Orpheu Nº 1: Revista Trimestral de Literatura
Mãos de Cega
I
Sinto que as tuas mãos são teus olhos vencidos, Teus olhos que esquecendo as orações da luz São claustros apagando os passos esquecidos De Deus ao regressar de amortalhar Jesus.
Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde, Te cegaram de som. E em candelabros arde O teu antigo olhar emoldurando espelhos.
Teus dedos ao bater nas tuas mãos são remos. Inda vejo nas salas do palácio, arfando,
As tuas mãos de Dôr entreabrindo as portas.
Buscamo-nos em Côr e quando nos perdemos Passam as tuas mãos em meus dedos, scismando Estátuas de marfim sôbre as arcadas, mortas…
II
Morreram os leões que guardavam perdidos A branca escadaria. Velhos leões sombrios… Dêles apenas resta o eco dos rugidos
Que os arcos dos salões tornaram mais esguios.
As rendas que fiaste adormeciam bocas
E as rugas no teu rosto iam caindo, fundas… No fim do parque, à noite, as águias moribundas Guardavam em silêncio as destroçadas rocas.
Fiavas noutro tempo os teus olhos dormentes. Deixaste de os fiar e os teus olhos arderam Na côr das tuas mãos, na cruz de outros poentes…
Cega de mim, partiste. E quando regressaste Manchada de Distância, os meus sentidos eram Palmeiras ladeando a estrada onde passaste!