O Sétimo Segredo

Irving Wallace · Capítulo 9 de 10

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O Sétimo Segredo

Capítulo XI

 

O que Foster viu, o que prendeu sua atenção hipnotizada, foi um

guarda, de costas, um jovem soldado nazista, de uniforme cinza, uma

faixa com a suástica num braço, o outro sustentando uma

submetralhadora. Havia um coldre no cinto, contendo o que podia ser

uma Luger .08.

Para Foster, era evidente que a cabeça do soldado caíra para a

frente, o queixo encostado no peito.

A respiração era pesada, e ele deixava escapar uma sucessão de

roncos.

Cochilara durante o tedioso serviço de guarda noturna. Estava

sentado no patamar de uma escada que parecia descer para o vasto

bunker, e certamente adormecera.

O movimento seguinte de Foster era óbvio. Ele não pensou duas

vezes. Tirou o martelo do bolso da calça, segurando-o firmemente pelo

cabo, abriu a porta por mais alguns centímetros, bem devagar, e

passou.

Agachado, Foster avançou para as costas do guarda adormecido.

Sua visão periférica não divisou qualquer sinal de alguma pessoa no

bunker lá embaixo.

Quase em cima do guarda adormecido, Foster tentou prender a

respiração, erguendo-se gradativamente para ter um impulso maior.

Estava agora por cima do jovem nazista, olhando para os seus

cabelos cor de areia. Levantou o martelo acima do ombro e mirou.

O martelo desceu, o impacto firme, o golpe acertando em cheio

na base do crânio do jovem nazista.

A vítima não deixou escapar qualquer som. Começou a cair de

lado, inconsciente, a submetralhadora desprendendo-se de sua perna e

começando a cair também.

Desesperado para evitar o barulho de um corpo caindo ou o

estardalhaço da submetralhadora, Foster estendeu o braço livre,

sustentando o corpo do rapaz, ao mesmo tempo em que a mão estendia-

se para segurar a arma, os dedos conseguindo alcançá-la bem a tempo.

Mais um olhar para a área lá embaixo.

Ninguém fora alertado. Não havia ninguém à vista.

Mesmo assim, Foster sabia que não podia perder sequer um

precioso segundo. Estava no território subterrâneo do inimigo,

herdeiros dos mais brutais assassinos dos tempos modernos, e devia

estar preparado para qualquer coisa. Tornando a guardar o martelo no

bolso da calça, pegou firmemente a submetralhadora com a mão direita

e levantou o guarda inerte com o braço esquerdo. Recuando devagar,

passou com o corpo pela porta e fechou-a com a ponta do pé.

Baixando o guarda para o chão, Foster examinou-o. Devia ter

trinta e poucos anos, nariz arrebitado, os olhos fechados. O golpe abrira

a pele, provavelmente fraturara o crânio, e um filete de sangue escorria

pelo pescoço do nazista. Foster não pôde determinar se o homem ainda

respirava ou se havia ainda alguma pulsação. Mas, qualquer que fosse

o seu estado, o guarda passaria muito tempo inconsciente, talvez para

sempre. Constatou que o homem era um pouco mais baixo do que ele,

mas afora isso tinham mais ou menos o mesmo corpo. E chegou à

conclusão de que a troca funcionaria.

O que fez em seguida era familiar para Foster. Já o fizera uma

vez, com o cadáver de um vietcongue, antes de uma infiltração no

Vietnã. E vira acontecer em filmes. Esperava que fosse suficiente.

Ajoelhando-se, começou a tirar as roupas de soldado inconsciente, o

cinturão com o coldre, a túnica, a calça, os sapatos.

Foster olhou ao redor, à procura de um lugar para esconder o

corpo inerte. Notando o que parecia ser um armário embutido numa

parede, levantou-se, foi até lá e abriu as portas. Era de fato um armário,

com três colchões empilhados. Foster voltou, puxou o corpo do soldado,

levantou-o com alguma dificuldade para o colchão de cima e ajeitou-o

ali. Só mais uma verificação. Ainda não havia o menor sinal de consciência. Aquele guarda não ofereceria qualquer perigo.

Foster despiu-se depressa. Jogando suas roupas no armário,

fechou as portas e depois pegou o uniforme do nazista, começando a

vesti-lo. Ao terminar, constatou que o uniforme cinza estava um pouco

largo e a calça alguns centímetros mais curta, mas não chegava a fazer

muita diferença. Ajustou o cinto com a arma, tirou a Luger do coldre,

examinou-a e confirmou que estava com um pente de balas.

Estava pronto agora. Usar o uniforme nazista era-lhe

repugnante, mas o disfarce valia a pena, qualquer que fosse o custo, já

que era a única esperança de encontrar Emily. Rezava para que ela

ainda estivesse viva, e ilesa.

Com mais confiança, passou pela porta para o patamar, onde

vira a sua vítima cochilando durante o serviço de sentinela. Agachando-

se por um instante, esquadrinhou a área lá embaixo. Em sua mente de

arquiteto, tentou sobrepor a planta do sétimo bunker que estudara

tantas vezes e gravara na memória.

O bunker ajustava-se perfeitamente à planta. Foster sabia que

fora projetado no padrão geral do Führerbunker menor, só que em

escala muito maior. Podia ver os cômodos menores, nos dois lados do

largo corredor central. Pelo que estudara da planta, a suíte grande

estaria localizada na extremidade do corredor. Era o tipo de suíte que

alojaria alguém no comando... certamente alguém como Adolf Hitler.

Não podia haver qualquer dúvida de que Hitler preparara aquela

suíte — e aquele bunker — para si e Eva Braun.

A possibilidade de que o próprio Hitler ainda pudesse estar ali

ocorreu-lhe com mais intensidade. Hitler... Se não Hitler, então Evelyn

Hoffmann, porque estava agora convencido de que Evelyn Hoffmann era

nada menos que Eva Braun.

E se Eva Braun controlava a suíte, era bem provável que Emily

também estivesse ali.

Seria o seu destino, a suíte grande, e seguiria diretamente para

lá.

Calculou que encontraria outras sentinelas noturnas, pelo menos mais uma ou duas, ao longo do corredor, e estava preparado

para qualquer desafio.

Começou a descer a escada, pisando com cuidado, nas botas de

couro apertadas da Wehrmacht, saindo quase na extremidade do

corredor, coberto, por um carpete verde-escuro.

Confiante, iniciou a tensa marcha entre as duas fileiras de

portas fechadas, a caminho do posto de comando.

Ninguém à vista.

E depois, alguém.

Encostado ao lado do que parecia ser a porta de um escritório,

outra sentinela noturna, um homem também jovem, louro, alto e

esguio, absorvido em limpar as unhas, a Heckler & Koch encostada na

parede ao lado.

Foster avançou em sua direção sem qualquer hesitação. Quando

já estava quase emparelhando com a sentinela, reconsiderou por quem

deveria perguntar. Frau Evelyn Hoffmann ou Frau Eva Braun. O

instinto levou-o a voltar ao que planejara inicialmente. Pelo canto da

boca, ele disse ao guarda, num alemão perfeito:

— Tenho uma mensagem urgente para Número Um.

Apenas isso. Sem nome. Neutro. Número Um. Seguro. Ou pelo

menos ele assim esperava. O guarda mal se deu o trabalho de levantar

os olhos.

— Ela está provavelmente dormindo agora... mas se é alguma

coisa especial, pode ir.

Foster saudou-o e, com seu melhor porte militar, como um

soldado levando uma mensagem vital a seu líder, continuou a marchar

em frente. Esperou que o guarda reconsiderasse, o chamasse de volta,

mas isso não aconteceu.

Chegando à suíte na extremidade do corredor — sem aberturas,

madeira de alto a baixo, privacidade absoluta — ele se lembrou do

projeto do sétimo bunker. Virando à esquerda, avançou depressa pela

passagem, até encontrar a porta da suíte.

Sem saber o que poderia aguardá-lo lá dentro, Foster pôs a mão na maçaneta de latão e virou-a, tão silenciosamente quanto possível.

A porta se abriu e ele entrou numa pequena sala de recepção,

mobiliada com uma escrivaninha modesta, uma cadeira giratória e duas

cadeiras dobráveis. Não havia ninguém. Apenas uma segunda porta.

Tirando as pesadas botas militares, encaminhou-se furtivamente

para a segunda porta. Não havia fechadura. Ele abriu-a. Deu uma

olhada. Dois abajures de pé proporcionavam a única iluminação da sala

sem janelas. Era uma combinação de sala de estar e escritório, com

uma enorme escrivaninha de carvalho à direita, um sofá e duas

poltronas no outro lado, de frente para uma prateleira de madeira que

parecia um consolo, mas com uma estante cheia de livros por baixo, em

vez de uma lareira.

Até onde ele podia perceber, a grande sala estava completamente

desocupada.

Mas estava enganado.

— Rex... — chamou uma voz de mulher, abafada.

Sabia que o som partia de Emily, que ela se esforçava para

levantar por trás do sofá e ser vista.

Foster foi até o sofá. Emily, as mãos e pés amarrados, arriara

outra vez no sofá, estendida de costas, à sua espera. Ajoelhando-se,

trabalhando depressa para desfazer o nó da corda que a prendia, Foster

conseguiu sorrir para a incredulidade que se estampava no rosto pálido

de Emily. Os cabelos castanho-avermelhados estavam desmanchados, a

saia de tweed levantada acima dos joelhos, obviamente por seus

esforços para se livrar. Mas parecia ilesa.

— Você está bem? — sussurrou ele, afrouxando os nós. Emily

acenou com a cabeça.

— Tem mais alguém por aqui?

— Psiu — disse Emily. — Tem sim. No quarto. Tome cuidado. —

Quando seus braços ficaram livres, ela acrescentou: — Como conseguiu

chegar aqui?

— Não importa agora. Você vai descobrir daqui a pouco. Ele

desamarrava as cordas nos tornozelos, e ajudou-a a se

sentar.

— Não sabe como rezei para que você estivesse bem. Foster

estava no sofá ao lado de Emily, abraçando-a e beijando-

a. Ela se comprimiu contra o seu corpo, aproximando a boca do

seu ouvido.

— Eu não estaria bem pela manhã. Estão me guardando para

outro interrogatório. Um homem horrível chamado Schmidt esteve aqui

há poucas horas...

— Ele é o chefe da polícia de Berlim, um nazista secreto.

— ...para usar pentotal sódico em mim, a fim de descobrir

quanto somos aqui em Berlim, o que sabemos, para poder nos descobrir

e eliminar. Mas no instante em que chegou ele foi avisado de que

deveria comparecer imediatamente a uma audiência, esta noite, sobre a

morte de Ernst Vogel. Para determinar se foi suicídio ou assassinato. Ao

que parece, era muito importante, porque ele saiu no mesmo instante.

Mas prometeu que voltaria pela manhã, a fim de administrar o pentotal

sódico e me interrogar. Sou a primeira de nosso grupo a ser capturada.

Depois que falasse tudo, seria executada e cremada. Antes de se retirar,

Schmidt disse a ela que trabalharia em mim bem cedo, depois viajaria

para Munique.

— Disse a ela? — repetiu Foster. — De quem está falando?

Quem é ela?

— Eva Braun. A verdadeira. Ela se apresenta como Evelyn

Hoffmann. Mas gabou-se para mim que é Eva Braun.

— E Hitler?

— Já morreu. Há muito tempo. Ele e Eva viveram aqui, por

baixo da cidade, durante dezoito anos, até que Hitler morreu de doença

de Parkinson. Ela comanda tudo desde então.

— Incrível — murmurou Foster aturdido. — O que eles querem?

— Sobreviver. Não apenas por si mesmos, mas para ressuscitar

o Terceiro Reich. Olhe ali.

Emily levantou-se com alguma dificuldade e levou Foster até o

consolo.

— Ao lado da urna grega que ela idolatra, onde estão guardadas

as cinzas de Hitler. Entre a urna e o quadro de Hitler que roubaram de

Kirvov. As palavras impressas na moldura são de Hitler.

Foster aproximou-se. A citação dentro da moldura, pendurada

na parede, estava escrita em alemão e dizia:

O CONFLITO ENTRE RÚSSIA

E ESTADOS UNIDOS É INEVITÁVEL.

VAI ACONTECER.

E QUANDO ISSO OCORRER,

DEVO ESTAR VIVO — OU MEU SUCESSOR,

COM OS MESMOS IDEAIS — PARA LIDERAR

O POVO ALEMÃO,

PARA AJUDÁ-LO A SE ERGUER DA DERROTA,

PARA CONDUZI-LO À VITÓRIA FINAL.

 

ADOLF HITLER

— Santo Deus! — murmurou Foster.

— Suas palavras para um oficial da SS.

— Foi para isso que ele viveu?

— E é para isso que ela vive hoje.

— Mas como, Emily? — Foster fez uma pausa, pensando. — O

que eles estarão planejando?

— Não sei. Não ouvi nada.

— Pois vamos descobrir. — Ele tirou a Luger do coldre. —

Vamos fazer uma visita a Eva Braun. Ela está no quarto?

— No quarto ao lado do que Hitler ocupava. Ela não vai falar,

Rex. Jamais dirá coisa alguma.

Ele refletiu por um instante e depois sussurrou.

— O pentotal sódico. Tencionava usá-lo em você. Sabe onde

está?

Emily assentiu.

— Schmidt deixou-o na gaveta da escrivaninha, a de cima, no

lado direito. Ouvi-o comentar que era válido por vinte e quatro horas.

— Descubra-o, Emily. E pegue a corda no sofá. Vamos precisar

dela.

Chegando à mesa, Emily abriu a gaveta e tirou um saco plástico.

— Uma seringa, algo para usar como torniquete e uma solução

amarelada: pentotal sódico. É esse mesmo.

— O soro da verdade. — Foster olhou para a Luger. — Leve-me

ao quarto. Está na hora da verdade.

 

Quinze minutos se haviam passado, e agora Eva Braun estava

estendida de costas na cama, os pulsos e tornozelos amarrados aos

balaustres da cama, amordaçada. Os olhos estavam abertos, não mais

aterrorizados. Apenas desfocados.

Pentotal sódico. Perfeito, pensou Foster, inclinando-se por cima

dela.

Até aquele ponto, refletiu Foster, fora bastante fácil. O súbito

aparecimento dos dois e as luzes acesas levaram Eva Braun a um

despertar imediato. A arma encostada em sua cabeça a forçara à

submissão e, depois, ao silêncio.

— Pegue algumas roupas e faça-a vesti-las, Emily — ordenara

ele.

Depois que Emily pegara as roupas, Foster lhe entregara a arma

e deixara o quarto.

Ao voltar, encontrara Eva inteiramente vestida, outra vez

deitada, Emily apontando-lhe a Luger.

— Segundo passo — dissera ele a Emily. — Passe-me a arma e

pegue a corda.

Depois de a amarrarem à cama, ele pedira a Emily que pegasse o

pentotal sódico. Pela primeira vez, Eva Braun protestara, na maior

agitação:

— Não, não, não! — implorara ela.

Mas Foster só pensara nos seis milhões de vítimas do holocausto

que também haviam suplicado por suas vidas, que lhes fora negada. A

mulher do monstro, ela própria um monstro agora, também devia ser repelida. Foster enfiara a mordaça em sua boca e depois, com ar

resoluto, preparara-se para aplicar o soro da verdade.

Lembrando-se do que testemunhara no Vietnã, ele enchera a

seringa com a solução. Depois, usando o torniquete, procurara uma

veia bem saltada no pulso dela. Com todo cuidado, inserira a agulha na

veia e injetara a droga intravenosamente. Retirando a agulha, observara

Eva, murmurando para Emily.

— Deve fazer efeito em menos de um minuto.

Olhando fixamente para Eva agora, ele podia constatar que os

olhos se encontravam vidrados, ela estava completamente grogue.

— O efeito deve durar de uma a duas ou três horas. Aplicarei

nela uma injeção de reforço depois. — Pegando Emily pelo braço e

guardando a Luger no coldre, Foster acrescentou: — Podemos deixá-la

por alguns minutos. Temos outra coisa a fazer.

Saiu do quarto com Emily, atravessando o pequeno corredor até

a sala. Por um momento, Foster ficou em silêncio, pensando, e depois

perguntou:

— Emily, tem alguma idéia de quantos nazistas estão

escondidos aqui?

— Eva me disse: "Somos mais de cinqüenta."

— Tem alguma idéia de quem são eles?

— Ela também falou sobre isso com bastante orgulho. Alguns

homens do antigo círculo íntimo de Hitler, que foram declarados

desaparecidos. Muitos da Juventude Hitlerista, enviados aqui para

baixo antes de Hitler se instalar no bunker. Todos são agora adultos,

muitos têm família. Não há crianças aqui, ninguém com menos de

dezesseis anos. As mulheres grávidas são sempre enviadas para a

Argentina, onde nascem seus filhos. As mulheres voltam sozinhas. As

crianças são criadas e treinadas por alemães na Argentina. Só depois de

completarem dezesseis anos é que os jovens voltam a Berlim, a fim de

ocuparem seus lugares no bunker.

— Mas todos são nazistas obstinados.

— Mais do que isso. Além de nazistas, são também assassinos, condicionados para matar.

— Matar quem, Emily?

— Qualquer um lá em cima que possa ameaçá-los. Ela falou

sobre a necessidade de exterminar... foi a palavra que usou... anti-

nazistas, judeus proeminentes, caçadores de nazistas e estrangeiros

perigosos, como meu pai. — Emily piscou os olhos. — Ela admitiu que o

"acidente" de meu pai foi arrumado. Também admitiu que seus

seguidores foram responsáveis por pelo menos 200 assassinatos, nos

últimos vinte anos. Eles o liquidariam no mesmo instante, se

soubessem que esteve aqui. São implacáveis, Rex, absolutamente

brutais.

— Muito bem, Emily. Tenho uma missão para você. Vou tirá-la

daqui agora. Mostrarei o caminho por onde entrei, pois será por lá que

você vai sair.

— Numa missão?

— Isso mesmo. Sairá sob o monte do Führerbunker original,

subindo para a antiga saída de emergência, para a Zona de Segurança

de Berlim Oriental. Oberstadt está lá em cima. Ele não terá qualquer

dificuldade em levá-la pelo portão. Procure o telefone mais próximo.

Fale com Tovah Levine, no Bristol Kempinski. Ela e Kir-vov estão

esperando. Diga-lhe que descobrimos tudo e mande que ela avise

imediatamente a Chaim Golding.

— Chaim Golding?

— O chefe do Mossad em Berlim. Tovah é uma de suas agentes.

Ele dispõe de pessoal e equipamentos para fazer o que é necessário.

Diga a ele que quero que extermine os ratos que estão aqui embaixo,

todos eles, imediatamente, esta noite.

Os olhos de Emily se arregalaram.

— Como, Rex?

— Da mesma maneira que a quadrilha de Hitler fez com os

judeus em Auschwitz. Mais exatamente, da maneira como Albert Speer

planejou uma vez livrar-se de Hitler.

— Ele ia injetar gás pelo ventilador do Führerbunker.

— Isso mesmo.

— E lançar uma granada de um gás que afeta o sistema

nervoso, chamado Tabun. Absolutamente letal.

— Só que desta vez os agentes do Mossad usarão provavelmente

um gás muito sofisticado, embora igualmente letal. Tovah está

aguardando em nossa suíte. A planta deste bunker está na mesa da sala

da suíte. Golding saberá como fazer. Este bunker dever ser

hermeticamente fechado. Você passou pela entrada por baixo do Café

Wolf?

— Isso mesmo. O guarda obrigou-me a descer uma escada, até

uma porta de aço. Destrancou-a e empurrou-me para dentro.

— Muito bem. Lembre aos agentes do Mossad para cuidarem do

guarda no Café Wolf, descerem e trancarem a porta de metal. E depois

eles devem bombear o gás. Em poucos minutos, todos os nazistas aqui

embaixo estarão liquidados. Está com o relógio?

— Estou.

— Vamos coordenar o tempo, Emily. Pelo meu relógio, é uma e

vinte da madrugada.

— Uma e vinte da madrugada — repetiu ela. — Certo.

— Avise a Tovah que os agentes do Mossad devem começar a

bombear o gás exatamente às três horas da madrugada. Pontualmente

às três. E agora vamos embora. Quero tirá-la daqui e depois voltarei

para interrogar a nossa Eva Braun. Vou calçar de novo aquelas botas

e...

— Espere um pouco, Rex. Vai me tirar daqui e depois voltar

para interrogar Eva? O que acontecerá com você quando bombearem o

gás?

— Sairei antes deste bunker e também do antigo Führerbunker.

Encontrarei com você lá em cima. Depois que falar com Tovah e

Golding, volte ao Führerbunker. Com as suas credenciais, os alemães

orientais a deixarão passar de novo.

— Estarei à sua espera.

Foster pegou-a pelo braço, murmurando:

— Estará à nossa espera. Sairei junto com Eva. Emily ficou

aturdida.

— Por que? Foster sorriu.

— Precisamos de uma sobrevivente para provar que Hitler não

morreu em 1945, que ele conseguiu escapar. Precisamos de alguém

para confirmar a nova e sensacional conclusão de sua biografia.

Ela beijou-o.

— Amo você, seu doido.

A princípio, com Emily a reboque, Foster estava preocupado,

mas descobriu que fora mais fácil do que na primeira vez.

Havia dois guardas nazistas no corredor agora, absorvidos em

conversa. Era óbvio que um deles estava prestes a substituir o outro no

serviço. Em seu uniforme com a suástica, Foster mostrou-se com porte

ainda mais militar, parecendo mais concentrado em sua missão do que

quando entrara da outra vez.

Passou com Emily pelos guardas como se ela pertencesse ao

lugar — e era evidente que devia pertencer, caso contrário não estaria

no bunker —, e os homens limitaram-se a fitá-la por um instante, mal

prestando atenção a Foster.

Levou Emily para a porta do mezanino, ajudou-a a passar pelo

buraco quadrado para o túnel, informando onde estava a lanterna,

explicando como sair e o que devia esperar.

E depois, sozinho, voltou ao quarto de Eva Braun.

Depois de tirar-lhe a mordaça, Foster acomodou-se na beira da

cama. Os olhos de Eva estavam arregalados, um pouco desfocados,

fixos no teto. Foster não sabia direito como funcionava o soro da

verdade ou por onde começar o interrogatório. Mas em Saigon

testemunhara o pentotal sódico ser usado como soro da verdade em

prisioneiros vietcongues e achava que deveria funcionar da mesma

maneira agora. Ouvira um capitão comentar que era como conversar

com alguém durante o sono. Acabava com as inibições, removia

qualquer camada de mentira, levava a pessoa a dizer tudo o que tinha

no subconsciente. A coisa era simples e direta; e se o efeito começava a passar muito depressa, podia-se ministrar um reforço, deixando a

pessoa sonolenta, mas não adormecida nem em estado de choque.

Resolveu que começaria por algumas perguntas fáceis, a fim de

pegar o jeito, depois iria direto à questão e sairia antes que os agentes

do Mossad despejassem o gás venenoso no bunker.

— Seu nome é Eva Braun, não é mesmo?

O olhar deixou o teto, para tentar se fixar na pessoa que lhe

falava.

— Evelyn... Evelyn... — Uma pausa. — Eva. Eu sou Eva Braun

Hitler.

Havia algo de incrível naquela situação, algo assustador, a

mulher notória do passado a se identificar, estendida naquela cama.

— Eva, você se lembra da data de 30 de abril de 1945?

— Claro. É a data em que todos acreditam que nós morremos.

Mas os enganamos... enganamos a todos. Escapamos.

— Como enganaram a todos?

— Usando o ator e a atriz que eram nossos... nossos sósias.

Esqueci o nome da mulher... não, estou lembrando... Hannah Wald... e

acho que ele era Müller... isso mesmo, Müller. Os dois foram trazidos ao

Führerbunker na noite anterior. Estavam apavorados. Tenho certeza de

que desconfiavam. Nós os mantivemos em nossos aposentos... naquele

dia... não, naquela noite... eles vestiam as nossas roupas. Bormann deu

um tiro em Müller e depois obrigou Hannah... pobre coitada... a tomar

cianureto. Os corpos foram levados para a sala em que estavam os

cachorros e... no dia seguinte...

Ela hesitou, parou de falar.

— No dia seguinte — incentivou-a Foster. — O que aconteceu

no dia seguinte, Eva?

— No dia seguinte meu marido e eu pusemos os dois no sofá. E

depois...

Ela tornou a se calar.

— Depois o que, Eva?

— Rastejamos pela passagem no quarto e atravessamos o túnel para o novo bunker. E Bormann... depois que os outros levaram os

corpos... Bormann voltou sozinho ao quarto, repôs o painel no lugar,

ajeitou o bloco, cobriu-o, empurrou a cômoda para a parede. E depois

ele deve ter saído.

— Para onde Bormann ia?

— Deveria se encontrar conosco e ficar também no outro

bunker.

— E isso aconteceu?

Por um momento Eva pareceu ficar aturdida.

— Não. Bormann deveria se encontrar com a gente na outra

entrada...

— O Café Wolf?

— Tinha um nome diferente na ocasião. Era um bar, no mesmo

lugar. Mas... eu... eu não sei... Bormann nunca apareceu. Alguém disse

mais tarde que ele foi morto ao deixar o Führerbunker... talvez por uma

explosão da artilharia russa. Mas não sei com certeza.

Foster percebeu que a atenção de Eva Braun se diluía e torceu

para que a memória não fosse afetada.

— Eva, quando foi construído o bunker para onde você e Hitler

escaparam?

— Longe de Stanlingrado. Der Führer já tinha a planta.

— Hitler não receava que os operários pudessem denunciar a

localização?

Ela ficou em silêncio por um instante.

— Não sei... nunca pensei nisso.

— Quer dizer então que viveram neste bunker e ninguém jamais

descobriu?

— Ninguém.

— Hitler nunca deixou o bunker e subiu para a cidade lá em

cima?

— Claro que não.

— E você... você saiu alguma vez daqui, enquanto Hitler estava

vivo?

— Eu queria, é claro, mas o Führer nunca permitiu. Só depois

que tivemos a criança...

Tiveram a criança? Foster não podia acreditar no que estava

ouvindo. Examinou atentamente o rosto impassível de Eva Braun, em

busca de qualquer sinal de fantasia. E depois perguntou, bem devagar:

— Você e Hitler tiveram um filho?

— Todo mundo sabe disso. O tom de Eva era impaciente.

— Claro, claro. Então vocês tiveram uma criança...

— Antes de meu marido ficar gravemente doente. Depois que

Klara nasceu, meu marido queria que ela fosse criada normalmente em

Berlim, mas que nunca se tornasse conhecida como nossa filha.

Depois de tantos anos no bunker, tive permissão para sair,

levando Klara. O Café Wolf já existia na ocasião e eu saí...

— A quem você deu Klara?

— À minha antiga criada... a primeira Liesl. Wolfgang Schmidt

sabia que Liesl se fixara em Berlim. Achou que era seguro falar a ela

sobre a nossa fuga, especialmente depois de lhe dar um bom dinheiro.

Schmidt providenciou para que Liesl assumisse Klara como sua própria

filha.

— Foi a primeira vez que você saiu. Quando foi a seguinte?

— Alguns anos mais tarde. — Havia uma expressão angustiada

no rosto de Eva quando acrescentou: — Depois que meu marido

morreu.

— Ele estava muito doente?

— Só no final. Antes, estava muito bem. Mantinha-se ocupado

planejando o futuro, às vezes lia, escutava música, até mesmo pintava.

Eu o fazia pintar para se distrair. — Parecia confusa outra vez. — Não,

foi antes de ele morrer... poucos anos depois do nascimento de Klara...

que saí do bunker pela segunda vez. Queria tirar fotografias de alguns

dos seus prédios antigos favoritos para ele copiar... pintar... mas só

pude encontrar um... o prédio de Göring... o Reichsluftfahrtministerium,

na Leipzigerstrasse. Anos depois, vi o Muro pela primeira vez... uma

atrocidade arquitetônica, infligida a uma cidade maravilhosa...

— E seu marido morreu. Quando?

— Quando o presidente americano... Kennedy... morreu... foi

morto, no Texas. O rádio deu a notícia. Meu marido morreu da doença

de Parkinson no mesmo dia. — Os olhos de Eva lacrimejavam. —

Fizemos uma cerimônia e depois cremamos o corpo.

— Depois disso você passou a sair do bunker regularmente?

— Talvez uma vez por mês, para visitar Klara e Liesl, às vezes

Schmidt. Ninguém podia mais me reconhecer, e por isso não havia

qualquer problema. Aos poucos, comecei a sair do bunker com mais

frequência, e logo todas as semanas, para visitar Klara, como sua tia

Evelyn. A linda Klara, algo a que podia me apegar. E é claro que

também havia o trabalho...

— Que trabalho? — perguntou Foster, bruscamente.

— Continuar o que meu marido estava fazendo.

— Estimular um conflito armado entre os Estados Unidos e. a

União Soviética?

— Ora, isso aconteceria de qualquer maneira, meu marido

sempre teve certeza. — Deu um tênue sorriso. — Será um dia

maravilhoso quando eles se aniquilarem mutuamente. Detestamos

igualmente a União Soviética e os Estados Unidos, embora a América

tenha um líder que passamos a respeitar. Estou falando do presidente

cowboy, que homenageou nossos quarenta e nove mortos da Waffen SS,

no cemitério de Bitburg, na primavera passada. Meu marido teria

apreciado a sua cortesia. Mas todos os outros americanos e russos são

nossos inimigos. Será bom saber que eles se destruíram uns aos outros.

— Esse conflito entre americanos e russos... quando deveria

acontecer? Você sabe?

— Algum dia... algum dia no futuro. — A voz de Eva tornou-se

quase inaudível. — Mas primeiro... primeiro havia uma coisa mais

importante. Estar pronta quando o momento chegasse. A Alemanha

devia estar preparada. A Alemanha era tudo o que importava. Tornar a

Alemanha forte outra vez. Prepará-la para o renascimento.

— Como?

— Eliminando os nossos inimigos. Schmidt se livrará dos

estrangeiros amanhã, da mesma forma que cuidou de muitos dos

nossos inimigos, ao longo dos anos. E depois ele vai para Munique,

iniciando uma excursão pela Alemanha. Terá reuniões com as pessoas

que mantêm contato com as 158 organizações de simpatizantes

nazistas, como a Frente de Ação Parda, em Rosenheim, e a União

Belsen, em Düsseldorf. Mais úteis, porém, serão os encontros com os

adeptos alemães, respeitáveis e de confiança, industriais, políticos,

veteranos de guerra, outros que são nossos amigos, para criar o novo

partido.

— O novo partido — repetiu Foster, suavemente. — Que tipo de

partido?

— Talvez um dos antigos assumindo o seu controle. Ou então

um partido completamente novo. Outra vez o nacional-socialismo. Só

que com um nome diferente. Schmidt decidirá.

— E Schmidt estará no comando?

— Isso mesmo, Wolfgang Schmidt. Tem de ser alguém que o

público identifique como antinazista. Depois que o partido estiver

formado, assim que a América e a Rússia tiverem se destruído,

voltaremos à superfície como o núcleo a comandar o partido,

assumindo o controle de tudo.

Foster fitou-a atentamente.

— É isso o que está sendo planejado.

— Há muitos anos. — Eva sacudiu a cabeça. — Havia muito a

fazer e sempre me preocupei que meu marido trabalhasse demais, em

seu estado... mas ele mandou milhões de dólares americanos para a

Argentina... e o Dr. Dieter Falkenheim preparou os materiais nucleares,

trouxe tudo para o bunker... está aqui. Para ser temido e respeitado,

qualquer país precisa ter um potencial nuclear.

As palavras potencial nuclear pareciam insólitas na boca de Eva

Braun. Era como se ela estivesse repetindo outras, talvez mesmo do

falecido marido.

— É verdade, Eva. Mas é preciso primeiro assumir o controle da Alemanha. Não sei se isso ficou muito claro para mim. Pode me dizer de

novo como fariam?

A voz de Eva Braun tornou-se mais impaciente.

— Pelo caminho normal. É óbvio. O partido político estará de

prontidão. Haverá bastante dinheiro. Há muitos ricos espalhados pela

Alemanha e na América do Sul que lembram os velhos tempos, os bons

tempos do passado, querem que voltem. Querem outra vez o poder.

Ajudarão a tornar o partido majoritário. E nos receberão com a maior

satisfação quando nos apresentarmos e assumirmos o comando.

Estávamos nos preparando quando meu marido morreu.

— E ele a incumbiu de continuar a sua obra, Eva?

Pela primeira vez, não houve resposta. Foster perguntou de

novo, Eva Braun persistiu no silêncio. Seus olhos começavam a

focalizá-lo. Ele decidiu que estava na hora da segunda dose. Aplicou o

torniquete, pegou uma veia, aplicou a injeção. Esperou um minuto,

rezando para que ela não dormisse.

Os olhos de Eva permaneceram abertos, só que agora estavam

mais uma vez desfocados. Foster inclinou-se para a frente,

recomeçando.

— Estávamos falando sobre o seu papel, Eva. Você ficou para

executar... para realizar o plano político.

— Para ficar no comando dos fiéis aqui embaixo. Mas lá fora é

Wolfgang Schmidt quem trabalha conosco. Ele conhece todo mundo.

Tem os contatos certos. Ele vai ser nosso... nosso...

— O homem de fachada. O líder. Ela assentiu.

Foster passou a interrogar Eva sobre os detalhes do plano para

tomar o poder. Ela divagava nas respostas. Enquanto discorria sobre as

expectativas de Hitler de um holocausto nuclear e a execução de outro

holocausto na Alemanha, Foster pensou nos carrascos de Hitler que

haviam cometido o primeiro holocausto e em seus herdeiros. Com um

calafrio a lhe percorrer o corpo, olhou para o relógio. Se tudo correra

bem — se os agentes do Mossad não haviam sido frustrados em sua

ação — os meios para acabar com aquela loucura deviam estar prestes a serem consumados. E se aconteceria em breve, não restava muito

tempo para sair do bunker, antes que o gás letal do Mossad começasse

a ser bombeado.

Isso mesmo, estava na hora de sair e levar Eva Braun.

— Você tem uma lanterna, Eva?

— Tenho sim. E bem potente. Na gaveta da mesinha-de-

cabeceira. Guardo-a sempre à mão para a possibilidade de um corte no

fornecimento de energia.

Levantando-se, Foster abriu a gaveta e pegou a lanterna.

— Vou desamarrá-la agora, Eva. Daremos um passeio.

Ele largou a lanterna e abaixou-se para desfazer os nós dos

tornozelos.

Subitamente, uma enorme sombra preta projetou-se na parede à

sua frente.

Aturdido, Foster virou-se.

Na porta do quarto, ocupando quase todo o vão, estava o vulto

gigantesco de Wolfgang Schmidt.

Por um instante, Schmidt também ficou espantado e paralisado.

Depois, como um animal selvagem, ele entrou em ação.

— Você, Foster, seu filho da puta! O que está querendo aqui? O

que fez com ela?

Implacável, inexorável, como um gigante vingativo, o rosto

avermelhado contraído pela fúria, ele começou a avançar pelo quarto.

Enquanto Schmidt estendia a mão para seu coldre por baixo do paletó,

Foster gritou-lhe:

— Não faça qualquer movimento ou eu o matarei, Schmidt!

Mas Foster sabia que não podia disparar sua Luger. O tiro

certamente atrairia meia dúzia de guardas nazistas. Em vez disso,

Foster pegou a lanterna na cama, no instante em que Schmidt sacava

sua Walther P 38.

Avançando para o gigante, Foster bateu com a lanterna na mão

que empunhava a arma. Schmidt soltou um grito de dor, enquanto a

automática escapava de sua mão e caía no chão.

Desesperado, Foster chutou a arma com toda a força que podia.

A arma deslizou para fora do quarto, batendo na parede do corredor e

desaparecendo na sala.

Enfurecido, Schmidt acertou com o punho enorme o lado da

cabeça de Foster, jogando-se contra o pé da cama, onde ele arriou,

caindo de joelhos.

Virando-se, Schmidt saiu correndo do quarto para ir buscar sua

arma.

Foster levantou-se, cambaleando, e partiu apressadamente no

encalço de Schmidt.

Na sala, encontrou Schmidt a fitá-lo, enquanto se abaixava para

pegar a arma. A mão de Schmidt já encostara na automática quando

Foster mergulhou em sua direção.

Schmidt caiu, a arma escapando outra vez de sua mão. Com

outro rugido, Schmidt levantou-se, enquanto Foster também ficava de

pé, cambaleando. Em frenesi, Schmidt atacou Foster, errando um

golpe, depois outro. Mas acertou o terceiro no queixo de Foster e

lançou-o com toda força contra o consolo.

No momento em que seus ombros bateram no consolo, Foster

levantou os braços e agarrou-o ao móvel para manter o equilíbrio.

Esbarrando na preciosa urna grega de Eva, ele deslocou-a e derrubou-a

no chão, onde bateu com um estrondo.

Schmidt, com uma expressão assassina nos olhos, estendeu os

braços enormes, um homem de Neandertal desvairado, avançando para

Foster a fim de matá-lo.

Foster pensou que estava perdido.

Arremessando-se para a frente, quase para as garras do

adversário, Foster ergueu-se abruptamente, desferindo-lhe um violento

golpe de judô. Aturdido, Schmidt tentou agarrar a perna, desviar o

golpe, mas foi lento demais. O pé de Foster acertou-o em cheio e com

toda força na virilha. O alemão se dobrou em agonia, tentando sufocar o

grito de dor, enquanto as mãos baixavam para a virilha. Tentando

recuperar o fôlego, Schmidt arriou, apoiando-se num joelho. Foster imediatamente tornou a atacar, dirigindo o pé contra a têmpora do

alemão.

Schmidt caiu para o lado, momentaneamente atordoado. Mas

era forte como um touro, e tentou se levantar mais uma vez. Foster

compreendeu nesses poucos segundos que se Schmidt se recuperasse e

ficasse de pé outra vez, ele poderia não sobreviver à força bruta do

inimigo.

Freneticamente, em terror mortal, Foster procurou alguma

arma, qualquer coisa que pudesse usar como arma. Não havia

nenhuma. Mas, de repente, as pontas de seus dedos tocaram no bronze

da urna grega virada no chão. Segurando-a com as duas mãos, Foster

virou-se para Schmidt, que sacudia a cabeça, tentando se levantar.

Foster ergueu a urna e, com toda a sua força, baixou-a no crânio do

alemão. A cabeça de Schmidt pendeu para trás, pareceu despencar para

o lado, sobre o ombro. Foster tornou a bater e bater, até que o gemido

do alemão desapareceu e ele tombou para o chão, inconsciente. Foster

postou-se ofegante por cima dele, percebendo que a urna se abrira em

seu ataque e que as cinzas estavam agora espalhadas por todo o rosto e

peito de Schmidt.

Largando a urna, ofegante, Foster ajoelhou-se ao lado do corpo

inerte de Schmidt, a fim de certificar-se de que ele estava mesmo

apagado. Não havia qualquer dúvida de que o alemão ficaria assim por

meia hora ou mais. Foster olhou para o cristal espatifado de seu relógio

de pulso. Se tudo correra bem, em breve, muito em breve, aquela sala e

todo o bunker subterrâneo estariam cheios de um gás letal. Schmidt

morreria, assim como todos os outros, muito antes de recuperar os

sentidos. E, Foster lembrou a si mesmo, ele também morreria se não se

apressasse.

Para ter certeza de que o corpo de Schmidt não seria descoberto

antes de o gás letal sair pelos tubos de ventilação, Foster procurou um

meio de escondê-lo. Lembrou-se então que passara pelo quarto de Hitler

no corredor. Metendo as mãos sob as axilas de Schmidt, com muito

esforço, arrastou o corpo inerte pela sala, saiu para o corredor, foi até a porta do quarto de Hitler. Abrindo-a, Foster empurrou o corpo de

Schmidt para dentro. Tornou a fechá-la.

Encostando-se na parede, Foster permitiu-se alguns momentos

para respirar fundo. Depois, compreendendo que o tempo se esgotava,

que poderia ficar acuado ali embaixo com os outros, entrou em ação.

Foi até a porta adjacente e entrou no quarto de Eva.

Não tinha certeza do que encontraria. A luta próxima a teria

despertado, trazendo-a de volta à normalidade?

Incrivelmente, porém, Eva continuava deitada, na mesma

serenidade com que a deixara. Ainda tinha os olhos vidrados, alheia ao

que ocorrera fora do quarto.

Foster pegou a lanterna, meteu-a num bolso, aproximou-se

outra vez de Eva. E repetiu o que já dissera antes:

— Vou desamarrá-la, Eva. E depois nós dois daremos um

passeio.

Ela piscou, sem entender.

O mais rapidamente possível, Foster começou a desamarrá-la da

cama.

Ela estava atordoada, completamente dócil, e não oferecia

qualquer resistência.

Foster segurara seu braço ao passarem pelo bunker secreto. O

único guarda de sentinela assumiu uma respeitosa posição de sentido

ao reconhecer Eva Braun, mas ignorou Foster, ainda vestindo o

uniforme nazista.

Depois de chegar ao mezanino, com Eva, Foster olhara para trás.

Pôde divisar o que não percebera antes — outros soldados de serviço na

extremidade do corredor. Não passara, contudo, por nenhum antes com

Emily e agora com Eva.

Eva permanecera indiferente, mas obediente, quando ele a

mandara rastejar do bunker, que fora o seu lar desde o final da guerra,

para o túnel às escuras. Com suas próprias roupas numa das mãos, a

lanterna na outra, ele se espremera atrás dela. Acendera a lanterna,

repondo o bloco no lugar e fechando assim o buraco para o bunker.

Depois, a lanterna iluminando o concreto à frente, levara Eva

pelo caminho subterrâneo agora conhecido, até a abertura para o antigo

quarto de Hitler, no Führerbunker menor.

Ela passara de joelhos, com Foster logo atrás, também de

joelhos. Ajeitando .a lanterna no chão, para que o facho iluminasse a

abertura, ele recolocara o bloco no buraco. Sozinho, recorrendo a toda a

sua força, conseguira encaixá-lo, empurrando de um lado e de outro

para que se ajustasse melhor. Depois, tornando a pegar a lanterna,

afastara Eva da cômoda, usando as últimas reservas de força para

empurrá-la até a parede. Agora, o sétimo bunker estava totalmente

fechado.

A fim de se orientar, Foster girara o facho da lanterna pelo

quarto empoeirado e cheio de teias de aranha. Quando a luz incidira

sobre a armação da cama de Hitler, ele tivera a impressão de ouvir Eva

soltar uma exclamação.

Agora, conduzia-a pela porta para o que fora outrora a sala de

estar do Führer, durante os últimos meses da guerra.

Desta vez ele correu lentamente o facho da lanterna pela sala,

parando por um instante no sofá, a cadeira quebrada, as paredes, a

escrivaninha e o lugar onde outrora ficava o retrato de Frederico o

Grande. E, finalmente, iluminou o rosto de Eva Braun.

Ela estava pálida, a própria imagem do choque, e deixou escapar

um grito sufocado. As mãos subiram à boca e as palavras passaram

através dos dedos:

— O Führerbunker... A sala, nosso quarto...

Foster especulou se os quarenta anos não haveriam

desaparecido e ela vivia tudo novamente, os momentos mais felizes com

Hitler, o casamento por tanto tempo desejado, a recepção com o estado-

maior, os bajuladores.

— Oh, Deus, o que fizeram com o lugar? — Balbuciou Eva.

— Os russos vieram — disse Foster prosaicamente.

— Que animais! — exclamou ela, tremendo.

E Foster teve certeza agora de que ela voltara ao presente, o efeito da droga dissipando-se por completo, seus sentidos

restabelecidos. Ela piscou para o facho da lanterna.

— Quem é você? Como me trouxe até aqui? Quero voltar...

— Não pode voltar — disse Foster bruscamente. — Aquilo é o

passado. — Fez uma pausa e depois acrescentou: — O passado está

morto, ou o que resta estará morto dentro de poucos minutos. Tenho

outros planos para você.

Ele levantou a Luger com a outra mão, a fim de que Eva pudesse

vê-la.

— E agora vamos subir pela escada para a antiga saída de

emergência.

— Por quê?

— Quero a verdade, Eva. Toda a verdade.

— Não direi nada, absolutamente nada. E meu nome... meu

nome é Evelyn Hoffmann — declarou ela, muito altiva.

— Vamos! — gritou Foster, empurrando-a com a arma.

Ela avançou, e Foster seguiu-a pela sala de recepção até a

escada, e subiram os degraus cobertos de terra. Ela parou na abertura

para o monte de terra por cima do Führerbunker.

— Saia! — ordenou Foster, comprimindo o cano da Luger contra

as costas de Eva.

Tropeçando, ela saiu para o frio ar da noite, parou ao lado do

monte, dentro da Zona de Segurança de Berlim Oriental. Estava escuro,

mas não totalmente. Algumas luzes brilhavam pelo campo, projetadas

das torres de vigia dos alemães orientais.

— Emily! — gritou Foster, descrevendo um semicírculo com a

lanterna à procura de Emily, que prometera que voltaria e ficaria ali à

sua espera.

Mas não havia ninguém visível por ali.

Sentiu um aperto no coração, especulou o que acontecera com

Emily, se ela conseguira sair de Berlim Oriental, entrara em contato

com Tovah e Golding, acionando os agentes do Mossad.

Queria Emily ali, para certificar-se de que ela estava sã e salva, para ter certeza de que o epílogo à história de Hitler estava sendo

consumado.

Empunhando a Luger, ele pôs a lanterna no chão. Com a mão

livre, tirou o uniforme nazista e pôs as próprias roupas. Ainda não

havia sinal de Emily quando acabou. Os minutos passavam, seu

desespero foi aumentando.

E foi então que avistou, a alguma distância, pelo campo, uma

luz que parecia se aproximar. E estava mesmo se aproximando,

balançando ao chegar mais perto, uma lanterna carregada por alguém.

Um momento depois pôde ver que era uma mulher.

E teve a certeza de que era Emily.

E de repente, um estampido alto às suas costas. A luz a vinte

metros de distância caiu abruptamente, e o vulto que a carregava

também tombou.

Numa explosão de medo, Foster apertou a Luger com toda força

e correu para a luz no chão, certo de que Emily fora baleada.

Mas ela estava se levantando quando a alcançou, tateando à

procura da lanterna.

— Você está bem? — balbuciou Foster, ajudando-a a levantar,

amparando-a.

— Tropecei em alguma coisa. Machuquei um pouco o joelho,

mas foi só isso. Graças a Deus, você escapou sem problemas.

Foster pegou a lanterna de Emily e voltou apressadamente à

escavação no monte.

— Arranquei de Eva quase tudo o que queríamos saber.

Podemos descobrir o resto depois. O importante é que eles têm um

plano para ressuscitar o nacional-socialismo na Alemanha. Querem se

preparar para assumir o poder outra vez. Hitler sonhava com uma

guerra nuclear inevitável entre a Rússia e os Estados Unidos. Eles

querem estar preparados para isso. Eva deu-me todos os detalhes.

— O nazismo de novo na Alemanha? — murmurou Emily

incrédula. — Não é possível. Eles devem estar loucos.

— Obcecados. Foi a última das grandes esperanças de Hitler. Conseguiu falar com Tovah e o pessoal do Mossad?

— Consegui. Tovah disse que entraria em contato com Gol-ding

para convocar os agentes do Mossad e pegar o gás, seguindo para o

Café Wolf e o sistema de ventilação do bunker. Se tudo correu bem...

— Ou seja, se eles não foram descobertos pela polícia de

Schmidt.

— Schmidt. O que faremos com ele?

— Já cuidei dele. Schmidt apareceu no bunker. Foi terrível por

um momento, mas tive sorte... contei com a idade e a agilidade do meu

lado. Deixei-o lá embaixo, inconsciente. Se Golding aparecer com o gás,

Schmidt estará liquidado também.

— Vamos rezar para que eles estejam bombeando o gás no

bunker neste momento. A menos que haja algum problema, todos

aqueles nazistas estarão mortos dentro de poucos minutos.

Foster estava satisfeito.

— Depois, os militares alemães podem remover os corpos e

ventilar o bunker. Você terá então todos os documentos, além de Eva

Braun...

— Eva! — exclamou Emily. — Onde está ela?

— Ora, aqui comigo — murmurou Foster, indeciso. — Eu a

trouxe... ela estava bem aqui...

Acenou com a lanterna à procura de Eva Braun. Mas ela não

estava mais ali.

— Ela se foi — murmurou Emily. — Quando você virou as

costas, ela deve ter escapado.

— Não pode ter ido muito longe na Zona de Segurança.

— Não podemos ficar aqui de braços cruzados — disse Emily. —

Vamos procurá-la.

Foster pensou por um momento e decidiu:

— Agora não, Emily. Não sozinhos. Não podemos sair

vagueando por aí à procura de Eva Braun. — Ele esquadrinhou a semi-

escuridão. — E não se preocupe com Eva Braun. Ela não irá muito

longe. Está acuada. Deixe que os alemães orientais a capturem.

— Mas nós a queremos!

— E a teremos depois que eles a pegarem. — Foster pegou

Emily pelo braço e a levou apressadamente através do campo, na

direção da casa da guarda dos alemães orientais. — Primeiro, vamos

verificar se Golding recebeu a mensagem e fez o que era necessário. É o

que devemos saber agora.

Passando pela casa da guarda, Foster mudou de idéia.

— Vá sozinha, Emily. Pegue meu carro e siga para o Café Wolf.

Descubra se vai haver um final feliz. Arrumarei uma carona e a

encontrarei lá mais tarde. Agora, quero ficar mais um pouco por aqui.

Estou começando a sentir saudade de Eva. Talvez eu tenha outra

oportunidade de encontrá-la. Por favor, Emily, vá logo. Eu a encontrarei

lá... e tome cuidado.