O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 2 de 6 · parte 5/6

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O Sári Vermelho

Ato I - a Deusa Durga Cavalga um Tigre

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Fecharam a portinha m orrendo de vergonha. Contaram a Usha, que, por sua vez, contou a Indira, tem erosa de que aquele incidente pudesse desencadear um conflito diplom ático. Indira lim itou-se a rir.

No dia seguinte foram de helicóptero de Tim pu até o estado de iikkim , fronteiriço com o Tibete. Foram recebidos pelo rei local e sua m ulher, um a nova-iorquina encantadora cham ada Hope Cooke, em seu palácio. À noite, quando Indira j á havia se deitado, a am ericana chegou ao quarto das garotas com o prato de que Sônia m ais gostava: salm ão defum ado. Lem brava sua época da Inglaterra, onde o havia descoberto.

Foi um breve parêntese de frescor no m eio da canícula que abrasava o norte da Índia. Quando retornaram a Délhi, em baixo, na planície, o term ôm etro m arcava 43 °C às onze da m anhã. O asfalto derretia. As árvores pareciam tão cansadas quanto os hom ens. As pessoas cam inhavam com som brinhas abertas para se proteger do sol. Os condutores de riquixás esperavam seus clientes deitados sob qualquer som bra. Em casa, as flores dos canteiros do j ardim haviam m urchado e o gram ado parecia palha seca. Os criados regavam a fachada. Sônia teve que aprender a restringir seus m ovim entos ao m ínim o para econom izar energia. A tem peratura noturna era tão intolerável que teve que se render ao ar condicionado. Aconselharam -na a não sa ir de casa ao m eio-dia porque o sol era im placável. Esse calor pouco tinha a ver com o ferragosto.

O ar era tão denso que podia ser cortado com um a faca, e a tem peratura subiu até os 46 °C uns dias depois. Era um clim a cruel e desapiedado. Sônia esperava ansiosa a volta de Raj iv, deitada na cam a e sonhando com a paisagem bucólica do Vêneto, lem brando o rangido que suas botas de borracha produziam na neve recém -caída, a água gelada que quando m enina bebia diretam ente dos arroios, o cheiro do cam po depois da chuva, os prados verdes salpicados de am apolas na prim avera... Mas seu m arido j á estava aqui, e esperavam o entardecer para sair e dar um a volta de m oto e tom ar um sorvete em um dos poucos lugares que os serviam em condições higiênicas saudáveis.

Era preciso ter cuidado para com er fora de casa, porque o calor afetava a conservação dos alim entos.

A TENSÃO EM CASA AUMENTAVA proporcionalm ente ao calor, não pelo incôm odo que pudesse resultar, m as por suas repercussões políticas. Afinal de contas, aquela era a casa da prim eira-m inistra, e seu trabalho e futuro dependiam , em grande m edida esse ano, de as chuvas das m onções chegarem a tem po. A m aior preocupação de Indira continuava sendo lutar contra a fom e. Tinha consciência de que se com batia a escassez de alim entos introduzindo novos m étodos agrícolas que haviam provado sua eficácia em outras partes do m undo, e fom entando a construção de fábricas de fertilizantes. Chegar a um a verdadeira revolução verde, tornar a índia autossuficiente, essa era sua principal prioridade e a ela se dedicava com afinco. Todo o resto, que era m uito, podia vir depois: saúde, educação, m elhorar o status das m ulheres etc.

O problem a é que esse am bicioso program a precisava de tem po para dar frutos. Enquanto isso, as pessoas tinham que com er. E o azar quis que a índia sofresse três anos consecutivos de secas. Se naquele quarto ano as chuvas tam bém não chegassem , o desastre estaria servido. E a isso havia que se som ar o fiasco da aj uda am ericana.

A despeito de todas as indicações do contrário, o presidente Johnson quis utilizar a aj uda alim entar com o alavanca para subm eter a índia a sua política. Indira esteve disposta a fazer algum as concessões (enfrentando um a tem pestade de protestos em casa), m as nunca teve a intenção de abandonar a política de não-alinham ento de seu pai. Com o represália por um a crítica que o m inistro de Assuntos Exteriores indiano fez a Israel por sua atitude para com os países árabes, Johnson com eçou a atrasar os envios de alim entos. Pediu que todos os inform es de carregam entos de grãos passassem por seu escritório antes de dar o visto final. Indira tinha um m apa da índia na parede de seu gabinete no South Block, no qual rastreava o m ovim ento de cada cargueiro com alim entos. A lentidão era exasperante. Esses am ericanos não percebem que cada dia que passa representa a m orte de m uita gente? -dizia em casa, indignada, num dia em que Sônia havia preparado um prato de m assa. - Não leve a m al, não é nada pessoal - continuou dizendo a Sônia, afastando seu prato - m as j á decidi, e assim acabo de anunciar no Parlam ento: parei de com er trigo e arroz em sinal de protesto.

A sessão parlam entar a deixara exausta, e ela m al j antou. Queixava-se de um a forte enxaqueca. Nenhum a das receitas do m édico havia conseguido acabar com as persistentes dores de cabeça que havia vários dias a faziam sofrer. Os problem as da índia não eram para m enos. Se as chuvas não chegarem , haverá m ais fom e. Vou lhe preparar um rem édio caseiro que m eus pais m e ensinaram contra a dor de cabeça. Sônia fez um a infusão de cam om ila e um edeceu um as gazes, que aplicou na testa de sua sogra. Indira continuava falando. Tem ia que outra seca pusesse em xeque sua política agrária, pilar da ação do governo, que tão bons sinais havia com eçado a m ostrar. "Com eçou a se acalm ar e a se Página 116

sentir m elhor", lem braria Sônia, que não entendia os m atizes nem os detalhes dos enorm es problem as que sua sogra enfrentava, m as com preendia sua im portância e alcance. De repente, Indira m udou de assunto.

Com o vai com o híndi? - perguntou de supetão. Mal - respondeu Sônia.

Indira queria a todo custo que Sônia aprendesse híndi. Além de razões políticas - porque os Nehru sem pre haviam sido acusados de ser m uito "britânicos" ou "ocidentais" - Indira acreditava que era m uito bom que sua nora pudesse se expressar no idiom a do povo porque lhe abriria contatos e tam bém as portas da índia profunda. O idiom a não era a alm a de um a cultura? Mas Sônia não entendia por que precisava aprender um idiom a que só os em pregados falavam , j á que o inglês era o que am igos e convidados sem pre utilizavam . Haviam lhe arranj ado um professor particular que se em penhara em ensinar-lhe o idiom a do ponto de vista acadêm ico, com m uita gram ática. As aulas são chatérrim as - confessou Sônia, satisfeita por ter conseguido aliviar a dor de cabeça da sogra.

Indira não insistiu, m as uns dias depois deixou um bilhete para Usha, sua secretária: "Parece que os progressos de Sônia são inexistentes. O m étodo do professor não funciona. Por favor, quanto m ais conversação em híndi praticar com ela, m elhor". Certos hábitos dessa casa teriam sido difíceis de entender para qualquer um . Por exem plo, desde sem pre na casa dos Nehru se falava híndi no alm oço e inglês no j antar, e todo dia, um a das refeições era indiana e outra ocidental. Sônia não entendia por que cada um não podia com er o que quisesse e falar no idiom a que quisesse. Mas, com o era dócil, não se obcecava. E era suficientem ente inteligente para saber que tinha que encontrar seu lugar nessa fam ília m esm o que necessitasse se dobrar a exigências que não entendia bem . Aceitava que isso fazia parte de seu processo de adaptação.

JUNHO SE FEZ ETERNO. Parecia que toda a cidade estava olhando para o céu procurando indícios de chuva. A prim eira página dos j ornais m ostrava em grossos caracteres os recordes de tem peratura: 46 °C na Porta da índia de Raj pafh, anunciava dia 15, quando a m onção j á deveria ter chegado. Um a foto m ostrava grupos de crianças banhando-se nas fontes públicas. O ar seco e abrasador ressecava a garganta. Os olhos ardiam com o se tivessem areia. Um a cam ada de pó cinza, que o vento havia trazido dos desertos de Raj asthan, cobria o j ardim do núm ero 1 da Safdarj ung Road. Para Sônia, o extrem o do clim a era algo novo. Na Europa, o clim a era regular, e as previsões serviam sobretudo para saber se haveria neve na m ontanha ou sol na praia no fim de sem ana seguinte. Aqui, o clim a era algo m uito m ais dram ático devido a sua intensidade e im portância na vida do país, em inentem ente agrícola. O fracasso da colheita de arroz podia significar a m orte de um m ilhão de cam poneses. Por isso, esses dias cruciais na vida da índia eram acom panhados com tanta atenção pela gente e pelos m eios de com unicação. Finalm ente, no fim do m ês, um barulho atroador seguido de um turbilhão de ar ardente que levantou nuvens de pó e arrancou as folhas das árvores anunciou as prim eiras tem pestades. Com o se a noite caísse de repente, grossas nuvens negras invadiram o céu e o vento seco deu lugar a um a chuva de grossas gotas que m artelavam o teto da casa. Os em pregados pareciam reviver depois de tanta m oleza. Iam para a rua e se deixavam ensopar, e os sorrisos voltaram a ilum inar seus rostos. Parecia que as altas palm eiras do largo tam bém trem iam de em oção. A televisão m ostrava im agens da euforia que estava se apoderando do país. Pessoas de diversas religiões e castas pulavam e dançavam j untas nas ruas, com o crianças, pisando na água, m olhando-se sob as calhas dos telhados. Era com o um a grande festa, na qual a m onção fez desaparecer as diferenças entre os hom ens.

Mas a intensidade do calor, agora, era sucedida pela intensidade das precipitações. A água caía com tanta força que o barulho dentro de casa era ensurdecedor. A tem peratura caiu alguns graus de repente, e um a suave brisa trouxe um a carícia de frescor. No j ardim , as rãs cruzavam coaxando pelo gram ado, que reviveu com o em um passe de m ágica, m as dois dias depois o j ardim estava tão inundado que parecia um lago. Se m uitas favelas literalm ente desapareciam com as chuvas e a seguir eram reconstruídas, os bairros de Nova Délhi não eram im unes às conseqüências do dilúvio. Os elegantes largos das cercanias das em baixadas estavam inundados, assim com o os túneis, e m uitos veículos ficavam com o m ortos, táxis e riquixás com os m otores afogados que soltavam seus últim os estertores, alheios aos esforços de seus donos para fazê-los a r r a nc a r de novo. O calor se fez m enos intenso, m as a sensação de abafam ento era

desagradável. Sônia tinha a sensação de estar com as m ãos sem pre úm idas; trocava de roupa várias vezes ao dia porque o suor a encharcava. Estava assom brada de ver que durante dias não parava de chover, com o se os deuses do clim a se vingassem do calor seco e ardente dos m eses anteriores. Agora entendia por que as fachadas de tantos edifícios pareciam suj as, por que havia tantos buracos.

É porque o clim a arrasava tudo e tornava qualquer tarefa de m anutenção um em preendim ento m uito caro para um país tão pobre.

A parte positiva é que as chuvas trouxeram a alegria de fora à casa, com o se a felicidade de todo um país gigantesco entrasse pelas j anelas e invadisse cada canto.

Um país que, não m orrendo de fom e este ano, talvez conseguisse seguir em frente e não tornar a passar a atroz fom e do passado. Indira, m uito em sintonia com o sentim ento do povo, parecia contagiada por essa alegria. A despeito de tantos outros problem as, tornava a ser um a m ulher radiante.

Talvez por não perceber o com portam ento retraído de Sônia com o um a am eaça, em um período de tem po surpreendentem ente curto, Indira, que era de natureza desconfiada, tom ou verdadeiro carinho por ela. A italiana era um a m ulher discreta e direta, duas qualidades que de início haviam granj eado sua im ediata sim patia. Mas tam bém era caseira e gostava de "fazer fam ília". Não exigia que Raj iv ficasse com ela separados do resto, com o poderia ter pensado no início. Ao contrário, insistia para que continuassem respeitando os costum es de sem pre, com o reunir-se na hora das refeições, um a tradição que rem ontava aos tem pos da Teen Murti House. Independentem ente de onde se encontrasse cada m em bro da fam ília, todos se esforçavam para voltar para casa na hora da refeição, a m enos que houvesse algum ato oficial. Desde que eram crianças, Raj iv e Sanj ay haviam se acostum ado a abandonar o que estivessem fazendo para alm oçar em fam ília. Sônia achava isso m uito bom , porque as conversas à m esa eram sem pre m uito anim adas, salvo quando Sanj ay se m etia a falar de política com sua m ãe. O habitual era trocarem pontos de vista, piadas e experiências pessoais. Se Raj iv e Sônia saíam à noite com seus am igos, esperavam que Indira acabasse de j antar fazendo-lhe com panhia. Indira tinha um grande talento para a conversa; era rápida em suas observações, clara em suas descrições e tinha um refinado senso de hum or. Seus interesses não se lim itavam à política; gostava tam bém de artes, das inovações científicas, do com portam ento das pessoas, dos livros, da Natureza... Havia coisas surpreendentes nela, que só com o tem po se descobriam . Por exem plo, costum ava reconhecer um pássaro por seu canto. Nos anos 1950, havia sido m em bro de um a sociedade ornitológica e aprendera m uito sobre pássaros. Tam bém contava um a im ensidão de casos de suas viagens para o exterior. Em Santiago do Chile, a m ulher de um político a recebera dizendo: "Oh, com o parece fina e delicada. Eu esperava ver um a espécie de Golda Meir..." Sônia m orria de rir com aquelas histórias. Com o a do Krem lim , quando, depois de um banquete que Brej nev e Kosiguin deram em sua hom enagem , na hora do café respeitaram o costum e russo de separar os hom ens das m ulheres, e Indira, para sua grande surpresa, viu-se no grupo dos hom ens... Ou quando Indira foi ver Gandhi para falar de seu casam ento com Firoz, e o velho asceta, em vez de incentivá- la a form ar um a fam ília, sugeriu que ela e Firoz se tornassem adeptos de seu ideal m atrim onial de se m anter celibatários depois de casados. Então, para que se casar? - perguntara Indira, irritada. Sônia, que tinha riso fácil, adorava todas essas histórias.

QUANDO A ITALIANA COMPREENDEU O funcionam ento básico de um a casa indiana, foi substituindo Usha nos assuntos dom ésticos. Sentir-se útil e estar ocupada era a m elhor arm a para lutar contra a saudade. "Sônia era um a pessoa organizada, forte, m esm o que hum ilde, m as sabia o que queria", diria a secretária de Indira. A italiana se com portava com o realm ente era: afetuosa, sem pre querendo agradar, fugindo da confrontação, até um pouco subm issa diante da im ensa autoridade que em anava de sua sogra.

"Entendi que precisava dar um tem po a m inha sogra para que ela tam bém se habituasse à nova situação fam iliar, m as ela não era especialm ente possessiva com Raj iv.

Nesses dias, eu estava sem pre a seu lado, disposta a apoiá-la", afirm ou em um a entrevista publicada no Weekend Telegraph anos depois.

Nessa casa de costum es indianos, m as tam bém ingleses e da Caxem ira, Sônia deu sua contribuição de m aneira sutil. E fez isso com um a arm a poderosa, que m anej ava com brio. Sônia havia aprendido com sua m ãe os segredos da cozinha italiana, e logo a casa da prim eira-m inistra exalava arom as de lasanha ao forno, de m olho ao pesto com m anj ericão colhido do j ardim e até de ossobuco à m ilanesa. Era im possível, naqueles anos, conseguir queij o em Nova Délhi, m as sem pre um am igo que vinha da Europa lhe trazia m ozarela ou Gruy ère em balados a vácuo. Não faltava algum engraçadinho que dizia que, em vez de indianizar Sônia, a fam ília estava sendo italianizada por ela... A brincadeira era da porta para dentro, porque se um com entário assim chegasse à im prensa, sabiam que a oposição o utilizaria com sanha. A verdade é que no lar dos Nehru-Gandhi cabia de tudo, à im agem e sem elhança da índia, caldeirão de culturas e tradições sem pre disposta a integrar o estrangeiro e a torná-lo seu. Se Sônia se adaptava à cultura im perante, tam bém travava sua peculiar e silenciosa batalha para deixar sua m arca, panela na m ão, nesse lar cosm opolita.

Mais tarde, foi aprendendo a adivinhar os gostos e as preferências de Indira, com o sua paixão por flores, por exem plo, e sem pre cuidava para que houvesse m aravilhosos arranj os nas m esas. Am bas gostavam especialm ente do cheiro dos nardos, bálsam o que invadia cada canto dessa casa decorada com um a sim plicidade quase espartana, m as com bom gosto. As cortinas eram de algodão cru, os tapetes provinham de vários lugares do norte; havia obj etos tribais, quadros de pintores indianos, algum as antigüidades, com o um m aravilhoso biom bo, e m óveis de estilo colonial inglês.

Sônia entendeu que a sim plicidade e a econom ia eram a chave da personalidade de sua sogra. Indira não gostava de j ogar nada fora; ao contrário, guardava as sacolas de plástico bem dobra da s para utilizá-las de novo. Sônia aprendeu a fazer as m alas com o Indira gostava, aproveitando o m enor cantinho, sem desperdiçar espaço. Se Indira precisava de algum a coisa para a casa, Sônia se encarregava de arranj ar. A vendedora da loj a The Shoppe, em Connaught Place, lem braria que a vira chegar um dia usando calças de couro e seus lindos cabelos caindo sobre os om bros. Ia com prar toalhas de m esa de linho para dar de presente à sogra em seu aniversário. A única coisa que Sônia não dividia com Indira eram os m eandros da política indiana, que nem lhe interessava nem fazia força para entender.

Mas, naquela cozinha que Sônia transform ou em ponto nevrálgico do lar, onde todos acabavam se encontrando nem que só fosse para perguntar que surpresa havia preparado para com er, falava-se inevitavelm ente de tudo.

A fam ília do m araj á de Jaipur não nos cum prim enta m ais - Sanj ay chegou dizendo um dia, m alicioso. - Os de Kota e de Travancore tam bém . Não contem com convite para nenhum a festa deles.

Assim Sônia ficou sabendo que sua sogra havia abolido os últim os privilégios dos m araj ás. Raj iv lhe explicou que, quando seus estados integraram a União índia, os m araj ás receberam a garantia constitucional de que poderiam conservar seus títulos, suas j óias e seus palácios; de que o Estado lhes pagaria um a som a anual proporcional ao tam anho de seus reinos; e de que os exim iria de pagar im postos e taxas de im portação.

Mas com tantos indianos, e tão pobres, m inha m ãe e seu governo acham que esses privilégios são anacrônicos e estão fora de lugar - continuou dizendo. - O caso é que os m araj ás estão em pé de guerra. A m arani de Jaipur, que é líder local de um partido direitista, deu instruções a seus sim patizantes para acabar com um com ício de m am ãe. Mas ela os encarou. Sabe o que disse a eles? "Vão e perguntem aos m araj ás quantos poços cavaram para o povo quando governavam seus estados, quantas estradas construíram , o que fizeram para lutar contra a escravidão a que os ingleses nos subm etiam !" O resultado é que m am ãe acabou arrasando, com o sem pre.

Indira fizera isso porque precisara dar um a guinada em sua política, ao ver que os am ericanos a haviam deixado na m ão. Para não continuar perdendo apoio em seu partido, havia firm ado um tratado na União Soviética pedindo o final incondicional dos bom bardeios am ericanos sobre o Vietnã. Johnson, furioso, havia atrasado ainda m ais os envios de alim entos. Os pobres m orriam de fom e sem suspeitar que era o preço que seu país pagava para m anter sua independência da potência m ais poderosa do m undo, que os queria usar com o m oeda de troca. Os m araj ás não haviam sido as únicas vítim as dessa virada de orientação política. O program a de Indira deu calafrios nos m ais liberais, nos donos das indústrias, nos hom ens de negócios, nos aristocratas e, enfim , nas elites do país, porque anunciou tam bém a nacionalização dos bancos e das com panhias de seguros. Sônia foi testem unha da euforia do povo diante dessas m edidas. Em pregados e funcionários públicos, taxistas, condutores de riquixás, desem pregados e aqueles que nunca haviam entrado em um a agência bancária dançavam na rua. Foram m edidas populistas e atrevidas que granj earam a Indira um enorm e sucesso político porque o governo tir a va os recursos financeiros dos capitalistas para entregá-los ao povo. Os cam poneses, os pequenos com erciantes e negociantes tam bém estavam contentes porque iam se beneficiar com créditos em m elhores condições nos bancos nacionalizados, e todos os partidos de esquerda alinharam -se firm em ente com Indira.

Nos PRIMEIROS MESES DE 1969, Sonia com eçou a se sentir m al. No início, atribuiu o m al-estar a um a intoxicação alim entar, a algum vírus local, m as o m édico sanou suas dúvidas im ediatam ente. Estava grávida. A notícia encheu de alegria a fam ília. Indira sentiu-se m uito feliz e redobrou os cuidados para com sua nora. Estava eufórica com a idéia de ser avó. As crianças sem pre haviam sido sua fraqueza. Agora, deixava bilhetes do tipo: "Am anhã é navroz (Ano-Novo parse), m as vou sair em turnê logo pela m anhã. Posso ir dar-lhe um beij o agora m esm o?" Indira estava profundam ente agradecida a Sonia pela estabilidade que trazia a sua vida. Não m ais voltava de suas turnês extenuantes ou de longas sessões no Parlam ento para a solidão de um a casa vazia, e sim para um lar com vida. E essa felicidade era alentada por um a notícia que, m ais que nenhum a outra, provocava em Indira um a íntim a e profunda satisfação. Sua nova política agrícola com eçava a dar resultados. A colheita de grãos do ano em curso estava sendo o dobro da habitual graças às abundantes chuvas das últim as m onções. A m aior produção era registrada nos estados do Punj ab, ao norte, o país dos siques, um a com unidade bem organizada e trabalhadora cuj os cam poneses haviam plantado novas variedades de trigo anão desenvolvidas por cientistas indianos a partir de tipos m exicanos. As novas variedades de arroz, algodão e am endoim tam bém haviam m ostrado um resultado espetacular. O aum ento da produção era tão prom issor que augurava que a escassez endêm ica podia se tornar logo coisa do passado. Com o Indira tinha vontade de tirar a espinha Ly ndon Johnson da garganta…

P orém , Sonia não participava dessa euforia. Sua felicidade estava tingida por um sentim ento novo, que não havia sentido antes, e que surgia do m ais profundo de seu ser. Era um m edo atávico, difuso e intenso.

Medo de dar à luz tão longe de sua fam ília, m edo de pegar um a doença rara, um a infecção tropical, m edo de que o bebê nascesse com algum problem a... Tornava a sentir saudade dos seus e até pensou em ir para a Itália ter o bebê, m as não, isso era im possível, porque, com o estar longe de Raj iv em um m om ento assim ? - O que diriam os políticos daqui? Que a nora de Indira não confiava na m edicina indiana (o que era perfeitam ente lógico naquela época)? Que o que era bom para o povo não era bom para a bahu de Indira? Querendo ou não, a política interferia em sua vida privada. Mas Sônia era suficientem ente lúcida para aceitar isso e para entender que as m udanças horm onais de seu corpo estavam brincando com ela, e que seu estado de ânim o m elhoraria com o tem po.

MAS COM CINCO MESES DE GESTAÇÃO continuava com m al-estar constante. Com o se sentia m al fisicam ente, seu m oral tam bém se ressentia. Sanj ay esm erou-se em atenção para com sua cunhada. Quando sabia que seu irm ão estava voando, não saía de casa sem se certificar de que Sônia não o queria acom panhar e dar um a volta, tom ar um sorvete no Nirula's, um dos poucos estabelecim entos parecidos a um a cafeteria ocidental, ou visitar um am igo. Mas Sônia nã o tinha vontade de sair. Preferia ficar em casa, acariciando durante horas os cães Putli e Pepita, dois golden retrievers, os preferidos dos Nehru desde os tem pos de Anand Bhawan, e um filhote cham ado Sona que Raj iv pegou em um beco da Velha Délhi quando era m enino. Quando seu m arido voltava, passavam horas ouvindo m úsica. Raj iv guardava em casa um a boa coleção de discos que havia reunido ao longo dos anos e que tratava com extrem o cuidado. Não queria que ninguém tocasse no equipam ento ou nos discos sem se assegurar antes de que o faria de m aneira tão escrupulosa quanto ele. De vez em quando assistiam a concertos de m úsica clássica indiana, e Sônia aprendeu sobre ragas (m elodia clássica) e ghazals (poem as cantados em urdu) e a distinguir instrum entos com o o sarangi ou a tabla, precursores dos violões e tam bores do Ocidente. Muitas vezes, Raj iv gravava

os recitais de grandes m aestros, com o Ustad Ali Khan ou Ravi Shankar, e a seguir os acrescentava a sua coleção, que classificava m etodicam ente. Mas se j á costum avam sair pouco e não eram fãs de festas, agora que Sônia estava frágil de saúde, m enos ainda. Nunca quiseram fazer parte do j et set de Nova Délhi nem pertencer a nenhum grupo ou turm a.

Raj iv sentia-se bem com am igos de classes sociais m uito díspares, desde um m ecânico do aeroclube até seus antigos colegas de Cam bridge que iam a Délhi com certa freqüência. Sônia, tonta e com náuseas, só concordava em dar um a volta aos dom ingos pela m anhã por Khan Market, onde ficavam as loj as de discos e as livrarias m ais bem sortidas da cidade. Era um a volta curta, que a italiana aproveitava para com prar fruta e tam bém algum produto europeu em um a de suas loj as, freqüentadas por diplom atas. Aos cinco m eses, a suave curvatura de seu ventre, que via com orgulho refletida nas vitrinas, era um prato cheio para os conhecidos com quem costum ava cruzar, porque, em certo sentido, Nova Délhi era com o um a grande vila.

CINCO MESES É UM INTERVALO DE TEMPO no qual se considera que um a gestação j á passou por seu m om ento m ais crítico. No caso de Sônia, não foi assim . No m eio de um a noite de calor, sentiu dores agudas no ventre, e viu que perdia sangue aos borbotões. Eram tão agudas as dores e tão forte a sensação de estar se esvaziando por dentro que pensou que m orreria nesse m esm o instante. Raj iv organizou o transporte ao hospital no carro de sua m ãe. Via Sônia tão pálida e tão desvalida que teve m edo de perdê-la. Depois da transfusão, quando se recuperou, disseram a Sônia que havia perdido m uito sangue, m as que agora, depois de um a pequena intervenção, ia se sentir m elhor. "E o bebê?" perguntou ela, aterrada, porque no fundo sabia o que havia acontecido. O olhar de Raj iv, que baixou os olhos, dizia tudo. Foi o m om ento m ais difícil até esse instante na vida da italiana. Aos cinco m eses de gestação, não considerava ter tido um aborto, e sim perdido um filho. Junto com essa dor profunda vinha um sentim ento de fracasso pessoal. Achava que havia falhado com seu m arido, com Indira, com sua própria fam ília e com o m undo inteiro.

Parecia que estava pagando por toda a felicidade que a vida lhe havia dado, com o se tivesse que expiar o pecado de sua extraordinária história de am or. As explicações m édicas, que garantiam que isso era relativam ente com um em um a prim eira gestação e que não significava que na próxim a tentativa fosse acontecer a m esm a coisa, não a conseguiam tirar de um a profunda m elancolia. Além do m ais, não faltavam com entários dos em pregados sobre o m au augúrio que isso pressagiava, ou o rum or da rua que atribuía a responsabilidade do acontecido a Indira, "porque obrigava sua nora a se m ovim entar e a cam inhar, obcecada com que m antivesse a form a e não engordasse m uito durante a gestação". Em certos grupinhos da cidade, depois de tudo o que havia acontecido com as estatizações e a abolição dos privilégios dos m araj ás, estava na m oda cham ar Indira de m onstro. Com o era de se esperar, a fam ília reagiu unida e todos c e rc a ra m Sônia de atenção e afeto. Indira estava m uito afetada. Isso lhe lem brara um acontecim ento sim ilar, com o nascim ento de seu segundo filho, em 14 de dezem bro de 1946. As dores de parto haviam surgido à noite, de m aneira totalm ente im prevista. Foi levada com urgência a um hospital, onde os m édicos ingleses chegaram a tem er por sua vida porque estava se esvaindo em sangue.

Desde o início, aquele bebê havia sido um problem a. Nehru chegou quando a hem orragia j á estava controlada. De m adrugada nasceu um m enino, que Nehru cham ou de Sanj ay em hom enagem a um sacerdote visionário que descreve no Mahabharata, a grande epopéia do hinduísm o, a grande batalha com o rei cego. Firoz, seu m arido, só apareceu dias depois. Trabalhava na cidade de Lucknow, e Indira acabava de saber que m antinha um a relação am orosa com um a m uçulm ana, de um a proem inente fam ília da cidade. Por isso, a chegada do bebê não havia sido um acontecim ento tão feliz quanto a do prim eiro, Raj iv. E Indira, em seu subconsciente, sentiu-se culpada por isso. Devia pensar que era inj usto e que devia reparar isso. Toda sua vida sentiu que devia algum a coisa a Sanj ay .

POUCO A POUCO, A ITALIANA FOI SAINDO do m ar de tristeza em que m ergulhara, m as não voltou a sorrir enquanto não engravidou de novo, uns m eses depois. Dessa vez, sua ginecologista foi taxativa: nada de cam inhadas nem de esforços. Quanto m ais tem po passasse deitada, m enos risco de outro aborto correria. Decidida, dessa vez, a levar a gestação a bom porto, Sônia se dispôs a passar nove m eses de cam a. Sua inspiração vinha de outra italiana conhecida m undialm ente, Sofia Loren, que acabava de passar pela m esm a coisa, com um final feliz. Era um a experiência difícil, as Sônia a encarou com o um a prova que devia superar. Contava com o apoio de Raj iv, que a m im ava e cuidava dela com grande devoção. Felizm ente, não havia puxado a Firoz, seu pai: era caseiro, afetuoso e de um a fidelidade a toda prova. Continuava tão apaixonado por Sônia quanto no prim eiro dia. Ou m ais, porque agora vivia um sentim ento m ais profundo, esse que nasce da identificação, de ver tudo com os olhos do outro, de um a vida em com um plenam ente assum ida e realizada. Indira estava de novo entusiasm ada e cuidou do enxoval do bebê com toda a riqueza de detalhes. "Você está sem pre se vangloriando das alegrias e do status superior de ser avó", escreveu a sua am iga norte-am ericana Dorothy Norm an dentro de um avião que a levava para o sul da índia para com em orar o quarto centenário da sinagoga da com unidade j udaica de Kerala, "por isso vou lhe revelar um segredo: eu tam bém estou com petindo por esse status. Sônia está esperando um bebê para fim de m aio.

N ã o é em ocionante? E, quando um a nora é de outro continente, há m uitas com plexidades tam bém ." Referia-se ao m edo de Sônia de dar à luz em Délhi, e às novas exigências de sua nora, que surgiam com o um a reação à pressão do entorno. De repente, Sônia declarou que não queria nem babá nem criada para cuidar do bebê, que ela m esm a o faria. Dizer isso era um pouco um a criancice, um a m aneira de se afirm ar dando a entender: "Sou européia, e em m inha esfera privada farei as coisas a m inha m aneira".

Indira e Raj iv assim entenderam , de m odo que não insistiram , certos de que essa intransigência passaria quando o bebê nascesse. A realidade logo cuidaria de pôr as coisas em seu lugar. Seria m uito difícil para Sônia prescindir de aj uda tendo em conta que deveria estar disponível para acom panhar seu m arido ou Indira nos eventos oficiais. Mas, em geral, a alegria de receber um novo m em bro da fam ília com pensava esses leves atritos dom ésticos. Quando Raj iv estava trabalhando, sua m ãe ou seu irm ão procuravam se revezar para fazer com panhia a Sônia durante as refeições. Não queriam que se sentisse sozinha em nenhum m om ento nem que seu ânim o decaísse.

Raj iv agora era copiloto nos turbo-hélices Fokker Friendship da Indian Airlines, aviões de asa alta com capacidade para uns quarenta passageiros, dignos sucessores dos DC-3. Sônia passava m uito tem po com os dois irm ãos, que com partilhavam am igos e interesses com uns, m as Sanj ay era visto cada vez m enos.

Estava obcecado com seu proj eto de construir um "Volkswagen indiano". Com um am igo, havia aberto um a oficina m ecânica na periferia da cidade, e ali, cercado de depósitos de lixo e de esgotos a céu aberto, perseguia seu sonho de tornar-se um "Henry Ford" local, entre peças de m etal e ferros enferruj ados. O proj eto de construir um carro popular produzido para as m assas era discutido havia m ais de dez anos nos gabinetes do governo, e finalm ente tom ou-se a decisão de encarregar o setor privado de sua produção. Até então, só se fabricavam dois m odelos sob licença na índia: os fam osos Am bassador, réplicas do Morris Oxford que serviam de táxis no pós-guerra londrino e que ainda hoj e continuam sendo fabricados nas instalações da Hindustan Motors no estado de Bengala, e os Fiat Padm ini, que se tornariam o m odelo único dos táxis de Bom baim (na Europa, era conhecido com o Fiat 1100). O carro que Sanj ay queria fabricar tinha que ser totalm ente autóctone, seria barato, atingiria a velocidade de 80 km por hora e consum iria cinco litros a cada 100 km . O nom e que havia escolhido era Maruti, em alusão ao filho do deus do vento na m itologia hindu.

Naquela época, Indira não via além de sua própria carreira. Não im aginava um a dinastia fam iliar, com o tam bém seu pai não a havia im aginado. Em diversas entrevistas, repetia que seus filhos não tinham interesse em política e que faria o que estivesse a seu alcance para afastá-los desse m undo. Não m ostrava vontade de passar a "carga" fam iliar. Indira não gostava de m isturar o político e o pessoal. Mas seu filho Sanj ay, em penhado por todos os m eios em levar adiante seu proj eto, ia ultrapassar essa fronteira que a m ãe tinha tanto interesse em preservar. Por que ele não tinha direito de fabricar um carro genuinam ente indiano? - perguntava-se. Não lhe parecia j usto que, pelo fato de ser filho da prim eira-m inistra, esse em preendim ento lhe fosse vetado. Indira estava em um a encruzilhada, dividida entre seu sentim ento de m ãe e seu dever de gove rna nte . Havia pedido a Sanj ay que não apresentasse seu proj eto ao Ministério de Desenvolvim ento Industrial, m as ele havia feito ouvidos m oucos e solicitara form alm ente a licença, a despeito de nem sequer ter term inado sua aprendizagem na Rolls-Roy ce e não ser nenhum hom em de negócios nem um fabricante de carros. De fato, sua história de am or pelos carros havia sido um a fonte constante de dor de cabeça para sua m ãe. Quando adolescente, m ais de um a vez a polícia o havia levado para casa depois de tê-lo descoberto, j unto com um am igo, abandonando carros que haviam furtado de um estacionam ento para dar um a volta. Essas m olecagens de m enino m im ado foram adotando form as diferentes ao crescer. Na Inglaterra, Sanj ay havia provocado vários acidentes sem danos físicos, e várias vezes havia sido preso por ultrapassar o lim ite de velocidade ao volante de seu velho Jaguar ou por não portar carteira de habilitação válida.

Ao contrário de Raj iv, Sanj ay era agressivo em sua m aneira de lutar pelo que acreditava e exerceu um a pressão considerável sobre sua m ãe para que lhe fosse concedida a licença. Indira presidiu a reunião do gabinete na qual o m inistro de Indústria concedeu a Sanj ay um a perm issão para produzir 50 m il autom óveis por ano, inteiram ente com m ateriais autóctones. E isso a despeito de Sanj ay não ter experiência e não poder apresentar resultados de proj etos anteriores. Estava claro que, se não fosse filho da prim eira-m inistra, nunca teriam concedido a licença. Por um a vez, Indira faltou a seu sacrossanto princípio de antepor o dever a seu desej o pessoal, um a e xc e ç ã o que acabaria lhe custando m uito caro. Um escândalo e um protesto geral acom panharam o nascim ento do proj eto de carro nacional. Indira foi acusada na im prensa de praticar o pior tipo de nepotism o. Um deputado da oposição cham ou a concessão de "um a desgraça para a dem ocracia e para o socialism o". Outros falaram de "corrupção sem lim ite". Seus próprios aliados, os com unistas de Bengala, uniram -se ao aluvião de críticas. Indira respondeu de m aneira pouco convincente:

"Me u filho dem onstrou espírito em preendedor... Se não for estim ulado, com o pedir a outros j ovens que assum am riscos?". No fundo, Indira acreditava cegam ente em seu filho e com certeza pensou que o Maruti era um a oportunidade de ouro para que Sanj ay provasse sua valia. Sabia que era j ovem , im aturo, im petuoso, m as j ulgava-o hábil e forte. Achava que aprenderia e que o poderia controlar. Tam bém sabia que isso equivaleria a expô-lo à vida pública. Isso significava que Indira, a despeito de continuar repetindo que não queria que seus filhos entrassem na política, j á via seu filho m ais novo com o digno sucessor da linhagem dos Nehru-Gandhi. Era, talvez, um a m aneira de sentir- se um pouco m enos sozinha no exercício do poder.

Ne ssa luta contra a sensação de solidão que a em bargava desde a m ais tenra infância, o nascim ento de seu neto em 19 de j unho de 1970 encheu-a de j úbilo. Com o em todos os lares da índia, o nascim ento de um filho era um acontecim ento de grande relevância. Raj iv assistiu ao parto, coisa insólita para um hom em na índia de então, e foi com sua câm era na m ão para gravar o prim eiro choro de seu filho, que havia nascido um pouco prem aturo. Sônia estava exausta, m as seu m arido a aj udava m uito, trocava o bebê e o fazia dorm ir entre as m am adas. Com portavam -se com o pais m odernos, m as a índia eterna j á espreitava às portas da casa quando voltaram do hospital e um asceta esperava o bebê para fazer seu m apa astral. O nom e escolhido foi Rahul, proposto por Indira. Ela explicou a Sônia que era o nom e em que havia pensado originalm ente para seu filho prim ogênito, m as no fim pôs Raj iv para agradar a seu pai. Nehru recebera sugestões de nom es na prisão, e escolhera Raj iv porque em sânscrito significava "lótus", o m esm o significado de Kam ala, o nom e de sua m ulher, falecida oito anos antes. Da m esm a m aneira que Indira cedeu ao desej o de seu pai, Sônia cedia ao de Indira e, ao fazer isso, tornava-se um pouco m ais indiana. Rahul era o nom e de um filho de Gautam a Buda, e em sânscrito significava "aquele que é capaz". A fam ília não era religiosa, m as a força do hábito fez com que o m enino fosse recebido com os ritos hindus correspondentes. A cerim ônia do prim eiro corte de cabelo aconteceu três sem anas depois de seu nascim ento, e reuniram -se em casa todos os am igos do casal. Rasparam a cabeça do bebê deixando só um a m echa de cabelo, que, segundo a tradição, protegeria sua m em ória.

Raspá-lo tinha o significado sim bólico de libertá-lo dos restos de suas vidas passadas e prepará-lo para encarar o futuro. Indira estava absolutam ente encantada com o bebê. Procurava voltar para casa entre sessões do Parlam ento só para vê-lo e apertá-lo em seus braços. A m ulher que estava perseguindo com dureza os aristocratas da índia, que acabava de se im por perante o partido para ficar no poder, que expulsava os com panheiros que não haviam votado nela, era um a avó que se derretia por seu neto. "Com o se parece com Raj iv!", dizia, sem que ninguém lhe encontrasse sem elhança algum a ainda. Além do m ais, isso não era nenhum elogio, porque havia contado m il vezes com o Raj iv era feio quando nasceu. Mas essa criatura tocava suas fibras m ais íntim as e a fazia lem brar os tem pos de sua própria m aternidade. Indira havia dado à luz Raj iv em 20 de agosto de 1944, não em um hospital, e sim na casa de sua tia m ais nova, em Bom baim , em condições precárias. Engravidara a despeito de seu histórico de tuberculose, das advertências dos m édicos e da oposição de seu pai a seu casam ento, de m odo que esse nascim ento foi vivido c om o um a verdadeira vitória contra a adversidade. Indira queria a todo custo que Nehru conhecesse seu neto. Ainda faltavam três anos para a independência e ele estava trancado em um a prisão britânica no que seria seu nono e últim o cárcere. Quando soube que iam transferi-lo, Indira foi até as portas da prisão de Naini em Allahabad e, no espaço que havia entre a porta e o furgão, segurou o pequeno Raj iv no colo. "Sob a luz tênue de um poste, m eu pai viu seu neto pela prim eira vez, e ficou olhando para ele o pouco tem po que lhe perm itiram ", contava Indira.

QUANDO SÔNIA SE RECUPEROU, foram para a Itália com o bebê. Sônia havia sonhado com esse m om ento em diversas ocasiões durante sua longa convalescença. O arom a do delicioso café assim que chegou ao aeroporto, o silêncio nos grandes lugares públicos, o frio dilacerante, o conforto e a rapidez dos autom óveis, a água que se podia beber da torneira, os superm ercados que ofereciam de tudo... essas coisas sim ples das quais carecia na índia m aravilhavam -na. Parecia que era a prim eira vez que pisava em sua terra. Foi um m om ento de intensa alegria encontrar-se com os seus, em sua cidade. Fundiu-se em um abraço com seu pai, não se disseram nada, não era necessário. Stefano Maino viu-se de repente com o pequeno Rahul no colo e só im portava o bem - estar do m enino. Esse m om ento não valia todas as penúrias do passado? Sônia parecia se perguntar. Por fim , estava reunida sob o m esm o teto com todos os que povoavam seu coração.

Retornaram logo a Nova Délhi, para sua tranqüila vida fam iliar, m as era um a calm a fictícia porque estava sem pre am eaçada pelos altos e baixos da política. A despeito do m uito que Indira am ava seu neto, quase não o via de tão ocupada que estava. Passava longas horas em seu escritório na South Block e, quando voltava para casa, sem pre estava cansada e com o sem blante preocupado.

O que está acontecendo? - perguntou Raj iv assim que voltou. Dizem que vai haver um golpe de Estado - com entou Sanj ay . Quem disse?

Todo o m undo. Nas festas, nos coquetéis, nos j antares não se fala de outra coisa... Mam ãe sabe, e tem e o pior.

Indira havia feito m uitos inim igos com seus ataques contra a classe rica, que a acusava de querer fazer da índia um país com unista. Havia posto toda a direita contra ela, o sindicato patronal, os proprietários dos m eios de com unicação, os m araj ás e seus descendentes etc, e tem ia, com o boa parte do país, um a reação violenta. Mas não queria fazer da índia um país com unista com o os que havia conhecido em suas viagens, atrás da Cortina de Ferro. Ao contrário, fazia grandes esforços para assegurar às classes ricas que seus interesses não estavam em perigo. Havia com pensado as grandes fam ílias financeiras com generosas indenizações pela nacionalização de seus bancos. A liberdade - individual, coletiva, nacional - era um valor suprem o que não estava disposta a sacrificar no altar do socialism o.

Mas o rum or de que os m ilitares estavam preparando um golpe havia se espalhado com o rastilho de pólvora nas grandes cidades, Bom baim , Délhi e Calcutá. A idéia de que a índia não poderia sobreviver nem com o dem ocracia nem com o país unido estava se firm ando nos setores m ais elitistas da sociedade. As figuras de Nehru e Gandhi com eçavam a ser vistas com o relíquias de um passado idealista que j á pouco tinha a ver com a realidade. Indira, cada vez m ais isolada no cum e do poder, com eçou a se sentir paranóica. E não era para m enos. Perguntavam a m esm a coisa ao general Sam Manekshaw, um parse que era com andante-em -chefe do Exército indiano, aonde quer que fosse: Quando vai tom ar o poder? Ele se abstinha de responder. O que m ais o chocava é que, dentre os que lhe faziam a pergunta, havia m inistros do gabinete de Indira.

Farta de tanto rum or, que havia se infiltrado até em sua própria casa, Indira convocou a seu escritório da South Block o general Manekshaw. Eram velhos am igos; Indira havia sido casada com um parse, e isso sem pre dava fam iliaridade à relação. Sam encontrou-a sentada do outro lado de sua m esa em form a de rim , cotovelos apoiados em cim a da m esa e a cabeça entre as m ãos. Depois de se cum prim entarem , ela lhe disse com voz cansada:- Todos dizem que você vai m e substituir... É verdade, Sam ? O m ilitar ficou petrificado, m as em poucos segundos reagiu:

Continuar: parte 6 de 6