O Sétimo Segredo
Capítulo I
Ao deixar a pequena sala particular e a entrevista coletiva,
atravessando o apinhado restaurante Café Kranzler e saindo para a
ensolarada Kurfürstendamm, ele se sentia exultante.
Parando na calçada larga da movimentada Ku'damm naquele
início de tarde, ao final de julho, o Dr. Harrison Ashcroft — e agora,
desde o ano passado, Sir Harrison Ashcroft — pensou em adiar o
trabalho adicional a fim de desfrutar de um breve descanso. Naquela
sua décima visita a Berlim Ocidental, em cinco anos, ele sabia que
alcançara o momento culminante de sua obra monumental. Estava
prestes a solucionar o grande mistério e levar o seu projeto a uma
conclusão bem-sucedida — e que provavelmente abalaria o mundo.
Obtivera uma licença de seu posto de professor de história
moderna no Christ Church College, na Universidade de Oxford, a fim de
se dedicar à impressionante biografia. Nos quarenta anos desde o fim de
Adolf Hitler, a história extraordinária de Der Führer suplicara para ser
escrita por ele. Finalmente, como seu 14º. livro, talvez o mais
memorável, o Dr. Ashcroft resolvera escrever a biografia definitiva, Herr
Hitler. Mas compreendera logo no início que na sua idade — então 67
anos — não poderia assumir sozinho toda pesquisa e redação. Por isso
convidara a sua dinâmica filha de 34 anos, Emily, brilhante professora
de história em Oxford, a colaborar na obra. E desde o princípio ficara
convencido de que não poderia ter feito uma escolha melhor.
Emily Ashcroft estava incomparavelmente qualificada para
ajudar o pai no gigantesco esforço. Depois da morte da esposa, num
acidente quando escalavam uma montanha, há mais de vinte anos, o
Dr. Ashcroft criara sozinho a filha. Parecia agora inevitável que a
menina, vivendo num clima de curiosidade acadêmica, com milhares de
livros e viagens constantes, se tornasse historiadora como o pai. Ela se
especializara também na história moderna da França e Alemanha,
falava fluentemente as línguas desses dois países. Também era fascinada pela agora distante e romântica Segunda Guerra Mundial e o
papel dominante desempenhado pelo estranho e enigmático Adolf Hitler.
Por duas vezes, durante os estágios iniciais da pesquisa, Emily
acompanhara o pai a Berlim. Desta vez, na que poderia ser a última e
mais crucial visita à principal cidade da Alemanha Ocidental, O Dr.
Ashcroft deixara Emily em Oxford, com a incumbência de organizar as
anotações para o esforço final.
O objetivo era solucionar o último mistério da morte de Adolf
Hitler com Eva Braun, sua esposa de uma dia, nas profundezas do
Führerbunker, ao lado da Chancelaria do Reich, a 30 de abril de 1945.
Dois meses antes, depois de consideráveis pesquisas diretas —
em Berlim Ocidental, conversando com testemunhas sobreviventes, e
em Berlim Oriental, examinando os relatórios médicos e fotografias
postos à sua disposição pela União Soviética, através de seu amigo e
colega Professor Otto Blaubach — o Dr. Ashcroft, assim como Emily,
estava disposto a aceitar a versão comum e autorizada, formulada pelos
biógrafos e historiadores, sobre a morte de Hitler.
Retornando a Oxford de sua visita anterior a Berlim Ocidental,
onde a sua biografia definitiva de Hitler merecera ampla divulgação,
prestes a empreender a parte final de sua longa obra, o Dr. Ashcroft
recebera uma carta surpreendente e desconcertante de Berlim
Ocidental, uma carta inesperada, que o obrigara a suspender o
trabalho.
A carta fora escrita por um certo Dr. Max Thiel, que se
identificara como o último dentista de Hitler. O Dr. Thiel lera as notícias
sobre a importante biografia de Ashcroft. Como um dos poucos
sobreviventes entre as pessoas que conheceram Hitler pessoalmente, o
Dr. Thiel queria que o livro fosse mais acurado do que qualquer outro
que o precedera.
E fora ao final de sua carta que o Dr. Thiel lançara a bomba
atordoante.
Todas as histórias contadas até aquele momento sobre Hitler e
Eva Braun podiam estar erradas. Era possível que Hitler e Eva não houvessem cometido suicídio no Führerbunker, em 1945. Talvez os dois
tivessem enganado o mundo. Talvez tivessem sobrevivido. Na verdade, o
Dr. Thiel tinha provas de que isso acontecera.
Depois do choque inicial, Ashcroft começara a recuperar a
objetividade. Como a filha Emily ressaltara, as teorias de sobrevivência
e as pistas sobre Hitler e Eva haviam sido incontáveis desde suas
mortes. Os lunáticos abundavam e persistiam, o Dr. Max Thiel parecia
apenas mais um deles. Com toda certeza, Emily comentara, o Dr. Thiel
comunicara as suas supostas provas a biógrafos anteriores. E,
obviamente, todos haviam chegado à conclusão de que deveriam ignorá-
las. Emily exortara o pai a assumir a mesma atitude, jogando fora a
absurda carta e retomando o trabalho, a fim de levar a biografia à
conclusão.
Mas a carta continuara a importunar Ashcroft. Ele sempre fora
um perfeccionista. Trabalhara com muito empenho e por tempo demais
para ignorar qualquer desafio à sua competência acadêmica. Relendo
várias vezes a carta simples do Dr. Thiel, Ashcroft acabara se
convencendo de sua sinceridade. O importante agora era confirmar se
aquele Dr. Thiel era de fato a pessoa que se declarava ser.
Fora mesmo o último dentista de Hitler? Uma investigação de
uma semana proporcionou a Ashcroft a resposta desconcertante: o Dr.
Thiel fora realmente o último dentista de Hitler, um especialista de
Berlim, na verdade um cirurgião oral, tratara do Führer várias vezes nos
últimos seis meses da vida do ditador alemão. Além disso, o Dr. Thiel
escrevera pessoalmente a carta espantosa, ainda estava vivo, aos
oitenta anos de idade, em Berlim Ocidental.
Abaixo da assinatura, na carta fatídica, o Dr. Thiel escrevera
ousadamente o número de seu telefone.
O Dr. Harrison Ashcroft não tivera alternativa senão telefonar
para o número indicado.
O Dr. Thiel atendera pessoalmente. Sua voz era profunda, firme,
segura. O que ele tinha a dizer era lúcido e objetivo. Não havia qualquer
indício de senilidade. Era verdade, ele dispunha da prova sobre a qual escrevera. Não, não podia discutir os detalhes pelo telefone. Mas teria a
maior satisfação em receber o Dr. Ashcroft em sua casa, em Berlim,
permitindo-lhe vê-la pessoalmente para tirar as suas conclusões.
O convite era irresistível, a curiosidade do Dr. Ashcroft
aumentara ainda mais.
Ashcroft chegara a Berlim Ocidental três dias antes, sozinho,
hospedara-se no Bristol Hotel Kempinski, perto da Kurfürstendamm, e
fora imediatamente procurar o Dr. Max Thiel. O encontro fora amistoso,
fascinante e persuasivo, seu coração acadêmico disparara pela
oportunidade de chegar ao âmago da verdade.
Para isso, no entanto, teria de escavar no que fora outrora o
jardim ao lado do Führerbunker, o jardim em que os corpos de Hi-tler e
Eva Braun haviam sido enterrados, em 1945, segundo registravam os
livros de história. Havia um problema. A área do Führerbunker ficava no
lado de Berlim Oriental do muro que dividia a cidade, numa faixa de
terra-de-ninguém, cercada por um muro de cimento, uma cerca de
arame e soldados de Berlim Oriental. Para entrar na Zona de Segurança
e escavar, Ashcroft precisaria de uma autorização do governo comunista
de Berlim Oriental e, por extensão, do governo da União Soviética, que
há muito considerava encerrada a questão da morte de Hitler.
Felizmente, Ashcroft tinha um amigo influente em Berlim Oriental.
Anos antes, pouco depois da Segunda Guerra Mundial, numa
conferência internacional de historiadores modernos, realizada no
Savoy, em Londres, Ashcroft participara de um painel junto com o
Professor Otto Blaubach, da Alemanha Oriental. Ashcroft e Blaubach
logo descobriram que tinham muito em comum, inclusive o interesse
partilhado pela ascensão e queda do Terceiro Reich e de Adolf Hitler.
Ashcroft recebera Blaubach em sua casa em Oxford e depois disso
haviam se encontrado várias vezes em Berlim Oriental. A amizade
desabrochara pela correspondência. À medida que o tempo passava, o
Professor Blaubach fora adquirindo influência cada vez maior na
República Democrática Alemã. Era agora um dos onze vice-primeiros-
ministros do Conselho de Ministros da Alemanha Oriental.
Se alguém queria desenterrar alguma coisa numa área proibida
e fortemente vigiada de Berlim Oriental, o Professor Blaubach era
obviamente uma pessoa influente para se procurar. Assim, Ashcroft
entrara em contato com seu velho amigo Blaubach, que o saudara
efusivamente, considerando o pedido excepcional, mas possível de
atender, e prometendo tentar obter a aprovação de seus colegas no
conselho para a realização das escavações.
Duas noites antes, Blaubach comunicara a resposta: permissão
concedida. Ashcroft podia fazer as escavações.
Na maior emoção, Ashcroft telefonara para a filha Emily, em
Oxford, contando tudo. Igualmente excitada pelas notícias do pai, Emily
quisera detalhes da prova apresentada pelo Dr. Thiel de que Hitler não
morrera no Führerbunker. Ashcroft se conteve, preferindo não falar pelo
telefone. Era melhor esperar e explicar tudo quando voltasse de Berlim,
com o que poderia ser um novo e espantoso final para o livro.
— Vou começar a escavar depois de amanhã. Antes, quero ter
uma entrevista coletiva...
— Uma o quê?
— Uma entrevista coletiva. Apenas as principais emissoras de
televisão e rádio, assim como alguns repórteres de jornais e revistas, em
Berlim Ocidental.
— Mas por que, papai? Nunca teve o hábito de anunciar
prematuramente ao público as suas descobertas.
— É fácil explicar — respondera o Dr. Ashcroft pacientemente.
— Agora que a teoria do Dr. Thiel está para ser conferida, depois de
tantos anos, ocorreu-me que pode haver outras pessoas como ele.
Pessoas que conheceram Hitler, acompanharam seus últimos dias, que
podem ser encorajadas a se apresentarem com novas informações.
Quero que o nosso livro seja a última palavra, Emily, a verdade
absoluta. Só por isso.
— Eu gostaria que não fizesse isso, papai.
— Como assim?
— Não divulgue nada. Não sei direito como explicar, mas vou tentar. Tem uma reputação internacional de historiador objetivo. A sua
característica é comedimento no que escreve e acurácia nos fatos que
apresenta. O livro sobre Hitler será o ponto alto de sua carreira. Não o
prejudique com especulações. Sei que esteve com o Dr. Thiel e viu ou
ouviu alguma prova. Mas pode ser falsa, pode estar errada. E faria com
que você... nós... parecêssemos tolos. As conjeturas do Dr. Thiel vão
contra todos os fatos conhecidos. Hitler matou-se com um tiro e deu
cianureto a Eva Braun no Führerbunker, em 1945. E há testemunhas
da cremação dos corpos. Estes são os fatos.
Ashcroft hesitara. Nos cinco anos de colaboração no livro,
raramente discordara da filha. Mas, depois, dissera:
— É possível, Emily, é possível. Mas, para termos certeza,
preciso ir em frente.
E ele fora em frente, rapidamente, com a determinação de
acabar com o último fantasma.
Para as escavações, procurara a Companhia Construtora Obers-
tadt, que lhe fora muito recomendada. E depois providenciara tudo para
a entrevista coletiva — limitada a doze pessoas, quatro de emissoras de
televisão e rádio, o resto dos mais importantes jornais e revistas.
Do seu Guten Tag ao Auf Wiedersehen, a entrevista coletiva
correra muito bem. Falara durante uma hora, sem qualquer interrupção
dos repórteres, e ao final aceitara as perguntas. Todos estavam a par de
seu livro sobre Hitler. Mas ele estava ali, anunciara à imprensa, para
efetuar uma investigação final sobre as mortes de Adolf Hitler e Eva
Braun. Uma "prova nova" exigia uma escavação no local onde os restos
mortais dos dois haviam sido enterrados. Apesar das perguntas
insistentes, ele não revelara qual era a "prova nova" e como a obtivera.
Não mencionara o nome do Dr. Max Thiel.
Agora, a entrevista fora concluída, um sucesso; se houvesse
mais sobreviventes da era nazista, testemunhas dos acontecimentos, a
publicidade poderia persuadi-los a se apresentarem.
Ashcroft ficou parado na frente do restaurante, apreciando a
atividade da movimentada Kurfürstendamm. Era uma de suas ruas prediletas no mundo inteiro. Fazia com que Piccadilly e Piccadilly
Circus parecessem insignificantes. Possuía a grandeza da Champs
Elysées, só que muito mais animada. Contemplou as calçadas largas,
as vitrines numerosas, as árvores verdes e frondosas erguendo-se como
sentinelas nos dois lados da rua.
Pensou por um instante em fazer um passeio até a Breitscheid-
platz, com sua Igreja Memorial do Kaiser Guilherme, uma construção
moderna, baixa, octangular, de vidro e aço, surgindo
incongruentemente ao lado da torre do relógio da igreja original,
avariada pela guerra e não reparada. Talvez fizesse uma visita ao Centro
Europa, com seus três andares de lojas, casas de espetáculos e cafés,
seus dezenove andares de escritórios, encimados pelo imenso logotipo
circular da Mercedes-Benz. Podia parar por um momento no novo Café
Romanisches, que não chegava a ser tão bom quanto o antigo, que
conhecera na juventude, mas mesmo assim oferecia um clima
nostálgico e o Kaffee não era dos piores.
Ou, mais sensatamente, podia se voltar e caminhar a curta
distância até seu quarto no Kempinski. E examinar mais uma vez a
planta arquitetônica do Führerbunker de Hitler, antes de começar a
escavar em busca da verdade, no dia seguinte.
A verdade e Hitler prevaleceram. Não havia tempo para se
distrair agora.
Harrison Ashcroft aspirou fundo o ar quente do verão, começou
a descer a Kurfürstendamm, a caminho do Café Kempinski, um
restaurante com uma varanda na frente, cadeiras e mesas ao ar livre. O
café ficava na esquina da Fasanenstrasse, a rua transversal em que se
encontrava a fachada de mármore do Bristol Hotel Kempinski.
Andando depressa, gozando de excelente saúde aos 72 anos e
com muita determinação, Harrison Ashcroft encaminhou-se para a
esquina. Pensava na prova extraordinária que o Dr. Thiel lhe
apresentara, na escavação do dia seguinte, no último dia de Hitler.
Chegou à esquina, atravessou a rua para o Café Kempinski,
virou à direita, seguindo para o hotel.
E foi nesse momento, quando se virava, que ouviu seu nome ser
chamado em voz alta. Ou pelo menos teve essa impressão. Olhou para
trás, instintivamente, a fim de descobrir quem o chamava.
Mas nada havia além da enorme grade de metal do caminhão
entrando na rua transversal, a bloquear sua visão. Subitamente, o
caminhão derrapou e subiu no meio-fio, derrubando uma jardinei-ra na
esquina, levando os fregueses do restaurante a saírem correndo, com
gritos frenéticos.
Depois, momentaneamente descontrolado, o caminhão afastou-
se do café, avançando ruidosamente pela calçada, na direção de
Ashcroft.
A grade e os pneus gigantescos assomavam à sua frente, e o
pavor inesperado deixou-o paralisado.
A grade do caminhão atingiu-o em cheio, como um golpe do
punho de Sansão, levantando-o pelo ar, arremessando-o para o meio da
rua.
Caiu de cara no chão, meio cego, meio inconsciente, todo
quebrado, sangrando. Tentou levantar a cabeça, a fim de protestar
contra a indignidade, e nesse instante deparou com a grade e os pneus
do caminhão assomando outra vez por cima dele, derrapando de volta à
rua.
Debilmente, tentou erguer a mão para desviar o caminhão, mas
os pneus já estavam em cima dele, a última coisa que veria nesta vida.
Os pneus passaram por cima de seu corpo, esmagando-o,
triturando-o.
A escuridão foi instantânea. A escuridão foi eterna.
Depois do enterro, sentada desolada no banco traseiro do
Daimler preto da agência funerária, o primeiro instinto e desejo de
Emily, ao iniciar a viagem de volta do cemitério para Oxford, foi relatar
ao pai o funeral. Queria descrever-lhe a cerimônia, o comparecimento
maciço de pessoas proeminentes da universidade, amigos incontáveis,
todos os seus parentes, várias autoridades de Londres, até mesmo o seu
vendedor predileto da livraria Blackwell's. Queria partilhar tudo com o pai, falar-lhe a respeito, como sempre fazia com tudo. Mas depois, com
um sobressalto, compreendeu que não poderia, pois ele não mais
existia. Estava debaixo da terra. Morrera. Era inacreditável. Pela
primeira vez na vida de Emily, o pai não se encontrava disponível, não
estava ali.
E ela percebeu então quem estava ali. Ao seu lado, no banco
traseiro do Daimler, sentava Pamela Taylor, a secretária e datilografa
ruiva, comprimindo mais um lenço de papel contra o nariz, os olhos
inchados. No outro lado de Emily, rígido e olhando fixamente para a
frente, para o motorista e a paisagem, estava seu tio Brian Ashcroft, de
69 anos, irmão mais moço do pai, diretor de uma firma de contabilidade
em Birmingham.
Estavam todos sem lágrimas agora, já haviam chorado tudo,
esgotado a emoção, guardando o que restava para a recepção pós-
funeral na casa do pai — a sua casa — a alguns quarteirões da
universidade, onde o pai residira durante a vida inteira.
A terrível notícia fora transmitida ao cair da noite, por um
telefonema da polícia de Berlim Ocidental. Srta. Emily Ashcroft? Houve
um lamentável acidente. Seu pai, Sir Harrison Ashcroft, foi atropelado e
morto por um caminhão. O motorista fugiu. Seu pai teve morte
instantânea. Lamento profundamente.
Houvera mais coisas, mas Emily fora incapaz de compreender.
Em choque total, um tanto incrédula, ela conseguira telefonar para o
velho médico da família, pensando irracionalmente que ele poderia
salvar o pai. Mas o médico compreendera a realidade, fora procurá-la
imediatamente, dera-lhe um sedativo, depois chamara Pa-mela, que por
sua vez chamara alguns dos amigos mais íntimos do Dr. Ashcroft na
universidade.
Fora um momento terrível, o pior em toda a vida de Emily.
E ela não pudera recorrer a Jeremy. Fora outra morte — não
comparada com aquela, a morte do pai —, mas de certa forma um
prelúdio ao sofrimento. Acontecera quase seis meses antes, depois que
Jeremy Robinson fora parte de sua vida por um ano. Começara quando Emily fora chamada a Londres para escrever e apresentar um novo
documentário de televisão da BBC sobre a ascensão e queda do Terceiro
Reich. As filmagens de suas cenas transcorreram sem qualquer
dificuldade, profissionalmente. Ao final, aceitara com a maior satisfação
um convite de Jeremy para um jantar de despedida, a dois.
Jeremy a atraíra desde o início. Era um homem de meia-idade,
muito bonito e charmoso. Um homem casado, é verdade. Com dois
filhos pequenos. Jeremy queria uma ligação extraconjugal, mas Emily
hesitara. Já passara por isso antes e sabia que era um beco sem saída.
Mas quando Jeremy garantira que estava em processo de divórcio da
esposa e casaria com ela assim que fosse possível, Emily abandonara a
resistência e se tornaram amantes, embora preferisse não ir viver com
ele.
O romance, conduzido no pequeno apartamento de Jeremy,
perto do estúdio, fora emocionante e promissor. Desde o início Emily
falara ao pai sobre Jeremy. O Dr. Ashcroft aprovara imediatamente. Seu
único desejo era a felicidade da filha. E de repente, seis meses antes,
Jeremy telefonara para cancelar o fim de semana habitual que
passavam no campo. Fora designado para produzir uma dramatização
de Moll Flanders para a BBC, estrelando uma jovem atriz em ascensão,
Phoebe Ellsmore. Era uma missão extraordinária, mas o trabalho
preparatório iria ocupá-lo durante o fim de semana. Depois disso,
Jeremy cancelara mais três fins de semana e finalmente deixara de
telefonar. E mais tarde o chocante anúncio na imprensa: Jeremy
Robinson, consumado o seu divórcio, estava prestes a casar com
Phoebe Ellsmore.
Fora a mais terrível humilhação pessoal. Por vários dias Emily
não fora capaz de encarar o pai. E quando finalmente o fizera, ele a
consolara, comentando que era melhor assim, pois agora ela sabia em
que teria se metido.
O ressentimento de Emily persistira, embora se desvanecendo
gradativamente. Em termos realistas, sabia que o sofrimento não fora
causado pela perda do amor, mas sim pelo orgulho ferido. E logo, olhando para o passado, pudera compreender que o que realmente
desejara não fora Jeremy em si, mas o conformismo do casamento, um
lar, filhos, principalmente uma mudança de cenário. A perspectiva de se
afastar da vida acadêmica, aulas, pesquisas, muito escrever, atraíra-a
muito mais do que Jeremy. Gostara dele, é claro. E depois que o ar
desanuviara, chegara à conclusão de que uma união com Jeremy seria
um desastre. Depois que a mágoa se transformara em repulsa, a
recordação de Jeremy começara a se dissipar, na euforia mais feliz de
ter se livrado dele.
Graças a Deus, ela tinha uma posição de recuo. Lançara-se com
renovada energia à conclusão da biografia de Hitler. Cada vez mais, o
livro e seu pai tornaram-se as coisas mais importantes em sua vida.
E agora acontecia aquilo, a mais devastadora de todas as
perdas.
Depois do telefonema com a notícia da morte do pai, os vivos
haviam feito o que deviam pelo morto. O primeiro impulso de Emily fora
o de pegar o primeiro avião para Berlim, ficar ao lado do pai,
acompanhá-lo na viagem de volta à Inglaterra. Mas cabeças mais
sensatas prevaleceram. Alguém a ajudara a telefonar para a chefatura
de polícia em Berlim. Depois que se identificara, transferiram a ligação
para o chefe de polícia, Wolfgang Schmidt, que lhe falara em inglês. O
chefe se comportara de maneira afetuosa, sempre cortês. Reiterara os
fatos do acidente, tentara fornecer mais detalhes. O caminhão
descontrolado, subindo no meio-fio, atingindo o Dr. Ashcroft na
calçada, lançando-o para o meio da rua, por acaso o atropelando. O Dr.
Ashcroft tivera morte imediata. O motorista bêbado do caminhão — não
podia deixar de estar bêbado — fugira.
As descrições do veículo eram contraditórias, por causa da
confusão, mas estavam sendo envidados todos os esforços para localizá-
lo. Mas o chefe Schmidt não tinha muita esperança de sucesso. E
lamentava profundamente o acidente.
Depois disso, o tio obrigara Emily a descansar. Pamela pegara o
telefone para cuidar das últimas providências, o corpo finalmente partira de avião de Berlim Ocidental para Oxford.
Agora, estava tudo acabado. O pai dormia, pacificamente,
debaixo da terra. Sua grande obra estava inacabada. E ela, sozinha.
Olhos secos, fraca, desprovida de toda e qualquer energia, Emily
sentava rígida no banco traseiro da limusine silenciosa, tentando olhar
para a frente. Mas não podia ver coisa alguma além da apresentação de
pêsames, que se prolongaria pelas próximas duas horas.
Querendo assoar o nariz, procurou o lenço, dentro da bolsa que
estava a seus pés. Puxou a bolsa para o colo, abriu-a, e ficou surpresa
ao deparar com dois envelopes por cima da carteira e do estojo de
cosméticos. Encontrou o lenço por baixo, usou-o, tornou a guardá-lo.
Experimentou alguma curiosidade pelos dois envelopes. E foi então que
lembrou. Ao sair de casa para o funeral, naquela manhã, notara que a
correspondência do dia fora deixada em sua mesa por Pamela. Sem
qualquer interesse, folheara distraidamente, compreendendo que a
maioria dos envelopes pequenos e quadrados continha mensagens de
condolências. Havia também dois envelopes mais compridos, ambos
com selos alemães, um despachado de Berlim Oriental, outro de Berlim
Ocidental. Muito estranho. Ela se perguntara quem poderia lhe escrever
da Alemanha. Mas não havia tempo para abrir os envelopes e ler as
cartas, pois tio Brian e Pamela já estavam na porta, esperando para
escoltá-la ao funeral. Emily metera os dois envelopes na bolsa e partira
apressadamente.
Agora, os dois envelopes permaneciam em sua bolsa, esperando
o momento de serem abertos. Um pouco hesitante, ela tirou-os, pôs a
bolsa de lado, abriu o primeiro, o que fora despachado de Berlim
Oriental.
A carta, uma única folha, fora escrita à mão no papel timbrado
do Professor Otto Blaubach. Ela se lembrava de Blaubach. O grande
amigo do pai, o historiador, especialista no Terceiro Reich e Hitler,
agora um vice-primeiro-ministro da Alemanha Oriental. O pai falara
com Blaubach um dia antes de morrer, obtendo por seu intermédio a
autorização para escavar a área em torno do velho Führerbunker de Hitler. Ela só se encontrara com Blaubach uma vez, um alemão formal,
ao estilo de Thomas Mann, mas a própria essência da cortesia e
gentileza. Sua carta estava em inglês.
"Minha cara Emily Ashcroft,
"Quando ouvi na televisão e vi confirmada nos jornais a notícia
da morte prematura e acidental de seu pai fiquei cheio de
incredulidade. Conversamos na noite anterior. Ele nunca me pareceu
tão vigoroso e se tornou ainda mais quando o informei de que obtivera
autorização para que efetuasse escavações no Führerbunker.
"Meu coração está confrangido. Por vários dias não fui capaz de
pegar uma caneta para escrever. Mas tenho de fazê-lo agora. Quero lhe
transmitir meu profundo pesar pessoal e oferecer minhas condolências.
Ambos temos pelo menos a memória íntima de um homem grande e
modesto.
"Ainda não posso acreditar e aceitar a maneira pela qual seu pai
encontrou o fim. Foi um acidente inadmissível. Atropelamentos em que
o motorista foge estão sempre acontecendo, mas devo dizer que nesse
caso em particular foi um acidente quase estatisticamente impossível.
Mas sabemos que o impossível acontece na vida.
"O que aumenta ainda mais o meu pesar é que seu pai me
informara que vocês estavam no limiar de concluir o livro que ele
julgava ser a obra que lhe proporcionaria mais orgulho. Não ignoro o
papel importante que você vem desempenhando, como filha de seu pai e
historiadora respeitada por si mesma, na produção da biografia de
Hitler. Recordo afetuosamente a ocasião em que você acompanhou seu
pai a um almoço comigo, no Café Opern, em Berlim Oriental, há três
anos, a conversa estimulante que tivemos sobre a biografia. Sei que só
falta escrever o final para completar o projeto de Herr Hitler. Tenho
muita esperança de que, no momento oportuno, você conclua a obra
sobre Hitler. O mundo merece conhecê-la. Seu pai merece tê-la
impressa, como um monumento a seu gênio e erudição.
"Caso precise de minha ajuda em qualquer coisa, não hesite em
me procurar.
Atenciosamente,
Otto Blaubach."
Emily piscou os olhos, contemplando a carta, comovida,
sentindo que de alguma forma a trazia de volta ao mundo dos vivos.
Blaubach queria que ela terminasse o livro, achava que isso
deveria ser feito e que ela tinha competência para tanto. O pedido e a
esperança deixaram-na um pouco abalada. Desde a morte do pai não
pensara na biografia, pelo menos não conscientemente. Sem o pai, não
podia conceber a existência da obra.
Mas Blaubach tinha razão. A obra não estava morta. Ela fora
uma das artérias que lhe incutira vida. E ainda estava aqui, viva,
vigorosa.
Lentamente, Emily tornou a dobrar a carta de Blaubach. Não
podia mais pensar a respeito, não podia lhe conferir uma consideração
séria, pelo menos agora, em seu desconsolo. Haveria de relê-la em outra
ocasião.
Guardou a carta na bolsa e pegou o outro envelope.
Abriu-o e tirou uma carta datilografada no papel timbrado do
Berliner Morgenpost, o respeitado jornal de Berlim Ocidental. Os olhos
de Emily procuraram a assinatura. Era de um certo Peter Nitz, que ela
não conhecia.
"Prezada Srta. Ashcroft,
"Embora não me conheça, tomo a liberdade de transmitir meu
pesar pela morte do Dr. Ashcroft.
"Nunca tive a sorte de conhecer pessoalmente o Dr. Ashcroft,
mas o vi e pude ouvir o seu último pronunciamento em público, poucos
minutos antes de sua morte. Como repórter especial de um importante
jornal de Berlim Ocidental, fui destacado para cobrir a última entrevista
coletiva do Dr. Ashcroft.
"Depois de falar rapidamente sobre Herr Hitler, a importante
biografia que vocês vinham escrevendo, o Dr. Ashcroft anunciou que
suspendera a redação do capítulo final do livro, na dependência de novas investigações sobre as últimas horas de Adolf Hitler em seu
bunker. O Dr. Ashcroft declarou que todas a biografias e histórias de
Adolf Hitler declaravam taxativamente que o Führer cometera suicídio,
juntamente com sua esposa Eva Braun, no Führerbunker, em 1945,
mas ele se deparara com um fato novo que indicava alguma
possibilidade de Hitler não ter morrido nessa ocasião, tendo conseguido
escapar. O Dr. Ashcroft acrescentou que, para confirmar essa
possibilidade, obtivera autorização para efetuar escavações na área do
bunker, na Alemanha Oriental, à procura de uma prova específica.
Tinha a esperança de que alguém em Berlim que ouvisse falar ou lesse
sobre o seu empreendimento e conhecesse mais fatos sobre as últimas
horas de Hitler poderia procurá-lo no hotel Bristol Kempinski, durante a
semana subseqüente.
"Logo depois de concluir o seu comunicado, o Dr. Ashcroft disse
que estava pronto a responder às perguntas dos repórteres. Claro que
tínhamos muitas perguntas a fazer. Envolviam principalmente a
identidade da pessoa que lhe fornecera o fato novo e qual era esse fato.
O Dr. Ashcroft, compreensivelmente, não nos respondeu com
objetividade, assim como também se recusou a fornecer os nomes das
autoridades de Berlim Oriental que lhe concederam autorização para
escavar na área do antigo Führerbunker.
"Concluída a entrevista coletiva, o Dr. Ashcroft deixou o
restaurante, alegando que precisava voltar ao Kempinski para retomar
seus preparativos. Enquanto os outros repórteres se preparavam para ir
embora, ocorreu-me que esquecera de fazer uma pergunta importante
ao Dr. Ashcroft. Saí à rua para alcançá-lo. Não me recordo agora qual
era a pergunta — certamente não era tão importante — e não é por esse
motivo que lhe escrevo, mas sim para informar o que testemunhei
depois que saí correndo do restaurante à procura do Dr. Ashcroft.
"Desci apressadamente a Kurfürstendamm, naquele momento
apinhada de pessoas fazendo compras. Tive a impressão de vislumbrar
o Dr. Ashcroft atravessando a rua transversal seguinte. Quando cheguei
lá, avistei-o claramente na esquina oposta, prestes a entrar na Fasanenstrasse, a caminho da entrada do Kempinski. Chamei-o, gritei
para atrair sua atenção, talvez ele tenha me ouvido. Não tenho certeza.
Os acontecimentos que se sucederam foram muito rápidos.
"No instante em que eu acabava de tentar atrair a atenção do Dr.
Ashcroft, divisei um caminhão relativamente grande, com grade e pára-
choques enormes — creio que estava pintado de azul e tinha pneus
radiais —, que entrou na rua transversal, derrapou subitamente para a
esquerda e subiu no meio-fio, como se fosse entrar pelo café da esquina.
A grade da frente atingiu seu pai no lado e projetou-o pelo ar, jogando-o
no meio da rua. O Dr. Ashcroft ficou obviamente bastante ferido, mas
fazia um esforço para levantar quando o caminhão tornou a derrapar e
avançou diretamente para cima dele. O caminhão passou por cima do
seu corpo, depois acelerou e se afastou velozmente pela rua transversal.
Quando qualquer das pessoas ali presentes compreendeu o que acabara
de acontecer, o caminhão já desaparecera.
"Fui um dos primeiros, entre várias testemunhas, a correr para o
corpo de seu pai. Era evidente para todos que ele morrera ao ser
atingido pela segunda vez. Estava morto antes da chegada da polícia e
da ambulância.
"Sei que se trata de uma história dolorosa para relatar-lhe, mas
acho que devo fazê-lo por um motivo especial.
"A morte do Dr. Ashcroft foi considerada um acidente e até
noticiada assim por meu jornal. Mas, pelo que observei pessoalmente,
pareceu algo mais que um mero acidente. Minha impressão é de que o
Dr. Ashcroft foi atropelado e morto com uma deliberação implacável.
"Ao subir no meio-fio, o caminhão avançava muito devagar para
estar descontrolado. Quando atingiu seu pai na primeira vez, dava a
impressão de avançar propositalmente para cima dele, acelerando.
Quando desceu da calçada e foi para o meio da rua, o motorista deve ter
visto que seu pai se encontrava caído ali e poderia evitar atropelá-lo de
novo. Em vez disso, ele seguiu direto para o Dr. Ashcroft, esmagando-o,
e depois se afastou velozmente, com controle absoluto do veículo.
"Claro que não posso jurar que foi um ato deliberado de um motorista assassino. Nada posso provar. E talvez, no final das contas,
tenha sido apenas um desses acidentes incríveis, que só acontecem
raramente. Mas me sinto na obrigação de lhe relatar o que testemunhei
e o que penso neste momento.
"Não apresentei minhas suspeitas à polícia. Não havia sentido.
Não tenho qualquer indício de que possa ter ocorrido um assassinato.
Como sou jornalista, a polícia ficaria convencida de que eu estava
inventando alguma história sensacionalista para meu jornal. Foi por
isso que me mantive em silêncio.
"Mas achei necessário lhe contar tudo isso, na possibilidade de
que minhas suspeitas possam ter algum sentido para você. Não posso
deixar de especular. O Dr. Ashcroft tinha inimigos?
"Lamento profundamente estar, com esta carta, contribuindo
para agravar seu sofrimento. Se algum dia vier a Berlim, procure-me no
jornal. Eu ficaria agradecido pela oportunidade de conversarmos.
Atenciosamente,
Peter Nitz."
"P.S. Escrevi o obituário de seu pai no Morgenpost. Mando um
recorte em anexo."
Abalada, Emily tateou automaticamente o envelope, encontrou o
recorte sobre a morte do pai, correu os olhos pelo texto em alemão.
Depois, baixou-os para a carta em seu colo, olhou pela janela do carro
para a primeira visão dos prédios de Oxford.
As suspeitas do homem haviam-na deixado completamente
abatida.
Assassinato.
Era inconcebível. O pai era o mais manso e delicado dos
homens. Um estudioso introvertido. Não tinha um único inimigo no
mundo, ao que ela soubesse.
Mas um jornalista profissional testemunhara sua morte acidental e achava que podia ter sido deliberada.
Seria possível? Ou fora algum louco que lhe escrevera? Mas a
carta era objetiva e sincera, parecia de um homem decente.
Que motivo alguém poderia ter para matar seu pai? Ele não
tinha bens. Não tinha inimigos... Uma lembrança súbita ocorreu a
Emily nesse instante. O pai possuía algo precioso e que poderia levar
outras pessoas a querer tirar-lhe. Harrison Ashcroft tinha um indício e
a fervorosa convicção de que Adolf Hitler não morrera a 30 de abril de
1945.
Talvez alguém não quisesse que isso fosse comprovado.
O Daimler se aproximava de sua casa em Oxford quando Emily
tomou a decisão. Até aquele momento, fora apenas a colaboradora
subalterna do pai, dependendo dele, encaminhando-lhe tudo,
baseando-se em suas decisões. Agora estava sozinha, todas as decisões
presentes ou futuras lhe caberiam. Substituiria o pai. Continuaria a
sua obra. E haveria de levá-la a uma conclusão bem-sucedida.
Iria a Berlim Ocidental. Conversaria com o Dr. Max Thiel, o
Professor Otto Blaubach e o repórter Peter Nitz.
Descobriria a verdade. Se Nitz estivesse certo, ela poderia se
tornar um alvo dos assassinos. Talvez alguém tentasse detê-la, como
haviam feito com seu pai.
Era possível que tentassem assassiná-la também. Ao se expor,
no entanto, poderia impedi-lo e resolver dois mistérios.
A morte de Harrison Ashcroft.
A sobrevivência de Adolf Hitler.