sogra não gostava de estar desalinhada, nem m esm o dentro de casa. Mas esse afã e se arrum ar - parecia que ia a um casam ento em vez de à prisão - era inaudito. "Meu Deus", pensou Sônia, "vai para um a prisão indiana! Por que quer ir tão arrum ada?", perguntava-se. A senhora Gandhi é assim - disse Usha.
Enquanto escolhiam um sári para ela, Indira levava para a cozinha alguns docum entos que considerava perigosos se caíssem nas m ãos da polícia ou do Serviço de Inteligência. O cozinheiro se encarregava de destruí-los de um a m aneira m uito peculiar, utilizando a m áquina de fazer m assa de Sônia com o trituradora.
Mesm o com os telefones cortados, Sanj ay e os advogados conseguiram avisar os com panheiros do partido, que, por sua vez, avisaram a inprensa. Jornalistas com câm eras de televisão, seguidores do Youth Congresso de Sanj ay e um a m ultidão crescente de curiosos foram se aglom erar em volta do cordão policial.
O oficial sique, no vestíbulo, continuava esperando Indira cada vez m ais nervoso. Não gostava absolutam ente do circo que estava sendo arm ado em volta da casa. De todas as m issões que lhe haviam dado ao longo de sua carreira, essa era, talvez, a que m ais o desagradava. Ninguém gosta de prender um a deusa. Estava inquieto e indeciso. Procurava ser sim pático com Priy anka e Rahul, m as as crianças respondiam com olhares hostis. Por fim , às 20h surgiu Indira, bem m aquiada e penteada m elhor ainda, usando um lindo sári branco com borda verde que Usha e Sônia haviam escolhido. Era a im agem da distinção. O oficial estava em basbacado; isso era com o prender um a vovozinha elegante... Ainda por cim a, quando Indira saiu de casa, foi recebida no j ardim com vivas e com um a chuva em pétalas de flor. Nesse m om ento, voltou-se para o oficial sique: Quero que m e algem e - disse.
N. K. Singh ficou perplexo, com a boca entreaberta. "Agora a vovozinha m e pedia algem as!", pensou horrorizado.
Senhora, por favor...
Quero sair algem ada de m inha casa. Não estou presa? Pois então, ponha as algem as. Sônia, que a seguia a pouca distância com seu m arido e seu cunhado, estava tão espantada quanto o sique. O policial, à beira de um ataque de nervos, foi consultar seus colegas. Voltou em poucos instantes.
Senhora, não a vam os algem ar.
Se não m e algem arem , não saio daqui. Aqui fico. Senhora, por favor, não m e ponha em um a situação difícil... - disse envergonhado. - Não estou autorizado a algem á-la. Faça o favor de m e seguir ou terem os que levá-la à força. Diante da determ inação do sique, Indira cedeu e seguiu os policiais, enquanto a m ultidão na rua lhe j ogava flores e a aclam ava. Raj iv, antes de abandonar a casa com Sônia, pediu a Usha o favor de ficar cuidando das crianças. Não sabia quanto tardariam a voltar. Antes de entrar no carro, Indira dirigiu-se a um grupo de j ornalistas. "Eu deveria ir am anhã a Guj arat visitar um as com unidades tribais.
Eu lhes peço o favor de transm itir m inhas desculpas ao povo de Guj arat." Questionada sobre sua detenção, declarou: "Tentei servir nossa pátria da m elhor m aneira possível. As acusações apresentadas contra m im carecem de base. Esta é um a prisão política". O carro partiu, precedido de um j ipe m ilitar e seguido de um a caravana de veículos que levavam seus filhos e noras, sim patizantes e repórteres. Atrás, as crianças ficaram chorando, a cargo de Usha. A história se repetia de novo na dinastia dos Nehru, com o quando a polícia ia prender Jawaharlal e sua filha tentava im pedir-lhes o acesso. Nã o a levaram à infam e prisão de Tihar, onde ela havia m andado encarcerar as m aranis de Gwalior e de Jaipur e tantos outros. Sua "prisão" foi, na realidade, o dorm itório de um a delegacia de polícia, espartano e relativam ente lim po. Muito digna, despediu-se de seus filhos e de suas noras à entrada. Irradiava serenidade, porque intuía que, a essa hora, a notícia de sua prisão, c om o se fosse um crim inoso com um , j á estava viaj ando pela boca do povo aos cantos m ais afastados de seu im enso país. Sabia que, se conseguisse passar um a im agem de m ártir - razão pela qual pedira as algem as - ganharia a partida. Sônia, alheia a essa m anobra, via-a com um a dor im ensa e fazia um esforço sobre-hum ano para conter as lágrim as. Os Nehru não eram efusivos, e m enos ainda em situações assim . Ela tam bém não podia desm oronar agora. Os policiais de guarda adotaram posição de sentido diante de Indira quando ela entrou em sua "prisão". Era difícil, para eles, assim ilar que a teriam com o hóspede aquela noite. Era o m undo ao contrário. No interior, ofereceram -lhe com ida, m as ela recusou. Tem ia ser envenenada. Deitou-se no catre de sua "cela" e ficou lendo por um bom tem po um rom ance que Usha e Sônia haviam colocado na bolsa. Dorm iu profundam ente e ao am anhecer j á estava vestida, banhada e pronta para enfrentar o tribunal.
Às nove da m anhã, Raj iv a esperava na porta do palácio da j ustiça, na Parliam ent Street, centro de Nova Délhi, acom panhado de um advogado. Nessa m anhã, os habituais vendedores de sam osas e de caldo de cana não estavam lá, nem os escrivães que por um as rupias escreviam cartas ou defesas aos pobres analfabetos enroscados com a j ustiça. A notícia da prisão de Indira havia causado tal com oção que a essa hora o edifício estava com pletam ente cercado de gente se esprem endo. Dessa vez, a coalizão Janata havia m andado seus próprios m anifestantes. Sanj ay chegou antes com os seus, de m odo que, quando Indira entrou no edifício, ouviu gritos de "Longa vida a Indira Gandhi", de um lado, e "Enforquem -na!" do outro. Mas ela agüentou, estoica, e em nenhum m om ento baixou a cabeça, nem sequer quando lhe j ogaram um a revista que passou voando a poucos centím etros de sua cabeça.
Dentro da sala diáfana, Indira recusou a cadeira que lhe ofereceram e ficou quase duas horas em pé, ouvindo as discussões sobre as acusações que lhe im putavam . Quando o calor recrudesceu, um bedel m al bar-beado usando um dhoti branco e suj o deu um a palm ada para ordenar que ligassem os ventiladores de teto. As pás com eçaram a girar com lentidão, rangendo para se espreguiçar. A brisa fez trem er a parte de baixo do sári de Indira, que sentiu um pouco de alívio. Estava quase desm aiando pelo esforço de se m anter em pé com esse calor. Mas sabia que o gesto de ter rej eitado um a cadeira estava sendo sussurrado de boca a orelha por centenas, m ilhares e talvez, m ais tarde, por m ilhões de com patriotas... "Ela ficou em pé!", "Recusou a cadeira!"... frases sim ples que m oldavam sua figura m ítica no im aginário popular. Lá fora, sim patizantes e detratores saíram no tapa. A polícia interveio com seus lathis, longos paus de bam bu e, m ais tarde, com gases lacrim ogêneos. No final, o m agistrado declarou Indira inocente e absolveu-a. A seguir, ordenou sua liberdade incondicional, sentenciando: "Não há provas para confirm ar as bases da acusação". Sanj ay saiu correndo, gritando: "Caso encerrado! Ela está livre!", o que provocou a euforia de uns e a raiva de outros, que voltaram a se pegar. A polícia viu-se obrigada a j ogar m ais gás lacrim ogêneo. Indira saiu da sala do tribunal com os olhos averm elhados e tam pando o nariz, m as feliz porque vencera. Raj iv estava m uito excitado: "Nem m am ãe poderia ter sonhado com um desenlace m elhor", declarou a um j ornalista.
De fato, a farsa de sua prisão conseguiu fazer com que a notícia fosse prim eira página de todos os j ornais nacionais e de boa parte dos internacionais. O governo conseguiu que Indira parecesse vítim a de um a adm inistração incom petente. Conseguiu o efeito contrário ao que procurava: pôs Indira no cam inho de sua total reabilitação política.
SÔNIA ESTAVA COMEÇANDO A ENTENDER o afã de sua sogra de estar im aculadam ente vestida. Conseguira se proj etar com o um a m ártir da j ustiça. Adm irava esse afã de luta e, ao m esm o tem po, o desapego de sua sogra pelos benefícios do poder; agora tinha certeza de que Indira voltaria ao topo, nem que fosse só para lim par seu nom e e ser de novo o orgulho dos seus, principalm ente de seus netos, que adorava. Sônia a entendia porque am bas com partilhavam um senso m uito profundo e intenso de fam ília.
Porém , não via o outro lado do caráter de sua sogra porque nunca se sentira atraída pelo poder. Para Indira, era um a espécie de droga. O próprio Kissinger havia dito que o poder era o m elhor afrodisíaco que existia. De um a m enina feinha e solitária, depois de um a m ulher frágil e delicada de saúde, graças ao poder Indira se tornara um a lutadora form idável, dura e tenaz. Tinha o germ e dentro de si, e sentia-o agitar-se cada vez que a possibilidade de chegar ao poder, por m ais rem ota que fosse, despontava no horizonte.
De m odo que não perdeu um segundo, sabia que devia aproveitar o m om ento. De novo Sônia a aj udou a preparar sua bolsa de viagem , e dessa vez para um longo tem po, porque Indira queria percorrer o país inteiro. Em Guj arat, dirigia-se ao povo de pequenas plataform as erigidas a vários quilôm etros um as das outras. Conform e passava o dia, as guir-landas de j asm im e m argaridas iam se acum ulando no pescoço até cobrir parte de seu rosto. Tirava o pesado fardo antes de entrar nas choças dos aborígines, onde dividia sua com ida sobre folhas de bananeira, falando com eles de seus problem as: a colheita, a educação, a falta de atendim ento m édico etc. Um a noite, enquanto atravessava de carro um bosque, pediu ao m otorista que parasse. Ouvira um a voz. Uns m inutos depois, surgiu um aborígine, um hom em m eio nu de cabelo hirsuto e pele queim ada. Levava na m ão um a guirlanda de flores. "Mãe, há dez anos espero vê-la", disse ele em seu dialeto enquanto lhe punha o colar.
Nem sem pre a recepção era triunfal ou afetuosa. O escritor Bruce Chatwin, que a acom panhou durante parte dessa turnê, estava em um carro que foi confundido com o de Indira. Um a pedra quebrou o pára-brisas e feriu o condutor. Outra atravessou sua j anela e os cacos de vidro feriram o escritor no om bro. "Isso é o que costum a acontecer com quem anda a m eu lado", disse Indira, que o levou a seu quarto para ver se a ferida estava devidam ente tratada. Em outra ocasião, no estado de Kerala, Chatwin foi testem unha de um a m ultidão de um quarto de m ilhão de pessoas, totalm ente ensopadas pela chuva, se aproxim ar para ouvi-la j á noite. Indira colocou-se em um a varanda do últim o andar de um edifício, sentada em um a cadeira que havia sido colocada em cim a de um a m esa. Colocou um a lanterna entre os j oelhos, dirigindo a luz para seu rosto e torso, e com eçou a m over os braços e a falar, enquanto seus sim patizantes a confundiam com Lakshm i, a deusa cuj os num erosos braços se m oviam de form a ondulante. A com paração não era em vão: Lakshm i era a deusa da riqueza. Depois de um bom tem po, dirigiu-se a Chatwin, que estava sentado em baixo, na m esa.
Senhor Chatwin, passe-m e m ais algum as nozes de anacardo - disse, abaixando a cabeça para ele. O escritor estendeu-lhe um punhado e ficou perplexo ao ouvir Indira acrescentar: Você não tem idéia de com o é extenuante ser um a deusa.
O prim eiro-m inistro Morarj i Desai reconheceu o erro que fora prender Indira, e não estava disposto a repeti-lo, a despeito dos inform es da Com issão Shah que proclam ou que a decisão de im por o estado de sítio havia sido inconstitucional e fraudulenta por não existir "evidência de perigo à integridade da nação", um a conclusão discutível.
Entre os m ales que a Em ergency havia provocado, o j uiz Shah destacou a detenção de m ilhares de pessoas inocentes e um a "série de ações ilegais que resultaram em m iséria e sofrim ento hum anos". O inconveniente é que a conhecida tendência pró-governam ental do j uiz dim inuía a credibilidade do inform e da Com issão Shah. Era um a interpretação m uito subj etiva da evidência, e além disso, não era vinculativa.
De m odo que se esqueceram de Indira para concentrar-se em seu filho, que não estava legalm ente a salvo, m as nunca se pôde provar que houvesse desviado fundos públicos ou subornado no negócio do Maruti. O caso m ais problem ático que pesava sobre Sanj ay era um a denúncia por ter destruído um film e satírico cham ado A história de duas poltronas, em referência ao poder que ele e sua m ãe açam barcaram durante o estado de sítio. A produtora do film e havia apelado ao Tribunal Suprem o para que o j uiz o liberasse e, assim , pudesse exibir o film e. Mas então Sanj ay e seu am igo, o m inistro da Inform ação, haviam m andado destruir as cópias e os negativos, em um ato que subvertia o processo da j ustiça. Por isso foram condenados.
De m odo que Sônia foi de novo testem unha da prisão de outro m em bro da fam ília, dessa vez seu cunhado. Foi m uito m ais rápido que no caso de Indira. Em cinco m inutos levaram -no algem ado para a infam e prisão de Tihar, aonde ele m esm o havia m andado tantos opositores a sua m ãe. Indira, que estava viaj ando pelo sul, pegou o prim eiro avião de volta a Délhi. Foi diretam ente vê-lo na prisão e encontrou ali toda a fam ília e um grande grupo de j ornalistas e equipes de televisão. Seu abraço em Sanj ay deu a volta ao m undo, assim com o seus conselhos: "Não desanim e, sej a valente, isso vai ser seu renascim ento político. E não se preocupe, lem bre que eu, m eu pai, todos passam os pela prisão". Indira tem ia o efeito que a prisão pudesse ter sobre Sanj ay . "O que m e dá m edo", confessou a Raj iv e a Sônia, "é que o agridam fisicam ente.”
Apesar das tensões, a fam ília reagia bem à adversidade. Sônia com prom eteu-se a preparar um a refeição todos os dias para seu cunhado para que Maneka a levasse para a prisão. A j ovem esposa estava excitada com a nova situação. Achava que estavam vivendo um a aventura incrível, e no fundo se regozij ava em seu novo papel porque se sentia m ais necessária que nunca para seu m arido. Ao longo de 1979, Sanj ay foi preso seis vezes, m as não passou m ais de cinco sem anas trancafiado. Aconteceu com o com seu avô Nehru: a prisão o fez tirar o m elhor de si. Não tinha nenhum preconceito quanto a m isturar-se com todo tipo de réus; organizava torneios esportivos, j ogos de equipe e turnos de lim peza das instalações. Quando algum prisioneiro adoecia, Sanj ay cuidava dele. Se j ulgasse necessário, passava horas sentado j unto a ele. Assim que entrava em qualquer centro penitenciário, tornava-se seu líder indiscutível.
Enquanto Sanj ay sobrevivia entrando e saindo da prisão e dos tribunais, sua m ãe reunia forças, certa de que poderia recuperar o poder, e, com ele, a segurança e a dignidade para ela e sua fam ília. Estava disposta a lutar com o um a leoa para proteger seus filhotes. Foi de m ãe leoa a m ensagem que m andou a Sanj ay no dia de seu aniversário, na prisão: "Lem bre-se, tudo que torna forte, dói. Alguns ficam esm agados ou aleij ados, poucos crescem . Sej a forte em corpo e m ente e aprenda a tolerar".
INDI RA ESTAVA TENTANDO RECOMPOR SUA BASE, ou sej a, o partido, que estava dividido entre os incondicionais, dispostos a segui-la até os confins da terra, e os que atribuíam a Sanj ay a responsabilidade da queda de 1977 e que não o queriam na organização. E havia ainda os num erosos m inistros que a traíram diante da Com issão Shah, confessando m entiras em troca de im unidade j urídica. Nessas circunstâncias, recom por o partido tornava-se im possível. Então, Indira cortou o m al pela raiz.
Decidiu cindir a organização e ficar só com os m uito leais. Tornou-se, assim , presidente do Congresso (I) -1 de Indira - e o logo escolhido foi a palm a de um a m ão, com o um a bênção. De seus leais exigiu tam bém lealdade para com seu filho. "Os que atacam Sanj ay, atacam a m im ", declarara em várias ocasiões. Seu am or pelo poder levava-a inconscientem ente a se perpetuar nele, e a figura de Sanj ay alim entava suas am bições dinásticas.
Sônia pensava que j á havia vivido o pior com as detenções, a hostilização, a perseguição fiscal a seu m arido, m as a partir do m om ento em que Indira anunciou a criação de sua nova form ação política, a vida na Willing-don Crescent tornou-se m uito m ais irritante e incôm oda. Era um a casa aberta dia e noite. As pessoas chegavam a qualquer hora para visitar Indira. Os m em bros de seu partido, com expressões que passavam da euforia à angústia, entravam e saíam com o se fosse um lugar público. De repente, reuniam -se em sigilo, organizavam -se, planej avam novas estratégias, decidiam que táticas em pregar em cada circunscrição. E a tudo isso som avam -se as freqüentes visitas de advogados que continuavam guiando Indira e Sanj ay pelos m eandros da j ustiça. De repente, Sônia encontrava na sala de j antar m em bros dos serviços secretos que vinham interrogar sua sogra ou seu cunhado. Já não sabia se as pessoas que pululavam pelos aposentos eram aliados ou inim igos. Não dava conta de preparar chás e lanchinhos para as diversas visitas que Indira recebia no gram ado, sob um as barracas im provisadas no j ardim ou na entrada de casa, que às vezes parecia a sala de espera de um a estação de trem . Indira parecia feliz com tanto m ovim ento; a prom iscuidade não a incom odava. Estava em seu elem ento, no am biente em que havia se criado quando m enina. Além do m ais, contava com a presença de Sanj ay, que, se não estava na prisão ou com seus advogados, trabalhava m uito próxim o a ela, vendo a m aneira de usar o Youth Congress para boicotar o funcionam ento do atual governo do Partido Janata.
- Faz lem brar os dias da Anand Bhawan, quando preparávam os algum a ação de protesto... - dizia encantada a Sônia, que estava à beira das lágrim as.
Nem ela nem Raj iv suportavam a falta de privacidade. Mais de um a vez, ocorreu-lhes de encontrar em seu quarto m em bros do partido discutindo acaloradam ente porque não haviam achado um lugar m elhor para isso. O am biente desorganizado e revirado, as am eaças constantes e o porvir incerto crispavam seus nervos. Essa não era a vida que haviam escolhido para si e seus filhos. Agora, nem m esm o seus am igos podiam ir vê-los. Onde os receberiam ? Tanta confusão fazia Sônia tem er pela segurança das crianças. "E se entrar alguém na casa com a intenção de sequestrá-los ou lhes fazer m al?", perguntava-se. Além do m ais, preocupava-se com o efeito que as tensões fam iliares teriam sobre eles. Sônia e Maneka haviam deixado de se falar porque esta últim a continuava não colaborando nas tarefas dom ésticas. Pupul, que foi um a testem unha privilegiada dessa época, escreveu: "É incrível que, nessas condições caóticas, Sônia pudesse se encarregar de todas as tarefas dom ésticas sem desabar".
O passo seguinte de Indira foi candidatar-se às eleições por um a pequena circunscrição do sul. Haviam chegado rum ores de que o governo Janata estava preparando um a lei para im por penalizações aos políticos que houvessem com etido crim es contra o povo, com o a proibição de votar e de ser eleito. Se Indira conseguisse entrar no Parlam ento, teria a segurança de que essas m edidas não a afetariam por estar protegida pela im unidade parlam entar. Escolhera a circunscrição com extrem o cuidado.
Chikm aglur era um pequeno distrito nas colinas verdes de Karnataka, um estado no sudoeste da índia , onde no século XVI um santo m uçulm ano vindo de Meca plantou um as sem entes verm elhas desconhecidas até então. Foi o início do cultivo do café, que continuava vigente três séculos depois. Para Indira, era um a zona perfeita: m ais da m etade do eleitorado era com posto por m ulheres, das quais m etade pertencia às denom inadas "castas baixas". No total, m ais da m etade da população vivia no lim ite da pobreza. A zona era tam bém um bastião do Congresso. Seu deputado pelo distrito, que renunciou para ceder o posto a Indira, era um velho líder m uito respeitado.
As pequenas aldeias engastadas nas colinas estavam cercadas de um a exuberante vegetação subtropical. Indira gostava dessa paisagem bucólica. Visitou as plantações de café para falar com os agricultores e suas fam ílias. Era gente sim ples, satisfeita com o pouco que tinha, isolada da vida política do resto do país. Indira descobriu que as notícias de sua derrota de 1977 não haviam chegado ainda ao interior da com arca. Um a idosa agricultora nem sequer sabia que j á não era prim eira-m inistra.
Quando lhe disseram que podia acabar presa se provassem as acusações contra ela, a velha perguntou com lágrim as nos olhos: "Que acusações?" com o se os grandes deste m undo nunca pudessem fazer nada de ruim . Aquela gente era ingênua e inocente. Indira não deixou um a única aldeia sem visitar. Em todos os lugares, a acolhida era m uito calorosa. As m ulheres se aproxim avam para acariciar seu rosto porque nunca haviam visto um a pe le tão clara. Captavam em seus olhos um entendim ento tácito sobre o que representava ser m ulher, suportar o peso dos partos, das crianças, da fom e e da m orte. As m ais velhas agradeceram por seu governo ter posto em m archa program as de aj uda graças aos quais puderam com er arroz pela prim eira vez. Antes, sobreviviam da colheita de trigo silvestre e m uitas não tinham nem o que vestir; andavam cobertas de folhas de bananeira. Assim distante e atrasada era Chikm aglur; assim gratas eram suas m ulheres.
Enquanto seus rivais faziam discursos sobre dem ocracia contra a ditadura e lem bravam os excessos do estado de sítio, Indira falava da espiral de preços, da escassez de alim entos básicos e da crescente pobreza. Naquele lugar, a Em ergency não havia sido notada. Com o se fosse pouco, seus adversários, ao escarnecer dela, aplainavam seu cam inho de um a m aneira que só na índia poderia acontecer. Em um grande com ício, colocaram um enorm e cartaz no qual Indira estava representada em form a de cobra am eaçadora. Em baixo, um texto dizia: "Cuidado, nestas eleições, um a poderosa cobra vai se erguer". O efeito foi totalm ente contraproducente. Os autores da cam panha ignoravam que em Karnataka a cobra era venerada, considerada um anim al protetor da terra. Outro cartaz m ostrava flechas do partido Janata m atando um a serpente cham ada Indira. Mas em Chikm aglur, m atar um a cobra era considerado um péssim o agouro.
Choveu a cântaros no dia da convocatória eleitoral. Ainda assim , três quartos da população foram depositar sua cédula. Indira voltou a Nova Délhi e dois dias depois, enquanto estava com Sônia e Raj iv na em baixada da União Soviética celebrando o dia nacional da URSS, foi inform ada de que vencera por um a am pla m argem de 70 m il votos. O em baixador ergueu um a taça para brindar à vitória de Indira. Em dois anos, a m ulher que fora derrotada nas urnas de m aneira hum ilhante voltava com o deputada ao Parlam ento por um a rem ota circunscrição do sul.
Q U ATRO DIAS DEPOIS, Indira voava para Londres. Havia conseguido um passaporte diplom ático para ela e quisera que Sônia a acom panhasse. Era a única que podia fazer isso, por dispor de passaporte italiano. Queria que sua nora m udasse de ares e, além disso, era um a m aneira de agradecer-lhe por sua dedicação à fam ília. Nos últim os tem pos, a discórdia em casa havia atingido o paroxism o. O com portam ento errático e descontrolado de Maneka era um a fonte de tensão constante. Reagia à pressão e à incerteza explodindo em freqüentes ataques de cólera contra todo o m undo, inclusive seu m arido. Em um a dessas brigas, Maneka tirou o anel que Indira lhe havia dado para seu casam ento e j ogou-o no chão com raiva. Com o se atreve a fazer isso? - explodiu Indira. - Esse anel pertenceu a m inha m ãe! Maneka saiu batendo a porta e Sônia abaixou-se para pegá-lo. Vou guardá-lo para Priy anka - disse, e de fato, anos depois, sua filha usaria o anel da bisavó. O casam ento de Sanj ay e Maneka era explosivo, o contrário do de Raj iv e Sônia. Nesse curioso lar, a italiana se com portava com o um a perfeita nora indiana, e a indiana com o um a napolitana exuberante. "Em casa reina o caos", confessou Indira a sua am iga Pupul. "Mas Maneka tem a pe na s 21 anos... longas penas de reclusão esperam por Sanj ay. Precisam os entendê-la e perdoar sua histeria." A caça às bruxas havia conseguido fazer com que todos pagassem um alto preço em desgaste nervoso, até o próprio Sanj ay, que sofria com as 35 querelas crim inais apresentadas contra ele pelo Partido Janata em dois anos. Um dia, enquanto a fam ília estava tom ando o café-da-m anhã em casa com uns parentes que os visitavam , Sanj ay reclam ou porque os ovos não estavam cozidos com o ele pedira e j ogou o prato no chão. Sônia os havia preparado, de m odo que saiu da sala aborrecida. Indira não pronunciou um a única palavra de crítica contra seu filho, m as estava claram ente incom odada.
Quando Sônia não agüentava m ais, ia com suas am igas, um a delas decoradora e outra editora, com er em um pequeno restaurante chinês no Khan Market ou no Am erican Em bassy Club, onde nã o a reconheciam . Ou ia para o j ardim com um a enxada na m ão para cuidar da horta. Os brócolis que conseguira cultivar causavam sensação entre seus conhecidos. Os dez dias da viagem a Londres não foram férias, m as Sônia gostou de estar fora de casa. Londres lhe trazia lem branças de um a época m uito feliz de sua vida. Pensava que se afastaria do am biente insuportável da política indiana, m as não foi assim . A política os perseguia. Indira aceitara essa viagem para reabilitar sua reputação internacional, e foi recebida com grande expectativa e m uita desconfiança. Avisaram -na de que poderia encontrar audiências hostis nos diversos atos a que assistiria, de m odo que, na prim eira reunião com parlam entares, Sônia tem eu o pior.
Senhora Gandhi, o que falhou em seu estado de sítio? - perguntou um deputado sem prelim inares nem rodeios.
Houve um longo silêncio. Indira levantou-se, aj ustou seu sári e pegou o m icrofone. Conseguim os enlouquecer quase todos os setores da com unidade sim ultaneam ente - respondeu de m aneira sim ples e direta.
Sua franqueza causou um riso geral e dissolveu a tensão do am biente. Entre os presentes estava um a m ulher que, em bora se encontrasse do lado oposto do espectro ideológico de Indira, professava-lhe um a grande adm iração. Tratava-se de Margaret Thatcher, que estava prestes a se transform ar em prim eira-m inistra. Talvez por ser m ulher, entendesse a m istura de fragilidade e firm eza de Indira e com preendia m uitas de suas reações no exercício do poder. A futura "Dam a de Ferro" não se incom odava de adm itir que se encontrava diante de um a m estra. Aquela viagem serviu, em grande parte, para que Indira recuperasse suas credenciais dem ocráticas.
Entre encontros com a im prensa, com representantes de com unidades indianas e visitas a políticos ingleses - que irritavam sobrem aneira o em baixador indiano - m al houve tem po de ir ao teatro e ao cinem a de fazer com pras na Woolworth's e de procurar livros na fam osa livraria Foy le's. Esses passeios foram um verdadeiro bálsam o para Sônia. Nessas ruas brilhantes de chuva ninguém a reconhecia, sentia-se segura, não precisava estar atenta à escolta, podia deslocar-se a pé e não depender sem pre do carro... Que luxo! A despeito de todas as dificuldades dos últim os tem pos, sua relação com a sogra era m ais estreita que nunca. Sônia reconhecia que a am ava com o a um a m ãe. Mesm o que Indira não dem onstrasse abertam ente, sua preferência por Sônia era notória. Inspirava- lhe um a confiança que Maneka nunca inspiraria. Mas, a despeito disso, sem pre a defendia, pelo m enos em público. "Maneka suporta um a grande pressão", dizia escusando-a. A verdade é que Maneka trabalhava com ardor pela causa de sua sogra. Havia conseguido trazer à baila um escândalo que afetara o Partido Janata. Fotógrafos de sua revista, Sury a, conseguiram im agens do filho do prim eiro-m inistro, um hom em casado de quarenta anos, na cam a com um a adolescente. Em um país de hábitos tão pudicos, esse escândalo teve o efeito de ridicularizar a perseguição do Partido Janata contra Sanj ay, e tam bém o próprio prim eiro-m inistro. Maneka estava m uito orgulhosa de ter contribuído com seu grão de areia nessa batalha. Mas, em seu foro íntim o, sentia que nunca ocuparia o lugar que Sônia ocupava no coração de Indira, e isso a perturbava.
Enquanto cam inhavam pela Oxford Street fazendo com pras de últim a hora para as crianças, nem Sônia nem Indira podiam im aginar que em Nova Délhi o governo estava fazendo um últim o e desesperado esforço para derrubá-la de novo. À m edida que se confirm ava sua ressurreição política, m ultiplicavam -se com issões de investigação para tentar vinculá-la a todo tipo de delitos. As acusações iam do m acabro ao absurdo, de "conspirar para m atar um ex-m inistro" (que na realidade havia falecido de m orte natural) a "desviar fundos e enriquecer ilicitam ente" (o que era obviam ente falso). Talvez a m ais absurda das acusações fosse o de ter roubado quatro galinhas e dois ovos, um a acusação que a obrigou, assim que voltou de Londres, a ir ao distante estado de Manipur, no leste da índia - um a viagem de 3 m il quilôm etros - para se apresentar perante o j uiz local. O caso foi encerrado e Indira voltou a Nova Délhi.
No Parlam ento, onde era recebida entre gritos e vivas, o Com itê de Privilégio, um grupo que vigia va o abuso de poder dos governantes, havia apresentado um a m oção contra Indira, acusando-a de ter fustigado, quando era prim eira-m inistra, quatro funcionários que investigavam a Maruti Lim ited. O inform e concluiu que era culpada, m as, antes dos trâm ites na j ustiça, os líde r e s do Partido Janata decidiram castigá-la fazendo uso de sua m aioria na Câm ara. Aprovaram um a resolução do Parlam ento pedindo que "Indira fosse presa um a sem ana e, em conseqüência, expulsa da Câm ara". Agora, quem estava com etendo abuso de poder eram os próprios governantes. Condenavam -na antes de ter sido j ulgada. Era puro revanchism o, que se explicava pelo m edo que tinham de vê-la ressurgir. Um a coisa era ter Indira percorrendo o país, e outra bem diferente era tê- la discursando no Parlam ento. De m odo que utilizaram um subterfúgio para tirá-la: prim eiro prendê-la, o que não era de todo legal, para depois aplicar a lei que expulsava autom aticam ente do Parlam ento todo aquele que fosse condenado a algum a pena de prisão. Na realidade, atravessaram o lim ite da legalidade. E fizeram isso bem no dia em que, no Paquistão, o ex-prim eiro-m inistro Zulfikar Ali Bhutto se apresentava perante o Tribunal Suprem o para se defender de um a pena de m orte ditada por um tribunal inferior e urdida por Zia Ul Haq, um general golpista que havia organizado um sim ulacro de j ulgam ento. A som bra dessa sentença inj usta chegava até Nova Délhi am eaçando Indira e seu filho. Se os governantes ignorassem as regras do j ogo, tudo seria possível naquele am biente de lincham ento. Ao agir de m aneira ilegal, os inim igos de Indira arrasavam os últim os vestígios da superioridade m oral com que haviam assum ido o poder com o representantes de um a nação traum atizada pela experiência do estado de sítio.
De repente, eram eles os que se transform avam em tiranos que prendiam sem j ulgam ento, subvertendo, assim , os desej os do eleitorado.Sob a abóbada do Parlam ento, Indira defendeu-se com paixão e fúria controladas: "Nunca antes na história de nenhum país dem ocrático um único indivíduo, que lidera o principal partido de oposição, foi alvo de tanta calúnia, difam ação e vendetta política por parte do partido no Poder". Tornou a dizer que lam entava profundam ente os excessos do estado de sítio: "Já expressei m inhas desculpas em m uitos foros públicos e torno a fazê-lo agora". Suas palavras eram freqüentem ente interrom pidas por um estrondo de vivas e ovações que ecoavam com força na cúpula côncava do edifício: Sou um a pessoa pequena, m as sem pre fui fiel a certos valores e obj etivos. Cada insulto contra m im se voltará contra vocês. Cada castigo que m e infligirem m e fará m ais forte. Minha voz não poderá ser silenciada porque não é um a voz isolada. Não fala de m im , um a m ulher frágil e sem im portância. Fala de m udanças significativas para a sociedade, m udanças que são a base da verdadeira dem ocracia e de um a m aior liberdade. Term inado o discurso, Indira levantou-se e, dando as costas aos deputados, cam inhou para a saída. Ao chegar à porta, voltou-se e olhou-os longam ente. Uns estavam sentados com as pernas cruzadas, enrolados em suas kurtas de algodão branco e em seus xales de pashm ina, outros usavam o gorro característico de Nehru, outros o barrete m uçulm ano; poucos se vestiam à m oda ocidental. Parecia um a corte oriental antiga e m ulticolorida. Levantou o braço, com a m ão estendida que era o sím bolo de seu partido:
Eu voltarei - disse.
Sônia havia preparado um a m assa sublim e para o j antar. Além disso, de sobrem esa havia crem e de goiaba e docinhos de m anga de Allahabad, que Indira adorava porque lhe lem bravam sua infância. Ela chegou com um a hora de atraso, esgotada. Os traços de seu rosto refletiam a tensão que acabara de viver.
A qualquer m om ento virão m e buscar... - disse a Raj iv e Sônia antes de lhes contar o que havia acontecido no Parlam ento.
Sônia não conseguiu com er. Com o ocorre m uitas vezes, as pessoas próxim as sofrem m ais que as próprias vítim as. O m edo tornou a se apoderar de sua alm a, m isturado com um a desagradável sensação de insegurança, com o se estivessem vivendo sobre areias m ovediças dispostas a engolir a todos. De novo Indira seria presa, dessa vez não dorm iria em um a delegacia, e sim na prisão. Seus inim igos haviam ganhado um a batalha. Raj iv e Sônia estavam abatidos. Por que não cham a Priy anka para j ogarm os um a partida de scrabble? - perguntou então Indira. Adorava j ogar com sua neta, que era m uito esperta e ganhava um a boa porcentagem de vezes. Que m elhor com panhia que a da m enina de seus olhos nesses m om entos de incerteza...
No dia seguinte, Indira foi presa à saída do Parlam ento, em m eio a um a enorm e m anifestação de apoio e gritos de "Longa vida a Indira Gandhi". Dessa vez não pediu para ser algem ada. O furgão onde a em barcaram abriu cam inho com grande dificuldade por entre a m ultidão. Foi conduzida à prisão de Tihar, cuj a sim ples m enção era capaz de am edrontar os crim inosos m ais aguerridos. Mas, contrariam ente às m aranis de Jaipur e Gwalior, não foi trancada em um a cela em com panhia de prostitutas e delinqüentes com uns. Colocaram -na nos m esm os barracões onde estivera preso o chefe da oposição quando do estado de sítio. Estava sozinha, um privilégio. Duas m ulheres revezavam -se para vigiá-la. Quando lhe trouxeram algo para com er, negou-se. N ã o pretendo com er nada que não sej a trazido por m inha fam ília - disse de m aneira perem ptória, sabendo que só podia confiar nas m ãos de Sônia. A carcereira saiu e foi consultar seu superior. Com o sem pre na índia, foram longas conversas que duraram um tem po interm inável.
Enquanto isso, Indira dedicou-se a observar a cela. Ouvia-se o barulho do pátio e das outras internas. Era espaçosa e, no geral, m elhor do que havia esperado. Dispunha de um catre de m adeira, sem colchonete, e havia barras de ferro nas j anelas, que não tinham vidro ou persianas. Fazia m uito frio. No fim de dezem bro, a tem peratura pode cair abaixo de zero à noite.
Indira estava tam pando o vão da j anela com um a m anta para se proteger do frio - e para conseguir um pouco de intim idade - quando a carcereira voltou. A senhora tem um a visita.
Sônia e Raj iv estavam esperando por ela no locutório, um a sala grande com paredes descascadas, algum as m esas e cadeiras m etálicas e m uita gente, a m aioria pobre, hom ens j ovens e ossudos que iam ver suas esposas e m ães presas. A parte baixa das paredes estava m anchada de verm elho, vestígio das incontáveis cuspidas de todos os que m ascavam folha de betei. Tinha cheiro de urina e de incenso rançoso. Com o j á haviam visitado Sanj ay , estavam calej ados e não se im pressionaram . Mas pareciam m uito afetados, e foi Indira quem teve que lhes levantar o ânim o.
Estou bem , de verdade. Vou aproveitar para ler, eles m e deixam ter até seis livros... que sorte -disse com ironia. - Fizeram um a espécie de banheiro especial para m im e poderei tom ar banho de m anhã com água quente. A cela está bastante lim pa, m as tudo é indescritivelm ente feio, com o podem ver... Com o estão as crianças?