O Sétimo Segredo

Irving Wallace · Capítulo 2 de 10

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O Sétimo Segredo

Capítulo II

 

Na semana seguinte ao funeral, a morte de Sir Harrison Ashcroft

e a determinação da filha de concluir a biografia épica de Adolf Hitler

foram notícia no mundo inteiro. Não chegou a ser uma grande notícia,

mas foi uma informação que mereceu atenção quase em toda parte.

Por trás de sua mesa, no gabinete que ocupava no Hermitage, o

enorme museu de arte de Leningrado, Nicholas Kirvov, o curador

recentemente designado, deu uma mordida em seu Pirozhki quente,

enquanto corria os olhos pelas páginas do Pravda. E deparou com a

notícia:

"Em Berlim Ocidental, um dos desordeiros decadentes locais

provocou um acidente fatal. Um motorista de caminhão desconhecido,

completamente embriagado, perdeu o controle do veículo e atropelou

um pedestre. Sir H. Ashcroft, da Universidade de Oxford, o eminente

estudioso britânico de Adolf Hitler, foi morto quase que

instantaneamente, no momento em que atravessava a

Kurfürstendamm. O culpado não foi descoberto. Ashcroft estava

concluindo uma longa biografia de Hitler, em colaboração com a filha,

Srta. E. Ashcroft, também historiadora. A Reuters informa que a Srta.

Ashcroft está decidida a concluir a obra."

Nicholas Kirvov mastigou o último pedaço de pastelão de carne e

reprimiu um bocejo. Não tinha qualquer interesse em particular pela

breve notícia que acabara de ler. Não tinha a menor idéia de quem era o

tal de Ashcroft, exceto que ele vinha pesquisando e escrevendo sobre

Hitler. A coincidência da menção de Hitler no Pravda, naquele dia

específico, entre todos os dias, fora o que despertara a atenção de

Kirvov, o suficiente para levá-lo a ler a notícia.

Kirvov sempre se sentira fascinado pelo monstro fascista, Hitler,

desde os primeiros dias de escola, logo depois da Segunda Guerra

Mundial, até hoje. Como Kirvov era um estudioso de arte, sempre o intrigara que um homem tão louco e torpe quanto o líder nazista

pudesse outrora ter sido um pintor, produzindo muitas aquarelas e

óleos, além de amar a arquitetura e a música. Como era possível que o

assassino que encharcara o solo da Rússia com o sangue de milhões de

pessoas pudesse ter sido um artista? Era uma contradição

inacreditável. À procura de algum sentido na esquizofrenia de Hitler,

Kirvov começara a pesquisar amostras de sua arte.

Assim como outros homens colecionam selos, moedas ou livros

raros, Kirvov adquirira o hobby de colecionar desenhos e quadros de

Hitler. Localizara oito obras de arte de Hitler mofando nos depósitos do

Exército Vermelho, encontrara mais três em Berlim Oriental e quatro

em Viena, providenciara fotografias de todas para estudo e finalmente,

quando fora nomeado para diretor do Hermitage, há seis meses,

obtivera por empréstimo as telas esquecidas. Não sabia explicar com

que finalidade as guardara nos armários de sua sala particular, que

ficava ao lado do gabinete público. Possivelmente para algum artigo ou

panfleto futuro. Talvez mesmo para alguma exposição. Seu objetivo

ainda não estava definido. Sabia apenas que cobiçara as quinze obras e,

com uma ganância de colecionador, queria ainda mais.

Por isso é que aquele dia era emocionante. Pois hoje, por puro

acaso, Nicholas Kirvov teria a oportunidade de contemplar um 16?

quadro de Hitler, uma obra que nunca vira antes.

A carta lhe fora enviada de Copenhague, uma semana antes.

Escrita num inglês perfeito, estava assinada por um tal de Giorgio Ricci,

que se dizia ítalo-americano, com um apartamento em San Francisco. O

Sr. Ricci se apresentara como comissário de bordo de um luxuoso navio

de cruzeiro, o Royal Viking Sky, uma embarcação norueguesa baseada

em San Francisco, que realizava uma excursão de verão, com escalas

em Copenhague, Leningrado, Helsínqui, Estocolmo, Oslo e Londres. O

Sr. Ricci declarara possuir uma modesta coleção de arte; em recente

visita a Berlim Ocidental, ele adquirira de uma galeria respeitável um

quadro a óleo não-assinado que era atribuído a Adolf Hitler. O Sr. Ricci

não sabia se o quadro era autêntico. Pouco depois da aquisição, deparara com um artigo de revista sobre a arte nazista, inclusive com

referências aos primeiros quadros de Hitler. Também mencionava várias

pessoas que eram consideradas especialistas nos esforços artísticos de

Hitler, entre as quais o Sr. Nicholas Kirvov, antigo diretor-assistente do

Museu de Belas-Artes Pushkin, de Moscou, recentemente nomeado

diretor do Hermitage, em Leningrado.

Como o navio do Sr. Ricci passaria dois dias atracado em

Leningrado, ele achava que era uma oportunidade maravilhosa de

mostrar seu óleo duvidoso de Hitler a Nicholas Kirvov, no Hermitage. O

Sr. Ricci comunicara a data da chegada do navio e esperava que o Sr.

Kirvov se encontrasse na cidade e dispusesse de tempo para recebê-lo.

Desapontado porque Ricci não descrevera o óleo atribuído a

Hitler, mas excitado por saber que ainda existia outra tela

desconhecida, Kirvov telegrafara para o comissário, aos cuidados do

escritório da Royal Viking em Copenhague, informando que teria a

maior satisfação em recebê-lo. Depois, Kirvov avisara à alfândega de

Leningrado que deixasse Ricci passar com seu quadro.

O encontro estava marcado para aquele dia. Chegando ao museu

pela manhã, Kirvov visualizara a chegada do Royal Viking Sky, branco e

elegante, que já vira em outra ocasião entrar no porto de Leningrado. Se

nada saíra errado, Giorgio Ricci deveria estar em seu gabinete, com a

tela de Hitler, dentro — ele olhou para o relógio na parede — de quinze

minutos.

Jogando na cesta o papel do Pirozhki e limpando as migalhas da

mesa, Kirvov tentou pensar se havia algum problema urgente do museu

que precisasse resolver antes da chegada do visitante. Era

extremamente meticuloso em seu trabalho, pois a nomeação para

diretor fora uma surpresa e uma grande honra. Ele estava indo muito

bem em seu posto num museu secundário de Moscou, levando uma

vida confortável com a mulher e o filho pequeno, quando acontecera o

golpe de mágica. Diretor do Hermitage aos quarenta anos! O ministro da

Cultura transformara Kirvov, da noite para o dia, num dos destaques

intelectuais da União Soviética.

Kirvov amara o Hermitage desde o dia de sua chegada. Amara os

cinco prédios que constituíam o museu — o Palácio de Inverno original,

o Pequeno Hermitage, o Grande Hermitage, o Teatro Her-mitage e o

Novo Hermitage — os quatro primeiros na margem esquerda do Rio

Neva. Gostaria que houvesse mais recursos para arrumar o prédio

principal, o Palácio de Inverno, em que estava seu gabinete, dinheiro

para uma pintura nova, consertar o reboco em vários pontos,

providenciar uma iluminação melhor. Mas todo o dinheiro disponível

estava destinado a novas aquisições. Não que já não houvesse ali o

melhor de tudo. Desde 1764, quando a Rainha Catarina a Grande

autorizara a primeira grande aquisição — 225. telas do mercador

alemão Johann Gotzkowsky, inclusive um Franz Hals —, a conquista de

novas obras fora incessante. Em 1772 começara a entrar a arte italiana,

Ticiano, Rafael, Tintoretto, seguindo-se os mestres franceses Watteau e

Chardin. Em 1865 viera um Leonardo da Vinci. Depois de 1931, os pós-

impressionistas, povoando os salões superiores do Hermitage com trinta

e sete Matisses, trinta e seis Picassos, quinze Gauguins, onze Cézannes,

quatro Van Goghs e incontáveis outros tesouros.

O primeiro organizador desse mundo de arte fora conhecido

como um Guardião, em 1797. Em 1863, fora acrescentado um curador,

e logo depois dois peritos assistentes. Gradativamente, foram se

produzindo catálogos para popularizar a coleção e mais tarde se

adquirira equipamentos sofisticados, como um aparelho de raiosX, para

determinar falsificações ou autenticar obras-primas. Fora assim que se

provara que a Adoração dos Magos, de Rembrandt, que se julgava ser a

cópia do original na Suécia, era na verdade o próprio original.

Agora, Nicholas Kirvov era o novo curador e estava no controle

de tudo. Consumira os seis primeiros meses de sua administração para

localizar melhor as obras-primas e iniciar o preparo de um novo

catálogo, que projetaria o melhor das mais de oito mil obras de arte que

havia no Hermitage. Um catálogo acompanharia a sua primeira

exposição. Ele gostaria de encontrar algum meio, alguma maneira

insólita, de popularizar ainda mais a exposição. Cerca de três milhões de pessoas visitavam o Hermitage a cada ano, mas Kirvov queria mais,

muito mais.

Seus olhos fixaram-se no relógio na parede e compreendeu que o

devaneio consumira a maior parte do tempo de espera e que o visitante

deveria chegar a qualquer minuto. E nesse instante ouviu uma batida

na porta, a secretária abriu-a e informou:

— O Sr. Giorgio Ricci está aqui.

— Mande-o entrar — disse Kirvov, levantando-se.

O visitante entrou na sala meio contrafeito, com um embrulho

debaixo do braço. Era franzino, quase insignificante, provavelmente

com trinta e poucos anos, olhos italianos, grandes e redondos, o queixo

saliente. Usava uma suéter azul clara e jeans desbotados. Algum ouro

faiscou em seus dentes quando sorriu.

— Sr. Kirvov, sou Giorgio Ricci, do Royal Viking Sky. Kirvov

adiantou-se prontamente, a corpulência de l,78m

fazendo-o parecer muito maior do que o visitante, e apertou

efusivamente a mão de Ricci.

— Estou muito satisfeito que tenha podido vir me visitar —

declarou ele, conduzindo o visitante a uma cadeira ao lado da mesa. —

Sente-se, por favor. Fique à vontade. Deseja beber alguma coisa... Pepsi,

vodca, café, ou qualquer outra coisa?

— Não, obrigado. Não quero tomar muito o seu tempo. E

também não disponho de muito tempo.

— Muito bem — disse Kirvov, sentando-se também. — Vamos

direto ao que interessa. Deixe-me ver o seu quadro atribuído a Hitler.

Ricci ergueu o embrulho para o colo.

— Garantiram-me na galeria de Berlim Ocidental que foi

pintado por Hitler. Mas como não estava assinado, venderam-me por

um bom preço. Talvez tenham me enganado. Ainda não pude chegar a

uma conclusão. Espero que possa me ajudar.

— Talvez. — A curiosidade de Kirvov estava mais aguçada do

que nunca. — É melhor me mostrar logo.

Ricci tirara o papel pardo e levantou o quadro.

— Tirei da moldura — explicou ele. — Mas a tela está reforçada

por essas ripas de madeira.

Era aparentemente leve, porque ele só precisou de uma mão

para estender por cima da mesa para Kirvov.

Kirvov ajeitou a tela à sua frente, sob a claridade intensa das

lâmpadas fluorescentes. Calculou que tinha quarenta centímetros de

largura por trinta de altura. Era um óleo escuro sobre tela, um quadro

um tanto sombrio do que parecia ser a fachada de algum prédio do

governo, maltratada pelo tempo. O artista postara-se no outro lado de

uma rua larga, de tal forma que se podia ver as colunas à entrada do

prédio de pedra de seis andares. A entrada e a parede ornamentada à

esquerda eram escuras, perdidas nas sombras. Não havia assinatura.

— Eu diria que se trata de um prédio governamental —

comentou Kirvov. — Pode ter sido feito por Hitler. Ele gostava de pintar

prédios de Linz, Viena e Munique. Mas não reconheço este prédio em

qualquer dessas cidades ou no resto da obra de Hitler.

Fez uma pausa, levantou os olhos e perguntou:

— Tem alguma idéia do local deste prédio e o que é?

— Não. E a galeria também não sabia. Mas garantiram-me, pela

procedência, que era de Hitler.

— E qual era a procedência?

— Disseram que não podiam revelar. Foi parte do acordo de

aquisição. Mas tinham certeza absoluta que era de Hitler. — Ricci

hesitou por um instante. — Acho que alguém não queria admitir que

possuía um Hitler original dos velhos tempos. É autêntico?

— Hum... possivelmente — murmurou Kirvov, estudando o

quadro com toda atenção. — Em geral, ele não pintou telas tão grandes.

Calcula-se que tenha feito 300 quadros. Só uns poucos sobreviveram.

Ele também desenhava na juventude, em Linz, onde cursou a

Realschule, o que os americanos chamariam de escola secundária. Foi

para Viena em 1907, com a intenção de ingressar na Academia de

Belas-Artes. Havia um teste dividido em duas partes. Na primeira, Hitler

teve de desenhar, entre outros temas, Caim matando Abel. Na segunda, teve de pintar ou desenhar O Bom Samaritano e o Dilúvio de Noé. O

resultado foi sumário: "Teste de desenho insatisfatório." Hitler voltou

um ano depois para outra tentativa de entrar na Academia. Seus novos

trabalhos foram considerados deficientes e não lhe permitiram fazer

outro teste.

— E aí ele se tornou um político.

— Ainda não. Ficou amargurado com a rejeição da Academia de

Belas-Artes e atribuiu seu fracasso aos burocratas judeus que alegou

dominarem a academia. Mas não entrou na política imediatamente.

Continuou a pintar para se sustentar, com muita dificuldade. Fazia

aquarelas do tamanho de cartões-postais, copiadas de cartões-postais,

tinha um amigo que as vendia, em troca de metade da receita. O amigo

vendia a negociantes de artes que precisavam de quadros inócuos para

preencher molduras vazias em exposições e a negociantes de móveis

que as ajustavam em poltronas e sofás, envernizando-as.

— Ele não pintava quadros maiores?

— De vez em quando. Alguns com o dobro do tamanho dos

cartões-postais. Uns poucos óleos do tamanho deste que me trouxe. E

até alguns cartazes. Assinava todos como "A. Hitler". Geralmente

ganhava o equivalente a dez a quinze dólares em cada quadro vendido.

— E ele preferia reproduzir prédios a fazer retratos?

— Isso mesmo. Não tinha sensibilidade para pessoas. Alguém

disse certa vez que ele desenhava figuras humanas como se fossem

sacos estufados. Mas tinha sensibilidade para arquitetura. Registrou-se

como "pintor arquitetônico" quando se mudou para Munique.

Kirvov fez uma pausa para examinar outra vez a tela em sua

mesa.

— Levando-se em consideração o gosto de Hitler, é bem possível

que esta obra seja sua. — Kirvov levantou-se, com a tela na mão. —

Espere um instante, por favor.

Foi até a porta da sala da secretária e abriu-a.

— Sonya, peça ao Camarada Zorin para dar uma olhada nesta

tela. — Entregou o quadro à secretária. — Diga a ele que este óleo sem assinatura é atribuído a Adolf Hitler. Eu gostaria de ouvir a sua opinião.

Voltando a sentar-se atrás da mesa, Kirvov explicou:

— O Camarada Zorin é um dos expertos que partilham meu

interesse pelas loucuras artísticas da juventude de Hitler. Quase

sempre prédios. Em 1911 ele desenhou a Igreja Minorita em Viena.

Antes, desenhou ou pintou o Teatro Burg de Viena, a Catedral de Santo

Estêvão, o Palácio Schõnbrunn, o Feldherrnhalle, uma aquarela a que

deu o nome de Rua em Viena. Depois que se mudou para Munique, ele

pintou o Alter Hof... creio que em 1914... e o Velho Tribunal, mostrando

uma casa enorme, com um pátio na frente. Mais tarde, depois que

subiu ao poder, Hitler descobriu e destruiu muitas de suas obras

antigas. Apesar disso, Hitler nem sempre se mostrou insatisfeito com

seu trabalho. Deu a Albert Speer, seu arquiteto, uma tela de uma igreja

gótica, que pintara em 1909. E deu algumas outras telas de que gostava

a Gõring e a Mussolini.

Ricci inclinou-se para a frente.

— Acha então que a tela que lhe mostrei é um Hitler autêntico?

— Não há dúvida de que apresenta algumas das características

da pintura de Hitler. Primeiro, um prédio governamental como tema.

Depois, o estilo. Hitler gabava-se de sua mestria no que chamava

"exatidão fotográfica". É isso o que seu quadro mostra... uma qualidade

fotográfica bastante real, mas comum, sem qualquer imaginação.

Possui o que Hitler muito admirava num pintor que ele próprio

colecionava, um certo Adolf Ziegler, um pintor de segunda categoria de

Munique... uma espécie de imponência empolada. É verdade, o quadro

que me mostrou pode ser de fato um autêntico Hitler.

— Espero que seja mesmo — murmurou Ricci, nervoso. Ele

olhava a todo instante para a porta, obviamente consciente

de que o veredicto seria apresentado em breve. Abruptamente,

como se quisesse preencher o tempo, perguntou:

— Conhece alguma coisa sobre o gosto de Hitler, não como um

pintor, mas como um colecionador?

Kirvov torceu o enorme nariz.

— Hitler não tinha um verdadeiro gosto artístico. Quando se

tornou chanceler da Alemanha, tentou eliminar todos os pintores e

quadros modernos e de vanguarda. Classificou-os de degenerados.

Desprezava Picasso e Kandinsky. Gostava da arte clássica, qualquer

coisa derivada da arte greco-nórdica. Dizia que o erotismo moderno na

pintura era "arte de porco", embora admirasse os nus clássicos,

saudáveis e inocentes. Nosso Hitler artístico era obtuso e medíocre.

Apesar disso, é indefinível e misterioso como pessoa e diverte-me

colecionar a sua arte.

Kirvov discorreu durante dez minutos sobre a arte alemã no

tempo de Hitler, até que se ouviu uma batida na porta. Kirvov levantou-

se de um pulo, abriu a porta, pegou o óleo de volta da secretária, junto

com um bilhete.

Sentando, Kirvov largou o quadro na mesa e leu o bilhete.

Acenou com a cabeça para si mesmo e olhou outra vez para o visitante,

dizendo:

— O que eu já esperava. Meu perito acha que pode ser uma

obra de Hitler. Claro que ele não pode ter certeza absoluta, com um

exame tão sumário. Precisaria de mais algum tempo para estudar. Seja

como for, pode estar certo de que meu colega e eu achamos que

provavelmente é autêntica.

Kirvov levantou-se para devolver a tela ao visitante. Ricci

também se levantou.

— Gostaria de agradecer-lhe e pagar por todo o incômodo...

Kirvov sorriu.

— Não precisa pagar nada. Foi por conta da casa. Na verdade,

agradeço a oportunidade de conhecer uma tela desconhecida de Hitler.

— Começou a estender a tela para Ricci. — Ficará satisfeito em poder

acrescentar esta tela à sua coleção de Hitler.

Ricci não pegou o quadro.

— Não tenho nenhuma coleção de Hitler. Para dizer a verdade,

não tenho o menor interesse pela arte de Hitler.

— Mas então por que... — Kirvov olhava aturdido para o visitante. — Quer vender? É isso?

— Não, não é bem isso. Comprei a tela para trocar por outra

coisa que prefiro ter, algo que venho colecionando há alguns anos.

Kirvov levantou as sobrancelhas, numa expressão inquisitiva.

— E o que coleciona?

— ícones. Velhos ícones russos. Eu os adoro. Já estive na

Rússia em outras viagens, fiz alguns contatos, consegui obter três até

agora. Gostaria de adquirir mais. O problema é que são um tanto

dispendiosos. — Ricci hesitou por um instante. — Eu... eu deixaria que

ficasse com esse quadro de Hitler em troca de um ícone genuíno, se por

acaso tiver algum de sobra.

Kirvov pensou na proposta. Mas não por muito tempo. Queria o

quadro de Hitler em sua mesa. Podia ser uma raridade e certamente

enriqueceria sua coleção. Não tinha muita dúvida sobre a

autenticidade. Quanto aos ícones, tinha dezenas de sobra guardados,

vários que poderiam agradar a Ricci e que eram medíocres demais para

serem expostos no Hermitage. Como curador, tinha autonomia absoluta

para trocar obras menores. Ele sorriu:

— Está certo. Fico com o seu Hitler. E você recebe meu Jesus

Cristo.

Cinco minutos depois Ricci tinha o seu ícone — pequeno,

reluzente, uma moldura prateada com uma miniatura da cabeça de

Jesus pintada, a túnica com um acabamento de metal dourado. Ricci

estava emocionado e exultante.

Acompanhando o comissário de bordo até a porta, Kirvov deteve-

o ali por um momento.

— Só mais uma coisa. Qual é o nome da galeria de Berlim

Ocidental em que comprou o quadro?

O rosto de Ricci manteve-se impassível.

~- Não estou lembrando... Quase no centro de Berlim. Hum...

— Tentou recordar, sem qualquer sucesso aparente, deu de

ombros.

— Não importa. Está no recibo que guardei em casa. Mandarei assim que voltar.

— Não se esqueça, por favor.

Depois que Giorgio Ricci saiu, de volta a seu navio, Kirvov ficou

sozinho na sala. Pegou o óleo de Hitler, estudando-o, com expressão

radiante.

Pois lhe ocorrera uma idéia enquanto acompanhava Ricci até a

porta, a maneira perfeita e excepcional de divulgar e popularizar a sua

primeira grande exposição no Hermitage. Tudo estava agora bem

definido em sua mente. Reservaria um salão no último andar e

intitularia de "A Arte de Adolf Hitler". Penduraria nas quatro paredes as

quinze obras de Hitler que já tinha em seu poder e acrescentaria, talvez

mesmo com destaque, aquela descoberta recente. Poderia também

incluir ampliações de fotografias de Stalingrado arrasada pela guerra e

da queda de Berlim, como contrapontos irônicos à obra anterior do

ditador alemão.

Isso mesmo, aquele último óleo, juntamente com as outras obras

de Hitler que obtivera por empréstimo, seria o trampolim para o seu

primeiro grande sucesso como curador do Hermitage.

Mas depois, estudando o tenebroso óleo do prédio escuro, Kirvov

teve um momento de apreensão. Milhões de pessoas veriam aquela tela

e a aceitariam como sendo de Hitler. Mas poderia haver alguém que

questionasse a sua autenticidade. Kirvov sabia que precisava ter certeza

absoluta de que aquele óleo era de Hitler e, se possível, descobrir que

prédio era aquele e a sua localização.

Como autenticá-lo o mais depressa possível? Kirvov lembrou-se

então de um artigo recente que lera, do Professor Otto Blaubach, o

ministro do governo de Berlim Oriental, um eminente historiador do

Terceiro Reich e da vida de Der Führer. Se alguém podia lhe falar sobre

aquele quadro, era certamente Blaubach. Kirvov consultou sua agenda,

verificando as anotações que fizera. Na semana seguinte, iria com a

mulher e o filho a Sochi, no Mar Negro, para suas férias anuais. De

certa forma, isso facilitaria tudo. Mandaria a mulher e o filho na frente,

enquanto passava uma semana em Berlim Oriental, conversando com Blaubach. E depois iria ao encontro da família no balneário.

Perfeito.

Nicholas Kirvov nunca se sentira tão feliz. Providenciaria tudo

para sua exposição espetacular no Hermitage.

O futuro seria maravilhoso. Mas, primeiro, tinha de ir a Berlim

Oriental.

Em West Los Angeles, Rex Foster estacionou seu cupê esporte

Chevrolet, vermelho, compacto, na vaga que lhe era reservada, nos

fundos de seu pequeno prédio de escritórios, no San Vicente Boulevard.

Depois das contorções habituais para tirar o corpo esguio de mais de

1,80m do apertado assento, avançou pela estreita calçada que passava

pelo lado do prédio até a porta da frente.

Havia ali uma placa cinza, as letras em dourado anunciando:

FOSTER ASSOCIADOS — ARQUITETOS.

A porta, como sempre, estava destrancada, indicando que sua

equipe de três pessoas já se encontrava ali e provavelmente

trabalhando. Sempre chegavam às nove e meia da manhã, e Foster se

esforçava para chegar pontualmente às dez horas. A sala de recepção

estava momentaneamente vazia, o que informou a Foster que a

recepcionista-guarda-livros-secretária, Irene Myers, se achava quase

que certamente em sua sala, preparando o café na pequena cozinha.

Havia três salas no corredor sem qualquer adorno, a primeira

ocupada por seu desenhista, Frank Nishimura, a segunda por seu

homem de produção, Don Graham. A última e maior era o seu próprio

gabinete, uma sala arejada, com uma prancheta de madeira numa

extremidade e na outra a enorme mesa de pinho, encerada, cercada por

diversas cadeiras.

Ao entrar na sala Foster deparou com Irene Myers à sua mesa,

largando ali a caneca de café preto quente, estendendo a edição

matutina do Los Angeles Times.

— Bom dia, Sr. Foster — cumprimentou Irene jovialmente.

Era uma morena baixa, de corpo atraente, invariavelmente

exuberante.

— Oi, Irene — respondeu ele, falando muito pouco pela manhã,

antes de tomar o primeiro café.

Ela hesitou por um instante.

— Eu esperava dar uma arrumação em sua mesa antes da

chegada daquela mulher.

— Que mulher?

— A repórter da revista Los Angeles, Joan Sawyer. Às dez e

quinze. Ela está fazendo uma reportagem sobre os principais arquitetos

da Califórnia Meridional. Estará aqui dentro de dez a quinze minutos.

— Eu tinha esquecido — resmungou Foster. — Mas pode deixar

a mesa. Já me parece bastante arrumada. Só quero que me deixe tomar

o café antes de ela chegar.

Esperou que Irene se retirasse, depois foi sentar atrás da mesa,

com o café fumegante e o jornal.

Tomando um gole, satisfeito, refletiu por um momento sobre a

loura com quem jantara no Matteo's, em Westwood, na noite anterior.

Uma jovem atriz, talvez com 24 anos, Cindy qualquer coisa, que

conhecera num coquetel. Impressionado por seus seios e nádegas, ele a

convidara para jantar. Um erro. Era uma mulher muito estúpida e

desinformada, mas melhor na cama depois, onde se mostrara

inovadora, acrobática e escandalosa. Na verdade, bastante desfrutável

para um bis à meia-noite. Mas se sentira aliviado quando finalmente a

levara a seu apartamento, às duas horas da madrugada. Prometera a si

mesmo que não haveria repetição. Tinha coisas mais importantes em

que pensar.

Tomando o café, relaxando, acendeu o primeiro cachimbo do dia

e começou a folhear o Los Angeles Times, como era seu costume, antes

de iniciar o trabalho. Um mundo terrível, pensou, correndo os olhos

pelas manchetes, absolutamente pavoroso por toda parte. Encontrou na

página cinco uma pequena notícia que lhe atraiu a atenção e começou a

ler a matéria da Associated Press:

"Sir Harrison Ashcroft, o historiador de fama internacional e

catedrático de História Moderna da Universidade de Oxford, na Inglaterra, foi sepultado no jazigo perpétuo da família, nos arredores de

Oxford, na manhã de ontem. Ashcroft sofreu um acidente fatal em

Berlim Ocidental, quando fazia as últimas pesquisas para sua biografia

definitiva de Adolf Hitler. Um motorista supostamente embriagado que

fugiu..."

O botão no aparelho telefônico de Foster brilhou amarelo e a voz

de Irene anunciou:

— Está disponível agora, Sr. Foster? A Srta. Sawyer, da revista

Los Angeles, está aqui.

Ele pegou o telefone.

— Sabia que o Dr. Ashcroft foi morto em Berlim na semana

passada, Irene? Acabo de ler a notícia...

— Morto? Não, eu não sabia...

— É incrível... — Foster fez uma pausa. — Isso muda tudo. Eu

tinha um encontro marcado com ele em Oxford, dentro de uma semana,

a contar de sexta-feira.

— É verdade. Já fiz a reserva do avião.

— O que vou fazer agora? — murmurou Foster, desolado. —

Muito bem, falaremos sobre isso depois que eu concluir a entrevista.

Dê-me só mais um minuto para ordenar os pensamentos e depois pode

mandar a Srta. Sawyer entrar.

Tentou definir o seu problema. Trabalhava há três anos, nas

horas de folga, preparando um enorme livro fotográfico, um típico livro

de mesinha de centro, intitulado Arquitetura do Terceiro Reich dos Mil

Anos. Era uma idéia que o fascinava, reproduzindo fotografias de todos

os prédios construídos na Europa durante o reinado de Adolf Hitler

(muitos haviam sido reduzidos a escombros, mas ainda existiam

fotografias antigas), além de modelos ou projetos de prédios que Hitler

planejara e esperava construir depois de ganhar a guerra. Foster voara

para a Alemanha e, por intermédio de um antigo companheiro do

exército americano, estacionado em Berlim, obtivera a maior parte do

que precisava dos arquivos do arquiteto de Hitler, Albert Speer, no

Bundesarchiv, em Koblenz, assim como da mulher de Speer, em Heidelberg. E voltara a Los Angeles para preparar o livro. Tinha um bom

contrato com uma editora de Nova York e um prazo inadiável para

entregar o original. Foster sentira-se exultante com o livro, não apenas

porque o assunto o atraía, mas também porque projetaria sua imagem

na comunidade arquitetônica internacional.

Em sua casa, em Beverly Hills, revisando as anotações,

deparara-se com a informação de que Speer destacara um dos seus

colegas de confiança para construir sete prédios especiais para Hi-tler.

Ao repassar o livro, Foster constatara que não possuía fotografias e

muito menos as plantas desses sete prédios. Sem isso, sua obra estaria

incompleta... e o editor queria vender o livro como o primeiro e o único

completo sobre a arquitetura na Alemanha nazista sob Hitler. E, o que

era pior, faltavam apenas três meses para a entrega do original.

Sua única possibilidade de obter as sete peças desaparecidas era

descobrir quem fora o associado de Speer. Por mais que pesquisasse, no

entanto, Foster não fora capaz de encontrar o nome do arquiteto.

E de repente, por puro acaso, descobrira que o único historiador

que sabia de tudo sobre Hitler era Sir Harrison Ashcroft, de Oxford.

Foster lhe escrevera imediatamente, indagando se poderia encontrá-lo

em Oxford e solicitar sua ajuda num problema relativo a Hitler.

Esperava examinar pessoalmente as fichas arquitetônicas de Ashcroft, a

fim de não incomodar o historiador. Este respondera prontamente que

teria o maior prazer em receber Foster, marcando dia e hora para o

encontro. Aliviado, Foster fizera reserva para um vôo à Inglaterra na

semana seguinte. Depois que descobrisse o nome do arquiteto, ele

planejava voar até a Alemanha e se encontrar com o homem, se ainda

estivesse vivo, ou com sua família, convencido de que o alemão ou seus

herdeiros lhe forneceriam as sete plantas desaparecidas.

Era um problema praticamente resolvido até aquela manhã.

Agora, tudo mudara. Ashcroft estava morto. Mais uma vez, Foster se

encontrava no limbo.

A porta da sala se abriu nesse momento e Irene Myers anunciou:

— Sr. Foster, Joan Sawyer, da revista Los Angeles. Foster murmurou um agradecimento e fez um esforço para se

concentrar na repórter. Era uma jovem alta, de seios achatados,

olhos castanhos apertados, por trás de óculos de lentes grossas, nariz

comprido, lábios finos, usando uma calça comprida fulva e carregando

um gravador.

— Como vai? — disse ela, avançando para a mesa e largando o

gravador em cima. — Espero que não se importe se eu gravar.

É a melhor maneira de registrar tudo direito. Sou exigente em

matéria de precisão.

— Eu também — declarou Foster jovialmente, acenando para

que ela sentasse em uma cadeira com estofamento de couro, à sua

frente. — Deixarei que grave, se me permitir fumar.

— O funeral é seu — disse ela, séria.

A mulher mexeu no gravador, ligou-o, testou, depois se

refestelou na cadeira e tirou da bolsa um questionário datilografado.

— Eu disse à sua secretária, quando marquei a entrevista, que

estava fazendo uma reportagem extensa sobre os mais importantes

arquitetos da Califórnia Meridional. Fiz uma pequena pesquisa sobre

você e parece que está incluído entre eles.

— É muita generosidade sua — comentou Foster em tom jovial.

— Sei que é um homem ocupado. Por que então não começamos

logo?

— Por mim não há problema.

— Por falar nisso, tiramos fotografias de algumas de suas obras

recentes. O Cornell Theater, no Sunset Boulevard. O Condomínio

Internacional, em Westwood. A Casa de Netuno, aquele restaurante de

frutos do mar em Malibu. Tudo muito original e impressionante.

— Obrigado, Srta. Sawyer.

— Quando resolveu se tornar arquiteto? Não o era quando

entrou no exército.

— Interessei-me depois que saí. Foi quando voltei a estudar.

— Por que não começamos antes disso, quando estava no

exército? Passou dois anos no Vietnã?

Foster não fez qualquer esforço para esconder o cenho franzido.

— Sim.

— Quantos anos tinha quando se alistou?

— Vinte. Não era muito patriota. Nem mesmo sabia direito o que

estava acontecendo no Vietnã. Sabia apenas que não tinha propósito ou

rumo, era um garoto estúpido tentando imaginar o que fazer com a

própria vida. O Vietnã parecia uma aventura exótica, alguma coisa para

preencher o tempo. E por isso fui para lá.

— E o que aconteceu depois?

— Depois... — Foster franziu ainda mais o rosto. — Eu era

piloto de helicóptero, adido a um grupo de engenharia, na 24?

Corporação, sob o comando do General James W. Sutherland. Houve

alguns combates. Juntamente com a artilharia e um batalhão da polícia

militar, testemunhamos lutas na Província de Quang Twi, perto da

fronteira laociana. Houve algumas baixas. O fogo antiaéreo não me

permitia decolar e por isso eu passava mais tempo com um rifle M16

nas mãos do que voando. Acabei ganhando alguns estilhaços na perna

e tive baixa depois da cirurgia. Isso aconteceu no final de 1971.

— Como está sua perna agora?

— Não há qualquer problema. Corro oito quilômetros, três vezes

por semana. Estou em boa forma para 36 anos... isto é, quase 37.

Depois da guerra, vagueei por algum tempo e depois voltei a estudar,

dentro do programa de ajuda aos veteranos. Entrei para a Universidade

da Califórnia, em Berkeley. Foi lá que me interessei pela arquitetura.

— E como chegou à arquitetura?

— Meu pai era engenheiro... — Foster hesitou, refletiu a

respeito. — Não, não foi isso. Tive uma sensação estranha. Passei dois

anos na guerra me dedicando a destruir coisas. E senti então o impulso

de construí-las.

Percebeu que a repórter o observava atentamente. Ela então

perguntou:

— Está falando sério?

— Claro que estou. A civilização é assim mesmo. Depois de cada orgia de destruição, os seres humanos se sentem na obrigação de

reconstruir, progredir, seguir em frente, de maneira ordenada. De certa

forma, a guerra me encaminhou para a arquitetura. Havia uma escola

de arquitetura em Berkeley... nós a chamávamos de A Arca. Eu gostava

de Berkeley e estudava com afinco. E ao final de quatro anos recebi o

meu diploma de arquiteto.

— E então abriu o seu escritório?

— Não logo. Todo bacharel deve cumprir um estágio de dois

anos. Fiz o meu em uma firma grande, em Laguna Beach. Depois disso,

o arquiteto ainda tem de prestar um exame de habilitação na comissão

estadual. Uma semana de testes, envolvendo projeto, desenho, meio dia

de prova oral. Tudo muito rigoroso, e na Califórnia é excepcional, ainda

mais exigente. Temos aqui fatos extras, como o problema sísmico, que

exige construções à prova de terremotos. De qualquer modo, passei nos

testes e me tornei um arquiteto autorizado.

— Quais foram os seus primeiros projetos?

— Muito fáceis, para começar. Um centro comunitário e uma

agência bancária, por exemplo. Os projetos envolviam muitos aspectos

de engenharia, mas também se aprende as necessidades práticas,

importantes, embora sem qualquer encanto, como iluminação e

encanamento de banheiros. Acabei encontrando alguém que me

encomendou uma casa de praia, relativamente modesta. Por fim eu me

estabelecia no ofício. E por conta própria.

Joan Sawyer olhou ao redor.

— E esta é a sua firma. Há quanto tempo está, como disse,

estabelecido por conta própria?

— Deixe-me ver... Há cerca de seis anos.

Foster observou Joan Sawyer tirar da bolsa uma folha de papel

que parecia cheia de anotações. Ela as estudou por um momento.

— Nossos arquivos dizem que se casou quatro anos depois de

abrir sua firma.

Foster hesitou.

— É verdade. Estou vendo que se preparou muito bem para a entrevista.

— Valerie Granich. Filha de Charles Granich. Um incorporador.

Bilionário. Bel-Air. É isso mesmo?

— É sim — respondeu ele, friamente.

— Divorciou-se no ano passado.

— Consta dos registros públicos. Joan Sawyer levantou os

olhos.

— Casou de novo?

— Não, obrigado.

— Importa-se de me falar um pouco sobre o seu casamento? E o

divórcio. Detalhes humanos. Informações pessoais sempre ajudam

numa reportagem. Pode me contar qualquer coisa?

Foster apertou os lábios.

Havia muita coisa que poderia contar, mas não era para o

consumo público. Desde o divórcio jurara que nunca falaria sobre o seu

curto casamento, não mencionaria o nome de Valerie a qualquer

pessoa, nem mesmo pensaria nela.

Apesar disso, pensou nela agora. Achara Valerie deslumbrante

quando a conhecera. Uma morena linda e esbelta, refinada, inteligente,

sofisticada, sentira-se lisonjeado porque ela o escolhera entre muitos,

um arquiteto praticamente insignificante.

Mas deveria ter percebido que estava errado desde o início.

Uniram-se pelos motivos errados. Valerie nada tinha de sincero para

oferecer, na cama ou fora dela. Não tinha o menor afeto. Só queria

saber de diversão, tudo superficial, sem qualquer intimidade. Seus

interesses mal se estendiam além de festas, promovendo-as e

comparecendo às de outros. E os acontecimentos pseudoculturais, uma

estréia teatral, um concerto, uma exposição de velhos mestres. A vida

era uma noite de première. Era totalmente a filhinha de papai, mimada,

inconseqüente, egocêntrica. Um prato cheio para as colunas sociais.

Quando o sogro propôs instalá-lo num escritório maior, arrumar

novos clientes e convertê-lo num grande sucesso (e dependente), Foster

recusou. Queria continuar por si mesmo e queria que Valerie vivesse de seus rendimentos. Valerie se mostrara irritada e impaciente com

tamanho absurdo. Não queria viver como uma esposa preocupada com

o orçamento doméstico no Vale San Fernando.

E havia outra coisa. Ser casada com um arquiteto lutando para

vencer na profissão parecia, para uma mulher como ela, uma situação

secundária e aviltante. Se ele tivesse se formado em Bauhaus, fosse um

Gropius ou Le Corbusier, um autêntico ornamento no mundo de

Valerie, seria diferente. Mas um principiante que insistia em subir por

seus próprios esforços era quase um embaraço. Não demorara muito

para que ela insistisse em que Foster abandonasse a arquitetura e se

dedicasse à arte, à pintura. Um pintor sem renome era pelo menos mais

respeitável; afinal, muitos só foram reconhecidos depois de mortos.

Por fim, enquanto ele continuava a trabalhar arduamente para

se firmar na profissão, Valerie passara a circular com um grupo de

artistas de Pasadena. Ao saber que ela estava muito interessada num

jovem pintor louro, abstrato, arrogante e pretensioso, dez anos mais

moço, que se tornara sua patrocinadora e depois parceira de cama,

Foster decidira que já era demais. Num acesso de raiva, expulsara-a de

casa. O pai de Valerie cuidara do divórcio.

Depois disso, Foster nada tivera para se devotar além do seu

trabalho, até que surgira o projeto do livro de Hitler. Depois de Valerie e

seu pai, Hitler parecia até bom. Durante o último ano, Foster se

concentrara no livro sobre a arquitetura nazista e continuara a

desconfiar de seu julgamento das mulheres. Para ele, cada mulher que

encontrava não passava da possibilidade de mais uma aventura sem

conseqüências. Não gostava de sua atitude, mas não havia outro jeito.

Para sua surpresa, Foster ouviu a voz de Joan Sawyer mais uma

vez:

— Ainda não me respondeu, Sr. Foster. Gostaria de falar

alguma coisa a respeito?

— A respeito de quê?

— De seu casamento, é claro. Pode ser um pano de fundo

pitoresco.

Foster não estava mais recostado comodamente na cadeira.

Empertigara-se. E começava a se sentir irritado com aquela jovem

repórter agressiva, à procura de uma reportagem sensacionalista.

— Foi convidada a vir até aqui para conversar sobre o meu

papel como arquiteto, não como marido — disse ele. — Chega de

diversões. Atenha-se ao que interessa ou vamos encerrar a entrevista.

Ela ficou atordoada e Foster compreendeu que temia perder a

reportagem.

— Desculpe, Sr. Foster. Tem toda razão. Às vezes me deixo levar

pelo entusiasmo. Estava apenas tentando melhorar a matéria...

acrescentar um toque pessoal. Mas prometo que não haverá mais

desvios. Estou perdoada? Podemos continuar?

Ele relaxou um pouco. A moça se mostrava bastante decente.

— Claro.

— Estávamos falando sobre o seu trabalho aqui durante os

últimos seis anos. Faz tudo sozinho?

— Oh, não. É trabalho demais. Graças a Deus. Conheceu Irene,

minha secretária e contadora. E há mais duas pessoas no escritório. Eu

é que faço os contatos com os clientes. E também faço o projeto de

criação original. Frank Nishimura entra em ação a seguir. É projetista

profissional, e não um mero desenhista. Don Graham é como um

empreiteiro. Acompanha a execução da obra, a produção de uma

estrutura, depois que o projeto está pronto e as plantas aprovadas.

— A produção de uma estrutura — repetiu Joan Sawyer. — O

que isso significa?

— A construção de um prédio pode ser comparada à feitura de

um ser humano... o exterior, a fachada, é importante... porem ainda

mais importante é o interior, os músculos e ossos. Assim, quando falo

na produção de um prédio estou me referindo à criação de sistemas

mecânicos, impermeabilização, resistência do material, essas coisas.

— Certo — murmurou a repórter, acenando com a cabeça. —

Vamos supor que eu quisesse construir uma casa. Como começaria?

Foster pensou por um momento.

— Sempre acho melhor não iniciar o processo. Como arquiteto,

prefiro responder a um programa, ao que você pessoalmente imagina

numa casa, a seus desejos. — Tentou deixar esse ponto bem claro. — A

arquitetura deve ser desenvolvida em resposta a um pedido. Gosto de

complementar o que o meu cliente tem em mente.

— Pensei que houvesse mais criatividade na arquitetura —

comentou Joan Sawyer, bruscamente.

— E há mesmo, não tenha a menor dúvida quanto a isso.

Depois que tenho uma noção do que você deseja, fico esperando por

uma centelha criativa. Gosto de ocupar um espaço e editá-lo

mentalmente numa composição. Ao mesmo tempo, procuro libertar as

pessoas de suas fixações ou do que pensam que querem, levando-as a

aceitarem um espaço melhor. Pergunto a mim mesmo: o que mais posso

fazer com o que elas querem? Depois que encontro essa resposta,

começo a trabalhar. Eu diria que 99 por cento do meu trabalho são

realizados sem que o cliente participe. Depois de quatro semanas, de

um modo geral, tenho as minhas idéias e as plantas de Frank no papel.

Os desenhos representam 80 por cento do trabalho. E recebo 80 por

cento dos honorários nessa ocasião. Isso lhe dá uma idéia do processo?

— Acho que sim. — Joan Sawyer inclinou-se para verificar o

gravador, mais uma vez, depois tornou a se recostar. — Está ótimo.

Além de conceder entrevistas, costumava se promover ou a seu

trabalho? Faz conferências?

Foster torceu o nariz.

— Quase nunca. Mas gosto de escrever, quando posso.

— Escrever? Sobre o quê? Já publicou algum livro?

Foster respondeu com a maior satisfação:

— Estou prestes a publicar. Meu primeiro livro já está quase

pronto.

— Posso perguntar qual é o tema?

— O título lhe dirá. É Arquitetura no Terceiro Reich dos Mil Anos.

Foster ficou esperando pela reação. Ela empertigou-se na

cadeira.

— Esta é uma boa notícia. Está se referindo às construções no

tempo de Hitler?

— Exatamente. O que ele construiu e o que planejava construir,

se a Alemanha vencesse a guerra. Vou lhe mostrar.

Levantou-se e começou a atravessar a sala. Joan Sawyer pegou o

gravador e seguiu-o. Havia um portfólio em cima da prancheta. Antes

de abri-lo, Foster disse:

— Sempre me senti atraído pela Segunda Guerra Mundial.

Como arquiteto, concentrei-me no que Hitler construiu e planejava

construir. Queria saber mais e tentei encontrar livros sobre o assunto.

Não havia nenhum. Por isso resolvi escrever um livro a respeito.

— Não porque gostava da arquitetura nazista?

— Ao contrário, sempre a detestei. Mas achei que um registro

visual do período deveria ser preservado. O programa de construção de

Hitler constitui o que chamamos de Arquitetura Fascista. É anônima e

muito feia. A Arquitetura Fascista é como uma batata cozida ou um

bolo inglês. Tudo muito claro, certinho. Não há qualquer leveza, não há

personalidade, romance, emoção ou paixão. Vou lhe mostrar.

Ele abriu o portfólio.

— Estas fotografias são de prédios construídos no reinado de

Hitler e modelos em miniatura ou desenhos de prédios que ele queria

construir, depois de vencida a guerra. Felizmente, a maioria jamais saiu

das plantas. Aqui está uma fotografia da Nova Chancelaria que Hitler

mandou Albert Speer construir, em Berlim. E aqui estão os comentários

de Speer. — Foster passou a ler a legenda: — "A rigor, o que Hitler

adorava no classicismo era a oportunidade para o monumentalismo.

Era obcecado pelo gigantismo."

Foster fez uma pausa e depois continuou:

— Hitler "detestou a Velha Chancelaria quando a viu pela

primeira vez. Achou que era uma coisa "digna de uma companhia de

sabão". Queria que sua Nova Chancelaria, ali perto, fosse imponente. E

foi exatamente o que Speer providenciou. Um diplomata visitante entrou

no prédio na Wilhelmsplatz através de um Pátio de Honra. Subiu uma escadaria externa para uma sala de recepção de tamanho médio,

passou por uma porta dupla com mais de cinco metros de altura,

entrou num enorme salão, decorado em mosaicos. Subiu outra escada,

para uma galeria imensa, com 150 metros de comprimento... duas

vezes maior que o Salão dos Espelhos, em Versalhes... passou por salas

que pareciam intermináveis, somando mais 220 metros. Só depois é que

alcançou a sala de recepção de Hitler e finalmente o seu vasto gabinete

pessoal, sua escrivaninha com a gravação de uma espada fora da

bainha, uma mesa de reunião de tampo de mármore ao lado da janela...

usada para conferências, depois de 1944... painéis dourados por cima

das quatro portas. Esses painéis representavam quatro das Virtudes:

Sabedoria, Prudência, Coragem e Justiça. Os chãos eram todos de

mármore. Hitler não permitia a colocação de carpetes. "É exatamente

assim que deve ser", dizia ele. "Os diplomatas devem estar habituados a

se deslocar sobre superfícies escorregadias."

Foster virou lentamente as páginas com fotografias do exterior e

do interior da Nova Chancelaria.

— A verdade é que Hitler adorou — continuou Foster. — "Muito

bom, muito bom", disse ele a seu arquiteto. "Quando contemplarem

isto, os diplomatas vão saber o que é o medo." Mais tarde, Speer

escreveu o seguinte sobre os prédios que fez para Hitler: "Eles foram a

própria expressão da tirania."

Foster recomeçou a folhear as páginas.

— Vou lhe mostrar agora um exemplo de algo grandioso que

Hitler nunca teve a possibilidade de executar. Este é o seu projeto para

a Prachtalle... A Avenida do Esplendor... no centro de Germânia, como

ele tencionava rebatizar Berlim. Hitler era um admirador de Georges

Hausmann, que projetou os grandes bulevares de Paris. E queria

superá-lo. Esta Avenida do Esplendor deveria ser 22 metros mais larga

do que a Champs Elysées e três vezes mais comprida, levando ao

Palácio de Der Führer. Para o topo do palácio, Speer sugeriu uma águia

alemã em ouro, segurando uma suástica nas garras. Hitler gostou, mas

poucos anos depois sugeriu que a águia de ouro segurasse nas garras o globo terrestre.

A repórter apontou para a fotografia de uma vasta sala.

— O que é isso?

— O salão de jantar do palácio, grande o bastante para alojar

duas mil pessoas de uma só vez.

— Que coisa! — murmurou Joan Sawyer.

— E assim continua, páginas e mais páginas de plantas que

jamais foram executadas. Speer comentou ironicamente que era a sua

"arquitetura de prancheta". Olhe só para isto. É a citação que tenciono

usar para encerrar esta parte, talvez mesmo o livro. Um comentário

muito objetivo extraído dos diários secretos que Albert Speer escreveu

na prisão em Spandau.

Joan Sawyer inclinou-se e leu a citação em voz alta:

— Albert Speer escreveu: "Pois o que nunca construímos é

também uma parte da história da arquitetura. E provavelmente o

espírito de uma era, seus objetivos arquitetônicos especiais, pode ser

melhor analisado por esses projetos não-realizados do que pelas

estruturas que chegaram a ser construídas. Pois as últimas foram

muitas vezes distorcidas pela escassez de recursos, clientes obstinados

ou inflexíveis e preconceitos. O período de Hitler é rico também em

arquitetura não-construída. Vai emergir uma imagem muito diferente se

algum dia eu tirar das minhas gavetas as plantas e fotografias de

maquetes que foram feitas durante aqueles anos."

Joan Sawyer empertigou-se e fitou Foster com um novo respeito.

— E foi exatamente o que você fez.

— Pelo menos é o que espero. — Foster pensou por um instante,

olhando para o portfólio. — Esse palácio de Hitler seria imenso, com

colunatas da altura de dois andares, ornamentos de ouro e bronze. Mas

não se deixe iludir por isso. Embora gostasse que seus prédios

intimidassem os visitantes, tanto pelo tamanho quanto pela ostentação,

Hitler preferia... lá no fundo... estruturas austeras, simples, tipicamente

alemãs, com apenas uns poucos toques internacionais. Pode não

acreditar, ao ver estas maquetes, mas era assim mesmo. Apesar disso, tendo o mundo em suas garras, acho que ele se deixou arrebatar pelo

delírio.

Foster fechou o portfólio.

— Assim é o meu livro.

Os olhos de Joan Sawyer brilhavam intensamente.

— Tem toda razão, seu projeto é fascinante. Foster exibiu um

meio sorriso.

— Como olhar para uma fileira de cobras.

— Quando o livro vai ser publicado?

— Assim que eu o concluir. Ainda tenho mais algumas páginas

para escrever. É por isso que espero viajar para o exterior esta semana.

A fim de concluí-lo. Espero que o livro saia na próxima primavera.

— Eu lhe desejo boa sorte. — Joan Sawyer desligou o gravador.

— Importa-se que eu volte na próxima semana com um fotógrafo para

tirar algumas fotos de seu livro? Sei que não estará aqui...

— E levarei isto na viagem. Mas minha secretária tem uma

cópia. Pode falar com ela.

A repórter fora buscar a sua bolsa enorme e estava guardando o

gravador lá dentro.

— Serão ilustrações maravilhosas para a minha matéria. —

Uma pausa e ela acrescentou, como se Foster pudesse mudar de idéia:

— Será uma grande publicidade para o seu livro.

Foster sorriu.

— Por que acha que lhe dediquei tanto tempo? Agradecendo, ela

apertou-lhe a mão e deixou a sala, apressada.

Foster permaneceu na prancheta por mais alguns minutos,

abrindo o portfólio e virando as páginas.

E tornou a se sentir satisfeito com o que viu. Um bom trabalho.

Mas ainda restavam as várias páginas vazias do final. As sete plantas

desaparecidas que ele sabia existirem, mas não conseguira encontrar.

Isso fez com que se lembrasse que o Dr. Harrison Ashcroft

prometera ajudá-lo a localizar as plantas. E depois se lembrou que o Dr.

Ashcroft morrera.

Voltou à mesa para procurar a notícia do Los Angeles Times que

estava lendo mas não acabara, por causa da interrupção da repórter.

Lamentava a morte do homem e também a sua oportunidade perdida de

encontrá-lo.

Chegou ao final da notícia e empertigou-se, subitamente

reanimado. "A Srta. Emily Ashcroft, filha do falecido, vinha colaborando

com o pai no livro e anunciou que concluirá sozinha a biografia de

Hitler, segundo o seu editor de Londres."

Rex Foster sentiu outra vez um ímpeto de esperança. Claro que

seu problema podia ser resolvido. Emily Ashcroft devia conhecer todas

as fontes do pai. Tinha condições de informar a Foster quem dentre os

dez arquitetos que trabalhavam com Speer podia estar com as plantas

desaparecidas.

O instinto de Foster foi o de pegar o telefone no mesmo instante,

ligar para a Srta. Ashcroft em Oxford, marcar um encontro, descobrir a

quem procurar na Alemanha Ocidental e ir até lá para concluir sua

obra. Antes de estender a mão para o telefone, Foster olhou para o

relógio em cima da mesa. Era o final da manhã, o que significava que

estava anoitecendo em Oxford. Uma hora aceitável para ligar. Ainda

hesitou por um instante, pensando que talvez estivesse ainda muito em

cima da morte do pai para incomodá-la. Mas depois lembrou que tinha

um prazo inadiável para entregar o livro.

Chamando Irene Myers pelo interfone, Foster pediu-lhe que

ligasse para a casa do Dr. Ashcroft em Oxford.

Irene tornou a chamá-lo alguns minutos depois:

— Sr. Foster, estou na linha com uma pessoa em Oxford. Mas

não é a Srta. Emily Ashcroft. Ao que parece, ela não está em casa. Falei

com a Srta. Pamela Taylor...

— Quem?

— Ela é a secretária e está na casa desde a morte do Dr.

Ashcroft. Quer falar com ela?

— Quero.

Foster pegou o fone.

— Srta. Taylor? Aqui é Rex Foster, ligando de Los Angeles. Não

sei se está reconhecendo meu nome...

A suave voz britânica mostrou-se indecisa ao responder:

— Ahn... não estou lembrando...

— Mantive uma correspondência recente com o Dr. Ashcroft.

Sou o arquiteto que precisava de algumas informações sobre Adolf

Hitler. Ele concordara em me receber. Na próxima semana, para ser

mais exato. Eu tinha um encontro marcado. Mas agora... — Foster

hesitou. — Acabei de saber o que aconteceu com o Dr. Ashcroft. Não

tenho palavras para expressar o meu pesar.

— Foi uma perda terrível — murmurou Pamela Taylor. — Sr.

Foster, não é mesmo? Lembro agora do nome... o encontro...

— Como a Srta. Ashcroft trabalhava na biografia junto com o

pai...

— Hum, hum.

— ... ocorreu-me que talvez ela disponha das mesmas

informações e poderia me ajudar, como o Dr. Ashcroft concordara em

fazer. Sei que ela deve estar abalada pela tragédia...

— Tenho certeza de que ela terá o maior prazer em cooperar.

— Pode me informar a que horas ela voltará esta noite? Pamela

Taylor respondeu em tom pesaroso:

— Lamento, mas ela não voltará esta noite. Deixou Londres esta

manhã, com destino a Berlim Ocidental.

— Berlim Ocidental?

— A fim de concluir o projeto em que trabalhava com o pai.

— E quanto tempo ficará em Berlim?

— Não sei. A visita não tem prazo determinado. Mas calculo que

ficará pelo menos duas semanas.

— Pode me informar onde ela está hospedada em Berlim, Srta.

Taylor? Talvez eu possa procurá-la lá.

Houve um breve silêncio e depois Pamela Taylor respondeu:

— Isso deveria ser confidencial...

— Tenho certeza de que ela não se importaria, Srta. Taylor — assegurou Foster, pacientemente. — Afinal, o pai concordou em me

receber e é natural que ela também aceite.

— Tem razão. Ela está no Bristol Hotel Kempinski, em Berlim.

Já deve ter chegado lá, a esta altura.

— Obrigado, Srta. Taylor. Agradeço a sua atenção. Entrarei em

contato com a Srta. Ashcroft. E quero dizer mais uma vez que lamento

profundamente o acidente. E espero conhecê-la pessoalmente um dia

desses.

Desligando, Foster levantou-se e seguiu apressadamente até a

sala de recepção. Irene Myers levantou os olhos da máquina de

escrever.

— Teve sorte?

— Tive, sim. Emily Ashcroft está em Berlim Ocidental. O lugar

perfeito para encontrá-la e obter a informação de que preciso. Assim,

Irene, vamos entrar em ação agora mesmo. Providencie uma passagem

no primeiro voo disponível para Berlim amanhã. Se amanhã for de todo

impossível, então que seja no dia seguinte. E depois ligue para o Bristol

Hotel Kempinski, em Berlim. Reserve-me um quarto, de solteiro ou de

casal, o que quer que eles tenham.

— Por quanto tempo devo fazer a reserva?

— Quem sabe? Diga-lhes que ficarei uma semana. Mas será

pelo tempo que for necessário. E reze para que Emily Ashcroft

permaneça sã e salva até eu encontrá-la. Ela é a minha grande

esperança.

Instalada num quarto pequeno, moderno, com ar-condicionado,

no 11º. andar do Hotel Guarani, em Asunción, Tovah Levine estava

sentada, lendo La Tribuna e tomando o resto do café da manhã.

Sentindo-se revigorada depois do banho de chuveiro, e relaxada

por estar mais uma vez na capital, depois de quatro semanas

extenuantes no interior do Paraguai, Tovah tentava se pôr em dia com o

mundo, desde que saíra de circulação. O nome de Hitler destacou-se na

terceira página, atraindo-lhe a atenção. Leu a pequena notícia em

espanhol. Qualquer coisa que mencionasse um nazista era importante.

"Sir Harrison Ashcroft, o famoso historiador da Universidade de

Oxford, foi sepultado ontem, num cemitério metodista nos arredores de

Oxford. Ashcroft, co-autor de uma biografia de Adolf Hitler, prestes a

sair, sofreu ferimentos fatais ao ser atropelado na semana passada por

um motorista desconhecido, em Berlim Ocidental, onde concluía as

pesquisas para seu livro, Herr Hitler."

Tovah teve a impressão de que o nome Ashcroft lhe despertava

alguma recordação. Talvez tivesse lido um dos seus livros anteriores,

quando estava na Universidade em Jerusalém. Não tinha certeza. De

qualquer forma, não estava muito interessada em mais um livro sobre

Hitler. Passou à leitura do resto do jornal.

Não demorou muito para acabar o jornal e o café. Recostou-se

na cadeira por um momento, a fim de organizar os pensamentos, antes

do almoço às duas horas da tarde com Ben Shertok, que vinha de

Buenos Aires para encontrá-la. Só estivera com Shertok uma vez,

quando chegara à América do Sul, há cerca de um mês. Ficara

impressionada com ele, por sua sagacidade e importância. Shertok era

um dos homens mais destacados do serviço secreto de Israel, o chefe do

Mossad para quatro países da América do Sul. Ela sabia que se tratava

de um posto crucial. Somente os agentes do Mossad em Berlim

Ocidental, em sua interminável caça a nazistas — e na Síria,

empenhados na persistente caçada a terroristas palestinos —, tinham

mais responsabilidades e maiores equipes. Paraguai, Chile, Argentina e

Brasil ainda eram alvos importantes, como esconderijos prediletos de

muitos líderes proeminentes do Terceiro Reich. Mas Tovah tinha a

impressão de que toda a região estava sendo gradativamente relegada a

um segundo plano. Afinal, a maioria dos nazistas procurados estava

agora na casa dos setenta e oitenta anos, morrendo um a um. Em breve

restariam muito poucos a perseguir, prender e processar. Apesar disso,

embora Walter Rauff, o inventor das câmaras de gás móveis, tivesse

lhes escapado através da morte natural, ainda havia de vez em quando

um Klaus Barbie a ser encontrado por lá e extraditado para a França, a

fim de ser submetido a julgamento. Essa lembrança atenuava o desânimo.

Tovah pegara um vôo da LATN de Concepción para Asunción,

percorrendo de ônibus os quinze quilômetros entre o Aeroporto

Presidente General Stroessner e a capital. Estava combinado que se

hospedaria num quarto de solteiro no Hotel Guarani naquele dia, se

encontraria com Shertok no saguão e sairiam juntos para almoçar num

restaurante, onde apresentaria seu relatório. Contudo, ao chegar à

recepção do Guarani, onde tinha uma reserva como Helga Ludwig (o

nome em seu passaporte, já que um nome alemão era mais conveniente

num país latino hospitaleiro com alemães e cautelosos com judeus),

encontrara um telex à sua espera. Ben Shertok sugeria que almoçassem

em seu quarto e conversassem lá. Parecera-lhe uma mudança sensata,

pois no quarto teriam mais privacidade.

Agora, considerou o que fazer. Eram onze e dez. Shertok não

chegaria antes das duas da tarde. Isso lhe proporcionava pelo menos

duas horas para fazer o que bem quisesse. Não conhecia Asunción

muito bem. Já estivera na capital duas vezes antes. A primeira por uma

semana, há oito anos, quando tinha dezenove anos de idade e tentava

aperfeiçoar seu espanhol, durante uma excursão de seis meses pela

América do Sul. A outra recentemente, por dois dias apenas, antes de

iniciar suas viagens pelo Paraguai como agente do Mossad. Sentiu

agora o impulso de andar a esmo pelo centro da cidade, para conhecê-la

um pouco melhor. E talvez comprasse algumas lembranças para seus

pais e irmãos, que viviam em Tel Aviv e com os quais se encontraria dali

a dois dias.

Pegou a mala para tirar algumas roupas, algo bem leve, uma

blusa sem mangas, saia de algodão, sandálias, pois fazia calor lá fora, a

umidade era cada vez maior. Deixando o hotel, entrou no Parque

Independência. As árvores palacha estavam rosa naquele dia, as ruas

de prédios de estilo colonial espanhol eram lindas, com suas laranjeiras

e jacarandás. Havia edifícios por toda parte, junto com pequenos

prédios caiados de branco, quase todos lojas, os telhados de telhas

vermelhas. Tovah estudou alguns restaurantes novos e prédios do governo reformados, parou para examinar as mercadorias à venda em

diversas lojas. Comprou alguns lenços para a mãe e a tia predileta.

Dando uma volta, seguiu para a Plaza Constitución, examinou

atentamente o Palácio do Congresso. Sentou num banco à sombra, a

fim de descansar um pouco e observar os transeuntes, que haviam

diminuído consideravelmente depois que começara o período da siesta,

ao meio-dia.

Imersa em devaneios, Tovah sentiu-se propensa a reconstituir os

últimos três anos, que a haviam levado àquela cidade quente e remota.

Na escola, suas línguas haviam sido o inglês (todos os jovens de Israel

falavam inglês), espanhol (porque era um desafio) e alemão (porque seus

avós, dos dois lados, nasceram na Alemanha, lá viveram e morreram —

em campos de concentração ou câmaras de gás —, mas seus filhos

foram despachados para a Palestina, cresceram, conheceram-se,

casaram e tornaram-se os pais de Tovah).

A fim de melhorar seu espanhol, passara aquelas primeiras

férias na América do Sul. Acompanhara o pai duas vezes a Berlim

Ocidental, quando ele fora tratar de problemas de reparações de guerra.

Seu avô paterno fora proprietário de uma próspera loja de

departamentos, confiscada por Hitler, e encontrara a morte na Solução

Final dos nazistas. Berlim Ocidental parecera um lugar muito estranho

para Tovah, e apesar da animação e excitamento, ela desprezara a

cidade, desprezara todo o seu passado. Mas ali conhecera jovens

decentes e cordiais, muito parecidos com ela e seus amigos israelenses.

Quando comentara a respeito com o pai, ele rira e dissera:

— Não se preocupe com os jovens. Eles não são seus inimigos.

Preocupe-se, isso sim, com os homens de sessenta a oitenta anos.

Pode estar certa de que quase todos foram nazistas. São eles que

dizem: "Ah, como era bom o tempo de Der Führerl Agora, nossa Berlim

está repleta de estranhos, nossos jovens são estúpidos e vivem drogados

pelos americanos e outros estrangeiros. Precisamos ser mais duros com

eles. Precisamos remover todo o lixo." São esses, Tovah, que desejam ter

novamente uma nação só de louros. Tirando as línguas, Tovah concluíra o curso de jornalismo na universidade. Desde o início

manifestara a curiosidade e a perspicácia de repórter. Obtivera boas

notas e depois de se formar e servir o período de exército, começara a

trabalhar no Post de Jerusalém, como repórter especial. Quase ao final

do primeiro ano fora chamada ao gabinete do editor executivo, um

acontecimento raro.

— Tovah — dissera ele —, tenho uma missão excepcional para

você. Realmente excepcional.

— Como assim?

— O diretor da Mossad quer lhe conceder uma entrevista. A

Mossad nunca fez isso antes, nunca sequer permitiu que um dos

nossos repórteres entrasse em seu prédio, nos arredores de Tel Aviv.

Mas esta manhã o diretor formulou o convite. E indicou o seu nome

expressamente.

Tovah ficara espantada. Sempre conhecera o sigilo que envolvia

esse setor do governo israelense, o serviço secreto fundado em 1951 e

conhecido como Mossad.

— Por que logo eu?

— Provavelmente eles leram algumas de suas matérias

assinadas e gostaram.

— O que eles poderiam me dizer?

— É o que você vai descobrir. Seu encontro é com o Memuneh...

o pai... o próprio diretor. Amanhã de manhã, às dez horas. Descobrirá

tudo então.

Cinco minutos depois de reunida a sós com o diretor da Mossad,

um homem incisivo e direto, que não desperdiçava palavras, Tovah já

sabia o que ele tinha a dizer. Ele não queria lhe dar uma reportagem.

Queria lhe oferecer um trabalho.

— Nossa missão é ficar de olho nas pessoas — explicara o

diretor do Mossad. — E estivemos de olho em você durante os últimos

seis meses. Temos 900 agentes e outros funcionários... cem aqui, no

quartel-general, o resto espalhado pelo mundo... mas as mulheres são

bem poucas. Como nosso diretor anterior, Meir Amit, sinto-me constrangido em usar mulheres no serviço. Mais cedo ou mais tarde,

uma mulher pode descobrir que é necessário recorrer ao sexo para

obter o que deseja. É uma situação que não me agrada, mas...

Ele dera de ombros, parando por aí. Mas Tovah percebera que

ele avaliava a sua aparência. Ela sabia — sempre soubera — que era

atraente, num estilo goy. Cabelos louros compridos. Olhos azuis. Nariz

aquilino. Boca pequena. Seios cheios e firmes. Pernas bem torneadas.

Nada obviamente judeu. Os alemães arianos poderiam considerá-la um

de seus espécimes perfeitos.

Agora, o diretor do Mossad analisava a sua feminilidade. Ela se

sentira forçada a falar:

— Não me importo. Com a parte do sexo. Não sou criança. E na

vida deve-se fazer o que é preciso.

O diretor soltara um grunhido.

-— O trabalho do agente pode ser muito perigoso. Não

encorajamos o assassinato. Mas encorajamos a autodefesa. Cada agente

é treinado a usar uma arma... muitas armas. Cada agente é ensinado a

mentir e trapacear, quando necessário. Só estamos interessados nos

resultados. Nossos agentes são servidores civis, recebem um salário do

governo. Por três anos, é o equivalente a 800 dólares mensais. Nenhum

ficará rico. Todos sabem que estão ajudando Israel a sobreviver. Se está

interessada, podemos acertar tudo com seu editor. Continuará a

trabalhar para o Post, aqui e no exterior. Será o seu disfarce. Mas seu

trabalho principal será para o Mossad.

— Fazendo o quê?

— Muitas coisas. Receberia missões no exterior. Primeiro,

receberá o treinamento adequado, tirando uma licença de um ano do

jornal. Aprenderá a se comunicar por código, a seguir um suspeito e se

livrar de um perseguidor, aprenderá o combate corpo a corpo e a usar

uma Beretta 22. Só depois estará pronta para entrar em ação.

— Por que eu? — insistiu ela.

— Falei que estávamos de olho em você. Gostamos de sua

aparência e tenacidade. E também de sua capacidade de observação. Gostamos do seu conhecimento de alemão, espanhol e inglês. — Ele

fizera uma pausa. — E então, o que me diz?

O diretor do Mossad fizera outra pausa, antes de acrescentar:

— Ou quer pensar um pouco a respeito?

Sentada ali, escutando, Tovah estivera pensando a respeito,

pensando em sua vida. O trabalho de jornal era bom, mas se tornara

um tanto monótono e cansativo. Sua vida amorosa nada tinha de

excepcional, embora houvesse encontrado alguém especial

recentemente. De qualquer forma, haveria tempo para isso mais tarde.

Ansiava por uma participação emocionante em algo que tivesse um

significado importante. Além disso, queria também viajar, sair daquela

rígida comunidade de sofredores, conhecer novos lugares, outras

pessoas. Ela fitara o diretor nos olhos e respondera:

— Já pensei. Quando começo?

Tovah já estivera no exército israelense. O treinamento do

Mossad fora um pouco parecido, talvez mais rude, mais rigoroso, mais

variado, embora sempre fascinante. Depois, trabalhara o resto do ano

em Tel Aviv, no quartel-general, decodificando mensagens cifradas,

colhendo as informações de agentes, interrogando possíveis contatos.

Sua primeira missão no exterior, como Helga Ludwig, fora a de

pesquisar e escrever uma reportagem turística sobre o Paraguai. Na

verdade, o Mossad obtivera uma nova pista sobre o Dr. Josef Mengele, o

médico da SS do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, que

mandara 180 mil pessoas inocentes para a morte, durante o reinado de

terror de Hitler. Mengele escapara da Zona Americana da Áustria para a

Argentina, em 1951. Com a ajuda de imigrantes alemães, ali e no

Paraguai, esquivara-se a todos os caçadores de nazistas. Agora, o

Mossad recebera nova informação sobre o seu paradeiro. O Dr. Mengele

fora visto em Nueva Germania, uma pequena cidade na região central

do Paraguai. Tovah recebera a ordem de confirmar a informação e

descobrir o que pudesse sobre cinco outros nazistas procurados, vários

dos quais podiam estar escondidos no Paraguai. Ela descobrira muita

coisa, mas a presa principal se mostrara tão esquiva quanto antes. Agora, a missão estava quase concluída e poderia deixar aquele país

desolado. Tovah retornou ao presente, ao banco de praça em Asunción.

O relógio indicava que era uma e meia, estava na hora de voltar

ao hotel, a fim de almoçar com Ben Shertok em seu quarto e

apresentar-lhe o relatório.

Ao sair do elevador e encaminhar-se para o quarto, descobriu

que Ben Shertok já estava ali, encostado na parede, ao lado da porta,

com uma expressão satisfeita, fumando um charuto. Parecia um

professor, os cabelos desgrenhados, óculos de aros de chifre, nariz

aquilino. Um dos chefes do serviço secreto israelense, suave e dedicado.

Ele plantou um beijo casto nas faces de Tovah e pediu desculpas

por chegar tão cedo.

— O avião não estava no horário. Chegou antes do tempo. Por

isso, eu a desculparei se quiser ir ao banheiro.

Tovah deixou-se entrar no quarto.

— Sinto-me culpada por ficar neste hotel de luxo, mesmo que

seja por um dia apenas. Mas posso lhe garantir, Ben, que não foi assim

que vivi nas últimas quatro semanas.

— Pode apostar que sei disso. Tomei a liberdade de pedir o

almoço quando estava lá embaixo. Não disponho de muito tempo e não

queria comer às pressas. Preciso estar no Chile ainda esta noite.

— Vou apenas lavar as mãos e o rosto, Ben. Está muito quente

lá fora. O que vou almoçar?

— Lembrei que você comentou, quando jantamos em Buenos

Aires, que gostou muito daqueles bolinhos de milho e cebola na

primeira vez em que esteve aqui.

— Sopa paraguaya — disse Tovah. — Não poderia ter pedido

melhor.

— E também um vinho tinto.

— Ótimo. Não vou demorar mais que cinco minutos.

Ao sair do banheiro, vinte minutos depois, constatou que a

comida já fora servida, num carrinho, entre a janela e a cama. Percebeu

que Shertok levava alguém para o corredor, um homem atarracado, de macacão, carregando uma caixa.

Olhou para Shertok com uma expressão inquisitiva, quando ele

sentou à frente do carrinho.

— Apenas um colega — explicou Shertok. — Verificou se havia

microfones ocultos no quarto. Está limpo.

Shertok pôs-se a tomar o vinho, continuando a fumar o charuto.

Tovah pegou a bolsa, tirou um caderninho de anotações, abriu-o, pôs

em cima da mesa, enquanto sentava em frente a Shertok.

— Se não tem muito tempo, é melhor eu começar logo — disse

ela, cortando o primeiro bolinho, mastigando, engolindo e tomando um

gole do vinho seco.

— Como foi a viagem? — perguntou ele.

— Pelos meus padrões, eu diria que um fracasso. Não encontrei

uma única pista concreta do paradeiro de Josef Mengele.

— Ele está aqui, neste país?

— Todo mundo diz que sim, mas não tenho certeza, Ben.

Tornou-se chique dizer... e estou me referindo aos paraguaios... que se

viu ou se encontrou pessoalmente o "renomado" Mengele. Um grande

tema de conversa, dá prestígio, se me entende.

— Compreendo perfeitamente.

Tovah consultou seu caderninho de anotações, enquanto comia.

— Todos os nativos sabem que, depois que os Aliados invadiram

a Alemanha e a Áustria, Mengele usou uma das redes de fuga nazistas

para chegar a Roma, onde se escondeu num mosteiro, na Via Sicilia,

obteve um passaporte falso na Espanha e chegou à Argentina em 1951.

Não é novidade para ninguém aqui que Mengele, quando compreendeu

que os perseguidores estavam fechando o cerco, veio para o Paraguai,

deu um jeito de se tornar cidadão paraguaio e viveu às claras, com toda

segurança, em Asunción.

Shertok acenou com a cabeça.

— Pedimos ao presidente americano Carter que tomasse alguma

providência. Carter pressionou o Presidente Stroessner, que

relutantemente revogou a cidadania de Mengele. Depois disso, Mengele desapareceu, deixou a capital, e desde então tem vivido no interior.

Tovah reviu suas anotações rapidamente.

— E foi então que o diretor recebeu essa informação nova. Ele

achou...

— Tem havido muitas indicações ultimamente — interrompeu-a

Shertok —, desde que passamos a contar com o apoio do governo da

Alemanha Ocidental e de um grupo de americanos oferecendo quase

quatro milhões de dólares como recompensa pela captura de Mengele.

Em junho surgiu a informação de que Mengele fora para o Brasil, vivera

ali com o nome de Wolfgang Gerhard e morrera afogado, tendo sido

enterrado em 1979.

— Sabe muito bem que o Mossad nunca aceitou a idéia de que

Mengele morreu e foi enterrado no Brasil. Concluíram que o relatório

dos legistas foi baseado numa trama bem urdida. Tudo não passou de

uma conspiração perfeita para suspender as investigações e permitir

que Mengele vivo continuasse a viver em segurança no Paraguai. Seja

como for, o diretor achava que Mengele continuava vivo. E mais do que

isso, segundo ele, Mengele fora visto recentemente, gozando de ótima

saúde, numa pequena cidade paraguaia chamada Nueva Germania,

uma miserável colônia de imigrantes alemães, fundada por um

professor alemão que odiava os judeus, no final do século passado.

Mengele foi até lá para tratar de alguns remanescentes nazistas que

estavam doentes. Em agradecimento, recebeu a proteção da cidade. E

mandaram-me descobrir se ele ainda estava lá.

Shertok tomou um gole do café.

— Sabia que era perigoso, Tovah?

— Claro que sabia.

— Mas sabia até que ponto? Dois de seus antecessores, que não

eram agentes do Mossad, chegaram muito perto de Mengele e pagaram

por sua curiosidade.

— Não sabia disso — respondeu Tovah, lentamente. — O que

aconteceu?

— Em 1961, uma atraente judia chamada Nora Eldoc, que fora esterilizada por Mengele em Auschwitz, seguiu a sua pista até um

balneário aqui. Fez contato com ele. Mas antes que pudesse agir,

Mengele descobriu quem ela era. Encontraram seu cadáver pouco

depois no Brasil. Posteriormente, Herbert Cukur, um nazista

reabilitado, localizou Mengele num esconderijo argentino. O cadáver de

Cukur foi encontrado na mala de um carro no Uruguai.

— De qualquer modo, ele já tinha ido embora quando cheguei a

Nueva Germania. Partira na semana anterior. Tentei descobrir para

onde fora e recebi várias indicações. Circulei pela região, fingindo ser

uma repórter de turismo. Fui a Hernandarias, Mbaracayu, San Lorenzo

e assim por diante, terminando em Concepción. Não havia o menor

sinal de Mengele em qualquer parte. Encontrei muitos alemães

paraguaios em todas as cidades, grandes e pequenas. Alguém me

garantiu que eles chegam a 70 mil, o maior grupo étnico daqui. Uns

poucos admitiram terem visto Mengele, mas ninguém me disse onde.

— Em outras palavras, não teve sorte.

— Absolutamente nenhuma. Lamento muito, Ben.

— Você tentou. Isso é o máximo que podemos pedir. — Sherok

pensou por um momento. — Às vezes fico em dúvida... Acha que

alguém descobrirá Mengele algum dia?

— Acho que sim. Com toda certeza. Não acredito que ele esteja

enterrado no Brasil. Nenhuma das pessoas com quem fiz contato se

deixaria tentar por uma recompensa. Eram nazistas inflexíveis. Mas um

dia alguém mais fraco vai querer os quatro milhões de dólares. E essa

pessoa é que o denunciará. Estou convencida de que Mengele será

encontrado, mais cedo ou mais tarde. Para dizer a verdade, conto com

isso.

Shertok apontou para o caderninho de anotações de Tovah.

— O que me diz dos outros?

Depois de tomar o resto do seu café, Tovah disse:

— Pediram-me que ficasse de olhos e ouvidos abertos para

Heinrich Müller, um dos chefes da Gestapo de Himmler. Não consegui

descobrir se ele está no Paraguai. Alguém comentou que ele pode ter ido para a União Soviética depois da Segunda Guerra Mundial, a fim de

trabalhar para a KGB. Mas não passa de boato.

— Descobriu alguma coisa sobre Josef Schwammberger e Wal-

ter Kutschmann?

Tovah voltou a consultar suas anotações.

— Schwammberger. Comandante da SS no campo de

concentração de Przemysl, na Polônia. Agora com 73 anos. Ele não está

no Paraguai. Encontra-se certamente na Argentina, mas invisível.

Quanto a Kutschmann, o carrasco nazista na Polônia, também esteve

na Argentina, mas várias pessoas acham que se encontra agora no

Paraguai. Mas não há qualquer pista do seu paradeiro.

Terminada a refeição, Shertok recostou-se na cadeira,

acendendo outro charuto.

— Mais alguma coisa?

— Só uma. Não cheguei a vê-lo, mas recebi a informação segura

de que ele está aqui.

— Quem?

— Não é um criminoso de guerra, mas sim um cientista nazista.

Professor Dieter Falkenheim. Nós o temos em alguma lista como

desaparecido.

— E agora você o descobriu?

— Exatamente. Falkenheim se encontra em algum lugar do

norte do Paraguai. Quer saber como escapou da Alemanha? A missão

americana conhecida como Alsos, encarregada de reunir os cientistas

nazistas e levá-los para os Estados Unidos, descobriu que esse físico

nuclear, que tentava fabricar uma bomba nuclear, estava na pequena

cidade de Ilm. Quando os homens da Alsos chegaram a seu laboratório

em Ilm, descobriram que estava vazio, abandonado às pressas. Sei

agora o que aconteceu. Falkenheim foi levado para a Dinamarca, e de lá

Juan Perón o trouxe de avião para a Argentina. Ele trabalhou para

Perón, até que o ditador argentino foi exilado. Falkenheim seguiu então

para o Paraguai. Está aqui desde então. Há especulações de que ele

pode ter contrabandeado uma tonelada de minério de urânio para fora da Alemanha, durante a derrocada dos nazistas. Lembra que os

americanos encontraram 1.100 toneladas de minério de urânio

escondidas numa mina de sal, nos arredores de Stassfurt? Pois podia

haver mais. É possível que Falkenheim tenha levado o resto.

— É improvável. Desconfio que houve apenas uma falha

aritmética dos americanos. Seja como for, Falkenheim não é um dos

nossos alvos primários.

— Mas ainda assim é um nazista. Achei que a informação era

interessante.

— Talvez, mas não posso saber. Fale com o diretor, quando

voltar. E já que estamos falando do diretor, ele lhe pediu para ficar

atenta a Martin Bormann durante a sua permanência no Paraguai?

— Não, não houve qualquer menção a Bormann. Creio que o

Mossad está convencido de que ele morreu numa explosão, quando

tentava escapar de Berlim. Acho que já o consideram assunto liquidado.

— É possível. — Por trás de uma nuvem de fumaça, Shertok

formulou casualmente outra pergunta: — O que me diz de Adolf Hitler?

Tovah ficou aturdida.

— Adolf Hitler?

— No Paraguai. Alguém lhe disse que o tinha visto?

— Essa não, Ben. Está querendo zombar de mim. Hitler matou-

se com um tiro no Führerbunker, em 1945. Todos sabem disso.

— Nem todos, Tovah, nem todos. — Shertok empertigou-se na

cadeira. — Já ouviu falar de Sir Harrison Ashcroft?

— Ashcroft, Ashcroft... — Ela tentou se lembrar. — Não saiu

uma notícia a respeito dele no jornal de hoje?

— Isso mesmo. A filha Emily Ashcroft e alguns amigos

enterraram-no em Oxford.

— E daí?

— E daí que os Ashcrofts estavam concluindo uma biografia de

Adolf Hitler, intitulada HerrHitler. E de repente o Dr. Ashcroft recebeu a

informação de alguém em Berlim de que Hitler não se matou no bunker,

como todos acreditam. O informante garantiu que não foram os restos mortais de Hitler que os russos desenterraram. Não havia restos

mortais de Hitler. O Dr. Ashcroft foi a Berlim Ocidental para conferir a

informação. Um dia antes de iniciar as escavações no bunker, ele foi

morto por um motorista que fugiu, num estranho acidente.

— Foi mesmo um acidente?

— Não temos certeza.

Tovâh estudou atentamente o rosto sério de Shertok.

— Obrigada pela informação, mas o que isso tem a ver comigo?

— Talvez alguma coisa. — Shertok mudou de posição na

cadeira, irrequieto. — Esta manhã recebi uma mensagem cifrada de

Chaim Golding, que chefia o Mossad em Berlim Ocidental. Ele diz que

Emily Ashcroft tenciona concluir a obra sozinha. Ela chegou hoje a

Berlim Ocidental. Hospedou-se no Bristol Hotel Kempinski.

— Como sabe de tudo isso?

— Chaim sabe de tudo o que acontece em Berlim, nas duas Ber-

lins, especialmente o que se relaciona com Hitler. — Shertok hesitou

por um instante. — Sei que você teve uma missão árdua aqui e está

cansada. Tem direito a umas férias. Sei que planeja voltar a Tel Aviv,

reunir-se com a família e o namorado. Mas... bem...

— Você me quer em Berlim.

— Golding quer. E também o diretor. Você conhece a cidade.

Fala alemão fluentemente. Sabe o quanto queremos descobrir a

verdade... qualquer que seja... a respeito de Hitler. O Mossad gostaria

que você adiasse o retorno a Tel Aviv. E passasse pelo menos uma

semana em Berlim.

— Para fazer o quê?

— Encontrar-se com Emily Ashcroft. Descubra o que o pai dela

sabia ou o que ela sabe agora sobre a possibilidade de Hitler não ter

morrido no bunker. Pode voltar a ser Tovah Levine, usando o seu antigo

disfarce de repórter do Post de Jerusalém. Talvez possa tentar...

entrevistá-la.

— Você sabe que isso não daria certo, Ben. Ela não vai querer

falar com repórteres.

— O pai dela falou.

— Mas lembre-se do que aconteceu com ele, Ben.

— Talvez você tenha razão. Mas não importa como vai fazer,

qual o pretexto que usará para entrar em contato com ela. Descubra

tudo o que ela sabe. Não creio que possa resultar algo de útil, mas

nunca se sabe. Precisamos ter certeza absoluta, Tovah, de que o maior

de todos não escapou vivo.

— Como achar melhor. Quando?

— Parte amanhã de manhã para Buenos Aires. E de lá segue

direto para Berlim Ocidental.

— Que hotel?

— Já tem um quarto reservado no Bristol Hotel Kempinski.

— Ótimo.

— Como eu lhe disse, queremos que fique o mais perto possível

de Emily Ashcroft. — Ele entregou as passagens de avião. — Talvez

desta vez você encontre rosas.

Tovah sorriu.

— Espero que em minhas mãos, e não na minha sepultura.

Em Berlim Ocidental, às dez horas da manhã de um dia

nublado, Evelyn Hoffmann saiu do Café Wolf, parou por um instante ao

lado da livraria na esquina da Stresemannstrasse e Anhalter Strasse,

aspirou o fresco ar da manhã.

O que fazia agora e o que faria pelo resto da manhã e parte da

tarde era uma rotina que seguia há 22 anos, quase sem variação

durante os últimos dez anos.

Mas naquela manhã, antes de iniciar a rotina, Evelyn Hoffmann

deteve-se por um instante a estudar seu reflexo na janela do Café Wolf.

E o que viu não a desagradou. Aos 73 anos não se podia esperar que

tivesse a mesma aparência dos 23 anos. Fora uma beldade, todos

concordavam. Era mais alta que a média, os cabelos muito louros,

esbelta, sofisticada, reservada, com muito orgulho pelas pernas

compridas e bem torneadas. Ainda lembrava com prazer uma descrição

que o querido Keitel — Marechal-de-Campo Wilhelm Keitel — lhe concedera depois da guerra: "Muito esbelta, aparência elegante, pernas

lindas — logo se percebia. Parecia ser não tímida, mas sim reticente e

retraída — uma pessoa muito simpática, mas muito mesmo." Fora

modelo de nu para o grande escultor Otto Brecker, acalentara a

esperança de se tornar estrela do cinema em Hollywood, depois que

passasse a confusão. Isso acontecera há muito tempo. Mas não tinha

importância. Agora, aos 73 anos, concluiu que ainda possuía uma

presença imponente. Curvara-se muito pouco à passagem do tempo,

ainda tinha um porte empertigado, os cabelos agora pintados de

castanho, o rosto cruzado por pequenas rugas, mas não de todo ruim

para uma mulher de sua idade. A mente e a memória continuavam tão

aguçadas como antes. Apenas o andar pagara um tributo aos anos.

Tornara-se mais lento, mais hesitante, o fôlego diminuíra.

E agora a rotina.

Evelyn Hoffmann afastou-se da janela do café e foi para a loja

estreita ao lado, com uma placa por cima da porta que dizia Konditorei.

Esperou sua vez e recebeu uma caixa cheia de nurskirchen frescos,

mandou embrulhar com uma fita, a fim de parecer um presente.

Deixando a loja, foi andando devagar pela rua, a bolsa numa das

mãos, a caixa de bolinhos na outra, até a Askanischer Platz, parando

por um instante na Schõneberger Strasse, a fim de comprar um

exemplar do Berliner Morgenpost. Descobrindo que estava esgotado,

contentou-se com o tablóide BZ — o Berliner Zeitung —, que raramente

lia, depois foi se postar no abrigo de ônibus, a fim de esperar pelo 29,

que a levaria à Ku'damm em vinte minutos.

No ônibus, pôs-se a ler o jornal. A fotografia e a notícia

principais eram do presidente cowboy americano, que despachara mais

mísseis nucleares para a Alemanha Ocidental, as ogivas apontando

para a União Soviética. Isso a deixou satisfeita, já que odiava os russos

ainda mais que os americanos. Enquanto o ônibus corria, Evelyn

folheou distraidamente o jornal. Uma notícia menor atraiu sua atenção

e notou que o primeiro parágrafo era um despacho de Londres:

"Uma editora britânica, a Ryan & Maxwell, Ltd., anunciou ontem que prosseguirá nos planos para a publicação da tão discutida biografia

de Adolf Hitler, Herr Hitler, de autoria de Sir Harrison Ashcroft e sua

filha, Emily Ashcroft, de Oxford. Houve dúvidas sobre o futuro do livro

inacabado quando o Dr. Ashcroft, efetuando pesquisas sobre os últimos

dias de Hitler em Berlim, encontrou a morte prematura num acidente

de trânsito. Mas a editora britânica anunciou ontem que Emily Ashcroft

concordara em concluir sozinha a biografia que vinha preparando em

colaboração com o pai há cinco anos."

Franzindo involuntariamente o rosto, Evelyn continuou a ler,

perdeu a paciência com o resto da notícia, dobrou o tablóide, metendo-o

na bolsa.

Desceu do ônibus na movimentada Ku'damm e percorreu

devagar os seis quarteirões até a Knesebeckstrasse, chegando ao prédio

de apartamentos de seis andares em que residiam seus parentes mais

próximos. No terceiro andar, num apartamento grande e moderno,

morava uma mulher a quem Evelyn muito amava, Klara. Fiebig, que

trabalhava como diretora de arte autônoma para agências de

propaganda, e seu marido, Franz Fiebig, um professor um tanto ríspido,

mas inteligente, que ensinava história moderna na Schliesion

Oberschule, no distrito de Charlottenburg. A mãe de Klara, Liesl,

inválida e quase sempre numa cadeira de rodas, vivia com os Fiebigs.

Liesl fora a criada de Evelyn Hoffmann em tempos melhores — a

primeira de duas criadas com o mesmo nome —, três anos mais jovem

do que Evelyn e prima distante. Liesl comprara o luxuoso apartamento

para a filha e o genro em retribuição a seus cuidados.

Evelyn geralmente se mostrava animada, aguardando com

ansiedade a visita semanal, o chá e a conversa com a família — uma

família remota, é verdade, mas a única que lhe restara —, mas de

alguma forma a viagem de ônibus naquela manhã mudara e arrefecera

sua disposição. Assim, ao chegar ao apartamento, estava perdida em

seus pensamentos, melancólica.

Na sala de estar do apartamento havia um clima inexplicável de

alegria. Franz estava fora àquela hora, dando suas aulas, mas a atraente Klara, abraçando Tia Evelyn, e Liesl na cadeira de rodas

estavam radiantes, com alguma notícia secreta maravilhosa.

— Conte a ela — disse Liesl, a voz rouca, da cadeira de rodas. —

Conte à sua Tia Evelyn.

Klara virou-se para Tia Evelyn, o rosto exibindo o sorriso mais

largo.

— Tia, estou grávida.

Sentindo-se tonta, Evelyn apoiou-se na sobrinha e cobriu-a de

beijos.

— Grávida, grávida — murmurou ela. — Graças a Deus,

finalmente.

Evelyn já começara a perder a esperança. Klara casara tarde,

aos trinta anos, e depois de cinco anos ainda não havia qualquer sinal

de um filho. Mais uns poucos anos e poderia ser difícil conceber, talvez

mesmo impossível. Mas agora, aos 35 anos, Klara estava grávida, já na

sexta semana, e tudo corria bem.

Enquanto Klara preparava o chá, transbordando de otimismo,

Evelyn deu o seu simbólico presente semanal, a caixa de bolinhos,

desejando ter sabido antes, a fim de poder trazer alguma coisa mais

permanente e memorável. Lembrou-se então por que não mais levava

presentes dispendiosos para Klara e Franz: por causa da maneira como

fora recebido seu último presente importante, no seu primeiro

aniversário de casamento. Dera-lhes um dos seus bens mais prezados,

uma valiosa herança de família, o quadro a óleo magnífico e realista de

um imponente prédio do governo. Klara o apreciara, mas o marido

Franz não escondera a sua aversão.

— Muito bonito, é claro — dissera ele polidamente —, mas um

pouco sombrio. Lembra-me todos aqueles quadros sinistros do Terceiro

Reich. De qualquer forma, obrigado, Tia Evelyn. É muita gentileza sua.

Evelyn notara depois que o óleo nunca estava pendurado na sala

de estar ou na sala de jantar, tendo sido relegado ao quarto dos fundos,

ocupado pela prima Liesl.

Fora por isso que Evelyn deixara de trazer presentes valiosos.

Depois disso e desde então limitava-se a bombons, pasteizinhos ou

águas-de-colônia.

Naquela manhã eram bolinhos, e Klara, cantarolando

alegremente, estendia a travessa para a mãe e para a Tia Evelyn. Klara

sentou e Evelyn regalou-se com a mulher mais jovem, extraindo sua

própria satisfação da satisfação da sobrinha. Klara desatou a falar

sobre a vida nova dentro de seu corpo, como deixara Franz feliz,

discutiu os nomes que estavam sendo considerados, caso o bebê fosse

menino ou menina.

Evelyn, sempre atenta ao relógio no consolo da lareira (não

gostava de deixar Wolfgang Schmidt esperando para seu almoço

semanal, sabendo como ele era ocupado), ficou escutando e decidiu que

na semana seguinte compraria sapatinhos de bebê brancos, convencida

de que tal presente seria aceito favoravelmente, tanto pelo pai quanto

pela mãe.

Saindo quando faltavam exatamente quinze minutos para o

meio-dia, Evelyn voltou à Ku'damm e desceu para o restaurante

Mampes Gute Stube, onde ela e Schmidt se encontravam para aqueles

almoços semanais há muitos anos.

Aproximando-se do restaurante, Evelyn constatou que Wolfgang

Schmidt já estava lá. O Mercedes preto usado pelo chefe de polícia de

Berlim, com o motorista cochilando por trás do volante, estava

estacionado numa vaga reservada. A visão do carro levou Evelyn a

compreender mais uma vez como era afortunada por ter como amigo

querido e de confiança um homem tão poderoso, no que se tornara uma

metrópole nova e atordoante.

Evelyn recordou que Schmidt começara de baixo e subira até o

topo por seu próprio esforço e competência. Dando baixa do derrotado

Schutzstafeel, procurando um emprego que lhe fosse apropriado,

Schmidt voltara à Berlim natal e se candidatara ao cargo na polícia. Os

candidatos eram meticulosamente investigados pelo novo governo

democrático, mas as credenciais de Schmidt, tanto como um Camisa-

Preta da SS quanto como um antigo antinazista secreto, eram de fato extraordinárias. Entre os muitos oficiais que trabalharam com o Conde

von Stauffenberg — que tentara matar Hitler em Rastenburg, em julho

de 1944 —, Schmidt fora o único grande conspirador a escapar à

punição. Livrara-se de todas as armadilhas que os nazistas armaram

para os conspiradores, sobrevivendo para se tornar um herói

antinazista. A prova disso era tudo o que a cidade de Berlim precisava

para lhe dar um posto na polícia municipal. Dez anos antes ele se

tornara chefe de polícia e ainda ocupava o cargo. Além da prima Liesl e

de Klara, ele era a pessoa em que Evelyn Hoffmann mais confiava no

mundo exterior.

Entrando no Mampes Gute Stube, através da área de café

envidraçada na calçada, Evelyn encaminhou-se para a fresca semi-

obscuridade do restaurante. Passou pelas cadeiras estofadas em

marrom e pelas mesas com tampos de azulejos, em direção à mesa

solitária ao lado da estufa de porcelana decorativa no canto do salão,

isolada pela gerência da casa em respeito ao freguês assíduo que era o

chefe de polícia.

Avistando Evelyn, o Chefe Wolfgang Schmidt levantou-se

abruptamente, com a graça de um elefante. Seu semblante tinha a

aparência prussiana de Erich von Stroheim, pensou Evelyn, só que

Schmidt era maior, muito maior, a cabeça calva reluzente, os músculos

salientes, a barriga estufada. Como de hábito, não estava de uniforme,

usando um terno azul simples.

Evelyn sentou-se em frente a ele.

— Já pediu? — perguntou ela, como sempre.

— Já cuidei disso — respondeu ele.

O que significava que ela teria sua Gemischter Salat, Rühreier mit

Speck, Wecke e o segundo chá do dia, enquanto ele teria seu prato de

Rinderroulade ou Leberwurst, Bratkartoffeen e uma caneca da cerveja

Weihenstephan.

— Como tem passado, Wolfgang?

— Nunca me senti tão bem. E você, Effie, como está?

Ele era a única pessoa viva que se atrevia a chamá-la pelo antigo apelido íntimo, o que sempre a deixava feliz.

— Tive uma manhã animada. E tenho uma boa notícia para lhe

dar. Klara está grávida.

Schmidt reagiu com um largo sorriso e pegou a mão de Evelyn.

— Parabéns, Effie. Sei o quanto isso significa para você.

— Significa tudo. E obrigada, Wolfgang. Schmidt sacudiu a

cabeça enorme.

— Eu já começava a duvidar que isso pudesse acontecer algum

dia. Então finalmente você vai ser avó.

Evelyn olhou ao redor furtivamente.

— Vou ser tia-avó.

— Se insiste...

— Sabe que é melhor assim, Wolfgang. Ele balançou a cabeça.

— Acho que tem razão.

Os dois ficaram em silêncio, enquanto um garçom de avental

servia a Schmidt o bife rulê e as batatas fritas, a salada mista de

Evelyn, ovos mexidos com bacon e uma cesta com pãezinhos. Metendo

um pedaço de carne na boca, Schmidt indagou:

— Já leu o jornal de hoje?

— Quer saber se li a notícia da biografia de Hitler que está

sendo escrita em Londres? Li, sim. E também li que a filha do Dr.

Ashcroft vai concluir o livro por ele. O que não é de surpreender. Era de

se esperar que ela ou outra pessoa cuidasse disso.

Schmidt observou Evelyn atentamente por baixo de suas

sobrancelhas espessas.

— Essa não é a última notícia, Effie.

— Não?

— A última notícia é que Emily Ashcroft chegará a Berlim em

breve. Ficará no Kempinski. — Fez uma pausa. — E você sabe que não

se trata de uma visita social.

Evelyn esperou.

— Claro que ela vem para descobrir se Der Führer sobreviveu à

guerra e, se isso aconteceu, onde terminou sua vida.

Evelyn acenou com a cabeça bruscamente, murmurando:

— Uma tolice da parte dela.

Os dois terminaram de almoçar em silêncio, sem aludirem outra

vez ao assunto, até que estavam prestes a se despedirem. Levantando-

se, Evelyn falou, quase como se fosse uma lembrança súbita:

— Emily Ashcroft... Creio que seria interessante saber o que ela

vai descobrir.

Schmidt também estava de pé, sorrindo.

— Não se preocupe, Effie. Saberemos exatamente com quem ela

vai falar e sobre o quê. Deixe tudo comigo. Sempre pôde confiar em

mim. Pois continue a confiar agora.

Ela apertou os dedos do chefe de polícia e murmurou, antes de

se afastar:

— Meu amigo.

Meia hora depois, descendo do ônibus na Askanisher Platz, ela

esperou que o sinal de trânsito abrisse, atravessou a rua, passou pela

livraria na esquina e entrou no Café Wolf. As poucas mesas espalhadas

estavam vazias, mas no balcão à esquerda uma secretária de um

escritório do quarteirão pagava um sanduíche de presunto para levar ao

patrão.

Evelyn seguiu devagar para o outro lado do café e entrou na

cozinha por uma porta de vaivém. Como sempre, dois guardas discretos

mas fortes estavam postados ali, vestidos como cozinheiros. Ela

conhecia o mais velho, mas não o mais jovem. Presenteou-os com um

sorriso ao passar.

O mais jovem estendeu a mão, como se quisesse interceptá-la,

mas o mais velho segurou-lhe o braço, enquanto acenava

respeitosamente com a cabeça para Evelyn. Ela abriu uma porta no

outro lado da cozinha, revelando uma escada, e desapareceu em

seguida. O guarda mais jovem protestou com o colega:

— Mas ela não mostrou o cartão de identidade! O guarda mais

velho sacudiu a cabeça.

— Você é novo aqui, Hans. Veio com a última turma que chegou da América do Sul, não é mesmo?

— É sim. E fui avisado que qualquer pessoa tinha de mostrar o

cartão de identidade para entrar aqui.

— Menos ela. Ela não.

— Por que não? Quem é ela? O guarda mais velho sorriu.

— Bem, sem ela saber, é claro, sempre teve o apelido de A Viuva

Alegre.

— A Viúva Alegre?

— Porque nos velhos tempos seu apaixonado raramente estava

em sua companhia, e ela ficava sozinha a maior parte do tempo.

— Mas qual é o seu nome?

O guarda mais velho inclinou-se para o companheiro e disse em

voz baixa:

— Você acaba de conhecer Eva Braun. Mais precisamente, Frau

Eva Braun Hitler. Isso mesmo, meu amigo, seja bem-vindo ao Terceiro

Reich.