O Sétimo Segredo
Capítulo VIII
Era uma manhã nublada em Berlim Ocidental, e Tovah Levine
estava sentada à mesa da sala de jantar com Josef Müller, esperando
que a mulher dele terminasse de servir o café da manhã. Tovah não
podia deixar de olhar para o anfitrião, enquanto tentava determinar se
Josef Müller tinha algum dos maneirismos do pai, Manfred Müller, o
sósia de Hitler. Tovah não foi capaz de perceber qualquer semelhança.
Josef Müller, que ela calculava ter em torno de 48 anos, possuía um
rosto cheio, um pouco inchado, cabelos grisalhos, sem bigode, não se
distinguindo de um milhão de outros funcionários de escritórios
alemães.
No início, Tovah tentara localizá-lo por conta própria, através da
Lufthansa, mas fora informada de que ele se encontrava em férias. Não
quiseram fornecer o telefone ou endereço e ela não o encontrara na lista
telefônica. Mas depois Anneliese Raab cumprira o prometido e dera a
Tovah o telefone da residência do Müller mais moço.
Quando Tovah fizera o contato, ele acabara de voltar das férias
com a família na região da Floresta Negra. Ela se identificara como uma
jornalista israelense que estava fazendo uma reportagem sobre a
famosa atuação de Manfred Müller como imitador de Hitler. O filho
parecera satisfeito, até mesmo cordial, convidara Tovah a tomar o café
da manhã em sua companhia, no dia seguinte, em sua casa em
Waragerweg, não muito longe de Gatow.
Tudo servido, Tovah e Josef Müller ficaram a sós, com as fatias
de frios e o café. Uma chuva miúda começara a cair lá fora, e Josef
Müller contemplava as pequenas gotas de chuva que salpicavam os
vidros da janela.
Antes do café, o filho já respondera a perguntas sobre a carreira
artística do pai, falando de seu sucesso como imitador de Der Führer. Também mostrara um álbum com recortes amarelados sobre os
desempenhos de Manfred Müller, além de anúncios de sua longa
apresentação no Lowendorff Club. Depois, conversaram sobre a noite
em que os camisas-pretas da Gestapo pegaram Manfred Müller, depois
de um espetáculo.
— Sempre foi um momento memorável em nossa família —
admitira Josef Müller, ainda impressionado. — Meu pai foi levado a um
encontro pessoal com Hitler.
— Ao que tudo indica porque Hitler tinha necessidade de um
sósia. Sabia disso antes de Fräulein Raab confirmar e lhe enviar o filme
dos Jogos Olímpicos, mostrando seu pai como sósia de Hitler?
— Nunca soube com certeza. Sabia apenas que meu pai se
encontrara com Hitler e cumpria algumas missões para ele. Mas creio
que desconfiava vagamente do papel que meu pai desempenhava, pelas
insinuações que mamãe fazia de vez em quando. Nunca entendi
exatamente o que meu pai fazia para Hitler. Ele se recusava a falar a
respeito. Eu era muito novo, devia ter sete ou oito anos, ao final da
guerra. Nada compreendia de política.
Isso fora parte da conversa antes do café da manhã. E agora
Tovah apresentou a sua nova pergunta:
— Manfred Müller apresentou-se como sósia de Hitler durante a
maior parte dos Jogos Olímpicos de 1936. O que eu gostaria de saber é
o seguinte: ele continuou a aparecer como Hitler depois disso?
Josef Müller concentrou-se nos filetes de chuva que escorriam
pela janela, refletindo sobre a pergunta. Mudando de posição na
cadeira, ele pegou o garfo e começou a cortar e comer algumas fatias de
frios.
— Enquanto crescia, sempre desconfiei de que meu pai
continuou a trabalhar como sósia de Hitler.
— Mas nunca soube com certeza?
— Nunca. Entretanto o filme dos Jogos Olímpicos não permite
mais qualquer dúvida.
Tovah recomeçou o interrogatório:
— Entre 1936, a época dos Jogos Olímpicos, e 1939, quando a
Segunda Guerra Mundial começou, o que seu pai fazia? Voltou a
trabalhar como artista?
— Não. Minha irmã me contou que ele passava muito tempo em
casa, como se estivesse à espera de um chamado. Mas vivíamos bem.
Presumo que Hitler o mantinha sob contrato, com alguma recompensa
financeira. Ele devia ganhar muito bem, porque levávamos uma vida
bastante confortável. Mas depois que a guerra ganhou intensidade,
talvez em 1940, meu pai começou a sair de casa e se ausentar com
mais freqüência. Havia ocasiões em que passava vários dias fora.
Minhas irmãs sempre pressionavam mamãe para saber onde o pai
estava. Mamãe dizia que ele trabalhava para o governo, às vezes
realizando missões especiais para Der Führer. Dava a impressão de que
meu pai era um mensageiro especial. Mas sabendo da carreira teatral
de meu pai, acabei adivinhando que ele servia como substituto ou sósia
de Hrtler.
— Mas não tem provas de qualquer caso concreto em que ele
tenha aparecido como sósia de Hitler?
— Não, não tenho — respondeu Josef Müller, um pouco infeliz.
— Só posso dizer uma coisa. À medida que a guerra se intensificava,
meu pai se ausentava com mais freqüência e por períodos mais
prolongados. Em 1944 só esteve em casa umas poucas vezes e sempre
de boca fechada. A última vez em que o vi... eu tinha mais ou menos
oito anos na ocasião... foi nos últimos meses da guerra. Ele veio em
casa para providenciar que minha mãe, minhas irmãs e eu fôssemos
levados para um lugar seguro. Resolveu levar-nos para o Obersalzberg.
Tenho uma vaga recordação de que ele se encontrava lá conosco
quando uma tarde apareceram quatro agentes da Gestapo e o levaram
mais uma vez. Eram ordens expressas de Hitler. Nunca mais tornei a
ver meu pai. Ele jamais apareceu de volta no Obersalzberg. E não tenho
a menor idéia do que lhe tenha acontecido.
Controlando seu excitamento, Tovah perguntou:
— Lembra-se da data em que seu pai foi levado pela última vez?
— Não a data exata, mas creio que foi ao final de abril de 1945.
A guerra terminou cerca de uma semana depois. Mas meu pai
desaparecera, e nunca mais tivemos notícias dele.
Tovah inclinou a cabeça, num gesto de compreensão. Tudo
combinava. Tudo parecia se ajustar em sequência. Ela estudou o rosto
perturbado de Josef Müller e depois formulou abruptamente a sua
pergunta seguinte:
— Seu pai poderia ter sido levado à presença de Hitler no
Führerbunker e ficado em sua companhia até o fim?
Josef Müller ficou surpreso.
— Meu pai e Adolf no bunker! Não acredito. Não haveria
explicação para dois Hitlers. Alguém veria e saberia. Mas o que está
tentando insinuar?
Tovah empertigou-se.
— Que talvez seu pai tenha sido obrigado a se apresentar como
Hitler e forçado a se matar, a fim de que o verdadeiro Hitler sobrevivesse
e escapasse.
A possibilidade congelou as feições do Müller mais jovem.
— Eu... eu acho que isso não seria possível. Não posso conceber
uma coisa dessas.
— Há algumas pessoas que concebem. Josef Müller tentou
recuperar o controle.
— Está querendo dizer que meu pai foi obrigado a passar por
Hitler e se matou... ou foi morto... sendo depois cremado para enganar
os vencedores? E que foi uma trama arquitetada para que Hitler
pudesse sobreviver? Acha mesmo que é possível?
Tovah deu de ombros.
— Não sei. Creio pelo menos que poderia ter acontecido assim.
Mas ainda não fui capaz de provar.
Josef Müller levantou-se agitado.
— Duvido que algum dia consiga provar. Tenho lido muito sobre
o último período de Hitler no bunker. Ele passou várias semanas
debaixo da terra, nunca saindo. Se Manfred Müller entrou no bunker como Hitler, deve-se presumir que Hitler saíra antes e estava agora
voltando. Isso nunca aconteceu.
— Tem certeza de que Hitler não deixou o bunker na última
semana de sua vida? Ou que não foi visto por alguém voltando para o
bunker!
A agitação de Josef Müller tornou-se ainda maior.
— Não tenho certeza de nada, é claro. Só um guarda da SS ou
da polícia que estivesse de sentinela fora do bunker naqueles últimos
dias é que poderia jurar ter visto Hitler... ou alguém parecido com ele...
entrar no bunker quase no final. Se conseguisse encontrar alguém
assim, poderia provar o que está imaginando... que Manfred Müller foi
para o bunker quando Hitler ainda se encontrava lá e que Manfred
Müller morreu no lugar de Hitler. Se encontrar tal pessoa...
— Talvez eu possa encontrá-la.
— Nesse caso poderá descobrir, de uma vez por todas, o que
aconteceu com Adolf Hitler... e também o que aconteceu com meu pai.
Eu lhe desejo boa sorte.
Uma hora depois, voltando ao Hotel Kempinski, Tovah Levine foi
diretamente para o segundo andar e tocou a campainha da suíte de
Emily. A porta foi aberta quase que no mesmo instante.
— Fiquei com receio de que você já estivesse na escavação —
murmurou Tovah, recuperando o fôlego.
— Eu já estava de saída — disse Emily, abotoando a capa.
Inquieta, ela foi até a janela e estudou a rua molhada lá embaixo, com
expressão sombria.
— Minha equipe já está escavando. Tenho a impressão de que a
chuva diminuiu. Talvez pare por completo. — Virou-se para fitar Tovah,
que estava parada no meio da sala. — Você parece que tem alguma
idéia, Tovah. Por que veio aqui?
— Preciso de sua ajuda. Creio que podemos ser úteis uma à
outra. Vamos conversar um pouco?
— Claro. Sente-se, por favor.
Tovah arriou no sofá e esperou que Emily também sentasse. Mal conseguindo se conter, Tovah anunciou:
— Acabei de conversar com Josef Müller. Emily ficou
completamente aturdida.
— Quem?
— O filho de Manfred Müller, o sósia de Hitler. O homem que se
apresentou como Hitler nos Jogos Olímpicos.
— Mas é claro! Minha mente está em dez lugares diferentes ao
mesmo tempo. Quer dizer que viu o filho de Müller? Descobriu alguma
coisa? O que aconteceu com o pai?
Ofegante, Tovah relatou os detalhes de sua conversa com Josef
Müller. Emily escutou atentamente e indagou:
— Mas o filho não sabe realmente o que aconteceu com o pai?
— Sabe apenas que a Gestapo o pegou em algum momento
daquela que a história nos diz ter sido a última semana da vida de
Hitler.
— Quando Hitler já estava no bunker.
— É justamente essa a questão, Emily. Se o verdadeiro Hitler
esteve lá embaixo durante todo o tempo, sem sair nem voltar... mas
apesar disso Hitler foi visto entrando no bunker, isso significaria que
outro Hitler desceu para se juntar ao verdadeiro. Se for verdade, todas
as suas conjeturas se tornam possíveis.
Tovah fez uma pausa dramática, antes de acrescentar:
— O que precisamos é de alguém que tenha visto Hitler entrar
no bunker... quando Hitler já estava lá. Um guarda da SS na entrada do
bunker poderia saber. E você comentou que se encontrara com um
desses guardas.
— É verdade. Ernst Vogel estava lá de serviço.
— Posso falar com ele? Ou você pode falar com Vogel para mim?
Emily já se encaminhava para o telefone.
— Vou ligar para ele agora e descobrir. Saberemos então. Emily
consultou o seu caderninho de telefones e um momento
depois ligou para Ernst Vogel.
Ele atendeu, enquanto Tovah se deslocava pelo sofá para ficar mais perto. Depois de identificar-se, Emily foi direto à questão principal:
— Herr Vogel, surgiu uma pequena dúvida sobre o tempo em
que Hitler permaneceu no Führerbunker, antes de se matar. Achei que
poderia me esclarecer.
— Farei o que puder — respondeu Vogel. — Mas fale mais alto,
por favor.
Emily alteou a voz ao acrescentar:
— Segundo as informações que obtivemos de pelo menos vinte
testemunhas, Hitler deixou a Velha Chancelaria e foi para a segurança
do Führerbunker a 16 de janeiro de 1945.
— Mais ou menos nessa ocasião — concordou Vogel.
— Sabemos também que o último dia em que Hitler foi visto
com vida no bunker foi 30 de abril de 1945.
— Correto.
— Muito bem. A questão é a seguinte: quando foi a última vez
em que viram Hitler deixando o bunker... por qualquer motivo, talvez
um simples passeio... e depois voltando para sempre?
— Ah, essa pergunta... não é difícil de responder. Eva Braun
saiu para o seu último passeio fora do bunker, pelo Tiergarten, a 19 de
abril. Mas estava muito perigoso lá fora e ela voltou apressadamente,
para nunca mais sair.
— É sobre Adolf Hitler que estou querendo saber, Herr Vogel —
disse Emily, impaciente. — Quando foi a última vez que ele saiu e
depois voltou ao bunker? Segundo os nossos melhores informantes,
Hitler saiu do bunker à noite para passear com seu cachorro Blondi ou
para observar Eva e duas de suas secretárias praticarem tiro ao alvo
com pistolas a 10 de abril. E depois, a 20 de abril, ele passou pelo túnel
para o Salão de Honra da Nova Chancelaria, a fim de se apresentar
numa recepção por seu 56º. aniversário. As câmaras dos jornais
cinematográficos cobriram o acontecimento. Em seguida, ele saiu para o
jardim ao lado do Führerbunker para condecorar por heroísmo vinte
órfãos que pertenciam à Juventude Hitlerista. E depois desceu ao
bunker para ficar. Isso significa que permaneceu no bunker de 20 de abril em diante, sem tornar a sair, um período de dez dias até sua
morte. Ou pelo menos é o que dizem todos os nossos informantes. Isso
está correto?
Emily esperou tensamente pela confirmação ou contestação. E
ouviu Vogel responder, em tom irritado:
— Todos os seus informantes estão errados. Diz que a última
vez que Hitler saiu e voltou foi 20 de abril? Pois está redondamente
enganada. Eu mesmo vi Der Führer voltar de um passeio fora do bunker
em companhia de uma moça, provavelmente uma de suas secretárias...
não pude ver seu rosto... e entrar na noite de 28 de abril, já muito
tarde.
Emily trocou um olhar triunfante com Tovah, que estava com o
ouvido quase encostado no fone.
— Espere um instante, Herr Vogel. Apesar de todas as minhas
fontes garantirem que Hitler não foi visto em momento algum deixando
o Führerbunker durante os últimos dez dias de sua vida, está querendo
dizer que ele saiu e voltou apenas dois dias antes de sua morte?
— É exatamente o que estou dizendo. Eu me encontrava de
guarda lá fora. Hitler em pessoa voltava de algum lugar, talvez um
pequeno passeio, e descia para o bunker. Já era muito tarde e quase
todos lá embaixo estavam dormindo. Assumi posição de sentido e
ofereci uma saudação a Der Führer. Ele acenou-me com a mão
distraidamente e entrou. Foi a última vez.
— Dois dias antes de sua morte. Viu-o sair para esse passeio?
— Não. Só entrei de serviço pouco antes de Hitler voltar e
entrar.
— Não o viu sair, mas viu-o voltar e entrar. Tem certeza
absoluta de que era Adolf Hitler, Herr Vogel?
— Tão absoluta quanto tenho de que eu sou eu quando me olho
no espelho. Pode estar certa de que era mesmo Adolf Hitler, Fräulein
Ashcroft. Posso provar que todas as minhas palavras são verdadeiras.
Eu mantinha um registro de todas as chegadas e saídas importantes no
Führerbunker, com as horas exatas. Se tem alguma dúvida, posso lhe mostrar esse registro. Está guardado com meus livros extras no porão.
Se me der algum tempo... umas duas horas... posso lhe mostrar.
Emily não tinha mais qualquer dúvida, mas disse assim mesmo:
— Obrigada, Herr Vogel. Passarei por aí dentro de duas horas.
Ela desligou, um sorriso largo no rosto, virando-se para Tovah.
— Sabe quem foi a pessoa que Vogel viu entrar no bunker dois
dias antes do fim de Hitler, não é mesmo, Tovah?
— Manfred Müller, com toda certeza — respondeu Tovah, na
maior felicidade.
Rex Foster telefonara para a prisão de Spandau, pedindo para
falar com o diretor americano do mês. A ligação fora transferida para o
Major George Elford, que falava com um sotaque do Meio-Oeste dos
Estados Unidos. Depois de identificar-se, Foster explicou o que
desejava:
— Albert Speer pode ter deixado uma de suas plantas
arquitetônicas na prisão, uma planta que ele tomou emprestada e
possivelmente mostrou a Rudolf Hess, antes de sua libertação, em
1966. Eu gostaria de encontrá-la. Preciso dela para um livro.
— Temos aqui muitas coisas que os prisioneiros deixaram.
— Fui autorizado a procurar essa planta pelo proprietário
legítimo, o homem que a emprestou a Speer. Trata-se de Rudi Zeidler,
que foi um dos dez assistentes de Speer. Posso pedir que ele lhe
telefone...
— Ele já telefonou — interrompeu-o o Major Elford. — E pediu
que eu deixasse você entrar.
— E eu também gostaria de encontrá-lo — acrescentou Foster.
— Tem alguma idéia especial?
— Tenho, sim. Mas é melhor falar pessoalmente.
— Está certo. Pode ser às onze e meia de hoje?
— Claro. Estarei aí.
Deixando o telefone no quarto da suíte, Foster disse a Emily, que
estava se vestindo:
— Eu gostaria de saber mais sobre a prisão de Spandau. Nada sei a respeito, exceto que os sete líderes nazistas que escaparam à pena
de morte em Nuremberg foram condenados a cumprirem sentença em
Spandau, em Berlim Ocidental, em julho de 1947. Detesto ir a qualquer
lugar desinformado.
— Não precisa continuar desinformado — respondeu Emily. —
Se quiser saber alguma coisa sobre Spandau, procure o meu amigo
Peter Nitz no Morgenpost.
E foi o que Foster fez. Nitz o recebeu em sua mesa de trabalho
no edifício Axel Springer Verlag, foi aos arquivos do jornal e voltou com
uma volumosa pasta de recortes.
Foster ficou lendo até a hora de ir para o encontro com o Major
George Elford, em Spandau.
Agora, recostado no banco traseiro de um táxi, estava sendo
conduzido ao setor britânico, nos arredores de Berlim Ocidental, onde
ficava a mais estranha de todas as prisões, Spandau.
Enquanto o táxi avançava, Foster reviu o que absorvera dos
recortes que lera da pasta sobre Spandau.
A esta altura, Foster já tinha alguma noção e sentia-se mais
confiante. Spandau era uma prisão antiga, construída em 1881.
Quando os nazistas a ocuparam, depois de subirem ao poder em 1933,
deram-lhe o apelido de Castelo Vermelho. Pouco depois, tornara-se o
lugar em que ficavam detidos os prisioneiros políticos do Reich, antes
de serem enviados para campos de concentração. Era uma prisão com
132 celas para 132 presos, mas quando os quatro Aliados a ocuparam,
em 1947, a fim de encarcerarem ali os sete criminosos de guerra
nazistas, Spandau estava apinhada com 600 prisioneiros.
Os Aliados transferiram todos, reformaram a prisão úmida para
garantir uma segurança máxima, e depois levaram para lá os sete
criminosos de guerra.
O controle de Spandau fora uma operação das quatro potências
desde o início. Uma junta de quatro diretores — dos Estados Unidos,
Grã-Bretanha, França e União Soviética — dirigia a prisão, reunindo-se
todas as semanas. Havia guardas permanentes na prisão representando as quatro potências. Os guardas externos, trinta soldados de cada
potência, revezavam-se na proteção, em turnos mensais.
Os sete condenados nazistas entraram em Spandau a 18 de
julho de 1947. Foster tentou lembrar seus nomes: Rudolf Hess, o
segundo homem de Hitler; Albert Speer, o principal arquiteto de Hi-tler
e também Ministro dos Armamentos; Erich Raeder, o almirante nazista;
Karl Donitz, comandante da Marinha nazista e governante da Alemanha
derrotada na semana seguinte à morte de Hitler; Walther Funk, que
presidia o Reichsbank; Baldur von Schirach, líder da Juventude
Hitlerista; Constantin von Neurath, antigo Ministro do Exterior nazista.
Foster recordou que Reader, Funk e Von Neurath foram soltos
sob liberdade condicional logo no começo, por causa da idade avançada
e crescentes enfermidades. Donitz cumprira a pena de dez anos e fora
solto. Depois foram libertados Speer e Von Schirach, ao concluírem
suas penas de vinte anos.
Restara um prisioneiro, Rudolf Hess, cumprindo pena de prisão
perpétua. Todo o aparato das quatro potências fora mantido para vigiar
um impenitente nazista de noventa anos.
O táxi de Foster seguiu ruidosamente por uma rua estreita e um
instante depois parou diante do prédio 23 da Wilhelmstrasse, que era a
prisão de Spandau.
Depois de saltar do táxi e pagar ao motorista, Foster virou-se
devagar e contemplou o local do encontro. A chuva fina cessara, mas a
prisão de tijolos vermelhos ainda brilhava, molhada.
O lugar era cercado por um muro de tijolos e uma cerca de
arame. O sólido portão duplo na entrada e a fachada de tijolos tinham
uma aparência medieval. Além do muro, havia torres de vigia de
concreto, guarnecidas por soldados armados e equipadas com enormes
refletores. A cerca de arame ostentava um cartaz em alemão e inglês:
CUIDADO — PERIGO — NÃO SE APROXIME — OS GUARDAS TÊM
ORDENS PARA ATIRAR.
Foster pôde divisar a parte superior do que parecia ser uma
prisão de três andares, além da casa da guarda de um só andar.
Sentindo-se um pouco intimidado, Foster atravessou a calçada
para o portão principal e apertou a campainha. Um postigo gradeado foi
aberto. Foster deu seu nome e o objetivo de sua visita.
Um carcereiro e dois soldados americanos, em uniformes azuis,
metralhadoras penduradas dos ombros, estavam à sua espera.
Pediram-lhe que apresentasse algum documento de identidade. Ele
mostrou o passaporte. Foi revistado. E finalmente o entregaram a um
soldado que o levaria ao Major George Elford.
Acompanhando o soldado, Foster passou por um pátio fechado e
entrou no prédio administrativo da prisão. O soldado virou para a
esquerda e apontou.
— O gabinete do diretor da prisão, senhor.
Foster bateu na porta, uma voz abafada respondeu e ele foi
introduzido na sala.
O gabinete do diretor era simples, sem qualquer adorno. O Major
George Elford estava de pé, ao lado de um saco de golfe encostado na
parede. Um homem magro e vigoroso, rosto curtido, na casa dos
quarenta anos, Elford largou na bolsa o taco que segurava, adiantou-se,
apertou a mão de Foster e indicou uma cadeira de madeira. Puxou
outra cadeira para a frente de Foster e também se sentou. Foster
apontou para a janela.
— Estou espantado com toda a segurança que tem lá fora.
Elford deu de ombros, embaraçado.
— Não sei se isso continua a se justificar. Talvez houvesse
motivo em 1947, quando trancafiaram aqui aqueles sete nazistas. As
quatro potências meteram-nos aqui, a fim de escondê-los da população
alemã, que poderia encará-los como mártires. Na ocasião houve
ameaças de que alguns dos fanáticos nazistas sobreviventes poderiam
tentar resgatá-los. E isso continuou ao longo dos anos.
— Ameaças concretas?
— Isso mesmo. O serviço secreto Aliado descobriu um plano:.,
creio que foi em 1955... de um coronel nazista, Otto Skorzeny, que
esperava resgatar vários criminosos de guerra. Ele era muito eficiente nessas coisas. Foi o homem que tirou Mussolini das mãos dos nossos
soldados na Itália. Skorzeny tencionava descer com dois helicópteros no
pátio de exercícios da prisão, quando os presos estivessem lá fora. De
um aparelho desceria um punhado de fanáticos nazistas que tentariam
repelir os guardas, enquanto o outro levaria os prisioneiros para longe.
Felizmente a trama foi descoberta e reforçamos a segurança. A tentativa
de resgate jamais foi realizada. Mas a coisa continua. Não faz muito
tempo, em 1981, cinco nazistas incuráveis foram apanhados em
Karlsruhe com um depósito de explosivos. A intenção era penetrarem
em Spandau e tirarem Hess. Todos os cinco foram presos.
— Deve ser mais fácil agora, em 1985, com apenas Hess para
vigiar, neste lugar imenso.
— O segundo homem do Führer, agora com noventa anos. Hess
não serve para mais nada. O único problema é que pode se tornar um
símbolo vivo para os bandos de neonazistas. Imagino que o seu
principal interesse em Spandau seja Rudolf Hess.
— Não Hess propriamente, como já expliquei — disse Foster. —
O que procuro é a planta desaparecida do bunker, que pode estar com
Hess. Prometi que lhe contaria toda a história. É o que farei agora, o
mais sucintamente possível. E espero que depois possa me ajudar.
O Major Elford cortou com os dentes a ponta de um charuto e
depois acendeu-o.
— Pode falar. Estou escutando.
Foster falou rapidamente ao oficial americano sobre si mesmo, o
projeto do livro e a planta desaparecida.
— Zeidler lembrou que emprestara as sete plantas a Speer,
quando Speer ainda cumpria pena em Spandau — informou Foster. —
Ao que parece, Speer ainda se interessava por arquitetura e pensava em
escrever um livro sobre a sua obra.
— É verdade — confirmou o Major Elford. — Speer foi o único
prisioneiro que manteve a sanidade total, porque passava todo o seu
tempo livre lendo e escrevendo sobre arquitetura.
— Ao terminar de cumprir a pena, Speer deve ter deixado a prisão com as plantas, junto com seus outros pertences. E devolveu
todas as plantas a Zeidler... ou pelo menos assim pensou. Mas, na
verdade, devolveu apenas seis. Imaginamos que ele poderia ter deixado
a sétima planta do bunker aqui em Spandau.
— Por quê?
— Zeidler presumiu que foi um esquecimento. Achou que Speer,
ao tentar determinar a localização de cada bunker, teve dificuldade para
situar o sétimo. Por isso, quando ainda estava aqui, emprestou a planta
a Hess, esperando que o velho Vice-Führer pudesse lembrar as
intenções de Hitler para com esse bunker, onde queria construí-lo ou
mesmo o construiu. Imagino que Hess não pôde ajudar.
— E está absolutamente certo. Há muito e muito tempo que
Hess se encontra mentalmente perturbado.
— De qualquer forma, Speer nunca pegou de volta a sétima
planta que entregara a Hess. — Foster fez uma pausa. — Zeidler espera
que ainda esteja entre as coisas de Hess, que eu possa recuperá-la,
para o meu livro e para seus arquivos. O que acha?
O Major Elford soprou uma nuvem de fumaça e depois apagou a
ponta do charuto num cinzeiro de bronze.
— Se a planta está aqui, você pode levá-la. Não damos a menor
importância a plantas antigas.
— Onde devemos procurar? Na cela de Rudolf Hess?
— Claro que não. A cela está tão nua quanto os peitos de uma
dançarina de striptease. Tem apenas uma cama, cadeira, mesa,
aparelho de televisão, algumas roupas, pouco mais. Tiramos todos os
seus pertences desnecessários há mais de uma década. — O Major
Elford levantou-se. — Se está em algum lugar, só pode ser na biblioteca
da prisão. Vamos dar uma olhada.
Deixaram a sala, passaram pelo gabinete do chefe da guarda e
pela enfermaria.
— Bem em frente fica o bloco das celas, e também a biblioteca
— informou Elford.
Os dois seguiram pelo corredor até a cela adaptada que guardava os livros dos prisioneiros e entraram. Elford gesticulou para
as estantes cheias de livros.
— Os criminosos de guerra tinham permissão para levar quatro
livros de cada vez... uma Bíblia, um segundo livro religioso, um
dicionário e um romance não-político. Às vezes podiam ler livros de
história, mas nada militar. Houve uma ocasião em que entrou aqui, por
engano, uma história da guerra russo-japonesa de 1901. Foi a guerra
em que os japoneses desancaram os russos. Quando os russos
reassumiram para o seu mês de comando, descobriram o livro e
jogaram-no fora. Por baixo da mesa, nas três caixas, estão guardados os
pertences dos prisioneiros. Praticamente não resta mais nada dos seis
que saíram. Quase tudo o que está aí pertence a Rudolf Hess.
O Major Elford ajoelhou-se e puxou as três caixas de baixo da
mesa. Não havia muita coisa nelas. Elford começou a esvaziar a
primeira dizendo:
— Aqui está principalmente o excedente da coleção sobre
espaço exterior de Hess. Tornou-se o seu hobby, depois que assistiu na
televisão a um lançamento para a lua. Pediu-nos para escrever para a
NASA, no Texas, solicitando material de leitura. E a NASA despachou
todas essas brochuras e folhetos para ele. Também mandaram quatro
fotos coloridas da lua, tiradas lá mesmo. Ainda estão nas paredes da
cela dupla de Hess. Não tem nada nesta primeira caixa.
Foster ajudou o major a repor as coisas e depois se
concentraram na segunda caixa. Esta parecia conter peças de roupa.
Elford tirou um par de sapatos de lona com solas de madeira que os
prisioneiros inicialmente eram obrigados a usar.
— Tenho uma história engraçada para contar — disse Elford,
examinando os sapatos. — Albert Speer projetou estes sapatos para os
prisioneiros nos campos de concentração, quando os nazistas estavam
no poder. Depois, em Spandau, teve de usá-los. Um dia, como exercício,
ele correu com estes sapatos. Ao terminar, Speer soltou um grunhido e
disse: "Se eu soubesse que um dia seria forçado a usá-los, teria
acrescentado um pouco de couro."
Foster tirou da caixa um gorro azul esfiapado e um blusão azul
bastante sujo, indagando:
— O que é isto?
— O uniforme da prisão que todos os criminosos de guerra
eram obrigados a usar no início. Este era de Hess.
Foster estava tirando o que parecia ser uma peça de uniforme
militar.
— E isto aqui?
— Uma coisa histórica. Hess quis que o guardássemos. É o
uniforme de tenente-coronel da Luftwaffe que Hess usou quando voou
da Alemanha para a Inglaterra em maio de 1941. Ele pousou para
tentar negociar a paz com a Inglaterra. Creio que ele fez isso porque
sabia que Hitler atacaria a União Soviética. Queria arrumar as coisas
com a Inglaterra para que Hitler só precisasse lutar em uma frente. —
Elford deu uma espiada na caixa. — Parece que não tem nenhuma
planta aqui dentro.
— E aquele papel enrolado lá no fundo? — disse Foster.
O Major Elford pegou-o e desdobrou-o com todo cuidado. Era
uma planta arquitetônica com a assinatura de Rudi Zeidler.
— O sétimo bunker — disse Elford. — Calculo que é isso o que
você quer.
— Exatamente.
Elford levantou-se com um grunhido.
— Vamos levá-la para a minha sala e abri-la direito. Poderá
então dar uma olhada melhor.
Depois de empurrar as caixas para baixo da mesa, ele saiu
apressadamente, acompanhado por Foster, retornando a seu gabinete.
Ali, Elford abriu a planta em cima de sua escrivaninha, com Foster de
pé ao seu lado. Os dois examinaram-na.
— Não tem qualquer identificação — comentou Foster.
— Absolutamente nenhuma.
— O que é muito estranho — acrescentou Foster, perplexo. —
As outras seis plantas... todas tinham a indicação da localização. Esta não tem nada.
— Tem certeza de que é um bunker subterrâneo?
— Não há a menor dúvida quanto a isso. Pode-se confirmar pela
posição dos geradores e ventiladores para a troca de oxigênio. É mesmo
um dos bunkers subterrâneos de Hitler, a planta desaparecida. E um
bunker enorme. Mas onde ele o construiu... se é que chegou a fazê-lo?
— Imagino que era um grande segredo — disse Elford, tornando
a enrolar a planta e entregando-a a Foster. — Calculo que Speer a
estudou e não conseguiu chegar a qualquer conclusão. Resolveu então
entregá-la a Hess, na esperança de que este pudesse reconhecê-la,
como você sugeriu. Mas posso lhe garantir que, àquela altura, Hess
quase não lembrava de nada. Ao ser solto, Speer deve ter esquecido de
pegar a planta de volta com Hess. E agora você a tem. Creio que a sua
única esperança agora é voltar a Rudi Zeidler com a planta. Talvez ele
se lembre de mais alguma coisa.
— É possível. Seja como for, Zeidler será a minha próxima
parada. Obrigado por tudo, Major.
— Obrigado por quê? A única coisa que posso fazer é torcer
para que você possa acertar todas as tacadas até o fim.
— Como assim?
— Não erre o sétimo buraco, meu jovem! — disse Elford
enfaticamente. — Não erre!
Quando Rudi Zeidler abriu a porta da frente, Foster levantou a
planta enrolada, sacudindo-a num gesto triunfante.
— O bunker número sete! — anunciou ele. — Descobri!
— Bom trabalho — comentou Zeidler, jovialmente. Puxando
Foster para dentro da casa, ele acrescentou: — Onde? Em Spandau?
— Justamente como você desconfiava. E gostaria que desse
uma olhada agora.
— Claro — concordou Zeidler, abotoando o casaco cinza que
usava, com uma calça branca e os velhos tênis. — Vamos para o meu
estúdio.
Seguindo na frente pela casa, Zeidler indagou como Foster
encontrara a planta desaparecida. Foster relatou os detalhes de seu
encontro com o Major George Elford, em Spandau, e a descoberta da
planta na caixa com os pertences de Hess.
Entrando no estúdio, o arquiteto alemão acendeu as lâmpadas
fluorescentes. Juntos, eles foram para a mesa mais próxima. Zeidler
pegou a planta, abriu-a e estendeu-a sobre a mesa. Examinou-a com
todo cuidado, depois franziu o rosto, levantou-a, olhou atrás, à procura
de alguma coisa. Finalmente, sacudindo a cabeça, Zeidler tornou a
enrolar a planta e devolveu-a a Foster.
— Você tem razão — disse ele. — Não há qualquer indicação da
localização.
Foster fitou o alemão nos olhos.
— Mas a planta... não o faz lembrar de alguma coisa?
— Quase nada. É mesmo minha. Não resta a menor dúvida. Eu
a desenhei e assinei. De um modo geral, quando eu fazia esses projetos,
Hitler me mandava indicar o local em que o bunker seria construído.
Mas, obviamente, ele não fez isso neste projeto. — Como a se
tranqüilizar, Zeidler repetiu: — Não, ele não o fez neste projeto. E não
sei por quê. Não consigo lembrar.
— Talvez Hitler ainda não tivesse decidido onde este bunker
seria construído — sugeriu Foster. — Ou talvez já soubesse, màs não
queria que você ou qualquer outra pessoa tomasse conhecimento do
local.
Zeidler continuava aturdido.
— É possível. Mas todos os outros bunkers que fiz para Hitler
eram também secretos e mesmo assim eu conhecia a localização de
cada um. Menos do bunker sete. Aparentemente, ele esqueceu de me
informar... ou não quis me contar.
— Considero muito estranho preparar um projeto sem ter a
menor idéia do local em que será construído — comentou Foster.
— Não é tão estranho assim. Por um lado, eu sabia que estava
projetando uma estrutura subterrânea, como todas as outras. Por outro, muitas vezes eu recebia ordens expressas de Hitler sobre as
dimensões e cômodos que ele desejava, e todo o resto. Hitler era muito
bom nisso. Lembre-se de que ele tinha experiência como pintor. Para o
bunker sete, com toda certeza, ele especificou que queria uma estrutura
enorme, informou em que tipo de solo estaríamos trabalhando. Eu diria
que ele sabia desde o começo qual o lugar da Alemanha em que faria a
construção. Se não disse a mim, então pode estar certo de que não
revelou a mais ninguém. E a idéia morreu com ele em 1945.
— Quer dizer que não sabe se Hitler chegou a usar seu projeto e
construiu este bunker?
— Não, não sei. É uma informação que só poderia ser do
conhecimento dos trabalhadores-escravos utilizados na construção.
— Está querendo dizer que todos os bunkers subterrâneos que
projetou foram construídos por trabaihadores-escravos? Por judeus,
tchecos, ciganos, poloneses e ucranianos capturados?
Zeidler hesitou por um instante.
— Talvez nem todos tenham sido construídos por
trabalhadores-escravos. Sabemos com certeza que o Führerbunker foi
feito por uma antiga companhia construtora de Berlim. Mas eu diria
que a maioria dos outros quartéis-generais militares subterrâneos foi
escavada e construída por trabalhadores-escravos, por causa da
escassez de mão-de-obra alemã.
— E está sugerindo que um desses trabalhadores-escravos
poderia se lembrar de ter escavado este bunker, se é que foi escavado,
revelando então onde se pode encontrá-lo? Zeidler sacudiu a cabeça
vigorosamente.
— Não, não, Sr. Foster, não posso sugerir isso como uma
possibilidade séria. Simplesmente porque não restaram trabalhadores-
escravos. Hitler mandava exterminá-los depois que concluíam uma
obra. Não queria que algum deles sobrevivesse para revelar onde
ficavam seus vários bunkers secretos. Quando terminavam uma
construção, os trabalhadores-escravos eram recompensados com uma
viagem a Dachau, Auschwitz ou alguma outra câmara de gás. Por isso, infelizmente, você terá de escrever na legenda em seu livro para a planta
do sétimo bunker: "Desconhecido."
— A menos que eu consiga descobrir alguns trabalhadores-
escravos que sobreviveram à guerra e possam reconhecer esta planta —
murmurou Foster.
— Claro, claro. E pode começar a busca praticando condo achar
uma agulha num palheiro.
Quando Irwin Plamp parou o Mercedes na frente do sujo prédio
de cinco andares, na Dahmannstrasse, onde Ernst Vogel tinha o seu
apartamento e a pequena empresa de venda de livros por reembolso
postal, Tovah Levine saltou antes de Emily.
Ansiosa em obter a confirmação final de Vogel para a entrada de
um segundo Hitler no Führerbunker dois dias antes do fim, Tovah
avançou apressadamente para o prédio.
Por quase duas horas Tovah esperara impacientemente na suíte
de Emily pelo momento em que se encontrariam com Vogel. Durante
esse período, Emily a informara dos antecedentes de Vogel. Depois, ela
examinara as anotações de Emily, em que todas as testemunhas
concordavam que Hitler não saíra nem voltara ao Führerbunker no que
se supunha terem sido os últimos vinte dias de sua vida. Contudo,
todos aqueles depoimentos eram contestados por um guarda que vira
Hitler entrar no bunker apenas dois dias antes de sua anunciada morte.
Por várias vezes, Tovah e Emily garantiram a si mesmas que houvera
um sósia de Hitler no bunker, que fora ele quem cometera suicídio,
enquanto o verdadeiro Hitler sobrevivera e escapara.
Agora, com Emily logo atrás, Tovah entrou apressadamente no
prédio, tentando encontrar o apartamento de Vogel. Emily apontou para
a escada.
— Ele mora no andar de cima, primeira porta à esquerda do
patamar. Chegaremos na hora exata.
Tovah deixou que Emily fosse na frente. Chegando ao patamar,
as duas viraram à esquerda no corredor e pararam diante da primeira porta marrom, um tanto lascada e precisando de uma camada de tinta.
Havia um botão de campainha ao lado e Emily apertou-o, esperando
que a porta fosse aberta. Tocou três ou quatro vezes, mas ninguém
atendeu.
— Talvez a campainha esteja quebrada — sugeriu Tovah.
— É bem possível. Muito bem, vamos experimentar à maneira
antiga.
Emily começou a bater na porta e um momento depois Tovah
imitou-a, as duas batendo cada vez com mais força.
A única resposta veio da base da escada. Uma mulher gorda e
idosa começou a subir os degraus.
— O que está acontecendo aqui? — indagou ela, ofegante,
quando chegou ao patamar. — Estão fazendo a maior balbúrdia. Sou
Frau Lecki, a senhoria. Quem são vocês?
— Somos clientes do Sr. Vogel — respondeu Emily calmamente.
— Marcamos um encontro. Ele deveria nos mostrar um livro
importante. — Ela acenou com a cabeça para a porta. — Mas ninguém
atende.
Frau Lecki sorriu.
— Ora, Vogel é assim mesmo. Na metade das vezes ele não
atende porque não escuta direito. E quando tira o aparelho de audição
não pode ouvir absolutamente nada. — A senhoria meteu a mão no
bolso do avental, tirando um molho de chaves. — Se Vogel disse que as
receberia a esta hora, então deve estar em casa. Tenho certeza de que
só não atendeu porque não está usando o aparelho de audição. Vou
falar com ele e dizer que vocês já chegaram.
Enfiando uma chave mestra na fechadura, Frau Lecki abriu a
porta e entrou. Correu os olhos pela sala, soltando um grunhido de
triunfo.
— Exatamente como pensei. Lá está ele, na cadeira de balanço,
com o aparelho de audição desligado. E parece estar dormindo. —
Chamou Emily e Tovah. — Podem entrar, enquanto eu o acordo.
No instante em que entrou na sala, Tovah farejou e torceu o nariz, sussurrando para Emily:
— Que cheiro horrível! O que pode ser?
Mas Emily observava Ernst Vogel, recostado na cadeira de
balanço, os olhos fechados. Tovah acompanhou seu olhar,
contemplando o vulto magro e encarquilhado, arriado na cadeira de
balanço, as faces encovadas quase brancas, os lábios arroxeados.
— Ele parece doente — murmurou Emily. Frau Lecki sacudia
Vogel pelo ombro.
— Levante-se, Ernst. Tem clientes aqui.
Os olhos de Vogel não abriram. Em vez disso, a cabeça caiu para
a frente; e quando a senhoria retirou a mão, ele deslizou para o lado,
contra o braço da cadeira de balanço.
— Ele me parece morto — disse Tovah baixinho.
Emily adiantou-se prontamente, abaixou-se na frente de Vogel,
apoiada num joelho. Pegou o braço inerte do alemão e procurou o pulso.
Depois de um intervalo, ela sacudiu a cabeça e levantou-se,
cambaleando um pouco.
— Uma coisa horrível! — Emily fechou os olhos e tornou a
sacudir a cabeça. — Não resta a menor dúvida de que ele está morto.
Isso é terrível!
Forçando-se a abrir os olhos, ela fez um esforço para olhar outra
vez o corpo arriado na cadeira de balanço.
— Acho que o cheiro que você sentiu, Tovah, é de cianureto de
potássio.
— Mas ele estava bem há poucas horas! — protestou Tovah.
— Não está mais. O pobre coitado tomou veneno por sua
própria iniciativa ou foi obrigado a ingeri-lo, O cianureto matou-o
instantaneamente.
A senhoria começava a compreender a situação e abruptamente
levou a mão à boca para sufocar um soluço.
— Mas ele não pode estar morto! É impossível! Era um homem
muito ativo. Nunca se mataria. Mas... mas... foi o que aconteceu...
— Talvez com alguma ajuda — murmurou Tovah.
Mas só Emily a ouviu. Frau Lecki já estava pegando o telefone.
— É terrível! Terrível! Tenho de chamar a polícia! — Levantando
o fone do gancho, ela descobriu que o fio pendia solto. —
Mas... cortaram o fio do telefone! É melhor eu ligar do meu
apartamento.
Ela virou-se e saiu correndo pela porta. Evitando olhar para
Vogel, Emily concentrou sua atenção numa caixa de papelão sobre um
consolo, por trás da cadeira de balanço.
— Tem uma coisa escrita a creiom no lado daquela caixa —
disse ela. — Registros do Bunker. Ele estava à nossa espera.
Tovah adiantou-se depressa.
— O que nos interessa é o de 28 de abril de 1945, aquele em
que Vogel anotou o retorno de Hitler ao Führerbunker.
Tovah pôs-se a verificar rapidamente os livros de registro,
observando as datas nas capas.
— Ande depressa, Tovah — exortou-a Emily. — Não podemos
deixar que a polícia nos encontre aqui. — Uma pausa e ela acrescentou:
— Acho que não vai encontrar, Tovah.
Tovah virou-se meio minuto depois, o rosto franzido.
— Tem razão, Emily. É o único que está faltando. Emily pegou-a
pelo braço.
— Alguém ouviu nossa conversa ao telefone com Vogel e soube
o que ele tencionava nos mostrar...
— Mas como?
Emily ficou em silêncio por um instante.
— Não sei. Talvez tenham grampeado o telefone. De qualquer
forma, alguém chegou aqui na nossa frente e Vogel recebeu-o, na maior
inocência. O visitante deve ter encostado um revólver na cabeça de
Vogel, obrigando-o a tomar a cápsula de cianureto. Depois, pegou o
livro de registros e foi embora.
Tovah deixou que Emily a levasse para a porta.
— E agora temos de sair daqui também — reiterou Emily.
— Não podemos ir embora. E a polícia? Afinal, ele foi assassinado.
— E meu pai também. Tenho certeza agora. Onde estava a
polícia na ocasião? Vamos embora. Não há mais nada que possamos
fazer aqui.
— Acho que você está certa, Emily. Não podemos nos envolver
no caso. E ninguém sabe que estivemos aqui.
Emily fitou-a nos olhos.
— Exceto o assassino, é claro.
Elas passaram depressa pelo apartamento da senhoria e saíram
para a rua. Alcançando o Mercedes à espera, Tovah perguntou:
— O que isso acarreta para o nosso caso? Vogel jurou que viu
Hitler voltar de um passeio, apesar de Hitler nunca ter saído para esse
passeio. Concordamos que ele viu um segundo Hitler, um sósia,
Manfred Müller. Mas agora não temos Vogel nem o livro de registros.
— Não precisamos de Vogel e seu livro de registros. Há duas
horas tínhamos Vogel e ele nos contou tudo o que queríamos saber.
Estamos chegando perto, Tovah, muito perto da verdade. Por mais
apavorada que eu esteja, preciso agora voltar à escavação. Onde quer
que eu a deixe?
— No Kempinski, por favor.
Quando pararam diante do hotel, Tovah abriu a porta de trás
para saltar. Olhou para Emily mais uma vez e disse:
— Espero que tenha razão quando diz que estamos mais perto
da verdade, Emily.
— Vamos descobri-la, desde que alguém não nos acerte
primeiro — garantiu Emily. — Agora, depois de tudo o que aconteceu,
acho bom você descansar um pouco. Até mais tarde.
Parada no meio-fio, observando o Mercedes se afastar, Tovah
refletiu que estaria ocupada demais para poder descansar. Estavam
perto da verdade. Era o momento de Tovah comunicar tudo a seus
superiores. Era o momento de entrar em contato com Chaim Gol-ding e
os outros agentes israelenses no escritório de Berlim do Mos-sad.
Alguém estava atrás deles, e a maior de todas as tramas ainda precisava ser descoberta e punida.
Eles estavam na Zona de Fronteira de Berlim Oriental, além do
muro, Plamp guiando o Mercedes com todo cuidado pelo caminho de
terra, na direção do Führerbunker. Emily sentava muito tensa no banco
traseiro, ainda segurando o cartão que lhe autorizava o acesso à área de
segurança.
Tentou distrair-se da ansiedade com a contagem dos postes de
concreto que sustentavam a cerca de arame. Mas não foi capaz de se
livrar do pensamento predominante em sua mente. Os resultados das
escavações iniciais. Tinha uma semana para descobrir as provas de que
Hitler morrera ou não conforme fora anunciado, e aquele era o final do
segundo dia de escavação. A esta altura, ela tinha certeza, Andrew
Oberstadt e seus três operários já teriam encontrado a cova rasa e a
cratera de bomba ao lado. A primeira fase estaria concluída, e ela se
perguntava o que teria revelado.
Assomando à esquerda, Emily podia ver o monte de terra e
entulho que cobria o antigo Führerbunker. Uma parte da pickup Toyota
de Oberstadt era visível por trás do monte. Seus três homens não
estavam à vista, mas Emily avistou-o um momento depois, contornando
a frente do monte, com uma pá na mão. Ele parou, cravou a pá pontuda
na terra e apoiou-se no cabo, observando-a se aproximar.
Plamp saíra da estrada e avançava para o bunker aos
solavancos, pelo campo irregular. Freou a uns cinco metros de
Oberstadt, desligou o carro, saltou e deu a volta para ajudar Emily a
descer.
— Obrigada — disse ela ao motorista.
Emily tirou a capa, ajustou o cinto do macacão azul e
encaminhou-se para Oberstadt.
— Desculpe o atraso, mas achei que não precisaria de mim até
concluir a escavação dos dois locais.
— E não precisamos mesmo. Mas talvez sua presença seja
bastante conveniente agora.
— Já terminou de escavar a cova rasa e a cratera de bomba? —
indagou Emily, ansiosa.
— Cobrimos a área com plástico, a fim de terminarmos depois
que a chuva passasse.
— E o que encontraram?
— Infelizmente, não tivemos sorte — confessou Oberstadt, com
expressão infeliz. — Encontramos três relíquias insignificantes, mas
nada do que você queria.
— Não encontraram o camafeu com o retrato de Frederico o
Grande? Nem um pedaço de mandíbula com uma ponte dentária?
— Nenhuma das duas coisas — respondeu Oberstadt. — Se
estavam lá em 1945, talvez os russos tenham apanhado. Ou talvez
nunca estiveram onde escavamos. Quer ver o que descobrimos?
— Claro.
Oberstadt deixou a pá cravada na terra e deu a volta para o
outro lado do monte, com Emily em seu encalço, tentando manter o
equilíbrio na relva molhada.
Emily viu na outra extremidade a pickup parada, com os três
operários sujos de terra tomando café de uma garrafa térmica. Eles
acenaram para ela, que retribuiu.
Oberstadt conduziu-a a uma pequena toalha amarela, estendida
sobre uma pedra achatada, perto da vala profunda onde outrora havia
uma cova rasa.
— Aqui está tudo o que encontramos nos dois lugares. —
Oberstadt levantou da toalha o primeiro dos três objetos. — Um dente
solto. Acho que pertencia a um cachorro.
— O que faz sentido — comentou Emily. — Os cachorros de
Hitler foram mortos e depois enterrados nesta área.
— E depois isto — disse Oberstadt, mostrando uma massa
molhada do que poderia ter sido um chumaço de papel.
— E o que é isso?
— Creio que era um caderninho de anotações, com algumas
páginas escritas. Mas está totalmente apodrecido de anos de umidade.
Emily acenou com a cabeça.
— Também se enquadra. As anotações e documentos de
Goebbels foram jogados na cova e provavelmente queimados.
— Ninguém jamais saberá com certeza. — Oberstadt tornou a
se inclinar para a toalha e pegou cautelosamente um pedaço de pano
enegrecido. — E, finalmente, encontramos isto.
— Não parece com nada.
— Mas é alguma coisa... uma coisa com um monograma quase
ilegível, mas que ainda consigo ler. E vejo duas iniciais. — Oberstadt
apontou. — Está vendo? As iniciais são E.B.
— Eva Braun — murmurou Emily. A realidade do passado fez
com que ela pestanejasse. — Deve ser um pedaço de lenço ou do que
chamavam naquele tempo peças íntimas. Estamos no caminho certo.
— Isso não esclarece que Eva Braun foi cremada aqui, junto
com Hitler?
— Não necessariamente. A peça com monograma pode ter sido
posta em outra pessoa, que foi cremada. Mas se tivesse encontrado a
ponte dentária ou o camafeu...
— Lamento muito, mas não encontramos.
— Não se deixe enganar, Andrew. A situação não é tão ruim
assim. A ponte ou o camafeu poderiam provar que foi mesmo Hitler
quem enterraram aqui, dificilmente um impostor. Mas como você não
descobriu qualquer das duas coisas, não há prova positiva de que foi
Hitler o homem cremado. Portanto, Andrew, até agora está tudo ótimo.
Emily virou-se e contemplou o enorme monte de terra, relva e
entulho.
— Há mais um lugar em que devemos procurar. — Ela hesitou.
— A última sala e o último quarto que Hitler ocupou. Para saber se o
camafeu ou a ponte foram deixados lá para serem usados num sósia,
mas esquecidos na pressa do enterro. Se não encontrarmos nenhum
dos dois, isso indicaria que Hitler escapou com ambos.
Estudando a elevação, Oberstadt sacudiu a cabeça.
— Mesmo que isso possa provar alguma coisa, como chegaríamos lá embaixo?
— Escavando diretamente de cima para baixo.
— Impossível — respondeu Oberstadt. — Sabe quanto teríamos
de escavar? Eu diria que há seis metros do topo da elevação até o nível
do solo. E creio que você me disse que os aposentos de Hitler ficavam a
dezessete metros da superfície, cobertos por mais de três metros de
concreto. Isso significa que teríamos de escavar cerca de 23 metros,
com incontáveis obstáculos, em cinco dias... quando o seu prazo se
esgota. Mesmo que os russos tenham triturado o concreto, não se pode
escavar facilmente com pá e picareta.
— Não poderíamos usar equipamento pesado?
— Pensei em trazer um trator para acelerar a escavação na área
mais ampla em torno dos dois locais que nos interessavam. Esta
manhã, quando chegamos, perguntei ao oficial alemão oriental se havia
alguma possibilidade. E ele respondeu que era absolutamente verboten.
Não vão nos dar permissão.
Emily mordeu os lábios, os olhos fixos no monte irredutível.
— Tem de haver alguma maneira... — Ela estalou os dedos de
repente. — Já sei. Poderia escavar pela frente... não de cima para
baixo... mas pela frente, ao nível do solo, alcançando o andar superior
do Führerbunker. Isso lhe pouparia seis metros de escavação.
— Mesmo assim... — Oberstadt franziu o rosto. — Se
abríssemos um túnel para o andar superior, teríamos de escorar tudo, a
fim de evitar que a terra por cima desmoronasse. E se não existir mais o
andar superior... se os soviéticos fizeram tudo desabar com seus
tratores? Haveria mais escavação. E mais tempo.
— Mas o nível inferior, onde Hitler vivia, pode estar intacto. Foi
construído para resistir praticamente a tudo. Não há algum meio de
chegar lá usando o atalho que sugeri?
— Não sei — murmurou Oberstadt, estudando o monte. —
Talvez pudéssemos encontrar um jeito de chegar ao fundo se eu
dobrasse o número de homens que trabalham durante o dia e
recrutasse um segundo grupo para escavar à noite.
— O que posso fazer para tornar isso possível? — insistiu Emily.
— Primeiro, tem de me garantir a verba para aumentar a turma
do dia e contratar outra turma para a noite.
— Está garantida.
— Segundo, precisa entrar em contato com o seu amigo de
Berlim Oriental para que obtenha permissão para escavarmos não
apenas de manhã e à tarde, mas também durante a noite.
— Providenciarei a permissão. Eu tencionava falar com ele de
qualquer maneira, a fim de conseguir um passe para o Sr. Foster, que
pode nos ser útil aqui. Não se preocupe. Obterei a autorização para se
escavar 24 horas por dia.
— E, finalmente, deixe-me falar com meu homem em Berlim
Ocidental.
— Seu homem em Berlim Ocidental? Oberstadt sorriu.
— Meu pai, Leo Oberstadt, que fundou a firma. Ele está inválido
agora, aposentado, mas é um perito em construção de bunker, e
precisarei de seus conselhos.
— Um perito em bunkersl Como assim?
— Ele supervisionou a construção de pelo menos meia dúzia de
bunkers nazistas. Meu pai Leo tinha uma pequena firma de construção
em Berlim antes da guerra. Foi preso porque é meio judeu. Era tão
corpulento quanto eu na juventude e por isso os nazistas recrutaram-
no como trabalhador-escravo, juntamente com outros judeus.
Descobriram então que Leo era engenheiro civil e construtor,
promoveram-no a capataz, supervisor de outros trabalhadores-escravos.
Ele e seus companheiros construíram a maioria dos bunkers
subterrâneos, durante a guerra. Todos os trabalhadores-escravos foram
enviados para Dachau, Belsen e Buchenwald, antes do final da guerra.
Mas meu pai escapou e sobreviveu. Ninguém na Alemanha conhece
tanto os bunkers quanto Leo Oberstadt. É por isso que quero conversar
com ele esta noite, estudando a planta do Führer-bunker. Ele poderá me
dizer qual a melhor maneira de chegar lá no fundo.
— E continuará então na escavação?
— Assim que você conseguir permissão para um segundo turno
de trabalho. Cuide disso e darei um jeito de levá-la ao lar, doce lar de
Adolf Hitler.
Naquela noite, na cama, Emily e Foster tentaram fazer amor.
Mas era evidente que nenhum dos dois estava com disposição e
desistiram depois de alguns minutos. Foster estendeu-se ao lado de
Emily, abraçando-a.
Durante o jantar eles haviam comemorado as conversas
telefônicas de Emily com o Professor Otto Blaubach, que finalmente lhe
providenciara a autorização para escavar durante a noite. Também
tencionavam comemorar mais uma vez o desejo mútuo, mas a paixão
não os incendiara. Abraçando-a firmemente, Foster perguntou:
— Qual é o problema, Emily? O que a está perturbando?
— Ernst Vogel — murmurou ela, em voz quase inaudível. — Seu
cadáver na cadeira de balanço. Não consigo tirá-lo da cabeça. E não
consigo deixar de me sentir responsável.
Foster acariciou-lhe o rosto.
— Não é responsável por nada. Lamento que tenha acontecido e
que você tenha testemunhado. Talvez a melhor coisa a fazer agora seja
dormir um pouco.
Emily bocejou.
— Isso mesmo, vamos dormir. Uma grande idéia.
Emily puxou as cobertas por cima dos dois, apagou o abajur na
mesinha-de-cabeceira e recostou-se no travesseiro. No escuro, podia
divisar o perfil de Foster. Aconchegou-se outra vez contra o corpo dele.
— Rex — murmurou ela, sonolenta — esta noite você também
não está com desejo. Alguma coisa perturba você também.
Igualmente sonolento, ele resumiu sua visita ao Major Elford, em
Spandau. E falou da visita a Rudi Zeidler com a planta do bunker antes
desaparecida.
— E depois disso cheguei a um beco sem saída. Zeidler garantiu
que não há ninguém no mundo que possa identificar o sétimo bunker... à exceção talvez de um dos trabalhadores-escravos de Hitler, que
possivelmente ajudaram a construí-lo. Mas parece que todos os
trabalhadores-escravos foram exterminados antes de a Alemanha
derrotada. Se algum sobreviveu, segundo Zeidler, localizá-lo seria a
mesma coisa que encontrar uma agulha num palheiro.
Emily, quase dormindo, teve dificuldade em falar. Sentia a boca
grudar, mas deu um jeito de balbuciar:
— Está procurando por alguém que foi trabalhador-escravo de
Hitler?
— Isso mesmo.
— Pois tenho um para você. Andrew Ober... o pai de Oberstadt.
Um antigo trabalhador-escravo que ainda está vivo. Pergunte-me pela
manhã. Pergunte-me por Leo Ober... pergunte qualquer coisa pela
manhã. Boa noite, querido.