O Sári Vermelho
Ato I - a Deusa Durga Cavalga um Tigre
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
A vista que Sônia adm irou no arco do triunfo da Porta da índia, onde arde um a cham a eterna em m em ória aos soldados indianos m ortos nas duas guerras m undiais, era grandiosa. Com o tam bém era o im ponente edifício de South Block, m istura de estilo m ongol e neoclássico, onde, do outro lado da fachada decorada com baixos-relevos de flores de lótus e elefantes, ficava o gabinete de Indira Gandhi, e principalm ente o Palácio da Presidência da República, outrora palácio do vice-rei britânico, um elegante edifício de arenito bege e verm elho coroado por um a vasta cúpula de cobre, de sublim es proporções e considerado por m uitos um dos edifícios m ais belos do século XX.
E onde estava a índia de que haviam lhe falado? - perguntava-se Sônia. A índia que aterrorizava seus pais? A outra índia? Não era necessário se deslocar m uito. Bastava seguir a larga avenida Raj path, a antiga King's Way , e chegar à Velha Délhi. Isso era outro m undo. Ao redor do Forte Verm elho, outro espetacular m onum ento construído pelo im perador Shah Jehan, o m esm o que havia erguido o Taj Mahal em hom enagem a sua m ulher, fervia um a m ultidão colorida e barulhenta que parecia estar participando de um gigantesco carnaval de encantadores de serpentes, m alabaristas, adivinhos, m úsicos, engolidores de espadas e faquires que transpassavam suas faces com punhais.
Essa era a índia eterna, a m esm a que invadia os becos em volta da Grande Mesquita, com suas barracas de roupa cheias de tecidos coloridos, seus vendedores de frutas, de doces, de lanternas, de betum e e pilhas, seus engraxates, seus cabeleireiros em plena rua, suas oficinas escuras - onde um as crianças trançavam tapetes e outras fabricavam instrum entos de precisão... Um a explosão de vida, um caos exótico e alvoroçado que a deixava ébria de cores, ruídos e odores. E por todo lado, atrás de um a rua, ao fundo de um j ardim , podiam -se ver um a antiga tum ba ou cenotáfio, um m onum ento m uçulm ano ou hindu que rem ontava à noite dos tem pos, com o um a lem brança da antigüidade da índia. Nehru j á havia descrito seu país com o "um antigo palim psesto no qual cam adas sobre cam adas de pensam ento e fantasia ficaram gravadas, sem que nenhum a tenha conseguido apagar ou esconder o que previam ente havia sido inscrito".
E, a seguir, o espetáculo da pobreza, que viam quando circulavam por certos bairros: crianças nuas correndo pelas ruas, idosos chacoalhando suas canequinhas, gente que se lavava e fazia suas necessidades nas ruas. Sônia recordava um pouco os pobres de sua Lusiana natal, quando era m enina, nos anos 1950, aquelas crianças nuas no inverno, aquelas fam ílias que passavam fom e e de quem sua m ãe tanto se com padecia, aqueles aleij ados nas praças, antigos soldados que haviam voltado feridos da frente russa... Mas o que nunca havia visto eram deform idades com o as que eram exibidas por alguns leprosos de Nova Délhi que espreitavam os carros que paravam nos sem áforos. A índia de 1968 contava com tantos leprosos quanto a população de Portugal, m endigos suficientes para povoar um país com o a Holanda, 11 m ilhões de ascetas, 10 m ilhões de crianças m enores de quinze anos casadas ou viúvas. Quarenta m il crianças nasciam a cada dia, e um quinto delas m orria antes de com pletar cinco anos.
Ainda assim , eram cifras m elhores do que as de antes da independência, vinte anos atrás. A m elhoria, m esm o que leve, das condições sanitárias estava criando um problem a ainda m aior: a idade reprodutiva dos indianos se estendia. Com o conseqüência disso, a explosão da natalidade estava se tornando o m aior problem a do país, porque literalm ente "com ia" o desenvolvim ento econôm ico. A cada ano, a população da índia aum entava em um núm ero igual à população da Espanha inteira.
PARA SÔNIA, TUDO A SUA VOLTA ERA NOVO e estranho: as cores, os sabores, as pessoas. "Mas o m ais estranho de tudo eram os olhos das pessoas, esse olhar de curiosidade que m e seguia por todos os lugares." Sônia estava se iniciando no m undo da índia, descobrindo quão curiosos e inquisitivos podiam ser seus habitantes, m áxim e naqueles dias, quando praticam ente não havia turistas. Se um estrangeiro j á por si cham ava a atenção, um a m ulher m ais ainda, e se fosse bonita e usasse m inissaia, que era m oda na Europa aquele ano, então se tornava um polo de atração im ediato. Ou obj eto de opróbrio. Sônia teve que aprender a controlar seus gestos, seus m ovim entos e sua m aneira de se vestir, m as nem sem pre era fácil: "A falta absoluta de privacidade, a obrigação de m e reprim ir e de não dar rédea solta a m eus sentim entos era um a experiência exasperante. As dem onstrações públicas de afeto eram m alvistas, não só na rua, m as tam bém na vida cotidiana. Não podia dar um beij o em Raj iv se houvesse alguém na frente, nem m esm o andar de m ãos dadas com ele sem que isso fosse escandaloso. Ela descobria que a índia era o país m ais pudico do m undo, herança da Inglaterra vitoriana. Depois, havia coisas difíceis para um a italiana: a com ida, por exem plo. Sônia não se acostum ava ao sabor picante, parecia que anulava o sabor dos alim entos. Nem aos m olhos tão fortes nem aos sabores agridoces de certos pratos. Ou ao costum e dos j antares sociais, onde se falava e se bebia m uito durante um tem po interm inável, j antava-se rapidam ente e a seguir todos iam em bora em cinco m inutos.
Não tardou a perceber que os olhares que tão insistentem ente pousavam sobre ela não se deviam só ao fato de ser estrangeira ou um bicho estranho, ou um a garota m uito bonita. Era vista com o um novo m em bro de um a fam ília que durante anos havia vivido para o público. Tudo o que fa zia m e diziam , ou ao contrário, o que deixavam de fazer ou dizer, era m inuciosam ente observado, analisado e j ulgado. Com o se pode viver assim ? - perguntava-se sufocada.
Mas, a despeito de tudo, Sônia não se via de volta à Itália. Isso era um m undo m uito diferente, e faltava m uito cam inho a percorrer, m uito a explorar. Junto com Raj iv, era um a singradura fascinante, apesar dos obstáculos. Além do m ais, estava cercada do afeto dos outros. Sanj ay a tratava com o um a irm ã, entre protetor e divertido vendo-a se adaptar. Am itabh e sua fam ília tam bém . Sentia-se abrigada e querida. Para am bos, a idéia de se separarem de novo era sim plesm ente inconcebível. Para que perder m ais tem po, para que voltar para a Itália e esperar de novo, com o outra agonia, até se encontrarem aqui ou ali? Raj iv não cogitava a possibilidade de m orar na Europa; pretendia entrar na Indian Airlines assim que tivesse o brevê "com ercial". Depois, poderiam ir m orar em um apartam ento. Em Délhi, tudo era m ais fácil para ele; a vida em com um estava ao alcance da m ão. Sônia era quem devia dar o passo, quem devia arriscar, porque precisava deixar para trás seu país e sua fam ília por um tem po indefinido. Fora conhecer a índia e seus costum es, m as não precisava saber m ais, porque, no fundo, antes de em barcar naquele avião j á havia tom ado a decisão de ser fiel a seu próprio coração. Mesm o que isso significasse fazer algo que ia m uito contra si m esm a. Não queria nem im aginar a cara de seu pai quando lhe dissesse que não voltaria e que iria se casar.
INDIRA SE SURPREENDEU QUANDO soube que Sônia estava disposta a ficar, que queriam se casar j á. Fazia exatam ente três anos que haviam se conhecido em Cam bridge. Haviam cum prido todos os prazos, feito tudo o que lhes fora m andado, e agora chegava o m om ento de tom ar a decisão. Indira sabia que a chegada de Sônia havia representado um a pequena revolução no m undinho social de Nova Délhi, m esm o sem que Sônia nem Raj iv houvessem pretendido isso, ao contrário. Sua m era presença, por ser a nam orada de quem era e porque era a prim eira vez que um Nehru ia se casar com um a estrangeira de outro continente, havia dado m otivo para todos os tipos de conj ecturas. Mesm o sendo a capital de um país de 700 m ilhões de habitantes, a alta sociedade era pequena, convencional, e todas as fam ílias relevantes se conheciam entre si. Em suas reuniões, os com entários eram na m aioria elogiosos - com o é bonita! - m as outros aludiam a sua falta de pedigree - não é ninguém , ou, pior, "é de casta baixa". Outros a sua m aneira de vestir- "quer cham ar a atenção". Outros a sua m era presença -"o que esse rapaz vê nela?". Outros, ainda, a um sentim ento de ultraj e nacionalista - "será que não podia ter encontrado um a garota m elhor aqui?". Sem fazer nada, havia se tornado inim iga de m uitas garotas bonitas da boa sociedade e de suas m ães, que viam um a estrangeira, e ainda por cim a um a intrusa, levar um dos solteiros de ouro do país.
"Depois de um a sem ana", diria Usha Bhagat, secretária de Indira, "a senhora Gandhi percebeu que os dois falavam m uito sério e que não serviria de nada esperar m ais.
O fato de andarem saindo por Nova Délhi alim entava as fofocas, e a m elhor m aneira de cortar isso era deixar que se casassem ." Mas quando Raj iv com entou com sua m ãe que se m udariam para um apartam ento próprio assim que arranj asse em prego, Indira im pôs sua única condição: "Um a coisa é casar-se fora de sua com unidade. Mas viver fora de casa é totalm ente contrário à tradição indiana da fam ília unida. Iriam nos tachar de ocidentais, acusar-nos de abandonar todas a s nossas tradições". Se Raj iv fosse europeu ou ocidental, provavelm ente teria desobedecido a sua m ãe e ido m orar com sua m ulher.
Mas era indiano e, na índia, os filhos acatam a tradição, principalm ente quando se deve dar o exem plo. A solução para o conflito em que se encontrava dependia de Sônia aceitar um a condição que a m aioria das m ulheres ocidentais teria considerado inadm issível. Mas cabia a Sônia adaptar-se à índia, não podia ser ao contrário, e na índia o casam ento é um assunto fam iliar, m ais que individual, onde a harm onia entre seus m em bros é m ais valorizada que a fascinação individual. Isso significava passar a fazer parte da fam ília do m arido. Teria que viver na casa da fam ília, ao estilo indiano, dividindo o m esm o teto com a sogra, o irm ão e a fam ília do irm ão se este se casasse um dia. Todos no núm ero 1 de Safdarj ung Road. Sônia aceitou porque estava cega de am or. Além do m ais, viver em fam ília não era algo que assustasse um a italiana que havia passado sua infância em um a aldeia onde os Maino eram um clã. Tam bém se convenceu de que não estando sozinha se sentiria m ais protegida, e isso lhe perm itiria se adaptar m elhor. Em tudo via um lado positivo: é um a das vantagens do am or, que age com o um a droga.
Decidiram m arcar a data - 25 de fevereiro - para o casam ento. Tudo m uito rápido, m as m elhor assim . Indira queria evitar que o casam ento de seu filho se transform asse em um assunto nacional, com o havia acontecido com o seu. Contou a Sônia e Raj iv com o todo o país fora contra, com o se cada um dos habitantes da nação houvesse se sentido com direito de dar sua opinião. Milhares de cartas e de telegram as haviam inundado Anand Bhawan, uns insultantes, a m aioria hostil, alguns de congratulações.
Ha via um a explicação. Firoz e Indira haviam transgredido duas tradições profundam ente enraizadas: não haviam se subm etido a um a união arranj ada pelas fam ílias nem se casaram "dentro de sua fé". Isso havia enfurecido os hindus ortodoxos. E agora a história se repetia. Com o se os filhos herdassem de seus pais não só as características físicas e as habilidades, e sim tam bém seus conflitos, suas contradições e suas situações de vida.
"QUERIDOS PAIS", ESCREVEU-LHES SÔNIA. "Estou m uito feliz. Mando esta carta para anunciar que Raj iv e eu vam os nos casar. Espero todos vocês aqui no dia 25 de fevereiro..." Sônia não suspeitava que, quando sua carta chegou, a notícia do anúncio de seu casam ento j á havia sido divulgada pelos m eios de com unicação do m undo inteiro. Um j ornalista do j ornal turinês La Stam pa foi visitar a fam ília no núm ero 14 da Via Bellini. "Os pais e as irm ãs vivem m om entos
de extrem a tensão", escreveu. "O telefone não para de tocar, j ornalistas e fotógrafos fazem fila em frente à porta. O pai, de 53 anos, é hom em de poucas palavras: Toda a vida trabalhando para garantir o porvir de m inhas filhas... do casam ento, m elhor falar quando houver acontecido, ou m elhor seria não ter que falar disso nunca, declarou em um tom que deixa intuir que está sentido. Sua m ulher, Paola, de 45 anos, não consegue conter as lágrim as. Fico aterrorizada com a idéia de m inha filha ir m orar em um lugar tão distante, declarou. Perguntados pelo nam orado, acrescentaram : É um rapaz tranqüilo, educado e sério. E quanto a se iriam à celebração, o pai respondeu: Receio que o desej o de Sônia não poderá ser realizado. Só m inha m ulher irá, eu tenho m uito trabalho e não posso perder tem po. Estarei com m inha filha no pensam ento."
IA SER UM CASAMENTO CIVIL, não podia ser um casam ento religioso. Um casam ento sim ples, não um extravagante casam ento "à la indiana", que dura vários dias. Indira era contrária à pom pa e ao desperdício dos casam entos indianos, feitos para exibir relações, poder e dinheiro. Os Nehru não precisavam se exibir. Mas precisavam de espaço para viver. A vila colonial que o governo havia designado a Indira ao ser nom eada prim eira-m inistra era m uito pequena, tanto que as secretárias e os assistentes trabalhavam sob coberturas no j ardim . Dando ao novo casal um quarto e um a pequena sala na parte dos fundos, com saída independente para o j ardim , ficariam ainda m ais apertados. De m odo que Indira estava em tratativas com seu gabinete para aum entar a casa. Logo os operários iniciaram as obras.
O alvoroço dos preparativos absorveu de repente todos os m em bros da fam ília, especialm ente Sônia. Não gostava nem um pouco de ter que trocar suas calças j ustas por um sári, um a peça na qua l se achava ridícula. Não conseguia sentir-se à vontade porque vivia com m edo de que a qualquer m om ento os seis m etros de tecido em que estava enrolada viessem abaixo. Via-se com o essas turistas de pele m uito branca que se pavoneavam vestindo sáris berrantes. Claro que para elas era um a brincadeira, um a fantasia para bater um a foto e m ostrá-la na volta a seu país; para Sônia, o sári era m uito m ais. Marcava o prim eiro passo em seu processo de indianização. Cedo ou tarde, teria que se acostum ar.
Precisavam cuidar de um a variedade enorm e de detalhes: listas de convidados, os convites, provas de penteado, de m aquiagem etc. Sônia estava aturdida, porque, além de tudo, não entendia m uito bem o inglês dos indianos, im pregnado de um forte sotaque. No fundo, queria que tudo acabasse o antes possível. Sua proverbial tim idez a im pedia de se sentir à vontade sendo o f oc o de atenção, m as não podia fazer nada para im pedir. Foi literalm ente assediada por fotógrafos no dia de sua prim eira saída em fam ília, com o noiva oficial de Raj iv, para assistir a um desfile de m odelos de Pierre Cardin no Hotel Ashok de Nova Délhi. Um a extensa reportagem deu conta do evento na revista Fem ina. Sônia estava m uito bonita, com o cabelo liso caindo sobre seus om bros, cobertos por um sári de seda estam pado, sentada entre Raj iv e Sanj ay enquanto falava com Indira. Um a foto que augurava um a perfeita harm onia fam iliar.
Na saída, Sônia respondeu a um a insidiosa pergunta de um j ornalista: "Vou m e casar com Raj iv a pessoa, não com o filho da prim eira-m inistra". Era inevitável que m uitos a vissem com o um a aproveitadora, um a am biciosa que havia pescado um peixe grande, e isso a m ergulhava em um estado de profunda tristeza e indignação. Quando outra j ornalista lhe perguntou o que pensava do fato de m orar na índia, tão longe de sua casa, Sônia ergueu os olhos para Raj iv, e exibindo um sorriso tím ido, disse: "Com Raj iv, eu iria até o fim do m undo".
E A ÍNDIA NÃO ERA O FIM DO MUNDO naqueles dias? Para a fam ília Maino, era, e m al tiveram tem po de se organizar. No fim , só foram a m ãe de Sônia, sua irm ã Anushka e o tio Mario (irm ão de sua m ãe), que substituiria o pai entregando a m ão de sua j ovem sobrinha. Chegaram na véspera do casam ento, quando era celebrada, no j ardim da casa dos am igos onde Sônia se hospedava, a cerim ônia do m ehendi, que equivalia a um a despedida de solteira da noiva. Em bora, tradicionalm ente, nem o noivo nem seus pais devam participar, nessa ocasião fizeram um a exceção, e tanto Raj iv quanto sua m ãe estavam presentes, porque queriam cum prim entar os fam iliares que haviam chegado da Itália. Indira foi gentil e extrem am ente atenciosa com P aola, que se sentia entre intim idada e im paciente para ver a filha. Procurava-a por todos os lados com o olhar. Quando lhe m ostraram onde estava, assustou-se:- Oh, m am m a m ia!
Quase se desfaz em lágrim as. Não a havia reconhecido porque Sônia estava com a cabeça coberta por um véu verm elho e roxo, com um a saia verm elha até os pés, típica da Caxem ira, e um sutiã verm elho bordado. Usava pulseiras, colares e um a tiara confeccionada com pétalas de nardos e j asm ins - "j oalheria floral", diziam - e um tilak na testa, o ponto verm elho que sim boliza o terceiro olho, esse que é capaz de ver além das aparências. Suas m ãos, seus braços e seus pés estavam totalm ente cobertos de curiosas tatuagens feitas à base de hena, um a pasta extraída dos r a m os m oídos de um arbusto, tatuagens que traçavam graciosos arabescos e intrincados desenhos. Quando se recuperou do susto de ver sua filha assim , sua m ãe a abraçou: "Melhor seu pa i não a ter visto assim ", disse com ovida. O pobre Stefano, a 8 m il quilôm etros de distância, estava triste. Confessou a seu m elhor am igo, o m ecânico Danilo, no bar do Nino: "Vão j ogá-la aos tigres!". Que razão tinha o antigo pastor dos m ontes Asiago!
A seguir, um as j ovens cercaram Anushka e Paola e se ofereceram para pintar suas m ãos. Enquanto lhes aplicavam hena, explicaram a tradição: quanto m ais pretos saíssem os desenhos nas m ãos da noiva, m ais am or teria no casam ento. E quanto m ais tardassem a se apagar, m ais tem po duraria a paixão. Paola e Anushka olharam para os arabescos de Sônia: eram pretos, com o se houvessem sido pintados com nanquim .
O casam ento propriam ente dito foi celebrado no dia seguinte, às 18h, no j ardim do núm ero 1 da Safdarj ung Road. Indira havia procurado em seus arm ários o sári que queria que Sônia usasse, o m esm o que ela havia usado, o que Nehru havia fiado durante suas longas horas de prisão, depois de aceitar a vontade de sua filha de se casar com Firoz. Sônia o reconheceu, j á o havia visto na exposição de Londres, e vieram a sua m em ória as palavras de Raj iv: "Tom ara que você o use um dia!". Na ocasião, levara-as com o um a brincadeira. Ainda sonhava se casar de branco. Agora, encarava-o com o um a honra e um sinal de afeto, sem suspeitar por um m om ento que ao vestir esse sári verm elho-pálido passava a fazer parte, ela tam bém , da história da índia.
Um pequeno incidente deixou Raj iv enfurecido; ele descobriu que havia dois j ornalistas entre os convidados. Essa era sua celebração, e não queria interferências nem propaganda. Nesse dia queria ser apenas Raj iv, e não o filho da m áxim a autoridade do país, coisa que não deixava de ser um a ingenuidade. Negou-se a sair da casa enquanto os paparazzi não fossem expulsos. Indira teve de acalm á-lo, com m uita paciência. Quando a m archa nupcial de Mendelsohn anunciou a chegada da noiva, ele serenou. Raj iv saiu para receber Sônia no j ardim , onde havia uns duzentos convidados, entre am igos e conhecidos da fam ília. Quando a viu entrar, segurando o braço de seu tio Mario, seu rosto se m odificou. Sônia estava m aravilhosa. Era a própria im agem da elegância, o cabelo preso para trás em um laço e um broche em pétalas de j asm ins, a pele resplandecente por causa da m áscara de cúrcum a que lhe haviam feito um as horas antes, um a sim ples pulseira de prata no pulso, os olhos pintados de khol e o rosto em oldurado por brincos de flores. Form avam um belo casal. Ele usava calças estreitas brancas, um a longa j aqueta crem e abotoada até o pescoço, um turbante salm ão (com o seus am igos e prim os) e sapatilhas com a ponta curvada para cim a, com o um príncipe das Mil e um a noites. Depois da troca ritual de guirlandas, dirigiram -se para um canto do j ardim onde, ao redor de um a m esa resguardada por um enorm e biom bo feito tam bém de flores passadas por cordas que pendiam , encontravam -se os fam iliares m ais próxim os. Assinaram o registro civil e trocaram as alianças. Sônia lutava para controlar suas em oções. Cada vez que cruzava seu olhar com o de sua m ãe, sentia vontade de chorar. Então, preferia buscar o olhar de Raj iv para encontrar forças. O tio Mario parecia perdido; olhava para sua sobrinha com carinho e certa condescendência. Paola m anteve a pose, m as, por dentro, aquele casam ento sem sacerdote lhe causava um a dor infinita. As palavras de Raj iv, que leu uns versos do Rigveda escolhidos especialm ente por sua m ãe, puseram o ponto final à cerim ônia:
Suave sopra o vento, suave flui o rio, que os dias e as noites nos tragam felicidade, que o pó da terra produza felicidade, que as árvores nos façam felizes com seus frutos, que o Sol nos envolva de felicidade…
E isso foi tudo. Os noivos saíram do recinto e receberam um a chuva de pétalas de flores e o estrondo de fogos de artifícios sabiam ente orquestrados por Sanj ay. A cerim ônia não podia ser m ais sim ples. Assim quisera Indira, sem a hipocrisia de ter que contentar os hindus ortodoxos que exigiam um a cerim ônia religiosa com pleta. Quando ela se casou, Nehru havia lhe pedido que aceitasse fazer isso pelo rito hindu, dando sete voltas AO redor do fogo sagrado e ouvindo m antras interm ináveis, porque não queria encrenca com eles. Ela havia concordado, m as agora tinha a revanche. Indira era m ais dura que seu pai. De fato, não havia chorado durante a cerim ônia de seu próprio casam ento. Nehru sim , ficara com os olhos um edecidos.
À tarde, Sônia j á havia levado suas coisas da casa onde estivera aloj ada para sua nova residência. As obras haviam servido para am pliar a sala principal, que Indira havia m obiliado em tons rosa pastel e verde-m usgo; um a porta corrediça dava para um local com árvores enorm es e arbustos, entre os quais revoavam pássaros e borboletas.
De pois da festa, dirigiu-se a seu novo lar, um quarto grande e confortável que havia sido acrescentado nos fundos da casa e que ainda cheirava a gesso. Sua m ãe havia trazido roupa da Itália, alguns livros e discos e os j ornais do avião, porque tem ia que sua filha ficasse nostálgica. Sentada na cam a, Sônia deu um a olhada nas m anchetes. "O vento faz trem er a Torre de Pisa", "Lucía Bosé pediu a custódia de seus filhos", e um a entrevista com o prim eiro hom em que havia vivido quinze dias com um coração transplantado, um sul-africano cham ado Blaiberg. Pareciam notícias de outro planeta para ela. Notícias de um m undo que j á não era o seu. Enquanto Raj iv tirava o aparatoso turbante em frente ao espelho do banheiro e vários criados entravam e saíam olhando-a de soslaio, Sônia sentiu vertigem ao pensar que j á não havia m ais volta. A sorte estava lançada. Com o havia chegado até ali? Ela m esm a estava surpresa com a força que havia tido para atingir seu propósito. Ela, que sem pre se m ostrara inim iga da confrontação, tivera de esticar a corda com sua fam ília até um ponto de que se j ulgava incapaz. À felicidade por ter conseguido, à felicidade de sentir tão perto a presença de Raj iv, m esclava-se um a profunda sensação de surpresa, e tam bém de pena. Pena por seu pai. Pena por não poder dividir o m om ento m ais im portante de sua vida com todos os que am ava, com suas am igas do bairro, com suas antigas professoras, com seus colegas... Pena por ter que dizer adeus à infância, aos pais, a sua cidade, a seu país. Pena por sua m ãe, porque Sônia era capaz de adivinhar em seu olhar tudo o que a podia atorm entar, desde os costum es "exóticos" até o fato de viver assim , na casa da fam ília, com a sogra no fundo do corredor, por m ais prim eira-m inistra que fosse. Ao forçar a situação, a harm onia fam iliar dos Maino se ressentira, e Sônia se sentia culpada. Mas a vida a havia colocado nessa tram a e, a partir do m om ento em que havia segurado a m ão de Raj iv em resposta a seu tím ido avanço, lá nos j ardins da catedral de Ely, foi conseqüente consigo m esm a. Ninguém estranhou essa m elancolia porque a tradição indiana contem plava a saída de um a filha da casa de seu pai para a casa da fam ília de seu noivo com o um m om ento de grande angústia. A m aioria das noivas indianas chora e seus am igos e parentes m ostram -se m uito pesarosos. Sônia n ã o ia chorar, m as estava com o coração cheio de dor. Os eventos sucediam -se m uito rapidam ente para apiedar-se de si m esm a.
No dia seguinte, à tarde, houve um a recepção no Hy derabad House, um palácio de estilo anglo-m ongol que o Nizam de Hy derabad m andou construir em 1928 para dar de presente a um a a m a nte , e que agora, sob o controle do governo, servia de residência para dignitários estrangeiros. Organizavam -se ali, tam bém , grandes eventos de m ídia ou entrevistas coletivas. Ce r c a de m il pessoas com pareceram - am igos da fam ília, colegas do partido, políticos, diplom atas, j ornalistas, artistas etc. - todos apresentando à entrada o convite dourado que haviam recebido do gabinete da prim eira-m inistra, desej osos de conhecer de perto a noiva estrangeira para j ulgar por si m esm os se tudo o que haviam ouvido, tão díspar e deturpado pelas fofocas, era verdade. Sônia, vestindo o m aravilhoso sári, sentia-se com o um anim al em um zoológico.
Sentia que as m ulheres a atravessavam com o olhar, tentando adivinhar de que era feita. A m aioria havia viaj ado para o estrangeiro, tinha ciência de quão diferente a índia era da Europa. Algum as olhavam para ela com dó, outras com invej a, outras com genuína sim patia. Chegou a hora do j antar, no chão, à m aneira da Caxem ira.
A o som de um a pequena orquestra de m úsica clássica indiana, os convidados degustaram suculentos pratos típicos com arom as de canela, cardam om o, açafrão e cravo: cordeiro com nabo, frango com espinafre, peixe com raiz de lótus... Tam bém havia batatas em m olho de iogurte ou queij o fresco frito para os vegetarianos. Os fam iliares de Sônia puderam j antar com ida italiana, e os tios de Raj iv, com ida parse. O delicioso chá verde da Caxem ira, o Kavha, foi servido no final. Mas não foi um a recepção ostentosa. "O orçam ento era pequeno", confessaria Usha, a secretária de Indira.
Tam bém não havia orçam ento nem tem po para um a bela viagem de núpcias. Mas Raj iv queria m ostrar um pouco da índia aos parentes de Sônia, de m odo que foram todos para Raj asthan, a índia rom ântica, terra de antigos senhores feudais, a região m ais espetacular do subcontinente. Achavam incrível que tão perto de um a cidade com o Délhi existissem aldeias m edievais, sem luz nem água corrente, m as de um a deslum brante beleza, onde na praça do m ercado encontravam -se todos os ofícios da índia: vendedores de roupa usada, dentistas am bulantes, cam poneses de cócoras ao lado de suas barracas de verduras, alfaiates, ferreiros, carpinteiros, j oalheiros... Cabras, vacas e cam elos pululavam entre m ontes de essências de todas as cores - pó de açafrão ocre, de cúrcum a am arelo, de pim enta-m alagueta verm elha m oída. A cam inho do parque nacional de Rantham bore, viam pelo cam po m anchas am arelas, verm elhas, m alva, rosa, que e ra m os turbantes de lavradores e pastores que cam inhavam por entre o pó ocre que seus rebanhos levantavam . Suas m ulheres se vestiam nos m esm os tons; ostentavam j óias de prata velha e pedras sem ipreciosas e pareciam princesas, em vez de cam ponesas.
Rantham bore era um parque natural criado em 1955 em um a zona sem isselvagem para proteger a sobrevivência do tigre. Um a im ensa fortaleza, que conservava em seu interior tem plos em ruínas, palácios e cenotáfios aprisionados por raízes de ceibas gigantescas, dom inava o parque do a lto de um prom ontório. Em baixo, entre colinas cobertas de vegetação e lagoas de águas prateadas, podiam ver-se cervos, antílopes, ursos, chacais e j avalis. Com um pouco de sorte, um tigre ao am anhecer. Raj iv gostava desse lugar porque reunia duas paixões suas: o am or pelos anim ais e pela fotografia. Além do m ais, pensou que a fam ília de sua m ulher levaria um a boa lem brança da índia, porque nessa selva não se via m iséria hum ana.
Raj iv contou-lhes que ele e seu irm ão haviam passado a infância cercados de anim ais, desfrutando de um verdadeiro zoológico nos j ardins da Teen Murti House. Muitos dos anim ais eram presentes que chefes de Estado ou políticos nacionais faziam a seu avô. Tiveram louros, pom bos, esquilos, um crocodilo e um panda do Him alaia cham ado Bhim sa, presente do estado de Assam para seu avô. Tam bém tiveram três filhotes de tigre. Raj iv os adorava, e um de seus grandes desgostos quando m enino foi quando seu avô decidiu se desfazer de um para dá-lo de presente ao m arechal Tito.
De volta a Délhi, pararam em um a aldeia onde estavam celebrando um casam ento. Era um verdadeiro casam ento hindu, cheio de cores e de barulho. O noivo, rosto coberto por um a cortininha feita de flores, apareceu m ontado em um a esquálida égua branca coberta com um tapete de veludo bordado com ouro. Ao som de tam bores e pandeiros, avançava serpeando para sua noiva, que o esperava sob um a tenda. As fam ílias estavam m uito orgulhosas por forasteiros assistirem à cerim ônia, e logo lhes ofereceram chá e doces, enquanto o rapaz desm ontava. O sacerdote convidou, então, os noivos a se conhecerem oficialm ente. Lenta e tim idam ente, cada um deles afastou o véu do outro com sua m ão livre. O rosto alegre do rapaz surgiu diante do olhar tím ido da noiva, um a m enina que não devia ter m ais de doze anos, frágil e assustada com o um passarinho. Sua fam ília a observava com um a em oção m al contida. Raj iv fazia as vezes de intérprete, não só com o idiom a, com o tam bém com os costum es. Esse sim ples casam ento, que parecia tão ingênuo e inofensivo, escondia vários m ales da índia, verdadeiras doenças sociais. Os casam entos infantis com o esse expunham m eninas a ser m ães, com a conseqüente m ortalidade e problem as de saúde para a m ãe e o bebê. Além do m ais, os pais da noiva, que pareciam cam poneses pobres, com certeza haviam se endividado durante m uitos anos para pagar o dote, requisito indispensável para casar um a filha. Sim , tudo isso era m uito bonito e m uito pitoresco, m as esses costum es m antinham os pobres m ergulhados na m iséria. Foi ali que Sônia ouviu falar pela prim eira vez do costum e do sati, que ainda se praticava esporadicam ente nessa região.
Os com ensais com entavam um caso recente, não m uito longe de onde se encontravam , que havia sido um escândalo nacional. Um a j ovem viúva havia se j ogado à pira funerária do m arido. A polícia havia investigado o caso sem conseguir descobrir a verdade. As opiniões dos convidados ao casam ento estavam m uito divididas: uns diziam que a viúva era um a santa por ter tido a coragem de se transform ar em sati, outros que havia sido drogada e forçada a pular à fogueira para que não herdasse nenhum bem do m arido... Raj iv inclinava-se pelo últim o. Com o conseguir m odernizar esse país? - parecia perguntar-se, pensando na enorm e tarefa que coubera a sua m ãe, enquanto dirigia o carro de volta a Délhi.
CHEGOU A HORA DE SÔNIA SE DESPEDIR de sua fam ília. Acom panhou-os ao aeroporto. Depois de abraçar sua m ãe, e talvez porque percebeu a dor que esta sentia ao abandonar sua filha, Sônia desm oronou e com eçou a soluçar. Para sua m ãe, essa era a verdadeira despedida: uns voltavam para casa, para o lar de sem pre; Sônia perm anecia nessa terra estranha, sozinha, sem eles. Nunca com o nesse m om ento a realidade havia se m ostrado com tanta crueza, tanta que fazia m al. Am bas eram um m ar de lágrim as, e não eram especialm ente propensas ao pranto, o que tornava a cena ainda m ais lancinante. Escreva m uito, ligue sem pre...
Eu prom eto, m am m a.
No carro que a levava de volta para casa, Sônia secava o rosto enquanto vinham a sua m em ória flashes de m om entos felizes de sua infância em Lusiana, quando ia ordenhar as vacas com seu pai e sua m ãe, ou quando am igas e prim as chegavam para com em orar seu aniversário cheias de presentes. Com o parecia longe essa vida! Ficando na índia, percebia agora que com eçava do zero. Tanta tensão e tanta agitação a haviam deixado esgotada e deprim ida. Precisava ver Raj iv o antes possível. Só ele podia consolá-la, porque ele era a j ustificativa de toda sua angústia.
Mas Raj iv não estava em casa, estava em seu curso, no aeroclube. Sônia foi para seu quarto. Se seu m arido não estava, então preferia ficar sozinha, deitar-se na cam a e chorar todas as lágrim as, conj urar a m elancolia esperando seu retorno. Mas, assim que abriu a porta, viu um envelope em cim a da cam a, com tim bre do gabinete da prim eira-m inistra. Abriu-o. Era um bilhete de Indira que dizia: "Sônia, todos nós a am am os m uito". Então, seu rosto se ilum inou. A m elancolia se evaporou com o por encanto, ela sorriu e saiu de seu quarto.
A vida cotidiana na casa dos Gandhi com eçava cedo, quase ao raiar do sol. Quando Sônia acordava, Indira j á estava no fundo do j ardim em sua conversa diária cercada pelos pobres que iam até lá ter seu darshan. A seguir, em barcava em seu carro oficial, que a levava a seu escritório em South Block, onde passava toda a m anhã. À tarde, costum ava ir trabalhar em seu escritório pessoal, que fazia as vezes de sede do Congresso, e que ficava m uito perto de sua casa, no núm ero 1 da Akbar Road, a uns 50 m de distância. Era um a agradável cam inhada pelo j ardim , sem pre verde e com canteiros de flores e plantas arom áticas. O governo acabava de ceder-lhe essa casa para que todos coubessem nela.
Raj iv tam bém saía cedo para suas aulas de voo. Foi aprovado sem dificuldade no exam e de piloto com ercial e agora fazia estágio na com panhia nacional Indian Airlines. Pilotava um DC-3, o fam oso Dakota, o avião de seus sonhos de infância. Seu irm ão Sanj ay estava absorto na tarefa de desenhar um carro autóctone, adaptado às estradas da índia. Cada m em bro da fam ília levava um a vida independente, m as Sônia passava m uito tem po sozinha. Um tem po que lhe perm itia observar a agitação e o rebuliço de um a grande casa indiana e adaptar-se ao calor, que chegou de de repente. Um calor seco, intenso e abrasador que crescia a cada dia, irrem ediavelm ente, e que continuaria aum entando até as chuvas de j unho, se este ano chegassem a tem po. Não gostava de ar condicionado porque tem ia que lhe provocasse crise de asm a; preferia ficar em baixo das pás dos ventiladores de teto. Entendeu por que os em pregados se m oviam com tanta lentidão. No início achava que eram preguiçosos; agora com preendia que o calor, parecido aoferragosto da Itália - só que estavam em m arço - am olecia os m úsculos e o ânim o. Os em pregados eram poucos para um a casa com essas características
O norm al seria um m ínim o de dez ou quinze criados, cada um encarregado de um a tarefa específica de sua casta.
Nehru e Gandhi haviam se encarregado de suprim ir oficialm ente as castas na Constituição da nova nação independente, m as elas continuavam influenciando as condutas, principalm ente nos estratos m ais baixos da sociedade e nas zonas rurais. Os Nehru não conseguiram vencer essa hierarquização da vida dom éstica nem em suas casas, por m ais que houvessem tentado. Não era fácil apagar com um a canetada m ilhares de anos de história. De m odo que a tradição continuava im perando, e quem servia à m esa não era o m esm o que a recolhia, o m otorista dirigia, m as não lavava o carro; a cozinheira cozinhava, m as não lavava os pratos; os que varriam o chão não lim pavam os banheiros etc. Os Nehru contentavam -se com m enos pessoal que o usual, m as ainda assim Sônia não estava acostum ada à eterna presença dos criados, que, deslizando silenciosam ente pelos corredores, davam -lhe uns sustos terríveis. Talvez o que m ais a incom odasse fosse que parecia nunca estar protegida de olhares indiscretos, nem m esm o na privacidade de sua casa. Mais de um a vez, depois de ter se trancado em seu banheiro, sobressaltara-se ao encontrar o encarregado da lim peza - um hom em ossudo e de pele queim ada- de cócoras, com um pano na m ão, em um cantinho. Pouco a pouco, aprendeu a m esm a coisa que as esposas dos diplom atas destinados à índia precisavam aprender: a conviver com esse enxam e de gente, a saber m andar, a ter paciência com os sweepers, os varredores, que só deslocavam o pó de um lugar para o outro, a dirigir-se a cada um segundo sua categoria ou sua religião, de m aneira que em nenhum m om ento sintam que "perdem casta", a levá- los ao m édico quando ficam doentes porque não existe previdência social etc.
NEM MESMO A CASA DA PRIMEIRA-MINISTRA escapava do m ovim ento da vida cotidiana nas cidades indianas. No m eio da m anhã, Sônia ouvia os pitorescos revendedores am bulantes anunciando na rua suas m ercadorias com vozes m elodiosas. Uns em purravam carrinhos repletos de verduras e frutas, outros carregavam caixas cheias de doces, traziam leite ou os j ornais... De vez em quando, um hom em com um m acaco dançarino e uns ursos cham ava para oferecer seu espetáculo.
Tam bém vinham vendedores de tecidos com seus fardos de toalhas de m esa, tecidos à m ão, lisos ou estam pados, do m ais fino algodão ou de seda crua, m ulticoloridos ou brancos. O alfaiate se sentava na varanda costurando a m anhã toda, enquanto Sônia olhava fascinada as pulseiras de cristal polido oferecidas por um vendedor am bulante que os em pregados haviam deixado entrar pensando que a distrairia. As portas e j anelas abertas para o j ardim deixavam entrar os arom as da s flores e do gram ado recém -cortado e úm ido, m as que am arelava conform e passavam os dias.
Freqüentem ente, Sônia aparecia no escritório onde as duas secretárias particulares de sua sogra trabalhavam . Um a delas, Usha, lem bra ela que ia lhe fazer todo tipo de perguntas sobre coisas indianas: com o se aj usta um sári? Com o com em oram os aniversários? Que presente se leva à festa do prim eiro corte de cabelo de um bebê? Com o se diz "feche a porta" em híndi? E outras coisas. Elas brincavam dizendo que ela não tinha um a, e sim três sogras. Ela m al via a verdadeira, tão ocupada estava Indira, m as a presença dela sem pre se fazia notar. Era a pessoa central da fam ília. Um dia, Sônia entrou no escritório de Usha m uito alterada, e segurava um bilhete que Indira havia deixado expressando seus pontos de vista sobre certos aspectos, a m aioria críticos, com o o fato de Sônia se negar a aprender híndi ou se r tão paradinha diante dos que não conhecia. Por que não m e diz pessoalm ente, em vez de escrever um bilhete?", perguntava a italiana à beira das lágrim as.- Para a senhora Gandhi é difícil se com unicar - respondeu Usha - ela é um a m ulher bastante introvertida. Mas não se preocupe com esse negócio das cartas, ela tam bém se com unicava assim com o m arido e com o pai.
A tim idez de Sônia e talvez um certo com plexo chegavam a paralisá-la tanto que isso se tornava um problem a na hora de receber visitas im portantes, ou sim plesm ente na hora de socializar. Afora os am igos de seu m arido e de seu cunhado, com quem j á tinha contato, era m uito difícil para ela quebrar o gelo e abrir-se para as pessoas. No fundo, continuava sendo a pequena cam ponesa dos m ontes Asiago, a estudante de um a província italiana transplantada para outro planeta, a casa de um a prim eira-m inistra, onde sem pre entrava e saía gente de todo tipo e condição. "Durante m uito tem po, Sônia foi m uito retraída", contaria Usha. "Era um a tarefa com plicada persuadi-la de algum a coisa."
Indira, a despeito de estar m uito ocupada, não perdia de vista os assuntos da casa e esforçava-se para que sua nora saísse de sua carapaça: "Seria m aravilhoso se você pudesse convencer Sônia a vir esta noite. Mas não a force se ela realm ente não quiser", dizia um bilhete a sua secretária. Tanto Raj iv quanto sua m ãe eram personalidades bastante reservadas, de m odo que entendiam que Sônia precisasse de tem po para se aclim atar a essa nova vida. Procuravam pressioná-la o m enos possível, porque viam que lhe custava m uito acostum ar-se. Aqui não podia fazer coisas sim ples, com o sair para passear com um a am iga, por exem plo. As longas avenidas de Nova Délhi não eram feitas para cam inhar, as distâncias eram m uito grandes para percorrê-las a pé. Além do m ais, aquela parte da cidade era puram ente residencial, não havia loj as.
A restrição de m ovim entos, a com ida, o calor e a distância dos seus provocavam nela ataques de saudade que a revista italiana Oggi que sua m ãe lhe m andava pontualm ente a cada sem ana m al conseguia m itigar. Estava entre dois m undos sem se firm ar em nenhum deles.
Lem brava-se de seu pai e de suas advertências, e havia m om entos em que gostaria de pegar o telefone e falar com ele, m as Sônia era forte e sabia que precisava agüentar. A presença de Raj iv, à noite, costum ava acalm ar suas angústias.
EM MAIO, FAZIA TANTO CALOR que Indira convidou Sônia a acom panhá-la em um a viagem oficial ao reino do Butão, um pequeno país ao pé do Him alaia que vivia totalm ente afastado do m undo, pensando que lhe faria bem m udar de ares. Para lhe fazer com panhia, tam bém convidou a filha do m inistro de Assuntos Exteriores, Priti Kaul, que tinha a m esm a idade de Sônia. Foram só dois dias de viagem , m as se divertiram m uito. Assim que desceram do helicóptero, foram recebidas pelo rei Dorj e Wangchuk, hom em m uito afável, devoto budista e m onarca absoluto que m antinha seu reino isolado do exterior. A tem peratura era perfeita; dava vontade de beber o ar cristalino.
Que alívio! - pensou a italiana ao sentir a brisa fresca da m ontanha acariciando seu rosto, com o quando fazia excursão nos Alpes. Ali não havia teleféricos nem restaurantes, e sim bandeirinhas de rezas que flutuavam ao vento, espalhando as orações Dudistas pela cordilheira do Him alaia, que m ostrava seus picos acerados contra um céu intensam ente azul. Não havia nada que pudesse ser considerado "m oderno". Praticam ente não existia o trânsito de veículos, exceto algum as m otocicletas, e as pessoas se vestiam à m aneira tradicional, com um a espécie de avental colorido m uito pitoresco. Andavam a cavalo ou de carros puxados por bois parecidos com da que s. A com itiva chegou ao im ponente m osteiro de Tashichhodzong, que dom inava um a paisagem um inosa de m ontanhas de cristas brancas em cuj as faldas havia bancadas douradas de cevada que desciam para o vale com o um a gigantesca escada. Era com o um a viagem à Idade Mé dia : não existia televisão, não havia prisão nem delinqüência, a única concessão à m odernidade era a eletricidade, m as só durante duas horas por dia. O próprio rei as acom panhou a seus aposentos, três quartos e um banheiro, tudo bastante nodesto, explicando-lhes que eram os dele próprio. Na época, não existia infra-estrutura hoteleira em Tim pu, a capital, que parecia m ais um a aldeiazinha, de m odo que cedera a seus hóspedes o m elhor que tinha. Depois do banquete, no qual Indira e o m onarca falaram sobre com o dem ocratizar o reino e ao m esm o tem po preservá-lo das influências nefastas da m odernidade, as garotas voltaram ao quarto. Sônia descobriu um a portinhola no chão, debaixo de um tapete. Morrendo de curiosidade, as duas levantaram -na e viram um quarto com um catre, sim ples, parecido com o quarto de um m onge. De repente acendeu-se um a lanterna e vislum braram o rei, quase nu, que se preparava para deitar.