O Sétimo Segredo
Capítulo XII
Por vários minutos, depois que Emily partiu para o Café Wolf,
Foster permaneceu ao lado da Zona de Fronteira de Berlim Oriental,
esquadrinhando a cerca de arame, perto do portão em que se postavam
três guardas e o oficial no comando. Estava atento a qualquer
movimento na semi-escuridão do campo que denunciasse o
reaparecimento de Eva Braun.
Mas não havia ninguém à vista, nenhum sinal de Eva Braun. E
Foster compreendeu que a mulher de Hitler não iria aparecer. Mas
tinha certeza de que ela não conseguiria escapar. A mulher estava
encurralada, seria avistada ao amanhecer e capturada pelos alemães
orientais. Não importava o que acontecesse, no entanto, Foster sabia
que não perderiam Eva Braun. Mais tarde, naquele mesmo dia, ele, ou
Emily, comunicaria ao Professor Blaubach a verdadeira identidade da
mulher presa. Foster podia imaginar a surpresa de Blaubach.
Mas no momento, Foster concluiu que era inútil continuar ali, à
espera. Havia um problema mais imediato a resolver. Precisava saber se
os nazistas no bunker subterrâneo haviam sido executados. Gostaria
agora de não ter cedido seu carro a Emily, ou então tê-la acompanhado
na viagem ao Café Wolf. Precisava arrumar um carro agora.
Foster encaminhou-se para o oficial no comando, um certo
Major Janz, um homem muito decente, que até aquele momento sempre
o tratara com toda cortesia. Ao vê-lo se aproximar, o Major Janz pegou
a carabina soviética SKS que estava pendurada em seu ombro,
adiantando-se para encontrá-lo no meio do caminho.
— Eu estava esperando que um dos meus colegas acabasse e
saísse, mas não posso ficar por mais tempo — explicou Foster. — Seria
possível chamar um táxi para mim? Sei que a hora é a pior possível,
mas ainda deve haver táxis em algum lugar.
— Não há problema — disse o major. — Mandarei um dos meus
homens ligar para o Palast Hotel. Sempre há táxis por ali, esperando
por uma viagem de volta a Berlim Ocidental.
O Major Janz chamou um guarda e mandou que telefonasse e
pedisse um táxi para Herr Foster.
Foster agradeceu ao major e voltou a observar a cerca de arame.
A escudirão não dava qualquer indicação do paradeiro de Eva Braun.
Subitamente, sentiu a presença do Major Janz ao seu lado, dizendo:
— Não há problema. Um táxi estará aqui dentro de dez a quinze
minutos.
— Muito obrigado.
O major continuou ali, olhando fixamente para Foster.
— Está tudo bem agora?
— Está sim, obrigado.
Virando-se, Foster não tinha certeza se estava mesmo tudo bem
— para si mesmo ou para qualquer dos outros. Tudo dependia do que
estava acontecendo lá embaixo, no bunker secreto. Porque se Schmidt e
seus fanáticos tivessem escapado ao extermínio, significava que em
breve se lançariam à sua procura e de Emily, de Tovah e Kirvov,
sedentos de vingança, prontos para matar.
Ao volante do Audi de Foster, Emily seguiu para Berlim
Ocidental. De novo a demora em Checkpoint Charlie, mais longa que de
hábito, por causa da hora. Mas acabou sendo liberada e pisou no
acelerador, levando o pequeno carro pelas ruas vazias em direção a seu
destino.
Ao chegar à Askanischer Platz e procurar por uma vaga, sua
mente só se concentrava em uma coisa. Fervorosamente, rezava para
que Tovah tivesse entrado em contato com Chaim Golding e que
Golding tivesse reunido os agentes do Mossad, conseguindo acabar com
a loucura escondida por baixo da cidade.
Estava mesmo tudo acabado?, ela perguntava a si mesma.
No silêncio da suíte do bunker, por baixo de Berlim, houve um
movimento.
Devagar, bem devagar, a porta do quarto de Hitler foi se abrindo.
Uma mão enorme empurrava a porta. Wolfgang Schmidt,
sacudindo a cabeça ensangüentada, rastejava para o corredor.
Ao recuperar os sentidos, ele tentara lembrar exatamente o que
acontecera. Voltara ao bunker para se certificar de que a mulher
Ashcroft continuava ali, prisioneira, e verificar se Eva estava bem. Não
encontrara a mulher Ashcroft onde a deixara e fora ao quarto de Eva.
Ali, deparara com o desgraçado do Foster, e Eva amarrada na cama.
Houvera uma luta, Foster conseguira de alguma forma derrubá-
lo. A cabeça latejava de dor e tinha certeza de que fora atingido por
alguma coisa pesada, sofrerá uma concussão. Só sobrevivera por causa
do excelente estado físico, sua força natural.
Apoiando-se na parede do outro lado do corredor, embora
bastante fraco, Schmidt conseguiu levantar-se.
Cambaleando, foi até o quarto de Eva. Ela não se encontrava ali.
A cama estava vazia. E Foster também desaparecera. As pernas
trêmulas, Schmidt foi para a sala. Também vazia.
Avistou no chão a sua Walther P 38. Pegou-a.
Tentou imaginar o que acontecera.
Foster provavelmente levara Eva como refém, escapara pelo
mesmo caminho que usara para entrar, qualquer que fosse. Todos ali
embaixo haviam sido descobertos, seriam denunciados e destruídos
para sempre.
Cambaleante, Schmidt tentou raciocinar. Foster não podia ter
ido à polícia, depois de encontrar o chefe no esconderijo. A quem então
Foster pediria ajuda? Possivelmente aos comandantes das quatro
potências que ocupavam Berlim. Revelando o segredo do bunker e
pedindo ajuda militar.
De certa forma, isso proporcionava a Schmidt um vislumbre de
esperança. Conhecia os líderes das quatro potências, conhecia-os
pessoalmente, sabia como seria impossível fazê-los agir depressa em
qualquer situação, por mais crítica que fosse. Estavam sempre
emaranhados na burocracia, e ouvir o que parecia uma história fantástica não os levaria a se mobilizar para uma ação imediata. Antes
que qualquer coisa pudesse acontecer ainda havia uma esperança, uma
esperança concreta.
Embora a cabeça latejasse incessantemente, apesar da dor no
crânio, Schmidt tentou raciocinar mais um pouco. Com toda certeza,
enquanto procurava ajuda, Foster deixara seus aliados lá em cima,
vigiando a saída do Café Wolf. Não podiam ser muitos. Seria fácil
dominá-los.
Ainda havia uma possibilidade de escapar, concluiu Schmidt. Só
precisava alertar os guardas de confiança e outros ocupantes do
bunker. Com suas armas mais modernas — metralhadoras e lançadores
de foguetes portáteis — poderiam sair do bunker, através do Café Wolf,
vencendo qualquer resistência tênue com uma rajada de balas.
A fuga podia dar certo. Escapariam e estariam livres, se
dispersariam para permanecer escondidos por mais algum tempo.
Alerte os guardas, alerte o resto dos nazistas no bunker, tire-os
daqui, o mais depressa possível.
Havia tempo, havia tempo. Superariam qualquer oposição e
venceriam.
Schmidt cambaleou pela sala de estar, atravessou a sala de
recepção e deixou a suíte.
Encaminhou-se para a curva do corredor, virou-a, avistou a
alguma distância um dos homens da Juventude Hitlerista de guarda.
Abriu a boca para chamá-lo, alertar a ele e a todos, abriu a boca
mas engasgou.
Levou as mãos à garganta. Havia um mau cheiro acre, e ele
estava sufocando. A voz rouca estava presa na garganta. Um torno lhe
apertava a garganta, estrangulando-o, e começou a tremer
incontrolavelmente.
Tentou gritar para o guarda de serviço, mas não havia sentinela.
Pela visão enevoada, percebeu que o guarda caíra, se contorcia
no chão, ficando depois imóvel.
Tossindo, Schmidt compreendeu vagamente que alguma coisa terrível estava acontecendo.
Cristais de um azul-ametista caindo pelo tubo de ventilação,
cobrindo o chão.
E foi então que Schmidt percebeu tudo. Estivera em Auschwitz.
Já vira os cristais. E sabia o que faziam.
Sentiu que caía, sentiu que ofegava por ar, estendido no chão.
Tentou aspirar um pouco de ar. Mas só havia vapores. E então fechou
os olhos para a morte.
Estacionando o Audi, deixando-o às pressas, Emily avistou
Tovah sair do Café Wolf e correr em sua direção.
— Emily, Emily! — gritou Tovah, aproximando-se ofegante.
— Ficamos tão aliviados ao saber de você! Que experiência! E
descobrir o esconderijo deles! — Fez uma pausa, olhando ao redor.
— Onde está Rex?
— Virá daqui a pouco. Contarei tudo depois. O que quero saber
agora é se Golding e seus homens entraram em ação.
Tovah acenava com a cabeça no maior entusiasmo.
— Claro. Mas não com o gás Tabun de Speer. Nada disso.
Usaram uma coisa mais poeticamente apropriada. Descobriram o tubo
de ventilação camuflado na planta de Rex do bunker secreto. Largaram
uma quantidade interminável de cristais de Zyklon B... ácido prússico...
a mesma substância que os nazistas usaram nas câmaras da morte de
Auschwitz para matar oito mil judeus por dia. Nossos agentes largaram
no bunker subterrâneo uma quantidade suficiente desses cristais
mortíferos para exterminar mil nazistas em poucos minutos. Quantos
você disse que havia lá embaixo? Cinqüenta ou mais?
— Por aí.
— Pois estão todos mortos agora, Emily, até o último. Recebi o
aviso de Chaim Golding. Seus homens já terminaram e estão
recolhendo o equipamento. Dentro de um ou dois dias a cidade poderá
remover os vapores do gás e depois o exército descerá para retirar os
cadáveres. É uma pena que não haja um sobrevivente para nos contar
tudo.
— Rex salvou uma pessoa — informou Emily.
— É mesmo?
— Ele saiu com Eva Braun.
— Eva Braun? Mas isso é incrível! Ele a tem em seu poder?
Emily hesitou.
— Tem e não tem. Vou explicar, enquanto esperamos por Rex.
Vamos dar uma volta e contarei o que aconteceu.
Enquanto passava o braço pelo de Tovah e começava a andar,
Emily se perguntou mais uma vez o que teria acontecido com a mulher
de Hitler e o que ela estaria fazendo naquele momento...
Desde o momento em que o americano chamado Rex correra
pela escuridão para ajudar a sua companheira de conspiração, a
mulher chamada Emily, Eva Braun agira por instinto. O lapso de seu
captor lhe proporcionara uma oportunidade para escapar, e ela a
aproveitara.
Pegando a lanterna que ele deixara na relva, Eva entrara pelo
buraco negro que fora outrora a saída de emergência do Führerbunker.
Cambaleara pelas vigas que escoravam a passagem escavada, até
alcançar o recesso mais profundo, perto do topo da escada. Tentara se
esconder na escuridão, especulando se estaria de fato livre e tentando
imaginar uma maneira de escapar daquela terra de ninguém dos
alemães orientais.
Ouvira-os depois voltando, os conspiradores Emily e Rex,
concluíra que haviam parado a pouca distância da saída. Estavam
conversando, muito excitados, especialmente o homem, em inglês, uma
língua que Eva conhecia bastante bem, de suas aulas na escola e das
trilhas sonoras dos filmes de Hollywood que seu amado sempre lhe
permitira desfrutar no Berghof.
O homem chamado Rex falara claramente dos planos políticos
secretos, o prazo para ressuscitar e reconstruir a Alemanha, pela qual o
Feldherr dera a sua vida e que ela e Schmidt procuravam preservar. Em
seu esconderijo, Eva se perguntara aturdida como Rex pudera descobrir
tanto. Certamente não fora ela quem lhe revelara tudo aquilo, a não ser que estivesse drogada. Mas não tinha qualquer /lembrança de drogas.
Talvez ele tivesse visto algumas anotações em sua mesa ou mesmo
soubera por intermédio de outra pessoa.
Mas a notícia mais assustadora fora a que ouvira Rex anunciar à
mulher Emily. Já cuidei de Schmidt. Deixei-o lá embaixo, inconsciente.
E depois, continuando a prestar atenção, Eva ouvira algo ainda
mais chocante. Alguém — o Mossad, ela ouvira Rex e Emily dizerem, os
terríveis judeus — estava jogando um gás mortífero em seu lar
subterrâneo de tantos anos. Estavam no processo bárbaro de
exterminar todos os leais, os bons, Schmidt e os outros, aqueles que
haviam idolatrado seu marido e a amada. Um ato selvagem
inadmissível, mas não havia a menor dúvida de que estava sendo
praticado.
Abruptamente, ela ouvira seu nome ser chamado lá fora,
Escutara e percebera que os dois haviam descoberto que ela
desaparecera. Conseguira fugir. Eva tremera na escuridão, com receio
de que pudessem adivinhar para onde ela fora, viessem com a lanterna
a sua procura e a encontrassem. Suara frio com a perspectiva de ser
capturada e posta em exibição pública, zombada, escarnecida e
torturada, a única coisa que seu amado marido sempre temera e jurara
que jamais permitiria acontecer.
E ouvira novamente as vozes lá fora, compreendera que os dois
se afastavam, apressando-se para chegar ao Café Wolf, a fim de revelar
o desaparecimento de Eva e saber se fora concluído com êxito o esforço
para massacrar todos os seus seguidores com o gás mortal.
As vozes foram sumindo e depois houvera silêncio. Finalmente,
Eva concluíra que eles haviam ido embora.
Encolhida ali, na escuridão, ela ainda tinha medo de se mexer.
Precisava ter certeza de que estava segura e necessitava de tempo para
pensar.
E continuara ali, na escuridão da escavação, compreendendo
que somente uma preocupação obsessiva dominava a sua mente. Não
era mais o futuro do partido. Não era Schmidt, o herdeiro perfeito de seu marido, o supremo ariano, fiel a seus ideais e devotado à causa.
Como o partido, ele também estava perdido.
Era outra coisa que a obcecava.
Era a atrocidade que estava sendo cometida pelos conspiradores
estrangeiros e seus colaboradores-gângsteres judeus contra os seus
camaradas e seguidores, no lar subterrâneo. Gás venenoso se infiltrava
para a catacumba fechada, e dentro de poucos minutos todos estariam
mortos, não haveria ninguém para herdar a terra depois que os
soviéticos e americanos se destruíssem mutuamente.
O primeiro pensamento de Eva fora o de tentar salvá-los,
adverti-los lá embaixo, resgatá-los. Poderia usar a lanterna, remover o
bloco, encontrar sozinha o caminho pelo túnel que levava ao bunker
secreto, dar o alarme.
Mas depois compreendera que já era tarde demais. Muito tempo
se passara desde que ouvira a notícia sobre o gás venenoso, e àquela
altura a execução em massa já ocorrera, seu lar subterrâneo se
transformara numa sepultura coletiva.
Ela sentira um calafrio, à compreensão de sua terrível perda.
Compreendera no mesmo instante o que devia ser feito, o que tinha de
ser feito, e como se tornaria possível.
Recordando, empertigara os ombros, permanecendo ereta na
escuridão.
O marido sempre insistira em que não seria capturado vivo pelos
conquistadores bárbaros e exposto como um espetáculo. "Tschapperl...
Coisinha", ele dissera-lhe um dia, "se formos capturados vão nos meter
em jaulas e expor no jardim zoológico de Moscou." E na verdade, pela
sua previsão e astúcia, ele sempre escapara aos vingadores. No
esconderijo, lendo sobre os Julgamentos de Nuremberg, sempre
deplorara os fracos que haviam colaborado com o espetáculo.
Estranhamente, o homem do grupo que odiara como um traidor quase
até o fim fora o único que passara a admirar: Hermann Göring. O gordo
demonstrara bravura e lealdade autêntica, escapando ao laço do
carrasco e tendo coragem para acabar com a própria vida em Nuremberg.
Agora, Eva estava aplicando a convicção do marido ao que
indubitavelmente aconteceria lá embaixo muito em breve.
Dentro de um ou dois dias os assassinos desceriam ao bunker.
Removeriam o gás letal, encontrariam dezenas de cadáveres deploráveis
e tratariam de removê-los. Teriam então todo o resto, como troféus da
guerra interminável. Teriam as preciosas cinzas de seu marido na urna.
Teriam as recordações de sua grande vida. Teriam os diários dela, seus
segredos, descobririam a verdade que os levaria a Klara.
Teriam de revisar sua história.
Teriam seu espetáculo.
E Eva se lembrara agora das providências que o marido tomara
para evitar uma ocorrência tão aviltante.
Ele lhe falara sobre as alavancas secretas durante a última
semana no Führerbunker. Eram duas, ligadas a fios que se estendiam
para o bunker secreto. Uma alavanca podia ser acionada do nível
inferior do Führerbunker. A outra, de um lugar que se transformara no
Café Wolf. Qualquer uma das duas, ativada, detonaria uma carga no lar
subterrâneo e explodiria tudo.
E agora, pensou Eva, com todo o gás enchendo o bunker secreto,
uma explosão e o fogo seriam devastadores. A explosão acabaria com
tudo o que havia lá embaixo.
A lógica do marido ao preparar aquele artefato destrutivo fora
simples. Se os russos chegassem ao Führerbunker cedo demais, havia
tempo suficiente para destruir o refúgio subterrâneo, a fim de que o
mundo nunca soubesse que ele tencionara escapar à captura. Com o
bunker de fuga destruído, ele e Eva poderiam heroicamente acabar com
as próprias vidas, antes de serem capturados pelo inimigo. A outra
alavanca, dentro do Café Wolf, serviria a um propósito similar se a fuga
fosse bem-sucedida. Pois se o esconderijo fosse descoberto, nos anos
subseqüentes, ele ainda poderia destruir tudo.
Ele jamais permitiria um espetáculo.
Nem ela, Eva disse a si mesma agora. Isso era tudo o que importava. Cumprir os desejos do marido.
A alavanca no Café Wolf estava fora do seu alcance.
Mas a alavanca no Führerbunker, lá embaixo, nunca fora
descoberta, ela tinha certeza, e ainda poderia estar funcionando.
O marido lhe mostrara onde estava, quase ao final da guerra.
Mandara um eletricista do exército instalá-la e depois liquidara o
homem. Onde ela vira aquela alavanca de emergência, quarenta anos
antes? Eva concentrou-se em reconstituir aquele dia, aqueles
momentos.
Fora lá embaixo, no nível inferior do bunker, no cubículo de
Johannes Hentschel, a sala do engenheiro, com seu motor diesel, que
lhes proporcionava ar, água e eletricidade. Quando Hentschel estava
dormindo, o marido a levara à sala, em frente ao quarto dela, no outro
lado do corredor.
— Há duas coisas importantes que você deve ver, Effie —
dissera-lhe o marido. — Aqui, em cima deste balcão, está o Not-bremse,
o freio de emergência. Se houver algum atentado contra mim, puxe isto.
Apagará o bunker e fechará todas as portas. Mas há uma coisa ainda
mais importante que você deve saber. Debaixo do chão.
Ele removera um bloco de concreto do chão, apontando para
uma alavanca vermelha.
— Esta é a alavanca especial que pode acionar uma carga de
ciclonita que explodirá e destruirá nosso bunker secreto, se algum dia
houver necessidade. Jamais se esqueça disso, Effie. — E depois
concluíra, arrogante: — Tenho sempre de pensar em tudo.
Depois de tantos anos, ela se lembrava nitidamente, como se o
marido tivesse acabado de lhe mostrar.
Eva procurou e encontrou a escada de concreto que levava ao
nível inferior do Führerbunker. Não precisava realmente de luz. Podia
descer na escuridão ou vendada, já que fizera isso muitas vezes nas
últimas semanas que passara ali, ainda tão vividas em sua memória.
Tão depressa quanto possível, ela foi até o fundo. Com a
lanterna na mão, avançou pelo corredor úmido, ignorando a suíte, seguindo em frente. Diminuiu as passadas, recordando mais uma vez a
localização do cubículo de Hentschel.
A lanterna iluminou a pequena sala, e ela sabia que era ali.
Ficou de joelhos, a lanterna numa das mãos, os dedos da outra mão
tentando desprender o bloco de concreto, lascado e sujo. Quebrou uma
unha, depois outra, e por fim o bloco se desprendeu.
Iluminou o buraco com a lanterna; ali, seca, sem qualquer
corrosão, estava a alavanca vermelha, a alavanca especial.
Sem qualquer hesitação, inclinou-se, pegou a alavanca e puxou-
a com força. A alavanca se mexeu; ela a puxou com mais força ainda.
Ouviu um estalido, e compreendeu que o sistema fora ativado.
Dentro de dois minutos teria efeito.
Empunhando a lanterna, levantou-se, voltou ao corredor e
encaminhou-se para a escada. Subiu tão depressa quanto podia, lance
por lance, até o topo.
Acabara de chegar à saída de emergência quando ouviu o rumor
da terra lá fora. Tropeçou para a abertura quando a explosão detonou o
gás lá embaixo. Muitos metros à sua frente, na direção do muro e além,
a terra entrou em erupção, como se um gigantesco vulcão adquirisse
vida. Uma língua de fogo, uma cortina vermelha, estendeu-se para o
céu, parecendo ter trezentos metros de altura. O rugido da explosão
ressoou, cem vezes maior que as explosões da artilharia russa e os
bombardeios aéreos dos Aliados que ouvira durante as últimas semanas
da guerra.
Na Zona de Fronteira de Berlim Ocidental, havia um inferno
selvagem.
O ar à sua frente estava obscurecido pelas nuvens de fumaça,
pela chuva de terra e detritos. Ela virou a cabeça, a fim de proteger os
olhos.
Resguardou a vista por um longo tempo e esperou. Mas seu
coração batia alegremente.
Não se preocupe, meu querido, não haverá espetáculo, nem
agora nem nunca.
Só depois de ouvir as sirenes distantes é que ela se arriscou a
sair para o campo aberto. O céu estava avermelhado. Os detritos e a
poeira assentavam gradativamente. Largou a lanterna e tentou ver
através da massa cinzenta. Viu o que queria e avançou em sua direção.
Ao chegar perto do trecho destruído do muro de Berlim,
constatou que a abertura era bastante larga para permitir a passagem
de um batalhão de tanques.
Eva parou ali, triunfante, examinando a abertura.
Mais uma vez, pensou ela, era a Viúva Alegre. Todos os seus
amigos e as cinzas de seu amado estavam desaparecidos, só restavam
escombros no seio interminável da terra. A Viúva Alegre, sim, viúva, é
verdade, mas sabia que não estava sozinha.
Seguiu em frente, deixando a Zona de Segurança de Berlim
Oriental, passou pela abertura do que fora outrora o terrível Muro e
entrou em Berlim Ocidental.
As sirenes eram mais altas.
E Eva Braun continuava a andar.
Quando a porta do apartamento na Knesebeckstrasse foi aberta,
Eva sentiu-se aliviada ao deparar com Liesl em sua cadeira de rodas.
Liesl ficou aturdida, enquanto Eva entrava, cambaleando.
— Eva! O que está fazendo aqui a esta hora? Oh, Deus, olhe só
para você...
Eva esquecera como estava coberta de fuligem, e ignorou o fato
agora. Inclinando-se para Liesl, sussurrou, em tom veemente:
— Eles nos descobriram, destruíram nosso lugar...
— Eles... eles...?
— Os estrangeiros que estavam nos procurando.
— Mas como?
— Não importa. Todos estão perdidos. Consegui escapar. E agora
devemos todos partir antes que nos encontrem.
— Partir?
— Não podemos perder um minuto sequer. Tenho um táxi
esperando lá embaixo. Ainda me restavam alguns marcos no bolso. O táxi nos levará a Bahnhof. Pode se levantar?
— Darei um jeito, com a bengala. — Liesl hesitou. — Tem
certeza, Eva?
— Claro. Eles virão atrás de nós. Não podemos ficar aqui.
— E Schmidt? Onde ele está?
— Morreu. Eles foram em seu encalço. Agora, somos apenas
nós. — Eva correu os olhos pela sala. — Klara, onde está Klara? E
Franz, está em casa?
— Ele saiu cedo para a escola. Klara está na cozinha,
preparando o meu café da manhã. — Liesl tremeu. — O que faremos
com Klara?
Sem a menor hesitação, Eva declarou:
— Klara deve ir conosco. Imediatamente.
— Ela vai recusar. Não compreenderá.
— Faremos com que compreenda. Diremos a verdade a ela.
— Como podemos fazer isso, Eva?
— Temos de fazer. Não há alternativa. Precisamos contar a ela e
partir imediatamente.
Liesl respirou fundo.
— Está bem. Mas... mas seria melhor se fosse eu quem lhe
contasse. Deixe-me ir à cozinha. Não posso imaginar o choque que ela
terá...
— Não há outro jeito, Liesl.
— Sempre tive medo deste momento. Mas tem de ser feito. Eva
olhou para a cozinha.
— Se quiser, posso fazê-lo.
— Por favor, deixe-me falar primeiro — insistiu Liesl,
manobrando a cadeira de rodas. — Vá para o meu quarto. E comece a
arrumar as nossas coisas.
— Não levaremos bagagem — declarou Eva. — Só uma bolsa
pequena para o dinheiro. Você ainda tem o dinheiro?
— Todo. Na gaveta de baixo, junto com os passaportes.
— É o que precisamos agora. Poderemos comprar qualquer coisa quando chegarmos ao nosso destino. Tem certeza de que pode
lidar com Klara?
— Eu... eu não sei...
Eva observou a velha rodar a cadeira para a cozinha. Depois,
muito firme, saiu da sala e seguiu pelo corredor, passando pelo quarto
de Fiebig e entrando no quarto de Liesl.
Olhou para o relógio na mesinha-de-cabeceira e foi até o
armário. Encontrou uma valise na prateleira de cima, pegou-a e jogou-a
sobre a cama desfeita. Abriu-a e depois foi até a cômoda, puxando a
gaveta de baixo. As caixas com o dinheiro estavam sob as suéteres.
Começou a transferir tudo para a valise. Depois que estava cheia,
fechou-a e trancou-a.
Ao fazê-lo, ouviu um grito estridente, depois um gemido longo,
de um lugar distante. Da cozinha.
Eva tornou a olhar para o relógio. Apenas uns poucos minutos
haviam transcorrido. Ao pegar a valise, ela ouviu passos e virou-se no
mesmo instante, deparando-se com uma Klara transtornada e
desvairada na porta. Por um momento, Eva sentiu pena.
— Lamento muito, Klara... A voz de Klara estava tensa:
— Isto é uma brincadeira, não é mesmo... uma brincadeira
cruel e repulsiva?
— É a verdade, querida...
Eva encaminhou-se para a filha, querendo abraçá-la, mas Klara
recuou.
— Você não é minha mãe. Não pode ser. Não acredito.
— SOU mesmo sua mãe — disse Eva em tom firme. — E ele foi
seu pai.
— Não! Nunca! Você é louca! Nada disso é verdade!
— É verdade, sim, Klara querida. Sou sua mãe e ele foi seu pai.
— Nunca! — berrou Klara. — Não aquele monstro...
Eva atravessou o quarto num instante, a mão levantada.
Esbofeteou Klara.
— Não se atreva! — gritou. — Nunca fale dele assim! Nem agora nem nunca!
Klara desatou a chorar, em convulsões, os ombros se sacudindo.
Não havia tempo para cuidar da criança agora, consolá-la do choque.
Era o momento para demonstrar força. Ele gostaria que fosse assim.
— Temos de ir agora, Klara — disse com firmeza. — Não
podemos ser encontradas.
— Não — balbuciou Klara. — Eu não vou. Franz... nossa vida...
nosso filho...
— Você não pode ficar. Temos de ir embora.
— Não.
— Não podemos deixar que eles nos descubram, Klara. Vai fazer
agora o que estou dizendo? — Ela tentou se fazer ouvir acima dos
soluços histéricos de Klara. — Faça o que estou mandando! Vai fazer,
não é mesmo?
Enquanto seguia para a Stresemann Strasse, Foster sentiu o
cansaço dominá-lo. Estivera em movimento constante por um dia
extenuante, uma noite frenética, uma manhã agitada, sem descanso, e
pela primeira vez começava e sentir que suas forças se esgotavam.
Além disso, o céu nublado, as nuvens baixas e escuras
aumentavam sua depressão.
Ao se aproximar do destino, percebeu que o céu escuro não era
causado por nuvens, mas sim por uma mortalha de fumaça. Sua
curiosidade foi despertada no mesmo instante, e tornou-se alerta.
A origem da fumaça podia ser as explosões que ouvira e o fogo
que avistara a menos de um quilômetro de Checkpoint Charlie.
Enquanto o motorista diminuía a velocidade, Foster pôde divisar acima
e além dos prédios à esquerda a ponta de uma montanha de chamas,
que se estendia à distância. Não era o tipo de incêndio que resultava
apenas da incineração de prédios. Era tipicamente o fogo de uma
explosão de gás.
Passando pela Askanischer Platz, avistou uma enorme multidão
de curiosos. Carros de bombeiro, muitos homens e mangueiras esguichando espuma povoavam a Stresemann Strasse, todos os prédios
estavam destroçados, as vigas ainda em chamas.
Foster compreendeu prontamente o que estava acontecendo.
Saltando do carro na esquina, correu para a Askanischer Platz. Ao se
aproximar, entendeu perfeitamente o que acontecera.
O bunker subterrâneo cheio de gás fora destruído. O resultado
era evidente...
Götterdämmerung.
O esconderijo da matilha desvairada de Hitler fora destruído.
Nada restaria do bunker secreto, a não ser um buraco no chão.
Abrindo caminho pela multidão de curiosos, Foster avistou
Kirvov, depois Tovah e finalmente Emily entre os espectadores.
Encaminhou-se para eles, pegou Emily, abraçou-a, retribuiu seus
beijos. Emily comprimiu-se contra ele, murmurando:
— Está acabado... graças de Deus, está acabado... Foster
concentrou sua atenção no incêndio.
— Quando aconteceu isso, Emily?
— Cerca de uma hora depois que os agentes do Mossad
encheram o bunker com gás. Ninguém escapou lá de baixo. Golding me
contou. E pouco antes do amanhecer houve a terrível explosão. Tudo
subiu pelo ar, e o fogo continua desde então. Talvez o gás tenha se
inflamado por acidente.
— Talvez sim, talvez não — murmurou Foster.
— Alguém lá embaixo pode ter provocado a explosão ao acender
um cigarro — sugeriu Emily.
Tovah sacudiu a cabeça vigorosamente.
— Impossível. Está esquecendo que todos já haviam morrido
muito antes da explosão.
— Tem razão. — Emily deu de ombros. — Não posso imaginar o
que tenha acontecido.
Foster espiava além dos carros dos bombeiros, pela extensão da
Stresemann Strasse. A destruição de tudo, do Café Wolf ao Muro de
Berlim, fora completa. Até mesmo um trecho do Muro fora destruído. Pela abertura, de quarenta ou cinqüenta metros, podia-se ver a vasta
cratera que se estendia pela Zona de Segurança. Foster tocou em Emily
e apontou para a abertura no Muro.
— Se alguém estivesse lá dentro e quisesse passar para cá, não
teria agora a menor dificuldade.
— Está falando de alguém como... alguém como Eva Braun?
— Exatamente. — Foster tocou no braço de Kirvov. — Nicholas,
onde mora Klara Fiebig?
— Na Knesebeckstrasse, à direita da Ku'damm.
— O que estamos esperando? Deve ser a nossa última parada.
Ainda podemos pegar Klara... e Eva.
Eles se agruparam em torno de Nicholas Kirvov, que apertava
insistentemente a campainha. Bateram na porta do apartamento.
Não houve resposta por longo tempo, mas finalmente ouviram
alguém lá dentro. E um momento depois a porta foi aberta lentamente.
Um homem ainda jovem, de ombros arredondados, talvez alto
em outra ocasião, os cabelos pretos emaranhados, óculos de lentes
grossas empoleirados no nariz adunco, feições encovadas, fitou-os com
expressão aturdida. Foster percebeu que ele estava completamente
atordoado, os olhos avermelhados e inchados, as faces manchadas de
lágrimas. Kirvov hesitou.
— Você... você é Franz, o marido de Klara Fiebig?
O homem moveu a cabeça para cima e para baixo, devagar.
— Onde ela está? — indagou Kirvov. — Precisamos falar com
ela.
Franz Fiebig continuou a fitá-los fixamente, e novas lágrimas
afloraram a seus olhos.
— Vocês chegaram atrasados — murmurou ele, virando-se.
Foster adiantou-se. Entrou na sala de estar atrás de Fiebig, e os outros
o seguiram,
Fiebig parou no meio da sala, desconsolado, de costas para ele,
depois se arrastou quase a esmo para um canto, e desabou numa
poltrona. Estava chorando outra vez, tentando encontrar um lenço. Foster tirou o seu, avançou lentamente e entregou-o a ele.
— Tarde demais? — murmurou Foster.
— Ela está morta — balbuciou Fiebig, mexendo a cabeça de um
lado para outro, incrédulo. — Voltei da escola para almoçar com Klara.
Encontrei-a morta em nosso quarto. Ela se suicidou.
— Suicídio? Por quê? Você sabe por quê?
Fiebig não respondeu. Foster abaixou-se, apoiado num joelho, ao
lado da poltrona.
— Talvez eu saiba por que, Franz. Acho que todos sabemos por
quê. — Fez uma pausa. — A mãe de Klara esteve aqui para vê-la. Sua
verdadeira mãe... Eva Braun.
Através das lentes grossas, Fiebig focalizou Foster e limpou as
lágrimas das faces.
— Isso mesmo — murmurou ele. — Sua mãe... Eva Braun. Foi o
que aconteceu.
— Como descobriu, Franz?
— O bilhete... Klara deixou um bilhete na cômoda.
— Ainda está com o bilhete?
— Rasguei-o... joguei no vaso e puxei a descarga, depois que o
médico veio.
— Pode lembrar o que Klara escreveu?
Fiebig baixou o queixo para o peito, olhando para o carpete.
Foster inclinou-se para a frente, a fim de ouvir suas palavras. Fiebig
falava em tom abafado, sem qualquer inflexão:
— Evelyn... Eva... Eva Braun esteve aqui, na maior pressa.
Contou a verdade a Klara. Que ela era a mãe de Klara. E o pai... — Ele
não foi capaz de dizer o nome. — Ela soube quem era seu pai. E Liesl
confirmou tudo. Eva e Liesl disseram que iam embora, tinham de ir
embora, Eva insistiu que Klara as acompanhasse. Pobre Klara, minha
pobre e querida Klara...
— O que mais ela escreveu?
— Eva e Liesl queriam que ela partisse também, mas depois
ficaram com medo que sua histeria pudesse denunciá-las. Disseram que ela precisava se controlar primeiro. Depois disso, ela deveria
encontrá-las num determinado lugar. Klara não disse onde. Se não
comparecesse ao encontro, disseram Eva e Liesl, ela deveria
desaparecer, sua vida se tornaria impossível aqui. Ela não poderia
continuar aqui em hipótese alguma. Klara escreveu: "Eva disse que meu
pai teria exigido assim. Nunca permitiria que eu fosse transformada
num espetáculo público. Nunca deveria ser encontrada por nossos
inimigos." E depois... depois... Klara escreveu, Eva e Liesl foram
embora, ela ficou sozinha, não tinha para onde ir, mas sabia que
precisava partir de qualquer maneira. "Desculpe, Franz, mas elas estão
certas," escreveu Klara. "Alguém descobrirá, algum dia. Não posso
magoar você nem marcar nosso filho pelo resto da vida. E por isso estou
partindo. Amarei você para sempre." — Ele começou a sacudir a cabeça.
— Oh, não, não ela não precisava fazer isso. Eu a amava muito. Não me
importava. Não havia culpa. Ela era uma vítima. Eu a amaria por toda a
eternidade.
Ele cobriu o rosto e prorrompeu em soluços. Foster fez um
esforço para se levantar, abalado, profundamente comovido.
— O médico... o médico ainda está aqui, Franz? Fiebig apontou
para o corredor.
Foster atravessou a sala, entrou no corredor, parou à porta do
primeiro quarto. Sentiu o cheiro acre de amêndoa, um sinal
denunciador.
O médico, um alemão corpulento, de cabelos grisalhos, um lenço
no nariz, estava sentado ao lado da cama de casal, um bloco no joelho,
escrevendo seu relatório. Havia um vulto na cama, coberto por um
lençol, da cabeça aos pés.
— Doutor... — chamou Foster.
O médico idoso levantou a cabeça.
— .. .sou amigo dos Fiebigs e acho que Franz precisa de ajuda.
Ele ficou bastante abalado.
O médico balançou a cabeça.
— Quem pode culpá-lo por isso? De que outra forma ele poderia ficar? Mas não importa. Eu lhe darei alguma coisa. — Seus olhos
contemplaram o corpo coberto. — Uma terrível tragédia...
— Ela se matou?
— Exatamente.
— Como?
— Uma cápsula de cianureto. Não posso imaginar onde a
conseguiu.
Mas Foster sabia.
Saiu do quarto e foi se encontrar com os outros na sala. Fez
sinal a Emily, Tovah e Kirvov. Todos deixaram o apartamento atrás dele.
Era a manhã seguinte.
Um dia claro, fragrante, e o sol banhava a cidade de calor. De
braços dados, Emily e Foster estavam parados no terraço do prédio de
escritórios Centro Europa, contemplando pela última vez a linda e
desconcertante cidade de Berlim. Perto do Muro, uma trilha de fumaça
ainda se elevava para o céu. Além da Kurfürsten Strasse, lá embaixo, no
entanto, eles podiam divisar a verde extensão do Jardim Zoológico, o
Tiergarten ao lado, vislumbrar o Bellevue Palace e o Reichstag, com o
azul sinuoso do Rio Spree a distância.
Berlim era uma cidade deslumbrante, pensou Foster, mas uma
cidade invadida por horrores intermináveis. No dia anterior outro
pesadelo fora evitado, mas ele desconfiava que os pesadelos de Berlim
jamais cessariam. O perigo e a tragédia integravam o caráter da cidade.
— Pelo menos agora você tem o verdadeiro final da história de
Hitler — comentou Foster. — Pode revelar a verdade ao mundo.
— A verdade? — repetiu Emily. — Duvido muito que jamais
venha a ser conhecida. Sou uma historiadora. Devo ter provas de tudo o
que escrevo. E que provas tenho agora? Posso provar que você e eu
falamos com Eva Braun? Posso provar que não era uma impostora?
— Mas o que me diz do bunker secreto?
Emily sacudiu a cabeça, com expressão consternada.
— Para o mundo em geral não há bunker, nunca houve um bunker secreto; existe apenas um buraco no chão, onde é improvável
que qualquer pessoa pudesse viver. Os corpos e todas as provas foram
incinerados, eliminados. Só há uma pessoa no mundo que pode provar
o verdadeiro fim. Ela era a nossa única prova da verdade, e agora
desapareceu. — Pegou a mão de Foster. — Nunca mais a
encontraremos, não é mesmo, Rex?
— Ela está em algum lugar por aí. — Ele sacudiu a cabeça. —
Mas ninguém jamais a encontrará.
Emily tornou a contemplar a cidade lá embaixo, em silêncio, e
correu os olhos além de seus limites. E depois murmurou:
— A Viúva Alegre... era assim que a família e os amigos a
chamavam quando Hitler a levou para sua vida. Viúva Alegre, porque
estava quase sempre sozinha. — Emily continuou com o olhar perdido
na distância. — Pois continua sozinha, com o seu mistério, e talvez
permaneça assim até o fim.
* * *
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3 Este livro foi digitalizado e distribuído GRATUITAMENTE pela equipe Digital Source com a intenção de facilitar o acesso ao conhecimento a quem não pode pagar e também proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de conhecerem novas obras.
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Irving Wallace é um dos escritores contemporâneos mais lidos
em todo o mundo. É longa a lista de seus bestsellers, contando-se entre
eles sucessos tais como O Prêmio, O Documento R, O Todo-Poderoso e O
Milagre, todos publicados no Brasil pela Record.
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Você terminou O Sétimo Segredo
Irving Wallace
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