Orpheu Nº 1: Revista Trimestral de Literatura

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Orpheu Nº 1: Revista Trimestral de Literatura

Só

 

 

O mar da minha vida não tem longes.

É tudo água só! E o horisonte

Funde-se no céu. Por sobre a ponte

Marcha sinistra a procissão dos monges.

Velas accêsas, opas, ladainha,

E o rio deslisando para o mar,

E e as raparigas veem á tardinha

Buscar á fonte a água sem cantar.

Ermida branca sobre o monte.

Nossa Senhora da Paz…

Peregrino voltei sem ser ouvido.

Rasguei os meus pés pelo caminho ido.

Ai, a calma de tudo quanto jaz

No frio esquecimento! Sobre a ponte

A procissão caminha. Sob o arco

Singrou sereno um barco

A caminho do mar.

Ó perdida visão da minha Ansia!

Vejo-me só na lugubre distancia,

Cadaver dos meus sonhos a boiar.

 

Lisboa—1914.