O Sétimo Segredo

Irving Wallace · Capítulo 7 de 10

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O Sétimo Segredo

Capítulo IX

 

Depois que entrou no distrito de Weinmester Höhe, em Berlim

Ocidenttal, Rex Foster não teve mais qualquer dificuldade para

encontrar o caminho. Consultando o mapa da cidade, aberto no assento

de passageiros do Audi alugado, ele pôde seguir as orientações

meticulosas do recepcionista do Kempinski. Umas poucas voltas e ele

estava na rua residencial chamada Gotenweg, onde residia o Oberstadt

mais velho.

Foster encontrou a casa que procurava no meio do quarteirão e

parou na frente. Era um bangalô pequeno, pintado de branco e de

telhas vermelhas. Tinha uma cerca de madeira curtida pelo tempo,

protegendo o modesto gramado, e dois pinheiros, projetando-se sobre a

varanda do bangalô. Aquela era a residência de Leo Oberstadt, antigo

trabalhador-escravo dos nazistas.

O relógio no painel do Audi informou a Foster que chegara dez

minutos mais cedo para o encontro. Recostou-se no assento, a fim de

fumar o cachimbo e relembrar os acontecimentos da manhã.

Fora despertado pelo movimento e maciez do corpo de Emily

contra o seu. Sentindo os lábios de Emily em seu rosto e depois na

boca, ele a ouvira sussurrar:

— Está acordado, Rex? Estou com saudade. Senti muito não tê-

lo ontem à noite. Parece que a última vez foi há um milhão de anos.

— E foi há um milhão de anos.

— Amo você, Rex.

Ele a abraçara, acariciara, sufocara-a de beijos, querendo

devorá-la. Gradativamente, os suspiros de Emily transformaram-se

num gemido gutural.

Fizeram amor, ternamente, devagar, até que o fogo incendiara os

dois, a paixão aumentando de intensidade, engolfarido-os, consumindo-os.

Fora maravilhoso, como uma volta ao lar há muito desejada, e

ele compreendera que era uma união que acalentaria e lembraria para

sempre.

Ao terminarem, ele não ficara surpreso ao descobrir que sua pele

e a de Emily estavam molhadas com a transpiração do prazer. Ele a

levara então da cama para o banheiro. Abrindo, o chuveiro, deixando a

água esquentar, ele a pusera debaixo do jato d'água. Ensaboaram

meticulosamente as costas um do outro, e depois de se enxaguarem,

saíram para o capacho oval e se enxugaram mutuamente.

Deixando-a se vestir, Foster voltara ao quarto para pedir o café

da manhã. Comeram juntos. Estavam acabando quando o telefone

começara a tocar. Emily atendera. Era Andrew Oberstadt. Ela

comunicara que obtivera permissão para a escavação noturna. Depois,

olhando para Foster, Emily perguntara pelo pai de Oberstadt e sua

atuação como capataz de trabalhadores-escravos. Recebendo a

confirmação, Emily falara do desejo de Rex de se encontrar com o

Oberstadt mais velho. Andrew Oberstadt tornara a ligar quinze minutos

depois, e Emily anunciara alegremente para Foster:

— Está acertado o seu encontro com Leo Oberstadt, Rex. Às dez

e meia desta manhã.

Agora, o relógio do painel avisava que eram dez e meia: estava na

hora de encontrar Leo Oberstadt. Saindo do carro, Foster abriu o portão

da cerca, subiu por um caminho estreito até a porta e apertou a

campainha.

Segundos depois, uma mulher gorda, num cafetã florido, rosto

gentil, buço e queixo duplo preencheu toda a porta. Foster identificou-

se e ela imediatamente mandou-o entrar. Ouviu uma voz rouca e

impertinente gritar de um cômodo vizinho:

— Quem está aí, Hilda?

— O seu visitante americano, Herr Oberstadt.

— Mande-o entrar, mande-o entrar!

Hilda conduziu Foster a uma sala de estar bolorenta e antiquada. Havia pequenas tapeçarias por toda parte e o aparelho de

televisão estava ligado. Somente depois que viu o anfitrião sacudir uma

bengala e ordenar a Hilda que desligasse a televisão e lhes servisse uma

cerveja gelada foi que Foster pôde localizá-lo. Leo Oberstadt estava

ajeitado num canto do sofá, com muletas de metal ao seu lado. Foster

fora informado de que encontraria um inválido e imaginara alguém

arrasado e murcho. Mas o velho Oberstadt era na verdade um homem

enorme, outrora provavelmente musculoso, com as pernas imobilizadas.

— Você é o arquiteto americano Foster? — indagou Leo

Oberstadt, a voz incisiva, como se fosse uma acusação.

— Sou eu mesmo, senhor. E agradeço muito por ter me

recebido.

Leo Oberstadt bateu com a bengala no outro lado do sofá.

— Sente-se, meu jovem, sente-se. — Enquanto Foster sentava,

ele acrescentou: — É amigo da mulher inglesa para quem meu filho

trabalha?

— Sou, sim.

— Tem conhecimento da tolice em que ela está empenhada?

Quer escavar o Führerbunker e encontrar Adolf.

— Já sei de tudo e acho que talvez não seja tolice, senhor. O

velho pegou um lenço, escarrou nele, e ignorou a resposta de

Foster ao continuar:

— Ontem à noite meu filho me trouxe a planta original do

Führerbunker. Estudei-a e dei os meus conselhos. — Os olhos

sardônicos fixaram-se em Foster. — Conhece a toca de rato que era o

último bunker?

— Acho que sim.

— Claro. É o arquiteto americano que está desperdiçando tempo

fazendo um livro ilustrado sobre os prédios e bunkers do Terceiro Reich.

Muito bem, vamos descobrir o que você sabe.

Ele pegou uma planta enrolada ao seu lado, tirou o elástico e

mostrou a Foster a planta do Führerbunker, acrescentando:

— Mostre-me o que faria para descer até a suíte de Hitler sem levar uma eternidade.

Foster inclinou-se para examinar a planta, embora a esta altura

achasse que já a conhecia de cor. Ele disse depois de alguns momentos:

— Primeiro, devemos lembrar que este bunker foi construído

com concreto reforçado. Tinha de ser assim, para proteger os ocupantes

das granadas da artilharia. Portanto, não importa o que os soviéticos

tenham feito... metido os tratores, até mesmo explodido algumas

partes... desconfio que o nível inferior do bunker ainda está em grande

parte intacto. Com isso em mente, creio que o. caminho mais fácil e

mais rápido para entrar seria começar a escavar pelo lado, onde ficava a

saída de emergência superior. Deve levar a quatro lances de degraus de

concreto que descem para um corredor. Calculo que os degraus ainda

existem. Se for o caso, talvez não haja necessidade de mais que uns

poucos dias de escavação e esco-ramento para se alcançar os aposentos

de Hitler. — Foster levantou a mão. — Eu faria assim, senhor.

Os olhos de Leo Oberstadt fixaram-se nos de Foster com um

brilho de aprovação.

— É muito esperto, meu jovem. Exatamente o que aconselhei a

meu filho ontem à noite, embora ele já tivesse a mesma idéia. É como

ele realizará a escavação. Deve dar certo... se é que alguma coisa pode

dar. — O velho pegou a planta do Führerbunker e enrolou-a. — Muito

bem, meu jovem, agora podemos conversar. Meu filho me contou esta

manhã que você queria conhecer um antigo trabalhador-escravo.

— Isso mesmo, senhor. Preciso de respostas para algumas

perguntas.

— Talvez tenha vindo ao homem certo. Não restam muitos de

nós. Somos um clube pequeno. Sou um dos poucos veteranos

sobreviventes, um dos responsáveis pela construção da maioria dos

buracos de rato de Hitler. Quer saber como me tornei um trabalhador-

escravo no eficiente Terceiro Reich?

Numa voz sem qualquer inflexão, meio rouca, Leo Oberstadt

relatou sua história. Foster escutou, fascinado pela maneira como

Oberstadt reconstituía o passado, fazendo com que parecesse vivo no presente.

O pai de Leo Oberstadt era luterano e a mãe, judia. Ele estava

na casa dos vinte anos, engenheiro civil e sócio da modesta empresa

construtora da família quando a Segunda Guerra Mundial estourou. A

conquista da Europa por Hitler já estava bem avançada quando a

origem religiosa da mãe fora descoberta. A mãe, o pai e ele foram presos

e enviados para um campo de concentração. Um mês depois os pais

foram despachados para as câmaras de gás em Auschwitz.

— Nunca mais tornei a vê-los. Também fui marcado para

extermínio em Auschwitz e já havia a ordem para me enviar à câmara

da morte quando um oficial nazista... um médico da SS... notou meus

ombros e peito poderosos, os músculos dos braços, e me tirou da fila.

Acabara de chegar uma ordem de Albert Speer. Hitler queria que os

jovens robustos dos KZ Haftlonge — os prisioneiros dos campos de

concentração, judeus, poloneses, tchecos, ucranianos, ciganos —

servissem como trabalhadores-escravos na construção de uma série de

bunkers subterrâneos por toda a Alemanha.

Leo Oberstadt trabalhou em dois bunkers subterrâneos fora de

Berlim — um trabalho extenuante, inumano, com centenas de outros

prisioneiros — quando se descobriu que era engenheiro civil, com

experiência na empresa do pai. Fora promovido a capataz de

construção, obrigado a receber ordens de guardas nazistas e transmiti-

las aos colegas prisioneiros.

Quando o último trabalho estava quase pronto, talvez dois

meses antes de a guerra terminar, todos os trabalhadores-escravos

companheiros de Leo Oberstadt foram levados para serem liquidados.

Leo, como capataz, foi o único que deixaram vivo, naqueles meses

finais, para supervisionar a construção dos cômodos e as instalações

técnicas naquele último bunker. O trabalho fora realizado por jovens e

fanáticos membros da Juventude Hitlerista. Em nenhum momento,

antes do início da construção ou durante os dois meses em que ficara

preso no bunker parcialmente construído, Leo tivera a menor idéia do

ponto da Alemanha em que estava localizado. Fora levado inicialmente para o trabalho com os olhos vendados e à noite também deixava o

bunker vendado, até os últimos dois meses.

E chegara a manhã em que fora vendado mais uma vez e jogado

na traseira de um caminhão militar por guardas da SS. Podia ouvir os

disparos de canhões ao redor. Estava sendo conduzido para algum

lugar e pressentira que seria executado, mas tinha os olhos cobertos e

os pulsos amarrados, encontrava-se totalmente impotente.

Depois de uma volta vagarosa — ele calculara que o percurso

levara pelo menos vinte minutos — Leo ouvira um dos guardas gritar:

— Vamos nos livrar dele aqui! Temos de acabar logo com isso

antes de sermos emboscados!

Leo fora rudemente levantado e empurrado, sendo jogado do

caminhão para o pavimento lá embaixo. Ao cair na rua,

momentaneamente atordoado, a venda se deslocara. Vira o caminhão

alemão começando a se afastar, enquanto os três guardas da SS na

traseira apontavam seus rifles para ele.

Freneticamente, Leo se virará, tentando evitar a execução. Mas

os tiros foram disparados e uma bala acertara na parte inferior das

costas. Ele comprimira contra o chão, estava prestes a perder os

sentidos, quando divisara à sua frente uma companhia soviética de

soldados do Exército Vermelho e três tanques surgirem de uma área

antes ocupada por árvores — e naquela ocasião apenas com tocos,

cheia de entulho — disparando contra o caminhão alemão em fuga.

Tivera a impressão de ouvir o caminhão explodir e depois mergulhara

na escuridão.

— Acordei num hospital de campanha russo — recordou Leo

Oberstadt, com evidente angústia. — A cirurgia salvou-me a vida,

embora eu perdesse quase totalmente o uso da perna esquerda.

Acabaram me soltando, quando descobriram quem eu fora. Reconstituí

a antiga companhia construtora de meu pai. Casei. Tive um filho.

Trabalhei duro. A empresa prosperou durante a reconstrução de Berlim.

Há cerca de cinco anos perdi o uso da outra perna e tive de me

aposentar.

Ficou em silêncio, pegou a caneca de cerveja que fora servida.

Bebeu, lambeu os lábios e depois acrescentou:

— E agora, Sr. Foster, em que posso ajudá-lo?

— Vou explicar.

Foster tornou a falar de seu livro sobre arquitetura, das sete

plantas desaparecidas, todas de bunkers subterrâneos, no território da

Alemanha Ocidental. Contou que descobrira seis por intermédio de

Zeidler, cada uma com a indicação dos locais, e como recuperara a

planta do sétimo bunker na prisão de Spandau.

— Já localizei seis bunkers. Preciso descobrir agora o sétimo, o

único que Zeidler não construiu para Hitler, o que não tem qualquer

indicação do local. É de longe o maior dos bunkers, e Zeidler achou que

algum operário que nele tivesse trabalhado poderia reconhecê-lo por

suas dimensões.

— Deixe-me dar uma olhada — disse o velho Oberstadt. Foster

tirou do bolso do paletó a planta dobrada do sétimo bunker, abnu-a e

estendeu-a através do sofá para Oberstadt. O anfitrião tomou um gole

da cerveja e examinou a planta.

— Tem razão — murmurou ele — é bem grande. E... muito

familiar.

— Pode reconhecê-lo? — indagou Foster ansiosamente. O velho

Oberstadt balançou a cabeça afirmativamente.

— O que temos aqui é o último bunker em que trabalhei, antes

me levarem para ser fuzilado. — Ele devolveu a planta. Tenho certeza de

que é mesmo este.

— Mas onde foi construído?

Leo Oberstadt fitou Foster com alguma surpresa.

— Onde foi construído? — repetiu ele. — Ora, eu já lhe disse.

Em Berlim, é claro.

— Como pode ter certeza? Passava a maior parte do tempo

debaixo da terra e estava vendado ao chegar e sair.

O velho sacudiu a cabeça devagar.

— Não, não todo o tempo... e nem sempre vendado. Contei que me tiraram do bunker com os olhos tapados para me fuzilarem.

Levaram-me por uma distância que parecia ter sido percorrida em vinte

minutos... mas podia ser apenas dez minutos, já que eles tinham de

circular entre os escombros... antes de compreenderem que estavam

prestes a ser atacados pelos russos que saíam da área de bosque

devastada. Foi então que me largaram, tentaram fugir e não

conseguiram.

Foster concentrou-se na última informação.

— Os russos saindo da área de bosque? Que bosque?

— O Tiergarten, é claro. Hoje, mais uma vez, é um dos lugares

mais lindos que temos em Berlim. A pouca distância a pé do que foi

outrora a Chancelaria de Hitler... e o Führerbunker. Tenho certeza de

que em algum lugar ali por perto foi construído esse sétimo bunker.

 

Nicholas Kirvov ficou surpreso ao se descobrir tão cansado,

embora ainda fosse de manhã. Estava sentado a uma mesa no terraço

de uma coisa chamada Taverna Delphi, tomando uma xícara de chá

preto. Olhava através do terraço para a Kantstrasse, pensando que era

um nome exagerado para uma rua tão sórdida e de segunda classe. Do

posto da Esso na esquina à Sex Shop sem vitrines, mas com cartazes

provocantes ao lado, só havia lojas ordinárias e indefinidas. Ele não

podia imaginar que tipo de galeria de arte estaria localizada naquele

quarteirão, mas sua lista garantia que ali havia uma, a Galeria Tisher,

provavelmente a não mais de meio quarteirão de distância — e ele

jurara que não deixaria de procurar nenhuma galeria no centro de

Berlim.

O que o fizera parar ali, para aquele breve descanso, não fora p

cansaço, mas sim o desânimo. Apesar do corpo pesado, sempre se

orgulhara das pernas fortes e da capacidade de subir depressa escadas

íngremes e intermináveis.

Em casa, sempre fora impulsionado pelo entusiasmo. Mas ali,

em Berlim, sentia cãibras nas pernas e dor nos pés por causa da

frustração. Passara horas andando no dia anterior e assim continuava desde o início daquela manhã, tentando visitar todas as .galerias de arte

na área da Kurfürstendamm. Afinal, o tal comissário de bordo, Giorgio

Ricci, embora não se lembrasse do resto, insistira que comprara o

quadro de Hitler não muito longe da Ku'damm. Assim, o objetivo de

Kirvov tinha de estar em algum lugar daquela área. Contudo, cada uma

das galerias que já visitara até agora rejeitara o quadro de Hitler como

obra sem interesse, que não reconheciam e nem haviam negociado.

Kirvov percebeu que o sol finalmente espiava por entre as

nuvens cinzentas e automaticamente mudou a cadeira de posição, sob a

sombra parcial de uma árvore, a fim de pegar um pouco de calor. Por

um momento, perguntou-se se não deveria abandonar a busca

cansativa e voltar a Leningrado, indo depois se encontrar com a mulher

e o filho, em férias em Sochi. Afinal, disse a si mesmo, já conseguira

identificar o tema do quadro de Hitler. Não restava mais qualquer

dúvida de que era mesmo o Ministério do Ar de Gõring. Uma

identificação suficiente para satisfazer qualquer espectador de sua

exposição das obras de Hitler. Apesar disso, tinha de continuar e sabia

que o faria, por outro motivo. Presumia-se que Hitler morrera em 1945.

Só que o quadro do Ministério do Ar de Gõring fora pintado em 1952 ou

depois. Sob alguns aspectos, Kirvov possuía uma mente literal. Não

admitia discrepâncias artísticas. Até que aquele anacronismo fosse

esclarecido, Kirvov sabia que não deixaria Berlim.

O sol esquentara-o, animando-o um pouco. Tomou depressa o

resto do chá, pagou e saiu para a Kantstrasse.

Cinco minutos depois Kirvov viu a placa ao lado da loja grande e

moderna, no andar térreo do prédio de escritório de seis andares:

 

GALERIE TISHER BERLIN

ANKAUF-VERKAUF

 

Kirvov aproximou-se da vitrine. Havia ali três quadros grandes,

naturalistas, de paisagens de Berlim.

Era promissor, pensou Kirvov. Voltou atrás alguns passos e entrou na loja. O carpete bege e as paredes revestidas com madeira

amarelada proporcionavam ao lugar uma leveza que só era um pouco

contrabalançada pela escuridão sombria da maioria dos quadros

expostos. Havia uma pequena escrivaninha e um jovem de óculos

trabalhando ali. Uma escada curva levava a um pequeno mezanino,

onde também estavam expostos à venda quadros emoldurados.

Kirvov passou sob um lustre de cristal, aproximando-se do

jovem que escrevia à mesa. Percebendo que um cliente estava ali, o

jovem levantou-se apressadamente, afastando dos óculos os cabelos cor

de palha.

— Sr. Tisher? — indagou Kirvov.

— Isso mesmo, sou Tisher. Se puder servi-lo em alguma coisa...

— Seus olhos foram atraídos para o quadro envolto em feltro que Kirvov

carregava sob o braço. — Por acaso tem alguma coisa para vender?

Estamos sempre...

— Alguma coisa a perguntar. — Kirvov pôs o embrulho em cima

da mesa, tirou o quadro e levantou-o. — Espero que possa reconhecer

esta tela.

Tisher pegou o quadro e examinou-o atentamente, torcendo o

nariz.

— Presumo que se trata de uma cena de Berlim. Provavelmente

do período do Terceiro Reich. Não é um quadro dos melhores. — Olhou

para Kirvov. — Recebemos alguns quadros assim de vez em quando... e

tratamos de nos livrar deles o mais depressa possível.

— Eu esperava que este fosse um dos quadros de que se livrou.

Uma galeria nesta área, talvez a sua, vendeu-o a uma pessoa que

conheço. E eu o adquiri. Gostaria de saber mais sobre a proveniên-cia

do quadro. E gostaria de saber se foi a sua galeria que o vendeu:

— Não reconheço este quadro. Mas também não sou a pessoa

mais indicada para esta consulta. Nossa gerente, que também se

encarrega das aquisições de menor importância, certamente poderá lhe

dizer mais alguma coisa a respeito. — Tisher largou o quadro, levou a

mão em concha à boca e gritou para o mezanino: — Fràulein Dagmar! Pode descer por um momento?

Nervoso, Kirvov esperou, observando a escada. Um instante

depois um par de pernas apareceu, seguido por um corpo esguio de

mulher, de aparência formidável, possivelmente na casa dos trinta

anos, feições austeras, óculos de aros de chifre, cabelos pretos cortados

bem curto. Tisher virou-se para ela.

— Este cavalheiro deseja saber uma coisa. Talvez possa ajudá-

lo. — Ele olhou além de Kirvov para dois fregueses, um casal jovem, que

acabavam de entrar. — Com licença, por favor.

Tisher afastou-se, enquanto Fràulein Dagmar perguntava a

Kirvov:

— O que deseja saber?

— Estou aqui por causa deste quadro — respondeu Kirvov,

levantando a tela e entregando-a à mulher. — Reconhece esta obra?

Ela lançou um olhar rápido para o quadro e depois tornou a fitar

Kirvov.

— Claro. Fiquei com esta peça na galeria por quase um ano,

antes de vendê-la. É uma dessas obras nazistas que uns poucos

colecionadores nostálgicos apreciam, muito parecida com o estilo de Hi-

tler, embora eu não possa autenticá-la. Para mim, trata-se de uma obra

medíocre, que guardei à espera de algum colecionador. Como nenhum

aparecesse, tive o capricho de expor o quadro. Duas ou três semanas

depois apareceu um comprador, um estrangeiro... um italiano, se bem

me lembro. Não era um grande conhecedor de arte, mas sentiu-se

atraído pela possibilidade de o quadro ter sido pintado pelo próprio

Hitler. E comprou-o

Kirvov experimentou uma sensação de intensa excitação.

— Sei quem o comprou — disse ele. — O que estou querendo

saber é quem o vendeu... isto é, quem o vendeu à galeria. Deve ter um

recibo da compra.

Fràulein Dagmar empertigou-se.

— Tenho sim. Mas não posso revelar essa informação a

ninguém. Nossas transações com clientes que vendem suas obras de arte devem permanecer confidenciais. Lamento muito, mas não posso

dizer isso a qualquer pessoa que aparece aqui.

Em desespero, Kirvov tirou a carteira do bolso. Pegou um cartão

seu e entregou-o à mulher.

— Não sou qualquer pessoa que aparece por aqui, Frãulein,

como vai verificar.

Ela olhou para o cartão de visitas com desinteresse, depois

levantou a cabeça bruscamente, os olhos se arregalando por trás das

lentes grossas.

— É... é o Sr. Kirvov, curador do Museu Hermitage, em

Leningrado?

— Exatamente.

Frãulein Dagmar tornou-se respeitosa no mesmo instante, até

mesmo intimidada.

— Peço desculpas. É uma grande honra. Em que posso ajudá-

lo?

— Basta que me diga como obteve o quadro, quem o vendeu.

Temos no Hermitage uma grande coleção de quadros e desenhos de

Hitler. São curiosidades históricas. Ao adquirir esta tela, resolvi mostrá-

la como parte de uma exposição que terá um enorme público. E, como

curador, sinto-me na obrigação de determinar a prove-niência desta

obra. Espero que possa me ajudar.

— Pode estar certo que tentarei! — garantiu Frãulein Dagmar,

com o maior entusiasmo. — Merece toda a nossa cooperação. Vou

procurar a cópia da nota de compra.

Afastou-se apressadamente, levada pelas pernas compridas, e

desapareceu por trás da porta do escritório. Sorrindo pela primeira vez

naquele dia, Kirvov tornou a pôr o seu tesouro na capa de feltro,

devagar, com muito amor. Mal terminara quando viu Frãulein Dagmar

voltar, com um pedaço de papel na mão.

— O quadro nos foi vendido por uma alemã, calculo que com

trinta e poucos anos. Sra. Klara Fiebig. Lembro que ela comentou que

ganhara o quadro de uma amiga ou parente. Não gostou, mas guardou-o por uma questão de sentimento. O marido também não gostava,

porque era uma obra nazista. E ele acabou exigindo que a mulher se

livrasse do quadro. Ela nos procurou. Achei que não havia muito

mercado para um óleo assim, mas examinei-o e concluí que podia ser

um Hitler, ou era uma excelente imitação de um Hitler. Por isso, resolvi

comprar, como uma peça de interesse menor, mas insólita.

Entregou o papel a Kirvov, acrescentando:

— Este é o endereço que a Sra. Fiebig me deu, na Knesebecks-

trasse. Fica perto da Ku'damm, uma área de prédios de apartamentos.

Fica a cinco minutos de táxi daqui. Mas também dá para se ir a pé.

— Muito obrigado.

— Comprei-o por uma ninharia. — Uma pausa, e Fràulein

Dagmar acrescentou, pesarosa: — Gostaria de tê-lo vendido por mais.

Não sabia que era tão valioso.

— E não é, como obra de arte. Apenas como história. Kirvov

deixou rapidamente a galeria, as pernas outra vez ágeis e fortes.

 

Esperando com paciência diante da porta do apartamento dos

Fiebigs, no terceiro andar, depois de tocar a campainha, Kirvov

constatou que sua tensão aumentava. Mantinha o quadro coberto mais

possessivamente sob o braço, e continuava a debater consigo mesmo

que desculpa poderia usar para que o convidassem a entrar e

conversar.

Foi só depois que ouviu passos no outro lado da porta que uma

idéia lhe ocorreu.

A porta estava se abrindo, e Kirvov empertigou-se.

Ali estava uma mulher ainda jovem, alta, morena, olhos escuros,

nariz arrebitado, usando uma bata rosa. Como ela era esbelta, não

apresentando qualquer sinal de gravidez, Kirvov calculou que a bata era

uma celebração prematura. Aparentava uns trinta anos. Olhava para

Kirvov com curiosidade.

— Sra. Klara Fiebig?

— Sou eu — confirmou com cautela.

— Meu nome é Nicholas Kirvov. Deram-me o seu nome.

Gostaria de trocar algumas palavras.

— Sobre o quê?

— Sobre uma obra de arte.

Klara assumiu uma expressão aturdida.

— Arte? Não sei nada sobre arte. Não estou entendendo.

Kirvov teve certeza de que estava no caminho certo. Não devia

dar tempo à mulher para pensar.

— Vou explicar. — Tirou a carteira do bolso interno do paletó.

Pegou um dos seus cartões de visita, estendeu-o para a mulher e

guardou a carteira. E se apressou em acrescentar: — Sou o diretor de

um museu de arte em Leningrado, o Hermitage. É muito conhecido...

— Já ouvi falar — disse ela, ainda concentrada no cartão.

— Vim a Berlim para entrevistar alguns colecionadores sobre

arte alemã.

— Mas não sou colecionadora.

— Sei disso. Quero apenas a sua opinião, as suas idéias, sobre

uma coisa a respeito da qual escreverei e que penso em expor. Pode me

conceder uma entrevista, por favor? Não tomarei muito do seu tempo.

Ele deu um passo decisivo, o pé cruzando o limiar, como se

esperasse ser convidado a entrar. Klara Fiebig parecia confusa.

— Não sei... não estou...

— Obrigado por sua gentileza. — Kirvov passou para o pequeno

vestíbulo. — Não vou demorar um minuto.

— Está bem. Mas tenho certeza de que está desperdiçando o

seu tempo. — As boas maneiras de Klara prevaleceram. — Pode sentar.

Mas não demore, por favor, pois estou muito ocupada hoje.

— Um minuto, não mais do que isso.

Kirvov já estava na sala de estar, observando automaticamente

as gravuras de bom gosto na parede. Olhou para a cadeira de rodas no

canto e depois sentou numa das poltronas que flanqueavam a mesinha

baixa.

Começou a desembrulhar o quadro de Hitler, enquanto Klara Fiebig sentava no sofá. Kirvov podia perceber que ela o observava com

expressão cautelosa. Ele tirou o quadro e suspendeu-o.

— Fui informado de que outrora possuiu este quadro. Soube

que o vendeu à Galeria Tisher.

Ela olhou a tela rapidamente, não deixando transparecer

qualquer reação de conhecimento.

— O que há de tão importante nesse quadro que precisa saber?

— É uma raridade do Terceiro Reich e por isso de interesse para

mim, como curador de museu e colecionador de arte alemã. Quero

autenticá-la. — Kirvov fitou a mulher nos olhos. — Preciso saber onde o

conseguiu.

Klara estreitou os olhos, estudando a tela atentamente. Sacudiu

a cabeça.

— Nunca vi esse quadro antes. Tive há muito tempo um quadro

velho de uma rua de Berlim que meu marido considerava horrível.

Resolvi então vendê-lo... mas não me lembro quando.

Kirvov tentou avaliar a sinceridade de Klara Fiebig. Sua

expressão não apresentava qualquer sinal de conhecimento. Kirvov

conteve o seu desapontamento.

— Sra. Fiebig, a mulher da Galeria Tisher, Frãulein Dagmar,

lembrava-se do quadro e me garantiu que o comprou de suas mãos. Foi

ela quem me deu seu nome e endereço. Isso não aviva a sua memória?

Mas Klara se manteve obstinada na negação.

— A mulher do Tisher está redondamente enganada. Nunca vi

esse quadro antes.

Kirvov procurou uma falha no controle de Klara Fiebig, mas não

havia nenhuma. Desconfiava que ela já vira o quadro antes, até mesmo

o possuíra, mas não havia como provar. Devagar, começou a embrulhar

o quadro mais uma vez, murmurando:

— Está bem. Deve ter sido um engano.

— Claro que foi — declarou Klara, levantando-se. — Lamento

que tenha perdido seu tempo.

Kirvov já estava de pé e ela acompanhou-o até a porta.

— Agradeço a sua ajuda — disse ele. — E uma pena que eu não

tenha podido descobrir alguma coisa sobre a tela. Seria muito útil.

Enquanto abria a porta, Klara não pôde resistir a uma última

pergunta:

— O que há de tão interessante nesse quadro?

Saindo para o corredor, Kirvov respondeu, em tom de

indiferença:

— Apenas que Adolf Hitler pintou-o em 1952 ou depois.

— Mas que absurdo! — disse Klara, bruscamente. — Todo

mundo sabe que Hitler morreu em 1945.

— Exatamente. É o que torna o quadro tão interessante. Bom

dia.

Klara permaneceu abalada pelo resto da tarde, aguardando a

chegada de sua tia, Evelyn Hoffmann.

No momento em que observou o estranho ameaçador, o curador

russo, deixar o prédio, ela correu para o quarto e despertou a mãe, que

estava cochilando. Depois que a mãe estava plenamente desperta e

sentada, Klara disse:

— Detesto incomodá-la assim, mamãe, mas não há outro jeito.

Tem uma coisa que preciso lhe contar.

— O que é, Klara? Você parece assustada.

— E estou assustada, mamãe. Lembra-se daquele quadro do

prédio do governo que Tia Evelyn deu a Franz e a mim em nosso

primeiro aniversário de casamento? O que Franz tanto detestava que

tive de me livrar dele?

— Claro que lembro.

— Pois acaba de sair daqui um homem que é entendido em arte

e disse que o quadro foi pintado por Adolf Hitler.

— Mas que absurdo!

— Foi o que eu disse a ele. E o que é ainda mais absurdo, ele

insistiu que Hitler pintou o quadro sete anos depois da guerra...

— Quem era esse doido?

— Vou contar...

Rapidamente, Klara relatou toda a visita de Nicholas Kirvov.

Depois de terminar, ela acrescentou, desolada:

— Não sei o que está acontecendo, mamãe, mas o tal de Kirvov

vai escrever a respeito. E Tia Evelyn vai descobrir que vendi seu

presente. É melhor eu falar com ela e explicar tudo, antes que tome

conhecimento por outras pessoas. Ligarei para ela agora.

— Você sabe que Tia Evelyn não tem telefone, Klara. Mas sei

como entrar em contato com ela. Deixe tudo comigo.

— Quero falar com ela hoje mesmo.

— Se for possível. Agora, ajude-me a sair da cama. E depois me

deixe sozinha aqui. Cuidarei de tudo.

Isso acontecera duas horas antes.

Klara sabia pela mãe que Tia Evelyn fora informada e chegaria

em breve. Esperava na sala, ansiosa em falar com a tia, mas temendo a

confissão que teria de fazer da venda do quadro.

Mais dez minutos passaram, o nervosismo de Klara

aumentando, depois a campainha soou e lá estava Tia Evelyn, atraente

e serena. As duas sentaram, frente a frente.

— Desculpe trazê-la até aqui tão de repente, tia.

— Não é problema. Minha única preocupação é que possa haver

alguma coisa errada com você. Está passando bem? Não houve nada

com a sua gravidez?

— Estou bem, tia. Mas há um problema e achei melhor lhe

contar a respeito o mais depressa possível. Eu... eu tenho uma

confissão a fazer e espero que não fique zangada.

— Klara, querida, nada que você diga poderá me deixar

zangada. Eu a amo muito. E agora me diga o que tem a confessar.

Klara engoliu em seco.

— É sobre o quadro, tia.

— Quadro?

— O que deu a mim e a Franz no primeiro aniversário de

casamento. O do prédio do governo em Berlim, que era da coleção de

arte alemã de seu marido. Está lembrada?

Evelyn acenou com a cabeça.

— Estou, sim.

— Bom... — Klara tornou a engolir em seco e depois

acrescentou, falando bem depressa: — Tia, vendi o quadro há um ano...

vendi a uma galeria.

Evelyn ficou aturdida.

— Vendeu?

— Tive de vender. Vou ser franca, tia. Franz jamais gostou do

quadro, mas conservei-o porque era um generoso presente seu. Uma

noite, talvez há um ano, Franz reuniu aqui alguns amigos, colegas

professores, para um jogo de cartas. Mostrou o quadro a um deles, o

professor de arte da escola. Esse amigo perguntou a Franz por que

tinha um quadro tão horrível. Franz quis saber por que era tão horrível.

O amigo explicou que o quadro era obviamente de um dos prédios

oficiais nazistas, pintado por um artista nazista no estilo preferido por

Hitler, talvez mesmo pintado pelo próprio Hitler. O amigo de Franz foi

positivo: era mesmo uma obra de arte nazista.

Klara engoliu em seco mais uma vez, antes de continuar:

— Sabe como Franz se sente em relação aos nazistas. Depois

que os amigos saíram, ele me pediu que desse um jeito de me livrar do

quadro. Respondi que não podia fazer isso, que era um presente seu.

"Mesmo assim, tire-o daqui", insistiu Franz. "Sua Tia Evelyn jamais

saberá." Mesmo não querendo, eu... eu fui a uma galeria de arte aqui

perto, vendi o quadro e simplesmente esqueci. Fez outra pausa,

exibindo uma expressão de culpa.

— Espero que me perdoe, tia Evelyn. Evelyn Hoffmann

permaneceu controlada.

— É sobre isso que queria me falar, Klara? Compreendo

perfeitamente. Afinal, seu primeiro dever é com seu marido. Lamento

que ele não gostasse do quadro e você tivesse de vendê-lo, mas se isso é

tudo...

— Não, tia, não é tudo. Aconteceu mais uma coisa.

O rosto de Evelyn Hoffmann deixou, pela primeira vez, transparecer traços de preocupação.

— Mais uma coisa?

— No início desta tarde — Klara apressou-se em acrescentar. —

Um homem esteve aqui, curador de um museu de Leningrado. Disse

que se chamava Nicholas Kirvov e estava com o quadro... o mesmo

quadro que nos deu. Ao que parece, ele viu o quadro na Galeria Tisher e

comprou-o. Quer apresentá-lo numa exposição de arte alemã que está

montando no Hermitage, em Leningrado. Queria saber mais sobre o

quadro, não sei se para o catálogo da exposição ou talvez para um livro

de arte.

— O que você disse? — perguntou Evelyn, falando bem devagar.

— Nada. Declarei que nunca possuíra o quadro nem o vira. Não

queria me envolver.

Evelyn balançou a cabeça em aprovação.

— Comportou-se da maneira correta, Klara. E não precisa se

preocupar mais. Se tudo o que a atormentava era a possibilidade de eu

saber que vendeu o quadro e ficar zangada... ora, não pense mais

nisso...

— Tem mais uma coisa, tia. Uma coisa realmente estranha e

assustadora.

— O que é?

— Quando o Sr. Kirvov ia saindo, perguntei o que havia de tão

interessante no quadro. Ele respondeu que era de Adolf Hitler e fora

pintado em 1952. Declarei que isso era um absurdo, que Hitler não

podia ter pintado o quadro, porque morreu em 1945. O Sr. Kirvov disse

então que era justamente isso. que tornava o quadro tão interessante.

Evelyn Hoffmann empertigou-se.

— É mesmo um absurdo total. O Sr. Kirvov deve ser um

lunático.

— Foi o que pensei, tia. O quadro não poderia ter sido pintado

por Hitler, não é mesmo? Afinal, onde você poderia conseguir um

quadro de Hitler?

— Não é de Hitler — declarou Evelyn Hoffmann firmemente. —

Isso seria impossível. Meu marido, seu tio, jamais permitiria qualquer

obra de um nazista em sua coleção. Seu tio era um social-democrata

antiquado. O homem que esteve aqui só disse bobagem. Não posso

imaginar por quê. Mas sabemos que esta cidade se acha repleta de

malucos e provocadores. É melhor esquecer tudo, Klara. Quanto à

venda do quadro, compreendo perfeitamente e não deve mais se

preocupar com isso.

Ela se levantou, inclinou-se para dar um beijo em Klara e depois

acrescentou:

— Sempre amarei você, minha querida. E agora tenho de me

apressar para um encontro.

Evelyn encontrou Wolfgang Schmidt na mesa isolada no

restaurante, tão concentrado em seu almoço que a princípio nem a viu.

Notou que ele estava ocupado em cortar e engolir um Leberwurst

grelhado e mastigar um pedaço de Pumpernikel, acompanhado com um

gole de cerveja.

Ela sorriu do seu apetite e já ia sentar quando Schmidt se

apercebeu de sua presença, levantando-se pesadamente, ainda

mastigando, e fez o movimento de beijar-lhe a mão.

— É um prazer vê-la de novo, Evelyn — disse ele quando se

sentaram. E gesticulando para seu prato, acrescentou: — Perdoe-me

por não esperar. Eu estava muito ocupado para comer antes e meu

estômago já estava roncando.

— E eu estou atrasada.

— Quer me acompanhar? A salsicha está excelente.

— Hoje não, Wolfgang. Não tenho a menor disposição para

comer. Mas acho que tomarei um copo de vinho branco...

Uma garçonete se aproximou e ela pediu:

— Um copo de Kallstadter Sammagen, por favor. — Virando-se

de novo para Schmidt, murmurou: — Eu estava ansiosa para que

pudesse falar comigo hoje.

— Seu recado era suficiente, Evelyn. Leisl disse que era urgente.

É mesmo?

— Infelizmente sim. A princípio eu não tinha idéia da

importância, mas um recado de Klara é tão excepcional que não

demorei a procurá-la. — Evelyn balançou a cabeça gravemente. — É de

fato importante, Wolfgang.

Ele limpou a boca com o guardanapo.

— Vai me contar agora o que aconteceu?

— O problema envolve o quadro que dei a Klara. Schmidt ficou

confuso.

— Quadro?

— Foi há tanto tempo que é natural que você tenha esquecido.

Há muitos anos, quando o Feldherr se sentia entediado e irrequieto, tive

uma idéia para mantê-lo ocupado. Peguei uma fotografia recente do

Reichsluftfahrtministerium... o velho prédio de Gõring... e entreguei ao

Feldherr, para que ele se distraísse com a pintura de um pequeno

quadro.

— Estou lembrando agora. E depois você deu o quadro a Klara

como presente de aniversário de casamento.

Evelyn esperou que o vinho fosse servido e por um momento

ficou olhando para o copo, com expressão sombria.

— Esse presente foi um erro. Eu não devia ter feito isso.

— Por que não?

— Porque Klara vendeu o quadro. É claro que ela não tinha a

menor idéia de seu valor. O marido não gostava dele, e por isso ela o

vendeu a uma galeria. Um russo acabou por adquirir o quadro... um

russo que é o curador do Hermitage, em Leningrado...

— Nicholas Kirvov — disse Schmidt prontamente. — Um dos

novos amigos da Srta. Ashcroft.

— Era o que eu receava. Isso mesmo, Kirvov. Ele percebeu que o

quadro fora pintado pelo Feldherr. Kirvov é um perito nessas coisas.

Queria saber mais sobre o quadro e conseguiu localizar Klara. Foi

procurá-la.

— Mas ela nada poderia dizer-lhe — interveio Schmidt. — Não

sabe de nada.

Evelyn tomou um gole do vinho.

— Não é esse o problema, Wolfgang. Claro que ela nada poderia

dizer. Mas ele disse uma coisa a Klara.

— Disse o quê?

— Antes de se retirar, Kirvov declarou que o quadro era

interessante porque fora pintado em 1952 ou depois, embora o autor

tivesse supostamente morrido em 1945.

— Como ele poderia saber disso?

— Não tenho a menor idéia, Wolfgang. Não sei como Kirvov

chegou a essa conclusão. — Ela tomou outro gole de vinho. — Só sei

que Kirvov está agora desconfiado de que os acontecimentos de 1945

podem não ter transcorrido como foi registrado.

Schmidt soltou um grunhido e automaticamente limpou o prato,

enquanto procurava pensar.

— Acha que é sério?

— Muito sério.

— Possivelmente. Evelyn suspirou.

— Devemos ser cautelosos, Wolfgang. — Ela sacudiu a cabeça.

— Lamento ter deixado o quadro sair de meu poder. As conseqüências

podem ser terríveis.

— Não precisa se preocupar — assegurou Schmidt. — Posso dar

um jeito no quadro. Muito em breve não existirá mais como prova.

— Tem certeza?

— Prometo. Enquanto isso, preciso pensar mais no caso, tentar

prever o próximo passo de Kirvov, calcular as precauções necessárias.

— Pôs a mão sobre a de Evelyn. — Não se preocupe, Effie. Venha se

encontrar comigo aqui outra vez amanhã. Já terei um plano. Nosso

serviço de informações é excelente. Estaremos preparados para

qualquer ato ameaçador. E agiremos mais depressa.

Schmidt começou a se levantar, acrescentando:

— Amanhã, Effie. Aqui mesmo.

— Pode estar certo de que não faltarei, Wolfgang.

A velha bonita percorrera a distância a pé, com muito vigor para

sua idade. Nicholas Kirvov, no Opel alugado, seguira-a devagar, até que

a vira entrar na Ku'damm e logo desaparecer no interior de um

restaurante chamado Mampes Gute Stube.

Por sorte, Kirvov encontrou uma vaga a menos de um quarteirão

de distância. Deixou o carro e se encaminhou apressado para o

restaurante. A área de café era envidraçada e tinha um teto enviesado.

Como tinha a impressão de que vira a velha entrar no restaurante além,

Kirvov achou que era seguro se instalar no café.

Descobriu que era um lugar muito elegante, mesas redondas

sobre um carpete verde, as cadeiras estofadas em belbutina verde.

Olhou ao redor e divisou uma mesa desocupada, perto da passagem

central. Ao se encaminhar até lá, notou pela porta o bar e o salão de

jantar. A mulher idosa não estava visível.

Sentando-se, Kirvov aceitou o cardápio estendido pelo garçom.

Não estava com fome, mas sabia que tinha de pedir alguma coisa.

Olhando para a relação de sobremesas, escolheu cerejas com creme e

fez o pedido.

Fumando, refletiu sobre o que acontecera no início da tarde. O

encontro com Klara Fiebig fora infrutífero. Mas ele ficara desconfiado ao

deixar o apartamento. Especulara se ela não teria mentido. Não havia

maneira de descobrir, a não ser que, em pânico por causa de sua visita,

ela saísse às pressas para se encontrar com alguém. Kirvov resolvera

sentar e esperar no Opel, estacionado na Kne-sebeckstrasse, vigiando o

prédio em que Klara morava.

Depois de duas horas ou mais, a vigília parecia inútil. Três

pessoas haviam entrado no prédio — um homem idoso carregando uma

sacola de compras, uma mulher um tanto velha de boa aparência e um

garoto com livros escolares. Ninguém saíra do prédio. Era evidente que

Klara Fiebig não vira motivo para entrar em pânico e procurar alguém.

Kirvov concluíra que suas suspeitas eram infundadas. Chegara a um

beco sem saída.

Já estava prestes a ligar o carro e se afastar quando vira a porta do prédio se abrir e duas mulheres saírem. Uma delas era Klara Fiebig,

segurando o braço da velha bonita que ele vira antes entrar no prédio.

Klara falara com a velha, que acenara com a cabeça, e as duas

trocaram um beijo. Klara tornara a entrar no prédio, enquanto a velha

descia a rua. Pelo espelho retrovisor, Kirvov estudara o vulto da velha se

afastando. Ela visitara Klara. Talvez chamada por ela. Uma pista tênue,

mas de qualquer forma uma pista.

Kirvov fizera a volta e, a alguma distância, seguira a mulher até

a Kurfürstendamm, por onde avançara devagar, ouvindo as buzinadas

irritadas dos outros motoristas, até vê-la entrar no restaurante.

Agora, comendo as cerejas com creme fresco, Kirvov esperava

que a mulher saísse do restaurante. Não sabia direito por que estava

fazendo aquilo, mas também não tinha qualquer outro lugar para onde

ir. Por isso, comeu e esperou, depois fumou um cigarro.

Pelo menos mais quarenta minutos transcorreram, e Kirvov

acabara de pagar a conta quando sua paciência foi recompensada. Lá

estava ela, a velha bonita, começando a atravessar a área do café,

acompanhada por um homem enorme, grisalho e empertigado, um

espécime dos mais saudáveis para quem estava na casa dos sessenta

ou setenta anos. Observando-os se aproximarem e depois passarem,

Kirvov viu uma mulher de meia-idade, com um vestido púrpura,

levantar-se de outra mesa e estender a mão para atrair a atenção do

homem enorme.

— Como vai, Wolfgang? — disse ela.

O homem chamado Wolfgang parou e apertou-lhe a mão.

— Já faz muito tempo, Ursula.

A velha bonita que seguia à sua frente parou e virou-se,

distraída. O homem hesitou por um instante e depois apresentou as

duas mulheres:

— Minha cara, esta é Ursula Schleiter. Ursula, quero

apresentar-lhe Evelyn Hoffmann.

Um garçom aproximou-se, largando pratos ruidosamente numa

mesa, e Kirvov perdeu o resto da conversa. Vira depois o homem chamado Wolfgang deixando o café com Evelyn Hoffmann. Os dois

trocaram mais algumas palavras na calçada da Ku'damm e se

separaram, seguindo em direções opostas.

Kirvov levantou e resolveu seguir Evelyn Hoffmann mais uma

vez. Provavelmente era um exercício inútil, mas ela fora a única pessoa

a fazer contato com Klara Fiebig.

Avançando pela Ku'damm, atrás dela, Kirvov não foi muito

longe. O destino imediato de Evelyn Hoffmann era o ponto de ônibus na

esquina, no outro lado da rua. Ela entrou na fila e ficou esperando.

Poucos minutos depois um ônibus amarelo parou, com o número 29 no

pára-brisa. Kirvov esperou até certificar-se de que a mulher Hoffmann

embarcava no ônibus e depois se encaminhou às pressas para o seu

carro estacionado.

Seguindo outra vez pela Ku'damm, Kirvov manteve-se atrás do

ônibus até a Breitscheidplatz, observando para ver se Evelyn Hoffmann

não saltava. O que não aconteceu. Sempre atrás do ônibus, ele

diminuía a velocidade em cada parada, na expectativa de que a velha

bonita pudesse descer.

Registrou a passagem por uma sucessão de placas — Tauent-

zienstrasse, Kleiststrasse, Lutzowplatz, Landwehrkanal. Era um

território desconhecido para ele. O percurso já se estendia por quinze

minutos e a mulher ainda estava no ônibus.

O ônibus estava outra vez diminuindo a velocidade, e Kirvov

pisou de leve no freio. O ônibus parou na Schõneberger Strasse, e

Kirvov também parou logo atrás. Automaticamente, inclinou-se para

verificar se alguém descia. Duas pessoas. Uma delas era Evelyn

Hoffmann.

Enquanto o ônibus se afastava, Kirvov observou Evelyn

Hoffmann parar junto ao meio-fio, olhar para a esquerda e depois

atravessar a rua larga, depois cruzar outra, com a segurança de quem

está acostumado ao caminho. Ela parou por um instante diante de um

café modesto, quase na esquina, depois abriu a porta e entrou. Kirvov,

que esperava em seu carro na Schõneberger Strasse, aproximou-se do café. Virou à esquerda na esquina e passou devagar pela frente. A placa

por cima dizia que era o CAFÉ WOLF. Ficava quase na esquina da

Stresemann Strasse com a Anhalter Strasse.

Kirvov procurou por um lugar para estacionar na Stresemann

Strasse e notou diversas vagas. Entrou em uma, encostando em

diagonal no meio-fio, desligou o motor e saltou.

Por um momento, parado na calçada, sob uma árvore, Kirvov

tentou se orientar. A extremidade norte da Stresemann Strasse era

bloqueada por um muro, obviamente o Muro de Berlim, na Zona de

Fronteira. Kirvov começou a se encaminhar para o fim da rua, olhando

a todo instante para trás, a fim de verificar se Evelyn Hoffmann já saíra

do café.

Chegando ao Hotel Hervis, Kirvov atravessou a rua, perto de um

terreno baldio, uma depressão profunda, onde outrora existira o porão

de um prédio, destruído na guerra. O terreno estava abandonado,

coberto por mato. Kirvov começou a seguir na direção do café em que

Evelyn Hoffmann entrara.

Havia uma sucessão de pequenas lojas, com a Modellbau, que

vendia kits de modelos de carros e aviões, depois a Küchler,

especializada em rádios de automóveis, o Gesamtdeutsches Institut, um

arquivo histórico que parecia ter também uma biblioteca, a Pizzera

Selva, a pizzaria local, um salão de beleza e o Café Wolf, com uma

tabacaria que também vendia livros usados na esquina.

Havia janelas nos dois lados da porta do café, com vasos de

plantas diante das janelas. Kirvov deu uma olhada no interior,

divisando um balcão com bancos, algumas mesas redondas, uma

vitrola automática. Avistou uma garçonete de blusão e jeans, servindo a

um casal, numa das mesas. Viu outro casal nos fundos. Mas não viu

Evelyn Hoffmann.

Embora ela não pudesse saber quem ele era, Kirvov resolveu não

continuar a esquadrinhar o interior do café, para não correr o risco de

se tornar óbvio. Também não queria ficar muito tempo na frente do

café. No outro lado da rua ficava a ilha de concreto com o ponto de ônibus, a Askanischer Platz. À direita da ilha havia uma rua chamada

Bernberger Strasse.

Deixando o café, Kirvov tornou a atravessar a rua e parou na

Askanischer Platz, observando o Café Wolf, esperando que Evelyn

Hoffmann saísse e se encaminhasse para o seu destino final. Acabou

concluindo que poderia chamar muita atenção ali e foi para a esquina

da Bernberger Strasse. Ali, ficou fumando e observando o movimento no

Café Wolf.

Por meia hora ou mais não houve qualquer atividade. O dia

chegava ao fim e em breve estaria anoitecendo. Kirvov continuou a

vigiar a entrada do café. Finalmente um dos casais que observara lá

dentro saiu. Pouco depois, o outro casal também foi embora.

Kirvov esperou, impaciente, pelo aparecimento de Evelyn

Hoffmann. Um rapaz deixou o Café Wolf. Talvez o garçom. Talvez não.

Depois a garçonete, com uma suéter e ainda de jeans, saiu para regar

as plantas e tornou a entrar. Saiu de novo um instante depois e

afastou-se.

Mas nada de Evelyn Hoffmann.

Kirvov começou a sentir-se tolo. Não havia o menor indício de

que a mulher pudesse levá-lo a alguma pista útil, a não ser a sua

ligação com Klara Fiebig, que de qualquer forma não reconhecera o

quadro de Hitler.

Era o início da noite agora, e Kirvov ficou alerta quando as luzes

no interior do café se apagaram.

Não podia haver a menor dúvida de que o Café Wolf estava

fechado. Mas Evelyn Hoffmann, que ele vira entrar, não saíra.

O que era surpreendente e inexplicável.

Kirvov tentou encontrar uma explicação para aquele

acontecimento insólito. Talvez Evelyn Hoffmann tivesse saído por outra

porta, nos fundos. Talvez fosse a dona do café ou casada com o

proprietário, residisse no andar de cima.

Tudo era provável, mas de certa forma também improvável. Era

esse o pressentimento de Kirvov. Ela não teria qualquer motivo para sair por uma porta escondida. E pelas suas roupas, pelas maneiras, era

muito próspera e sofisticada para possuir um café como aquele ou

morar ali.

Mas, ainda assim, ela entrara e não saíra.

O que era um mistério que exigia uma explicação.

Cansado de esperar sozinho na escuridão, sem nada para ver,

Kirvov começou a voltar para o carro. Mais uma olhada de esgue-Iha

para o café. Absolutamente fechado, completamente às escuras. E

Evelyn Hoffmann continuava inexplicavelmente lá dentro.

Kirvov precisava relatar aquela história a alguém, esclarecer o

enigma. Emily Ashcroft e Rex Foster, que se encontravam tão envolvidos

quanto ele, eram as escolhas óbvias para consultar. Kirvov

compreendeu que tinha de voltar agora ao Bristol Kempinski e

encontrá-los.

— Preciso muito falar com vocês — dissera Kirvov.

Ele interceptara Emily Ashcroft, Foster e Tovah no instante em

que os três deixavam o Kempinski.

— Pois então nos acompanhe agora — respondeu Emily. —

Vamos jantar cedo esta noite. Tenho de voltar ao Führerbunker pela

manhã. Oberstadt está usando uma turma para trabalhar esta noite e

quero verificar bem cedo o que eles conseguiram.

Apesar de cansado, Kirvov decidira ir também. Agora, estava

sentado com os outros a uma mesa que lhes proporcionava privacidade,

porque separada das outras mesas por divisórias de madeira. Estavam

no restaurante do segundo andar do Café Kranzler, na esquina da

Kurfürstendamm com a Joachimstaler Strasse.

Uma garçonete se aproximou, todos consultaram os cardápios e

fizeram seus pedidos. Depois que a garçonete se afastou, Foster virou-

se para Kirvov e perguntou:

— Sobre o que está querendo nos falar, Nicholas?

— Bom... — Kirvov hesitou por um instante. — Talvez não seja

importante ou útil para qualquer de vocês. Foi apenas um incidente

estranho e achei que deveria lhes comunicar.

Todos ouviram atentamente, enquanto Kirvov relatava as suas

várias aventuras durante o dia. A investigação pelas galerias de arte, a

descoberta da que comprara e vendera o quadro de Hitler. A visita a

Klara Fiebig, a declaração dela de jamais ter visto o quadro.

— Acha que ela estava mentindo? — indagou Emily.

— Acho que sim. Pelo menos foi o que pensei quando saí de lá,

porque fiquei esperando na rua, na possibilidade de que ela pudesse

sair para fazer contato com alguém e comunicar a minha visita.

— E ela saiu? — perguntou Emily.

— Não. Mas alguém foi procurá-la, porque depois ela

acompanhou essa pessoa até a porta do prédio.

Kirvov descreveu a pessoa, uma mulher um tanto imponente,

muito bem-arrumada, na casa dos sessenta ou setenta anos, de nome

Evelyn Hoffmann. Tinha alguma ligação com Klara Fiebig e por isso

Kirvov a seguira até o Mampes Gute Stube, um restaurante na

Ku'damm. Depois de algum tempo, ela saíra em companhia de um

homem enorme chamado Wolfgang. Os dois se separaram, e a mulher

Hoffmann pegara um ônibus até uma área perto do Muro, sempre com

Kirvov em seu encalço. Entrara num lugar chamado Café Wolf, na

Stresemann Strasse.

— Fiquei ali horas, esperando que ela saísse, a fim de descobrir

para onde ia em seguida — concluiu Kirvov. — Mas acontece que ela

não saiu. O café foi fechado e ela não saiu. É esse o mistério.

— Ela não poderia ocupar um quarto no café? — sugeriu Tovah.

— Duvido que ela morasse num lugar como aquele —

respondeu Kirvov. — Tinha muita classe para isso.

— Tem alguma explicação? — indagou Emily.

— Absolutamente nenhuma. Esperava que algum de vocês

pudesse me dizer qualquer coisa.

Emily deu de ombros, num gesto de impotência.

— Eu não tenho o que dizer. A história toda parece com Alice

descendo pela toca do coelho.

Foster interveio:

— Disse que o Café Wolf fica perto do Muro?

— Na Stresemann Strasse. Segue direto para o Muro, a cerca de

um quarteirão de distância.

— Com o monte de terra do Führerbunker bem do outro lado —

comentou Foster.

— Talvez tudo não passe de bobagem minha. Acham que vale a

pena continuar a investigar Evelyn Hoffmann?

— Pode ser perda de tempo — disse Foster. — E tempo é

justamente o que não temos. Vamos pensar a respeito e resolver

amanhã.

Emily acenou com a cabeça em concordância.

Emily e Foster estavam na suíte depois do jantar, aprontando-se

para se deitar, quando o telefone tocou. Emily atendeu. Era Kirvov, e

parecia bastante agitado.

— Estou muito transtornado — disse ele. — Cheguei ao meu

quarto no Palace e tinha de ligar para vocês imediatamente.

— O que aconteceu, Nicholas?

— O quadro de Hitler desapareceu. Acho que foi roubado.

— Como assim? — disse Emily. — Onde estava o quadro?

— Deixei-o na mala do carro quando fui me encontrar com

vocês no Kempinski. Tinha um Opel alugado e pus o quadro na mala.

Tranquei a mala e também as portas do carro.

— Onde estacionou o carro?

— Havia uma vaga e por isso estacionei na rua. Depois do

jantar, voltei ao carro. As portas continuavam trancadas. Chegando ao

Palace, abri a mala para pegar o quadro. Desaparecera. Alguém o

roubou.

— Mas quem mais tinha conhecimento do quadro, além de nós,

a mulher da galeria de arte e Klara Fiebig? — perguntou Emily. — Mais

ninguém, não é mesmo?

— Creio que mais ninguém...

— Tem mais uma pessoa — acrescentou Emily. — Eu tinha

excluído seu nome. Evelyn Hoffmann. Ela poderia saber.

— Tem razão.

— Estava especulando antes se deveria continuar a investigar

Evelyn Hoffmann, Nicholas. Pensamos que poderia ser perda de tempo.

Pois mudei de idéia. Acho que vale a pena investigá-la.

Emily pensou por alguns segundos e depois acrescentou:

— Tendo em vista o fato novo, Nicholas... ora, você chegou até

este ponto. Pois agora vá até o fim. Por que não se posta perto do Café

Wolf pela manhã bem cedo e fica observando para descobrir se a

mulher Hoffmann não torna a aparecer? — Hesitou por um instante. —

Pensando bem, Nicholas, como Rex tem permissão para participar da

escavação...

Emily virou a cabeça, indagando a Foster:

— Rex, pode me substituir no Führerbunker amanhã?

— Terei o maior prazer — respondeu Foster. — Mas onde você

vai?

— Vou fazer companhia a Nicholas na Stresemann Strasse.

Quero dar uma olhada na tal de Evelyn Hoffmann. Presumindo que ela

reapareça. E acho que isso vai acontecer. Pode ser que tenhamos

encontrado uma pista importante.