O Sétimo Segredo
O Chefe de Polícia Wolfgang Schmidt estava…
VII
O Chefe de Polícia Wolfgang Schmidt estava sentado em frente a
Evelyn Hoffmann, à mesa habitual, esperando por sua salsicha com
cerveja e o chá de Evelyn, que logo foram servidos, tendo a cesta de pão
sido posta entre os dois.
Com expressão sombria, Schmidt reprimiu o que tinha a dizer
até que Evelyn pegou um pãozinho, partiu-o, passou manteiga e
começou a tomar seu chá. Foi então que Schmidt limpou a garganta e
disse:
— Effie, tenho notícias que não são muito boas, mas também
não são das piores.
Ela largou a xícara.
— Pode falar, Wolfgang.
— Prometi a você que deteria a mulher inglesa, Emily Ashcroft,
que não lhe permitiria bisbilhotar o passado. Mas infelizmente o meu
esforço inicial para detê-la fracassou.
— Tentou assustá-la?
— Não, Effie, tentei liquidá-la. Mas o trabalho foi interrompido
por acaso. Designei um homem muito bom, bastante eficiente. Ele
entrou na suíte no Kempinski. E foi então que ocorreu algo inesperado.
Meu agente estava prestes a fazer contato com a mulher Ashcroft
quando um homem, um americano chamado Foster, apareceu. Foster
demonstrou ser muito rápido e ágil, além de forte. Soube depois que ele
foi treinado pelos militares americanos para a aventura no Vietnã e tem
se mantido em boa forma desde então. Ele interferiu.. Atribuo a um
golpe de sorte ele não ter apagado e capturado meu agente. Meu homem
conseguiu escapar.
— Graças a Deus.
— Isto torna o nosso próximo movimento mais arriscado.
Porque agora a mulher Ashcroft foi alertada e está cautelosa. Não ficará
sozinha por um momento sequer. Providenciou até para que Foster
deixasse o seu quarto e se instalasse em sua suíte.
— É mesmo?
Schmidt soltou um grunhido de insatisfação.
— Imagino que estão dormindo juntos, embora não sejam
casados. Mas o que se poderia esperar das mulheres inglesas de moral
duvidosa?
Uma expressão divertida insinuou-se no rosto de Evelyn
Hoffmann.
— Não são apenas as mulheres inglesas, Wolfgang.
— Como? — murmurou Schmidt, sem entender.
— Vivi com o Feldherr por quase dezessete anos, antes de
casarmos. Não éramos casados quando começamos a dormir juntos, em
Viena.
As faces de Schmidt ficaram avermelhadas de embaraço. Com
muito esforço, ele tentou se defender da suave censura.
— Por Deus, Effie, como pode haver qualquer comparação? Você
e o Feldherr eram um casal especial. Foi como se você tivesse sido
escolhida pelo Senhor para proporcionar conforto e amparo a um nobre
líder, o maior da história alemã.
Evelyn respondeu com um aceno solene.
— Foi o que sempre pensei, desde o momento em que o conheci.
— Ela raramente falava do passado num lugar público, mas agora seus
pensamentos retornaram ao passado. — Lembro muito bem da primeira
vez em que o vi. Começara a trabalhar para o gordo, Heinrich
Hoffmann, na sua loja de fotografia, em Munique. Mais precisamente,
era a minha quarta semana no emprego. Não sabia que meu patrão era
membro do Partido Nacional Socialista e que muitos dos fregueses que
o visitavam eram seus companheiros de partido. Eu estava na escada,
tentando pegar uma pasta numa prateleira alta. Aquele amigo de
Heinrich entrou, achei que era uma pessoa indefinida, exceto pelos
olhos que brilhavam e o bigode engraçado. Usava uma capa clara e carregava um imenso chapéu de feltro. Sentou em frente à escada e
surpreendi-o a olhar as minhas pernas. Eu encurtara o vestido naquela
manhã. Quando desci da escada, Heinrich apresentou-nos. "Herr
Fulano de Tal", disse ele, "quero que conheça a nossa pequena Frãulein
Eva." Claro que eu soube logo depois qual era o verdadeiro nome de
Herr Fulano de Tal. E depois nos encontramos muitas vezes. Ele sempre
foi extremamente gentil. Inclinava-se com muita cortesia, beijava-me a
mão, fazia elogios à minha pele. — Evelyn deixou escapar um pequeno
suspiro. — Foi lá que começou, na loja de material fotográfico.
— Uma história muito romântica — comentou Schmidt, embora
Evelyn soubesse que ele já a ouvira antes.
Tomando o chá, ela olhou por cima da borda da xícara, fitando-o
nos olhos.
— Wolfgang, você se lembra de quando nós dois nos
conhecemos?
— Não foi em 1940?
— Em 1941, no Berghof, quando o Feldherr e eu partilhávamos
a mesma cama. — Evelyn riu. — Uma manhã o camareiro apareceu
com algum problema de urgência e nos encontrou enlaçados na cama.
Foi a única ocasião em que alguém teve certeza de que tínhamos
mesmo uma ligação amorosa.
— De qualquer maneira — ressaltou Schmidt, a fim de se
recuperar de sua gafe — vocês casaram.
— O momento mais feliz da minha vida — admitiu Evelyn. —
Mas eu o conheci quatro anos antes disso. Lembro muito bem do dia
em que você apareceu no Berghof, um jovem e empertigado guarda da
SS designado para bancar a minha ama-seca.
— Para protegê-la, Effie, quando saísse para passear sozinha no
bosque. O Feldherr não permitiria que você fosse a parte alguma
desprotegida.
— E tive a sorte de encontrar um amigo tão bom e leal como
você, Wolfgang. Não posso imaginar o que eu faria hoje se não tivesse
alguém como você.
— Fiz o juramento perpétuo de protegê-la, Effie. O rosto de
Evelyn ficou anuviado.
— E agora essa mulher Ashcroft da Inglaterra está
bisbilhotando o nosso passado.
Schmidt não podia negar, mas obstinadamente garantiu:
— Eu protegerei você dessa mulher, como prometi. — Pensou
por um momento no que diria em seguida. — Não será fácil agora, como
pensei antes. Ela já não fica mais sozinha em momento algum, como
falei. O tal de Foster está sempre ao seu lado. E descobri que também
há outros no grupo. Um russo de Leningrado, Nicholas Kirvov, e uma
mulher israelense, Tovah Levine, uma judia alemã que diz ser
jornalista. Qualquer um e todos a defenderiam, se for necessário. Devo
ser franco: eles aumentam a ameaça contra tudo o que prezamos e
consideramos sagrado. Formam um grupo de investigadores amadores,
mas dedicados. Claro que sabemos qual é o objetivo da mulher
Ashcroft. Rex Foster é um arquiteto de Los Angeles que está tentando
reconstituir a arquitetura do Terceiro Reich para um livro ilustrado.
Nicholas Kirvov adquiriu de alguma forma um quadro antigo do
Feldherr e tenta confirmar sua autenticidade. Tovah Levine está
empenhada em explorar a história de um "sósia de Hitler".
Isoladamente, cada um dos três parece inofensivo. Mas quando se
unem à busca mais perigosa da mulher Ashcroft, tornam-se bem mais
formidáveis.
— Eles sabem alguma coisa de nosso principal legado do
Feldherr'!
— Posso lhe garantir, Effie, que eles não têm a menor idéia.
Continua a ser um segredo nosso.
Por um instante, o semblante de Evelyn refletiu algum pesar
interior.
— Às vezes, eu gostaria que não fosse assim... tudo secreto.
— O que está querendo dizer, Effie?
— Meus críticos, historiadores estúpidos, sempre me
descartaram como frívola e imbecil. Ainda a amarguravam algumas das coisas que haviam escrito a seu respeito. — Especialmente aquele juiz
de Nuremberg que escreveu o livro a nosso respeito em 1950. Ao falar
de mim, ele disse que eu era "totalmente desprovida de interesses
políticos e econômicos" e devotava todo o meu tempo a "pensar em
roupas, fazer piqueniques e me divertir".
— Arschlo! — A imprecação significava idiota, e Schmidt
apressou-se em acrescentar: — Perdoe a minha rudeza, mas é a única
expressão que me ocorre. Não seria assim se aquele idiota e os outros
soubessem como o Feldherr freqüentemente lhe confidenciava seus
pensamentos políticos e pedia suas opiniões. Como ele discutiu com
você o Anschluss austríaco antes de realizá-lo, como em 1938 ele quis
que a acompanhasse a Itália para as conferências políticas com
Mussolini.
— E como o seu último ato foi confiar-me o que estamos
fazendo agora.
— Um segredo que permanecerá a salvo da turma de Ashcroft —
prometeu Schmidt, mais uma vez. — Enquanto eu continuar a saber o
que eles estão fazendo, não ficarei preocupado... e você também não
precisa se preocupar.
— Mas como sabe o que eles estão fazendo? — indagou Emily
abruptamente. — Como já descobriu tanta coisa a respeito dessa gente?
Schmidt exibiu um sorriso de satisfação.
— Depois do atentado contra a mulher Ashcroft, Foster foi me
procurar, como o Chefe de Polícia, para comunicar o incidente. Garanti-
lhe proteção absoluta para Emily Ashcroft. Disse que cuidaria para que
o hotel pusesse guardas de vigia em todas as entradas para o segundo
andar.
— Já fez isso?
— Claro. Como Chefe de Polícia, era a única coisa que eu podia
fazer.
— Tem razão.
— Também providenciei outra coisa, Effie. A pretexto de mandar
um técnico de meu departamento para verificar a segurança na suíte da Srta. Ashcroft... janelas e assim por diante... instalei escutas em cada
telefone.
— Conseguiu mesmo isso, Wolfgang? — murmurou Evelyn,
num tom de admiração.
— No primeiro momento em que a mulher Ashcroft e Foster
saíram. Os aparelhos de escuta estão bem escondidos. Nunca serão
descobertos. E já começaram a oferecer resultados.
Schmidt meteu a mão no bolso direito do paletó, tirou uma caixa
amarela e entregou a Evelyn, acrescentando:
— O primeiro dia e noite de telefonemas de Emily Ashcroft, tudo
gravado. Pode ouvir quando voltar para casa. Não ouvirá nada de
interessante, pelo menos por enquanto. Ela se mostra cautelosa com as
palavras. Mais cedo ou mais tarde, porém, deixará escapar alguma
coisa. — Schmidt olhou para o relógio. — Neste momento a mulher
Ashcroft e Foster estão levando o russo Kirvov numa visita ao que foi o
Ministério do Ar de Hermann Göring. Evelyn franziu o rosto.
— Por quê? Não posso imaginar o motivo.
— Também não posso... ainda — disse Schmidt confiante. —
Mas pode estar certa... eu prometo... de que saberemos de tudo muito
em breve. E se surgir algum perigo para nós, estarei preparado para
evitá-lo. Vou lhe repetir, Effie: não precisa se preocupar. Não há motivo
para medo.
Evelyn recostou-se, deixando escapar um suspiro de alívio.
— Não tenho medo, Wolfgang. Não enquanto eu puder contar
com você. — Guardou a fita gravada em sua dispendiosa bolsa de
crocodilo. — Eu... meu marido e eu... ambos agradecemos pelo que você
está fazendo para preservar o futuro da Alemanha.
Irwin Plamp, guiando seu seda Mercedes, levara-os a seu destino
em Berlim Oriental.
Estacionou perto da Leipziger Strasse, a um quarteirão do prédio
cinza retangular. Aos pares, os passageiros saltaram do seda e
começaram a descer a rua. Embora fosse início da tarde, quase não
havia veículos trafegando, e os pedestres eram poucos.
Na claridade do dia quente, o prédio que eles procuravam era o
único ponto na paisagem que parecia sombrio e intimidativo.
Nicholas Kirvov, segurando o óleo de Hitler, foi o primeiro a
atravessar a Leipziger Strasse e estudar a estrutura de perto. Levantou
os olhos da fachada do térreo para os quatro andares acima.
Foster veio postar-se ao seu lado, seguido por Emily e Tovah.
— O antigo Reichsluftfahrtministerium — disse Foster. — O
Ministério do Ar Göring, a única estrutura do Terceiro Reich que
sobreviveu aos maciços ataques aéreos dos Aliados.
— Hoje é o Haus der Ministerien — comentou Emily. — A Casa
dos Ministérios de Berlim Oriental.
Kirvov permaneceu em silêncio, enquanto seus olhos se
desviavam da fachada do prédio para o quadro. Ele comparou por um
minuto pelo menos e depois virou-se para os outros, anunciando:
— São exatamente o mesmo... o prédio que vemos à frente e o
prédio que Hitler pintou.
— Agora já confirmou pessoalmente — disse Foster. — Quando
puser a tela em exposição no Hermitage, poderá explicá-la
acuradamente a todos os visitantes.
— Não se deve esquecer que 35 por cento do prédio original
foram danificados pelos bombardeios — interveio Emily. — Assim, mais
de um terço foi reparado e restaurado.
Ela fez uma pausa, abrindo a bolsa.
— Talvez queira ver uma boa fotografia da entrada. Tenho uma
tirada em 1935. Acabei de recebê-la de Oxford. Mostra como era o
ministério antes de ser danificado e restaurado.
Ela finalmente encontrou a fotografia do prédio e entregou-a a
Kirvov.
O russo tornou a ficar em silêncio, examinando a fotografia da
entrada em 1935, depois o prédio agora e finalmente a tela de Hitler.
Observando Kirvov, Emily comentou distraidamente com Tovah, a seu
lado:
— Gostaria de saber por que essa expressão estranha no rosto de Kirvov.
Porque a expressão do russo era de fato muito estranha.
Abruptamente, ele levantou os olhos para os outros, exclamando:
— Muito esquisito! Muito esquisito!
Kirvov fez sinal para que os outros chegassem mais perto e todos
se agruparam ao seu redor.
— Olhem ali — disse ele, apontando para um ponto na fachada
do prédio. — Estão vendo o mural de cerâmica, quase perdido nas
sombras, por trás das doze colunas? E agora vejam isto.
Levantou o quadro de Hitler e apontou para o mesmo lugar na
tela.
— Aqui está outra vez o mural, quase perdido nas sombras,
mas ainda visível. E agora...
Ele baixou o quadro, encostando-o na perna, e suspendeu a
fotografia antiga do ministério, tirada em 1935.
— E agora observem a fotografia do prédio antes de ele ser
bombardeado e restaurado. O que é que não se vê? Não havia qualquer
mural quando o prédio foi construído. Só foi acrescentado à fachada na
restauração. E o mural também aparece no quadro que Hitler pintou!
— Deixe-me ver a foto — pediu Foster, pegando-a e estudando-
a. — Tem razão. Eu não tinha percebido antes.
— Isso significa que Hitler não pintou o prédio original! —
exclamou Emily. — Pintou-o depois que foi reparado!
— Mas quando ele foi reparado? — indagou Kirvov, aturdido.
Emily não podia controlar seu excitamento.
— Sei exatamente como descobrir. Vamos procurar um telefone.
Ela seguiu apressadamente na frente, de volta ao Mercedes.
— Her Plamp — disse ela ao motorista à espera — preciso
encontrar imediatamente um telefone público. Existe algum aqui por
perto?
O motorista pensou por um instante.
— Há alguns — respondeu ele, hesitante. — Creio que o mais
fácil é tentar os telefones no Café am Palast.
— Leve-me até lá — ordenou Emily.
Depois que todos embarcaram, Plamp deu a partida e seguiu
pelas ruas de Berlim Oriental até alcançarem a larga Unter den Linden.
Parou um instante depois por trás do Palast Hotel.
— Aqui estamos. O Café am Palast fica na esquina. Há telefones
públicos na entrada.
Os quatro deixaram o carro, viraram a esquina e entraram no
café. Emily gesticulou para o salão.
— Peguem uma mesa. Estarei com vocês dentro de um minuto.
Vou ligar para o Professor Otto Blaubach.
Pelo canto de um olho, Emily observou os outros serem
conduzidos a uma mesa vaga, enquanto vasculhava a bolsa à procura
do caderninho que preparara com telefones locais. Encontrou-o, abriu
no B, e lá estava o telefone do Professor Blaubach.
Rezou silenciosamente para que Blaubach estivesse em seu
gabinete. Em menos de um minuto o professor atendeu, dizendo
imediatamente:
— Não tenho nenhuma notícia para você sobre a permissão
para escavar. Mas espero poder lhe informar alguma coisa ao final desta
tarde.
— Isso é ótimo. Estarei no Kempinski à espera de seu chamado.
— Emily fez uma pausa. — Mas não é por isso que estou telefonando,
Professor. É por outro motivo. Explicarei tudo na próxima vez em que
nos encontrarmos. O que preciso neste momento é de uma informação
sobre um dos prédios de seu governo.
— Que prédio?
— A Haus der Ministerien, perto do muro.
— O prédio que era antigamente o quartel-general da Luftwaffe
de Göring?
— Esse mesmo.
— O que deseja saber a respeito?
— Pelo que sei, um terço do prédio foi danificado por um ataque
aéreo Aliado antes de 1945. E foi reparado quando o governo alemão oriental o assumiu.
— Creio que foi isso mesmo.
— É possível descobrir quando foi restaurado?
— É, sim. Posso saber com precisão em poucos minutos. Onde
poderei encontrá-la?
— Eu ligarei de novo.
— Está certo. Telefone dentro de cinco minutos.
Emily ficou esperando junto ao telefone, impaciente, observando
Foster, Kirvov e Tovah estudarem os cardápios. O perfil de Foster se
destacava e mais uma vez ela sentiu o calor de seu rosto e corpo. Mas
não permitiria que o sentimento a desviasse do outro excitamento que
experimentava, aguardando o momento de ligar de novo para Blaubach.
Cinco minutos se passaram. Ela esperou mais um minuto e
depois discou outra vez para o gabinete de Blaubach. Ele atendeu no
mesmo instante.
— Creio que já tenho o que você quer. Quando o ministério foi
reparado e voltou a ser usado, não é mesmo?
— Exatamente.
— Foi reconstruído em 1952. Emily precisava ter certeza
absoluta.
— Disse 1952. Não há qualquer dúvida?
— Absolutamente nenhuma. O prédio foi construído por Göring
em 1935. Foi parcialmente danificado em 1944, sendo reconstruído em
1952. Dá para perceber que os blocos de pedra são mais claros nos
trechos reconstituídos.
— E também se acrescentaram alguns ornamentos, como um
mural de cerâmica na entrada.
— Não me lembro. Mas uma coisa é certa: todos os acréscimos e
reparos foram feitos em 1952.
O coração de Emily estava novamente disparado.
— Muito obrigada, Professor.
— Foi um prazer ajudá-la. E pode estar certa de que terei
alguma coisa para lhe dizer ainda hoje.
Emily desligou, virou-se e entrou apressadamente no café. Podia
notar que os três aguardavam ansiosamente suas notícias, enquanto se
aproximava da mesa. Não sentou. A notícia era tão sensacional que
permaneceu de pé.
— Uma coisa incrível! — anunciou ela — O velho Ministério
Göring só foi reparado em 1952. Foi nessa ocasião que se acrescentou o
mural à entrada. Mas Hitler pintou-o e incluiu o mural.
Fez uma pausa, a fim de recuperar o fôlego, e depois
acrescentou:
— Isso significa que Hitler só poderia ter pintado o quadro
depois de 1952. Quando a Segunda Guerra Mundial já havia terminado
há sete anos. O que só pode significar uma coisa.
Kirvov balançava a cabeça, o semblante eslavo afogueado pela
revelação.
— Significa que Hitler não morreu na ocasião em que todos
acreditam que ele se matou. Significa que Hitler continuava vivo sete
anos depois da guerra, talvez dez, talvez vinte ou mais. Significa que
Hitler pode estar vivo hoje.
Às oito e meia da noite os quatro estavam sentados a uma mesa
no meio do Restaurante Kempinski, um dos melhores de Berlim
Ocidental.
— Deve ser mesmo um dos melhores — comentou Foster,
apontando para o cardápio. — Dêem uma olhada nos preços.
— E no cenário — acrescentou Tovah.
Sobre a toalha de mesa branca, por baixo de um candelabro de
ouro, o serviço de porcelana faiscava, os talheres pesados cintilavam.
Foster pegou o copo com scotch que acabara de ser posto à sua frente.
— Proponho um brinde a Emily. Todos levantaram seus copos.
— A seu sucesso amanhã no Führerbunker. Todos bateram os
copos alegremente.
Emily sentia-se inebriada com sua sorte. Três horas antes,
pouco depois que retornara à suíte com Foster, o telefone na sala tocara. Era o Professor Otto Blaubach, com boas notícias. O conselho
acabara de conceder permissão a Emily para escavar, não apenas no
jardim da Velha Chancelaria, mas também no monte por trás, que há
quase quarenta anos escondia o que restara do Führerbunker pessoal de
Hitler. A escavação poderia começar no dia seguinte e se prolongar por
uma semana. Blaubach lembrara a promessa de ela partilhar com ele e
o governo alemão oriental qualquer coisa que descobrisse e que pudesse
ser de interesse histórico ou político.
Assim que terminara a ligação, Emily sugerira o jantar de
comemoração, e os dois prontamente chamaram os outros.
Depois que todos brindaram ao sucesso de seu empreendimento,
Emily recostou-se, com um pouco de esgotamento nervoso.
— Não posso deixar de admitir que estou apavorada —
murmurou ela.
— Não tem motivo para se preocupar — disse Foster.
— E se houver alguma coisa lá?
— Desconfio que não tem nada, Emily, nem a arcada dentária
de Hitler nem o camafeu. Estou convencido de que você se encontra na
pista certa. O que aconteceu esta tarde no Ministério Göring confirma
isso.
Emily olhou para Nicholas Kirvov, sentado à sua esquerda. Não
era um homem expansivo, embora sua voz se mostrasse
perceptivelmente excitada no carro, ao voltarem de Berlim Oriental.
Agora, Emily notou, seu rosto estava outra vez impassível.
— Como se sente, Nicholas, desde a descoberta desta tarde?
Seu trabalho aqui está concluído?
Ele pareceu avaliar as perguntas por um momento, refletir sobre
as respostas.
— Ainda não acabou inteiramente. Quer que eu lhe diga o que
estou pensando?
— Claro.
— É verdade que descobrimos que Hitler, para pintar o meu
quadro, não poderia ter morrido em 1945. Precisava estar vivo em 1952 ou depois. O que é um fato sensacional, da maior importância. Mas
tudo fica na dependência de uma coisa: que o próprio Adolf Hitler tenha
pintado o quadro.
— Examinou a tela com todo cuidado, depois de adquiri-la —
comentou Foster. — E ficou absolutamente convencido de que era da
autoria de Hitler.
— E ainda acredito nisso. Mas o que aconteceu hoje abala um
pouco a minha fé na autenticidade da obra. Se Hitler pintou o quadro, o
anacronismo indica que ele estava vivo em 1952 ou depois, quando
supostamente se encontrava morto há sete anos.
Kirvov fez uma pausa e depois continuou:
— Se o que descobrimos é verdade, significa que Hitler ficou
escondido depois de sua suposta morte. Também significa que, em
algum momento, Hitler saiu de seu esconderijo e foi se postar diante do
Ministério do Ar reconstruído, pintando o quadro. Não posso imaginá-lo
correndo tamanho risco. E isso me leva a especular se foi realmente ele
o autor.
— E se ele não foi se postar diante do prédio para pintá-lo,
Nicholas? — sugeriu Emily. — E se fez o quadro baseado numa
fotografia tirada por algum amigo? Você mesmo disse que nos seus
primeiros tempos como artista, Hitler fazia a maioria de suas obras
usando cartões-postais, limitando-se a copiá-los.
— É verdade.
— Talvez ele tenha feito de novo a mesma coisa.
— É possível — admitiu Kirvov. — Mas, para o meu propósito,
preciso ter certeza absoluta de que a obra é de Hitler. Preciso de uma
prova incontestável.
Foster interveio na conversa:
— A esta altura, Nicholas, já deve saber qual é a galeria de
Berlim que vendeu o quadro. Pode ir até lá para descobrir a
proveniência.
Kirvov suspirou, infeliz.
— Sinto-me envergonhado em confessar, Rex, mas não tenho o nome da galeria. É esse o meu problema. O tal comissário de bordo
ficou de me enviar a informação assim que voltasse para casa. Mas não
o fez. — Tirou um charuto cubano do bolso do paletó. — Mas ainda não
desisti. E resolvi passar mais uma semana aqui. E vou devotar todo o
meu tempo a confirmar a autenticidade do quadro de Hitler.
— Como? — indagou Emily.
— Continuando a procurar pela galeria de arte que o vendeu.
— Deve haver centenas de galerias de arte em Berlim Ocidental
— comentou Foster.
— E há mesmo — confirmou Kirvov. — Já verifiquei na lista
telefônica e visitei muitas. O problema é que são várias colunas. Por
sorte, não preciso perder tempo visitando cada uma. O homem me disse
que comprou o quadro em uma galeria no centro de Berlim Ocidental,
não muito longe da avenida principal. Imagino que ele estava se
referindo à Kurfürstendamm.
— É o que parece — disse Foster.
— O que restringe a área em que devo procurar. Voltarei a
percorrer galerias de arte amanhã de manhã, mostrando o quadro. Mais
cedo ou mais tarde encontrarei a galeria certa. Se me convencer da
autenticação que eles apresentarem, isso significa que vocês também
estão no caminho certo.
— Seria muito importante para mim — murmurou Emily. — Se
eu puder ajudar em alguma coisa...
— Não precisa se preocupar comigo — disse Kirvov,
incisivamente. — Todos vocês podem continuar em suas investigações.
Cuidarei sozinho da minha parte.
Fez uma pausa, fitando a jovem loura israelense, e lhe
perguntou:
— E você, Tovah, o que vai fazer?
— Isso mesmo, Tovah — interveio Emily. — Está querendo me
contar uma coisa desde a noite passada. Desculpe termos nos ocupado
com outras coisas. Quer contar agora ou prefere...
Tovah falou com a maior animação:
— Não é segredo que estou ansiosa em contar a todos vocês. É
sobre o sósia de Hitler. — Ela olhou para as outras mesas e baixou a
voz ao continuar: — Se a sua teoria está correta e puder provar que
Hitler sobreviveu, Emily, teria de haver um sósia que morreu em seu
lugar. Eu lhe disse que investigaria essa parte. Foi o que fiz. — Ela
sorriu, feliz. — Hitler tinha mesmo um sósia, acredite ou não. Mas acho
melhor acreditar, porque é verdade.
Emily piscou os olhos, aturdida, para a jovem israelense.
— Pode provar?
— Claro.
Com indisfarçável satisfação, Tovah relatou a sua busca por um
sósia de Hitler e a descoberta de Manfred Müller, o satírico imitador do
Führer, concluindo com o encontro com Anneliese Raab, que ajudara a
fazer o filme sobre os Jogos Olímpicos de Berlim.
— Anneliese me contou que Müller tem um filho em Berlim —
acrescentou Tovah. — Ela está promovendo um encontro meu com esse
filho, Josef Müller. Talvez ele possa me dar a última palavra sobre o que
aconteceu com o sósia de Hitler.
Emily estava satisfeita, mas pensativa.
— Um trabalho maravilhoso, Tovah. Mas... — Refletiu por um
instante. — ... e se Josef Müller declarar que o pai está vivo e levá-la à
sua presença?
— Nesse caso, nós perdemos — respondeu Tovah. — Um sósia
de Hitler ainda vivo não nos dá um sósia sendo cremado ao lado do
Führerbunker, no lugar de Hitler. Por outro lado, Josef também pode me
dizer que o pai morreu em 1945, em circunstâncias estranhas e
inexplicáveis.
Emily virou-se para Foster a seu lado, cobrindo-lhe a mão com a
sua.
— Rex, conte a Nicholas e Tovah sobre o seu encontro com
Zeidler.
Sem precisar de mais estímulo, Foster passou a relatar os
pontos principais de sua entrevista com Zeidler, revelou a sugestão do arquiteto alemão para que procurasse na prisão de Spandau a planta
desaparecida do misterioso sétimo bunker. Foster tencionava procurar o
diretor americano da prisão dali a dois dias. Voltando a concentrar sua
atenção em Emily, acrescentou:
— Mas é claro que a investigação mais crucial é a que começa
amanhã de manhã junto ao Führerbunker. Já está com tudo preparado,
Emily?
— Espero que sim. O Professor Blaubach prometeu que todas
as autorizações estariam em ordem para que o motorista Plamp e eu
entremos de carro na Zona de Segurança no setor oriental e para que o
caminhão da Companhia Construtora Oberstadt me acompanhe. O
próprio Andrew Oberstadt vai supervisionar o trabalho de escavação da
equipe de três homens. Começaremos às dez horas da manhã.
— E a partir desse momento as fichas estarão na mesa. —
Foster fez sinal ao garçom para que tornasse a encher os copos. —
Vamos beber a isso e torcer para que Emily acerte na sorte grande.
Era a metade da manhã, e eles estavam em Berlim Oriental.
A tensão dominava Emily, sentada sozinha no banco traseiro do
Mercedes de Plamp, enquanto avançavam cautelosamente pela
Niederkurchner Strasse, a caminho da casa de guarda ao lado do portão
eletrônico que dava acesso à Zona de Segurança.
Embora já tivesse passado por ali antes, em companhia de Ernst
Vogel, encontrando-se com o Professor Blaubach à entrada, desta vez
ela se sentia mais insegura, sozinha e vulnerável. Inclinando-se para a
frente, estreitando os olhos ao observar através do pára-brisa do carro,
compreendeu que a recordação da visita anterior era vaga e que tudo
parecia agora adquirir um foco mais claro.
Enquanto o carro avançava pela rua, aproximando-se do portão,
diminuindo a velocidade, Emily constatou que havia à vista meia dúzia
de guardas com o uniforme verde da Alemanha Oriental. Mais além
estava a cerca, que logo se fundia com o muro. Aproximando-se do
portão, procurou por Andrew Oberstadt e o caminhão com equipamento
que ele ficara de trazer, junto com três dos seus melhores operários. O caminhão não estava à vista, e Emily sentiu uma pontada de
apreensão.
Passaram a poucos metros da linha de soldados à espera —
todos armados, notou Emily, com o que pareciam ser metralhadoras,
penduradas nos ombros. Plamp saltou do carro apressadamente para
ajudar Emily a desembarcar.
Foi nesse instante que ela avistou uma pickup Toyota azul se
aproximar. Reconheceu o motorista musculoso, de sobrancelhas
espessas: Andrew Oberstadt. Estava acompanhado por dois homens de
sua equipe, espremidos no banco, enquanto um terceiro operário
agachava-se lá atrás.
Quando o veículo emparelhou com o Mercedes, Oberstadt
inclinou-se pela janela da cabine e gritou para Emily:
— Desculpe o atraso. Detiveram-me em Checkpoint Charlie.
Praticamente desmontaram o meu carro. Mas aqui estamos, e prontos
para começar o trabalho. — Ele acenou com a cabeça para os guardas.
— Imagino que teremos de passar por tudo novamente.
— É bem possível — respondeu Emily. — Vamos ver se eles
receberam nossas permissões de entrada do Professor Blaubach.
Emily encaminhou-se para os soldados. Divisou ao lado um
ameaçador cartaz de madeira: CUIDADO! NÃO SE APROXIME! ESTA
ÁREA DE FRONTEIRA É ZONA PROIBIDA!
Um dos soldados, mais alto do que os outros, de óculos, em
uniforme de gala, adiantou-se. Emily percebeu que era um oficial.
— Fräulein Emily Ashcroft?
— Exatamente. O Professor Otto Blaubach ficou de enviar
permissões de acesso para mim e para os outros. Recebeu-as?
O oficial não confirmou, estendendo a mão em vez disso e
pedindo:
— Pode me entregar seu passaporte, Fräulein?
Emily tirou o passaporte inglês da bolsa pendurada no ombro e
entregou-o. O oficial estudou a foto, comparou-a com o rosto de Emily.
Sem dizer nada, devolveu o passaporte. Olhou para o Mercedes e depois para a pickup Toyota.
— Há cinco homens a acompanhando.
— Isso mesmo.
— São todos alemães ocidentais?
— De Berlim Ocidental. Estão com seus passaportes. Se
quiser...
O oficial dispensou os passaportes com um aceno de mão.
— Antes de passarem, temos de fazer uma revista meticulosa
nos veículos.
— Não há problema — disse Emily, virando-se.
Ela fez sinal para que Oberstadt e seus homens saltassem.
Plamp recuou, enquanto Oberstadt saltava e gesticulava para que seus
homens o imitassem.
Enquanto isso ocorria, o oficial alemão oriental gritava uma
ordem para os outros guardas. Todos entraram rapidamente em ação.
Um soldado pegou um cabo comprido com um espelho na extremidade
e se encaminhou para o Mercedes. O oficial alto levou dois outros
guardas para a pickup.
Emily foi postar-se ao lado de Oberstadt, que era três ou quatro
centímetros mais baixo do que ela e cinco ou seis mais largo, enquanto
ele observava o movimento em torno de seu Toyota.
— Desta vez é para valer — sussurrou ele. — Não vão se limitar
aos espelhos. Receberemos o tratamento completo.
Dois soldados se deitaram de costas, entrando por baixo da
pickup.
— O que eles esperam encontrar? — perguntou Emily.
— Devem estar procurando por armas. — Uma pausa e
Oberstadt acrescentou: — Ou por Martin Bormann.
A revista dos dois veículos levou dez minutos. Depois que
acabou e os soldados se reuniram na frente da casa da guarda, o oficial
aproximou-se de Emily. Entregou-lhe seis cartões rosa.
— Aí estão as permissões para os seis passarem, durante sete
dias — disse ele. — Entrarão às dez horas da manhã. Os veículos serão revistados ao chegarem e ao partirem. Terão que se retirar o mais tardar
até cinco horas da tarde, por este portão. Deve seguir para o seu
destino declarado, diretamente, sem ir a qualquer outro lugar.
— O monte de terra e a área imediatamente ao redor — disse
Emily.
— A área do Führerbunker — declarou o oficial, mais específico.
— Podem passar agora.
Tornaram a embarcar nos veículos, o Mercedes avançando
devagar, à frente da pickup de Oberstadt, passando pelo portão e os
obstáculos na terra de ninguém dos alemães orientais.
Passaram pela torre de vigia, de onde dois soldados curiosos da
Alemanha Oriental observavam o progresso, depois entraram no
caminho de terra, ziguezagueando aos solavancos.
Ao chegarem à base do alongado monte de terra. Emily
confirmou para si mesma que devia ter pelo menos seis metros no ponto
mais alto, cercado por um campo irregular, mas relativamente plano.
Emily saltou do Mercedes e parou, as mãos nos quadris,
estudando atentamente a disposição da elevação, bastante isolada, a
alguma distância da torre de vigia mais próxima. Não muito longe, à
direita, havia um trecho da cerca de arame de um metro e meio e mais
além, no setor de Berlim Oriental, ficava o estacionamento em que
outrora se erguia a Velha Chancelaria do Reich de Hitler, totalmente
destruída por aviões americanos e ingleses e pela artilharia russa.
Andrew Oberstadt descera da pickup e estava dando ordens a
seus homens, que pegavam pás, picaretas e peneiras. Dali a pouco
Oberstadt se aproximou de Emily e juntos, ao sol, examinaram o local.
Oberstadt sacudiu a cabeça.
— Parece uma pilha de nada. E pensar que o líder do Terceiro
Reich viveu por baixo desses escombros todos os dias durante... quanto
tempo... dois ou três meses?
— Pelo menos durante os últimos três meses e meio.
— E aqui morreu como um rato acuado.
— Talvez — disse Emily, de forma quase inaudível, para depois acrescentar, mais firmemente: — Sabe o que estamos procurando?
— Sei, sim. Um camafeu com o rosto de Frederico o Grande.
Uma mandíbula, com dentes e uma ponte possivelmente intacta.
— Exatamente. E também qualquer outra coisa importante que
possamos encontrar.
— Não perderemos coisa alguma. Mas, primeiro, você tem de
nos mostrar por onde começar. Sei que é no antigo jardim da
Chancelaria, mas terá de apontar o local exato para o início da
escavação e as dimensões aproximadas. Pode ser agora?
— Claro.
Emily vasculhou a bolsa à procura do desenho que fizera com
Ernst Vogel, um diagrama do Führerbunker e da área adjacente do
jardim, que Foster desenvolvera com base em sua planta da estrutura
subterrânea e fotografias tiradas pelas primeiras equipes soviéticas
encarregadas das investigações.
Encaminhando-se lentamente para o lado esquerdo do monte,
Emily estudou o diagrama, com Oberstadt ao lado e espiando por cima
de seu ombro. Emily parou de repente, um pouco além do meio do
monte.
— Aqui — disse ela. — Do nível inferior, dezessete metros
abaixo, eles carregaram o corpo de Hitler por quatro lances de escada,
depois o corpo de Braun, até a saída de emergência, situada bem aqui.
Havia neste ponto uma espécie de casamata ou vestíbulo, com uma
porta para o que restava do jardim.
Emily deu alguns passos para a esquerda, com Oberstadt em
seu encalço.
— Mais ou menos aqui faremos a primeira escavação. É o lugar
em que os russos encontraram uma cova rasa. — Ela pegou duas
fotografias que estavam presas por um clipe ao diagrama. — Estas fotos
foram tiradas por um russo, um dia depois que os soviéticos
capturaram o lugar.
Oberstadt examinou as fotografias e depois estudou o local da
escavação.
— Não parece muito profundo.
— Não se esqueça de que se passaram quarenta anos, Andrew.
Na ocasião os tratores russos passaram por aqui e empurraram mais
terra sobre a cova. Não está agora tão rasa e próxima da superfície.
Pode estar a alguns metros de profundidade.
— Não se preocupe — disse Oberstadt. — Escavaremos bem
fundo, por precaução.
Ele chamou os seus homens e deu ordens incisivas. Traçando os
contornos da cova com a ponta da bota, mandou que os homens
cravassem estacas em torno do perímetro, delimitando a área que seria
escavada. Emily observou os homens se afastarem e depois tornou a se
virar para Oberstadt.
— Quero lhe mostrar agora a cratera da bomba em que os
corpos foram enterrados, depois de cremados. — Ela apontou para o
diagrama e acrescentou: — Neste ponto. A três metros de distância.
Emily percorreu essa distância. Oberstadt franziu o rosto.
— Este é o ponto exato?
— A localização aproximada da cratera. Os restos mortais de
Hitler e Braun foram levados para este ponto numa lona, baixados a
uma profundidade de três metros e cobertos com terra. Pouco depois,
testemunhas trouxeram os russos a esta cratera. Os russos
descobriram os corpos e posteriormente identificaram-nos como sendo o
que restava de Hitler e Braun.
— Mas tem dúvida se eles encontraram os corpos certos, não é
mesmo?
— Quero confirmar que os russos estavam corretos ou provar
que se enganaram. Espero que a escavação nos dê a resposta. — Emily
baixou os olhos para a área relvada. — Como não temos a
circunferência exata da cratera, seria melhor ampliar a área da
escavação.
Oberstadt estava outra vez marcando o solo com a ponta da
bota. E disse, ao terminar:
— Isto deve ser suficiente. Vamos marcar com estacas. Teremos bastante espaço.
— Seus homens sabem o que estamos procurando? — indagou
Emily, mais uma vez.
Oberstadt tranqüilizou-a com um sorriso.
— Foram instruídos a filtrar toda terra pelas peneiras.
Chamaremos sua atenção para qualquer coisa que encontrarmos.
Estará aqui para examinar tudo e decidir sobre sua importância.
— Onde e quando começamos? — perguntou Emily.
Oberstadt virou-se e constatou que seus homens já haviam
delimitado com estacas a área da trincheira. Um deles estava agora
trazendo pás e peneiras.
— Começaremos pela velha cova, o local da pira fúnebre.
Ele se encaminhou para o local estaqueado. Olhou ao redor,
abaixou-se e pegou uma pá de cabo comprido. Aproximando-se da beira
da área delimitada, comprimiu o pé na pá e cravou a ponta na terra.
— Quando começamos? Agora. — Empurrou a pá ainda mais.
— A escavação já está em andamento.
Emily engoliu em seco com alguma dificuldade e ficou
observando.