O Sétimo Segredo
Capítulo V
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Na manhã seguinte, bem cedo, exatamente quando o
despertador começava a soar, o telefone tocou. Meio desperta ainda,
Emily tirou o fone do gancho... e um instante depois estava
inteiramente desperta.
Era o Professor Otto Blaubach.
— Emily, sobre a sua permissão para escavar no
Führerbunker...
Ela sentiu o coração disparar enquanto esperava pela
continuação.
— ...parece que há necessidade de mais uma coisa. Os
membros do conselho querem saber até que ponto você tenciona
escavar. Devo apresentar-lhes uma informação completa. E só depois a
decisão será tomada.
Emily ficou aturdida.
— Como posso saber o quanto terei de escavar antes de
examinar o local?
— É justamente o que queremos que faça. Se quiser se
encontrar comigo logo depois do almoço, poderemos ir juntos à Zona de
Segurança. Poderá examinar o local, indicar onde planeja escavar.
Transmitirei tudo ao conselho.
Sentando na cama, Emily experimentou uma pontada de pânico.
E manifestou sua preocupação.
— Claro que estarei aí no momento em que quiser. Mas há uma
coisa que me preocupa. Jamais estive antes no local. Lembro das
fotografias que os russos tiraram, ao chegarem, em 1945. Mas não sei
agora quais eram as dimensões subterrâneas do bunker ou onde
ficavam no jardim a cova rasa e a cratera da bomba.
— Traga um mapa ou uma planta para orientá-la — aconselhou
Blaubach, paciente. — Deve ter alguma coisa em que se basear. Ou
tenho uma idéia melhor. Conhece alguém em Berlim que conheça o local melhor do que eu e possa lhe indicar onde escavar?
Emily lembrou-se no mesmo instante de Rex Foster, com seus
conhecimentos de arquitetura nazista.
— Conheço, sim — respondeu ela confiante.
Mas Blaubach já estava lhe dando instruções sobre a maneira
como deveria encontrá-lo em Berlim Oriental. Emily anotou tudo no
bloco ao lado do telefone.
— Estarei lá às três horas da tarde — prometeu Blaubach. —
Iremos juntos ao local.
Ela tentou controlar o excitamento com um esforço para agir de
maneira ordenada.
Primeiro precisava de um banho de chuveiro para desanuviar a
cabeça.
Depois, vestindo as roupas de trabalho, um macacão azul por
cima da blusa vermelha de algodão, um lenço vermelho e branco
amarrado no pescoço, ela pensou em sua pesquisa. Foi vasculhar as
pilhas de pastas à procura de uma planta da área do Führerbunker.
Encontrou-a e estudou-a, chegando à conclusão de que não era
suficiente para determinar os pontos exatos em que precisaria escavar.
Com Nitz, no dia anterior, da plataforma de observação, vira como o
local estava agora. Um monte de terra cercado de relva. O anonimato da
superfície não lhe proporcionaria muita orientação. Blaubach estava
certo. Precisava de alguém que conhecesse muito bem o lugar e pudesse
indicar onde tudo se encontrava em 1945 e onde devia escavar em
1985.
Pedindo que levassem o café da manhã ao quarto, ela tentou se
acalmar, antes de acordar Rex. Ele certamente conhecia os detalhes
exatos do Führerbunker. Mas a perspectiva de tê-lo a seu lado já era
excitante por si mesma. Ligou para o quarto de Rex. O telefone tocou e
tocou. Ninguém atendeu. Ele saíra cedo. Poderia passar o dia inteiro
fora.
Droga. Haveria outra pessoa? Quem mais poderia procurar?
E, de repente, alguém lhe ocorreu. Sem perder mais tempo, ligou para Ernst Voge. O antigo guarda da SS estivera no Führerbunker, fora
preciso e meticuloso na descrição dos acontecimentos e do cenário da
suposta morte de Hitler, poderia ser mais útil do que Rex ou Blaubach.
Por sorte, Vogel estava em casa e atendeu o telefone.
Emily começou a se apresentar de novo, mas não foi necessário.
Ele se lembrava da entrevista. Ela explicou o que deveria fazer naquela
tarde, mas sem explicar o verdadeiro motivo de sua exploração. Disse
apenas que era algo que não podia deixar de fazer para concluir seu
livro e precisava de alguém para ajudá-la. Seu contato em Berlim
Oriental a aconselhara a levar uma pessoa que tivesse conhecido o
bunker no passado.
— E pensou em mim? — indagou Vogel. — Quer que eu a
acompanhe?
— Isso mesmo. Achei que se lembra nitidamente de tudo o que
aconteceu ali em 1945 e pensei...
— Claro que me lembro de tudo. Jamais esquecerei. E será
memorável visitar o lugar, depois de tanto tempo. Terei o maior prazer
em acompanhá-la.
— Tenho uma planta do Führerbunker e da área do jardim.
Posso levá-la.
— Não é necessário — respondeu Vogel. — Levarei a minha que
sei que é precisa...
— Providenciarei um carro com motorista. E irei buscá-lo às
duas e meia.
— Estarei pronto.
Agora, o carro e o motorista. Não houve qualquer dificuldade.
Irwin Plamp e seu Mercedes estariam no Kempinski às duas horas.
Irwin Plamp parou o Mercedes perto de uma cerca alta na
Niederkirschenerstrasse, em Berlim Oriental. Emily avistou o Professor
Otto Blaubach parado na frente de um jipe, ao lado de uma guarita de
sentinela, junto ao portão eletrônico, esperando. Acenou para
Blaubach, que acenou em resposta. Emily virou-se para Ernst Vogel.
— É aqui que saltamos.
Ela abriu a porta traseira para saírem, mas Plamp já contornara
apressadamente o carro para ajudá-la a descer.
— Obrigada, Herr Plamp — disse Emily. — Fique esperando
aqui. Não devemos demorar mais do que uma hora... Herr Vogel, venha
comigo.
Encaminharam-se para o portão. O Professor Blaubach
cumprimentou Emily efusivamente e depois olhou para Ernst Vogel com
expressão inquisidora. Emily apresentou-os. Enquanto Blaubach os
conduzia ao jipe, onde um soldado alemão oriental aguardava ao
volante, Emily explicou as credenciais de Vogel.
— Herr Vogel foi da guarda de honra da SS, dentro e fora do
Führerbunker, durante os últimos dez dias, antes dos russos chegarem.
Lembra nitidamente a disposição interior, testemunhou a cremação e
sepultamento de Hitler no jardim.
Blaubach ajudou Emily a subir para o banco traseiro do jipe,
lançou um olhar frio para Vogel, e deixou-o subir sozinho. Depois, com
agilidade inesperada para um homem de sua idade, Blaubach subiu na
frente do jipe e sentou-se ao lado do motorista.
— Vamos para o Führerbunker — ordenou ele em alemão.
Entraram na Zona de Segurança fechada, seguindo por um
caminho de terra ao longo dê uma cerca de arame, fixada em postes de
concreto, com sinistros cartazes a intervalos: GRENGEBIET — "Área de
Fronteira" — também escrito em inglês, francês e russo. Por baixo,
também em quatro línguas, o aviso: PASSAGEM PROIBIDA.
Enquanto avançavam pelo sujo caminho, passando por
obstáculos antitanques e uma torre de vigia guarnecida, Emily percebeu
que se aproximavam cada vez mais do monte de terra que se elevava
acima do campo, não muito longe do muro. Inexplicavelmente,
estremeceu. Logo estavam paralelos à elevação, e o jipe virou
abruptamente para a esquerda, deixando o caminho e seguindo devagar
pelos dez metros de terreno cheio de pedras e mato, até o monte de
terra. Emily estava hipnotizada demais pela visão para falar. A elevação
retangular, terra misturada com pedras e entulho, erguia-se uns seis ou sete metros acima do jipe.
Abruptamente, o jipe parou. Blaubach fez sinal para que
saltassem e todos andaram sob o sol até a base da elevação.
— Esta é a sepultura do Führerbunker — anunciou Blaubach.
Uma pausa e acrescentou, desdenhosamente:
— A catacumba de Hitler. — Virando-se para Vogel, indagou,
um tanto zombeteiro: — Pode reconhecer?
Vogel estava parado, indeciso, olhando ao redor, enquanto
ajustava o aparelho de audição. Emily observou-o, com expressão
preocupada.
— Faz algum sentido, Herr Vogel? Preciso saber onde fica
exatamente o Führerbunker por baixo deste monte de terra, preciso
saber o local da cova rasa em que Hitler e Eva foram cremados, a
cratera de bomba em que foram sepultados e os russos os encontraram.
Ernst Vogel pusera óculos escuros e agora tirava um papel
dobrado do bolso do paletó. Desdobrou-o e Emily constatou que era
uma planta meticulosa do bunker e um mapa da área ao redor. Vogel
estudou por um momento. Levantou os olhos, esquadrinhou outra vez a
área, olhou fixamente para a frente. E de repente seu rosto se iluminou.
Apontou para longe do monte, na direção sul.
— Tenho certeza de que ali Ficava a Nova Chancelaria do Reich,
estendendo-se por 400 metros, pela Voss Strasse. — Ele virou-se para
Blaubach. — Não é isso mesmo?
Blaubach acenou com a cabeça bruscamente.
— É sim. Era o lugar em que ficava.
— Pois o resto é muito simples — declarou Vogel, com crescente
confiança. — A Velha Chancelaria ficava ao lado. Portanto... — começou
a rodear a elevação. — Venham comigo. Vou mostrar onde o
Führerbunker ficava exatamente, por baixo deste monte de terra.
Acompanhem-me, por favor.
Vogel parou no outro lado do monte e esperou que Blaubach e
Emily o alcançassem. Por um momento, a animação de Vogel se
desvaneceu. Ele parecia transportado no tempo. Finalmente, gesticulou e disse:
— Estão agora na Nova Chancelaria, no salão cerimonial. Têm
um encontro marcado com Hitler e por isso seguem por um túnel
comprido até a Velha Chancelaria, passam pela Kannenbergalley... a
copa, assim chamada em homenagem ao gordo mordomo de Hitler,
Arthur Kannenberg... descem por uma escada circular para três portas
reforçadas com aço, a terceira guardada por dois soldados da SS. É a
que dá para o nível superior do Führerbunker...
Vogel voltou ao presente e deu alguns passos, chegando ao lado
do monte de terra.
— ...bem aqui — disse ele, traçando uma linha na relva com o
bico do sapato.
Emily foi postar-se ao lado de Vogel, perguntando:
— Quando o Führerbunker ficou pronto para ser usado?
— O nível superior, ou Vorbunker, foi escavado e construído sob
a Velha Chancelaria do Reich, e seu jardim, em 1936. Tinha na ocasião
apenas dez metros de profundidade. Dois anos depois Hitler decidiu que
não era suficientemente grande. Ordenou a ampliação, que foi
executada. Em 1943, quando a guerra começou a se tornar
desfavorável, Hitler determinou que o bunker fosse reforçado pela
Companhia Construtora Hochtief. Ao final de 1944 ele ordenou que um
segundo bunker, mais profundo, fosse construído por baixo do
Vorbunker. Assim, o Führerbunker tem dois andares ou níveis. O
inferior, usado por Hitler e Eva Braun, ficava dezessete metros abaixo
da superfície.
— Onde era a entrada do bunker? — quis saber Emily. Vogel
passou sobre a linha que traçara com a ponta do sapato.
— Bem aqui embaixo havia um pequeno lance de degraus de
concreto para o nível superior do bunker. Havia treze salas pequenas no
nível superior, sem quaisquer adornos, o reboco inacabado. Seis salas
num lado, seis no outro, o refeitório nos fundos. Eram usadas como
alojamentos para os criados, depósito de lenha, uma despensa, adega
para vinhos, um escritório para a agência de notícias nazista, a Deutsches Nachrichíenburo, uma sala de rádio que captava as
transmissões da BBC, uma Diätküche, ou cozinha vegetariana. O
refeitório tinha uma mesa de carvalho em que todos comiam. Depois
que Hitler instalou-se no Führerbunker, ficou no nível inferior,
raramente subindo ao outro.
— Como se descia para falar com Hitler? — perguntou Emily.
Vogel subiu pelo monte de terra.
— Havia aqui uma escada de concreto, com doze degraus,
descendo para o nível inferior. Era lá embaixo que se desenvolvia a
atividade principal.
Emily subiu pelo monte de terra para se juntar a Vogel,
enquanto o Professor Blaubach permanecia lá embaixo.
— Herr Vogel — disse ela —, poderia me explicar a disposição
do nível inferior?
Vogel tornou a desdobrar sua planta. Balançou a cabeça e
murmurou:
— Tentarei. Siga-me. — Ele avançou pelo lado direito da
elevação, descrevendo o que havia lá no fundo. — Havia cerca de dezoito
cômodos apertados no nível inferior, quase todos pintados de cinza,
divididos por um corredor de aproximadamente quatorze metros e três
metros de largura. O corredor tinha revestimento de madeira e
pequenos quadros italianos pendurados nas paredes. Hitler escolheu-os
pessoalmente. Enquanto andamos por aqui, no lado direito do monte,
tente imaginar o que veria lá embaixo.
Avançando devagar, com Emily em seus calcanhares, Ernst
Vogel continuou a falar:
— Aqui era a sala da caldeira. Ao lado ficava o gabinete de
Martin Bormann e por trás o posto telefônico. Em seguida vinha a sala
de Josef Goebbels e por trás um cubículo para o oficial de plantão. Em
seguida vinha o quarto de Goebbels, tendo por trás uma pequena sala
de operações e o quarto dos médicos pessoais de Hitler. Agora, vamos à
parte mais importante, o lado esquerdo do corredor. Vou lhe mostrar.
Vogel voltou pelo monte e passou para o lado esquerdo. Emily alcançou-o e tornaram a avançar, juntos.
— Por baixo de nós estão os banheiros coletivos, com três
reservados, e o canil — disse Vogel. — Ao lado está o quarto de vestir de
Eva Braun, seu quarto de dormir e um banheiro, que ela partilhava com
Hitler.
Vogel deu mais alguns passos e depois parou.
— Lá embaixo ficava a suíte particular de Hitler, com quatro
cômodos. Mais ou menos aqui era a sala de estar em que ele e Eva
Braun morreram. Havia depois uma sala de espera ou ante-sala, dando
para o corredor. Ao lado ficava o quarto particular de Hitler. Ao lado
havia uma pequena sala de mapas e no outro lado do corredor, a sala
de conferências em que ele se reunia com seus generais, orientando a
defesa final de Berlim.
— O que havia na sala de estar de Hitler? — perguntou Emily.
Vogel pensou por um momento e depois fez unia descrição
apressada dos móveis;
— A sala era estreita, tinha um sofá para duas pessoas, uma
escrivaninha com uma fotografia emoldurada da mãe de Hitler. Por
cima, na parede, numa moldura dourada circular, estava o retrato de
Frederico o Grande, pintado por Anton Graff. Havia também três-
cadeiras da Chancelaria. As paredes eram revestidas com madeira e o
chão acarpetado, mas ainda assim, pelo que me disseram, era uma sala
fria.
— Está ótimo, Herr Vogel. Disse que depois que Hitler e Eva se
suicidaram os corpos foram carregados pelo corredor e por uma escada
até o jardim. Pode me apontar onde ficava essa escada?
— Posso tentar. — Vogel foi até a frente do monte e desviou-se
para um lado. — Aqui, no outro lado da sala de conferência, havia
quatro lances de degraus de concreto que levavam do nível inferior do
bunker a uma saída de emergência especial. Passava-se por uma
espécie de casamata externa retangular, dando para o jardim da
Chancelaria. Depois de carregarem Hitler pela saída... venha, vou lhe
mostrar...
Vogel desceu cautelosamente o monte de terra até o campo
relvado ao lado. Esperou que Emily o alcançasse. Consultou sua planta
mais uma vez e recuou alguns passos.
— A saída de emergência ficava perto deste ponto — disse ele.
— Entre a saída e uma torre de vigia redonda... a cerca de um metro do
lugar em que você está... havia um pequeno fosso, uma cova rasa. Foi o
lugar em que largaram os dois corpos e os cremaram.
— E onde os corpos foram enterrados de novo?
— Vire-se um pouco para a direita... e agora calcule três metros.
Emily apontou para a frente.
— Ali?
— Isso mesmo. Era o local da cratera com os corpos.
— Obrigada, Herr Vogel. — Emily descobriu que o Professor
Blaubach estava parado ao seu lado. Fitou-o nos olhos. — Ouviu tudo?
Deve poder me dizer se está razoavelmente preciso.
— Ao que eu saiba, seu amigo está totalmente exato.
Aparentemente sua memória está perfeita.
— Foi uma experiência inesquecível para mim — explicou Vogel.
— E um momento feliz para o resto do mundo — comentou
Blaubach secamente. Puxando Emily para um lado, indagou: — Sabe
agora onde deseja escavar?
Emily acenou com a cabeça, confiante.
— Em três lugares. Os locais da cova rasa e da cratera, na área
do jardim. Quanto ao Führerbunker, não precisarei descobrir tudo.
Apenas uma parte da elevação. Quero descer até a suíte de Hitler.
Blaubach mostrou-se satisfeito.
— A limitação da escavação aumenta a possibilidade de obter
permissão do conselho. De quanto tempo vai precisar?
— Tenho uma equipe experiente de sobreaviso. Creio que três
dias serão suficientes.
— Levando-se tudo em consideração, calculo que cinco ou seis
dias seria um prazo mais realista. Pedirei ao conselho que autorize as
escavações por uma semana. Está bom assim?
— Eu ficaria muito grata, Professor Blaubach.
— Se a permissão for concedida, gostaria que aceitasse um
pequeno conselho.
— Qual?
— Mantenha em segredo o propósito da escavação. Creio que é
o melhor para o seu sucesso e bem-estar.
Werner Demke, jovem e espinhento repórter do BZ, o tablóide de
grande circulação de Axel Springer, fez sua escala rotineira na
plataforma de observação na Potsdamer Platz, ao final da tarde, quando
voltava à redação. Uma de suas obrigações era providenciar uma
relação das celebridades estrangeiras que visitavam Berlim, todas as
semanas. Geralmente a polícia e meia dúzia dos melhores hotéis eram
as suas fontes mais produtivas. A plataforma de observação era uma
fonte menos produtiva, mas às vezes algum político ou artista de
cinema era levado até ali para espiar por cima do muro para a terra de
ninguém no lado de Berlim Oriental. Como um repórter principiante,
Demke achava que não devia ignorar qualquer possibilidade para uma
notícia breve ou uma reportagem maior.
Estacionando seu Volkswagen, foi até a loja de souvenirs, meteu
a cabeça pela porta e perguntou à proprietária:
— Alguma pessoa importante apareceu por aqui esta tarde?
— Nenhuma, Herr Demke. Sinto muito. Apenas um pequeno
grupo de turistas ingleses de Manchester. Provavelmente estão lá em
cima da plataforma neste momento.
— O que não chega a ser uma notícia quente. Muito obrigado.
Demke voltou para o seu carro, desolado. Fora um dia vazio.
Ascher, o editor de assuntos locais, não ficaria muito satisfeito.
Ele ouviu um grito alto e jovial e olhou para a plataforma de observação.
Duas mulheres gorduchas de meia-idade estavam lá em cima, na grade
da plataforma, com binóculos nos olhos, virados para a Zona de
Segurança dos alemães orientais. Uma das mulheres soltou um grito
excitado. Demke viu então o terceiro membro do grupo, um homem idoso, correr para a grade, focalizar a máquina fotográfica em alguma
coisa na Zona de Fronteira e começar a gritar.
Werner Demke especulou sobre o que teria atraído a atenção dos
turistas. Num súbito impulso, desviou-se do carro e se encaminhou
para os degraus da plataforma.
Quando chegou à base da escada de madeira, os três turistas já
estavam descendo, exultantes. Conversavam em inglês, e Demke teve
certeza de que eram os turistas ingleses a que se referira a proprietária
da loja de souvenirs.
Deu um passo para o lado, enquanto os três deixavam a escada
e paravam um pouco adiante.
— Têm certeza de que era mesmo Emily Ashcroft? — indagou o
homem. — Bati todo um filme dela e dos dois homens, até embarcarem
no jipe.
A mulher mais corpulenta respondeu:
— James, eu poderia reconhecê-la como reconheço você. Tenho
certeza absoluta de que era a mulher que apareceu no programa de
televisão da BBC.
— Ótimo — disse o homem, passando a mão pela câmara. —
Encontramos pelo menos uma celebridade nesta viagem, isto é, mais ou
menos urna celebridade.
Escutando, Werner Demke tentou lembrar quem era Emily
Ashcroft. Uma campainha soou vagamente em sua cabeça. E de repente
o barulho foi ensurdecedor. Ashcroft, o pai, morrera atropelado na
Ku'dâmm há algumas semanas, e a filha viera a Berlim para concluir a
biografia de Hitler.
Prontamente Demke percebeu a possibilidade de uma história.
Aproximou-se do grupo britânico e interrompeu a conversa,
polidamente:
— Com licença. Não pude deixar de ouvir o que estavam
dizendo... que alguma coisa aconteceu na Zona de Segurança no lado
alemão oriental. Apenas por curiosidade, eu gostaria de saber o que foi.
À mulher mais corpulenta respondeu, com um ar de orgulho:
— Deixou de ver uma das celebridades da televisão britânica.
Ela estava lá embaixo, no meio das torres de vigia e dos guardas
comunistas, acompanhada por dois homens.
— Isso é muito estranho — comentou Demke. — Há anos que
ninguém tem permissão para entrar na área, a não ser os soldados.
O homem se adiantou, alisando de novo a câmara.
— Posso lhe dizer o que ela e seus amigos estavam fazendo.
Contornaram aquele monte de terra que todos dizem ser o lugar em que
Hitler e sua mulher se esconderam, antes de se matarem. A tal de
Ashcroft e um dos homens subiram pela elevação, falando sem parar.
Depois desceram e começaram a olhar ao redor no outro lado...
— O jardim da Chancelaria — murmurou Demke.
— O que quer que fosse. Ficaram parados, falando, o outro
homem se aproximou. Depois de um momento, os três se
encaminharam para o jipe e foram embora. — O homem suspendeu a
câmara. — Registrei tudo. Uma boa lembrança.
A mente de Werner Demke trabalhava acelerada.
— Tirou fotografias dos três?
— Um filme inteiro. Demke engoliu em seco.
— Gostaria de me vender esse filme? O homem ficou espantado.
— Vender?
— Isso mesmo. Eu gostaria de comprar o filme inteiro. O
homem sacudiu a cabeça vigorosamente.
— Estou tirando fotografias da viagem para o meu álbum e não
quero perdê-las.
— Não as perderia — Demke apressou-se em dizer. — Teria
cópias de todas. Garanto. Só que eu também quero cópias.
Calculou quanto tinha na carteira. Provavelmente uns cem
marcos. Era uma jogada. Ascher poderia rejeitar tudo. Por outro lado,
era possível também que ele ficasse impressionado.
— Eu lhe darei cem marcos pelos negativos e um jogo de cópias,
O homem tornou a sacudir a cabeça.
— Não.
A mulher mais corpulenta foi postar-se na frente do homem,
obviamente seu marido.
— Espere um pouco, James. — Ela virou-se para Demke. —
Que história é essa? Quem é você?
— Sou repórter de um jornal alemão. Talvez vocês tenham
testemunhado um incidente que pode ser notícia. Há muito tempo, até
onde posso me lembrar, que alguém não tem permissão para entrar na
Zona de Segurança alemã oriental para examinar o que sobrou do
bunker de Hitler. A presença da Srta. Ashcroft dá à fotografia certo valor
de curiosidade. Talvez eu esteja enganado. Talvez meu editor não queira
usar nenhuma das fotografias. Apesar disso, vale a pena gastar todo
dinheiro que tenho comigo, pelo menos para que ele veja as fotografias.
E vocês ganhariam cem marcos e ainda receberiam um jogo de cópias.
A mulher refletiu por um momento sobre a proposta.
— Quanto valem cem marcos? — perguntou o marido.
Ela cochichou para ele a resposta. Os olhos do homem se
arregalaram.
— Só por este filme?
A mulher corpulenta pegou a máquina.
— Muito bem, meu jovem, pode ficar com o filme. Mas primeiro
vamos ver seu dinheiro e um recibo.
No final da manhã seguinte, Evelyn Hoffmann estava no ponto
do encontro familiar, a mesa particular nos fundos do Mampes Gute
Stube, já pedira Bratwurst e cerveja para o Chefe Wolfgang Schmidt e
uma Gemischter Salat e chá para si.
Aquele encontro era excepcional. Há anos que só se reuniam
uma vez por semana, a fim de desfrutar a companhia um do outro, falar
dos velhos tempos, trocar mexericos. A rotina era invariável. Naquela
manhã, porém, houvera um recado de Schmidt, convocando-a para um
encontro às onze horas, embora tivessem se encontrado apenas poucos
dias antes.
Muito estranho.
Chegando à Ku'damm de ônibus, ela especulara sobre o motivo
para aquela súbita reunião. Não lhe ocorrera coisa alguma que pudesse
ser urgente. Contudo, por ser inesperada, a mensagem tinha um cunho
de urgência. Em conseqüência, ela se descobrira no centro quase uma
hora mais cedo. As opções eram ir para o restaurante e esperar, olhar
as vitrines ou fazer uma visita a Liesl e Klára para passar o tempo.
Acabara entrando na Knesebeckstrasse e se encaminhara para o
apartamento dos Fiebigs, visitar as pessoas que lhe eram mais
chegadas. E só então percebera uma omissão rara. Em sua confusão,
Evelyn esquecera de levar um pequeno presente para Klara. Mas Klara
não estava. Liesl se encontrava sozinha no apartamento, e Evelyn se
sentira aliviada. Era difícil falar dos tempos antigos na presença de
Klara e impossível quando Franz lá estava. Ele era um jovem radical
que detestava o passado recente da Alemanha, a Alemanha que fora a
glória de Evelyn. Ela e Liesl haviam aprendido depressa a jamais
discutir os tempos antigos na frente de Franz ou mesmo de Klara.
— Mas que surpresa! — exclamara Liesl. — O que a traz aqui
hoje?
Dispensando a empregada diarista dos Fiebigs, Evelyn
empurrara a cadeira de rodas de Liesl para a sala de estar, enquanto
lhe falava sobre o recado de Schmidt. Evelyn estava ansiosa em
conversar com Liesl e mal começara a fazê-lo quando ouvira o barulho
de uma chave na porta da frente.
— Klara — explicara Liesl. — Ela tinha uma consulta com o
obstetra esta manhã.
Klara entrara na maior animação e também demonstrara
surpresa com a presença de Evelyn.
— Tia Evelyn! Que prazer vê-la aqui! — Ela beijara Evelyn
afetuosamente. — Qual o motivo desta visita de surpresa?
— Tenho de me encontrar com alguém daqui a pouco —
respondera Evelyn vagamente. — Mas há outra coisa mais importante:
o que disse o médico?
— Está tudo perfeito — garantiu Klara, os olhos brilhando.
Depois, fizera uma careta e acrescentara: — Mas devo esperar mais
enjôo pela manhã.
Ela começara a deixar a sala, dizendo:
— Tenho de trocar de roupa e ir para a cozinha. Franz vem
almoçar em casa. Quer saber das últimas notícias. Espero que fique
aqui para vê-lo, Tia Evelyn.
Mas Evelyn já estava se levantando.
— Obrigada, querida. Eu bem que gostaria, mas não posso.
Tenho de comparecer ao meu encontro.
Acima de tudo, ela queria escapar do apartamento antes da
chegada de Franz Fiebig.
E conseguira.
Agora, estava sentada à mesa do restaurante, esperando o Chefe
de Polícia Wolfgang Schmidt.
A salada, o pão e o chá, que pedira para si mesma, foram
servidos primeiro, junto com a cerveja de Schmidt. Acabara de adoçar o
chá e estava prestes a pegar um pão quando sentiu a presença do
corpulento Schmidt, que parou à sua frente, pegou sua mão e a beijou.
— Como vai, Effie? — disse ele, sentando na cadeira em frente a
ela.
— Muito bem, Wolfgang. Mas fiquei curiosa com o seu recado.
— Não queria assustá-la, mas há um problema que precisamos
discutir. —- Ele provou a cerveja, depois tomou um gole grande. —
Quase não disponho de tempo essa manhã e por isso não poderei
demorar. Mas é uma coisa importante.
— E o que pode ser tão importante?
— Isto. — Schmidt tirou um tablóide dobrado do bolso do paletó
e começou a abri-lo. — O BZ desta manhã. Não creio que já o tenha
visto.
— Sabe muito bem que raramente leio esse jornal.
— Pois deveria ler hoje. — Ele virou a primeira página,
estendendo o jornal na página três para que Evelyn visse. — A fotografia
na metade de cima. Dê uma olhada.
Evelyn pegou o tablóide e examinou a fotografia grande com
curiosidade.
Era bastante nítida, tirada da plataforma de observação na
Potsdamer Platz, em Berlim Ocidental, focalizando o monte de terra que
cobria o antigo Führerbunker, no outro lado do muro. Três pessoas
podiam ser vistas claramente na ampliação, uma mulher ainda jovem e
dois homens idosos, conversando ao lado da elevação do bunker.
A manchete dizia:
SERÁ QUE ELES VÃO ESCAVAR DE NOVO À PROCURA DE
HITLER?
Ouviu Schmidt acrescentar:
— Leia a legenda, Effie.
Evelyn baixou os olhos para a legenda. E leu-a rapidamente. As
três pessoas na fotografia eram identificadas como Emily Ashcroft,
proeminente historiadora britânica que se encontrava em Berlim para
completar a biografia definitiva de Adolf Hitler, Herr Ernst Vogel, antigo
guarda de honra da SS que estivera de sentinela no Führerbunker nos
últimos dias, e o Professor Otto Blaubach, um profundo conhecedor do
Terceiro Reich e vice-ministro do governo da Alemanha Oriental. A
legenda acrescentava que eram os primeiros visitantes ao local do
histórico Führerbunker em pelo menos uma década e especulava se a
Srta. Ashcroft ali estaria como um prelúdio a mais uma escavação da
área, em busca de uma nova pista para o fim de Der Führer. Evelyn
levantou a cabeça, momentaneamente aturdida.
— Essa é a moça de quem me falou no outro dia? Schmidt
esmagou uma bolacha na mão e engoliu as migalhas.
— Emily Ashcroft, a historiadora britânica que se hospedou no
Kempinski. Achei que deveria saber que ela parecia disposta a seguir
em frente.
Evelyn não escondeu sua preocupação.
— Acha que ela receberá permissão para escavar?
— O pai recebeu, pouco antes de sofrer o acidente fatal. E por
isso calculo que ela também terá autorização. O tal de Blaubach, que aparece na fotografia, é um homem muito importante no governo de
Berlim Orientai. Ele pode obter a permissão.
— Mas por que agora, depois de tanto tempo? Todos sabem que
Der Führer e Eva Braun morreram no bunker e lá foram enterrados.
— Mas é evidente que nem todos acreditam nisso, Effie. Evelyn
estava estudando outra vez a fotografia. Sacudindo a
cabeça, ela disse:
— É um absurdo. O que será que ela está procurando?
— Isso não importa — respondeu Schmidt, pegando o jornal,
dobrando-o e tornando a guardá-lo no bolso. — Eu só queria
tranqüilizá-la, Effie, caso já tivesse tomado conhecimento da notícia.
Prometo que não haverá uma nova escavação no bunker, nenhuma
investigação do passado.
— Promete mesmo?
Schmidt levantou o corpo enorme da cadeira, os lábios grossos
se contraindo num sorriso.
— Claro que prometo. Não precisa se preocupar nunca mais
com a Srta. Ashcroft.
Emily tivera uma manhã movimentada em sua suíte no
Kempinski. As cópias dos arquivos que Pamela enviara de Oxford
finalmente haviam chegado. As pastas de cima continham informações
sobre a carreira de Hitler como pintor e as demais eram o fichário
fotográfico de todos os prédios do governo construídos nas principais
cidades alemãs durante o Terceiro Reich. Emily não perdeu tempo,
ligando para o Palace Hotel, a fim de verificar se Kirvov já estava lá. O
russo já chegara e ela falou-lhe pelo telefone:
— Recebi o material de Oxford. Talvez forneça alguma
informação sobre o prédio em seu quadro de Hitler.
— Não sei como agradecer tanta gentileza. Está livre para
almoçar? Podemos nos encontrar aqui, no restaurante do hotel, e
depois examinaremos juntos o material.
Emily acertou o encontro. Mal desligara quando o telefone tocou. Atendeu prontamente.
Era Rex Foster, e Emily experimentou uma satisfação juvenil ao
ouvir sua voz.
— Sei que não é da minha conta, mas onde esteve ontem à
noite? — indagou ele. — Devo ter ligado uma meia dúzia de vezes.
Ela ficou satisfeita.
— Estava inspecionando o local de escavação, até quase a hora
do jantar. E depois fui jantar com o homem que vai supervisionar a
escavação para mim... desde que eu obtenha a permissão. Fiquei
conversando com ele e a mulher, relatando o que vi no bunker.
Fez uma pausa, antes de perguntar:
— Mas por que me telefonou? Ah, sim... imagino que foi para
descobrir se eu poderia ajudá-lo a localizar o tal arquiteto Zeidler.
— Não, Emily, não foi por isso. Eu só queria saber se você
estava... talvez se não tivesse outra coisa para fazer...
— Se quer saber como estou, por que não vai comigo ao Palace
Hotel? Vou almoçar lá com Nicholas Kirvov. Está lembrado? O curador
do Hermitage, em Leningrado. Quero ajudá-lo a descobrir tudo sobre o
quadro de Hitler. E você também poderia ajudar, Leve o seu portfólio da
arquitetura do Terceiro Reich. E tenho a impressão de que vai gostar de
conhecer Kirvov. Vocês dois têm muita coisa em comum.
— Estou mais interessado no que você e eu temos em comum —
declarou Foster. — Muito bem, vamos ao almoço.
Combinaram a hora para se encontrarem no saguão.
Ao chegarem ao restaurante do Palace, ao meio-dia e meia,
encontraram Kirvov à espera de Emily, um tanto consternado. Depois
de cumprimentar Foster, ele pediu desculpas a seus convidados. O
restaurante estava lotado e não poderiam ter a reserva antes de meia
hora.
— Por que não aproveitamos esse tempo para tentar descobrir a
localização do prédio em seu quadro de Hitler? — sugeriu Emily. Ela
olhou ao redor. — Poderíamos ir para o seu quarto, a fim de termos
mais privacidade, se não se importa.
— É melhor mesmo — concordou Kirvov prontamente. —
Acompanhem-me, por favor.
Poucos minutos depois, Emily e Foster, com o arquivo fotográfico
e o portfólio de arquitetura, estavam no quarto de Kirvov, no quarto
andar. Emily notou que era um quarto agradável, com cortinas claras
de belbutina nas janelas, o papel de parede de um castanho-amarelado,
um aparelho de televisão a cores, com um vaso de rosas amarelas em
cima, uma colcha na cama de casal.
— Vamos ver logo o seu quadro — propôs Emily.
— Sentem-se, por favor — disse Kirvov, puxando duas cadeiras
para uma mesa no canto, enquanto Foster pegava uma terceira cadeira.
Depois que se sentaram, Kirvov pegou o quadro e colocou-o
diante dos convidados.
Comparando a todo instante com o quadro, Emily examinou o
seu fichário de fotografias dos prédios do governo em Berlim no Terceiro
Reich. Enquanto isso, também olhando o óleo, Foster virava as páginas
de seu portfólio, aberto no chão, ao lado de sua cadeira. E de repente
Emily exclamou:
— Acho que descobri, Nicholas! — Ela tirou uma fotografia da
pasta e suspendeu-a ao lado do quadro. — Não é o mesmo?
Foster tirou uma folha de seu portfólio e pôs ao lado da
fotografia, estudando atentamente. Era outra imagem do enorme prédio,
só que de um ângulo diferente. Emily não teve mais qualquer dúvida e
declarou:
— É isso mesmo. A diferença é que nenhum dos dois tem um
ângulo da porta da frente exatamente igual ao que está no quadro.
Ligarei para Pamela, a fim de verificar se ela tem mais alguma coisa nos
arquivos, só para confirmar.
— Boa idéia. — Foster virou-se para Kirvov. — Mas já estou
convencido de que encontramos o seu prédio, Nicholas.
O russo estava sorrindo.
— Também tenho certeza. Mas... eu gostaria de saber de uma
coisa: que prédio é esse?
— O Reichsluftfahrtministerium — informou Emily. — O
Ministério do Ar do Reich, também conhecido como Ministério do Ar
Göring. — Ela leu a legenda no verso. — Construção iniciada em 1933 e
concluída em 1935.
— Uma descoberta extraordinária! — exclamou Kirvov,
entusiasmado. — O único quadro de Hitler feito em Berlim, ao que eu
saiba!
— Ele deve ter pintado depois de 1935, mas não muito depois
do início dos anos 40 — comentou Emily. — Porque depois disso não
poderia pintá-lo. Simplesmente porque o prédio não existia mais. Todos
os prédios do governo do Terceiro Reich foram destruídos,
completamente arrasados, pelos intensos bombardeios aéreos dos
americanos e ingleses, no princípio da década.
Foster estava relendo a legenda em seu portfólio. Então levantou
a cabeça e disse:
— Espere um pouco, Emily. O que está dizendo não
corresponde exatamente à verdade.
Emily ficou desconcertada.
— Como assim?
— Nem todos os prédios governamentais do Terceiro Reich
foram totalmente destruídos pelos bombardeios Aliados sobre Berlim no
início dos anos 40. Um prédio resistiu, quase intacto. Apenas um.
— Qual deles? — indagou Emily.
Foster indicou a foto anexada à folha de seu portfólio.
— Exatamente este. O Ministério do Ar Göring foi o único que
resistiu aos bombardeios. Foi danificado em 35 por cento, mas a
estrutura nunca foi destruída. Somente o Ministério do Ar, entre toda a
arquitetura de Hitler, resistiu em Berlim. Estava nos anos 30 e 40 onde
se encontra hoje, nos anos 80.
— Mas o que está querendo dizer? — interveio Kirvov.
— Que Adolf Hitler pode ter pintado o seu óleo nos anos 30... e
pode também ter pintado no início dos anos 40, talvez mesmo nos anos
60, 70 ou 80. Porque o prédio continua de pé, pronto para ser pintado por qualquer um. Hitler poderia tê-lo pintado em qualquer época
posterior a seu suposto suicídio em 1945.
— Se ele sobreviveu — comentou Emily baixinho.
— Exatamente — concordou Foster.
Emily olhou rapidamente para os dois e sugeriu:
— Acho que devemos almoçar antes de tentarmos digerir essa
informação.
— E tomar um bom drinque — acrescentou Foster pensativo.
Eles passaram a maior parte da tarde no restaurante do Palace,
almoçando e especulando sobre a possibilidade de a identificação do
Ministério do Ar Göring lhes revelar alguma coisa sobre o verdadeiro
destino do Führer. Emily foi obrigada a lembrar a si mesma que ainda
careciam de fatos concretos e se empenhavam num jogo de
adivinhação. Kirvov mostrou-se mais prático. Achou que seria uma boa
idéia dar uma olhada no prédio apresentado no óleo de Hitler. Emily e
Foster prometeram levá-lo ao local, em Berlim Oriental, assim que
estivessem livres. Enquanto isso, Kirvov tentaria descobrir a galeria de
arte que vendera o quadro de Hitler, já que ainda não recebera a
informação do homem que lhe trouxera a obra. De volta ao saguão do
Kempinski, Foster disse a Emily:
— Você falou de Rudi Zeidler esta manhã. Sua secretária enviou
alguma informação sobre ele?
— Zeidler, o arquiteto nazista que você queria encontrar. O que
tem as plantas desaparecidas. Claro que sim. Desculpe, Rex, eu tinha
esquecido. A remessa de Pamela incluía pastas sobre os arquitetos de
Hitler. Tenho certeza de que Zeidler está lá. Vou examiná-las agora
mesmo e ligarei para você. — Ela começou a se encaminhar para o
balcão da recepção, acrescentando: — Vou pegar minha chave e ver se
tem algum recado.
— Está certo — disse Foster. — Eu estou com a minha chave. E
quero comprar alguma coisa para ler. Encontro-a no elevador.
Emily observou Foster se afastar para a esquerda, parando na banca que exibia diversos jornais e revistas, locais e estrangeiros.
Quando se virou, viu Foster avançar devagar em sua direção. Ele
passara os olhos pela primeira página do que parecia ser um tablóide
alemão, abrindo-o na segunda e terceira páginas. E parou
abruptamente.
Enquanto Emily especulava sobre o que poderia ter atraído a
sua atenção, ele recomeçou a andar.
Segurou-a pelo cotovelo, afastando-a do elevador, na direção de
uma mesa e três cadeiras no saguão.
— Quero lhe mostrar uma coisa — disse Foster
enigmaticamente.
Aturdida, Emily se sentou, os olhos fixos nele. Foster puxou
uma cadeira para junto dela.
— O que foi, Rex?
— Você não queria manter sua visita em segredo?
— Você sabe que sim.
— E quem estava a par de seu segredo... aqui em Berlim?
— Apenas as pessoas com quem tenho de trabalhar, como o
Professor Blaubach e mais duas ou três pessoas. E mais alguns em que
achei que podia confiar, como você, Tovah Levine, Nicholas Kirvov.
— Mas não contou a ninguém de jornal?
— Claro que não. Isto é, há um homem que sabe, Peter Nitz, do
Morgenpost. Mas ele foi o primeiro a me advertir para manter tudo em
segredo. — Emily franziu o rosto. — Por que está me perguntando tudo
isso, Rex?
Ele abriu o tablóide que tinha nas mãos.
— Porque agora todos em Berlim conhecem o motivo de sua
presença aqui.
— Eu... eu não compreendo...
Foster abrira o tablóide na terceira página e colocara no colo de
Emily.
— Veja você mesma.
Ela levantou a edição matutina do BZ e contemplou a sua fotografia, junto com Blaubach e Vogel, no monte de terra sobre o
Führerbunker. Por alguns segundos, ficou completamente consternada.
Depois, seus olhos desviaram-se para a legenda.