O Sétimo Segredo

Irving Wallace · Capítulo 3 de 10 · parte 1/3

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O Sétimo Segredo

Capítulo III

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Depois de se registrar na recepção do Bristol Hotel Kempinski,

Emily Ashcroft acompanhou o empregado até o elevador, subiu para o

terceiro andar e foi conduzida à suíte 229. Era uma suíte excelente,

com uma sala pequena mas confortável para o seu trabalho, um quarto

grande, com uma cama de casal, um banheiro todo azulejado. Havia

vasos de flores frescas na cômoda do quarto e na mesinha da sala. Em

cima do aparelho de televisão havia três garrafas — de scotch, vodca e

vinho rosado Tavel —, além de copos, guardanapos e um balde de gelo.

Na escrivaninha, ao lado de uma travessa de queijo e biscoitos, um

cartão: "Com os cumprimentos da gerência."

Um começo hospitaleiro.

Pegando o folheto verde em que estava impresso o número da

suíte, ela leu o título na primeira página: "Herzlich Wülkommen im

Bristol Hotel Kempinski Berlin." As outras páginas continham fotografias

e informações sobre os confortos e serviços oferecidos pelo hotel. Só

depois é que Emily percebeu que por baixo do folheto havia um recado

telefônico para ela.

Era de Peter Nitz, o repórter do Bertiner Morgenpost, que lhe

escrevera na semana passada para contar que testemunhara o acidente

sofrido por seu pai. Ela respondera, informando que iria a Berlim para

concluir a pesquisa que o pai iniciara e dizendo que esperava encontrá-

lo logo depois de sua chegada, não apenas para agradecer pessoalmente

por sua gentileza, mas também para obter uma análise do que podia

esperar na cidade. O recado, anotado na recepção naquela manhã,

avisava que Peter Nitz teria o maior prazer em procurá-la às duas horas

da tarde. Se não recebesse qualquer notícia dela até lá, iria direto para

a sua suíte.

Isso lhe dava tempo para arrumar suas coisas, tomar um banho, vestir roupas limpas. Depois que a bagagem foi trazida para o quarto,

Emily abriu a mala maior e pendurou as roupas no armário. Cuidou em

seguida das duas valises. Uma continha blusas, roupas de baixo,

sapatos e um pequeno estojo de toalete para viagem. A outra continha

livros e fichas que eram parte do material de referência para os

capítulos finais de Herr Hitler.

Pegando o estojo de toalete, Emily foi para o banheiro. Havia

espelhos por toda parte. Enquanto se despia, Emily contemplou o corpo

nu. Não era tão ruim assim para uma professora — apesar de Jeremy

Robinson, o desgraçado. Os cabelos castanho-avermelhados, olhos

verdes, o nariz arrebitado e sardento, com narinas delicadas, e os lábios

cheios podiam não ser considerados desgraciosos por algum homem

decente, algum dia. Os seios podiam ser pequenos para alguns gostos,

mas eram firmes. A barriga era lisa — os extenuantes exercícios diários

compensavam —, a cintura era fina e flexível, o triângulo castanho por

baixo do umbigo era atraente, os quadris aceitavelmente femininos, as

coxas cheias, mas ainda assim as pernas compridas e bem torneadas. O

problema é que sua atração nunca encontrara o homem certo. Depois

de se formar na universidade, apaixonada por um professor de

literatura quinze anos mais velho, ela fugira para casar. Fora uma

união malfadada. Ele era imaturo, arrogante, metido a conquistador e,

pior de tudo, um bêbado. O casamento durara apenas seis meses.

Depois disso, houvera várias ligações ligeiras, mas nenhuma com

qualquer profundidade ou compromisso real.

Gradativamente, ela encontrara a maior satisfação em ensinar e

escrever. Cinco anos antes, quando o pai a convidara para ajudá-lo na

preparação de Herr Hitler, pesquisando e escrevendo capítulos

alternados, ela se sentira emocionada. Mas às vezes, com mais

freqüência do que antes, ansiara pelo amor, companhia e calor de um

companheiro maravilhoso. O encontro na BBC com Jeremy lhe

proporcionara a esperança, mas agora compreendia que fora a sua

necessidade de um companheiro, e não os sentimentos por Jeremy, que

a impelira ao relacionamento. Às cegas, não se permitira ver que Jeremy era uma esperança indigna. Depois desse desastre, sua

concentração em Adolf Hitler e sua incrível corte de bufões nazistas a

satisfazia mais do que nunca.

Agora, com um último olhar para o seu corpo nu, Emily entrou

no banho morno, ponderando se conseguiria decifrar sozinha o enigma

do fim de Hitler. Peter Nitz era um bom começo. Como jornalista, ele

poderia fornecer algumas indicações. E havia também o Dr. Max Thiel,

que achava que Hitler sobrevivera à guerra, além do alemão oriental,

Professor Otto Blaubach, que poderia lhe obter permissão para escavar

no local do Führerbunker,

Depois de terminar o banho e enxugar-se com a felpuda toalha

do hotel, Emily pôs um sutiã cor da pele e um biquíni de náilon (não

gostava de calcinhas grandes), vestiu uma blusa branca simples, saia

azul pregueada e sapatos de saltos baixos. Sem meias. Acabava de se

maquilar quando ouviu a campainha, e notou que Peter Nitz era

pontual.

Era um homem baixo, atarracado, os cabelos pretos começando

a escassear, entradas grandes, olhos pequenos e brilhantes, bigode

irregular. Tinha um cigarro na mão e exibia um vestígio de sorriso, mas

Emily compreendeu que se tratava de um homem sério.

Nitz parou no meio da sala, fitando-a.

— Fico satisfeita que tenha vindo, Sr. Nitz. Já almoçou? Posso

chamar o serviço de quarto.

— Já almocei, obrigado. Mas pode pedir para você.

— Comi alguma coisa no avião. Dá para agüentar por mais

algum tempo. Não gostaria de beber algo?

— Bom...

— Há garrafas e gelo em cima da televisão.

Sem qualquer cerimônia, ele adiantou-se, despejou gelo num

copo, abriu a garrafa de scotch e, servindo-se de dois dedos, tomou um

gole. Estalando os lábios, alisou o bigode molhado e aproximou-se do

sofá em que Emily sentara. Acomodou-se do outro lado do sofá.

— Acima de tudo — começou Emily —, eu queria agradecer-lhe pessoalmente por sua gentileza em me enviar aquela carta.

— Senti-me na obrigação de fazê-lo. Espero que não a tenha

transtornado.

— Ao contrário.

— Estou me referindo ao testemunho sobre a morte de seu pai.

— Estou contente por ter sido tão franco. Eu queria mesmo

saber o que realmente aconteceu. — Emily hesitou por um momento. —

Insinuou que talvez não tenha sido um acidente.

Nitz deu de ombros.

— Pode ter sido. E pode não ter sido. Como saber? Tive a

impressão de que o atropelamento foi... deliberado. Mas não posso ter

certeza. Falou com a polícia de Berlim?

— Com um homem chamado Schmidt. O chefe de polícia. Ele

não tinha muito para dizer, exceto que estavam procurando o

caminhão. Mas nem ao menos sabia de que marca era o caminhão. Não

creio que a polícia seja capaz de fazer muita coisa.

— E não vai fazer.

Emily deixou transparecer seu espanto.

— Mas se o acidente foi deliberado, quem poderia querer fazer

isso e por quê? Meu pai conhecia algumas pessoas aqui. Mas, até onde

sei, não tinha inimigos.

Nitz sacudiu o gelo no copo e tomou outro gole.

— Não tinha inimigos... a menos que Adolf Hitler tenha de fato

sobrevivido, em vez de morrer, como todos acreditam.

— Alguém acha mesmo que ele sobreviveu?

Nitz tomou o resto do uísque e pôs o copo na mesinha.

— Desde a tarde de 30 de abril de 1945, quando Hitler

supostamente cometeu suicídio, disparando uma bala na cabeça, e sua

esposa Eva Braun teria se matado com cianureto de potássio, as

especulações jamais cessaram. O próprio Josef Stalin sempre achou

que Hitler escapara num submarino, provavelmente para o Japão. O

General Eisenhower disse aos repórteres que havia motivos para

acreditar que Hitler escapara ileso. O serviço secreto britânico declarou várias vezes que um sósia de Hitler fora incinerado no jardim da

Chancelaria. A identificação russa dos ossos queimados, crânio e

mandíbula, recuperados ao lado do Führerbunker, sempre foi

contraditória e incerta. Mas já sabe de tudo isso, Srta. Ashcroft.

— Sei de uma coisa — disse Emily. — Como Hitler não pôde ser

julgado em Nuremberg, houve um julgamento in absentia por um

tribunal de desnazificação de Munique, no outono de 1947, a fim de

definir a questão dos seus bens. Houve 42 testemunhas que

confirmaram a morte de Hitler. O Ministro da Justiça da Baviera

anunciou a conclusão em outubro de 1956. O tribunal declarou:

"Não pode haver mais qualquer dúvida de que Hitler acabou com

a própria vida em 30 de abril de 1945, no Führerbunker da Chancelaria

do Reich, em Berlim, disparando um tiro na têmpora direita."

— Correto.

Emily fitou o jornalista alemão nos olhos.

— Diante disso, Sr. Nitz, acha que é possível que Hitler tenha

sobrevivido? Acredita que ele escapou?

Sem qualquer hesitação, Nitz respondeu:

— Não, não acredito que ele tenha escapado. — Nitz fez uma

pausa. — Mas seu pai certamente aceitou essa possibilidade.

Pessoalmente, ouvi-o dizer isso, na entrevista coletiva, pouco antes de

sua morte. Deixe-me lembrá-la de que seu pai aludiu a alguma prova de

que não foram a mandíbula e os dentes de Hitler que os russos

encontraram. Ele achava que a informação podia ser confirmada ou

contestada quando escavasse a área do Führerbunker. Sabe o que seu

pai procurava?

— Lamento, mas não sei. Estávamos prestes a iniciar a

conclusão da biografia quando meu pai recebeu uma carta de alguém

de Berlim que fora muito ligado a Hitler. Essa pessoa declarou que era

falsa a versão aceita da morte de Hitler. Meu pai constatou que o

informante não era um lunático e por isso veio a Berlim para encontrá-

lo. Telefonou-me para Oxford na noite anterior à sua morte. Estava

exultante. O informante o aconselhara a escavar à procura de alguma coisa no jardim da Chancelaria e meu pai comentou que já obtivera

permissão para isso. Tencionava iniciar as escavações no dia seguinte à

entrevista coletiva.

— Tenho certeza que sabe quem era o informante... quem é.

— Sei sim. Mas prefiro não mencionar qualquer nome enquanto

não tiver permissão para isso.

— Sabe o que ele aconselhou seu pai a procurar na escavação?

— Não. Meu pai não quis me dizer pelo telefone. Mas espero

agora descobrir pessoalmente. — Emily sustentou o olhar de Nitz. —

Mas você acha que tudo isso é inútil. Está convencido de que não existe

a menor possibilidade de Hitler ter sobrevivido.

Nitz tirou um maço de cigarros do bolso do paletó, pegou um,

acendeu-o com um isqueiro.

— Não quero desencorajá-la, Srta. Ashcroft. O mais sensato é

que verifique tudo pessoalmente. Ao mesmo tempo, como um jornalista

que já viu e ouviu muitos absurdos, sou um cético... e permaneço um

cético nessa questão. Acho que Hitler e sua mulher morreram mesmo,

como nos conta a história. Antes de se encontrar com seu homem

discordante e talvez ir até o fim da investigação, talvez seja melhor

conversar com uma testemunha que estava no Führer-bunker quando

Hitler se matou. Ainda há algumas testemunhas vivas, espalhadas pela

Alemanha, pessoas já idosas agora, mas a maioria com uma lembrança

nítida dos acontecimentos de 30 de abril de 1945. E uma delas vive bem

perto daqui. Emily inclinou-se para a frente.

— Quem?

— Ernst E. Vogel. Era um guarda da SS no Führerbunker

quando os corpos de Hitler e Eva Braun foram levados para o jardim e

cremados. Entrevistei-o para uma reportagem especial há cerca de dois

anos. Ele foi muito convincente ao relatar os fatos de que se lembrava.

— Esse Herr Vogel ainda está vivo?

— Acho que sim. Parecia bastante saudável quando o

entrevistei. Você pode começar por procurá-lo, antes de seguir adiante.

Terá então condições para julgar. Tenho o telefone e o endereço de Vogel no jornal. Ligarei para você assim que chegar lá.

— Eu ficaria muito agradecida, Sr. Nitz.

— Depois de conversar com Vogel, poderá procurar seu

informante e avaliar as opiniões contrárias.

Emily ficou em silêncio por um instante, observando Nitz fumar

um cigarro. Depois, tossiu, embaraçada.

— Tenho uma confissão a fazer, Sr. Nitz. Quero ser sincera. Não

tenho um encontro marcado com o informante alemão que meu pai

encontrou, o que era muito ligado a Hitler. Até agora ele tem se

recusado a me receber.

As orelhas de Nitz pareceram aguçar-se.

— Ele não quer recebê-la? Mas por que não? Afinal, conversou

com seu pai.

— Escrevi para ele depois da morte de meu pai, informando que

viria a Berlim para continuar a pesquisa e solicitando que me recebesse

e fornecesse a mesma cooperação e informação que dera a meu pai. Ele

me respondeu com uma frase: não poderia receber-me ou a qualquer

outra pessoa para tratar do assunto. — Emily fez uma pausa. — Por

que será que ele mudou de idéia? Nitz pensou por um instante.

— Talvez tenha ficado apavorado com a morte suspeita de seu

pai e achado melhor se calar. Talvez esteja preocupado com os

neonazistas fanáticos... isso mesmo, ainda existem alguns... —

Percebendo a curiosidade no rosto de Emily, Nitz resolveu desenvolver o

tema. — Srta. Ashcroft, está a par da Unternehmen Werwolf, criada nos

últimos dias da guerra?

Emily acenou com a cabeça.

— Missão Lobisomem, grupo de guerrilheiros formados por

Himmler, integrados por soldados alemães e treinados pela Waffen SS,

depois do Dia D. Vestiam-se à paisana e deviam se infiltrar nas linhas

Aliadas para assassinar quaisquer alemães importantes que

colaborassem com o inimigo. Acha que ainda existem alguns?

— Não é improvável. Eram fanáticos disfarçados, determinados

a proteger a imagem de Hitler... e sua vida. Seu informante pode estar preocupado com esses neonazistas, pode temer que o encontrem e

também o matem. Desconfio que está simplesmente com medo de

recebê-la.

— Pois vou persuadi-lo a se encontrar comigo — declarou

Emily, resoluta. — Usarei todos os recursos ao meu alcance para

conseguir isso.

Nitz apagou o cigarro e levantou-se.

— Eu lhe desejo boa sorte. E não se esqueça de que posso ser

útil se descobrir alguma coisa.

Emily também se levantou.

— Não esquecerei. Eu lhe devo muito. Não apenas por sua

gentileza, mas também pela sugestão sobre Vogel.

— Não deixe que Vogel a desestimule com sua história. Depois

de escutá-lo, tente conversar com seu indeciso informante com

empenho ainda maior. Use o testemunho de Vogel para arrancar toda a

verdade do outro homem. Essa tática muitas vezes dá certo. E se tiver

sorte, efetue as escavações no hunker.

À porta, com a mão na maçaneta, Nitz hesitou por um instante,

avaliando-a, depois acrescentou:

— Por favor, aceite um conselho meu. Se vai mesmo seguir em

frente, se decidir realizar as escavações, não anuncie publicamente,

como seu pai fez. Não corra qualquer risco. Os atropelamentos em que o

motorista foge não são tão raros assim em Berlim. Descubra a

verdade... mas também trate de permanecer viva.

Emily esperou impacientemente na suíte que o telefone tocasse.

Cerca de 45 minutos depois, Peter Nitz cumpriu a palavra, ligando da

redação do Berliner Morgenpost. Deu o telefone e o endereço de Vogel.

Emily começou a agradecer, mas o repórter interrompeu-a:

— Antes de falar com Vogel, acho que deve saber alguma coisa a

respeito do homem. Peguei as anotações da minha entrevista há dois

anos para refrescar a memória. Ernst Vogel tinha 24 anos no dia em

que alega ter visto Hitler morrer. Isso quer dizer que tem agora 64 anos.

Vogel era sargento da SS e integrava a guarda de honra, em turnos de doze horas. Tinha muito orgulho da faixa preta na manga com o nome

"Adolf Hitler" bordado em prateado. Em serviço, ficava armado com uma

metralhadora e granada de mão. Ficou de sentinela na entrada do

Führerbunker durante os últimos dez dias em que Hitler esteve lá, os

dez dias entre o 56? aniversário de Hitler e seu anunciado suicídio.

Vogel devia merecer muita confiança, porque desceu para o bunker em

vários momentos cruciais, perto do fim. No último dia foi um dos que

testemunharam a cremação de Hitler e Eva Braun. Ele lhe contará toda

a história. Gosta de falar e tem boa memória. Aqueles dez dias foram o

ponto alto de sua vida. Se ainda estiver vivo, deverá encontrá-lo em

casa. Ele costumava trabalhar no próprio apartamento.

— Fazendo o quê?

— Tem um serviço de venda por reembolso posta!. Livros raros.

Alemães, é claro. E mais uma coisa: terá de falar alto quando conversar

com ele. O homem tem um problema de audição. Nos dois ouvidos. De

lesões sofridas quando estava no Führerbunker, devido ao constante

bombardeio russo na área da Chancelaria. De qualquer modo, tente. Se

ele estiver vivo, tenho certeza de que a receberá. Pode mencionar meu

nome.

— Não sei como agradecer, Sr. Nitz.

— Não se preocupe com isso. Converse com Vogel para saber de

todos os detalhes da versão oficial.

Emily desligou e telefonou em seguida para Ernst Vogel. A

campainha tocou umas poucas vezes e uma voz de homem atendeu.

Pensando no problema de audição, Emily alteou a voz. Seria Ernst

Vogel ? Era. Emily apresentou-se e explicou que Peter Nitz, um repórter

do Berliner Morgenpost que o entrevistara há dois anos sobre a morte de

Hitler, indicara-o como uma testemunha de confiança dos

acontecimentos. Acrescentou apressadamente que viera a Berlim para

concluir as pesquisas para uma biografia definitiva de Adolf Hitler. E

apresentou a Vogel as suas credenciais acadêmicas.

— Um livro? — gritou Vogel. — Está escrevendo um livro sobre

a morte de Hitler?

— Sobre toda a sua vida, inclusive a morte. E quero que o relato

seja acurado. Espero que possa me ajudar.

Houve uma pausa.

— Posso sim. Procurou a pessoa certa. — Outra pausa. — Creio

que devo isso à posteridade. Muito bem, eu a receberei. Tem meu

endereço?

Emily leu-o em voz alta.

— Exato. Esteja aqui às quatro horas.

Depois disso, com algum tempo de sobra, Emily pensou em ligar

também para o Dr. Max Thiel, o dentista cujas dúvidas sobre a morte de

Hitler haviam trazido seu pai e agora ela mesma a Berlim. Ansiosa por

fazê-lo, ela hesitou, recordando o conselho de Nitz para usar o

depoimento de Vogel como um meio de forçar o contato com o Dr. Thiel.

Em vez disso, porém, pegou a valise com o material de

referência, tirou as fichas de pesquisa e separou-as. Reviu as listas dos

alemães que haviam conhecido Hitler ou estavam no Führerbunker

durante os dias finais, pessoas que o pai já entrevistara em suas várias

visitas a Berlim. Ernst Vogel não constava da relação. Curioso, pensou

Emily. Mas ela corrigiria em breve a omissão.

Pegou um táxi para uma viagem de oito minutos a um prédio de

apartamentos de cinco andares, na Dahlmannstrasse, cerca de um

quarteirão e meio ao norte da Ku'damm. A caixa de correspondência no

pequeno saguão revelou que o apartamento de Ernst Vogel era no

segundo andar. Emily subiu a escada, entre corrimãos de mogno

escalavrados e paredes de um verde horrível, precisando de uma nova

camada de tinta.

Para sua surpresa, o homem que a recebeu era pequeno, cabelos

grisalhos escassos, com um aparelho de audição num dos ouvidos, um

rosto emaciado, parecido com o de Goebbels. Ela imaginara que todos

os guardas da SS no Führerbunker eram gigantes.

Sentando ao lado de Ernst Vogel numa velha poltrona, enquanto

ele se instalava numa cadeira de balanço, Emily decidiu descobrir por

que o pai não entrevistara aquele homem.

— Outro livro sobre Hitler, hein? — disse Vogel. — Já saíram

muitos. Tornou-se uma indústria.

— Tem razão — respondeu Emily calmamente. — Mas a maioria

foi escrita nas décadas de 40 e 50, ainda no início, quando alguns dos

membros do círculo íntimo de Hitler não estavam disponíveis para

serem entrevistados. Deve estar lembrado que muitos foram levados

para a União Soviética, a fim de serem interrogados e depois detidos. Os

soviéticos não permitiam que estrangeiros lhes falassem. Só foi possível

conversar com eles depois que foram libertados, gradativamente,

recebendo permissão para retornar à Alemanha. E meu pai achou que o

momento era oportuno para uma biografia de Hitler mais completa e

atualizada.

— Acho que tem razão.

Emily pôs a valise no colo e tirou uma de suas listas.

— Estas são as pessoas que meu pai entrevistou. — Entregou a

relação a Vogel. — Não encontrei seu nome.

Vogel correu os olhos pela lista. Devolvendo-a, perguntou:

— Quando foi que seu pai entrevistou essas pessoas?

— Ele começou há dez anos. E nós dois começamos a escrever a

biografia há cinco anos. Mas meu pai morreu recentemente e por isso

estou concluindo a obra sozinha.

Vogel inclinava-se para a frente, a fim de escutá-la melhor.

— Há dez anos, há cinco anos eu não recebia entrevistadores.

Provavelmente ele me escreveu e não respondi. Naquele tempo eu

pensava em escrever pessoalmente um relato da minha experiência. E

por isso não queria contar a minha história a ninguém. Mas acabei

descobrindo, apesar de todas as minhas anotações, que não sou um

escritor, mas apenas um leitor e um vendedor de livros. Contudo,

queria que a história fosse contada e comecei a procurar

entrevistadores. O jovem do Morgenpost...

Fez uma pausa, tentando recordar o nome.

— Peter Nitz.

— isso mesmo, Nitz. Ele foi um dos primeiros que recebi, há poucos anos. Quer dizer que está escrevendo um livro sobre Hitler?

Nunca dei uma entrevista para um livro. Imagino que será editado

também em alemão. Vai me mandar alguns exemplares?

Ele acenou para trás, na direção da sala de jantar. As paredes

estavam cobertas por prateleiras com livros, havia caixotes fechados

pelo chão.

— Alguns são livros populares, publicados recentemente. Mas

meu negócio principal é a venda de livros antigos e raros pelo reembolso

postal. Herdei a firma de meus pais. Eles morreram num bombardeio

aéreo de Berlim pelos americanos, quando eu estava no exército. Os

livros são a minha vida, mas também tenho um hobby. A caça. Sou um

exímio atirador. Sempre atirei muito bem desde pequeno. Foi por isso

que me dei muito bem na SS.

E foi por isso que se tornou um guarda da SS no Führerbunker,

pensou Emily. Queriam não apenas gigantes, mas também exímios

atiradores.

— Podemos falar sobre Hitler? — indagou ela.

— Tenho de dizer uma coisa a respeito de Hitler. À sua maneira,

ele foi um grande homem, não resta a menor dúvida. Eu só tinha duas

coisas contra ele. Não concordava com o seu anti-semitismo. Alguns dos

melhores clientes dos meus pais eram judeus. Sempre foram pessoas

decentes e honestas. A outra coisa que eu tinha contra Hitler foi a sua

tentativa de conquistar a Rússia. Foi o começo da queda. Mas antes

disso ele foi um grande homem. Quer dizer que deseja saber mais

coisas sobre a sua morte?

— Sobre os últimos dois dias de sua vida. Tenho bastante

material sobre o que aconteceu no bunker. Mas o material a respeito da

morte de Hitler é muito contraditório.

— Cada um vê o que quer — declarou Vogel. — Só posso lhe

contar o que vi e ouvi.

— É exatamente o que me interessa.

Vogel balançou levemente na cadeira, enquanto ajustava o

aparelho de audição.

— Desculpe, mas o que foi mesmo que você disse?

— Eu disse que tudo o que está disposto a me contar é

exatamente o que quero saber.

Emily falou devagar, incisivamente. Depois, tornou a guardar a

lista e pegou uma caneta e um bloco de papel amarelo. Vogel estava

mexendo outra vez no aparelho de audição.

— Este problema... aconteceu no último dia... o bombardeio

soviético da área da Chancelaria foi terrível... fui derrubado por uma

explosão... a concussão... acho que havia ali perto um caminhão que

disparava os foguetes Katyusha. Fiquei com uma zoeira nos ouvidos

meses depois, até que pude consultar um médico.

Satisfeito com o ajuste do aparelho de audição, virou o rosto

para fitar Emily.

— Hitler compreendeu que era o fim cinco dias antes de

acontecer. Sabíamos que os russos haviam cercado Berlim e

começavam a penetrar em seus perímetros. Foi quando ele disse a

Linge... Heinz Linge, o coronel da SS que era seu acompanhante e chefe

da guarda pessoal... que não tencionava ser capturado vivo. "Eu me

matarei com um tiro. Quando isso acontecer, leve meu corpo para o

jardim da Chancelaria. Depois da minha morte, ninguém deve me ver e

reconhecer. E assim que eu for cremado, vá a meus aposentos

particulares no bunker, recolha todos os meus papéis e queime-os

também." Hitler reiterou essa decisão para Otto Günsche, seu ajudante-

de-ordens da SS e motorista. "Quero que meu corpo seja queimado",

disse ele. "Depois de morto, não quero ser exposto num jardim zoológico

russo."

Emily estava tomando notas. Vogel esperou. Ela levantou os

olhos.

— Foram essas as palavras de Hitler?

— Foi o que me contaram. Você diz que conhece a maior parte

dos acontecimentos no bunker. E está mais interessada nos detalhes do

último dia.

— Dos dois últimos dias.

— Muito bem. Vamos começar pela noite de 28 de abril de

1945. Hitler anunciou que ia se casar com Eva Braun. Para legitimar a

ligação antiga e recompensar a sua lealdade, depois que ela jurou que

morreria no bunker junto com ele. Josef Goebbels providenciou um juiz

de paz, o mesmo que celebrara o seu casamento com Magda. O juiz foi

designado de um destacamento do Volkssturm que lutava na

Friedrichstrasse. A certidão de casamento foi preparada e assinada por

duas testemunhas, Goebbels e Martin Bormann. A cerimônia de

casamento foi realizada depois de meia-noite.

Já na madrugada de 29 de abril. Havia oito convidados. Todos

comemoraram com um pequeno banquete. Eva ficou um pouco

embriagada com o champanhe. Hitler também bebeu e tentou aderir ao

clima de alegria. Mas ouviram-no murmurar em determinado momento:

"Está tudo acabado. A morte será um alívio para mim. Fui traído e

enganado por todos." Ele se referia a Gõring e Himmler, que... sem

autorização... tentaram promover a paz e salvar suas vidas. Referia-se

também a alguns generais, que lhe mentiram.

Vogel observou Emily escrever suas anotações.

E depois recomeçou. Pela fluência do relato, Emily compreendeu

que ele já contara a história muitas vezes e quase a conhecia de cor e

salteado.

— Não havia dia ou noite dentro do bunker — disse Vogel. —

Hitler geralmente trabalhava à noite e dormia durante toda a manhã.

Antes do casamento ele procurou sua secretária predileta, Traudl

Junge, e ditou-lhe dois testamentos... um curto, em que explicava por

que estava casando com Eva Braun, outro maior, um testamento

político, repetindo aquelas mesmas bobagens sobre a maneira como a

guerra lhe fora imposta pelo judaísmo internacional. Esperou até Frau

Junge datilografar o testamento pessoal de três páginas e depois o

político de dez páginas, assinou-os, pegou as assinaturas das

testemunhas. Só então é que se preparou para dormir. Mas já sabe de

tudo isso, não é mesmo, Fraulein Ashcroft?

— A maior parte. O que aconteceu em seguida é o mais importante para mim. Espero que não omita coisa alguma, Herr Vogel.

Vogel continuava a se balançar na cadeira.

— Aquela manhã e entre quatro e meia e cinco e meia da

madrugada de 30 de abril foram as únicas ocasiões em que Hitler e Eva

dormiram juntos como marido e mulher. Eles foram acordados às onze

horas da manhã de 29 de abril. Por volta de meio-dia Hitler realizou a

sua última conferência de guerra, por uma questão de hábito, uma

reunião inútil. Em seguida despachou mensageiros para tirarem seus

testamentos de Berlim. E começou a se aprontar para a morte.

— Conte-me como foi.

— Ele estava preocupado com a eficácia das cápsulas de

cianureto de potássio que Himmler lhe dera há algum tempo.

Perguntava-se se as cápsulas ainda tinham potência e se

Himmler lhe dera as certas. Queria ter certeza absoluta.

— E foi então que Hitler experimentou uma cápsula de veneno

em seu cachorro.

— Ahn, já sabe disso.

Emily não pôde definir se ele estava satisfeito por seu

conhecimento ou irritado por ela se ter antecipado. Resolveu não mais

revelar seu conhecimento, deixando-o contar toda a história com suas

próprias palavras.

— Isso mesmo, com o cachorro — continuou Vogel. —- Hitler

convocou um dos seus quatro médicos no bunker, o Dr. Werner Haase.

Com relutância considerável, Hitler disse que queria saber se as

cápsulas ainda mereciam confiança e queria experimentar uma com seu

alsaciano predileto, Blondi. O Dr. Haase forçou uma cápsula pela boca

do cachorro. E comunicou a Hitler: "A morte foi quase instantânea."

Hitler também se separou nesse dia do objeto que mais prezava. Era um

retrato oval de Frederico o Grande, pendurado acima de sua

escrivaninha no bunker. Hitler sempre idolatrara Frederico, porque em

1762, quase ao final da Guerra dos Sete Anos e quando estava prestes a

ser derrotado por russos, saxões e austríacos, Frederico conseguira

sobreviver milagrosamente, quando a aliança desmoronara pela morte da czarina. Hitler entregou o retrato de Frederico a seu piloto favorito,

Hans Bauer. Pediu-lhe que o guardasse ou desse a um museu. Mais

tarde, ao tentar escapar, Bauer tirou o quadro da moldura e escondeu-o

por baixo da camisa. Mas os russos apanharam-no e levaram-no para a

prisão... e presumivelmente ficaram com o retrato.

Vogel passou a recordar os eventos importantes que ocorreram

em seguida.

— Por volta das nove horas daquela noite... domingo, dia 29.

Hitler recebeu a notícia, transmitida pela rádio de Estocolmo, de que

Mussolini fora capturado por guerrilheiros no norte da Itália e

executado, juntamente com sua amante, Clara Petacci. É improvável

que Hitler tenha tomado conhecimento da horrível seqüência

de fatos. Seja como for, ele não pareceu muito interessado. À meia-noite

soube que Berlim não poderia ser defendida por mais tempo e que os

soldados russos alcançariam a Chancelaria durante o dia que estava

para começar. Às duas e meia da madrugada Hitler quis se despedir de

sua equipe imediata. Vinte pessoas entraram em fila no corredor do

bunker, e Hitler, acompanhado por Bormann, foi apertar a mão de cada

uma. Quase ao romper do dia Hitler foi dormir, com Eva.

— Quando disse que ele acordou?

— Às cinco e meia da manhã de 30 de abril. Seu último dia. Foi

informado de que os russos se aproximavam pelo Tiergarten, haviam

alcançado a Potsdamer Platz, e de que uma unidade soviética se

encontrava a menos de um quarteirão da Chancelaria e do bunker

propriamente dito.

— Ele estava apavorado?

— Bastante calmo — declarou Vogel. — Talvez catatônico. Sabia

que o fim chegara. Ordenou que Günsche reunisse 200 litros de

gasolina ou combustível...

— Tanto faz — disse Emily, escrevendo.

— Günsche telefonou para Kempka, o motorista que estava no

comando dos suprimentos de transporte, e pediu 200 litros. Kempka

não podia conceber por que havia necessidade de tanto. Respondeu que não havia tal quantidade disponível e que seria arriscado procurar por

mais. Günsche declarou que providenciasse o que fosse possível e

levasse os latões cheios para a saída do Führerbunker, no jardim.

Kempka deu um jeito de obter 180 litros e recrutou três corpulentos

guardas da SS para ajudá-lo a levar os latões para o jardim. Enquanto

isso acontecia, Hitler decidiu, por volta das duas e meia da tarde,

calmamente, ter o seu último almoço. Convidou suas duas secretárias

prediletas, Frau Trudl Junge e Frau Gerda Christian, assim como a sua

tímida cozinheira vegetariana, Fraulein Konstanze Manzialy, a

acompanharem-no. Eva Braun Hitler não participou do almoço.

Comeram espaguete ao molho e uma salada mista. Enquanto isso, a

artilharia russa continuava a bombardear incessantemente a área. Uma

bomba explodiu perto da entrada do bunker, onde eu estava de guarda,

e o impacto me derrubou. Fiquei apavorado. Desci rastejando os

degraus para o corredor, a fim de me proteger. E foi assim que vi, com

meus próprios olhos, a segunda e última despedida de Hitler, ao fina!

do corredor. Ele acabara de sair de seus aposentos particulares, com

Eva atrás. Usava o seu quepe de pala habitual, uma túnica cinzenta

com a Cruz de Ferro, calça e sapatos pretos. Frau Hitler usava um

vestido azul de bolinhas e sapatos italianos de salto alto. Desta vez

havia doze homens e cinco mulheres no corredor. Hitler apertou as

mãos de todos debilmente. Eva abraçou as mulheres e permitiu que os

homens lhe beijassem a mão. Depois, Hitler e Eva voltaram a seus

aposentos, enquanto os outros se dispersavam. A esta altura, Magda

Goebbels saiu de seus aposentos e tentou falar com Hitler. Günsche

bloqueou-lhe a passagem. Magda gritou mais ou menos o seguinte:

"Tenho de falar com ele! Ele não pode se suicidar! Ainda há tempo para

escapar até Berchtesgaden!" Magda foi tão insistente que Günsche

abriu a porta de Hitler e enfiou a cabeça para dentro. Viu Hitler de pé

junto a uma mesa. Eva estava no banheiro. Günsche repetiu a

mensagem de Magda. Hitler murmurou: "É tarde demais... tarde demais

para qualquer coisa." Linge se juntara a Günsche, e Hitler lhe disse:

"Linge, velho amigo, quero que se junte ao grupo de fuga e saia daqui." Linge perguntou: "Por que, meu Führer?" Hitler respondeu: "Para servir

ao homem que virá depois de mim." Uma pausa e ele acrescentou:

"Feche a porta. Espere na ante-sala. Depois de dez minutos, abra a

porta e entre." E foi então que Hitler e Eva se mataram.

Emily interrompeu o relato:

— Mas ninguém viu? Vogel mostrou-se irritado:

— Como alguém poderia? As últimas instruções de Hitler foram

para que o deixassem só.

— Como souberam que ele e Eva haviam se matado?

— Porque depois de dez minutos abriram a porta e encontraram

os dois mortos no sofá de veludo azul e branco.

— Ouviram o tiro?

— Não ouviram nada. A porta dupla de aço que dava para os

aposentos particulares de Hitler não era apenas à prova de fogo e de

gás, mas também à prova de som.

— Alguns historiadores escreveram que foi ouvido um tiro.

Vogel sacudiu a cabeça vigorosamente.

— Não, não. Foi um erro. Depois, quando Kempka entrou

correndo no bunker a fim de saber o que estava acontecendo, Günsche

comunicou-lhe que Hitler estava morto. Günsche usou um gesto

familiar, apontando um dedo para a boca, como se fosse uma pistola,

embora soubesse que Hitler se matara com um tiro na têmpora.

Mais tarde, quando Kempka foi interrogado por agentes dos

serviços secretos americano e britânico, perguntaram-lhe se ouvira o

estampido do tiro do suicídio. Kempka sabia qual era a resposta que

eles queriam e por isso respondeu que todos tinham ouvido o tiro. Mas

na verdade ninguém o ouviu.

— Depois de dez minutos, quando os assessores de Hitler

entraram nos aposentos, você se encontrava junto?

— Não — respondeu Vogel, em tom pesaroso. — Recebi ordens

para voltar ao meu posto lá fora, na entrada do bunker. Mas vi outras

coisas depois e lhe contarei a respeito. De qualquer maneira, soube o

que aconteceu quando os outros entraram na sala de estar de Hitler. Linge foi o primeiro e sentiu-se nauseado pelo intenso cheiro de

amêndoa e cordite. Foi seguido por Bormann, Günsche, Goebbels e

Artur Axmann, líder da Juventude Hitlerista, que acabara de chegar.

— E todos viram Hitler morto? — perguntou Emily.

— Viram os dois mortos. Hitler estava caído no lado esquerdo

do sofá. Mordera uma cápsula de cianureto e também, com a mão

direita, encostara o cano da pistola preta Walther 7.65 na têmpora

direita, na altura da sobrancelha, puxando o gatilho. O tiro abrira um

buraco na têmpora e o sangue escorria do ferimento. A pistola

escorregara de sua mão para o tapete.

— E Eva Braun Hitler?

— Estava a meio metro de Hitler. Tirara os sapatos e ajeitara as

pernas por baixo do corpo. Mordera a cápsula de cianureto e caíra

contra Hitler, as pernas derrubando um vaso branco de Dresden com

tulipas sobre a mesinha. Aparentemente, também cogitara de usar uma

pistola, uma Walther menor, mas Linge encontrou a arma na mesinha,

intacta, todas as câmaras ainda carregadas. O Dr. Ludwig Stumpfegger,

um cirurgião ortopédico, foi chamado. Examinou os dois e declarou-os

mortos.

— Declarou-os mortos — repetiu Emily. — E como foi a

cremação?

— Testemunhei essa parte pessoalmente. Uma coisa horrível. —

Vogel ficou em silêncio por um momento, imerso em seus pensamentos,

depois continuou: — Junto com vários outros guardas, fui um dos

Zaungasíe... o que se poderia traduzir por abelhudos. Fui informado de

que o assessor imediato Linge cobriu a parte superior do corpo de

Hitler com um cobertor militar marrom, escondendo o rosto

ensangüentado. Linge carregou o corpo de Hitler da sala particular,

passando pela ante-sala e atravessando o corredor até a base da escada

da saída de emergência, que dava para o jardim. Mas Hitler pesava

cerca de 80 quilos e era muito pesado para Linge sozinho. Ele entregou

o corpo a três homens da SS, que o levaram com a cabeça virada para a

frente pelos quatro lances de escada. Bormann subiu em seguida, carregando Eva, parcialmente coberta por um lençol, mas o rosto

claramente visível. Kempka me disse que Bormann a carregou como a

um "saco de batatas". Kempka sabia o quanto Eva detestara Bormann

em vida, por isso tirou seu corpo das mãos de Bormann e entregou-o a

Günsche, que o carregou escada acima, com a ajuda de outros dois

homens da SS. Entre as explosões das granadas russas, pude ouvir ou

sentir que alguma coisa estava acontecendo junto ao Führerbunker.

Deixei meu posto e dei uma volta para ver o que estava ocorrendo.

— Viu quando enterraram os dois?

— Testemunhei tudo — garantiu Vogel. — Os três homens da

SS saíram do bunker com o corpo de Hitler.

— Pôde ver o rosto dele?

— Ainda estava coberto. Mas vi claramente a calça preta

familiar e os sapatos de solas grossas aparecendo por baixo do cobertor.

Havia uma cova rasa a cerca de dez metros da saída. O corpo de Hitler

foi posto ali. E depois trouxeram Eva Braun. Pude ver seu rosto. Parecia

muito sereno. E vi também os pés saindo do lençol, com os sapatos

Ferragamo. Puseram seu corpo na cova, ao lado do de Hitler. Nove

pessoas saíram do bunker para assistir tudo, naquela tarde de muito

vento. Reconheci Linge, Goebbels e Bormann, além do Dr. Stumpfegger.

Vogel estremeceu à recordação daqueles momentos, antes de

continuar:

— Dois homens da SS se adiantaram com os latões e

começaram a derramar gasolina sobre os corpos... eu diria que foram

uns 50 galões. Linge tentou acender alguma coisa para atear fogo aos

corpos, mas uma sucessão de explosões de granadas russas levou-os a

voltarem pela saída de emergência do bunker, Linge conseguiu

finalmente acender uma tocha improvisada, um jornal enrolado ou um

pano, adiantou-se e jogou nos corpos encharcados de gasolina.

No mesmo instante elevou-se uma chama azulada e muita

fumaça. As nove testemunhas ergueram os braços na velha saudação

nazista. As chamas se tornaram ainda mais altas. As testemunhas

voltaram para o bunker, e eu retornei a meu posto.

— A cremação acabara?

— Não inteiramente. Não era fácil queimar dois corpos numa

cova rasa. Deram ordens para que se continuasse a despejar gasolina

sobre os corpos. Por três ou quatro horas guardas da SS voltaram à

cova para derramar mais e mais latões de gasolina sobre os cadáveres.

Pouco antes do anoitecer, quando ainda havia claridade, resolvi dar

outra olhada.

— E viu os restos mortais de Hitler e Eva Braun. Vogel balançou

a cabeça.

— Não havia ninguém à vista, e por isso me aproximei da cova.

As chamas estavam baixas. Tive a impressão de divisar os contornos do

rosto de Hitler. O calor era terrível. Os dois corpos fumegavam, a carne

se desmanchando. A parte inferior do corpo de Hitler já queimara por

completo. Só pude ver suas tíbias. Não dava para reconhecer o corpo de

Eva Braun, apenas que era o corpo queimado de uma mulher. Virei

para o lado e vomitei. Mais tarde, disseram-me que os dois corpos

queimados foram enterrados.

— E lhe disseram onde?

— Contaram-me que o Brigadeführer SS Johann Rattenhuber,

chefe da segurança do bunker, ordenou que três outros guardas da SS

retirassem os corpos da cova rasa e os enterrassem ali perto. Os

guardas da SS pegaram um pedaço de lona, ali puseram o que restava

dos corpos, ossos e cinzas, levaram para uma cratera aberta por uma

bomba, não muito longe dali. Cobriram a cratera com terra solta e

escombros, depois socaram com um soquete de madeira ou uma pá.

Ouvi dizer que Axmann procurou os guardas, pediu-lhes que pegassem

um pouco das cinzas de Hitler, guardou-as numa caixa e levou-as

embora, só Deus sabe para onde. Depois disso, as outras pessoas no

bunker saíram, tentando salvar suas vidas. Recebi a ordem de ficar,

junto com mais três guardas da SS, a fim de eliminarmos todo o

material de segurança que ainda restasse no interior do bunker.

Bebemos e dormimos um pouco, e pela manhã começamos a dar cabo

de documentos e pertences pessoais. Ao final da manhã os primeiros russos apareceram no bunker. Eram do NKVD. Queriam saber onde

estava Hitler. Contei o que acabei de lhe relatar. Eles quiseram ver o

local em que estavam os corpos. Um dos nossos homens conduziu-os à

cratera cheia de terra. Os russos escavaram e tiraram as mandíbulas de

Hitler. Conseguiram comparar os dentes com as radiografias dos dentes

de Hitler que encontraram numa ficha dentária. Ficaram convencidos

de que Hitler morrera e fora enterrado no jardim do Führerbunker. Aí

está toda a história, Fraulein Ashcroft.

Emily continuou sentada, imóvel, descansando a mão que tanto

escrevera. Parecia uma história muito real, absolutamente autêntica,

como se fosse um evento acima e além de qualquer dúvida. Apesar

disso, Emily tinha uma missão a cumprir, a missão de seu pai, foi por

isso que indagou abruptamente:

— Os restos mortais... as mandíbulas... podiam ser de outra

pessoa que não Hitler?

Vogel ficou aturdido.

— Como poderiam ser de outra pessoa?

Emily lembrou-se que o suicídio de Hitler fora o ponto central da

vida de Vogel, de toda a sua vida, a sua história muitas vezes contada, e

que ele jamais admitiria suspeitas sobre a sua veracidade.

E parecia mesmo verdadeira. Era algo que ela não podia deixar

de reconhecer. Houvera muitas testemunhas, até demais. Seria possível

que todas tivessem concordado em mentir? Não, era impossível. Ou

teriam sido enganadas? Era improvável. Ou queriam acreditar porque

fora, como no caso típico de Vogel, um grande momento histórico em

suas vidas, e queriam que fosse verdade? Tudo acontecera realmente

como acabara de ser relatado? Seria toda a verdade?

Emily perguntou-se se aquela história seria mais verídica do que

as suspeitas de um dentista possivelmente lunático. A menos que se

encontrasse pessoalmente com o dentista e ele se mostrasse

absolutamente persuasivo, ela teria de aceitar a história de Vogel, a

versão oficial, para o clímax do livro. Era possível que o pai estivesse

errado, tivesse sido enganado. Era provável que tivesse acabado de ouvir toda a verdade, que não precisasse investigar ainda mais. Podia

seguramente concluir o livro com aquele relato.

Mas a divergência ainda a apoquentava. Sempre respeitara o pai,

sua diligência, firmeza, objetividade, e havia alguma coisa que o

desconcertava na versão histórica. Além disso, o repórter Nitz a

advertira: Não deixe que Vogel a desestimule com a sua história. Depois

de escutá-lo, tente conversar com seu indeciso informante com empenho

ainda maior. Use o testemunho de Vogel para arrancar toda a verdade do

outro homem.

Ela chegou à conclusão de que deveria dar um passo em frente.

Era indispensável. Se aquela não era a verdade, então a outra versão

seria.

Emily levantou-se, agradecendo a Vogel e prometendo que lhe

mandaria um dos primeiros exemplares do livro.

De volta à suíte no Kempinski, Emily descobriu-se a hesitar

mais uma vez.

Ernst Vogel fora tão convincente em sua certeza da morte e

sepultamento de Hitler em 1945 que qualquer esforço de contestar sua

história parecia rematada tolice. Talvez a última investigação do pai em

Berlim fosse quixotesca, um deslize de sua estabilidade normal, o

desejo inexplicável de produzir em seus derradeiros anos uma revelação

sensacional. Talvez ela, como a maioria das filhas, estivesse agindo sob

Continuar: parte 2 de 3