O Sári Vermelho
Ato I - a Deusa Durga Cavalga um Tigre
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
"De i uns passos para onde estava sentada. Tinha um nariz com prido, e o m eu tam bém era proem inente, de m odo que aproxim ei m eu nariz do dela e perguntei, olhando-a fixam ente nos olhos: "E você, o que pensa, prim eira-m inistra? "Não pode fazer isso - respondeu. "Acha que sou tão incom petente? "Não, Sam , não quis dizer isso. Quero dizer que você não o fará. "Você tem toda a razão, prim eira-m inistra. Não interfiro em assuntos políticos. Meu trabalho consiste em com andar o Exército e velar para que se m antenha com o um instrum ento de prim eira ordem . O seu é velar pelo país.
"Meus m inistros dizem que se está tram ando um golpe m ilitar. Até m eus filhos ouviram isso. "Esses m inistros você nom eou. Livre-se deles. Você tem que confiar em m im ." Nunca o general a havia visto tão preocupada e com o ânim o tão abatido com o nesse dia. "Tinha m uitos inim igos políticos", lem braria Manekshaw. "Constantem ente tram avam com plôs contra ela. Mas era um a m ulher esperta. Veio m e dizer: Sam , se você está pensando em fazer algum a coisa, saiba que eu sei de tudo."
FOI UM NATAL TURBULENTO. Em bora da porta para dentro Indira fizesse o possível por não deixar transparecer sua inquietude, era im possível ser im une à tensão da rua. Sanj ay era quem m ais lhe perguntava sobre o que ia fazer, m as Indira respondia com um de seus fam osos silêncios e pegava o pequeno Rahul no colo, com o se nesse gesto sim ples buscasse a resposta a questões com plicadas. O que seu pai teria feito nessas m esm as circunstâncias? -perguntava-se. Em 1951, Nehru havia se encontrado em um a situação parecida, m as não tão extrem a. E havia decidido consultar o povo. Indira ia fazer isso m esm o. Sentia que seu governo, dependente som ente do apoio dos partidos de esquerda, não sobreviveria aos ataques das poderosas forças que haviam se unido contra ela. Tinha a intuição de que o povo, se fosse consultado, a apoiaria.
Mas, dessa vez, separaria as eleições gerais das estaduais. Até então, sem pre haviam sido realizadas conj untam ente, com o resultado de que considerações locais de casta e etnia se m esclavam com grandes questões nacionais. Agora, queria se assegurar de que estariam dissociadas. Queria apresentar um verdadeiro program a nacional ao eleitorado.
EM 27 DE DEZEMBRO DE 1970, às oito da m anhã, depois de sua reunião diária no j ardim , Indira tom ou um chá com Sônia.
- Hoj e não virei alm oçar - disse. - Vou ver o presidente da República e vou solicitar que dissolva o Parlam ento. Vai ser um dia m uito cheio. Diga a Raj iv que falarei esta noite pela rádio. De fato, nessa m esm a noite dirigiu-se à nação para anunciar que ia antecipar as eleições gerais em um ano. Sônia ouviu-a na cozinha de casa: "O tem po não vai nos esperar", dizia Indira com certo tom apocalíptico. "Os m ilhões de pessoas que pedem com ida, aloj am ento e trabalho têm pressa de que façam os algum a coisa. Em um a dem ocracia, o poder é do povo. Por isso nos dirigim os a ele, para pedir-lhe um novo m andato." Pouco tem po depois do anúncio, um j ornalista da Newsweek perguntou a Indira qual seria o grande tem a da cam panha. Sem hesitar, Indira respondeu: "O tem a sou eu".
Durante as dez sem anas seguintes, m al apareceu em casa, e quando aparecia era para trocar de roupa e tornar a sair. Às vezes isso acontecia à um a da m adrugada e, ao ouvi-la, Sônia acordava, disposta a aj udá-la a encontrar um sári ou a lhe fazer um chá. Dava-lhe notícias do bebê, e Indira falava da cam panha. Estava anim ada:
"Gosto de estar com as pessoas, com o povo. O cansaço vai em bora quando estou com eles", dizia. "Sabe, Sônia? Não os vej o com o m assa, eu os vej o com o m uitos indivíduos j untos..." Estava contente porque a grande aliança que aglutinava partidos opostos - desde partidos de direita a socialistas - e que eram seus adversários, havia com etido o erro de escolher um slogan que refletia seu desej o m ais profundo: "Vam os acabar com Indira". Eu propus outro slogan: "Vam os acabar com a pobreza!" Não acha que faz m ais sentido? Sônia assentiu. Indira prosseguiu, em voz baixa para não acordar o bebê. Essa frase dá a nosso partido a razão m oral e um a im agem de progresso contra um a aliança reacionária. Afinal de contas, os pobres são a m aioria do eleitorado... Vão vê-la com o a salvadora...
Tom ara.
A CAMPANHA REALIZADA DURANTE os m eses de j aneiro e fevereiro de 1970 foi m uito intensa. O fato de ter hábitos frugais - m al com ia, e dorm ia m uito pouco - aj udou-a em seu esforço. Mais de 13 m ilhões de pessoas assistiram a seus com ícios e outros 7 m ilhões receberam -na de am bos os lados das estradas, segundo estatísticas oficiais. "Nos 43 dias que tive a m inha disposição", escreveu para sua am iga Dorothy Norm an, "percorri m ais de 60 m il quilôm etros e falei em uns trezentos com ícios. Era m aravilhoso ver a luz nos olhos das pessoas." Ainda m ais m aravilhoso foi com provar que, exceto em certas áreas povoadas por intocáveis e com unidades tribais, o tipo de pobreza que existia há vinte anos j á não se via. Não se viam deform ações atrozes com o outrora, nem crianças com barrigas inchadas pela desnutrição. "Talvez nem todos tenham um teto e um trabalho, m as as pessoas parecem saudáveis. Os olhos das crianças brilham ", contava a Dorothy .
Esse era seu grande orgulho, referendado pelas estatísticas. Em cinco anos, a produção anual de trigo e de arroz havia duplicado. "Pela prim eira vez, não tenho a im pressão de que a econom ia dependa exclusivam ente do sucesso ou do fracasso das m onções", escrevera um j ornalista britânico que ia regularm ente à índia. Os m eios de com unicação indianos, a m aioria nas m ãos da oposição, não falavam disso, m as o povo se pronunciou na m aior convocatória eleitoral até a data no m undo. Na noite dos resultados, a fam ília inteira estava reunida em casa. Sônia cuidara para que houvesse doces e flores em todos os cantos. A casa estava ilum inada por fora, e no interior a atm osfera era de entusiasm o contido. A m edida que a Com issão Eleitoral esm iuçava núm eros e resultados, a euforia foi se desatando. Duzentos e setenta e cinco m ilhões haviam votado nessa quinta convocatória desde a independência. Ninguém tivera que cam inhar m ais de 2 km para depositar sua cédula. Quase 2 m ilhões de voluntários haviam atuado com o agentes eleitorais. Sessenta e seis tentativas de fraude haviam sido contabilizadas, um núm ero insignificante em um país tão enorm e. A tendência dos resultados era clara: o partido de Indira ganhava em todas as circunscrições. Com eçavam a chegar carros à casa sem parar. Um a vitória com o essa vinha acom panhada de um a ineludível corte de aduladores. Gente que não hesitava em se agachar e tocar os pés de Indira, um a m aneira tradicional de cum prim entar que os Nehru sem pre viram com o um a dem onstração de servilism o quando quem o fazia era de classe rica. Seus m inistros, os m esm os que falavam a suas costas sobre um golpe m ilitar, foram os prim eiros a chegar e a se prostrar.
Sônia aprendeu a reconhecer esses m elífluos aduladores que trocavam de cam isa segundo a tem peratura política. Nessa época nasceu sua obsessão por identificá-los e m antê-los na linha, um a obsessão que não a abandonaria nunca. Tam bém chegavam am igos sinceros para cum prim entar Indira, que entrava e saía de seu estúdio, lotado de colegas do partido sentados no chão com as pernas cruzadas. Outro quarto, perto da entrada, logo se viu invadido de gente. Os telefones tocavam sem trégua. Os cães tam bém participavam da excitação geral e enfiavam -se entre as pernas dos visitantes, que Sônia recebia com o pequeno Rahul no colo. Indira procurava disfarçar seu regozij o, m as na verdade havia conseguido para seu novo m andato um a folgada m aioria de dois terços. Um a vitória que a tornava a prim eira-m inistra m ais poderosa desde a independência.
pessoa m ais venerada, m ais tem ida, m ais querida e, em certos am bientes, a m ais odiada. Mas tam bém foi um a vitória para a índia. As eleições dem onstravam ser um a genuína força unificadora da nação, acim a das diferenças e da diversidade. A dem ocracia se confirm ava com o a nova religião desse país tão antigo e tão povoado de deuses, um a religião que aj udava a abrir o cam inho para o futuro.
INDIRA NÃO TEVE MUITO TEMPO de saborear sua vitória. Quinze dias depois do anúncio de sua fenom enal vitória, o Exército paquistanês fez um ataque feroz contra os cidadãos bengalis do Paquistão oriental. As im agens na televisão m ostravam um a m aré hum ana, com posta por m ilhões de refugiados, na m aioria m ulheres, crianças e idosos, que cruzavam a fronteira buscando refúgio na província indiana de Bengala ocidental, j á por si m uito povoada, e cuj a capital era Calcutá. Nem Sônia, nem Raj iv, nem Sanj ay perdiam um noticiário. Aquela m aré de refugiados lem brava os trágicos acontecim entos da Partição. Sabiam que Indira estava diante de um a crise de enorm es proporções. Com o um país pobre com o a índia poderá acolher tantos refugiados? - perguntavam -se angustiados. Seria necessário intervir no Paquistão oriental para deter o fluxo dos que chegam ? O que m am ãe fará?
- É um a guerra civil? - perguntou Sônia.
Explicaram -lhe que parecia porque acontecia dentro de um m esm o país, Paquistão, m as era um país com posto por duas entidades separadas por m ais de 3 m il quilôm etros de território indiano, produto da partição do subcontinente segundo duvidosos critérios religiosos e com unais quando da independência. Na verdade, não havia unidade real entre essas duas nações, cuj a parte ocidental acabava de declarar a guerra à oriental. Os habitantes do Paquistão ocidental falavam urdu e eram m ais altos e de pele clara. Os do Paquistão oriental eram baixos, de pele escura e falavam bengali. A única coisa que com partilhavam era o islam ism o, m as isso não era base suficiente para alicerçar um a nação. Principalm ente porque, a despeito de a parte oriental ser a m ais povoada, a m aioria dos recursos - saúde, educação, eletricidade - era sistem aticam ente desviada para a parte ocidental. Os do oeste exploravam descaradam ente os do leste, que reclam avam a autonom ia.
Em contraste com a índia, onde a dem ocracia havia sobrevivido a distúrbios políticos, fom e e guerra, o Paquistão vivia treze anos de regim e m ilitar. Seu presidente, o general Yahy a Khan, conhecido por sua paixão pelo álcool, havia prom etido celebrar o prim eiro plebiscito livre da história do país em dezem bro de 1970. Não pôde prever as conseqüências dessas eleições, que evidenciaram as contradições e a fragilidade da entidade política conhecida com o Paquistão. No oeste ganhou Zulfikar Ali Bhutto, um advogado educado na Inglaterra que havia se m etido em política ao voltar a seu país e que era líder do PPP (Partido do Povo do Paquistão).
No leste venceu um partido liderado por um personagem carism ático, Sheikh Muj ibur Rahm an, am igo e aliado de Indira, que havia feito cam panha denunciando o colonialism o exercido pelo Paquistão ocidental sobre a parte oriental. Obteve um a vitória tão esm agadora que conseguiu a m aioria na Assem bléia Nacional do Paquistão. Segundo a lógica dos resultados, deveria ter sido nom eado prim eiro-m inistro. Mas o general no poder não tinha intenção de que a parte oriental assum isse o poder político. Diante do m ovim ento de desobediência civil que Sheikh Muj ibur Rahm an lançou em todo o Paquistão oriental, convocando um a greve geral indefinida, o ditador Yahy a Khan decidiu reprim ir a rebelião com a força. De repente e sem prévio aviso, m andou 40 m il soldados do Paquistão ocidental invadir a parte oriental. As notícias falavam de um ataque desapiedado e brutal. Muitos dos oficiais, j actando-se de que iam se dedicar a m elhorar os genes das crianças bengalis, violentaram m ilhares de m ulheres, saquearam e queim aram casas e com ércios e assassinaram m ilhares de inocentes. Qualquer suspeito de dissidência era perseguido e elim inado, especialm ente se fosse hindu: estudantes, professores universitários, escritores, j ornalistas, profissionais e intelectuais, ninguém escapava do terror daqueles soldados altos, fortes e bem apetrechados que degolavam sem piedade. Nem m esm o as crianças escapavam da brutalidade: as que tinham sorte eram assassinadas j unto com seus pais, m as outros m ilhares teriam que passar o resto de suas vidas sem olhos ou com m em bros horrivelm ente am putados. Sheikh Muj ibur Rahm an foi detido e levado para o Paquistão ocidental, onde foi encarcerado.
Você vai declarar guerra, m am ãe? - perguntava Sanj ay na hora do j antar, com o quem pergunta se ia viaj ar ou fazer com pras.
Se não encontrar outra m aneira de solucionar o problem a, não m e restará outra alternativa. De qualquer m aneira, am anhã vou falar com o general Manekshaw.
Indira sabia que, se o ditador paquistanês havia agido com tanta segurança, era porque contava com o respaldo de seu principal aliado, os Estados Unidos. O outro aliado era a China, que havia declarado guerra à índia em 1962, e que, em um ataque-relâm pago, havia anexado territórios fronteiriços no Him alaia. Aquilo havia sido um a hum ilhação para a índia, e um golpe m ortal para a velha idéia de Nehru da solidariedade das nações não-alinhadas. Tam bém havia m arcado o início do fim de Nehru. Sua saúde com eçara a decair, e m ais de um observador atribuiu sua m orte à aflição que lhe causou o ataque dos vizinhos do norte. SABE O QUE ESTÁ ACONTECENDO no Paquistão oriental? - perguntou Indira a seu velho am igo Sam Manekshaw, com andante-em -chefe do Exército, assim que chegou a um a reunião de seu governo.
Sim , m assacres - respondeu o m ilitar.
Estão chovendo telegram as dos estados fronteiriços - prosseguiu Indira. - Dizem que os refugiados não param de chegar. Sam , tem os que deter o fluxo de qualquer m aneira, não tem os recursos para atender a m ais gente. Se for necessário entrar no Paquistão oriental, faça isso. Faça o que for, m as detenha-os.
Você sabe que isso significa guerra.
Não m e im porta que haj a guerra - concluiu a prim eira-m inistra.
O general passou a lhe explicar os perigos de um a invasão. As chuvas das m onções estavam prestes a chegar, o transporte de tropas teria que ser feito usando as estradas porque os cam pos estariam inundados. A Força Aérea não poderia agir nessas circunstâncias. Disse francam ente que nessa situação não poderiam ganhar um a guerra.
A colheita com eçou em Punj ab e Hary ana - acrescentou o prudente general. - Se o país for à guerra em tem porada de colheita, vou precisar de todas as estradas disponíveis, e isso vai provocar problem as na distribuição de alim entos, e talvez fom e. Depois vem o problem a da China. Os passos do Him alaia serão abertos dentro de poucos dias... Ficarão de braços cruzados, eles que são aliados do Paquistão? O que farem os se nos derem um ultim ato?
Não o farão - disse Indira. - Inform o que estam os prestes a assinar um pacto de colaboração e defesa m útua com a União Soviética. Um pacto para os próxim os vinte anos.
Tanta era a raiva de Indira - lem brava o m ilitar - que seu rosto foi ficando verm elho. Decidiu interrom per a reunião e retom á-la à tarde. Os m inistros abandonaram a sala, m as Indira pediu a Sam que ficasse. Quando ficaram a sós, o m ilitar sentiu-se na obrigação de lhe dizer: Meu dever é contar-lhe a verdade. Mas, à luz de tudo o que expus, se quiser que apresente m inha dem issão, estou disposto a isso.
Não, Sam . Vam os em frente. Tenho plena confiança em você. A partir desse m om ento, a prim eira-m inistra e o com andante-em -chefe trabalharam em perfeita sintonia. Indira nunca perm itiu que nada nem ninguém se pusesse entre eles. Sam a havia convencido de que a opção m ilitar deveria ser a últim a, e apenas se fossem forçados a isso. A estratégia, agora, era ganhar tem po, pelo m enos até que o inverno voltasse ao Him alaia e congelasse os passos do Him alaia, requisito indispensável para que os chineses não tivessem a tentação de se m eter no conflito.
A m aré de refugiados não parava. Cerca de 150 m il pessoas cruzavam a fronteira a cada dia. Chegavam em cam inhões, em carros de bois, em riquixás e a pé. Sônia viu Indira m uito afetada ao voltar de um a viagem que havia feito a Calcutá.
Visitei os acam pam entos sob um a chuva torrencial - contou em casa, sentada à m esa, m as sem com er nada, porque havia perdido o apetite. - Eu pensei que, depois da experiência dos cam pos de refugiados durante a Partição, estaria preparada para o que ia ver. Mas não. Vi hom ens, m ulheres e crianças esqueléticos, idosos transportados nas costas de seus filhos, que cam inhavam pelos cam pos inundados... Ficavam em pé durante horas no barro porque não havia nenhum lugar seco onde se sentar. Meus acom panhantes esperavam um as palavras m inhas, m as eu estava tão com ovida que não pude falar.
Em oito sem anas, 3,5 m ilhões de refugiados haviam entrado na índia. A m aioria era hindu, m as tam bém havia m uçulm anos, budistas, cristãos... Gente de todo o espectro social e de todas as idades. Custasse o que custasse - repetia Indira - não os abandonaria a sua sorte. Ela e seus conselheiros passaram a planej ar m eticulosam ente a organização dos cam pos de refugiados. Quis que seu governo cuidasse de aloj á-los, alim entá-los e protegê-los das epidem ias. Se novam ente tivesse que pedir dinheiro pelo m undo para assum ir esse custo, estava disposta a isso.
SÔNIA SE ASSUSTAVA UM POUCO com o rum o dos acontecim entos, m as não dem onstrava. Tinha um a fé cega em sua sogra. A im prensa insistia em m ostrar que as atrocidades não c e ssa va m e que o fluxo de refugiados tam bém não dim inuía. Aonde tudo isso vai dar? -perguntavam -se em casa, grudados na frente da televisão na hora das notícias.
Por todos os lados, ouvia-se um m esm o clam or para que o governo enviasse o Exército. Mas, a despeito dos frenéticos apelos, Indira m antinha o sangue-frio. Com o sem pre em tem po de crise, perm aneceu com o total controle da situação. atm osfera fam iliar em sua casa de Nova Délhi aj udava-a a relaxar. Ver seu neto Rahul crescer era para ela um bálsam o. A tom ada de decisões, principalm ente quando afetava um sexto da hum anidade, podia facilm ente se transform ar em um a tortura m ental. Manter-se lúcida e serena era fundam ental, para ela, para o pa ís e para o m undo. Nisso, encontrou em Sônia um a valiosa aj uda. "Sua filha é um a j óia", escreveu a Paola. Em público, não parava de elogiá-la. Disse a um veterano j ornalista: "Ela é, sim plesm ente, um a m ulher m aravilhosa, um a esposa perfeita, um a nora perfeita, um a m ãe m aravilhosa e um a fabulosa dona de casa. E o incrível de tudo isso é que é m ais indiana que qualquer garota indiana!". Um dia, toda a fam ília assistiu à proj eção de um docum entário que um a am iga de Indira, a j ornalista Gita Mehta, havia feito sobre os refugiados e que ia ser divulgado nos Estados Unidos. Sônia ficou profundam ente com ovida com as im agens.
O docum entário m ostrava e entrevistava m ulheres que os soldados paquistaneses haviam m antido prisioneiras nas trincheiras. Um a delas, de uns quinze anos, devia ter sido violentada um as duzentas vezes. Suas lágrim as não saíam , estava em estado de choque catatônico. Tam bém m ostrava im agens de idosos e j ovens voltando a seus lares destruídos, im agens de cam pos queim ados e devastados. No fim da proj eção, Sônia notou que Indira estava chorando.
Indira estava disposta a queim ar todos os cartuchos para evitar um a guerra, ou pelo m enos retardá- la. Achava que só a intervenção do resto do m undo poderia conseguir um acordo pacífico para deter o m assacre. A im prensa m undial divulgava as atrocidades com etidas no local que com eçavam a cham ar de Bangladesh. Os com entários editoriais eram críticos ao apoio que o presidente Nixon dava aos paquistaneses. A elite norte-am ericana parecia unida em sua forte condenação ao general Yahy a Khan. Na França, André Malraux propôs entregar arm as à resistência de Bangladesh.
O ex-Beatle George Harrison e o professor indiano de citara Ravi Shankar organizaram um gigantesco concerto para arrecadar fundos para os refugiados. Allen Ginsberg, o poeta que Indira ouvira em Londres quando fora inaugurar a exposição sobre seu pai, cantou o sofrim ento dos cam pos.
Não restava a Indira outro recurso senão sair em turnê pelos Estados Unidos e Europa, tentando sensibilizar a opinião pública m undial.
Se no Ocidente as pessoas vissem as im agens do docum entário que vim os outro dia - disse a Sônia
tenho certeza de que se m obilizariam .
Tinha a intenção de passar vários m eses viaj ando pelo m undo. Ia com a certeza de que a frente dom éstica estava bem cuidada, o que lhe dava um a m uito necessária tranqüilidade de espírito. Assim confessou a um j ornalista árabe em um a de suas escalas: "Não tenho nenhum a ansiedade pela fam ília quando Sônia está em casa". Antes de partir, sua nora lhe havia com unicado outra notícia feliz: estava grávida de novo, e dessa vez não parecia que teria de ficar m ais nove m eses de cam a.
A TURNÊ COMEÇOU MAL; seu encontro com Nixon foi um grande fiasco. Decididam ente, Indira acum ulava m ás experiências com os presidentes norte-am ericanos, que a consideravam m uito esquerdista, m as Nixon lhe parecia cem vezes pior que o bruto Johnson. As discussões foram tingidas de desconfiança m útua e antipatia. Indira e Nixon sentaram -se em poltronas altas de cada lado da lareira do gabinete oval da Casa Branca enquanto seu conselheiro e Kissinger, com o aj udantes em um duelo, ouviam sentados à beira de uns sofás o diálogo de seus chefes. Nixon negou-se a reconhecer as dim ensões da tragédia hum ana que estava assolando o Paquistão oriental. Negou-se tam bém a aceitar a sugestão de Indira de convencer o general Yahy a Khan a libertar Sheikh Muj ibur Rahm an e estabelecer negociações diretas com ele e seu partido; a única possibilidade séria de deter o conflito. Nixon não se apiedou da sorte dos refugiados nem da de Sheikh. As palavras de Indira pareciam não o afetar. "Foi um diálogo de surdos", declarou Kissinger à saída. A seguir, com entou que Nixon havia dito coisas "que não eram reproduzíveis". Anos depois, quando os docum entos daquela época deixaram de ser sigilosos, soube-se que Nixon baseou toda sua política nesse canto da Ásia em sua sim patia pessoal pelo ditador Yahy a Khan -"um hom em decente e razoável" - cuj a lealdade aos Estados Unidos devia ser recom pensada aj udando-o a reprim ir a rebelião do Paquistão oriental, e em sua aversão pelos indianos - "esses bastardos" - com o os cham ava. Am bos tinham certeza de que os indianos não iriam à guerra. Eram pobres até para isso, pensavam .
No dia seguinte, Nixon fez Indira esperar 45 m inutos na ante-sala do gabinete oval. A prim eira-m inistra estava cheia de ira contida quando se sentaram para conversar. Era a líder de um país de gente pobre, m as de um a grande nação dem ocrática com um a enorm e população e com um a civilização m ilenar, e não m erecia um tratam ento desses.
A sua frente estava um personagem que não parecia hum ano, um hom em que, segundo seu conselheiro, "não tinha princípios m orais". E um Kissinger que era "um ególatra que se j ulgava Metternich". Para que perder m ais tem po com esse tipo de interlocutor? A sorte dos refugiados e a carga financeira que a índia devia suportar deixara-os frios. "Teria sido um erro acreditar no que a velha bruxa nos contava", dissera Nixon em particular a seu conselheiro. Eram claros aliados do Paquistão, e Indira percebeu que isso ela não ia m udar nessa visita. De m odo que, ne sse segundo encontro, Indira lhe devolveu sua grosseria com sutileza. Não fez nenhum a referência ao problem a com o Paquistão, com o se o sul da Ásia fosse a região m ais pacífica do m undo, e, em vez disso, perguntou sobre o Vietnã e sobre política externa am ericana em outras partes do planeta. Nixon tom ou isso com o um insulto. "Essa velha raposa", assim a cham ava em particular.
Apesar de sua agenda apertada, Indira conseguiu duas tardes livres para suas atividades privadas. Sua am iga Dorothy Norm an achou-a esgotada. A tensão das reuniões com Nixon e das viagens contínuas, o esforço de ter que se dom inar sem pre e se m anter razoável ante a provocação com eçavam a deixar sua m arca no rosto de Indira.
Dorothy havia com prado ingressos para assistir a um a apresentação do New York City Ballet de um a obra de Stravinsky coreografada por Balanchine, algo que deveria agradar a sua am iga. No últim o m om ento, Indira lhe disse que não podia ir. "Parecia triste e nervosa", lem braria Dorothy , que não entendia o que estava acontecendo. Indira tentou se explicar: Não posso, Dorothy . Vai ser m uito bonito. Não poderei suportar. Estava prestes a com eçar a chorar. Dorothy ficou preocupada, m as no dia seguinte notou aliviada que Indira "havia recuperado seu equilíbrio".
Nos dem ais países, Indira deu de cara com a m esm a m ensagem . Pediam -lhe que tivesse paciência, que aceitasse a presença de observadores da ONU e que encontrasse um a solução pacífica. "O m aior problem a que encontro", disse à im prensa, "não é a confrontação na fronteira, e sim o esforço constante das pessoas de outros países em desviar a atenção daquilo que é a questão básica." Na televisão inglesa, m ostrou-se com o um a prim eira-m inistra à altura das circunstâncias. Havia perdido peso e em suas feições viam -se traços de seu pai, o m esm o ar im perioso, de grande dignidade, e um olhar de fogo. Quando o j ornalista lhe falou da necessidade de a índia ser paciente, Indira explodiu: "Paciência? Paciência para que o m assacre continue? Para que continuem os estupros? Quando Hitler estava agredindo o m undo todo, vocês ficaram sem fazer nada? Deixaram que m atasse todos os j udeus? Com o se controla um êxodo com o esse? Se a com unidade internacional houvesse reconhecido a situação, o problem a j á teria sido solucionado". Não era só ao j ornalista que se dirigiu, e sim a todos os líderes m undiais que a ignoravam .
Quando voltou à índia, soube que o núm ero de refugiados havia subido para 10 m ilhões. Agora tinha certeza de que a guerra era inevitável, m as não disse nada em casa.
Om itindo as tensões das viagens e do que se avizinhava, contou-lhes que havia conseguido arrum ar tem po para assistir à ópera Fidelio em Viena, onde tam bém havia visto um espetáculo de que gostara m uito, a escola de equitação espanhola. Em Paris, havia j antado na casa de uns am igos, onde havia conhecido Joan Miro e um político cham ado François Mitterrand, que lhe havia causado m uito boa im pressão. Parecia que voltava de um a viagem de lazer, em vez de um a extenuante e frustrante turnê internacional.
Mas Raj iv e Sônia não se deixavam enganar. Sabiam perfeitam ente o nível de tensão que ela estava suportando, e no fim Indira não pôde esconder a verdade: haveria guerra. Sanj ay não pareceu se afetar com a notícia, m as Raj iv e Sônia se inquietaram . O pequeno Rahul gem ia em seu berço.
Te r ã o que se acostum ar a sair m enos e a viver cercados de m aior proteção, pelo m enos enquanto tudo isso durar - disse Indira. - O país inteiro pede um a ação rápida e eficaz. O tem po está acabando.
Essa noite, seu am igo, o general Sam Manekshaw, foi a sua casa e Sônia e Raj iv puderam ouvir fragm entos da conversa na qual o general falava dos preparativos do Exército, das bases de operações que havia m ontado no interior de Bangladesh e de com o havia protegido a fronteira com o Paquistão ocidental com unidades de defesa.
Receio que terem os de ir à guerra, Sam - ouviram Indira dizer. Se form os, tem que ser j á, aproveitando a lua cheia de 4 de dezem bro. Nesse dia, poderem os atacar Dacca.
Indira ficou um m om ento pensativa. Nunca pensou que um dia lhe caberia com eçar um a guerra. Mas se o m undo se abstraía do problem a e a situação se tornava insustentável, não tinha m ais rem édio senão tom ar o assunto em suas próprias m ãos. Lem brou-se de um as palavras que seu pai lhe dissera um dia: "Sej a dona de sua própria vida, de seu presente e de seu futuro, consulte-m e se precisar, m as você decide". Não o podia consultar, m as podia decidir. Voltou a cabeça para seu velho am igo e disse: - Vam os em frente, Sam .
EM CASA, PROCURAVA NÃO DEIXAR sua preocupação transparecer. Na realidade, todos faziam o m esm o esforço. Tem iam por Sônia, que estava em estado avançado de gestação.
Os Nehru estavam acostum ados a disfarçar seus sentim entos quando a coisa ficava feia. Nisso, eram m uito britânicos. E se fossem para a Itália por um tem po? A sugestão era de um a am iga, m as Sônia a descartou. Não tinha intenção de deixar Indira sozinha nesse transe. Isso não correspondia a seu conceito de lealdade. Sônia conhecia suficientem ente bem sua sogra para saber que agora m ais que nunca precisava do calor e da proxim idade dos seus. Além do m ais, tanto ela quanto Raj iv tinham confiança na vida, no futuro, em Indira e na índia, e nunca lhes ocorreu pensar nas conseqüências em caso de derrota. Essa eventualidade sim plesm ente não era contem plada.
O que fizeram foi cercar Indira de afeto, sem fazer m uitas perguntas e procurando não a angustiar m ais do que j á estava angustiada. Eram m uito carinhosos com ela e, quando a viam especialm ente preocupada, Raj iv lhe dava um longo abraço.
INDIRA FOI A CALCUTÁ EM 3 DE DEZEMBRO de 1971, um dia antes do ataque previsto. Na grande esplanada no centro daquela que foi a capital do im pério britânico, dirigiu-se a um a m ultidão de m eio m ilhão de pessoas: "A índia quer a paz, m as, se estourar a guerra, estam os preparados para lutar, porque é tanto questão de nossos ideais quanto de nossa segurança...". Bem quando pronunciava essas palavras, um aj udante subiu ao palanque e passou-lhe um bilhete: "Caças paquistaneses bom bardearam nove bases aéreas nossas no noroeste, norte e oeste, incluindo as de Am ritsar, Agra e Srinagar em Caxem ira". Indira concluiu seu discurso apressadam ente, sem anunciar o que acabava de ler. Assim que saiu do com ício, disse a seu assistente: "Graças a Deus, foram eles que atacaram !" A terceira guerra indo-paquis-tanesa havia estourado.
E o Paquistão era o agressor.
Essa noite, Indira voou de volta a Nova Délhi, e seu avião estava escoltado por caças indianos. Existia o perigo de a Força Aérea paquistanesa localizar o avião e o derrubar. Mas Indira não parecia afetada pela aceleração dos acontecim entos. Ao contrário, pegou em sua bolsa um livro de Thor Hey erdal sobre a expedição Ra, e ficou lendo durante todo o voo. De nada servia ficar nervosa: a sorte estava lançada. Quando aterrissou, a capital estava m ergulhada na escuridão m ais com pleta, fruto do apagão que as autoridades m ilitares haviam ordenado. Indira foi diretam ente para seu gabinete na South Block, onde, na sala de m apas, foi inform ada dos danos infligidos pela aviação paquistanesa. Depois reuniu-se com m em bros da oposição para inform ar-lhes que havia dado ordens para que o Exército indiano invadisse Bangladesh. Descreveram -na "tranqüila, serena e confiante". Era m ais de m eia-noite quando se dirigiu à nação por rádio para anunciar a ofensiva paquistanesa e advertir sobre os grandes perigos que am eaçavam essa região do m undo. Nesse dia não dorm iu em casa. Ficou a noite toda m onitorando a escalada da situação m ilitar. Na m anhã seguinte, no Parlam ento, anunciou aos representantes do povo que deviam se preparar para um a longa luta.
SÔNIA, PRESTES A DAR A LUZ quando estourou o conflito, estava m ais preocupada com o parto que com um a guerra que percebia distante, a despeito de ter tido que passar as últim as noites no escuro, por causa do apagão. Se sentiu angústia, em nenhum m om ento dem onstrou. Afora um destacam ento suplem entar do Exército protegendo a casa e o fato de que agora o general Sam Manekshaw vinha tom ar o café-da-m anhã todos os dias para inform ar à prim eira-m inistra o desenvolvim ento do conflito, a vida corria norm alm ente. Sônia gostava de servir o chá para o general, um hom em sim pático e m uito cortês, conhecido por seu gosto pelas tradições m ilitares britânicas. Todos os dias, assim que se levantava, às 5h30, gostava de beber um trago de uísque , ouvir as notícias na BBC e cuidar um pouco do j ardim antes de ir trabalhar. O com portam ento sereno e seguro de Indira, que inspirava tranqüilidade a todos os que a cercavam- colegas, m ilitares, soldados - tam bém repercutia na casa.
No sexto dia, Sam chegou com o sem blante grave. Sônia ouviu-o dizer que várias unidades do Exército haviam estancado em pântanos próxim os a Dacca, capital de Bangladesh. Estavam perdendo horas cruciais. O general inform ou a Indira o núm ero preciso de baixas e de aviões derrubados. Parecia m uito afetado. Ela fazia perguntas, sem pre sossegada e positiva. "Sam , não se pode ganhar todos os dias", disse para ele, a m odo de consolo. Sônia viu-os sair para o pórtico. Não havia o m enor resquício de ansiedade no rosto de Indira enquanto apertava a m ão do com andante-em -chefe. O general Manekshaw dizia que a coragem de Indira era um a inspiração para todos. Sônia pôde com provar isso quando ouviu, do outro lado da grade, as pessoas soltando gritos de vitória.
Ne m sequer nesse dia Indira deixou de se interessar pelos assuntos da fam ília. Quando voltou para casa depois de um a j ornada extenuante no Parlam ento e em seu escritório da South Block, trancou- se com Usha para dirim ir questões que m ereciam a m esm a atenção que as discutidas durante o dia: com o organizar a festa nacional do Dia da República sem saber o resultado da guerra, por exem plo, ou o que dar de presente a Sônia em 9 de dezem bro, dia de seu aniversário, e elaborar um a lista de presentes para o próxim o Natal.
Talvez a coisa fervesse por dentro e Indira não estivesse tão segura de si com o queria aparentar, porque nessa época com eçou a solicitar os serviços de astrólogos e quirom antes. Aquela noite chegou seu m estre de ioga, um guru cham ado Dhirendra Brahm achari, bem -apessoado, com barba e cabelos longos, sem pre usando um a kurta laranj a e sandálias. Trancou-se um longo tem po em um quarto com ela. Às nove, enquanto Usha, Raj iv e Sônia viam as notícias na televisão sobre as tropas indianas atoladas, Indira entrou na sala com o sem blante um pouco inquieto. O visitante acabava de sair. "Acha que vam os passar m aus bocados até fevereiro", disse um tanto perturbada.
Em 6 de dezem bro, enquanto o Exército indiano saía do pântano e se aproxim ava de Dacca, Indira anunciou no Parlam ento o reconhecim ento oficial da nova nação de Bangladesh. Um a sonora ovação recebeu suas palavras. De todos os lados recebeu um apoio incondicional. A oposiç ã o e todos os setores da sociedade m ostraram -se unidos sob sua liderança. O povo com eçava a identificá-la com Durga, a deusa da guerra que cavalga um tigre e venceu os dem ônios depois de estes terem expulsado os deuses do céu.
Sônia não estaria disposta a esquecer aquele 9 de dezem bro em que com pletava 25 anos com um a barriga de oito m eses. Indira ligou no m eio da m anhã para dizer que não com pareceria ao alm oço fam iliar de com em oração porque havia surgido um assunto grave. Devia ser m uito grave para que Indira não estivesse presente no aniversário de sua nora, pensaram os que a conheciam . A notícia, que vinha dos Estados Unidos, fez o m undo estrem ecer. Nixon havia decidido despachar a Sétim a Frota para a baía de Bengala, encabeçada pelo porta-aviões nuclear Enterprise. Um a provocação que podia desencadear um a conflagração m undial.
Enquanto uns am igos festej avam o aniversário de Sônia na intim idade de sua casa, Indira, excitada, fazia um discurso incendiário na esplanada de Lila Ram , em Nova Délhi, diante de um a m ultidão de centenas de m ilhares de pessoas. Caças indianos sobrevoavam o local para prevenir qualquer ataque-surpresa da Força Aérea paquistanesa.
Indira havia ignorado o conselho de seus assessores de segurança de falar pela rádio em vez de fazer isso em público. Era valente; parecia que nada lhe dava m edo.
À noite, reuniu-se com o general Manekshaw e seu conselheiro. Sem se am edrontar com a provocação norte-am ericana, Indira confirm ou sua decisão de prosseguir com a guerra. Achava que o gesto de Nixon era um blefe, porque os am ericanos não estariam loucos a ponto de abrir outra frente na Ásia depois do Vietnã. Mas tam bém era verdade que de um suj eito com o Nixon se podia esperar tudo. Voltou-se para o general Manekshaw: Sam , agora é im perativo tom ar Dacca antes da chegada da Sétim a Frota a águas indianas - disse.- Acha possível?
Sim - respondeu o m ilitar sem hesitar - a m enos que os chineses intervenham . O conselheiro de Indira tom ou a palavra:
Estão incom odados com a situação, m as não fizeram nenhum a am eaça direta - disse.
Então - continuou Indira - m andarei am anhã m esm o o m inistro de Assuntos Exteriores a Moscou para ativar o tratado que tem os com os soviéticos e garantir o apoio deles em caso de um ataque am ericano ou chinês. Minha opinião, repito, é que devem os prosseguir com a guerra. Estão de acordo? Am bos responderam com um gesto afirm ativo.
A VISITA DO MINISTRO DE ASSUNTOS EXTERIORES indiano serviu para que os russos despachassem um a frota à baía de Bengala que logo seguia o rastro dos barcos am ericanos. A situação havia atingido um ponto crítico. Na Casa Branca, Nixon fazia furiosos ataques contra a "ofensiva indiana". Sua adm inistração anunciou a supressão da aj uda econôm ica e m ilitar à índia, m as continuava enviando m aterial bélico para o Paquistão, algo que foi denunciado pela própria im prensa norte-am ericana. Indira escreveu-lhe um a carta taxativa: "Esta guerra poderia ter sido evitada se as nações, especialm ente os Estados Unidos, houvessem usado sua influência, seu poder e sua autoridade para encontrar um a solução política. O senhor, com o presidente dos Estados Unidos e representante da vontade, aspirações e idealism o do grande povo norte-am ericano, pelo m enos diga-m e em que exatam ente erram os para que seus representantes e seu porta-voz nos tratem com um a linguagem tão dura". Indira passou o dia hesitando, sem saber se devia m andar a carta ou não. À noite, decidiu enviá-la. O norte-am ericano teria um a razão suplem entar para detestá-la ainda m ais.
Em 13 de dezem bro, quando seu exército se encontrava às portas de Dacca, o general Manekshaw m andou um ultim ato a seu hom ólogo paquistanês dando três dias para se render. Às 17h do dia 16, Indira estava sendo entrevistada por um repórter da televisão sueca m ais interessado em saber que roupa gostava de vestir e com o havia sido sua infância que no desenrolar da guerra, quando de repente tocou o telefone. Era Manekshaw: "Senhora, vencem os. Acabam de se render. Dacca caiu". Indira fechou os olhos e apertou os punhos.
- Obrigada, Sam - disse.
Ac a bou sua entrevista apressadam ente e foi para o Parlam ento. Diante da assem bléia de deputados expectantes, com eçou dizendo: "Dacca é, hoj e, a capital livre de um país livre...". Mas um a intensa ovação m isturada com gritos de j úbilo sufocou o resto de seu discurso. "Ganham os!", vociferavam até os deputados da oposição. "Vam os esm agar o inim igo para sem pre" diziam outros. "Longa vida a Indira Gandhi", clam ava o povo.
Mais tarde, reuniu-se com a cúpula do Exército. O balanço para os indianos era de 42 aviões e 81 tanques destruídos; os paquistaneses haviam perdido 86 aviões e 226 tanques. A m aior disparidade residia no núm ero de prisioneiros. Os paquistaneses haviam conseguido um punhado de prisioneiros nos com bates no oeste. A índia encontrava-se com 94 m il prisioneiros paquistaneses. Indira passou a acalm ar os ânim os de seus generais, que não estavam de acordo com o cessar-fogo unilateral que ela exigia. O alto com ando repercutia grande parte da opinião pública, que queria continuar colecionando vitórias bélicas "até a derrota total do inim igo". Mas Indira era pragm ática: "Tem os que parar ao atingir nossos obj etivos, não dem os nem a China nem aos Estados Unidos m otivos para intervir. Tem os que devolver os prisioneiros e acabar com o conflito j á". Os m ilitares pigarreavam , exceto Sam , que ouvia im passível, seu longo nariz apontando para os interlocutores conform e iam falando. Indira explicou que sua posição se baseava em um a apreciação política da situação e que falava com a autoridade que lhe dava o r e spa ldo de um gabinete unânim e. Quando term inou, os m ilitares se levantaram , cum prim entaram -se e disseram que levariam a cabo as instruções do governo. "Isso é algo que não poderia ter acontecido em m uitos países, e não só do Terceiro Mundo", lem braria Indira.
A estratégia de Indira de ganhar tem po, seu refinado senso de oportunidade e de m om ento, a identificação que m anteve com o general Manekshaw, sua m aneira quase m aternal de estim ular as tropas, foram qualidades unanim em ente reconhecidas por todos os setores da sociedade. A im prensa internacional falava dela em term os grandiosos. A deusa Durga se transform ara em "Im peratriz da índia". Indira havia exposto o blefe de Nixon. Efetivam ente, os norte-am ericanos não puderam correr para salvar seu aliado, o ditador paquistanês, porque não podiam se perm itir abrir um a nova frente de batalha na Ásia. Nixon estava furioso com o desenlace da guerra. "Fom os m uito m oles com essa m aldita m ulher", disse a Kissinger. "Foi fazer isso com os paquistaneses, se nós havíam os advertido essa velha raposa que não se m etesse." Kissinger estava irritado consigo m esm o por ter subestim ado o poder m ilitar dos indianos. "Os indianos são tão m aus pilotos que nem sequer sabem fazer seus aviões decolarem ", havia com entado com seu chefe quando da visita de Indira. Um com entário no qual Raj iv não teria achado graça nenhum a. Mas a opinião do povo norte-am ericano, e a de sua im prensa, discrepava da de seus líderes. Em um a pesquisa de opinião, Indira Gandhi foi classificada com o a pessoa m ais adm irada do m undo.
A decisiva ação de Indira salvou a vida de Sheikh Muj ibur Rahm an, que havia sido condenado à m orte no Paquistão. Um a das condições do acordo de arm istício foi a libertação im ediata do líder do novo Bangladesh. Em 11 de j aneiro de 1972, Rahm an fez escala no aeroporto Palam de Nova Délhi, de passagem para Dacca. Vinha agradecer a Indira, e am bos pronunciaram discursos c he ios de em oção: "Seu corpo estava preso, m as ninguém pôde prender seu espírito, que continuou inspirando o povo de Bangladesh..." disse ela. "Indira Gandhi não é só um a líder de um país, é um a líder da hum anidade", declarou Sheikh Muj ibur. Foi um m om ento de intensa euforia depois da tensão acum ulada dos últim os m eses.
Nos dias e sem anas seguintes, os pais de m ilhares de m eninas nascidas na índia lhes puseram o nom e de Indira. Um a delas, porém , nascida um dia depois da visita triunfal de Sheikh Muj ibur Rahm an a Nova Délhi, não foi cham ada assim . Seus pais, Sônia e Raj iv Gandhi, puseram -lhe o nom e de Priy anka, que em sânscrito significa "agradável aos olhos".