O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 2 de 6 · parte 3/6

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O Sári Vermelho

Ato I - a Deusa Durga Cavalga um Tigre

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

- Meu avô vivia obcecado por m anter a índia unida e laica - explicou Raj iv. - Dizia que a nação só podia sobreviver apoiada nesses dois calores... e acho que ele tinha razão.

Outras fotos m ostravam Nehru com Gandhi, um as sorridentes, obviam ente de acordo, outras sérios e discordando; Nehru com líderes chineses, soviéticos, am ericanos; com cientistas com o Einstein, com escritores com o Thom as Mann e Pearl S. Buck... No fim , Sônia deteve-se longam ente diante das fotos da fam ília reunida em Anand Bhawan, procurando sem elhanças. Raj iv era m ais fino que seu pai, Firoz; tinha a elegância de sua m ãe, pensou. O patriarca Motilal parecia-se com o próprio avô dela, o pai de Stefano, com seu rosto largo de m axilar forte e quadrado e o bigode igualm ente grosso. Não reparou no texto da foto que falava do eterno dilem a dos Nehru entre o dever político e a necessidade pessoal, e que, nesse conflito, o dever sem pre havia triunfado. Em bora Sônia estivesse visivelm ente abalada por tudo o que acabara de ver, não podia m edir o alcance dessas palavras nem im aginar que, um dia, seu significado a perseguiria.

A vida alegre de enam orados na Inglaterra fez um a vítim a: os estudos de Raj iv no Trinity College. Foi reprovado em todas as m atérias do curso. Nunca seria um cientista.

Já havia avisado a sua m ãe que os estudos eram m uito árduos e que os resultados seriam catastróficos. Indira não o censurou; afinal de contas, ela tam bém havia sido reprovada em Oxford, m esm o que em circunstâncias m uito diferentes: nunca tivera um a escolarização norm al, e quando j ovem estava sem pre doente. Dentre os m em bros da fam ília, só Nehru havia dem onstrado um a genuína habilidade acadêm ica. Seu neto Raj iv não era nenhum grande estudioso, nem um grande leitor ou intelectual com o seu avô. Sem pre havia gostado do prático, d a s questões técnicas, entender com o funciona um a m áquina, tentar consertá-la quando se quebra. Era capaz de m ontar seus próprios alto-falantes para ouvir m úsica, ou estripar um rádio para consertá-lo. Era habilidoso com as m ãos, um a qualidade que havia herdado de seu pai.

Raj iv teve que abandonar Cam bridge e m atricular-se no Im perial College de Londres, fazendo cursos m ais técnicos de engenharia m ecânica. Mas j á tinha um a idéia clara do que queria. Havia visto a propaganda da escola de aviação Wiltshire em Thruxton, um a antiga base da RAF perto de Southam pton transform ada em escola de pilotos. Queria aproveitar as férias de verão para com eçar a fazer aulas de voo. Tornar-se piloto tinha um a vantagem agregada à do puro prazer de voar: era a m aneira m ais rápida de conseguir ganhar a vida, requisito indispensável para se casar com Sônia. Muito m ais rápido que um a carreira universitária. Com o não quis pedir dinheiro a sua m ãe, decidiu que trabalharia para pagar as horas de voo e o instrutor até ser aprovado nos prim eiros exam es.

EM JULHO DE 1966, SÔNIA VOLTOU à Itália com o diplom a de Proficiency English da Universidade de Cam bridge em baixo do braço. O carteiro tornou a ser a pessoa que m ais assiduam ente visitava a casa da fam ília da Via Bellini, diante da exasperação do casal Maino, que, a despeito de ter autorizado o encontro com Indira, continuava se opondo ao idílio de sua filha com Raj iv. Ela dizia abertam ente que um dia se casaria com ele. Seus pais tentavam dissuadi-la. Stefano propôs-lhe esperar atingir a m aioridade antes de tom ar qualquer decisão: É só um ano a m ais - acrescentou sua m ãe. - Um a decisão assim não pode ser tom ada às pressas. Depois, você poderia se arrepender pelo resto da vida.

Enquanto estiver sob nossa responsabilidade - prosseguiu seu pai - não posso perm itir que se case com esse rapaz. Tem os certeza de que é um rapaz m aravilhoso, não é isso... m as seria não cum prir m eu dever de pai se lhe dissesse: vam os, vá para a índia, case-se com ele. Você não entende? Espere m ais um pouco.

Era um a proposta razoável, m as o am or entende pouco de razões, aos vinte anos, esperar é um a tortura. As greves dos Correios, tão frequentes na Itália, tornaram -se, esse ano, o m aior inim igo de Sônia. Raj iv continuava escrevendo todos os dias, contando-lhe a felicidade que sentia aprendendo a voar sobre a cam pina inglesa. Voava em um biplano, um iger Moth, um m odelo dos anos 1930, um avião ágil e sensível que lhe proporcionava horas de intenso prazer. A m eta era voar sozinho, e para conseguir isso devia acum ular um m ínim o de quarenta horas com um instrutor. Esse era o requisito indispensável para prestar o exam e de piloto civil e continuar subindo degraus até conseguir ser piloto com ercial.

Raj iv tinha pensado em fazer um a viagem a Orbassano. Queria convencer o pai de Sônia a deixá-la ir para a índia. "Quero que você vá à índia", escreveu-lhe, "e que fique com m inha m ãe, sem m im , para que possa ver as coisas com o realm ente são, e no que se refere a você, em sua pior luz, porque eu não estarei lá e você não terá ninguém em quem confiar. Assim conhecerá o país e as pessoas... Não quero arrastá-la a nada sem que saiba tudo o que isso im plica. Eu m e sentiria responsável se, m ais tarde, algo desse errado e você se sentisse ferida de algum a m aneira - nos sentim entos ou em outra coisa. Não quero ter que pedir contas a ninguém , salvo a m im m esm o, por isso, não quero m entir nem enganá-la.”

A carta m ostrava um a certa altura m oral e Sônia sentiu-se com ovida, m as pessim ista quanto à probabilidade de seu pai aprovar esse plano.Para custear sua viagem à Itália, Raj iv viu-se obrigado a arranj ar m ais dinheiro: "Sinto m uito não ter podido escrever antes, m as arranj ei um em prego de pedreiro em um a obra", dizia em outra carta. "Andei trabalhando até dez horas por dia, m ais hora e m eia para ir e voltar, de m odo que, ao chegar em casa, estava m orto.

Tenho tantas cãibras que só consigo escrever m uito devagar". Eram cartas cheias de carinho, de ilusão quanto ao futuro, m as as últim as revelavam um grande tem or. Raj iv estava preocupado com as notícias que chegavam da índia. O prim eiro-m inistro havia m orrido de um ataque cardíaco enquanto fazia um a visita oficial à União Soviética para assinar um tratado de paz com o Paquistão depois de um a curta guerra. "A índia vive um a situação m uito agitada, m uito ruim ..." escreveu a Sônia. "Tenho o pressentim ento de que m uita gente vai querer que m inha m ãe sej a prim eira- m inistra.” Espero que ela não aceite, isso a acabará m atando." RAJIV TINHA RAZÃO. A cam arilha que controlava o Partido do Congresso queria sua m ãe com o prim eira-m inistra: "Ela conhece todos os líderes m undiais, percorreu o m undo com o pai, foi criada ao lado dos heróis da luta pela independência, tem um a m ente racional e m oderna e não se identifica com nenhum a casta, estado ou religião.

Mas, acim a de tudo, pode nos fazer ganhar as eleições de 1967", escreveu um chefe do partido. Havia outra razão, m ais poderosa ainda: eles a queriam nesse cargo porque a j ulgavam fraca e achavam que era m aleável. Os velhos m andachuvas do partido tinham certeza de que poderiam continuar nos postos-chave, desfrutando do privilégio de tom ar decisões sem a responsabilidade de tom á-las. O m elhor dos m undos. Na realidade, não conheciam Indira Gandhi. Em seus 48 anos, nem ela m esm a se conhecia ainda.

Na véspera de sua eleição com o chefe do governo, a m áxim a autoridade do segundo país m ais populoso do m undo, Indira havia escrito um a carta a Raj iv dizendo que não conseguia tirar da cabeça um poem a de Robert Frost que resum ia bem a encruzilhada em que se encontrava: Com o é difícil não ser rei quando está em ti e na situação". Tam bém contava na carta que ao am anhecer desse dia visitara o m ausoléu do Mahatm a iandhi para im pregnar-se da m em ória de quem havia sido seu segundo pai. A seguir, foi a Teen Murti House, agora m useu nacional, e ficou um longo tem po no quarto onde Nehru havia m orrido. Precisava sentir sua presença. Recordou um a de suas cartas de quando ela tinha quinze anos: Sej a valente, e o resto virá sozinho". Bem , o resto havia chegado. Abriria porta de um a nova existência, um a vida para a qual, no fundo, sem pre estivera se preparando, m esm o que não adm itisse conscientem ente.

Depois da m orte do pai, havia sonhado em retirar-se do m undo, pensou nisso durante algum tem po, até em alugar um apartam entinho em Londres e procurar um em prego ali, do que quer que fosse, talvez de secretária em algum a instituição cultural. Fugir de si m esm a, isso era o que buscava. Mas logo a realidade a alcançou, e não pôde continuar sonhando com sua própria liberdade. Tinha que resolver problem as concretos. Havia ficado sem casa, e de sêu pai havia herdado seus obj etos pessoais e seus direitos autorais, pouca coisa. Nehru consum ira seu capital porque seu salário de prim eiro-m inistro não era suficiente para suas despesas de representação, e ele não era daqueles que põe a m ão nos cofres do Estado. É verdade que Indira herdou a antiga m a nsã o de Anand Bhawan em Allahabad, m as im plicava tantos gastos que m antê-la representava um a carga significativa. Além do m ais, tinha dois filhos estudando na Inglaterra. Com o bancar tudo isso? Retirando-se do m undo? Percebeu que era um a quim era, um capricho. Sua vida estivera dom inada pela política tem po dem ais para poder se afastar tão j ovem , todos os dias ia gente vê-la, gente de toda classe e condição, com o faziam quando seu pai era vivo. As m esm as m ultidões que se congregavam em Téen Murti House agora iam vê-la.

Iam cum prim entá-la, expor suas queixas, para que ela as ouvisse, dissesse um as frases, m ostrasse interesse por suas aflições. Eram os pobres de sem pre, os pobres da índia eterna e antiga, os m esm os pobres em nom e dos quais Gandhi e seu pai haviam lutado. Indira não os ia deixar na m ão; teria sido insultar a m em ória de Nehru. Ao contrário, recebeu-os e ouviu com atenção o que queriam lhe dizer. Foram eles quem realm ente consolaram seu coração ferido. Deles foi tirando forças para seguir em frente, para encontrar um sentido para sua vida. Aqueles pobres fizeram -na perceber que o que havia realm ente herdado era o poder de seu pai.

Sentia a presença de Nehru tam bém ao entrar no edifício do Parlam ento, no centro aj ardinado de Nova Délhi, um gigantesco edifício circular de arenito verm elho e bege com um a varanda cheia de colunas. Dentro, sob um a cúpula de 30 m de altura, os representantes do povo a escolheram , por 355 votos contra 169. Seu partido votou em m assa nela. Em seu breve discurso, agradeceu. "Espero não trair a confiança que depositaram em m im ." Ela estava radiante, m uito ciente de que seu encontro com o destino havia chegado. Ia tom ar posse dessa "longa extensão de hum anidade indiana", segundo a descrição de Nehru.

A residência que lhe foi designada ficava no m esm o bairro de Nova Délhi que a antiga m ansão palaciana. O núm ero 1 de Safdarj ung Road era um a típica vila colonial com paredes pintadas de branco, cercada por um bom j ardim , com quatro quartos, dos quais dois transform ou em escritório e um em sala de recepção. Deixou claro que todos os dias, entre as oito e as nove da m anhã, a casa estaria aberta a todos, não im portava a posição nem o status social. Era o m esm o horário que Nehru havia dedicado à m esm a tarefa.

INDIRA EXPLICOU A RAJIV AS RAZÕES que a haviam levado a aceitar a candidatura. Nos m eses que passara à frente do m inistério da Inform ação, fora arrastada a enfrentar um a crise nacional grave que não era da j urisdição de seu m inistério. A crise a pegou de férias em Caxem ira, a belíssim a região de onde os Nehru eram oriundos. Assim que chegou, soube que tropas paquistanesas, disfarçadas de voluntários civis, pretendiam tom ar a capital, Srinagar, para fom entar um a revolta pró-paquistanesa na população. Indira desobedeceu à ordem do prim eiro-m inistro de voltar im ediatam ente a Délhi. Não só perm aneceu em Caxem ira com o voou para a frente de batalha quando explodiram as hostilidades. "Não darem os um centím etro de nosso território ao agressor", proclam ou em um a turnê pelas cidades do norte. A im prensa elogiou seu gesto: "Indira é o único hom em DE um governo de velhas", rezou um a m anchete. Os correspondentes que seguiam estavam im pressionados de ver com o Indira era recebida em todos os lugares por enorm es m ultidões que gritavam seu entusiasm o.

O exército paquistanês foi derrotado. A índia, e Indira, saíram vitoriosos, dando lugar à idéia que m ais tarde tom aria conta da im aginação popular: índia é Indira; Indira é a índia".

Tudo isso acontecia enquanto, a 8 m il quilôm etros dali, Raj iv aprendia a controlar seu Tiger Moth no céu da Inglaterra."... Se m inha m ãe não se candidatar a prim eira-m inistra, tudo o que conseguim os desde a independência se perderá", disse ele a Sônia em um a carta que parecia contradizer as anteriores. É que Raj iv vivia a sua m aneira o conflito de sua m ãe, que era o de toda a fam ília, oscilando entre o dever para com a nação, para com a herança de seu pai e avô, e as exigências da vida pessoal.

Quando Raj iv soube que sua m ãe havia sido eleita prim eira-m inistra, a carta que chegou a Sônia destilava a angústia que essa nova situação lhe criava: "Se algo acontecer com m inha m ãe, não saberei o que fazer. Você não pode im aginar quanto dependo dela, de sua aj uda em qualquer situação, especialm ente com você. Será m uito m ais difícil para você que para m im . Para você, tudo será novo, e ela é a única que a pode realm ente aj udar. Não sei que faria se viesse a perdê-la.”

A foto de sua m ãe saiu nas prim eiras páginas da im prensa m undial, em um a banca de j ornal de Thruxton, o povoado próxim o à base aérea, Raj iv com prou um exem plar do j ornal The Guardian: "Nenhum a outra m ulher na história assum iu tam anha responsabilidade e nenhum país im portância da índia entregou o poder a um a m ulher em condições dem ocráticas", dizia o texto.

A foto de sua m ãe tam bém ocupava a capa da revista Tim e: "A índia agitada nas m ãos de um a m ulher", rezava a m anchete. Mesm o que ela proclam asse que não era fem inista, o m undo inteiro tinha curiosidade de saber com o um a m ulher com pouca experiência em assuntos adm inistrativos ia enfrentar a im ensidão de problem as que a esperavam . Tão im ensos quanto a n a ç ã o que devia governar, com posta por um com plexo m osaico de povoados que com partilhavam raças, religiões, idiom as e culturas de um a enorm e diversidade. Um país de m aioria hindu, m as com m ais de 100 m ilhões de m uçulm anos que o transform avam no segundo país islâm ico do planeta. Sem contar os 10 m ilhões de cristãos, 7 m ilhões de siques, 200 m il parses e 35 m il j udeus, cuj os antepassados haviam fugido da Babilônia depois da destruição do tem plo de Salom ão. Um território onde conviviam 4635 com unidades diferentes, cada qual arrastando suas próprias tradições, e línguas tão antigas quanto diversas, com o o urdu dos m uçulm anos, que se escrevia da direita para a esquerda, ou o híndi, que se escrevia da esquerda para a direita; com o o alfabeto latino, ou o tâm il, que se lia às vezes de cim a para baixo, ou outros alfabetos que se decifravam com o hieróglifos. Nessa babel eram usados 845 dialetos e dezessete línguas oficiais. Mas o inglês, a língua dos colonizadores, continuava sendo o idiom a com um de pois de a im posição do híndi ser rej eitada pelos estados do sul. Um país que arrastava desigualdades aflitivas, com um a corrupção bem incrustada em todas as esferas da sociedade e um a burocracia paralisante. Um país conhecido por suas altas conquistas espirituais e, ao m esm o tem po, por seus nefastos indicadores de bem -estar m aterial, um país onde o hom em era m ais fértil que a terra que lavrava, um país constantem ente flagelado por calam idades naturais, e, no entanto, devoto de 330 m ilhões de divindades. Talvez a m aior conquista dessa nação forj ada por Nehru e Gandhi sej a que continuava sendo livre a despeito do rosário de m aldições e de terríveis problem as herdados dos colonizadores britânicos. A despeito do que profetizara um general inglês no m om ento da independência: "Ninguém pode forj ar um a nação em um continente de tantas nações".

Mas esse país continente que sua m ãe devia governar estava pior do que j am ais estivera sob Nehru ou seu sucessor. Vários anos de secas haviam provocado escassez de alim entos e desencadearam fom e persistente. O estado de Kerala estava sendo sacudido por violentos distúrbios relacionados com a distribuição de com ida. A econom ia era vítim a de um a inflação galopante. A região de Punj ab estava agitada porque exigia um estado de exclusiva fala panj abi; um líder sique am eaçava im olar-se se seu pedido não fosse atendido. O povo naga, do nordeste, lutava pela secessão. E, para encerrar, os ascetas hindus m anifestavam -se nus, com corpo coberto de cinza, em frente ao Parlam ento, debaixo do nariz de ndira, para exigir a proibição de m atar vacas em todo o território.

Um a reclam ação que ia contra a Constituição aconfessional da índia, que se obrigava a respeitar os direitos e a igualdade de todas as religiões. Em um país tão pobre, a carne de vaca era um a fonte essencial de proteínas para as m inorias com o os m uçulm anos ou os cristãos. Os protestos degeneraram , houve m ortos quando a polícia atirou contra os agitadores.

" N ã o vou m e deixar intim idar pelos salvadores de vacas", declarou Indira desafiadora. Decididam ente, a índia não se parecia com nenhum outro país. Em 1966, era um a gigantesca panela de pressão prestes a explodir, com o se a idependência houvesse dado base ao estouro de m ilhões de pequenas rebeliões, fruto de séculos e séculos de exploração de um as m inorias por outras, de um as castas por outras, de um as etnias por outras... As autoridades do Congresso não haviam feito nenhum favor a Indira levando-a o poder.

Para Indira havia um a clara prioridade, a m esm a que seu pai ou Gandhi teriam identificado: acabar com a fom e, evitar a m orte dos m ais pobres. Se para isso precisava solicitar aj uda aos organism os internacionais e dos países m ais ricos, teria que engolir o orgulho e fazê-lo. Vinte anos depois da independência, a índia, m uito a seu pesar, atingia o pouco invej ável status de m endigo internacional. Indira estava envergonhada de ter que pedir, m as sabia que não existia outra opção. Porém , estava decidida a não suplicar nada: "Quanto m ais fraca for nossa posição, m ais fortes devem os parecer".

Aceitou im ediatam ente o convite do presidente Johnson para ir a Washington e preparou m eticulosam ente a viagem , de cuj o resultado dependeriam as vidas de m ilhões de com patriotas, e talvez seu futuro político. Elaborou detalhadam ente seus discursos e corrigiu-os consultando seu livrinho de citações, que sem pre a acom panhava. Procurava idéias sim ples e fugia dos conceitos com plicados. Escolheu sua roupa com m esm o cuidado com que preparava suas alocuções: um sári, um sutiã, um xale e um par de sapatos para cada recepção. Para coroar tudo, quis ir acom panhada de seus dois filhos. Raj iv teve que interrom per suas aulas de vôo e ir para Paris encontrar sua m ãe. Ali, depois de o general De Gaulle ferecer um alm oço em sua hom enagem , em barcaram em um Boeing 707 que a Casa Branca havia posto a sua disposição. Quando perguntaram a De Gaulle o que havia achado de Indira, o velho estadista disse: "Esses om bros tão frágeis sobre os quais descansa o gigantesco destino da índia... não parecem se encolher com tanto peso. Essa m ulher tem algum a coisa dentro, e vai conseguir".

EM WASHINGTON, B. K. NEHRU, prim o de Indira e em baixador nos Estados Unidos, recebeu um a ligação telefônica bem cedo. Era do presidente Ly n-don B. Johnson, um gigante oriundo do Texas: Acabo de ler no The New York Tim es que a Indira não gosta de ser cham ada de "Senhora prim eira-m inistra"... Com o tenho que m e dirigir a ela?

Deixe-m e consultá-la, presidente. Torno a ligar assim que tiver instruções pertinentes. A seguir, precipitou-se à suíte de Indira.

Que m e cham e com o quiser... - disse ela e, antes de seu prim o sair, acrescentou. Tam bém pode lhe dizer que alguns de m eus m inistros m e cham am de Sir. Se lhe apetece, pode m e cham ar assim .

O presidente Johnson sucum biu aos encantos de Indira. Desbloqueou a aj uda norte-am ericana, que havia sido interrom pida depois da rápida guerra com o Paquistão, e m andou o Banco Mundial em prestar dinheiro à índia. O único ponto de desacordo durante a visita foi quando Johnson quis tirá-la para dançar depois do banquete oficial.

Indira se negou, não queria nem pensar na reação da im prensa indiana diante de um a foto da "socialista filha de Nehru dançando coberta de j óias com o presidente gringo". Explicou a Johnson que isso poderia torná-la m uito im popular, e ele entendeu. "Não quero que nada de ruim aconteça com essa garota", disse a seu chefe de gabinete com seu forte sotaque texano que o fazia parecer perm anentem ente gripado, antes de prom eter a Indira 3 m ilhões de toneladas de alim entos e 9 m ilhões de dólares de aj uda im ediata. Aquela viagem foi o prim eiro grande sucesso da nova prim eira-m inistra, m as Indira confessou a um de seus hom ens de confiança: "Espero não m e encontrar nunca m ais em um a situação com o esta".

SONI A VIVIA TUDO isso À DISTÂNCIA, com certa apreensão, porque eram m udanças espetaculares e m uito divulgadas. A m ídia italiana divulgou am plam ente a notícia do acesso de Indira Gandhi ao poder, e o casal Maino pôde ver em sua televisão, na sala da Via Bellini, o rosto da m ãe do pretendente de sua filha com toda riqueza de detalhes. Mas o fato de que agora fosse prim eira-m inistra não parecia am olecê-los. Ao contrário, Estefano viu as orelhas do lobo. Para ele, isso aum entava o risco, tornava coisa ainda m ais absurda. Tudo que cercava essa m ulher corria perigo, tinha isso m uito claro em m ente. Não haviam m atado o próprio Gandhi? Esses países eram m uito im previsíveis... Paola, porém , não podia disfarçar sua satisfação. Sua filha não havia se apaixonado por um qualquer. De algum a m aneira, Sônia havia retirado deles a pecha de paesani, "enobrecera-os", m as nem por isso estava disposta a que essa história de am or prosperasse. Ela tam bém não a queria perder.

RAJIV VOLTOU SATISFEITO de sua viagem aos Estados Unidos, m as ela havia sido m uito curta e saturada de atos oficiais dem ais para aproveitá-la com o teria gostado. Desde m enino, a política sem pre havia significado o m esm o para ele: interm ináveis sessões de fotos com sua m ãe, ter que ouvir durante longos j antares conversas chatas, ser sem pre m uito educado, usar gravata, dizer sim a tudo etc. Tinha cada vez m ais certeza de que o que queria era um a vida afastada de todo esse m ovim ento, um a vida discreta tranqüila ao lado da m ulher que tirava seu sono. Ele tam bém queria fugir de si m esm o, de suas raízes, do peso da tradição fam iliar que, intuía, odia esm agá-lo um dia. Confiava secretam ente que o destino que seus sobrenom es traçavam nunca o alcançaria.

EM OUTUBRO DE 1966, pediu o carro em prestado a seu irm ão para ir ver Sonia; o velho fusca havia se deteriorado tanto que o vendera por quatro libras. Além do m ais, o carro de Sanj ay era m ais apropriado para um a viagem tão longa. Era um Jaguar antigo, um m odelo que seu irm ão havia adiquirido graças a seus contatos na Rolls-Roy ce a um preço excepcional porque não funcionava. Sanj ay consertara-o pacientem ente até conseguir fazê-lo funcionar de novo. Ao contrário de seu irm ão, Raj iv não gostava de ostentar, e entrar com esse carro em Orbassano lhe causava até vergonha; m as, por outro lado, pensou que m ais valia apresentar-se assim , com o alguém abastado, e não com o um m ochileiro. Desse m odo, teria m ais possibilidades de im pressionar favoravelm ente os pais de Sônia.

Ela estava ansiosa com sua chegada; fazia m eses que não o via, e a espera se tornava eterna. Suas irm ãs e am igas tam bém estavam nervosas. Não era todos os dias que chegava a essa cidade–dorm itório da periferia de Turim um príncipe indiano disposto a levar sua gata borralheira... A curiosidade era enorm e, inclusive dos pais dela, que o haviam convidado a j antar nesse m esm o dia, m as todos fingiam que nada estava acontecendo.

A CHEGADA DE RAJIV EM SEU JAGUAR foi um a verdadeira com oção na vizinhança. Quem seria esse inglês rico que vinha ver a filha dos Maino? - perguntavam -se entre m urm úrios. O desconcerto era ainda m aior porque seu aspecto não com binava com o carro. "Parece siciliano", brincava um colega de Sônia. "Com esse carrão, podia ser um terrone da Cam orra", com entou outro. Raj iv chegava desalinhado, com barba de vários dias, porque havia dorm ido no carro para econom izar quartos de hotel. Sônia não sabia se era o cansaço ou a perspectiva do j antar, ou os recentes acontecim entos que haviam catapultado sua m ãe ao cenário internacional, m as sentiu-o preocupado quando finalm ente pôde abraçá-lo, em um a rua sem graça de Orbassano onde haviam m arcado de se encontrar na m anhã de sua chegada.

-Vou ter que voltar para a índia - confessou-lhe assim que a paixão do reencontro se acalm ou. Então, seu brevê de piloto...?

-Vou tirá-lo lá. De qualquer m aneira, não tenho dinheiro para tirá-lo na Inglaterra. O que m e preocupa em tudo isso é estar tão longe de você. Havia outra razão: sua m ãe havia lhe pedido que voltasse.

Ela está m uito sozinha. Tem problem as enorm es - confessou a Sônia. Explicou a ela que, assim que voltara dos Estados Unidos, a oposição a atacara com sanha, acusando-a de ter caído sob a influência dos am ericanos e de abandonar a política de não alinham ento de seu pai... E não só A oposição; os que a haviam escolhido para o cargo de prim eira-m inistra, os chefes de seu próprio partido, tam bém . Estavam incom odados com a m aneira com o Indira encarava os problem as, diretam ente, ignorando a hierarquia do partido, com o no caso da escaram uça paquistanesa.

Um velho colega de Nehru havia feito um a dura diatribe contra Indira no Parlam ento, questionando não tanto a aj uda quanto as condições que os am ericanos haviam im posto para entregá-la. Entre elas estava a de desvalorização da rupia, um a m edida m uito im popular que Indira tom ou a despeito de todo o país ser contra, m ostrando, assim , que não era um a im itação de seu pai, que era capaz de adm inistrar um am argo rem édio à nação se acreditasse realm ente nisso, e que não devia nada a ninguém . Mas o resultado é que estava em seu ponto m ais baixo, enquanto as previsões sobre o futuro da índia se tornavam cada vez m ais som brias. Prevalecia a idéia de que som ente a personalidade e o exem plo de Nehru haviam conseguido m anter a índia unida e dem ocrática, m as que agora, com as secas sucessivas, as incontáveis e pequenas rebeliões étnicas, a tensão com o Paquistão e a liderança de Indira, o país estava à beira da desintegração.

E culpam m inha m ãe por isso - disse Raj iv. - Com o se ela fosse responsável por três anos de seca e por as pessoas m orrerem de fom e... O caso é que tenho a im pressão de que a estou abandonando, e não gosto disso.

Ouvir Raj iv falar de sua m ãe representava, para Sônia, sua peculiar iniciação à política indiana. Não tinha consciência disso, m as entrava em contato com conceitos e idéias que sem pre lhe haviam parecido m uito distantes e incom preensíveis, e que logo se tornariam algo tão fam iliar quanto em sua casa era com entar os resultados da Juventus ou a passarela a m oda de Milão. Com eçava a perceber que não se podia viver perto de alguém com o a m ãe de Raj iv sem que isso afetasse a vida de todos os que a cercavam , ela inclusive. Mas isso ainda era algo m uito nebuloso e distante para alterá-la. Cada batalha a seu tem po. A de agora era vencer a resistência de seus pais.

Sônia acom panhou Raj iv até a casa de um am igo que se ofereceu para hospedá-lo, e depois lhe m ostrou sua aldeia. Tom aram capuccini no bar do Nino, cam inharam pelas ruas do centro e pararam no bar de Pier Luigi. Além de tocar seu estabelecim ento com ercial, Pier Luigi era um raddioam ador em suas horas livres, um hobby ao qual Raj iv tam bém queria se dedicar. Ele o havia descoberto em seus estudos de voo e, além da atração pela m agia da eletrônica, tam bém via nisso um a m aneira de se com unicar com Sônia à distância.

O desespero de estar um dia tão longe dela o fazia sonhar com qualquer possibilidade de vencer essa distância. Sônia o deixou para que pudesse descansar e ficou de pegá-lo à noite para levá-lo a j antar na casa de seus pais. Enquanto isso, iria ao encontro anual de ex-alunas em seu colégio de Giaveno. "Lem bro-m e desse dia com o se fosse ontem ", diria a irm ã Giovanna Negri. Sônia tinha vinte anos. Depois da reunião de ex-alunas do colégio, Sônia anunciou que estava indo em bora.

Por que não fica para j antar conosco? - perguntou. Você ficou m uito tem po na Inglaterra e quase não a vim os. Não posso ficar - respondeu Sônia. - Tenho um convidado que vem j antar esta noite em m inha casa.

E quem é? - perguntou irm ã Giovanna divertida. Sônia sorriu, deixando ver as covinhas de suas faces. No final, soltou: Meu nam orado.

Seu nam orado? Mas que surpresa! Conte-m e... Quem é? Sônia se m ostrava reticente a responder, o que atiçou ainda m ais a curiosidade da freira. É indiano... - disse com reticência.

Indiano? - repetiu assom brada.

Sônia levou um dedo aos lábios para que baixasse a voz. Depois, disse quase com o um suspiro: É o filho de Indira Gandhi.

"Eu fiquei pasm a", lem braria a irm ã Negri anos depois.

AQUELE JANTAR FOI UM POUCO a versão italiana do célebre film e estrelado por Katharine Hepburn e Sidney Poitier. Só que não era ficção e não houve final feliz, em bora as reações de Stefano Maino e de Spencer Tracy fossem iguais. Raj iv falou de seus estudos. Havia acabado de tirar o brevê de piloto particular, e pensava que em um ano e m eio conseguiria o de piloto com ercial. Queria com eçar a trabalhar o antes possível. Tinha um a poderosa razão para isso: Vim com um propósito m uito sério - disse a Stefano Maino. - Vim lhe dizer que quero m e casar com sua filha.

Sônia não sabia onde se enfiar, porque tinha que traduzir. Sua m ãe, nervosa, com eçou a colocar bebidas em cim a da m esinha de centro. Suas m ãos trem iam . O patriarca m anteve-se cordial, m as firm e:

Não tenho a m enor dúvida de sua sinceridade e honradez - respondeu olhando para Sônia para pedir-lhe que continuasse traduzindo. - Basta olhar em seus olhos para ver com o é. Não duvido de você. Todas as m inhas dúvidas têm a ver com m inha filha. Ela é m uito j ovem para saber o que quer... - Sônia olhava para o teto, exasperada.

Não creio que possa se acostum ar a viver na índia, francam ente. São costum es m uito diferentes. Raj iv sugeriu que Sônia fosse passar um as curtas férias na índia, explicou sua idéia de que prim eiro fosse sozinha, antes que ele chegasse, para que assim pudesse j ulgar por si m esm a. Mas Stefano opôs-se categoricam ente.

Enquanto não atingir a m aioridade, não posso deixar que vá. Ele era um osso duro de roer, Sônia sabia, m as não podia perm itir que o am biente da reunião se degradasse. Os silêncios de seu pai podiam ser cortados com um a faca. Esse hom em era um a rocha, e fez só um a concessão m ínim a:

Se, então, continuarem sentindo o m esm o um pelo outro, eu a deixarei ir à índia, m as isso daqui a um ano, quando for m aior de idade - disse antes de se voltar para sua m ulher e acrescentar: - Se o negócio não der certo, não poderá m e censurar por ter contribuído para estragar sua vida. Mas Stefano continuava acreditando, e esperando de todo coração que as águas voltassem a seu curso e que Sônia, diante das dificuldades que fósse encontrando, acabasse j ogando a toalha. A idéia de separar-se de sua filha o atorm entava.

Quando Raj iv contou a sua m ãe seu encontro com os Maino em Orbassano, Indira m ostrou-se de acordo com a condição im posta pelo patriarca italiano. Pôr à prova os sentim entos dos j ovens era a única m aneira de saber se essa história tinha futuro. Precisavam ganhar tem po; no fundo, ela tam bém teria preferido que Raj iv não escolhesse um a estrangeira. Mas, se o tem po m ostrasse que am bos se am avam , Indira não pretendia se opor à decisão de seu filho. Havia sofrido m uito com o repúdio do próprio pai a seu casam ento e não faria o m esm o com nenhum dos filhos.

"O casam ento não é tudo. A vida é algo m uito m aior", dissera Nehru quando ela o fora ver na prisão de Dehra Dun para lhe dizer que queria se casar com Firoz. Nehru aconselhara-a a recuperar suas forças antes de tom ar qualquer decisão. Estivera m uito doente, e seu pai lhe recordara que os m édicos haviam desaconselhado que tivesse filhos. Além do m ais, o desej o de Indir a lhe parecia um a trivialidade, porque significava j ogar fora "a herança e a tradição fam iliar" para casar-se com um hom em de um am biente e de um a educação m uito diferentes dos seus. Indira não estava de acordo, pelo m enos nesse m om ento. Dissera que queria um a vida anônim a e livre de tensões, coisa que nunca tivera. Queria se casar e ter filhos. Mais de um , enfatizou, porque não queria que seu filho sofresse a solidão que ela havia conhecido.

Queria cuidar deles e de seu m arido em um a casa cheia de livros, de m úsica e de am igos. Se para alcançar esse sonho tivesse que desafiar os m édicos e até sua própria saúde, estava disposta a isso.

Firoz era filho de um parse cham ado Jehangir Ghandy, cuj a biografia oficial diz ter sido engenheiro naval, m as outras fontes garantem que era um vendedor de licor, sem relação algum a com Gandhi. No final dos anos 930, m udou a ortografia de seu nom e para Gandhi, sobrenom e de um a casta de perfum istas, com um nas castas Bania dos hindus de Guj arat, de onde o Mahatm a era oriundo. Não ficou registrada a razão dessa pequena m udança, que acabou sendo de valor inestim ável para a futura carreira política de sua m ulher.

Seguidora de Zaratustra, a religião parse é um a das m ais antigas da hum anidade, m as Firoz nunca foi religioso, ao contrário. Havia entrado em contato com os Nehru depois do m ovim ento de luta contra os ingleses que o levou a se tornar m em bro do Partido do Congresso. Militante m uito ativo, m uito radical, conhecia os textos de Marx e Engels m elhor que o próprio Nehru. Juntos, haviam participado, na França, de um com ício de protesto contra o bom bardeam ento da população civil na guerra da Espanha. Firoz havia tentado convencer os organizadores anticom unistas do ato a deixarem Là Pasionaria falar, m as não conseguiu. Nehru, furioso, fez um discurso inflam ado, defendendo ardentem ente o direito à liberdade de expressão. Nehru não questionava Firoz com o m ilitante, m as achava que não era um bom partido para sua filha. Os dois hom ens eram opostos em tudo. Firoz era baixinho e quadrado, um pouco fanfarrão, falava em voz m uito alta e usava palavrões a torto e a direito. Não era refinado nem intelectual. Gostava da boa m esa e do álcool e se interessava por carros e gadgets elétricos e m ecânicos, paixões que Raj iv e Sanj ay herdariam . Havia sido um péssim o estudante, m as gostava de m úsica clássica indiana e de flores, com o Indira. Mas sem diplom a universitário, nem profissão, nem perspectiva de ganhar a vida, com um a sólida reputação de m ulherengo, era lógico que os Nehru vissem esse j oão-ninguém que pretendia entrar na prim eira fam ília da índia com grande receio.

Você foi criada em Anand Bhawan, cercada de luxo e de criados - dissera sua avó a Indira em um a tentativa de pressioná-la. - Firoz não tem fortuna, é de outro am biente e de outra religião. A religião não nos im porta, porque nenhum dos dois é religioso - respondera Indira. - Sou austera com o m inha m ãe, e m esm o que tenha vivido em Anand Bhawan, posso ser igualm ente feliz na choça de um cam ponês.

Mais ou m enos o m esm o dizia Sônia a seus pais quando eles evocavam a dificuldade de m orar tão longe, em um país tão diferente. Para Sônia, a índia era um a abstração. Não a assustava em absoluto, a despeito de tudo o que havia ouvido. Se Raj iv fosse um esquim ó, teria dado na m esm a acom panhá-lo ao Polo Norte. "Quando estam os apaixonados", escreveu, "o am or nos dá um a força m uito poderosa. Arm ados com essa força, nada dá m edo. Só querem os a pessoa que am am os. Eu só queria Raj iv. Teria ido ao fim do m undo com ele. Ele era m inha m aior segurança. Eu não podia pensar em nada nem em ninguém . Só nele."

SE NEHRU ACABOU DANDO SEU consentim ento ao casam ento de Indira com Firoz, Indira cedeu ao pedido de seu filho quando este lhe pediu que escrevesse ao pai de Sônia para que a deixasse ir à índia. Havia se passado um ano, o prazo im posto por Stefano Maino, e a paixão dos j ovens não dava sinais de esfriar. Nem Sônia nem Raj iv estavam dispostos a viver um sem o outro; a separação tornava-se m uito dolorosa. Indira entendeu que a coisa era séria. Na realidade, teria preferido seguir o cam inho tradicional, escolher um a filha de boa fam ília da Caxem ira para casá-la com seu filho, com o m anda a tradição, com o fez seu avô Motilal escolhendo Kam ala, sua m ãe.

Os "casam entos arranj ados" eram o com um , e os love m arriages, casam entos por am or, as exceções. Os prim eiros costum avam funcionar m elhor; a taxa de divórcios nesse tipo de união é assom brosam ente baixa, porque os pais procuram candidatos para seus rebentos em m eios sociais e culturais afins, o que por si só constitui um a vantagem na hora da convivência. Os segundos eram um a loteria. Indira não tivera sorte. Talvez Raj iv tivesse, m esm o que arrastasse o handicap de sua nam orada ser estrangeira. Na sociedade tradicional, os estrangeiros nem sequer m ereciam um lugar, eram considerados "sem casta". Nova Délhi não era a índia profunda, m as ainda assim Indira tinha perfeita ciência de quão difícil podia ser para um a garota ocidental adaptar-se à vida em seu país; m as ela estava disposta a torná-lo o m ais agradável possível, porque gostara da garota.

A carta de Indira Gandhi convidando Sônia a passar um as férias em Nova Délhi foi um desgosto para Stefano Maino, m as ele era um hom em de palavra e não teve m ais rem édio senão cum prir seu com prom isso. Discutiram o assunto em fam ília e, com o não havia escapatória, concordaram que Sônia iria para a índia, m as só por um m ês, e depois voltaria para casa, definitivam ente convencida de que nunca poderia viver ali, pensavam seus pais. Aqui não tinha só os seus, m as tam bém um futuro. Trabalhara o ano todo na Fieratorino, e tinha cada vez m ais oportunidades de ganhar a vida com os idiom as que havia aprendido. Se não gostava de Orbassano porque lhe parecia pequena e suburbana, sem pre poderia ir m orar em Turim . Seus pais ainda sonhavam que algum hom em de negócios a conheceria em um a dessas feiras e acabaria se casando com ela. Sônia fingia ouvir todas essas sugestões com atenção, m as sua m ente estava m uito longe, a 8 m il quilôm etros de distância.

EM 13 DE JANEIRO DE 1968, exatam ente 34 dias depois de com pletar a m aioridade, Sônia aterrissava no aeroporto Palam de Nova Délhi. Sentia um nó no estôm ago. Seus pais e irm ãs haviam ido se despedir dela no aeroporto de Milão e nem m esm o o duro Stefano conseguira conter as lágrim as.

- Se você não gostar, volte logo, viu? - dissera-lhe enquanto sua m ãe colocava em sua bagagem de m ão m ais rem édios ainda, com o se estivesse ido para a selva.

Sônia não dorm iu durante o voo. Agora que enfrentava sozinha seu destino, sentia um a espécie de angústia. A expectativa de ver Raj iv transform ava-se em um m edo im preciso. Estavam havia um ano sem se ver. E se ele m e decepcionar? Ou eu o decepcionar? E se em seu próprio am biente se com portar de outra m aneira? Se não for o que eu acho que é? Eram perguntas inevitáveis, a j usta reação de alguém que havia apostado forte em um a carta. Agora, era hora de abrir as cartas.

Visto do ar, o entrelaçado de avenidas e largos de Nova Délhi sugeria as figuras geom étricas de m árm ore em form a de estrela que decoravam os palácios m ongóis. O avião aterrissou pela m anhã. O clim a não podia ser m ais diferente do frio inverno que havia deixado para trás. Fazia um a tem peratura sublim e, o céu estava azul, e, assim que saiu do avião, seu olfato ficou im pregnado de um cheiro m uito característico, que m ais tarde identificaria com o cheiro da índia: um a m istura de cheiro de m adeira queim ada e m el, cinza e fruta passada. E um som , o grasnado das gralhas, os corvos sem pre presentes, vestidos de cinza ou de preto, crocitando, insolentes, fam iliares, que lhe deram as boas-vindas da balaustrada do vestíbulo de chegada, dos postes e das bordas das j anelas. Lá estava Raj iv esperando: "Assim que o vi", contaria Sônia, "invadiu-m e um a profunda sensação de alívio". Estavam tam bém o irm ão dele, Sanj ay, e um am igo cham ado Am itabh, filho de um casal, os Bachchan, que os Nehru conheciam fazia m uito tem po. O pai era um célebre poeta em híndi e deputado parlam entar, e Indira lhe pedira o favor de hospedar Sônia enquanto durasse sua visita.

Os tem ores que havia sentido durante o voo desapareceram subitam ente, com o se nunca houvessem existido. Ao contrário, agora tinha a certeza de que havia feito bem em seguir os ditam es de seu coração a despeito das dificuldades. "Eu estava outra vez ao lado dele, e nada nem ninguém nos separaria de novo", escreveu Sônia relem brando sua chegada.

N O VA DÉLHI NÃO ERA A ÍNDIA com o havia im aginado, pelo m enos a parte onde se hospedava, com suas largas avenidas m argeadas por grandes árvores sem pre verdes, m uitas delas em flor. A casa dos Bachchan ficava em Willingdon Crescent, a avenida dos baneanes. Os urbanistas ingleses que fizeram de Nova Délhi um a agradável cidade-j ardim quiseram que cada avenida tivesse sua própria espécie. Janpath, a antiga Queen's Way, era a das carquej as, árvores sagradas conhecidas por suas propriedades m edicinais; Akbar Road dos tam arindos; e em Safdarj ung Road, onde ficava a residência de Indira Gandhi, havia profusão de flam boy ants com um a folhagem verde e brilhante sem eada de flores alaranj adas. O pouco trânsito de veículos era com posto de ciclistas, carros puxados por burros ou cam elos, uns triciclos m otorizados com teto a m a re lo, m otocicletas de escapam ento explosivos, velhos Am bassador, réplica dos Morris Oxford III de 1956 que eram fabricados sob licença em Bengala, todos desviando das vacas que andavam à vontade pelo m eio da rua. Não era estranho topar com um carro de bois e até com algum elefante transportando m ercadorias parado em um sem áforo. Era um a cidade tranqüila de 3 m ilhões de habitantes, sem grandes arm azéns nem centros com erciais, com um único hotel de luxo no coração do bairro diplom ático.

Sônia foi recebida com toda a cordialidade que se podia esperar de um a fam ília indiana, m as Raj iv não podia lhe dar a atenção que gostaria, porque, no dia 25 de j aneiro, ia prestar exam e para piloto com ercial e tinha que continuar acum ulando horas de voo e estudar. Mas seus prim os e am igos, e até Indira Gandhi, desdobraram -se para que sua estadia fosse a m ais agradável possível. Mesm o dorm indo na casa dos Bachchan, passava grande parte da m anhã na casa de seu nam orado. Naquela época, a prim eira-m inistra vivia praticam ente sem m edidas de segurança. Recebia as pessoas todas as m anhãs às portas de sua casa com a sim ples presença de um guarda. Seus filhos tam bém não tinham escolta, exceto em certos eventos considerados arriscados.

Am igos e fam iliares revezavam -se para m ostrar a Sônia a cidade cheia de parques e j ardins, de m onum entos antigos e de edifícios soberbos que haviam sido erguidos pelos ingleses quando, em 1912, decidiram m udar a capital de Calcutá para Délhi. Traçaram um a cidade nova, na qual plantaram m ilhares de árvores. Desde tem pos im em oriais, a vegetação havia sido a obsessão dos governantes de Délhi. Alguns j ardins decoravam m ausoléus e tum bas com a idéia de que os m ortos se sentissem felizes e em paz; outros haviam sido concebidos com o atos de caridade para o povo, e outros haviam sido feitos por reis para uso e desfrute próprio. Raj iv gostava especialm ente de passear pelos j ardins de Lodhi ao entardecer, com seus tanques e suas fileiras de palm eiras gigantescas que contornam a tum ba de Moham m ed Shah, um precioso m onum ento de estilo indo- m ongol que conservava restos do m osaico turquesa e da caligrafia original que o ornam entavam . Era um lugar popular, onde os casais apaixonados podiam usufruir de um m om ento de tranqüilidade e de certa privacidade. Em sua Lam bretta, m ostrou-lhe tam bém a Nova Délhi im perial, e as vistas espetaculares que os arquitetos britânicos haviam concebido para im pressionar e intim idar a população local.

Continuar: parte 4 de 6