O Sári Vermelho

Javier Moro · Capítulo 2 de 6 · parte 2/6

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O Sári Vermelho

Ato I - a Deusa Durga Cavalga um Tigre

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Contou-lhe sua paixão pela fotografia, por m úsicos de j azz com o tan Getz, Zoot Sim s e Jim m y Sm ith, m as tam bém apreciava os Beatles e Beethoven. Mas sua verdadeira paixão era voar, e havia surgido aos catorze anos, no dia em que seu avô Nehru o levara para dar um a volta em um planador: "O som do vento, a sensação de total liberdade, a im pressão de estar fora de tudo... é algo fantástico. Fiquei viciado para sem pre". E a beleza de voar sobre as planícies do norte da Índia, com seus rios sinuosos, suas aldeiazinhas cercadas de cam pos verdes e pardos onde até o m enor pedaço de terra está cultivado... Depois dessa experiência, tornou-se m em bro do Aeroclube de Délhi e, cada vez que voltava de férias, saía de planador para dar um a volta e esquecer o m undo. Agora tinha vontade de tentar voar com m otor, e brincava com a idéia de se tornar piloto.

Para Sônia, esse rapaz abria as portas de um m undo desconhecido que brilhava com o as estrelas no firm am ento. Era um rapaz doce, prático e ao m esm o tem po um pouco sonhador, e, acim a de tudo, inspirava-lhe confiança. Falava com total naturalidade, e não se exibia porque não precisava. Era o contrário de um fanfarrão, o contrário do típico conquistador italiano que tão bem conhecia. Cam inhando ao lado dele, parecia-lhe de repente que essas ruas não eram as de sem pre, que estava em outra cidade m uito m ais bonita que a que havia conhecido até então. Raj iv a fazia sonhar, tirava- a de sua concha, fazia com que se esquecesse de si m esm a e da saudade que havia sentido até então. Essa noite, ao deixá-la em casa, ele se declarou a sua m aneira um pouco desaj eitada, dizendo que era a prim eira garota de quem gostava de verdade, e que esperava que fosse a única. Disse isso com tanta candura que era difícil não acreditar.

Mas, ainda assim , Sônia continuou lutando para tirá-lo da cabeça, porque era teim osa e porque seu coração oscilava com o um pêndulo, dividido entre a razão e o desej o. Presa em um turbilhão de sentim entos contraditórios, sentia vertigem com o se estivesse à beira de um precipício, hesitando, com m edo de cair. O que represento no m undo desse rapaz? Que tenho a ver com um m enino m im ado a quem seu célebre avô levava para passear de planador?

Por que m e deixo deslum brar? Sônia se vangloriava de ter os pés na terra, e tinha. Mas, quanto m ais ficava obcecada, m ais distante se m ostrava com ele, e essa aparente frieza era, para ele, um estím ulo ainda m aior para seduzi-la. A realidade era que pensava nele dia e noite, com o se houvesse se transform ado em sua própria respiração.

Quando não estava com ele, procurava a com panhia das garotas de sua classe com a única finalidade de falar dele e de seu encanto arrebatador. O sentim ento que a dom inava serviu-lhe de estím ulo para aprender inglês m ais rapidam ente e m elhor, tal era a necessidade de estar à altura, de não perder os m atizes da conversa com Raj iv e seus am igos. Nada com o o am or para aprender bem um idiom a! - disse a si m esm a, surpresa ao notar que de repente entendia um a conversa, um noticiário, um artigo no j ornal.

Mas era extenuante viver sem pre rem ando contra a m aré, questionar essa atração que a enchia de esperança e, um instante depois, de dúvidas e tem ores. Cansada desse vaivém que a levava da euforia à m elancolia, um dia parou de lutar e abandonou-se em seus braços, quando ainda retum bava em seus ouvidos a m úsica de Gerry Mulligan vinda de dentro de um bar da m ovim entada Sy dney Street.

De braços dados com Raj iv, a vida adquiria outro tom , outro sabor. Os passeios pelo rio em um a canoa que ele conduzia com o um verdadeiro gondoleiro por trás dos colleges, as vistas do alto da Igrej a de St. Mary de que desfrutavam sentados no gram ado e com endo um sanduíche, o cheiro dos parques depois da chuva... A coisa m ais anódina ganhava um destaque inesperado. Um a noite foram ao Les Fleurs du Mal ouvir m úsica ao vivo e dançar twist, o ritm o que fazia furor na época e que Sônia dançava m uito bem . Cam bridge era, de repente, a cidade m ais rom ântica do m undo, e ela j á não queria estar em nenhum outro lugar para desfrutar do presente. Um presente que consistia em se verem todos os dias, irem de bicicleta da casa de um à casa do outro, fazerem piquenique, planos de fim de sem ana... Raj iv gostava m uito de fotografia, e logo ele, sua câm era Minox e Sônia form aram um trio inseparável: ele havia encontrado sua m usa perfeita e não parava de retratá-la. O rom ance atingiu tam anha intensidade que o dono do Varsity, Charles Antoni, disse que nunca havia visto "um casal tão apaixonado... parecia coisa de novela".

O presente tam bém era viaj ar no fusca que Raj iv acabou com prando de seu am igo por algum as libras. Percorreram a cam pina inglesa, visitaram Londres e desfrutaram de um a liberdade que nesse m om ento parecia não ter fim . Quando o pára-brisas quebrou, continuaram usando o carro, m as enrolados em m antas.

Raj iv vivia com o qualquer estudante inglês, trabalhando nas férias para conseguir dinheiro extra. Havia sido vendedor de sorvetes, em outro ano havia trabalhado na colheita de frutas, carregando cam inhões ou fazendo o turno da noite em um a padaria. "Cam bridge m e deu um a visão do m undo que eu nunca teria tido se houvesse ficado na índia", lem braria Raj iv m ais tarde. Em Sônia, encontrou um a perfeita aliada. Ela era inim iga das estridências e extravagâncias e desej ava o que havia conhecido, um a vida tranqüila e estável, sem sobressaltos nem sustos. Se Sônia percebia a diferença tão grande que a separava dele, tam bém viu os pontos que tinham em com um .

Am bos eram de natureza tím ida e não buscavam protagonism o de nenhum tipo. Nem o sucesso nem a notoriedade cham avam a atenção deles. Ao contrário, eram dos que m ais fugiam . "Não se interessavam pelo m undo exterior nem pela vida m undana... Valorizavam acim a de tudo a privacidade", diria Christian. Am bos tinham um conceito m uito parecido de vida fam iliar, talvez porque em suas respectivas culturas a fam ília é o valor suprem o. Raj iv não tinha am bição política, gostava das questões técnicas e das atividades m anuais. Confessou a ela que havia feito o esforço de entrar no Trinity College para agradar seu avô, que estudara ali e acalentava o sonho de que um de seus netos seguisse seus passos. Mas, agora que Nehru estava m orto, Raj iv estava pensando seriam ente em abandonar o Trinity College e dedicar-se a sua verdadeira vocação: ser piloto de avião. Não sabia ainda com o dizer isso a sua m ãe.

O que soube dizer por carta a Indira, em m arço de 1965, um m ês e m eio depois do encontro no Varsity, é que havia conhecido Sônia: "... Você sem pre m e pergunta sobre as garotas que conheço e se há algum a que m e atrai especialm ente. Pois agora lhe digo que conheci um a garota m uito especial. Ainda não lhe pedi, m as é a garota com quem quero m e casar". Em sua resposta, sua m ãe lhe recordou que a prim eira garota que se conhece não é necessariam ente a m ais adequada. Queria am ainar a paixão de seu filho. Afinal de contas, tinha apenas vinte anos. Mas, em sua carta seguinte, Raj iv confessou: "Tenho certeza de que estou apaixonado por ela. Eu sei que é a prim eira garota com quem saio, m as com o saber se vou conhecer outra m elhor?" Na resposta, Indira lhe anunciou que havia acabado de aceitar seu prim eiro posto oficial, que o havia feito um pouco contrariada, m as que estava feito: era m inistra da Inform ação do governo da índia. Com o tal, tinha a intenção de fazer um a viagem oficial a Londres no final do ano, e gostaria de aproveitar essa oportunidade para conhecer sua nam orada.

Sônia sentiu um nó no estôm ago ao saber da notícia. Quanto a contar aos seus, era totalm ente incapaz de arm ar-se da coragem necessária. Não queria nem im aginar qual seria a reação de seu pai…

Mas a notícia da chegada de Indira a fez esquecer por um m om ento o presente. De repente, pressentiu nuvens negras no horizonte de sua felicidade. Voltaram os m edos e ela se perguntava que futuro havia naquele rom ance. Era bonito dem ais para durar. Já não duvidava de seus sentim entos; ao contrário, estava louca por Raj iv, nunca havia sentido tam anho arroubo, m as intuía que a im ensa diferença que havia entre suas origens acabaria m inando a relação, e poderia, talvez, arruiná-la por com pleto.

O pouco que sabia da índia havia aprendido com um am igo, que a descrevera com o um país distante e im enso povoado por encantadores de serpentes e elefantes e ancilosado pela pobreza e pelo atraso. Um país que carecia das com odidades m ais básicas, um país castigado por um clim a im placável, um país suj o, onde as vacas andavam soltas à vontade e eram m ais respeitadas que os m em bros das castas m ais baixas; enfim , um país difícil e apaixonante... para um antropólogo ou um iogue, m as não para um a garota que tinha o sonho de trabalhar em um a organização internacional e ter um a vida fam iliar sem problem as. Com o Raj iv se encaixava naquele quadro? Os Nehru, explicara esse am igo que tam bém não estava m uito bem inform ado, eram de origem aristocrática, da Caxem ira. De algum a m aneira dom inavam a sociedade de seu país, e até certo ponto controlavam a política m undial... A seu lado, quem eram os Maino? - pensava Sônia. Uns paesani, dizia a si m esm a. O que a filha de um pequeno e provinciano construtor italiano podia dar a Raj iv? Tinha certeza de que a m ãe de Raj iv se faria a m esm a pergunta, e isso lhe causava um grande desgosto. Sônia tinha consciência de que suas fam ílias "não podiam ser m ais diferentes", segundo suas próprias palavras. Tam bém não conseguia se im aginar dizendo a seu pai que havia se apaixonado por um hom em de pele cetrina, que ainda por cim a era indiano e que professava, pelo m enos oficialm ente, a religião hindu. Não, essa era um a pílula que o bom Stefano Maino não ia engolir com satisfação, por m ais prim eiro-m inistro que o avô tenha sido.

Sua natureza introvertida im pedia-a de dividir seus tem ores com Raj iv. Não queria quebrar a felicidade, que podia ser tão frágil quanto o cristal m ais fino.

Com ele, era de um a doçura cheia de reservas, e os olhos com que o olhava estavam cheios de perguntas. Era indiano, m as em seus gestos e m aneira de falar via um inglês. Era distinto e ao m esm o tem po se com portava com um a sim plicidade im pressionante. Sônia, na realidade, experim entava um a m udança estranha e definitiva que levava à aceitação cega, total, do que poderia - por causa de Raj iv ou graças a ele - lhe acontecer m ais adiante. Sentia que na fronteira distante de seu próprio ser tudo havia sido determ inado de antem ão pelo destino, antes sequer de ela ter nascido.

NUM FIM DE SEMANA, SÔNIA CONHECEU SANJAY, O único irm ão de Raj iv, dois anos m ais novo, que estava fazendo um curso na casa Rolls-Roy ce em Crewe, a três horas de estrada, e que costum ava ir a Cam bridge divertir-se de vez em quando. Era m uito bonito, com o seu irm ão, m as com um atrativo diferente. Sanj ay tinha um rosto oval, lábios m ais grossos e sensuais e entradas incipientes. Assim com o seu irm ão, tinha m odos im pecáveis e falava com voz suave e perfeito sotaque britânico. Am bos eram frugais em seus hábitos. Sanj ay com ia pouco, m as falava m uito de política e adorava os parties. Raj iv não gostava nem de fum ar nem de beber, não se interessava por política; renegava esse m undo e preferia um j antar tranqüilo com am igos a um a festa barulhenta. Sanj ay era m ais frio que seu irm ão m ais velho, não exalava essa sensação de tranqüila doçura, de boa pessoa que tanta segurança dava a Sônia, e seus olhares eram diferentes. Raj iv olhava com o se acariciasse com seus olhos am endoados.

Seu irm ão, porém , tinha um olhar distante, um tanto insolente. Parecia m uito orgulhoso de ser quem era, ao contrário de seu irm ão.

Foi um ano m aravilhoso, talvez o m ais feliz de suas vidas, se por felicidade se entender a ausência quase total de preocupações e problem as. Mas o curso estava chegando ao fim , e as férias de verão iam interrom per o idílio de Cam bridge.

EM JULHO DE 1965, RAJIV E SÔNIA se separaram pela prim eira vez. Sônia voltou para a Itália. Havia chegado alguns m eses atrás com o um a m enina, agora voltava com o um a m ulher, c om a idéia firm e de fazer sua vida com Raj iv. Não sabia com o nem quando, m as estava decidida. Foi um a despedida feliz e inquietante ao m esm o tem po, porque, em bora tivessem certeza de que voltariam a se encontrar, Sônia tem ia a reação de seus pais. O futuro estava cheio de incógnitas.

Ficou m uito satisfeito ao notar com o seu inglês havia m elhorado, quando conseguiu uns trabalhos com o intérprete nas feiras de Turim . Que diferença, que desenvoltura…

Pelo m enos, signor Maino não havia j ogado dinheiro fora. Foi um a boa notícia para seus pais. A outra, a im portante, ela não conseguia verbalizar. Por m ais que ensaiasse m entalm ente, não saía. "Quero lhes contar que estou apaixonada por um rapaz... Não, assim não, é ridículo!", dizia-se antes de ensaiar de outro j eito: "Conheci alguém m uito especial e quero m e casar com ele... Mas com o vou lhes dizer isso?", tornava a pensar desesperada. Quando chegava o m om ento de infrentar isso, ficava paralisada.

"Mesm o sendo um a fam ília m uito unida", escreveria Sônia m ais tarde, "eles eram m uito convencionais, especialm ente seu pai, que era um patriarca à m oda antiga. Naquele tipo de fam ília, o contato entre rapazes e garotas era estritam ente vigiado e controlado.”

Raj iv não entendia a reticência de Sônia a falar com seus pais.

Ela tentava se explicar: com o lhes contar de supetão que estava vivendo um a íistória de am or apaixonada todos esses m eses sem ter lhes contado nada? Não sabia com o quebrar o gelo. "Ela não parece ser capaz de contar", escreveu Raj iv a sua m ãe. "Não consigo entender.

Deve ser algo m uito peculiar, ela só faz o que o pai diz." Claro que Raj iv não conhecia Stefano Maino, nunca havia visto seu rosto averm elhado, suas feições rudes de m ontanhês, nunca havia ouvido sua voz rouca nem seu tom taxativo quando não gostava de algum a coisa."Levou m uito tem po até eu ter coragem suficiente para falar com m eus pais de m eus sentim entos por um rapaz que para eles não só era um estranho, com o tam bém um estrangeiro." A oportunidade surgiu depois do casam ento de Pier Luigi, o dono do bar em Via Frej us. Pier Luigi, que a vira crescer, queria que fosse testem unha de seu casam ento. Foi o grande acontecim ento do verão no bairro. Um a festa com m úsica e m uita bebida no bar, que estava transbordando de gente, tanta quanto no encontro anual que reunia ritualm ente os vizinhos para assistir na televisão ao Festival de San Rem o.

Estou apaixonada, eu o am o - disse a eles depois de lhes explicar quem era o rapaz e com o haviam se conhecido.

Que idade você diz que tem ? - Vinte anos...

É m uito j ovem - disse sua m ãe.

E ainda por cim a é de fora! - acrescentou o pai.

Tal com o havia im aginado, não m ostraram o m enor entusiasm o. Reagiram com um desdém total, com o se sua filha estivesse tendo um ataque de loucura passageiro. Não havia nada naquela relação que os pudesse agradar: o rapaz tinha apenas dois anos a m ais que Sônia, era estrangeiro, m as não inglês nem francês, e sim de um país que só saía nos noticiários por seus desastres, era um terrone, com o os do norte da Itália cham am os im igrantes do sul, com o agravante de que nem sequer era italiano. E tinha outro defeito im portante: não era católico. Para eles, Sônia havia aplacado a inquietude de se sentir sozinha pela prim eira vez em um país estrangeiro caindo nos braços do prim eiro que apareceu.

Já vai passar…

Mas não passava. Até o carteiro brincava com a fam ília, porque agora trazia cartas diárias, todas com selos da Inglaterra, todas para Sônia. A "m enina" passava longas horas em seu quarto, respondendo a sua volum osa correspondência, ou esperando ansiosa um a conversa telefônica. Depois, com as irm ãs, que entenderam que Sônia estava realm ente apaixonada. O "j á vai passar" dos pais deu lugar a um "e se for sério?" de Anushka e Nadia. A única coisa que suavizou a postura de sua m ãe foi saber que pelo m enos o rapaz era "de boa fam ília". Para algo havia servido m andá-la para a escola m ais cara de Cam bridge! O fato de ser neto de Nehru, de sua m ãe Indira estar no governo era indiferente para Stefano, m as Paola era sensível a isso. E as irm ãs tam bém . Já se viam desfilando m ontadas em elefantes nos j ardins de algum palácio indiano. Para elas, a história tinha um quê de conto de fadas: um príncipe oriental havia se apaixonado pela irm ã delas... Era excitante.

O cavalo de batalha foi a volta a Cam bridge. Seu pai não queria que ela voltasse. Segundo ele, j á sabia inglês o suficiente. Na realidade, queria cortar pela raiz o idílio de sua filha. Mas Sônia estava em penhada em conseguir seu diplom a, o Proficiency in English, e para isso precisava de m ais um ano. Com o sem pre, a influência de Paola foi decisiva. Ela e seu m arido sabiam perfeitam ente que sua filha queria voltar porque estava apaixonada, m as Paola insistiu na im portância de obter um diplom a. Sônia se m anteve firm e. Disse a eles que, se não a queriam aj udar, estava disposta a fazer com o m uitas garotas que estudavam inglês ali; procuraria um em prego e seria independente. Ninguém gosta de enfrentar seus pais, e Sônia m enos ainda, porque não com binava com seu caráter de garota dócil. Mas o am or podia m ais.

Seus pais acabaram cedendo, pensando que se opor ao rom ance da filha só o exacerbaria. Melhor que voltasse à Inglaterra, pensaram . Pelo m enos voltaria com um diplom a.

Tinham certeza de que aquela história de am or, que eles viam com o um a excentricidade, não agüentaria o passar do tem po... A única coisa que podiam fazer era aconselhá-la: vej a bem onde está se m etendo, não se precipite.

Sônia era tão respeitosa para com as tradições fam iliares, e tão pouco am ante do confronto, que lhes prom eteu m antê-los a par de tudo. De m odo que, de volta a Cam bridge e ante a im inente chegada de Indira, que havia m ostrado o desej o de conhecê-la, pensou que era m elhor que seus pais soubessem . Raj iv, que estava querendo fazer contato com os Maino, aproveitou a ocasião para lhes m andar um a carta e pedir-lhes perm issão para que o encontro entre sua filha e Indira Gandhi acontecesse. Um a carta m uito form al e respeitosa que deixou os Maino pasm os, m as o que podiam fazer? Negar isso? Stefano não teria hesitado nem um segundo, m as sua m ulher o convenceu a dar sua autorização.

Era inverno e a estrada brilhava por causa da chuva. Estavam chegando à City no fusca capenga de Raj iv quando Sônia teve um ataque de pânico. De repente, a perspectiva de com parecer a um a recepção na em baixada da índia e encontrar a m ãe de seu nam orado em um am biente que desconhecia aterrorizou-a e deixou paralisada. Que vou fazer ali? - perguntou-se subitam ente. Um a torrente de perguntas, algum as sérias, outras triviais, atropelavam -se em sua cabeça: Com o devo tratá-la? Estou vestida adequadam ente?

O que devo lhe dizer? E se ela m e desprezar? E se se m ostrar agressiva com igo? Mas que bobagem - repetia Raj iv.

De repente, o m undo desabava na cabeça de Sônia. Achava que os m eses passados na com panhia de Raj iv haviam sido um sonho que estava prestes a se desm anchar. Pensou que não estava preparada para conhecer a m ãe dele. Além do m ais, esse encontro significaria com prom eter-se ainda m ais, e com o podia fazer isso se seus próprios pais haviam se m ostrado tão reticentes a seu idílio?

Mas eles sabem , seu pai lhe deu perm issão... Agora vai voltar atrás? Raj iv não entendia nada. Sônia estava assustada. Pensava que talvez seu pai tivesse razão e que havia chegado o m om ento de pisar no freio, de serenar, de dar m archa a ré... Sônia, nós com binam os, estão nos esperando... Lam ento, não vou, não posso.

Sônia perdeu as estribeiras, era incapaz de se controlar. O esforço de Raj iv para acalm á-la não deram resultado, de m odo que precisou ligar para sua m ãe e inventar um a desculpa para cancelar o encontro.

Marcaram para uns dias depois, quando Sônia estivesse m ais calm a. Dessa vez, ela prom eteu a si m esm a se com portar bem , m as continuava sendo um m om ento difícil de passar. Suas pernas trem iam enquanto subia os degraus da residência do em baixador da índia, onde se hospedavam

Indira e sua m elhor am iga, Pupul Jay akar, que a havia aj udado a organizar a hom enagem a Nehru. As duas ainda estavam excitadas porque na véspera, depois de um recital de poesia de Allen Ginsberg e outros poetas da geração beat, haviam acabado à um a da m adrugada em um restaurante espanhol com endo petiscos e vendo dança flam enca. Quando voltaram , encontraram o em baixador preocupadíssim o; estava a ponto de cham ar a polícia porque achava que havia acontecido algum a coisa. Indira os recebeu em seu quarto levem ente perfum ado de incenso. Sônia encontrou-se diante de um a m ulher de aspecto frágil enrolada em um elegante sári de seda. Reconheceu em seus olhos pretos e am endoados os de Raj iv. O cabelo preso com um laço deixava ver na testa um a m echa de cabelo branco abundante, a despeito de seus 48 anos.

Essa m echa, que se tornaria sua identidade, conferia-lhe um a inegável distinção. Tinha um sorriso cheio de encanto, m aneiras delicadas e um proem inente nariz que tentava disfarçar com m aquiagem sob os olhos para atenuar as som bras. Na realidade, e segundo havia confessado a sua am iga Pupul, o que realm ente teria gostado era de operar esse nariz. "Eu m e vi diante de um ser hum ano perfeitam ente norm al", diria Sônia, "diante de um a m ulher doce e acolhedora. Ela fez todo o possível para que eu m e sentisse à vontade. Falou com igo em francês quando notou que eu dom inava m ais essa língua que o inglês. Queria saber de m im , de m eus estudos." Raj iv devia ter contado a sua m ãe algum a coisa sobre o ataque de nervos, porque Indira disse a ela que "tam bém havia sido j ovem , terrivelm ente tím ida, e apaixonada, e que m e entendia perfeitam ente".

Sônia, relaxada, desfrutou desse prim eiro encontro, que acabou da m aneira m ais fam iliar possível. O casal precisava ir a um a festa de estudantes, e Sônia pediu para trocar de roupa em um quarto da em baixada. Mas, assim que saiu, tropeçou, e o salto de seu sapato desfez a barra de seu vestido. "A m ãe de Raj iv", contaria Sônia, "pegou um a agulha e linha preta e, fiel a seu estilo pausado, que observaria de perto m ais tarde, com eçou... a costurar a barra. Não era exatam ente isso que m inha m ãe teria feito? Todas as m inhas dúvidas desapareceram , pelo m enos por ora.”

Um a corrente de sim patia passou por entre essas duas m ulheres tão diferentes em tudo, exceto no am or por Raj iv. Indira não havia dito a seu filho, m as a idéia de ter, um dia, um a nora estrangeira deixava-a um pouco desconcertada. Agora, depois de conhecê-la, suas reservas haviam se dissipado: "Além de bonita", escreveu a sua am iga norte-am ericana Dorothy Norm an, "é um a garota saudável e direta.”

Dorothy alegrou-se de receber essas notícias de sua am iga. Finalm ente, parecia que Indira saía da profunda crise existencial em que se debatia desde a m orte de seu m arido, Firoz, quatro anos antes, e desde a m ais recente, de Nehru, seu pai. Viúva prim eiro e depois órfã. Além do m ais, com o seus filhos estavam no estrangeiro, havia ficado sozinha. No dia em que Raj iv havia partido para Cam bridge, Indira escrevera a Dorothy : "Estou triste. É um m om ento m uito difícil para um a m ulher quando seu filho se torna um hom em . Ela sabe que não depende m ais dela e que de agora em diante vai fazer sua própria vida. E m esm o que às vezes a deixem dar um a olhada nessa vida, sem pre será de fora, na distância de outra geração. Meu coração está sofrendo".

PARA INDIRA, FOI MUITO DIFÍCIL SE REFAZER da m orte de Nehru, ocorrida em um a tarde quente, 27 de m aio de 1964. Em seus últim os dias, ela não o havia abandonado nem um segundo, sem pre atenta a suas necessidades, adm inistrando-lhe os rem édios, supervisionando sua dieta, afastando as visitas. A últim a foto que tiraram j untos, na qual está de cócoras a seu lado, m ostra um a expressão de profunda tristeza e grande ternura. Indira havia passado os últim os anos colada a ele, organizando sua agenda, coordenando as visitas de dignitários estrangeiros, com o o xá do Irã, o rei Saud, Ho Chi Minh ou Krushchev. Chegara até a servir de canal de com unicação entre ele e seus m inistros. O próprio Nehru, ao ser nom eado m áxim o m andatário quando a índia se tornou independente, em 1947. Havia lhe pedido que assum isse o papel de "prim eira dam a", j á que sua esposa havia falecido tem pos atrás e ele precisava de alguém de confiança que o soube sse levar para casa. Indira havia aceitado com reticências no início, e depois com verdadeira devoção. Fizera isso não só porque era um a obediente filha indiana, m as porque seu casam ento estava desm oronando. Estava farta das infidelidades de Firoz, seu m arido. De fato, viviam taticam ente separados fazia tem po, de m odo que ela e seus filhos se instalaram em Teen Murti House, a bela residência do prim eiro-m inistro da Índia no centro de Nova Délhi. A prim eira coisa que Indira fez foi tirar das paredes a coleção de retratos de heróis im periais e m andá-los para o Ministério da Defesa. A seguir, substituiu-os por artesanato indiano e trocou as grossas cortinas francesas por cortinas de algodão cru, tecido que a roca de Gandhi transform ou em sím bolo de autarquia. Arrum ou o quarto de seu pai com um a cam a baixa cercada de seus livr os e fotografias favoritos. Um dia, confessou que teria gostado de ser decoradora de interiores, m as o destino tinha outro papel reservado para ela.

Se a m orte de Nehru havia privado o m undo de um gigante - ele havia sido o líder indiscutível do m ovim ento de países não alinhados que grupava m ais da m etade da população m undial - se havia deixado a Índia sem o sím bolo de sua luta pela liberdade e sem prim eiro-m inistro, o Partido do Congresso sem sua m áxim a autoridade, sua filha Indira foi deixada no m eio de um a im ensa cratera, com o se sua m orte houvesse sido um a bom ba que arrasara tudo a sua volta. Nehru havia sido a presença e a força dom inante em sua vida, o farol que havia guiado seus passos. Talvez essa paixão por seu pai fosse conseqüência da m uita falta que sentira dele quando m enina, visto que ele passara quase m ais tem po preso que em casa, devido a seu ativism o político. Mas, quando voltava, sua presença enchia de alegria a m ansão fam iliar de Anand Bhawan, em Allahabad. Lá então era um a lenda de carne e osso, sem pre descontraído, por m ais tensão que houvesse a sua volta, com um rosto que parecia esculpido por um cinzel, um corpo bem proporcional, um olhar tím ido e inquisitivo ao m esm o tem po, um riso franco e um a elegância natural que ele ressaltava colocando um a rosa na casa do terceiro botão de seu sherwani. Sua grande cultura, seu afiado senso de hum or e seus dotes de orador granj eavam -lhe sim patia onde quer que estivesse. Movia-se com a m esm a facilidade nos salões da alta sociedade e nas prisões de sua graciosa m aj estade. Chegou a ter com o interlocutores desde seus professores de Cam bridge a chefes de governo e vice-reis, desde o próprio rei im perador da Inglaterra - e seus carcereiros - a chefes tribais do Afeganistão.

DEPOIS QUE SEU PAI, O GRANDE MOTILAL, O deixou sozinho, aos treze anos, no internato da Inglaterra, Nehru passou sete anos aprendendo ciências políticas e interessando-se pelos últim os avanços tecnológicos. Voltou da Inglaterra em 1912, transform ado em um cavalheiro britânico. Com eçou a trabalhar no escritório de seu pai, e este se m ostrou m uito satisfeito com as substanciais receitas que agora seu filho lhe proporcionava. O resto do tem po distribuía entre a biblioteca do Colégio de Advogados e a instituição que não podia faltar na índia colonial, o clube, onde passava longas e tediosas horas sentado nas poltronas chester dos salões sobrecarregados discutindo tem as legais com velhos m em bros da adm inistração britânica. Um a vida chata, segundo o próprio Nehru, que m udou depois de um fato aparentem ente insignificante, quando recebeu a visita de um grupo de cam poneses que lhe pediu aj uda contra uns latifundiários que usavam m étodos cruéis para expulsá- los de suas legítim as terras. Nehru concordou em acom panhá-los até a aldeia para resolver o caso. Foi um a viagem de três dias que o transform ou de advogado tím ido e arrogante que, segundo suas palavras, desconhecia as condições em que a grande m aioria de indianos vivia e trabalhava, em revolucionário. "Vendo-os com sua m iséria e im ensa gratidão, senti um a m istura de vergonha e dor", escreveu, "vergonha de m inha vida fácil e confortável e da politicagem das cidades que ignora essa vasta m ultidão de filhos e filhas sem inus da índia, e dor diante de tanta degradação e insuportável pobreza."

A isso som ou-se a notícia que chegou a ele da cidade santa de Vara-nasi, às m argens do Ganges. Mohandas Gandhi, advogado que ainda era um desconhecido, havia causado um a verdadeira com oção ao fazer um discurso incendiário contra a desigualdade e a favor dos pobres por ocasião da inauguração da Universidade Hindu. "A exibição de j óias que nos oferecem hoj e é um a festa m aravilhosa para os olhos", dissera para um auditório com posto por autoridades coloniais e aristocratas indianos, m as quando a com paro com o rosto dos m ilhões de pobres, deduzo que não haverá salvação para a índia enquanto não tirarem essas j óias e as depositarem nas m ãos desses pobres." A audiência reagiu com indignação. Príncipes e dignitários abandonaram a universidade. Só os estudantes aplaudiram as palavras de Gandhi. Mas o eco dessa intervenção retum bou na índia inteira, e Jawaharlal Nehru quis conhecê-lo. "Era com o um a forte corrente de ar fresco" escreveria Nehru sobre Gandhi, "com o um raio de luz que atravessava a escuridão; com o um turbilhão que questionava tudo, m as principalm ente a m aneira com o funcionava a m ente das pessoas. Não vinha de cim a, parecia em ergir dentre os nilhões de indianos, falando o idiom a deles e incessantem ente desviando atenção para eles e suas necessidades urgentes." Sua força se resum ia em um conceito que cunhou em 1907, cuj o nom e derivava do sânscrito, Saty agraha, que significa a força da verdade, e cuj o propósito im plicava a ideia de um a energia poderosa, m as não violenta para transform ar a realidade. Para as m assas indianas, saty agraha representava um a alternativa ao m edo. Foi o poeta bengali e prêm io Nobel de Literatura, Rabindra-íath Tagore, quem outorgou a Gandhi o título pelo qual seria conhecido, ragore cham ou-o de Mahatm a: "alm a grande".

Mas a grande alm a precisava de um grande lugar-tenente. Foi nisso que seu discípulo e am igo Nehru se transform ou e, a despeito de não terem nada em com um , a com binação de forças que surgiu daquela intensa am izade acabaria m udando o m undo. Porque Gandhi era um hom em de fé, de religião; Nehru era um racionalista, um produto sofisticado de Harrow e Cam bridge que m al falava os idiom as autóctones da índia. Seus anos de Europa faziam com que visse com o ridículos m uitos costum es de seus com patriotas, com o o de não sair de casa em dias considerados pouco propícios. No país m ais religioso do m undo, era um ateu que desprezava os ascetas e os iogues, responsáveis, segundo ele, pelo atraso, pelas divisões internas e pelo dom ínio dos colonizadores estrangeiros. Gandhi o achava m uito gentlem an para seu gosto, e fez com ele o que fez com outros m em bros das classes altas. Mandou-o às aldeias para recrutar novos m em bros ara o Partido do Congresso e, de quebra, conhecer o verdadeiro rosto de sua pátria.

A m aioria nunca havia visto a pobreza de seus próprios com patriotas. Mas essa foi a beleza do m ovim ento de Gandhi: pôs as classes altas em contato com as m ais baixas, que com eçaram a existir para os olhos do resto da sociedade. Pela prim eira vez, a índia tinha um am plo m ovim ento popular que repudiava a m aneira de viver im posta pela distante Londres.

Durante trinta anos, Nehru percorreu a índia a pé, em carros de bois, de trem , m obilizando a população. Mas se Gandhi sonhava com um a índia de aldeias que vivessem em autarquia, um a índia sem discrim inação de castas, m as profundam ente religiosa, Nehru sonhava com um a índia libertada de seus m itos e da m iséria pela indústria, pela ciência e pela tecnologia. Para Gandhi, eram j ustam ente essas as desgraças da hum anidade. Para Nehru, eram a salvação. Suas diferenças de opinião e de visão nunca puseram em xeque a am izade e o profundo respeito que os dois hom ens se professavam . Concordavam no fundam ental: chegar a um a índia unida e independente sem derram am ento de sangue. Nehru tinha certeza de que Gandhi era, além de um santo, um gênio. Valorizava sua extraordinária habilidade política, sua arte de falar com gestos que chegavam à alm a do povo. Quando am bos se reencontravam , conversavam m uito, trocavam pontos de vista, avaliavam os últim os avanços na luta ou os últim os reveses. Discutiam sobre estratégias, irritavam -se, depois riam ou sim plesm ente m editavam . Gandhi sem pre deixou c la r o que a tocha de seu com bate passaria, um dia, para as m ãos de Nehru, e levou-o à presidência do Partido do Congresso em três ocasiões.

Indira foi criada nesse am biente, onde a fronteira entre a vida fam iliar e a vida política era inexistente. Contava a Gandhi suas confidências de m enina, dizia-lhe quanto sentia a falta de seu pai, falava de sua solidão, de seus com plexos por ser um a m enina feinha. Nehru passou um total de nove anos preso, interrom pidos por curtos períodos de liberdade. A vida fam iliar se ressentia tanto disso que um a vez Indira teve que dizer a um visitante: "Lam ento, m as m eu avô, m eu pai e m inha m ãe estão todos na prisão".

DESDE A MORTE DE NEHRU, VINHAM à m em ória de Indira lem branças antigas de sua infância, quando se disfarçava de Joana d'Arc e im itava seu pai dizendo: "Um dia, conduzirei m eu povo para a liberdade", enquanto discursava para um a m ultidão im aginária. “Ou com o quando com eteu sua prim eira ação política", com o a cham aria m ais tarde, que foi agredir um policial inglês que irrom peu na casa de Anand Bhawan para em bargar obj etos e m óveis porque, por princípio, seu pai e seu avô, assim com o os m em bros do partido, se negavam a pagar fiança cada vez que eram presos. Quis entrar no Congresso aos doze anos, m as, com o não era a idade regulam entar, foi rej eitada. Reagiu a sua m aneira, com o faria m ais tarde na vida, pegando o touro à unha. Reuniu nos j ardins daquela m ansão várias centenas de crianças do bairro. Indira dirigiu-se a elas com o seu pai teria feito, convocando-os a lutar pela libertação da pátria a despeito dos perigos. Assim criou o "exército dos m acacos", que eram crianças que faziam tarefas de espionagem , colavam cartazes, confeccionavam bandeiras e se infiltravam por trás das linhas policiais para passar m ensagens a m em bros do partido. Seu exército chegou a contar com vários m ilhares de crianças, que prestavam um apoio substancial àqueles que lutavam . Com o se sentia feliz quando seu pai m ostrava orgulho dela!

Suas relações sem pre foram m arcadas pelo sofrim ento da distância, que só as cartas conseguiam m itigar: "Quero que você aprenda a escrever cartas e que venha m e ver na prisão. Sinto m uito sua falta", escrevia Nehru quando ela tinha apenas seis anos. Em seu décim o terceiro aniversário, Nehru lhe escreveu: "Que presente posso lhe m andar da prisão deNaini? Meus presentes não podem ser m ateriais nem sólidos. Só podem ser feitos de ar, da m ente e do espírito, com o os que um a fada lhe concederia, coisas que nem m esm o os altos m uros de um a prisão poderiam reter".

Indira m ergulhou nessas cartas - foram centenas de cartas, um a correspondência em otiva e interessante, porque am bos escreviam m uito bem - para preparar a exposição com em orativa, essa que ia inaugurar em Londres. Queria ressaltar a faceta com passiva de seu pai, assim com o sua incrível coragem e integridade com a aj uda de fotos e obj etos e ilustrados em lendas extraídas de seus escritos e discursos. De todos os proj etos que avia em preendido no Ministério da Inform ação que agora dirigia, a esse se dedicou com especial devoção. Não só pela questão sentim ental, m as tam bém porque achava que m ostrar e exaltar a m em ória de Neru era im portante para o m undo e para a índia em particular, um a nação nova necessitada do exem plo de líderes que propiciassem sua unidade.

RAJIV ACOMPANHOU SÔNIA À EXPOSIÇÃO sobre Nehru. Era um a m aneira de introduzir a j ovem italiana na com plexa história de seu país, um a m aneira de explicar-lhe quem eram ele e sua fam ília. Sônia deteve-se longam ente diante do traj e de noiva da avó de Raj iv, Kam ala, e observou os utensílios rituais que eram utilizados nas bodas da Caxem ira. A legenda explicava que a m ulher tam bém estivera na prisão e que m orrera de tuberculose aos 36 anos... Sônia pensou em Indira: com um pai na prisão e um a m ãe doente... Que infância teria tido? Triste - disse Raj iv. - Além do m ais, m inha m ãe tam bém teve tuberculose. Ficou longas tem poradas internada em um sanatório, onde lhe aconselharam que não se casasse nem tivesse filhos...

Ainda bem que não lhes deu ouvidos... - disse ela com um sorriso. Salvou-se graças à descoberta dos antibióticos. Teve m ais sorte que m inha avó... Havia outro sári exposto, verm elho-pálido, com um festão prateado. Esse é o sári que m eu avô teceu na prisão para o casam ento de m inha m ãe... Espero que um dia você o use... - disse a ela divertido.

Sônia riu, pouco convicta. Não se im aginava enrolada nesse pano que havia sido confeccionado no interior de um a cela reconstruída ali m esm o para a ocasião à base de fotografias am pliadas: via-se o catre, o caderno no qual se podiam ler frases de seus diários de prisão, a roca com que Nehru havia fiado esse sári, em um gesto que unia o am or pela filha e o am or pelo país... Gandhi havia transform ado a roca em um sím bolo de luta pela independência. Os ingleses haviam arruinado a rica indústria têxtil indiana im pondo taxas desm esuradas aos produtos indianos para vender tecidos industriais fabricados na Inglaterra. A roca era um sím bolo de rebeldia, um a m aneira de dizer que não era necessário com prar produtos têxteis im portados porque cada um podia fiar seus próprios tecidos. Havia um a carta, que Sônia leu. Havia sido escrita por Nehru na prisão e era dirigida a sua filha, que ia se casar: "No início, fiar é m uito chato, m as, quando você com eça, descobre que tem algo de fascinante. Eu lhe dedico m eia hora por dia. Com o não é m uito tem po, produzo pouco, m as sou bastante rápido. Desde que com ecei, há sete sem anas, fiei quase 10 m il m etros.

Sei que são necessários 30 m il para um sári. Em quatro m eses, talvez tenha um sári para você!". Esse sári não era só um vestido de noiva; era tam bém um a bandeira. Para Sônia, um vestido de noiva devia ser branco, com véu, com o os que via todos os dom ingos de prim avera nas noivas que se casavam na igrej a de São João Batista em Orbassano. Às vezes, esquecia que Raj iv era indiano.

Exibiam film es das com em orações da independência, que m ostravam o últim o desfile do vice-rei Lord Mountbatten e de sua m ulher, ídwina, a bordo de um a carruagem literalm ente assediada pela m ultidão. Está chovendo crianças!", dizia assustada Pam ela, a filha dos vice-reis, porque as m ulheres j ogavam seus bebês para o ar para evitar que a m ultidão os esm agasse. Raj iv contou a Sônia que sua m ãe viu um a m ulher que decidiu que seu bebê estaria m ais seguro com Lady Mountbatten e entregou a ela. Edwina segurou-o no colo por um longo tem po. Via-se Nehru cam inhano literalm ente por cim a da m ultidão, gritando para que içassem a bandeira açafrão, verde e branca da nova nação que incorporava ao centro um escudo singular: um a roca. Mountbatten lutava para afastar crianças e j ovens m eio desm aiados pela balbúrdia e deixá-los a salvo.

A bandeira foi recebida com um alvoroço im enso de alegria. Ouviu-se um tiro de canhão, e a seguir, com o em um passe de m ágica, um arco-íris surgiu no céu, dando lugar às m ais variadas interpretações sobre o significado desse "ato de Deus".

Mas tam bém havia fotos e film es da tragédia que acom panhou a independência. Raj iv contou a Sônia que Nehru fez seu fam oso discurso da independência com o coração em pedaços. Um a gravação reproduzia sua voz naquela noite de 15 de agosto de 1947: "Há m uitos anos, m arcam os um encontro com o destino, e chegou a hora de cum prir nossa prom essa... m eia-noite, quando os hom ens estiverem dorm indo, a índia acordará para a vida e a liberdade..." Ouvir assim a voz de Nehru fez Sônia estrem ecer. Raj iv explicou-lhe que seu avô sabia que, enquanto anunciava a m aior notícia na história da índia, a cidade de Lahore, antiga capital do im pério m ongol e a cidade m ais cosm opolita do subcontinente, que havia passado a pertencer ao Paquistão, ardia em um a orgia de violência. Era o início de um a tragédia de dim ensões gigantescas conhecida com o a Partição. A independência dos dois países desencadeou um m ovim ento de lim peza étnica e religiosa sem precedentes na história. Os hindus, que viviam havia gerações no local onde agora era o Paquistão, viram -se forçados a fugir. Por outro lado, os m uçulm anos da índia fugiram na direção oposta. As film agens daquelas colunas de refugiados e o relato das atrocidades com etidas- fam ílias queim adas vivas em suas casas, m ulheres j ogadas de trens em m ovim ento por serem da religião errada, filhas violentadas na frente de seus pais... - deixaram Sônia im pressionada.

E a não violência? - perguntou tim idam ente Sônia, que via que suas idéias preconcebidas sobre o caráter pacífico dos indianos vinham abaixo.

Gandhi conseguiu deter grande parte da violência com seus j ej uns - respondeu Raj iv - m as, no final, nem ele m esm o pôde escapar do fanatism o religioso.

Então, contou a ela que, quando ele tinha quatro anos, sua m ãe o levara um dia a visitar o Mahatm a na casa dos Birla, um a rica fam ília que o aloj ava e prestava apoio cada vez que ia a Délhi. Gandhi estava m uito deprim ido por causa de declarações de extrem istas hindus, que o acusavam de traição por ter defendido os m uçulm anos perseguidos e por toda a tensão que o país suportava, m esm o que a violência da Partição j á houvesse cessado. "Não posso continuar vivendo nessa loucura e nessa escuridão", dissera Gandhi à fotógrafa Margaret Bourke-White nessa m esm a m anhã. Gandhi, que era com o da fam ília, m ostrou-se m uito carinhoso com Raj iv. Enquanto os adultos conversavam e tentavam descontrair o am biente com algum a piada, o pequeno Raj iv brincava com uns j asm ins que sua m ãe havia com prado para o Mahatm a. Em um a foto, via-se o m enino colocando-as ao redor dos dedos do pé de Gandhi.

Ele m e deteve com um gesto suave de m ão - contava Raj iv. - "Não faça isso", disse, "só se colocam flores em volta dos pés dos m ortos.”

Continuou contando que nessa m esm a tarde, enquanto se dirigia ao centro do j ardim para a oração, um hom em se aproxim ou de Gandhi e, j untando as m ãos, saudou-o: Nam astê!, disse, e a seguir olhou fixam ente em seus olhos, sacou um a pistola Beretta do bolso e deu-lhe três tiros à queim a-roupa. Era um fundam entalista hindu.

A exposição m ostrava im agens do caos que se seguiu ao atentado. Talvez a m ais dram ática fosse a foto de Nehru no teto de um carro acalm ando a população com um m egafone na m ão. Todos queriam se aproxim ar para dar um últim o adeus à "grande alm a". Um alto-falante reproduzia as palavras que Nehru dirigiu à nação pela rádio nessa noite terrível: A luz se apagou sobre nossas vidas e só há trevas. Nosso líder querido, o pai da nação, deixou-nos. Eu disse que a luz se apagou, m as não é verdade. A luz que brilhou sobre este país não era um a luz ordinária. Dentro de m il anos, continuará resplandecendo. O m undo a verá porque continuará dando consolo a incontáveis corações". Sônia sentiu calafrios ao ouvir essa voz que parecia surgir do além .

Continuar: parte 3 de 6