Orpheu Nº 1: Revista Trimestral de Literatura
Salomé
I
Dançava Salomé sôbre mistérios idos.
—Tarde bronze a morrer. Poente em véus vermelhos— Os seus sentidos, longe, eram bailados velhos, E o seu Corpo, a bailar, é que era os seus sentidos.
Dançava Salomé nas suas mãos morenas Que eram salões de seda, a descerrar o hábito. E Ela quando se via era o seu próprio hálito, E o Corpo no bailado era uma curva apenas.
Dançava Salomé.—E os seus olhos ao vê-la, Cerravam-se leões com mêdo de perdê-la, Leões bebendo luz na luz dos olhos seus…
Não vejo Salomé.—Talvez adormecida… Talvez no meu olhar Ausência dolorida… Talvez boca pagã beijando as mãos de Deus…
II
Deus, longo cais em mim, donde outras naus singrando Conduzem para o Longe o meu não existir. Morena, Salomé, entre vitrais bailando.
Arcadas-sensações transpondo o seu Sentir.
Fita paisagens-Ansia em suas mãos cansadas, Paisagens a sonhar castelos nunca erguidos. E os lábios percorrendo em lume os seus sentidos, Scismam príncipes-Côr descendo das arcadas.
Há entre Ela e Deus o corpo de João.
E em seu olhar, dormindo um bronze de oração, É sombra do bailado um inclinar de palma.
Baila seu Corpo ainda. E Deus nos seus bailados. Bailados-asas, longe, em capiteis bordados, Gestos de Deus caindo entre molduras-Alma!