O Sétimo Segredo

Irving Wallace · Capítulo 8 de 10

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O Sétimo Segredo

Capítulo X

 

O dia começou na Stresemann Strasse com três deles e terminou

com apenas um.

Começou às nove horas de uma manhã ensolarada, depois que

souberam que o Café Wolf abria a essa hora. Chegaram pouco antes

disso, Nicholas Kirvov ao volante do Opel alugado, Emily ao seu lado,

Tovah no banco de trás. Estacionaram na Stresemann Strasse, a menos

de meio quarteirão do Café Wolf, no outro lado da rua.

Por um momento, ficaram alerta pela chegada de duas pessoas à

porta do café. Kirvov reconheceu-as imediatamente como a jovem

garçonete e o garçom. A garçonete destrancou a porta para que

entrassem. Kirvov sacudiu a cabeça, murmurando:

— Empregados.

Emily continuou a observar a entrada do café por mais algum

tempo e depois lembrou a Kirvov:

— Você é o único que já viu Evelyn Hoffmann. Nem Tovah nem

eu temos a menor idéia de como ela é. Portanto, Nicholas, dependemos

de você.

— Confiem em mim — declarou Kirvov. — Estarei alerta. É uma

questão importante para mim também.

Depois de ligar o rádio do carro, baixinho, numa emissora que só

tocava música, a fim de distrair Emily e Tovah, Kirvov dedicou toda a

sua atenção a olhar pela janela do carro para a entrada do café.

Uma hora e meia se passou, Kirvov não viu ninguém que se

parecesse com a presa deixar o café, embora quatro fregueses

entrassem. Duas horas depois de estarem ali, todos os quatro fregueses

já haviam se retirado, separadamente.

Emily começou a se preocupar com o que Rex Foster estaria

fazendo no local da escavação, mas não queria sair dali para ir a seu

encontro.

— Quero ver essa tal de Evelyn Hoffmann — declarou ela, com

determinação.

Irrequieta, abriu a bolsa, tencionando passar um pouco de

batom nos lábios. E foi nesse instante que Kirvov disse:

— Quer ver Evelyn Hoffmann? Pois pode vê-la agora. Olhe.

Emily empertigou-se, inclinando-se para Kirvov, a fim de olhar

pela janela. Tovah, no banco traseiro, também olhava pela

janela. Todos podiam divisar a mulher impressionante, de cabelos

castanhos, talvez com l,70m de altura, esguia, postura ereta,

caminhando em passos vigorosos, impecavelmente vestida num

conjunto azul, atravessando a rua para a ilha de concreto que era a

Askanischer Platz.

— Evelyn Hoffmann — sussurrou Kirvov. — Acho que ela está

indo para o ponto de ônibus na Schõneberger Strasse.

Ela desaparecera de vista agora, e Kirvov abriu a porta do carro

e saiu, acrescentando:

— Vou me certificar.

Ele subiu a rua até a Askanischer Platz, olhou para a direita e

depois concentrou-se em acender um cigarro. Um ônibus amarelo

apareceu, encaminhando-se para o ponto. Kirvov largou o cigarro no

chão, esmagou-o com a ponta do sapato e deu alguns passos na direção

da Schõneberger Strasse.

Ele ficou por um momento fora da visão das mulheres no carro,

mas reapareceu quase que no instante seguinte, aproximando-se

depressa. Sentou ao volante, ligando o carro.

— Ela está no ônibus — anunciou ele, dando marcha à ré. —

Vamos segui-la.

Kirvov começou a inverter o percurso que fizera no dia anterior,

atrás do ônibus de número 29. Ficou para trás, freando quando o

ônibus parava para os pasageiros desembarcarem, tornando a partir

cada vez que o ônibus andava de novo. Ficou um pouco mais para trás

ao chegarem à Kurfürstendamm, deixando que dois outros carros o

separassem do ônibus. Depois de avançarem um pouco pela rua apinhada, Kirvov disse:

— Ela saltará na próxima esquina, se está indo para onde eu

penso.

Ele diminuiu a velocidade, parando em fila dupla, estreitando os

olhos, enquanto o ônibus chegava a outro ponto. Meia dúzia de pessoas

saltaram. Evelyn Hoffmann estava entre elas.

Emily e Tovah observavam em silêncio, fascinadas. Kirvov

engrenou o carro, fazendo uma previsão:

— Ela vai subir a Knesebeckstrasse, a caminho de um

apartamento no terceiro andar de um prédio que fica no meio do

quarteirão, a fim de falar com Klara Fiebig. Vamos estacionar e

descobrir se estou certo.

Estacionando às pressas, perto da Steinplatz, Kirvov saltou para

a calçada e correu até a esquina, espiando atentamente pela

Knesebeckstrasse. Quando Emily e Tovah o alcançaram, ele gesticulou

e disse:

— Eu estava certo. Acabei de vê-la entrar num prédio. Vou até

lá dar uma olhada, só para ter certeza absoluta de que se trata do

mesmo prédio. Esperem por mim aqui.

Kirvov só se ausentou uns poucos minutos. Ao voltar, acenou

com a cabeça, satisfeito.

— É o mesmo prédio. Ela está visitando Klara Fiebig.

— Eu gostaria de saber o que está acontecendo por lá —

murmurou Emily.

— Ainda vamos descobrir — respondeu Kirvov. — Vamos ficar

esperando por aqui. Se for como ontem, ela deve sair daqui a pouco. E

no instante em que isso acontecer, vamos nos separar e olhar as

vitrines. Depois que ela entrar na Ku'damm, nós a seguiremos a uma

distância segura.

— Sabe para onde ela vai? — perguntou Tovah.

— Tenho uma idéia — disse Kirvov. — Não tenho certeza, mas

vamos esperar para ver.

A espera tediosa, animada apenas pela expectativa intensa, prolongou-se por quase quarenta minutos.

— Posso vê-la de novo — anunciou Kirvov, abruptamente. —

Vamos nos separar. Nós lhe daremos meio quarteirão de vantagem e

depois a seguiremos.

As duas mulheres se afastaram apressadamente de Kirvov,

enquanto o russo se deslocava alguns metros, indo postar-se diante da

vitrine de uma loja de material fotográfico. Emily e Tovah se adiantaram

mais um pouco, observando uma vitrine em que estavam expostos os

últimos modelos franceses de pronta entrega.

Kirvov manteve a esquina sob vigilância. Evelyn Hoffmann

apareceu e se encaminhou apressadamente para a Kurfürstendamm,

sem se preocupar em olhar para as vitrines. Era evidente que ela tinha

algum destino certo. Depois que ela foi engolfada pelo fluxo de

pedestres, Kirvov fez um sinal para Emily e Tovah. Ofegantes, as duas o

alcançaram.

— Ainda posso vê-la — disse Kirvov. — Vamos segui-la.

Em fila, com Kirvov na frente, foram avançando pela multidão,

atrás de Evelyn Hoffmann, sem a perderem de vista em momento

algum.

Ela parou no sinal de trânsito da Ku'damm, esperou que abrisse

e depois atravessou a rua junto com os outros pedestres.

Kirvov levantou a mão, enquanto Emily e Tovah paravam ao seu

lado.

— Acho que sei para onde ela está indo. — Apontou para uma

placa na rua em que estava escrito Mampes Gute Stube. — O mesmo

restaurante para onde a segui ontem. Vamos ver se ela entra lá.

Ficaram observando.

Evelyn Hoffmann deixou a calçada e entrou no Mampes Gute

Stube.

— O que faremos agora? — indagou Tovah.

— Vamos ficar perto do restaurante — respondeu Kirvov. — Ela

provavelmente vai se encontrar com o grandalhão com que a vi ontem, o

homem chamado Wolfgang. Eu gostaria de saber quem é ele.

— Vou descobrir — prontificou-se Tovah. — Se eles se

separarem ao saírem, vocês dois podem ficar com ela, enquanto eu sigo

o homem.

— Boa idéia — comentou Kirvov.

— Quanto tempo teremos de esperar aqui? — perguntou Emily.

— Baseado no que aconteceu ontem, eu diria que eles devem

sair num prazo de meia a uma hora.

— Então vamos descansar os pés — sugeriu Emily, acenando

com a cabeça para um pequeno café, com meia dúzia de mesas na

calçada. — Estou faminta, e poderemos comer alguma coisa enquanto

esperamos.

Encontraram uma mesa vazia no pequeno café e pediram Ka-

setorte e Kaffee. Meia hora transcorreu, enquanto eram servidos e

comiam.

Mais trinta e cinco minutos se passaram, Kirvov estava pagando

a conta quando Emily apertou-lhe o braço.

— Lá está ela, Nicholas, junto com um homem, provavelmente o

mesmo grandalhão de que você falou. Está vendo?

Kirvov espiou entre os veículos que passavam. Acenou com a

cabeça.

— Estou sim. É o mesmo de ontem. Evelyn Hoffmann e seu

amigo Wolfgang. — Ele se levantou. — Meu palpite é de que os dois vão

se separar agora. Siga o homem, Tovah. Vamos nos encontrar mais

tarde, no Kempinski. Emily, ela provavelmente vai atravessar a

Ku'damm, até o ponto de ônibus na próxima esquina. Pelo menos é o

que espero. Você a segue. Isso me dará tempo para ir buscar o carro.

Pegarei você e poderá me dizer então se ela já pegou o ônibus.

Ficaram observando Evelyn Hoffmann e Wolfgang manterem

uma breve conversa na calçada, diante do Mampes Gute Stube. Depois,

a mulher Hoffmann e o homem trocaram um aperto de mão e se

separaram, partindo em direções opostas.

— Muito bem — disse Kirvov ansioso. — Vocês já sabem o que

fazer.

E afastou-se depressa, a caminho do Opel alugado.

Poucos minutos depois estavam no carro e avançando pela

Ku'damm, tentando localizar Emily. Avistou-a no meio-fio e fez-lhe um

sinal. Ele parou e abriu a porta. Emily sentou-se ao seu lado, o dedo

indicador apontando para a frente.

— O ônibus — balbuciou Emily. — Você estava certo. Ela pegou

o ônibus, o que está um quarteirão à nossa frente.

— Ótimo! — exclamou Kirvov, tirando o carro do meio-fio e

acelerando.

Ele se aproximou do ônibus, percebendo que fazia o mesmo

peréurso que cobrira no dia anterior.

Quinze minutos depois observaram Evelyn Hoffmann descer do

ônibus, atravessar a Stresemann Strasse e entrar no Café Wolf.

— Um círculo completo — murmurou Emily, enquanto Kir-vov

estacionava o carro numa vaga, com plena visão da entrada do café. Ela

franziu as sobrancelhas. — O que vamos fazer agora?

— Esperaremos, Emily. Ficaremos sentados aqui e esperaremos

para descobrir se desta vez ela sai.

— E se ela não sair de novo? O que faremos?

— Não sei.

— Pois eu sei — declarou Emily enigmática. — Mas vamos

esperar para ver o que acontece.

Uma hora se passou.

Outras duas horas transcorreram. Emily foi ficando cada vez

mais irrequieta.

— Quando este maldito café fecha?

— Em menos de uma hora.

— É uma perda de tempo — disse Emily impaciente, pegando a

maçaneta da porta. — Ela não vai sair... mas eu vou entrar.

Emily já estava abrindo a porta quando Kirvov pegou-lhe o

braço.

— Espere um pouco. Você não pode entrar lá.

— Por que não? É um lugar público. Pois eu sou público e quero comer. E também quero descobrir se Evelyn Hoffmann está lá dentro.

— Não faça isso, Emily. Pode ser perigoso.

— Não diga bobagem.

Ela já havia saltado do carro.

— O que aconteceu com seu pai não foi bobagem, Emily. Ela

pode ser uma neonazista. Por favor, lembre-se de seu pai...

A menção ao pai fez Emily se virar na rua. Ela inclinou-se para

Kirvov, observando seu rosto preocupado.

— Não esqueci de meu pai — disse calmamente. — E é

justamente por isso que preciso saber o que está acontecendo lá dentro.

— Pois então irei com você.

— Nada disso, Nicholas. Você fica aqui. Provavelmente nada

está acontecendo, e há alguma explicação perfeitamente inocente, e

poderemos então acabar com esta busca inútil. Mas se alguma coisa

está acontecendo... então sairei de lá e voltarei antes da hora de fechar.

Se eu não voltar, então você sabe o que fazer. Comunique a Rex Foster,

e ele poderá procurar a polícia.

— Eu preferia que você não fizesse isso — suplicou Kirvov.

— Tenho de fazer.

Emily fechou a porta do carro e encaminhou-se para o Café Wolf.

Como se estivesse hipnotizado, Kirvov observou-a, até vê-la afinal entrar

no Café Wolf.

 

Dentro do Café Wolf, Emily tentou se orientar. Esquadrinhou

rapidamente o interior. Outro pequeno restaurante de classe média,

mas imaculado. À esquerda, um balcão, com uma fileira de bancos

marrons, uma escada em espiral, uma cabine telefônica, uma planta

num vaso. À direita, algumas mesas redondas, uma delas ocupada por

duas mulheres absortas numa conversa. No bar, uma moça de blusa de

malha e calça de couro, uma toalha no braço, ao que tudo indicava a

garçonete, ria de alguma coisa que o jovem garçom lhe dizia. A

garçonete viu Emily e avançou em sua direção.

— Gostaria de sentar, Frãulein?

A garçonete puxou uma cadeira de uma das mesas e Emily

sentou.

— Eu queria apenas comer alguma coisa — murmurou Emily. A

garçonete assumiu uma expressão pesarosa.

— Infelizmente, a cozinha está fechando, e dentro de meia hora

o café também vai fechar. Talvez eu ainda possa lhe arrumar uma tigela

quente de Bohnensuppe. Vou verificar se...

— Isso não — disse Emily, que não estava com a menor vontade

de tomar sopa de feijão.

— Não gostaria de uma cerveja ou um café?

— Uma cerveja está ótimo. De qualquer tipo. Enquanto a

garçonete se afastava para o bar, Emily observou o lugar com mais

cuidado. As duas mulheres na mesa próxima se levantavam para ir

embora. As duas eram gordas e malvestidas. Nenhuma das duas se

parecia sequer remotamente com Evelyn Hoffmann.

Enquanto as duas saíam, Emily retomou o exame do lugar.

Evelyn Hoffmann só poderia ter ido para dois lugares. Podia ter subido

pela escada em espiral, que levava a um apartamento ou escritório, ou

entrado na cozinha. Havia uma porta de vaivém para a cozinha, tendo

ao lado uma abertura pela qual o cozinheiro entregava os pedidos.

A garçonete voltou com uma cerveja e a nota.

Emily saboreou a espuma e observou a garçonete recolhendo os

vidros de sal e pimenta, para tornar a enchê-los. Enquanto ela entrava

na cozinha e o garçom saía pela porta, Emily ficou sozinha, tentando

decidir o que faria em seguida. Resolveu explorar para onde levava a

escada.

Levantando-se, encaminhou-se para a escada, sem fazer

barulho. Ao pôr o pé no primeiro degrau, notou dois cartazes de plástico

pregados na parede, à esquerda. O primeiro dizia: ACHTUNG STUFEN!

"Cuidado com os degraus." O outro era ainda mais desanimador:

TOILETTEN. A fim de se certificar, Emily continuou a subir com

extremo cuidado. Havia duas portas lá em cima. Uma delas tinha a

silhueta de uma mulher, a outra, a silhueta de um homem. Eram mesmo os banheiros, não havia mais nada lá em cima. Mesmo assim,

Emily abriu a porta do banheiro feminino. Havia uma pequena ante-

sala, com uma pia", depois dois reservados, ambos abertos e vazios.

Depois de um momento de hesitação, experimentou a porta do banheiro

masculino. Esperando qualquer coisa, deparou-se apenas com um

mictório desocupado, um sanitário e uma pia.

Desanimada, Emily tornou a descer os degraus para o café. A

garçonete ainda não estava à vista. Emily voltou à mesa e à cerveja, e

pensou qual seria seu próximo movimento.

Viu a garçonete tornar a entrar na sala, fitá-la e se aproximar,

dizendo:

— Desculpe, mas vamos fechar dentro de cinco minutos. Eu

agradeceria se pagasse a conta agora.

— Está bem.

Emily abriu a bolsa, pegou dois marcos alemães e entregou-os à

garçonete. Por um instante, pensou em interrogar a moça, descrevendo

Evelyn Hoffmann e indagando para onde ela fora. Mas antes que

pudesse se decidir, percebeu que a moça se encaminhava para a

cozinha.

Com um suspiro, Emily levantou-se para sair. À porta de

vaivém, a garçonete olhou para trás e gritou:

— Auf wiedersehen.

Ela desapareceu na cozinha.

A porta da rua, Emily hesitou. Olhou para trás. A cozinha era a

única possibilidade que não explorara.

Por que não? Poderia descobrir se havia outra saída nos fundos

que a mulher Hoffmann usara. Inventaria alguma pergunta para fazer à

garçonete. Por que não?

Emily virou-se e encaminhou-se resoluta para a cozinha. Sem

mais hesitação, empurrou a porta de vaivém. Era uma cozinha comum,

de azulejos brancos. Uma pia de aço, balcões, um cepo de madeira, um

fogão comercial, geladeira, armários.

Emily olhou ao redor. A garçonete não estava à vista. Mas havia um corredor reto à frente. Emily avançou para lá.

Subitamente, do recesso mal-iluminado do corredor emergiu um

jovem alemão, alto, musculoso e louro, obviamente o cozinheiro, já que

usava o chapéu típico e um avental branco.

Aturdida, Emily parou no mesmo instante, piscando os olhos

para o homem, que disse suavemente:

— Seu cartão de identidade, por favor, Fràulein.

— Meu o quê?

— Seu cartão de identidade. Preciso vê-lo.

— Eu... eu não sei se...

O jovem alto interrompeu-a, a voz assumindo um tom incisivo:

— Quem é você?

— Eu... ora, sou uma freguesa... queria apenas... mas é melhor

eu ir agora.

— Acho que não. — O jovem meteu a mão por baixo do avental

e tirou uma automática Mauser 7.65. — Venha comigo.

Ele fez uma pausa, acenando ameaçadoramente com a arma,

antes de acrescentar:

— Ande na minha frente. Schnell!

O coração disparado, as pernas pesando como chumbo, Emily

forçou-se a passar pelo homem e entrou no atemorizante corredor.

 

O Café Wolf fechara.

E Emily Ashcroft não saíra.

Primeiro, nenhum sinal de Evelyn Hoffmann. Agora, Emily

Ashcroft também sumira misteriosamente.

Kirvov estava parado na crescente escuridão da Askanischer

Platz, olhando para a porta trancada do restaurante às escuras, no

outro lado da rua. Tentou imaginar o que poderia ter acontecido, mas

não tinha a menor pista. Sabia apenas que o caso era grave e sinistro,

que precisava fazer alguma coisa.

Seu primeiro impulso fora correr para a porta, arrombá-la,

entrar no Café Wolf, encontrar Emily, se possível decifrar o mistério de uma vez por todas.

Mas o bom senso o conteve. Se entrasse e também

desaparecesse, ninguém ali fora teria a menor idéia do que acontecera

com Emily e com ele. Ainda a salvo na rua, ele se tornava o único

contato de Emily com o mundo exterior, a testemunha solitária capaz

de promover o resgate. Lembrou-se da última instrução de Emily: Se eu

não voltar, então você sabe o que fazer. Comunique à Rex Foster, e ele

poderá procurar a polícia.

Emily estava certa. Não havia outra opção sensata.

Kirvov voltou apressadamente para o carro, ligou-o e partiu em

busca de ajuda.

Chegando ao mundo mais iluminado e mais normal do Bristol

Kempinski, ele deixou o carro com o porteiro e entrou apressadamente

no saguão.

Ao se encaminhar para a recepção, a fim de chamar Foster,

avistou uma jovem loura que se encaminhava para o bar. Reconheceu-

a. Era Tovah Levine.

— Tovah! — chamou Kirvov, adiantando-se para interceptá-la.

Ela parou e levantou a mão em saudação.

— Oi, Nicholas.

— Aconteceu uma coisa terrível, Tovah. Tenho de encontrar Rex

imediatamente. Precisamos ir à polícia.

Ela estudou a sua expressão angustiada por um instante e

depois, também preocupada, pegou-o pelo braço.

— Eu ia me encontrar com alguém que... que conhece a polícia.

Venha comigo. Poderá nos contar o que está acontecendo.

Kirvov resistiu.

— O problema é urgente, Tovah. Não posso desperdiçar um

minuto sequer.

— Por favor, Nicholas, venha comigo.

Relutante, ele acabou cedendo, acompanhando-a por toda a

extensão do saguão. O luxuoso bar parecia vazio, com a exceção do

homem barbudo que tocava o piano Steinway. Só depois é que Kirvov notou um homem se levantando de um grupo de cadeiras em torno de

uma mesa num canto escuro.

Tovah levou Kirvov até o homem, que estava esperando. Era

mais alto que Kirvov, com as feições firmes e bronzeadas de um astro de

cinema ou um atleta. Tovah disse:

— Nicholas, quero apresentá-lo a Chaim Golding, um amigo de

Berlim. — Ela virou-se para Golding. — Este é Nicholas Kirvov, de

Leningrado. Já lhe falei a respeito dele. Outro dos caçadores de Hitler.

Golding estendeu a mão para o aperto, mas Kirvov apertou-a

apenas por um breve instante, depois virou-se para Tovah e disse:

— Não tenho tempo para reuniões sociais agora, Tovah. Talvez

em outra ocasião. Neste momento temos um problema grave. Emily

desapareceu. Não sei o que aconteceu. Preciso encontrar Rex e procurar

a polícia. Eu lhe contarei tudo quando estivermos a sós. — Lançou um

rápido olhar para Golding, nervoso. — Trata-se... de um problema

particular. Preciso ir agora.

Tovah tornou a segurar seu braço.

— Para procurar a polícia? Não. Sente-se. O Sr. Golding

conhece a polícia.

— Mas...

— Sente-se — ordenou Tovah, com um tom de autoridade na

voz que Kirvov não ouvira antes. — Pode contar tudo na frente de

Chaim Golding.

Ela lançou outro olhar inquisitivo para Golding, que acenou com

a cabeça. E depois acrescentou para Kirvov:

— Se houver problemas, o Sr. Golding será mais útil para nós

do que a polícia de Berlim. — Uma pausa e ela arrematou, baixando a

voz: — Nicholas, Chaim Golding é do Mossad... e eu também.

Por um instante, Kirvov deixou transparecer seu espanto.

— Mossad?

— O serviço de informações de Israel — explicou Tovah. — Sou

jornalista, isso é verdade, mas também é uma cobertura para o meu

trabalho como agente do Mossad. Chaim Golding é meu superior imediato, chefe da importante seção de Berlim.

Kirvov exibiu um vislumbre de reconhecimento.

— Mossad... a operação em Entebbe e tudo o mais. Claro, claro,

já li a respeito. — Arriou o corpo para a beira de uma cadeira. — Mas

ainda assim, a polícia...

— Não pense mais na polícia. — Tovah sentou e fez uma pausa,

enquanto Chaim Golding sentava em frente dos dois. — O Mos-sad local

do Sr. Golding é mais poderoso... e merece mais confiança... do que a

polícia de Berlim. E agora nos conte o que aconteceu com Emily.

Kirvov começou a resistir outra vez.

— Não sei se há tempo para isso...

— Tem de haver tempo — insistiu Tovah. — Precisamos

conversar antes de agir. Não há alternativa. Conte-nos quando viu

Emily pela última vez.

Rapidamente, Kirvov relatou o que acontecera desde que ele e

Emily haviam se separado de Tovah, na Ku'damm.

— Vim direto para cá, a fim de informar a Rex e depois chamar

a polícia, para entrar lá e salvar Emily.

— A polícia não vai entrar lá nem investigar — declarou Tovah

incisivamente. — São os últimos que devem ser avisados.

Kirvov ficou completamente desorientado.

— Por quê?

Tovah exibia uma expressão determinada.

— Enquanto você e Emily seguiam Evelyn Hoffmann, fui atrás

do tal Wolfgang.

— E o que descobriu?

— Acompanhei-o até um prédio de quatro andares na Platz der

Luftbrücke, 6. Havia uma placa por cima da entrada: Der

Polizeipràsident in Berlin. Sabe o que isso significa, Nicholas?

— A chefatura de polícia de Berlim.

— Exatamente. Não demorei a descobrir que o homem que

estava seguindo era Wolfgang Schmidt, o chefe de polícia. Compreende

o que estou dizendo? O chefe de polícia de Berlim está associado à mulher Hoffmann. A mesma mulher que visitou Klara Fiebig, que

outrora possuiu o seu quadro de Hitler. Muito suspeito. Como

jornalista, não tive muita dificuldade em passar da recepção, onde

descobri a identidade de Wolfgang, até o departamento de relações

públicas. Saí com um lindo retrato do chefe Wolfgang Schmidt. E

entreguei-o, claro, a Chaim Golding.

Golding finalmente mexeu-se, inclinando-se para a frente e

dirigindo-se a Kirvov, em voz baixa:

— Schmidt pôde ingressar na polícia de Berlim e subir de

posição depois da guerra, porque tinha credenciais excelentes.

Apresentou provas de que fora inimigo de Hitler e um dos líderes da

tentativa do Conde von Stauffenberg de assassinar Hitler, em 1944.

Está a par da conspiração de Von Stauffenberg contra Hitler?

— Li a respeito, quando era mais jovem, nos livros soviéticos de

história da guerra.

— Vou refrescar sua memória — disse Golding. — Klaus von

Stauffenberg era um aristocrata e um poeta que se tornou oficial sob

Hilter. Von Stauffenberg sempre se opusera secretamente a Der Führer,

por causa do seu uso abusivo do poder. Von Stauffenberg e outros, que

ocupavam altos postos, resolveram se livrar de Hitler. Houve seis

tentativas, que foram abortadas ou fracassaram. Finalmente, depois

que malogrou a invasão da Rússia, Von Stauffenberg resolveu acabar

com Hitler de uma vez por todas. Quando foi chamado à Prússia

Oriental, a fim de se encontrar com Hitler e duas dúzias de generais do

alto-comando alemão, no Covil do Lobo, em Rastenberg, Von

Stauffenberg levou duas bombas em sua pasta. Juntou-se à reunião em

torno da mesa de conferência e encostou a pasta com os explosivos

num bloco que sustentava a mesa. Com a bomba marcada para

explodir sete minutos depois, Von Stauffenberg pediu licença para dar

um telefonema. Depois que ele saiu, o Coronel Heinz Brandt achou que

a pasta no chão estava atrapalhando e empurrou-a para um lado,

afastando-a do lugar onde estava Hitler. Houve a explosão, que destruiu

a sala. Quatro pessoas morreram, mas Hitler escapou. Sofreu apenas queimaduras e ferimentos superficiais. Enquanto isso, Von

Stauffenberg voltara a Berlim, presumindo que Hitler estava morto. Ele

e os outros começaram a dar ordens para assumir o poder na

Alemanha. É claro que Hitler capturou-o e aos outros. Foram efetuadas

mais de sete mil prisões, e dois mil suspeitos foram executados. Von

Stauffenberg foi fuzilado. Teve sorte. Outros foram garroteados com

cordas de piano no quartel de Plotzensee e depois pendurados em

ganchos de açougue. Segundo os registros do governo, uns poucos

conspiradores escaparam. Um deles foi Wolfgang Schmidt. Ele tinha

papéis assinados pelo próprio Von Stauffenberg, agradecendo por sua

atuação contra Hitler. Com essas credenciais, Schmidt foi bem acolhido

na polícia de Berlim e acabou se tornando o chefe. Tudo maravilhoso...

— Impressiona qualquer um — admitiu Kirvov.

— ... exceto por uma coisa — continuou Golding. — As

credenciais de Schmidt eram falsas, uma total impostura.

— Uma impostura? — repetiu Kirvov.

— Wolfgang Schmidt sempre foi um autêntico nazista e

continua até hoje. Era um dos guardas da SS mais dedicados em

Berghof, a residência de Hitler por cima de Berchtesgaden. Hitler

chegou mesmo a lhe confiar a proteção de Eva Braun. Quando o fim

estava próximo, Hitler pegou alguns documentos confiscados de Von

Stauffenberg, mandou adulterá-los e entregou-os a Schmidt como

presente de despedida. Com sua nova personalidade, Schmidt acabou

ingressando na polícia de Berlim, no pós-guerra. Esse nazista secreto é

o atual Chefe de polícia da cidade.

— Mas se sabem de tudo isso...

— Por que não o denunciamos? Porque, meu amigo, é sempre

mais útil conhecer o inimigo. Se não fosse Schmidt, seria outro. Pelo

menos podemos assim saber qual é a situação. Entende agora, Sr.

Kirvov, por que não podemos confiar na polícia de Berlim. Qualquer

tentativa de resgatar a Srta. Ashcroft do Café Wolf teria de passar pelo

chefe Schmidt. E posso lhe garantir que ele encontraria algum pretexto

para não cooperar. Mais do que isso, ele aumentaria o risco para todos vocês. Está entendendo agora, Sr. Kirvov?

Kirvov estava visivelmente abalado.

— Eu... entendo, sim. Mas...

— Claro que se deve fazer alguma coisa pela Srta. Ashcroft.

Precisamos encontrá-la o mais depressa possível. Porém o

desaparecimento terá de ser investigado por todos vocês e também pelos

agentes do Mossad. Estamos aqui como agentes secretos, mas somos

fortes e bem equipados. Vamos cercar imediatamente o Café Wolf e

mantê-lo sob observação.

— Mas o que poderemos fazer? — insistiu Kirvov.

— Você e Tovah devem conversar imediatamente com o Sr.

Foster. Tovah esteve com ele há pouco. Pelo que eu soube, o Sr. Foster

pode ter alguma coisa a dizer. Se isso acontecer, Tovah nos avisará. Se

ele não tiver qualquer idéia, tentaremos planejar alguma ação nossa. Só

não podemos esquecer de uma coisa: quem quer que seja o inimigo, tem

o apoio do chefe de polícia de Berlim. Agora, subam e conversem com o

Sr. Foster. Espero que possamos agir a tempo... a tempo de salvar a

Srta. Ashcroft de qualquer mal que possam lhe fazer.

Kirvov e Tovah se levantaram no mesmo instante. Golding

também ficou de pé, acrescentando:

— Só mais uma coisa, Sr. Kirvov, uma pequena informação

curiosa e possivelmente esclarecedora. Sobre o Café Wolf. Sabia que na

ocasião em que foi apresentado a Eva Braun, naquela loja de material

fotográfico, Adolf Hitler disse que seu nome era Sr. Wolf? Isso mesmo...

Sr. Wolf. E, agora, boa sorte a vocês dois.

Depois de supervisionar a escavação no Führerbunker — Andrew

Oberstadt esperava que sua turma noturna alcançasse a saída de

emergência no início da noite — Rex Foster voltara ao Kempinski, a fim

de esperar por Emily. Debruçado sobre a planta do Führerbunker,

estendida sobre a mesa da sala, ele estudara alguns aspectos estranhos

do projeto e gradativamente chegara a determinadas conclusões.

Chegara a ligar para o arquiteto Zeidler, fazendo uma pergunta

específica sobre a planta do Führerbunker.

Quando a campainha da porta tocou, Foster foi abrir na maior

ansiedade. Queria contar a Emily o que estava pensando e depois

voltariam juntos à Zona de Segurança de Berlim Oriental. Abrindo a

porta, não escondeu seu desapontamento. Eram Tovah e Kirvov.

— Olá — disse ele. — Eu estava esperando Emily...

— Precisamos conversar com você sobre Emily — anunciou

Kirvov.

Foster deixou-os entrarem na sala. Os dois sentaram e ele voltou

à mesa, observando-os. Suas expressões eram sombrias, e Foster ficou

preocupado.

— O que foi? — perguntou ele. — Emily está bem?

— Não sabemos — respondeu Kirvov. — Deixe-me explicar...

Quando Kirvov terminou, Foster estava pálido, mas controlado.

— Por que não tentou entrar lá atrás dela, Nicholas?

— Pensei nisso, mesmo depois que o café foi fechado. Mas não

sabia se conseguiria sair... e se não pudesse, ninguém saberia o que

aconteceu conosco. Antes de Emily entrar...

— Foi uma besteira o que ela fez — interrompeu-o Foster. —

Desculpe. Pode continuar.

— Ela estava decidida a entrar sozinha — Kirvov tentou

explicar. — Antes, ela me disse que se não saísse eu deveria procurar

você e chamar a polícia...

— A polícia deve ser avisada imediatamente.

Foster já estendia a mão para o telefone quando Tovah sacudiu a

cabeça.

—- Não adianta, Rex. Agora é a minha vez. Deixe-me explicar.

Rapidamente, ela falou de si mesma e do Mossad, contou os

antecedentes de Wolfgang Schmidt.

— Essa não! — explodiu Foster. — E fui pedir a ajuda de

Schmidt depois que Emily quase foi assassinada! — Deixou escapar um

suspiro profundo. — Muito bem, a polícia está excluída. Onde isso nos

deixa?

— Podemos contar com o apoio do Mossad, Rex — disse Tovah.

— Está querendo dizer que Golding pode realmente nos ajudar?

— Não só pode, como vai. É muito perigoso, mas o Mossad tem

todas as condições para agir em Berlim. Além de agentes treinados na

organização... não sei quantos existem na cidade... há centenas de

outras pessoas de reserva, na comunidade de Berlim, anti-nazistas de

todos os tipos, especialistas em tudo, de armamentos a máquinas, que

podem ser convocados para fazer o que for necessário. Eles não

hesitarão em eliminar os últimos vestígios do Terceiro Reich. Chaim

Golding quer saber agora o que você acha que pode ser feito, antes de

se arriscar a iniciar uma ação mais concreta.

— Ele não deve se lançar a qualquer ação direta por enquanto

— disse Foster. — A polícia pode interferir e impedir tudo.

Voltou à mesa e estudou a planta do bunker ali aberta, antes de

acrescentar:

— Tenho uma idéia. — Ainda olhando para a planta, Foster

explicou: — Tem alguma coisa muito estranha nesta planta do

Führerbunker. É evidente para qualquer arquiteto. Cheguei a ligar para

Zeidler, a fim de interrogá-lo a respeito. Ele me informou que o próprio

Hitler ordenou que o bunker fosse feito assim, e teve de obedecer. Mas

não resta a menor dúvida de que alguma coisa está faltando... e se for o

que penso, isso nos revelará a localização do sétimo bunker.

Kirvov estava confuso.

— Que sétimo bunker!

— Este. — Foster tirou a segunda planta, que estava por baixo

da planta do Führerbunker. — O bunker subterrâneo que Hitler ordenou

que nunca fosse identificado. Tenho agora uma idéia de sua localização.

Tudo depende do que eu puder descobrir quando a escavação alcançar

o Führerbunker.

— Espera entrar no Führerbunker! — indagou Tovah surpresa.

Foster estava pondo o paletó.

— Esta noite. Quando eu voltar à área da fronteira, o lado do

monte já deve estar escavado, com um acesso ao Führerbunker.

— Acha que ainda existe? — indagou Kirvov.

— Por que não? Foi construído bem fundo, reforçado com aço e

concreto. Nem mesmo os russos com seus tratores poderiam afetá-lo,

pelo menos no nível mais profundo que Hitler usava.

— Não pode ir sozinho — protestou Tovah. — Talvez eu possa...

— Tenho permissão para entrar na Zona de Segurança —

interrompeu-a Foster. — Você não. Deve ficar aqui com Nicholas,

avisando a Golding o que estou fazendo. Se eu precisar, pode estar certa

de que darei um jeito de entrar em contato.

Dentro da Zona de Fronteira de Berlim Oriental, a maior parte

do monte que cobria o Führerbunker estava sumida na escuridão da

noite. Apenas um lado do monte, o oeste, estava intensamente

iluminado por três enormes refletores.

À beira do círculo de luz, Andrew Oberstadt, de macacão sujo e

botas enlameadas, estava parado, observando o trabalho noturno, seus

homens alargando a passagem que levava a uma abertura no lado do

monte. Tiravam mais terra e entulho, jogando em duas pilhas, quando

Foster chegou. Oberstadt recebeu-o com a maior animação.

— Acho que já estamos quase chegando, Rex. Creio que tudo

estará pronto para você a qualquer momento. A passagem pela velha

saída de emergência para o nível inferior está quase desobstruida. Dei

uma olhada há pouco. Não pude resistir à tentação de verificar como

está. Nada mal, levando-se em consideração a passagem de quarenta

anos e a ação dos russos. O teto de concreto parece ter protegido a área

de Hitler por baixo. Pelo que pude julgar, a escada está quase toda

intacta. Alguns degraus perto do topo estão destruídos, mas o resto da

escada parece em condições de ser usado, até onde pude iluminar com

a lanterna. Quer esperar até o amanhecer para descer?

— Quero descer imediatamente, Andrew. A reação de Oberstadt

foi de dúvida.

— Vai ser muito difícil procurar pelo camafeu e a ponte dentária

naquele buraco. Mesmo com a iluminação portátil, será difícil encontrar

uma coisa tão pequena.

— Não é isso o que estou procurando esta noite, Andrew. Estou atrás de algo muito maior.

Oberstadt deu de ombros.

— Você deve saber o que está fazendo. E acho que a luz do dia

não tornaria a coisa mais fácil lá no fundo. Quando quer começar?

— Agora.

— Importa-se que eu o acompanhe?

— Posso usá-lo na primeira parte da operação. Seria muito útil.

Mas se encontrar o que estou procurando, seria melhor que eu ficasse

lá embaixo sozinho.

— Precisaremos de lanternas fluorescentes — disse Oberstadt..

— Uma para cada um.

— Eu gostaria de levar também outra coisa — informou Foster.

— Alguma coisa para cortar concreto.

— Tenho uma serra de bateria. Foster pensou por um momento.

— Muito bem. Pegue a serra e também uma talhadeira e um

martelo.

Enquanto Oberstadt se afastava, chamando um operário para

ajudá-lo, Foster olhava hipnotizado para a abertura no monte. Como

estava parcialmente iluminada pelos refletores, ele se adiantou para

verificar o estado da antiga saída de emergência.

Passando entre os homens ofegantes, ele chegou ao buraco e

abaixou-se para entrar. Lembrou-se da informação de que havia um

vestíbulo que levava aos quatro lances de escada. A maior parte fora

demolida e agora removida, a abertura fora escorada com vigas pela

turma de Oberstadt. Foster divisou vagamente os degraus de concreto,

cobertos por terra, muito disformes, no alto, os outros mergulhando

íngremes na escuridão.

E de repente dois potentes fachos de luz brilharam às suas

costas. Oberstadt estava ali; entregou-lhe uma das lanternas

fluorescentes e ficou com a outra. Depois, virando-se para um dos seus

homens, pegou um saco de lona, com a serra e as outras ferramentas.

— Estamos prontos — anunciou Oberstadt.

— Pois então vamos descer — disse Foster.

— Tome cuidado — recomendou Oberstadt.

Foster foi na frente, apoiando-se precariamente no primeiro

degrau demolido, uma das mãos na parede, desceu para o seguinte e o

outro, cada um parcialmente destruído. Constatou que, depois, os

degraus cobertos de terra se encontravam em bom estado. Foster foi

descendo, ouvindo Oberstadt logo atrás.

E foram descendo cada vez mais, pelos quatro lances de escada.

Foster lembrou-se de que eram quarenta e quatro degraus. Ao terminar

de contá-los, compreendeu que estava certo, que se encontrava no nível

inferior do Führerbunker original.

Ali, naquele labirinto, dezessete metros abaixo do ponto em que

entrara, estava sufocante. Era difícil respirar. Deu um passo e a poeira

levantou, fazendo-o tossir.

— Você está bem? — perguntou Oberstadt, a voz ressoando pelo

subterrâneo.

— Estou sim. Vamos verificar onde estamos.

Ele conhecia muito bem a planta do nível inferior do bunker.

Havia dezoito cômodos pequenos que se estendiam por quatorze metros

à frente, e o acesso por aquele corredor central, de teto baixo, três

metros de largura. Mas agora, pensando em Emily, Foster estava

interessado apenas em seis cômodos, a suíte de Hitler e Eva Braun,

mas especialmente a sala e o quarto pessoais de Hitler.

Foster levantou a lanterna, tentando determinar as condições do

nível inferior. A confusão era total, embora o lugar estivesse intacto. O

teto e as paredes do corredor, outrora limpas, cor de ferrugem, estavam

agora escurecidas pela terra e pelo tempo, teias de aranha pendendo

por toda parte. Aqui e ali, à sua frente, havia poças de água estagnada e

áreas enlameadas. Avançando alguns passos cautelosamente, Foster

gritou para trás:

— A porta deve estar por aqui, à direita. Vou verificar.

E foi então que viu, através do buraco que fora outrora uma sala

de espera, a porta de aço espesso, à prova de fogo, sobre a qual tanto

lera, a que levava aos aposentos pessoais de Hitler no bunker.

A maçaneta da porta estava ali, muito enferrujada, e Foster

torceu para que ainda funcionasse, e pudesse abrir a porta.

Com a ajuda da lanterna, ele achou a maçaneta. Estava fria.

Segurou-a firmemente, virou-a. Com um rangido de protesto, a tranca

cedeu. Foster encostou-se na porta, a fim de empurrá-la com seu peso.

Mas a pressão não foi necessária. Rangendo, a porta se abriu

lentamente.

Por alguns segundos Foster permaneceu imóvel, como se fosse

incapaz de deixar o presente e ingressar no passado. Então, ele avançou

para a história. Enquanto movimentava a lanterna, o poço negro

adquiriu vida sob a claridade intensa, que aumentou ainda mais alguns

segundos depois, reforçada pela lanterna de Oberstadt, ao seu lado.

A imagem há tanto tempo em sua mente encarregara-se de

decorar a sala de estar de três por cinco metros, preparando-o para o

que esperava encontrar. Haveria uma mesa num lado, com uma

fotografia emoldurada da mãe de Hitler. Sobre o carpete haveria três

cadeiras antigas e bem em frente uma mesinha redonda e o sofá azul

manchado de sangue, em que haviam morrido Der Führer e sua mulher,

Eva Braun.

Mas a imagem foi dissipada pela realidade, e Foster

compreendeu que quarenta anos haviam transcorrido, que estava no

presente. Embora o Führerbunker tivesse sido isolado pelos russos, a

fim de manter afastados os soldados do Exército Vermelho e o público

curioso, alguns caçadores de souvenirs, entre o pessoal médico e os

guardas soviéticos, haviam descido até ali durante os dois ou três dias

iniciais. Procuravam por recordações ou utensílios para suas casas

devastadas na Rússia.

Foster olhou ao redor, examinando as áreas iluminadas pelas

lanternas. O carpete fora arrancado e levado. Duas das três cadeiras

estavam faltando, a terceira se encontrava toda quebrada, parecendo

uma pilha de lenha. A mesinha redonda sumira. Tudo o que restava do

passado eram a mesa de Hitler, encostada numa parede, e o sofá

imundo e mofado, em outra.

Mas Foster procurava por outra coisa.

— Projete a luz de sua lanterna na escrivaninha — ordenou a

Oberstadt.

Foster adiantou-se e com uma das mãos afastou a escrivaninha

da parede. Espiou por trás, examinando a parede de concreto, depois

ficou de joelhos, tateando pela parede. Era lisa... suja, mas lisa.

Levantando-se, ele disse, enigmático:

— Aqui não. Vamos para o outro cômodo. Deve ser o quarto

particular de Hitler.

A porta de madeira do quarto estava emperrada. Foster sacudiu-

a algumas vezes, até que se abriu abruptamente, levantando uma

cortina de poeira. Foster tapou o nariz e a boca, esperando que a poeira

assentasse. Depois, entrou no quarto, seguido de perto por Oberstadt.

Era muito menor que a sala. Havia uma cama de solteiro,

estreita como um catre militar, totalmente despojada, restando apenas

a armação. Até mesmo o colchão fora levado. Foster calculou que

houvera outrora uma mesinha-de-cabeceira e um abajur ao lado.

Desaparecera. Todos os outros móveis, quaisquer que fossem, haviam

sido confiscados. Mas no outro lado do quarto estava uma cômoda de

quatro gavetas, muito grande para ser removida, ainda encostada na

parede.

Foster examinou as paredes e o teto do quarto. Eram de

concreto, e havia rachaduras por toda parte.

— Muito estranho — comentou ele. — Há rachaduras aqui, mas

não na sala. Contudo, o concreto é o mesmo.

Oberstadt projetava o facho de sua lanterna em uma parede,

estudando uma rachadura.

— Não entendo. Nada disso deveria ter rachado. — Pegou uma

chave de parafuso e começou a enfiá-la numa rachadura. — Não creio

que estas fissuras tenham acontecido naturalmente. Podem ser

artificiais.

Foster concordou com a cabeça, murmurando:

— Simuladas. Uma forma de camuflagem.

— Uma o quê? — indagou Oberstadt, perplexo.

— Para fazer com que todos ignorassem o fato verdadeiro. Já vai

ver. Ajude-me a afastar esta cômoda.

Os dois largaram as lanternas, pegaram os lados da cômoda e a

afastaram da parede.

— Vamos empurrá-la mais para o centro do quarto — disse

Foster. — Muito bem, agora pegue a sua lanterna e ilumine a parede

onde estava a cômoda.

Oberstadt obedeceu. Foster tornou a ficar de joelhos, estudando

atentamente o trecho da parede que estivera escondido pela cômoda.

Passou um indicador por quatro partes da parede.

— Justamente o que eu esperava. Passe-me a chave de

parafuso, Andrew.

Oberstadt entregou a chave de parafuso, e Foster cavoucou as

fendas que encontrara. Não demorou muito para que um contorno na

parede adquirisse forma. Parecia um painel retangular, com cerca de

l,20m de largura e um metro de altura. Foster levantou-se.

— Aqui está o que eu procurava.

— O que era isso?

— Sou arquiteto há muito tempo, Andrew. Não posso imaginar

que alguém construa um quarto desprovido de janelas como este sem

acrescentar uma saída de emergência para complementar a porta.

— Mas há uma saída de emergência. Acabamos de descer por

ela.

— Estou falando de uma saída particular. Não havia nenhuma

na planta do Führerbunker. Eu não podia acreditar. Calculei que uma

fora acrescentada depois. Pelo próprio Hitler. Uma saída secreta.

O rosto avermelhado de Oberstadt adquiriu uma expressão de

incredulidade.

— Isso é uma saída secreta?

— Acho que sim.

— Mas por quê? Para a eventualidade de um ataque com gás?

— Neste caso, para outra coisa. Um meio de escapar do bun-ker sem ser descoberto.

— Está querendo dizer que ele...

— Saberemos em breve. Está com a serra?

— Claro.

— Muito bem. — Foster apontou para as quatro linhas na

parede. — Vamos começar. Espero encontrar um bloco móvel. Vamos

ver se é isso mesmo.

— É pra já! — exclamou Oberstadt, no maior entusiasmo. Ele

largou a lanterna e o saco com ferramentas e pegou a serra.

Enquanto Oberstadt se aproximava da parede e ajoelhava,

levantando a serra, Foster disse:

— Espero que não faça muito barulho.

— Faz barulho, mas será rápido. Se for apenas um bloco, então

foi cortado para se ajustar na abertura e não terei de passar por

concreto sólido. O que você cavoucou parece argamassa. Deve ser fácil

como massa de vidraceiro, o barulho não deve passar de um zumbido.

— Oberstadt fez uma pausa. — De qualquer forma, que diferença faz?

Pensei que isto fosse uma saída de emergência.

— Ainda pode ser. Depende... para onde leva e o que tem no

outro lado.

— O que pode haver no outro lado?

— Não saberei até você terminar.

— Muito bem, lá vamos nós.

Oberstadt acionou a serra, que emitiu um zumbido baixo e

firme. Encostou a lâmina numa das linhas na parede e no mesmo

instante o barulho se tornou um ganido metálico.

Levantando sua lanterna ainda mais, a fim de que Oberstadt

pudesse ver melhor, Foster ficou surpreso com o rápido progresso da

serra. Passava pelas linhas como se fosse um pedaço de bolo. Oberstadt

só parou uma vez, comentando:

— Você está certo. E mesmo um bloco... uma tela de arame com

argamassa por dentro. Deve sair num instante.

Dez minutos depois ele desligou a serra e largou-a. Os dedos se enfiaram por um lado do bloco, sacudindo-o ligeiramente.

— Já estava solto — disse Oberstadt. — Só tinha uma leve

camada de argamassa. Pode me dar uma ajuda?

Cada um pegou um lado do bloco e começaram a puxar, tirando-

o gradativamente da parede.

— Não é muito pesado porque não é concreto maciço —

resmungou Oberstadt. — Não deve pesar mais que quarenta quilos.

Empurraram o bloco para um lado, encostando-o na parede

sólida do quarto. Foster ficou de joelhos, aproximou-se do buraco,

levantou a lanterna e deu uma olhada lá dentro. Em seguida recuou.

— Justamente o que eu esperava.

— E o que você esperava?

— Um túnel subterrâneo como o que Speer abriu entre a Velha

Chancelaria e a Nova. Só que este não foi aberto por Speer. Tenho

certeza de que foi construído pelos trabalhadores-escravos de Hitler.

— O que vamos fazer agora? — indagou Oberstadt. Foster

sorriu.

— Agora, vamos nos separar. Tenho de entrar por esse túnel

para ver se descubro alguém.

— É melhor você me deixar acompanhá-lo.

— Não, Andrew. Neste caso, dois constituem uma multidão.

Apenas uma pessoa pode fazer o que é necessário com mais discrição. O

que é indispensável.

Oberstadt ainda hesitava.

— Tem certeza de que quer ir sozinho?

— Acho que é melhor assim. — Foster estendeu a mão. —

Obrigado, meu amigo. É melhor você subir agora. Eu o chamarei, se

precisar de ajuda.

— Você é quem manda — murmurou Oberstadt, empertigando-

se.

— Ficarei com a lanterna. E... você pode me emprestar também

a talhadeira e o martelo.

— Talhadeira e martelo. Certo.

Oberstadt entregou as ferramentas, depois pegou o saco com as

outras ferramentas e a lanterna. Ao deixar o quarto de Hitler, ele só se

virou uma vez, dizendo:

— Boa sorte, aonde quer que você esteja indo.

Foster guardou as ferramentas nos bolsos da calça. Contemplou

o buraco retangular na parede. Não havia mais qualquer dúvida. Hitler

e Eva Braun haviam deixado o Führerbunker por ali, e o bloco reposto

no lugar por companheiros, que também encostaram a cômoda na

parede.

E depois Hitler escapara pela catacumba sob a cidade... para

onde? Foster desconfiava de que sabia para onde e também desconfiava

de que Emily podia estar lá agora, e certamente não sozinha.

Com extremo cuidado, segurando firmemente a lanterna e

estendendo-a à sua frente, Foster passou pelo buraco.

Saindo no túnel, ele levantou-se. Havia espaço suficiente. O

túnel erguia-se para um teto em arcada, uns dez centímetros acima de

sua cabeça. Havia escuridão além do facho da lanterna.

Consultou o mostrador luminoso do relógio. Depois, segurando a

lanterna à sua frente, começou a andar, devagar. Colocava um pé na

frente do outro, cauteloso, as botas de sola de borracha não fazendo

qualquer barulho.

Era um túnel comprido e limpo, sem teias de aranha, sem terra.

Apenas concreto por todos os lados, o facho de luz se projetando à

frente, a escuridão também.

E continuou a andar.

Tornou a consultar o relógio. Já estava no túnel há vinte e cinco

minutos. Percorrera pelo menos mil metros. Para onde?

E foi então que viu. O facho da lanterna incidira sobre um beco

sem saída. Uma parede sólida de concreto bloqueava a extremidade do

túnel. Devia ter também uma abertura, um ponto de saída. A menos

que tivesse sido solidamente cimentada.

Em silêncio, mas depressa, chegou à parede que bloqueava o

túnel. Começou a examiná-la meticulosamente, procurando por sinais de uma saída. Não demorou a encontrar o que procurava, bem no meio,

na parte de baixo.

Colocou a lanterna no chão, ajoelhou-se, estudou atentamente o

lugar, enfiou os dedos por cima do bloco quadrado, menor que o da

entrada do túnel, e experimentou alívio intenso ao constatar que estava

solto, não cimentado, apenas encaixado no lugar.

Pegou a talhadeira e, com o mínimo de barulho possível,

começou a desprender o bloco.

Conseguiu deslocá-lo facilmente, não era muito grosso, e quase

caiu em suas mãos ansiosas. Estava solto agora, e Foster colocou-o no

chão do túnel, ao seu lado. Havia um buraco quadrado, ao nível do

chão, pelo qual seu corpo poderia passar sem muita dificuldade.

Percebeu que havia alguma iluminação, um tanto escassa, no outro

lado do túnel. Apagou a lanterna e largou-a na beira do túnel.

Deitando-se, ele esgueirou-se pelo buraco. Ao sair no outro lado,

avistou uma divisória de madeira, poucos metros à frente, com uma

porta também de madeira. A porta era quase rente ao chão de concreto,

e uma réstia de luz passava por baixo.

Em silêncio, Foster levantou-se. O coração batia mais depressa,

a adrenalina fluindo no sangue.

Na ponta dos pés, sobre as solas de borracha, ele aproximou-se

da porta. Não havia fechadura. Virou a maçaneta e puxou a porta

alguns centímetros.

A primeira coisa que percebeu foi que se encontrava numa

espécie de mezanino, com uma escada descendo para...

E foi então que ficou boquiaberto. Estendendo-se à sua frente, lá

embaixo, parcamente iluminado para as horas noturnas, estava outro

Führerbunker, só que maior, mais que o dobro na largura, mais que o

dobro no comprimento. Uma sucessão de cubículos, provavelmente

escritórios, mas também aposentos.

E Foster compreendeu no mesmo instante o que descobrira.

O sétimo bunker secreto de Hitler.

Atônito, correu os olhos ao redor. O refúgio de Hitler por baixo da cidade de Berlim, escondido e povoado por quarenta anos. Uma

cidade invisível por baixo da cidade.

Enquanto seus olhos esquadrinhavam a vista incrível lá

embaixo, Foster percebeu que não se encontrava sozinho ali, por cima

do bunker secreto.

Não estava sozinho. Tinha companhia.