O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 3 de 6 · parte 6/6

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O Sári Vermelho

Ato Ii - o Anjo Exterminador

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Priy anka queria vir vê-la, m as acham os que... O rosto de Indira se ilum inou. Oh, sim ! - disse sorrindo. - Tragam -na, é bom que ela vej a o que é um a prisão. Nós, os Nehru, desde pequenos íam os visitar nossos parentes nas prisões... Não se pode abandonar a tradição. Riram . Com o sem pre, Indira não se deixava vencer pela adversidade. Nem um a só vez deixou transparecer o m enor rastro de autocom paixão. Bastava-lhe ter certeza de que a razão m oral estava do seu lado.

Virei lhe trazer com ida... - disse Sônia.

Traga pouca coisa. Não tenho fom e.

Sônia ia duas vezes por dia levar-lhe pratos preparados em casa. Tinha que passar tudo por um detector de m etais. A seguir, um a zeladora inspecionava os recipientes. Doces eram proibidos, porque em certa ocasião um réu havia oferecido a seu carcereiro um doce com algum a substância narcótica dentro e conseguira fugir. Tam bém não perm itiam bananas na seção fem inina: puritanas e desconfiadas, assim eram as autoridades...

Um dia, Indira contou a Sônia que havia recebido dois telegram as anônim os. Um dizia: "Viva frugalm ente". E o outro a aconselhava a contar as barras de ferro para passar o tem po. "Eu contei, são 28", disse. Tam bém lhe contou que m antinha um a estrita rotina que a aj udava a passar os dias. Acordava às cinco da m anhã e fazia seus exercícios de ioga. A seguir, bebia um copo de leite gelado - que Sônia havia trazido na véspera - e voltava ao catre até as sete. Depois fazia seu asseio pessoal, um pouco de m editação e lia. As tardes pareciam eternas, m as não se queixava. Aproveitava para pensar, para voltar-se para si m esm a e, curiosam ente, para descansar. O m elhor m om ento que viveu foi quando sua neta foi visitá-la. Todos na fam ília diziam que Priy anka havia puxado a sua avó. Tinha caráter e era voluntariosa e decidida. Indira a adorava. Raj iv e Sônia tiveram que travar longas discussões com as autoridades carcerárias para que a m enina pudesse entrar.

Foi um encontro alegre em um cenário lúgubre. Antes de ir em bora, Indira pediu um favor a Sônia.

Queria que m andasse, em m eu nom e, um buquê de flores para Charan Singh com um bilhete de felicitação por seu aniversário.

Charan Singh? - perguntou Sônia assom brada.

Sim , ele m esm o. Pode fazer isso, por favor?

Claro - respondeu Sônia perplexa.

Charan Singh era um dos líderes do Partido Janata, m inistro do Interior e responsável por sua prim eira prisão, e agora relegado a um m inistério de m enor im portância. Indira sabia o que estava fazendo. Faltavam três anos de governo Janata, m as recebera inform ação de que os integrantes da coalizão estavam brigando m uito. Charan Singh estava ressentido contra o prim eiro-m inistro Morarj i Desai - esse que havia insistido em retirar a casa e a proteção de Indira - por ter sido destituído de seu cargo de m inistro do Interior. Indira pensou que poderia abrir um a brecha entre os dois líderes, atiçar suas am bições para que o governo caísse com o um a fruta podre. Esse era o propósito do buquê de flores.

Ao SAIR DA PRISÃO, ESPERAVA-A UMA CARTA de Charan Singh convidando-a a sua residência para a festa de nascim ento de seu neto. Nesse âm bito tranqüilo e fam iliar ocorreu um a negociação m aquiavélica, na qual am bos os adversários políticos traçaram um a estratégia para derrubar o governo do prim eiro-m inistro Morarj i Desai. Em troca de anular a nova lei de Tribunais Especiais sob a qual Indira e Sanj ay podiam ser j ulgados sem a proteção legal habitual, Indira ofereceu o apoio do Congresso para derrubar Morarj i Desai.

E, um a vez derrubado Desai, com prom etia-se a apoiar Charan Singh para prim eiro-m inistro, o que lhe perm itiria satisfazer a am bição de toda sua vida. Foi Sanj ay quem se encarregou de prosseguir com as delicadas negociações tendo o cuidado de não deixar nenhum a ponta solta.

O resultado foi que a coalizão se rom peu e o governo de Morarj i Desai caiu, m as Charan Singh não pôde, ou não quis, revogar a lei especial, de m odo que Indira retirou-lhe o apoio e seu governo durou m enos de um m ês. Para sair do atoleiro, o presidente da República dissolveu o Parlam ento e convocou novas eleições para j aneiro de 1980. Indira havia m anobrado com experiência, frieza e eficácia. Tal com o dissera aos deputados depois de seu discurso, dispunha-se a voltar, e pela porta da frente.

Uns m eses antes, pensara em abandonar tudo. Ela e Sanj ay haviam falado até em se retirar a um a pequena cidade do Him alaia. O sábio e filósofo Krishnam urti, am igo pessoal de Pupul, havia recom endado a Indira que abandonasse a política, e ela havia respondido que não sabia com o fazer isso com 28 causas pendentes contra ela.

Não queria acabar com o Zulfikar Ali Bhutto, que havia sido executado na forca em 4 de abril de 1979 no pátio da prisão central de Rawalpindi. O ditador paquistanês, tem eroso de que Bhutto ressuscitasse politicam ente com o Indira estava fazendo na índia, conseguira m anipular a j ustiça para acabar com seu rival. Aqui essa m anipulação não era tão fácil, porque a índia continuava sendo um a dem ocracia. Mas o perigo espreitava.

- Tenho duas alternativas - dissera Indira a Krishnam urti - lutar ou ser alvej ada com o um pato de barraca de tiro ao alvo.

Agora não havia volta possível. O poder estava ao alcance da m ão. Indira, fiel a si m esm a, foi conquistá-lo. Arm ada de duas m alas que continham m eia dúzia de sáris de algodão cru, um a garrafa térm ica para água quente e outra para leite gelado, duas alm ofadas, vários sacos de frutos secos, um a caixa de m açãs e um a som brinha para se proteger do sol, adentrou os confins do subcontinente. Percorreu 70 m il quilôm etros, participou de um a m édia de vinte com ícios por dia e, no total, atingiu um a audiência de 100 m ilhões de pessoas. Foi vista ou ouvida por um em cada quatro votantes.

Logo percebeu que sua segunda passagem pela prisão a havia tornado im ensam ente popular. Mártir e heroína. Em com paração, os candidatos da coalizão com posta pelo Partido Janata pareciam velhos dinossauros. Com petiam não contra um a pequena candidata de 62 anos, e sim contra um m ito vivo, um a lenda vestida de sári e sandálias em poeiradas que despertava a paixão do povo. Sua m ensagem era sim ples, longe de abstrações e ideologias: "Escolham um governo que funcione". Sônia não podia im aginar que, anos depois, ela m esm a lançaria m ão desse slogan.

COMO NOS BONS TEMPOS, Indira arrasou nas urnas. Sônia j á esperava, porque a acom panhara em alguns de seus percursos pelas aldeias e a vira m over-se com total desenvoltura entre as m ultidões de esfarrapados, dizendo um a frase am ável a um idoso, tendo um carinho para com um aleij ado, sorrindo para um a m ulher, dando um a flor para um a m enina. A m em ória dessa prodigiosa cam panha ficou gravada em sua m ente e, anos depois, seria de um a enorm e utilidade para ela.

Quando os resultados se tornaram oficiais, a casa foi invadida por am igos, j ornalistas, m em bros do partido, grandes industriais, com erciantes do bairro e gente de todo o espectro social. Havia flores por todo lado. A duras penas, sua am iga Pupul conseguiu abrir cam inho por entre a gente. Quando se encontraram , Indira quase com eçou a chorar. "Estava m uito em ocionada e um pouco alterada", contaria sua am iga. "Mesm o sabendo que a m aré estava a seu favor, a com oção da vitória deixou-a nocauteada." Assum ir que voltava a ser prim eira-m inistra e que com um a canetada todos os seus problem as estariam solucionados levava um tem po. Mas logo reagiu.

O que sente por ser de novo líder da índia? - perguntou a Indira um correspondente europeu. Ela se voltou para ele com um olhar de fogo.

Sem pre fui líder da índia - respondeu secam ente. Outro j ornalista, surpreso diante da afluência m aciça de gente hum ilde, com entou com Indira que algum a coisa m uito boa devia ter feito para eles no passado para que tantos com parecessem , e ela replicou de m aneira um pouco m isteriosa: "Não, aqueles a quem aj udam os estão onde não podem ser vistos".

Sanj ay estava a seu lado, sorridente, enrolado em um xale salm ão com o um j ovem César. Ele tam bém havia ganhado, na m esm a circunscrição que o havia desdenhado três anos antes. Agora seu poder teria certa legitim idade. A vida sorria para ele tam bém por outra razão. Maneka engravidara uns m eses atrás, quando a situação para am bos era m uito difícil. Haviam chegado a se perguntar qual o sentido de trazer um a criança ao m undo no m eio de tanta am eaça. Agora, esse véu de incerteza se retirava e o futuro se anunciava radiante. Maneka, m uito excitada, conversava com j ornalistas e am igos, exibindo com orgulho sua barriga nua entre o sutiã e a saia do sári.

Raj iv, Sônia e as crianças pululavam pela casa. Parecia de novo um a grande fam ília feliz. Aqueles que haviam sido vítim as das cam panhas de nacionalizações e de abolição de privilégios não com partilhavam esse j úbilo. A foto de Indira sorrindo j unto a Sanj ay, que ocupou as prim eiras páginas dos principais j ornais em dias sucessivos, fez com que m ais de um no im enso país sentisse um calafrio de m edo. Mãe e filho voltavam à carga. Em seus palácios j á decrépitos, os herdeiros dos m araj ás receberam a notícia com cinism o... O que podia lhes tirar agora que j á não houvesse tirado?

Era tal o ódio que Indira inspirava em m uitas fam ílias da antiga aristocracia do país que um a vez, em visita ao Bhopal, foi convidada para tom ar chá na casa dos herdeiros das antigas begum es, que haviam governado o sultanato durante gerações. Indira nunca soube que o pedaço de bolo de chocolate que degustara com prazer estava im pregnado de um a cusparada, presente secreto da dona da casa que, por força da nobreza, a atendia com a m áxim a deferência. Em 14 de j aneiro de 1980, Indira foi em possada com o prim eira-m inistra perante o presidente da República, cercada de sua fam ília, de alguns am igos e com panheiros de partido, no resplandecente salão Ashoka do ex-palácio do vice-rei, cuj as pinturas em tetos e paredes contavam a história m itológica da Índia eterna. Era a quarta vez que o fazia nesse m esm o cenário, cuj a grandiosidade evocava o enorm e poder que lhe era outorgado. Dessa vez não j urou sobre a Constituição, com o em ocasiões anteriores, e sim em nom e de Deus. Sem pre havia sido um pouco supersticiosa, ao contrário de seu pai, m as agora surpreendia com a m enção ao Todo-poderoso. Talvez reconhecesse, em seu foro íntim o, que sua volta poder se devia m ais ao destino que a seus próprios m éritos ou às falhas de seus adversários. Talvez os m uitos ataques houvessem a tra ve ssa do sua couraça, e precisava de consolo. Sem pre havia sentido respeito pelo sobrenatural, herança que atribuía a sua m ãe, um a m ulher profundam ente religiosa. Desde sem pre ouvira os astrólogos. Essa data havia sido escolhida por seu professor de ioga, o guru Dhirendra Brahm achari. Segundo ele, era um dia favorável, pois correspondia ao solstício de inverno do calendário hindu.

Havia vinte anos que esse curioso personagem , que tam bém professava a astrologia, lhe indicava os dias de bom agouro ou nefastos para certas atividades. Ultim am ente, sua influência havia dim inuído m uito. Indira o via com desconfiança porque a Com issão Shah havia trazido à baila suas m anobras e questionava a origem de sua fortuna.

Ainda assim , continuava perguntando-lhe sobre dias bons ou ruins antes de tom ar um a decisão. Na sua idade, e depois do que havia vivido, Indira não queria correr riscos tentando a sorte.

Depois da tom ada de posse, Indira foi diretam ente do palácio do presidente para seu antigo gabinete na South Block. Não podia contar com a m aioria de seus anteriores m inistros e colegas porque a haviam traído. Tam bém não queria se cercar de figuras que o povo pudesse identificar com o estado de sítio. Teve que escolher os m em bros de seu gabinete entre um a m iscelânea de deputados sem m uita experiência, m uitos deles dentre as filas do Youth Congress de Sanj ay. Para surpresa de m uitos e alívio de alguns, não deu nenhum cargo a seu filho, a despeito de sua legitim idade validada pelas urnas. Não o queria expor m uito. Preferia que estivesse a seu lado, queria form á-lo, vê-lo am adurecer sob sua proteção. Tinha plena confiança em que Sanj ay seria capaz de revitalizar o partido e assegurar-se de que os proj etos de desenvolvim ento nas áreas rurais seriam seguidos. E não queria repetir os erros do passado.

ENQUANTO ISSO, SÔNIA SE ENCARREGAVA de novo da m udança. A vitória de Indira significava que voltavam todos ao núm ero 1 da Safdarj ung Road. Era urgente recuperar espaço. Antes de m ais nada, Indira quis m andar um a dúzia de sacerdotes hindus purificar a casa onde Morarj i Desai havia residido enquanto a estivera perseguindo. Soubera que seu rival era praticante assíduo da urinoterapia, um ancestral costum e que consiste em beber, todas as m anhãs, em j ej um , um copo da prim eira urina do dia. Para assegurar-se de que não restasse um só copo do antigo inquilino em casa, Sônia e Indira recolheram todos, colocaram -nos em um a caixa e os devolveram à adm inistração. Tam bém enviou pedreiros para que dem olissem o banheiro ao estilo indiano que seu rival havia m andado construir e o substituíssem por um european sty le, com vaso sanitário e banheira. Quando se m udaram , parecia que nunca haviam saído dessa casa. "Um ar de renovada elegância reinava em todos os aposentos, que de novo estavam cheios de em pregados e de enorm es vasos de flores que caíam em cascata", escreveria Pupul. Sônia tornou a assum ir seu papel de dona de casa extraordinária nesse lar especial, onde tinha que organizar j antares e recepções para um constante desfile de personalidades: Giscard d'Estaing, Mobutu, Yasser Arafat, Andrei Grom y ko, Jim m y Carter etc. Todos iam estreitar laços com um a das m ulheres m ais poderosas do m undo.

A vida fam iliar voltou a ser agradável. A nova situação e m ais espaço descontraíram o am biente. Acabaram as brigas e, ainda m elhor, os silêncios. Todos cuidavam de Maneka, que estava prestes a dar à luz. Durante a gestação, Sônia havia feito as pazes com sua cunhada de m aneira tácita. Optara por esquecer as velhas brigas, as oscilações de hum or, os com entários cruéis para se centrar em seu dever de "bahu m ais velha" - nora m ais velha - e aj udar Maneka com sua experiência. Esteve atenta a ela a todo m om ento. A fam ília em prim eiro lugar. Decididam ente, Sônia j á era m uito indiana. Em bora as duas cunhadas fossem com o a água e o óleo, conseguiram um a espécie de entente cordiale. Indira, que não cabia em si de contente ao pensar em seu novo neto, j á havia escolhido o nom e: Firoz, com o seu m arido. Maneka não tinha certeza, e queria cham á-lo de Varun. Sanj ay decidiu o assunto. O m enino se cham aria Firoz Varun.

Raj iv j á não tinha que passar quase todo seu tem po livre, além das horas de voo, no gabinete de im postos do Ministério da Fazenda. Novam ente podia se dedicar a sua fam ília e a seus hobbies, com o a fotografia e o radioam adorism o. Era um paizão. Não perdia nunca um a apresentação no colégio ou a leitura de um a história quando chegava em casa antes de as crianças estarem deitadas. A fotografia o distraía m uito; era um relax depois da concentração que exigiam seus vôos, freqüentem ente em horas im possíveis. Sua paixão havia crescido com o tem po. Gostava de experim entar novos filtros e equipam entos, não perdia um a exposição e assinou revistas especializadas. Estim ulava seus filhos para que gostassem . Ensinava-os a desenvolver a sensibilidade visual pedindo-lhes que identificassem vários tons de verde no j ardim . Mais tarde, aconselhava seu filho a anotar o tem po de exposição e a velocidade com que batia as fotos para poder corrigi-las e m elhorar.

Sua câm era estava sem pre presente em todas as ocasiões especiais: aniversários, com em orações fam iliares etc, e se estava em casa quando algum fotógrafo ia retratar sua m ãe, pegava sua câm era e participava da sessão. Sem pre desfrutou de um com panheirism o especial com os fotógrafos. Deu a sua m ãe um álbum em m iniatura, dobrável, que ela levava consigo em todas as suas viagens. "Raj iv, ponha fotos m ais recentes", pedia-lhe reiteradam ente quando se cansava de ver sem pre as m esm as. Indira adorava as fotos de seus netos. Escolhia as que gostava nos negativos e pedia a Raj iv que as am pliasse e em oldurasse. Seu escritório estava cheio delas.

À noite, Raj iv se trancava em sua oficina m ecânica e estabelecia contato com radioam adores do m undo inteiro. Havia com prado um transm issor de rádio em kit para m ontar, e nada o fazia m ais feliz que se conectar com Pier Luigi, o am igo da infância de Sônia, em Orbassano nas noites claras sem interferências. Protegido pelo anonim ato, falar pelo rádio com gente do m undo inteiro era outra form a de viaj ar e, ao m esm o tem po, de esquecer-se de si m esm o e relaxar.

Em 16 de fevereiro de 1980, um m ês depois da posse de Indira, aconteceu na índia um fenôm eno extraordinário que não ocorria havia quase um século: um eclipse total do Sol. Raj iv instalou um telescópio no j ardim , aj udado por Rahul e Priy anka, que estavam m uito excitados c om a idéia. Além disso, dispunham de óculos pretos, que Raj iv havia conseguido com um colega piloto. Sanj ay entretinha-se aj ustando os com andos de um avião controlado por rádio. A paixão pelo aerom odelism o nascera depois de o governo retirar sua licença de piloto sem razão algum a. Agora estava à espera de recuperá-la para voltar àquilo que se transform ara em sua paixão favorita: voar. Longe ficava a paixão pelos carros, sepultada pelo fiasco do Maruti. Pupul, que havia sido convidada por sua am iga a presenciar o acontecim ento, tom ava um a xícara de chá na varanda. Quando se aproxim ou a hora do eclipse, Indira, influenciada pelas som brias previsões de conhecidos astrólogos que haviam anunciado nos j ornais terrem otos, inundações e desastres de todo tipo, m andou Maneka para seu quarto. Considerado um a am eaça direta para o bebê não nascido, nenhum a m ulher grávida devia se expor a sua nefasta influência. Mesm o em assuntos que não tinham nada a ver com a política, Indira estava em sintonia com seu eleitorado. A m aioria das pessoas optou por se esconder em suas choças.

Os hindus não saem à rua durante os eclipses, considerados prej udiciais porque, sim bolicam ente, a luz se esconde. Uns j ej uaram , outros fizeram oferendas ou recitaram m antras para conj urar o perigo. Quando a Lua com eçou a invadir o Sol, um a m isteriosa luz envolveu a casa e o j ardim e as som bras desapareceram . Indira se levantou e foi se trancar em seu quarto até o final do fenôm eno. Seu guru Brahm achari havia dito que o eclipse era especialm ente perigoso para ela e para Sanj ay, e ela preferiu acreditar. Raj iv, Sônia e as crianças, todos com óculos pretos, assistiram extasiados à passagem da Lua na frente do Sol. Pupul seguiu Indira até seu quarto. "Essa não era a Indira robusta dos dias anteriores ao estado de sítio", pensou. "Fiquei surpresa de ver com o estava influenciada pelo ritual e pela superstição. Por que estava assustada? Que som bra, que escuridão cam inhava j unto a ela?”

Os m eses seguintes foram m arcados pela harm onia fam iliar e pela felicidade de voltar a desfrutar de um a vida norm al. As atenções que Maneka recebia de sua sogra, de sua cunhada e de seu m arido, que a acom panhava a todas as consultas m édicas porque dizia que o sofrim ento físico a aterrorizava, faziam -na se sentir nas nuvens.

Assim com o seu irm ão Raj iv, Sanj ay participou de todo o processo do parto. Firoz Varun nasceu em 13 de m arço de 1980 sem nenhum problem a. Foi a cerej a do bolo da bonança fam iliar. A partir desse m om ento, a espevitada Maneka com eçou a desfrutar de seu papel de m ãe e esposa, aconselhada por Sônia, em quem recaíram os prim eiros cuidados à criança. Indira estava tão contente que quis que dorm isse com ela em seu quarto. Não se incom odava de passar a noite em claro.

Novam ente Sanj ay, devido à proxim idade com sua m ãe, desfrutava de um poder irresistível. Im iscuía-se em todos os aspectos da vida indiana, desde os corredores aéreos da capital à superlotação dos hospitais, desde os planos de desenvolvim ento rural à proteção dos anim ais, causa favorita à qual sua m ulher o havia arrastado. Corria o boato por Nova Délhi de que em m enos de um ano seria prim eiro-m inistro, m as sua m ãe não estava disposta a isso. Quando os m em bros da assem bléia legislativa do Congress de Uttar Pradesh escolheram Sanj ay com o seu líder, pediram a Indira que o nom easse chefe de governo desse estado, o m aior do país. Maneka j á se via desfrutando das prebendas que vinham com o cargo, incluindo m orar em um palácio cheio de em pregados. Mas Indira negou categoricam ente. Disse aos adm iradores de seu filho que ele tinha m uito a aprender antes de poder assum ir tam anha responsabilidade. Sanj ay protestou e discutiu com sua m ãe, m as ela não deu o braço a torcer. No fim , ele se acalm ou e não tornou a insistir.

Mesm o ainda cercado de um a corte de aduladores, Sanj ay não era o m esm o de antes. Até seus detratores com eçaram a adm itir que, de fato, possuía qualidades de que o país necessitava nessa difícil situação. Reconheciam sua enorm e capacidade de trabalho e sua com provada aptidão para tom ar decisões duras e im populares. Na realidade, estava acontecendo com ele o que havia acontecido com seu avô Nehru e com Indira. Todos na fam ília haviam levado um tem po para am adurecer com o adultos, e conseguiram isso depois de enfrentar grandes desafios. Aos 33 anos, Sanj ay estava a cam inho de se transform ar em um hom em responsável, sem as estridências nem os com portam entos aberrantes do passado. Sua m ãe tinha certeza de que, depois de um a boa aprendizagem política, seu filho passaria de um j ovem inexperiente e im pulsivo a um político visionário e enérgico. Tinha os genes para isso, pensava ela. O incrível é que m uitos na índia tam bém achavam isso, algo im pensável havia apenas seis m eses. Ou o país perdera a m em ória ou o apelo popular dos Gandhi continuava representando a única possibilidade de salvação para m ilhões de indianos.

Raj iv, Sônia e seus filhos passaram esses m eses sonhando com as férias. Haviam decidido passar uns dias na Itália, e tinham pensado em fazer isso em j unho, quando o calor em Nova Délhi aum entava. Pretendiam encontrar o am igo e ator indiano Kabir Bedi, que naquela época era m undialm ente conhecido por seu papel principal na série Sandokan, e que havia prom etido visitá-los. Além disso, dessa vez pretendiam viaj ar pelo norte da Itália. Tinham pensado em alugar um carro e visitar a região de Asiago e a aldeia de Lusiana, onde Sônia havia nascido. Queria m ostrar às crianças o lugar onde havia sido criada, apresentá-las aos vizinhos e aos parentes que ainda restavam ali. Um m ergulho nas outras raízes fam iliares. No dia da partida, antes de se despedir, Maneka m ostrou a Sônia um a sacola que continha algo que havia com prado, com a intenção de com eçar a usá-lo.

-Você não vai a acreditar...

- O que é? - perguntou Sônia, intrigada.

Maneka tirou de um a sacola um livro de receitas culinárias. Am bas caíram na gargalhada. Foi a últim a vez que riram j untas.

Se não houvessem sido interrom pidas, teriam sido férias perfeitas: relaxantes, divertidas e interessantes. As crianças aperfeiçoaram seu italiano, Sônia ficou em dia com suas com pras de roupa européia e Raj iv fez o m esm o com seu m aterial fotográfico. No fim , nem precisaram alugar um carro; a irm ã de Sônia, Anushka, em prestou-lhes um conversível que fez a delícia das crianças. Nele percorreram o norte da Itália, na direção oposta à do patriarca Stefano quando havia abandonado seu povoado natal de Lusiana em busca de um futuro m elhor no cinturão industrial de Turim . Trinta e cinco anos depois, sua filha e seus netos voltavam aos m ontes Asiago, com o um a fam ília norm al de italianos em férias. No cam inho, pararam no belíssim o lago de Garda, cercado de oliveiras, cam pos de lim oeiros e fechados bosques de ciprestes, passearam em Verona pelas largas ruas de m árm ore verm elho, deixaram -se seduzir pelo encanto de Veneza e banharam -se nas praias do Adriático. Subiram os m ontes Asiago por um a pa isa ge m que refletia o esplendor da prim avera. Flores silvestres cor de m alva, brancas e am arelas cresciam no acostam ento da estrada que serpeava entre bosques de bétulas.

Os cam pos onde as vacas pastavam estavam vestidos com um verde intenso, e, ao fundo, os Alpes lem bravam o Him alaia visto da planície. Em Lusiana, a aldeia original da fam ília, o ar era cristalino, dava vontade de beber, a tem peratura era perfeita. E pensar que em Délhi a avó, os tios e principalm ente o pequeno Firoz estariam suportando 45 graus à som bra, à espera da chegada das chuvas! No carro, Priy anka e Rahul riam lendo os letreiros dos com ércios: "Padaria Maino", "Trattoria Maino", "Café Maino", "Posto Irm ãos Maino"... Com o haviam prosperado os diversos ram os da fam ília desde os tem pos do pós-guerra! - pensou Sônia. Foram recebidos com enorm e carinho e curiosidade: todos queriam conhecer a filha pródiga do povo cuj o destino extraordinário acom panhavam por m eio da im prensa. Todos se surpreendiam com a m esm a coisa: a sim plicidade da fam ília. Sônia se vestia com bom gosto, com calças j ustas e regatas, um luxo que não se podia perm itir na índia, onde um a m ulher podia m ostrar a barriga, m as era m alvisto que m ostrasse os om bros. Bateram fotos em frente à casa de pedra da fam ília, a últim a da rua Maino, que estava havia três décadas desabitada. Foram m aravilhosam ente recebidos, tanto que não dispunham de tem po para aceitar todos os convites, todas as visitas.

Voltaram a Orbassano, onde Stefano e Paola os esperavam com m uita ansiedade. Ficaram tão preocupados acom panhando as notícias da índia durante os últim os anos que agora sentiam um aperto no coração cada vez que sua filha e seus netos partiam , m esm o que fosse para o Vêneto ou sim plesm ente para passar a tarde em Turim . A essa inquietude som ava-se a que sentiam pela filha m ais nova, Nadia, que havia se casado com um diplom ata espanhol que acabava de ser destinado a Nova Délhi. Por um lado, estavam contentes porque as duas irm ãs iam se fazer com panhia; por outro, não gostavam de tê-las tão longe. Brincavam dizendo que não podiam fugir do carm a da índia. A filha m ais velha, Anushka, que m orava no andar de baixo da casa da Via Bellini, tinha a intenção de abrir um a loj a de artesanato indiano em um centro com ercial próxim o a Orbassano. Sua filha m ais velha recebera o nom e de Aruna.

Rahul e Priy anka tam bém estavam felizes de voltar à casa dos avós, j ustam ente porque seus prim os, filhos de Anushka, m oravam em baixo, de m odo que as crianças se divertiam a valer nessa grande casa fam iliar, brincando no j ardim ou na rua. Brincavam da m esm a coisa que Sônia quando m enina, quando desenhava com um giz no asfalto os dias da sem ana e passava hor a s pulando de um a casinha à outra. Stefano sentia-se m uito feliz com essas reuniões fam iliares. Havia construído a casa para ter sob o m esm o teto todas as suas filhas e suas fam ílias. Elas brincavam dizendo que devia ter sido indiano em outra vida, de tanto que gostava da fam ília... As conhecidas de Sônia surpreendiam -se de ver a velha am iga m antendo um a atitude tão hum ilde e se vestindo de um a m aneira tão sim ples, com j óias pequenas e discretas. "O casam ento que fez não subiu à cabeça da Gata Borralheira de Orbassano", dizia um a vizinha segurando o riso. Assim a descrevia a im prensa local desde seu casam ento: "Gata Borralheira de Orbassano", um apelido que provocava constrangim ento em Sônia: "Que breguice", dizia. Para Raj iv, as férias na Itália tam bém eram o m elhor relaxam ento que poderia ter desej ado.

Fugir de Nova Délhi era um luxo. Montar na Vespa laranj a de Pier Luigi e ir à loj a de eletrônicos Allegro na Corso Re Um berto para com prar peças para seu rádio que não se encontravam na índia e não ser reconhecido era um prazer, com o era visitar em fam ília o fabuloso Museu Egípcio - onde Sônia, quando adolescente, ficava com seus am igos para evitar o frio da rua - sem ficar im ediatam ente cercado por um a nuvem de gente pedindo um autógrafo ou apontando com o dedo. Mas o prazer duraria pouco. No fim de j unho, a visita de Sandokan a Orbassano causou um a verdadeira com oção. De repente, as crianças e os j ovens do local foram para a Via Bellini para ver de perto esse príncipe de Bornéu que havia j urado se vingar dos britânicos na im aginação de Em ilio Salgari. Arm ou-se tanto rebuliço que Sônia propôs abandonar a casa. Acabaram a tarde em um a pizzaria de Avigliana, ali perto, felizes e rindo.

E, de repente, ao raiar do dia 23 de j unho tocou o telefone. Sônia sentiu um nó no estôm ago. Não era um a hora norm al, e logo pensou que podia ser um a ligação da índia. Sua m ãe lhe confirm ou, na ponta dos pés e em voz baixa para não acordar o resto da fam ília: "É um a ligação de Nova Délhi". Sônia levantou-se, vestiu o robe e foi atender na sala. Reconheceu, entre interferências, a voz nervosa de um dos secretários de sua sogra. Agora tinha certeza de que seriam m uito m ás notícias: "Madam e... Sanj ay sofreu um acidente... e faleceu". Sônia ficou com a m ente vazia, sem ouvir as explicações atropeladas do secretário. Quando desligou, estava aturdida. Voltou para seu quarto. Raj iv estava se espreguiçando. Esperou alguns segundos para lhe dizer, com o se quisesse lhe dar m ais algum tem po de um a felicidade que, quando estivesse totalm ente acordado, não tornaria a conhecer. Nas profundezas de seu ser, Sônia soube que essa catástrofe afetaria profundam ente sua vida e a de sua fam ília.

ALGUMAS HORAS DEPOIS, voaram para Rom a para pegar o voo da Indian Airlines que fazia a rota Londres-Nova Délhi. Viaj aram de prim eira classe, j unto com outros am igos e conhecidos, dentre os quais se encontravam a m ãe e a irm ã de Maneka, cuj as férias na capital britânica tam bém haviam sido interrom pidas. Viaj avam ainda no avião um antigo m inistro, um industrial e um hom em de negócios, todos velhos am igos da fam ília, m uito com ovidos pelas circunstâncias. Ca da um deles havia reunido inform ações sobre o acidente e durante o longo voo puderam reconstituir o que havia acontecido.

Sanj ay havia se arrebentado no com ando de seu últim o brinquedo, o Pitts S-2A que havia adquirido graças à m ediação do corrupto guru Brahm achari. Às sete da m anhã, fora para o aeroclube de Nova Délhi e convidara um colega piloto para fazer uns exercícios de acrobacia. Seu am igo era reticente a voar com Sanj ay porque sabia que ele não tinha experiência, m as, diante de sua insistência, acabou aceitando. Ficaram fazendo espirais no céu e quedas em picado sobre Nova Délhi durante doze m inutos, e depois voaram por cim a do núm ero 1 da Safdarj ung Road, onde estivera falando com sua m ãe apenas um a hora antes. Tenha m uito cuidado - advertira Indira. - Dizem que você é m uito im prudente... Não ligue - respondera Sanj ay .

Segundo um a testem unha, o avião subiu com o um a flecha para o céu, e a seguir iniciou um picado com o se fosse ganhar velocidade para fazer um looping, m as não conseguiu se recuperar. Estatelou- se no bairro diplom ático, em um descam pado, a m enos de 1 km do núm ero 12 da Willingdon Crescent.

Um m ês antes, o diretor-geral da aviação civil havia inform ado a seus superiores que Sanj ay violava freqüentem ente o protocolo de segurança e que, portanto, punha em risco sua vida e a dos outros.

O diretor de aviação com entou com o m inistro do Ar, que ficou de falar com sua m ãe, m as, pela razão que for, não falou.

Se ninguém fez nada, foi por m edo de ir contra Sanj ay , im agino... - disse Raj iv Mais tarde, saberiam o que havia acontecido com exatidão. O inform e do diretor da aviação civil havia caído nas m ãos de Sanj ay , e ele havia reagido, fiel a si m esm o, obrigando o funcionário a se afastar. Seu suplente, um hom em dócil que não criaria problem as, assum ira. O caso é que Sanj ay havia m orrido por ser im prudente e arrogante, porque sua sede de poder era tal que não aceitava nenhum lim ite.

O ANOITECER EM VOO FOI RAPIDÍSSIMO, pela velocidade do avião e pela rotação da Terra. Deviam estar sobre a Síria, ou talvez a Turquia. Em baixo, viam -se lagos turquesa e as luzinhas das cidades que iam abraçando a noite. Ninguém assistia ao film e. O grupo dos am igos e fam iliares não quisera com er nada. Am teshwar, m ãe de Maneka, estava visivelm ente abalada. "Viúva aos 23 anos... e com um bebê de três m eses", repetia a m ulher. Em m enos de três anos, havia perdido seu m arido e seu genro. Havia passado do cum e ao ostracism o, e a seguir ao cum e de novo... E agora, o que aconteceria?

Voc ê tem que fazer o possível para m anter as duas fam ílias unidas - aconselhavam os três am igos da fam ília à m ãe de Maneka. - Agora que Sanj ay não está m ais aqui, têm que orbitar ao redor de Raj iv.

Sônia se arrepiou quando ouviu essa frase. Esteve prestes a soltar um sonoro "Não!", m as se conteve. Ela j á sabia que tentariam convencer Raj iv a ocupar o vazio que seu irm ão deixara. Sônia sabia m uito bem : aquilo significava o fim da felicidade. Estava disposta a lutar com unhas e dentes para im pedir.

O avião aterrissou em Délhi às duas da m adrugada. Um a onda de calor intenso deu-lhes as boas-vindas. A câm ara-ardente estava instalada na casa da Safdarj ung Road, onde um a fila de gente -m inistros, am igos, desconhecidos - havia desfilado durante todo o dia diante dos restos m ortais, ordenadam ente e em silêncio. Indira, m uito nervosa, ficava indo de um quarto para o outro durante toda a noite, perguntando se havia notícias dos que estavam viaj ando, porque, inconscientem ente, tem ia que outra desgraça pudesse acontecer. Raj iv, Sônia e as crianças j á haviam sido inform adas do que iam encontrar, m as, ainda assim , o choque de chegar em casa nessas condições im pressionou-os vivam ente. Quando viram o corpo de Sanj ay estendido em um féretro na sala, entre aquelas paredes onde parecia que ainda retum bava o eco de seu riso franco e nervoso, Raj iv e Sônia desabaram . E quando Indira viu Raj iv chorando desconsoladam ente, tam bém com eçou a soluçar. Recuperada a serenidade, Sônia observou Indira: estava com os olhos verm elhos e inchados por trás de seus óculos de sol, a pele cinza, andava um pouco encurvada, com o se lhe custasse m anter-se erguida. "Depois disso, para onde vou, filha?", perguntou-lhe com a voz partida. Dissera isso apertando as m ãos sobre o ventre, em um gesto que as cam ponesas pobres fazem quando choram seus m ortos.

Voltaram a se abraçar, e ficaram um longo tem po em silêncio. Menos de dez dias antes, Indira instalara Sanj ay em seu prim eiro escritório oficial, depois de tê-lo nom eado secretário-geral do partido. Agora, de repente, só havia um corpo j acente: ficara sem filho, sem com panheiro, sem conselheiro e sem sucessor.

A seguir, Sônia viu Maneka, cuj os m ovim entos pareciam desconexos. Passara o dia todo chorando, repetindo: "Sanj ay não, por favor... Qualquer um , m enos Sanj ay ...". Raj iv abraçou-a e disse-lhe um as palavras de carinho. Sônia tam bém não pôde reprim ir as lágrim as ao abraçá-la. As crianças, cansadas e abaladas, agüentavam estoicam ente. O pranto distante de seu prim o, o pequeno Firoz Varun, rasgou o silêncio.

Logo Sônia foi cuidar dos que estavam velando o corpo. Aj udou a colocar colchonetes no chão para que todos os am igos e fam iliares próxim os pudessem descansar. Tam bém se assegurou de que houvesse chá, torradas e doces.

Depois da efusão do reencontro, Indira lhes contou os porm enores do ritual funerário que havia organizado para o dia seguinte.

Farem os a crem ação em Shantivana, j unto ao m ausoléu do vovô... Não acho que sej a um a boa idéia, m am ãe - sugeriu Raj iv. - Não seria m ais prudente fazer um funeral privado, m ais restrito?

Talvez, m as o xeque Abdullah, chefe de governo da Caxem ira, e todos os chefes de governo estaduais m e pediram um funeral m em orável. Sanj ay não tinha um cargo oficial no governo. Fazer-lhe um funeral de Estado pode lhe causar problem as. Im agine os protestos!

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Eu sei. Mas tam bém é verdade que Sanj ay tinha m uitos seguidores, e não os quero decepcionar. Seria com o decepcionar a ele. Raj iv parou de insistir.

A CREMAÇÃO FOI FEITA NO DIA SEGUINTE, às m argens do rio Yam una. Era m uito perto de onde havia sido a crem ação de Nehru, o pai da nação, e seu filho, por m enos que Indira quisesse enxergar isso, não m erecia as m esm as honras que seu pai. Muitos viram nesse gesto de Indira outro sinal de abuso de poder. De novo, havia ignorado o conselho de Raj iv de escolher outro lugar, não esse lugar sagrado de peregrinação para m ilhões de indianos. Mas Indira se deixou levar pela insistência dos com panheiros de Sanj ay . Não teve forças para lutar contra eles, e com certeza concordava em prestar um a hom enagem desm edida a seu filho, com o se assim pudesse com pensar um pouco sua perda.

Indira, com os olhos e toda a dor que continham protegidos por seus enorm es óculos de sol, estava sentada j unto a Maneka na prim eira fila, em frente à pira. Sônia, usando um sári branco im aculado, soluçava enquanto lem brava os dias de recém -casada, quando seu cunhado, seu m arido e ela eram um trio inseparável. Atrás, via-se gente até a linha do horizonte. Coube a Raj iv cum prir os ritos: colocou a tocha no fogo e deu várias voltas ao redor do corpo de seu irm ão, ao som dos m antras entoados pelos sacerdotes hindus. Seu filho Rahul olhava para ele com certa apreensão. Seu pai lhe havia dito que caberia a ele, com o prim ogênito, levar a cabo os ritos da crem ação quando, pela lei da vida, um de seus progenitores deixasse este m undo. Até esse dia, o rapaz nunca havia pensado que isso podia acontecer.

À tarde, Raj iv levou as cinzas de seu irm ão em um a urna de cobre para enterrá-las sob um a árvore no j ardim da Akbar Road. Ao ver a urna, Indira não pôde se conter m ais e explodiu em soluços. Pela prim eira vez, chorou desconsoladam ente e sem inibição em público. Raj iv abraçou-a e m anteve-a em pé, porque ela, literalm ente, estava desabando. Sua dor parecia não ter lim ite. Sônia soubera que na m anhã da tragédia Indira havia abandonado o hospital onde os m édicos rem endavam o corpo de Sanj ay para voltar ao local do acidente. Havia voltado ali duas vezes.

As m ás-línguas diziam que fora buscar o relógio e o chaveiro de Sanj ay porque um a das chaves era, com certeza, de algum cofre cheio de tudo o que o filho pródigo devia ter roubado. Na tam pa do relógio, sem pre segundo os rum ores, estaria gravado o núm ero de um a conta secreta na Suíça. Mas era pura patranha. Indira não se interessava pelos obj etos pessoais, que, além do m ais, j á haviam sido recolhidos pela polícia. No fundo, o que fazia era procurar seu filho; tentava inconscientem ente recuperá-lo, e não suas coisas. Revirando com o olhar os ferros calcinados, Indira percebera a enorm idade da perda. Todos os seus sonhos, seus grandes planos de futuro, tam bém estavam em cacos entre as ruínas do avião.

Sob a som bra da árvore do j ardim , Indira conseguiu controlar o pranto e recuperar-se com assom brosa rapidez. A seguir, foram para a sala. O lugar onde estivera colocado o corpo estava agora coberto de j as-m ins. Sentaram -se no chão desse quarto que cheirava bem e parecia purificado, as pernas cruzadas e em silêncio, ouvindo os sacerdotes cantarem versículos do Ram ay ana, a grande epopéia do hinduísm o.

NOS DIAS SEGUINTES, os sim patizantes de Sanj ay erigiram estátuas em sua m em ória, batizaram ruas e praças com seu nom e, assim com o bairros inteiros, escolas, hospitais e até centrais hidrelétricas. O país inteiro viveu com frenesi um culto póstum o à personalidade do filho pródigo que os m ais aduladores chegaram a com parar com Jesus Cristo, Einstein e Karl Marx. Essa dem onstração de suposto afeto era m ais um a tentativa desesperada de seus aliados e am igos políticos de m anter seus privilégios e ficar perto do poder, próxim os a Indira, que um a dem onstração verdadeira de dor nacional.

Muitos outros, dentre os quais se encontravam as antigas vítim as de sua política de controle da natalidade, viveram essa m orte com alívio. Para eles, havia sido um acidente providencial, que poupara o país do cruel destino de ter Sanj ay com o prim eiro-m inistro, o que todos pensavam que aconteceria cedo ou tarde.

Para Indira, a única coisa positiva da tragédia foi que serviu para recuperar velhas relações e reconciliar-se com fam iliares e am igos que haviam lhe dado as costas durante a Em ergency. Sentiu- se particularm ente feliz ao receber um a carta de sua velha am iga Dorothy Norm an: "Fa z tanto tem po que não nos escrevem os que, de certa m aneira, não sei a quem estou escrevendo; por outro lado, escrevo à pessoa que conheci. Com o gostaria que pudéssem os conversar, m as o silêncio, talvez, é m ais revelador que qualquer palavra... Mando esta carta com o um a ponte. As am izades são a coisa m ais valiosa deste m undo às vezes tão duro".

Indira respondeu dizendo quão em ocionada havia se sentido ao receber sua carta e que tinha tantas coisas para lhe contar que não sabia por onde com eçar: "O passado é o passado, deixem os estar. Mas tenho que esclarecer certas coisas. A falsidade, a persistente cam panha m aliciosa de calúnia deve ser refutada...". Indira nunca adm itiu as m aldades ou os erros de Sanj ay .

Em casa, ficavam Maneka e o pequeno Firoz Varun, que dorm ia no quarto de Indira com os outros netos desde a m orte de Sanj ay . A avó passava longos m om entos observando o bebê, com o se por trás de cada gesto reconhecesse seu filho. Ficavam tam bém Raj iv e Sônia, cuj o casam ento havia sobrevivido à separação física, à diferença cultural, à oposição das fam ílias, ao estresse da Em ergency e à contínua infiltração e corrosão da política em suas vidas. Tinham dois filhos inteligentes, bonitos e de bom caráter. Até o acidente do tio Sanj ay , o m ais grave que havia acontecido com as crianças havia sido ver a avó na prisão e ter perdido um a cadela "Fiquem com a lem brança de quando brincavam com ela, de quanto se divertiam e nos divertíam os todos quando a levávam os para passear...", escrevera Raj iv em um a carta cheia de ternura paterna, que term inava com um conselho.

"Vocês devem aprender a viver sabendo que em algum m om ento todos tem os que m orrer." A perfeita vida fam iliar de que desfrutavam parecia algo bonito e bom dem ais para durar.